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sexta-feira, 18 de outubro de 2013

Mistério e sordidez espalhados em Os suspeitos

Para quem assistiu a Incêndios (Incendies, 2010), um dos cinco indicados ao Oscar de melhor filme estrangeiros de 2011, a expectativa em torno de Os suspeitos (Prisoners, 2013) pode ser um pouco maior. Afinal, o diretor de ambas as produções é o mesmo: Denis Villeneuve. O canadense é um dos exemplos mais recentes de cineasta que atraiu a atenção de Hollywood e foi convidado a trabalhar nessa grande indústria, dando continuidade ao que já se tornou uma tradição. Com a expectativa, vinha o temor: conseguiria ele se manter fiel à assinatura de seus longas até aqui? Felizmente, a resposta à essa dúvida é positiva. 

O suspense gira em torno do sequestro de duas meninas, cada uma delas filha de um casal amigo do outro. Keller Dover (Hugh Jackman, de Os miseráveis [Les misérables, 2012]) e Franklin Birch (Terrence Howard) estão reunidos mais uma vez, acompanhados de suas respectivas esposas, na casa do segundo e, com eles, as duas garotas. Quando elas se afastam por um breve período de tempo para brincar juntas, acabam desaparecendo, e não há o mínimo vestígio que sirva de pista para descobrir seu paradeiro, a não ser um trailer perto do qual as duas estavam, um detalhe importante de que o irmão mais velho de uma delas se recorda lá pelas tantas. Com isso, entra em cena o detetive Loki (Jake Gylenhaal, de Marcados para Morrer), encarregado de elucidar o caso, que não tem sequer um motivo aparente.

As investigações de Loki conduzem ao problemático jovem Alex Jones (Paul Dano), que demonstra incapacidade de responder por si mesmo e está sempre acompanhado da tia Holly (Melissa Leo, de O vencedor [The fighter, 2010]) para auxiliá-lo. Desde o início, Keller tem certeza plena de que o rapaz é o responsável pelo sumiço das meninas e insiste para que o detetive o mantenha preso, mas não evidências que possam justificar o ato, e Alex é solto no dia seguinte à sua detenção. O fato revolta Keller, que passa a agir em paralelo a Loki e coloca em prática o seu próprio conceito de justiça, deixando o jovem sob seu domínio. A partir daí, o filme levanta uma questão que soa como a sua principal: qual o limite aceitável ao qual um indivíduo pode ir para recuperar algo que perdeu?


Nesse sentido, o personagem de Jackman ganha riqueza de composição por escapar ao maniqueísmo que tipifica Hollywood, sendo capaz de atos e palavras dignas de um “vilão”, sempre em nome do desejo de reencontrar a sua filha e a de Franklin. Trata-se de um homem de moral ambivalente mas, antes de tudo, de um pai desesperado, que vai perdendo a capacidade de enxergar as consequências do que faz. Não faltam momentos tensos nas cenas em que ele está a sós com Alex, impingindo-lhe uma série de castigos físicos, e tem a conivência de Franklin. Este, por sua vez, também adota uma postura ambígua: depois de se impressionar com a fúria do amigo, deixa de ajudá-lo, mas também não o impede de seguir adiante com a tortura.

Suas respectivas esposas, coadjuvantes defendidas por Maria Bello e Viola Davis, seguem rumos distintos: enquanto a primeira se mantém passiva e desconhece todos os passos do marido, a segunda pondera sobre a atitude de Keller e pede que Franklin deixe Keller fazer o que bem entende. No fundo, ele está fazendo o que ela tem vontade de fazer, mas a coragem lhe falta. E, enquanto ele vai buscando fazer justiça com suas próprias mãos, Loki procura seguir o caminho da lei e checar as pistas que o sequestro vai mostrando. A certa altura, Holly se mostra como peça importante nessa busca. Interpretada por uma sempre irreconhecível Melissa Leo, a tia de Alex revela a Keller segredos de seu passado e explica o motivo pelo qual acolheu o jovem. E uma possível primeira impressão positiva sobre ela não se sustenta com a virada do roteiro escrito pelo estreante Aaron Guzikowski, que estava na Black List 2009, a relação de melhores textos ainda não filmados.

Os suspeitos é daqueles filmes aos quais é melhor assistir sabendo o mínimo possível sobre sua trama, pois há uma série de surpresas – ou não, a depender da sagacidade do espectador – para serem descobertas. Em uma breve comparação com Incêndios, a obra perde em impacto e tem a longa duração um pouco menos justificada. Ainda assim, não faltam méritos ao elenco e ao diretor. Jackman e Gylenhaal monopolizam as atenções a maior parte do tempo com seu duelo de ideologias e atitudes, e demonstram outra vez que, para além da estampa de galãs, atuam com garra e talento. O australiano, aliás, tem a chance de um raro papel dramático fora da série de filmes de Wolverine, e faz jus à sua escalação. Há que se destacar também o ótimo trabalho de Roger Deakins na fotografia. Habitual colaborador dos irmãos Coen, ele tinge de cinza cada sequência e contribui para mergulhar o público em uma narrativa nebulosa em que a sordidez tem espaço garantido.

8/10

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