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sábado, 20 de fevereiro de 2016

QUINTETO DE OURO: Brian De Palma

A partir de hoje, inauguro uma seção aqui no blog. Como as letras em caixa alta evidenciam no título da postagem, ela se chama Quinteto de Ouro e vai reunir os cinco melhores filmes de um diretor, um ator, uma atriz, um tema ou uma década. É um projeto não muito original, que não foge do esquema de listas no fim das contas, mas isso é mero detalhe. E, obviamente, os melhores citados serão sempre de acordo com minha preferência pessoal, já que melhores é sempre igual a meus preferidos.

A ideia é publicar um Quinteto de Ouro por mês, se assim minha rotina permitir - o que eu acredito que sim, porque tento estabelecer metas plausíveis em se tratando de quantidade e periodicidade. Outro adendo importante: na maioria das vezes, vão aparecer filmes pelos quais meu nível de amor é muito próximo, então nada de enlouquecer tentando dispô-los em ordem de favoritismo; o critério é a ordem cronológica mesmo.

Para começar, o escolhido foi Brian De Palma, e tem um significado muito forte para mim ele ser o primeiro. Trata-se de um diretor com cuja obra meu primeiro contato não foi muito positivo, através de Femme fatale. Mas olha como a gente muda: o filme que abriu as portas de seu universo na minha vida cinéfila, revisto anos depois, virou outro, e agora está aqui, ocupando um lugar merecido. 

E, antes dessa revisita ao filme, vários outros passaram diante dos meus olhos. O segundo foi Dália negra, que também não chegou a me pegar, mas o realizador ainda pedia por uma chance. Foi então que, anos depois, ele acertou pela primeira vez comigo, e o filme era Um tiro na noite, selecionado para esse quinteto. Daí para frente, DePalma nunca mais decepcionou e mostrou que um primeiro encontro desastrado não anula as chances de o segundo funcionar muito bem. E o terceiro, o quarto, o quinto... Falando em cinco, vamos aos meus cinco mais assinados por DePalma!

1. Vestida para matar (1980)


O fascínio que De Palma nutre pela imagem está escancarado nesta obra, bem como as consequências que esse encanto origina. Apostando numa estética de falseamento do visual, ele acompanha um psiquiatra encalacrado depois que uma de suas pacientes é encontrada morta. Alguém está rondando sua vida, e a identidade desse algoz é uma verdade difícil de aceitar. O recado deixado pelo cineasta para o espectador a cada fotograma, incluindo o primeiro - um banho de chuveiro carregado de sensualidade - é simples: se outros diretores estão ocupados com a trama e os diálogos, eu estou atento ao olhar, como quem vislumbra acontecimentos pelo buraco da fechadura. 

2. Um tiro na noite (1981)


Apenas um ano depois de brincar com imagens e signos à moda hitchcockiana (o cineasta inglês, afinal, é sua maior fonte de inspiração e alvo de homenagem), DePalma resolveu trazer um engenheiro de som cujos ouvidos apurados testemunham o que parece ter sido um crime. A referência maior, dessa vez, está em Michelangelo Antonioni e seu Blow up - Depois daquele beijo (Blow up, 1966), e o tal engenheiro é vivido por um John Travolta no apogeu dos seus 27 anos. Jack Terry precisa reconstruir os ecos do que seus ouvidos testemunharam e a fronteira entre paranoia e realidade parece bastante tênue. Na década anterior, Francis Ford Coppola tentou seguir um caminho parecido em A conversação (The conversation, 1974), mas só De Palma acertou em cheio.

3. Dublê de corpo (1984)


A década de 8o foi, sem sombra de dúvida, o período de demonstração mais explícita do grande talento de De Palma como ilusionista. Mais um filme dessa época aparece na lista e endossa a conclusão: aqui, o ator de filmes B Jake Skully (Craig Wasson), claustrofóbico assumido, vê demais e se torna o típico homem errado na hora errada. Em seu caminho, surge Holy (Melanie Griffith), a libido em forma de mulher que parece ter muito mais a revelar do que as curvas de seu corpo. O plano de abertura, com Jake tentando encenar um de seus personagens, é uma bela fusão entre um plano bem feito e a apropriação do discurso metalinguístico.

4. O pagamento final (1993)


A quase totalidade dos cinéfilos elege Scarface (idem, 1983) como o preferido ou dos preferidos entre os filmes dirigidos por De Palma. Este que vos escreve é a exceção. Se é para ficar com uma parceria entre o diretor e Al Pacino, respondo sem pestanejar que a jornada de Carlitos para se livrar da lama que o cobriu no passado é muito mais instigante e em forma. Não há exagero na duração e ainda rola (mais) uma alusão à obra de um grande: a cena da descida do carrinho de bebê pela escadaria em paralelo a um tiroteio é um dos momentos mais tensos do cinema, recriação do roteiro de David Koepp (que só acertaria de novo escrevendo sobre um certo super-herói).

5. Femme fatale (2002)


De Palma entrou triunfalmente nos anos 2000 flutuando entre o sonho e a realidade, reafirmando o seu posto de artesão da imagem e do olhar que já vinha sendo assegurado nas décadas anteriores. A loura fatal que enlouquece Nicolas Bardo (Antonio Banderas) é mais um diálogo com a produção de Hitchcock, e um mergulho na banheira pode mudar toda a perspectiva sobre o que tinha se mostrado a história de uma ladra cheia de artimanhas e estratagemas. Tudo que havia soado vagabundo e pretensioso na minha primeira sessão do filme se converteu em um exercício de estilo vigoroso e memorável, ante ao qual a reação mais frequente era estar boquiaberto.

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016

O regresso, uma ode selvagem à sobrevivência

O espetáculo visual é a tônica de O regresso (The revenant, 2015), sétimo exemplar da filmografia de Alejandro González-Iñárritu (que cismou de passar a abreviar o nome do meio, talvez por razões mercadológicas) e o terceiro rodado em língua inglesa. Apenas um ano depois do frenesi gerado por Birdman ou (a inesperada virtude da ignorância) (Birdman or (the unexpected virtue of ignorance, 2014), que "roubou" a estatueta de melhor filme de Boyhood (idem, 2014), ele retorna com mais um projeto ambicioso, porém despojado do cinismo que injetou na saga do anti-herói vivido por Michael Keaton. E, quando se fala que o visual domina a narrativa de seu trabalho em análise, não se quer dizer que a dramaturgia tenha sido negligenciada, mas que ela está envolta em concepções imagéticas extasiantes. 


Numa espécie de filiação ao magnânimo A árvore da vida (The tree of life, 2011) no que tange ao fato de somar cenários que brindam as retinas, o diretor adaptou a história de um comerciante de peles embrenhado com seu exército por florestas gélidas. Após sofrer ataques violentos e repetidos de um urso pardo, ele quase não tem mais forças, nem mesmo para verbalizar algo, e ainda testemunha o assassinato covarde de um ente querido sem poder intervir minimamente. O personagem, já se sabe, é interpretado por Leonardo DiCaprio e se chama Hugh Glass. Sua história de vida impressionante parece mais uma invenção de produtores e roteiristas hollywoodianos, mas a realidade também oferece matérias-primas surpreendentes que o Cinema pode aproveitar muito bem.

Logo nos primeiros minutos, O regresso exibe sua pujança visual e sua técnica apurada com um plano sequência da luta de Glass e seus homens contra a revanche indomável de uma tribo de índios Arikara. Ele, por sua vez, tinha se unido a outra tribo, a dos Pawne, e seu filho é fruto da união com uma das mulheres de lá, mas pouco se sabe a respeito de sua história pregressa além desse detalhe. Aliás, a relação com o filho não é exatamente de muita ternura. Glass se mostra um homem de pulso firme e tenaz, sem muito tempo de manifestar carinho com palavras ou gestos. Escapar com vida daquele ataque é a questão mais importante agora e voltará a ser mais adiante em um filme que versa, antes de mais nada, sobre a urgência da sobrevivência. A cena do confronto exigiu nada menos do que um mês de ensaios para que saísse impecável e pudesse ser filmada em um único take, e o resultado foi dura e cruelmente belo.

Outro fato que já se tornou notório sobre o longa-metragem é a escolha de Iñárritu em filmar tudo com luz natural. Parece um detalhe simples mas, quando se trata de rodar cenas fora de estúdio, uma opção como esse é quase suicida. A equipe ficou totalmente à mercê da natureza, e o trabalho consumiu nove meses da rotina de cada um, inviabilizando alguns planos e convites paralelos feitos a alguns atores. Tom Hardy, por exemplo, teve que recusar um papel importante em Esquadrão suicida (Suicide squad, em pós-produção) porque a agenda de O regresso o impedia de conciliá-lo com qualquer outro projeto. Em compensação, seu desempenho como Fitzgerald, detestável parceiro de Glass, valeu a ele uma indicação ao Oscar de ator coadjuvante, a primeira de sua carreira. Com um sotaque carregadíssimo, de difícil compreensão mesmo para ouvidos habituados ao áudio original em inglês, ele materializa sentimentos detestáveis como mesquinharia e descaso, sendo o maior responsável pela tragédia de Glass.

E quanto a DiCaprio? A discussão que vem se mantendo acesa há alguns anos é a de que a Academia lhe deve um Oscar faz tempo, e ele vem batendo na trave consecutivamente. Palpites e apostas indicam que, dessa vez, vai, e logo esse texto vai se tornar obsoleto nesse trecho, seja por sua premiação ou não. Láureas à parte, sua entrega para viver o explorador nascido na Pensilvânia é digna de aplausos. Exposto a baixas temperaturas, entre outras intempéries, ele deu alma e dignidade a Glass, e sua capacidade de se reinventar como intérprete foi novamente autenticada. Pelo menos desde O aviador (The aviator, 2004), DiCaprio vem trilhando um caminho de amadurecimento profissional, e o auge veio com O lobo de Wall Street (The wolf of Wall Street, 2013). Esse apogeu continua em O regresso, só que agora não mais pelas mãos de Martin Scorsese, realizador dos títulos supracitados. Diretores à parte, ele vem escolhendo a dedo seus trabalhos, e ser um ator criterioso só corrobora sua dignidade. 


Iñárritu também merece elogios pela parte que lhe coube. Os chiliques de sua produção anterior desapareceram, e a maioria de suas escolhas se revelou acertada. Uma das poucas exceções foi a inserção de algumas memórias e delírios de Glass, que nada acrescentam a trama e só lhe conferem um viés espiritualista duvidoso. Mas isso são pequenas gorduras em um oceano, e a força centrípeta é mesmo plenamente exercida pelo protagonista em um filme essencialmente masculino, de desbravadores que não conhecem ou fazem pouco caso de seus limites. Fez muito bem ao realizador mexicano "se curar" da mania de filmar histórias paralelas que se entrecruzam e focalizar homens em circunstâncias que lhes demandam alta resistência. Tem sido assim desde Biutiful (idem, 2010), passando pelo já citado Birdman e seu resto de título longo. 

E, novamente, ele firmou parceria com Emmanuel Lubezki, que fez misérias a cada tomada. Sabe-se lá quanta dificuldade ele teve para lidar com a luz, a neve, as sombras e o sol. A equipe, inclusive, contou com um integrante inédito no universo das filmagens: um meteorologista, que indicava onde estavam os locais com mais neve e onde os raios solares podiam incidir por mais tempo. De qualquer maneira, Iñárritu só conseguia filmar poucas horas por dia. Todas essas curiosidades de bastidores conferem ares hercúleos a O regresso, mas de nada adiantariam para sua qualidade total se não houvesse alma nos personagens, o que acontece com certa frequência em produções grandiloquentes. E a trama em si, é bem simples: não importa tanto o que vai ser contado, mas como vai ser contado. Na verdade, é sempre o que mais importa em uma narrativa, seja fílmica, literária ou pictórica. Aqueles homens sobre cuja face a morte constantemente respira e bafeja, exalam uma vida que insiste em pulsar.

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2016

Anomalisa e algumas constatações incômodas sobre nossa humanidade

Retratos cinematográficos sobre amor, solidão e desalento existem aos montes, mas poucos têm a alma exalada por Anomalisa (idem, 2015). A primeira animação assinada por Charlie Kaufman – em parceria com Duke Johnson – é mais um triunfo em sua carreira, e houve críticos que se referiram a ela como o filme mais humano do ano em que foi lançado. De fato, os personagens terem sido concebidos através da conhecida técnica do stop motion é mero detalhe visual, já que suas emoções e atitudes são facilmente reconhecíveis como potenciais e provenientes de qualquer um de nós. E, se a sinopse carrega uma inesperada simplicidade para os padrões do realizador e roteirista, seu desenvolvimento não é tão corriqueiro assim, mesmo que, no fundo, seja mais acessível que outras narrativas já saídas de sua mente criativa e borbulhante. 

Em sua primeira sequência, Michael Stone (voz de David Thewlis) está em uma avião a caminho de Cincinnati, cidade localizada no estado de Ohio e apelidada de Cidade Rainha. Atente para o sobrenome do protagonista: ele é uma informação nada gratuita e altamente relevante para inferências sobre sua conduta e personalidade, clarificadas à medida que a trama avança. O motivo da viagem, de curta duração, é uma palestra para discorrer sobre um de seus livros de autoajuda, intitulado Como posso ajudá-lo a ajudá-los?, que vem fazendo o maior sucesso. Porém, Michael não se parece em nada com um autor de livros dessa vertente, a começar pelo semblante desgostoso e pela falta de paciência em travar diálogos, mesmo com interlocutores nitidamente amistosos.

A postura estoica diante da vida parece sequela de relacionamentos malfadados de um passado nem tão distante, e o pouco que vai sendo descortinado a seu respeito mostra um homem difícil de conviver, de baixa tolerância a eventos e atitudes cotidianas que muitos deixam passar batidos. Um detalhe que logo chama a atenção e pode incomodar a audiência é o fato de todos os personagens com os quais Michael interage terem a mesma voz, não importando se são homens, mulheres ou crianças. Todos são dublados por Tom Noonan. Esse detalhe nada tem a ver com economia no orçamento do longa (que ficou em 8 milhões de dólares): antes, é mais um indício de como, para seus sentidos, o mundo e as pessoas se tornaram anódinos. E é justamente por conta de um som vocal distinto que seu modo de encarar o outro acaba sendo revolvido.

Hospedado em um hotel voltado para o público de negócios, ele conhece Lisa (voz de Jennifer Jason Leigh), e passa a viver uma situação análoga à de Theodore (Joaquin Phoenix) em Ela (Her, 2013): apaixona-se por uma voz. A única voz distinta em seu universo povoado por gente isomórfica. Diante do belo som que ecoa de sua garganta, pouco importa se se trata de uma mulher desengonçada e até um tanto acima do peso. Esses detalhes desaparecem e ouvi-la se torna um enorme prazer, ainda mais se for entoando os versos de uma velha canção em italiano. Mas é exatamente aí que mora o perigo, porque, nas entrelinhas, observação que qualquer espectador com uma fagulha que perspicácia também pode fazer, Kaufman lança uma acusação sobre Michael que transborda para cada um de nós: idealizações e expectativas são armadilhas. Depois, ainda cobramos das pessoas por elas não serem o que nós (repetindo, nós) esperávamos delas. Elas não prometeram nada e, mesmo que tivessem prometido, uma das especialidades humanas é quebrar promessas.


A bem da verdade, a escolha de Jason Leigh para dublar Lisa foi maravilhosa. A atriz tem anos de carreira e já mostrou seu talento inúmeras vezes, mas esta foi a primeira ocasião em que sua voz foi isolada e houve a oportunidade de perceber o quanto ela é bela e se encaixa com perfeição na personagem. Fica bem fácil de compreender o encanto do pétreo Michael, salvo de sua sistematicidade por um aparelho fonador atraente, por assim dizer. Já fazia sete anos que Kaufman vinha mantendo seus espectadores em compasso de espera por uma nova reflexão sua sobre as relações humanas, e Anomalisa vale essa espera, ainda que, novamente, seu olhar tenaz sobre a questão faça doer.

Seu currículo pregresso é famigerado entre os cinéfilos e cultuado por muitos críticos. Através de sua escrita, já mergulhamos na mente de um ator em Quero Ser John Malkovich (Being John Malkovich, 1999), caminhamos no terreno pantanoso de Adaptação (Adaptation, 2002), ziguezagueamos por recordações ameaçadas em Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças (Eternal Sunshine of the Spotless Mind, 2004) e testemunhamos a metalinguagem complexa de Sinédoque, Nova York (Synecdoche, New York, 2008). Michael é uma nova peça na sua coleção de sujeitos complicados e deslocados, que enxergam a vida como um baile por onde as pessoas transitam mascaradas. É uma metáfora gasta, mas ainda não perdeu a validade. Todos temos que lidar com ela e, ao mesmo tempo, somos responsáveis por ela mas, para gente como ele (sim, não importa nada que Michael não exista no plano real), essa realidade é muito mais caótica.

Lisa é esse sopro de novidade urgentemente bem-vindo, uma anomalia em meio a uma homogeneidade exasperante. A estranheza do título, um aparente trocadilho com a pintura enigmática de Leonardo DaVinci, tem sua explicação em um diálogo simples e lindo, que fala de nossa predisposição (ou da maioria) de rapidamente fazer seu mundo girar em torno do objeto do nosso desejo ou admiração. Michael se propõe a ajudar a ajudar, mas precisa mesmo é ser ajudado. Um dos pouquíssimos senões da obra é chegar ao fim apressadamente, quando poderia tê-lo depurado um pouco melhor. Entretanto, talvez esse desconforto com o encerramento seja a dificuldade em dizer a adeus a Michael, que carrega consigo um pouco de mim e de você, ainda incapazes de lidar tranquilamente com o que outro poderia ser, mas não é.

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016

A vida em pleno acontecimento ou Um pombo pousou num galho refletindo sobre a existência

Retinas adestradas ao frenesi, bem como cérebros lobotomizados por longos períodos de exposição a sequências nascidas de roteiros mastigados dificilmente conseguem aderir à experiência de alto rigor formal e filosófico idealizada por Roy Andersson em Um pombo pousou num galho refletindo sobre a existência (En Duva Satt på en Gren och Funderade på Tillvaron, 2014). O título extenso é outro elemento que afasta as grandes plateias, além de revestir a produção de uma aura enigmática. Tais constatações se emitem com pesar, já que, ao contrário do que os índices mencionados sugerem, o filme fala de todos nós, apenas não escolhe o caminho mais óbvio para essa proposta. Ao longo de pouco mais de 100 minutos, o espectador é apresentado a 39 planos fixos e antinarrativos, por assim dizer. Cada um deles é um fragmento da existência. 

À estaticidade da câmera se junta uma caraterização fantasmagórica dos personagens. É bem verdade que os suecos, em sua maioria, já têm pele alva por natureza, mas a maquiagem usada aqui os embranqueceu ainda mais. É como se fossem defuntos ainda de pé, e alguns deles acabam se tornando defuntos de verdade logo nos primeiros planos, os únicos que receberam título: Encontro com a morte nº 1, 2 e 3. Do início ao fim, as cenas reúnem desde aspectos corriqueiros da vida humana até momentos de genuíno surrealismo, evidenciando uma abordagem apartada de qualquer objetividade, a vocação da arte, afinal. Por mais surreal que sejam as cenas, porém, cada uma delas é passível de identificação pelo que trazem de sentimentos universais: dor, mágoa, esperança, tristeza, carinho. Sem falar na melancolia escandinava, um modo de encarar a vida que parece tipificar os habitantes daquela região do globo.

Andersson é um cineasta de poucas concessões. Seus filmes exigem paciência e concentração, especialmente os três últimos, componentes de uma tríade que versa sobre “o que é ser um humano”. Entre sua estreia em longas, Uma história de amor sueca (En kärlekshistoria, 1970), e seu segundo trabalho, Canções do segundo andar (Sånger från andra våningen, 2000), houve um hiato de 30 anos. Entre cada exemplar da trilogia, decorreram 7 anos, intervalo intencional ou não que resultou em filmes que o colocam na condição de “cinefilósofo da contemporaneidade”, um misto de honraria com fardo ao qual ele tem correspondido bem. Comentar sobre uma possível sinopse do filme em análise é um tanto inútil, dada a natureza do projeto. O mais próximo de uma unidade narrativa encontrado no filme é a presença de dois vendedores desengonçados que oferecem produtos supostamente divertidos em vários estabelecimentos. Mas eles não estão ali para explicar nada: antes, são um notável recurso irônico do roteiro do próprio Andersson – homens tristes demais para convencer alguém a comprar, entre outras coisas, um saco de risadas.


Com todas essas características insólitas reunidas, Um pombo pousou num galho refletindo sobre a existência conquistou o júri do 71º Festival de Veneza, de onde saiu agraciado com o Leão de Ouro. Decerto, alcançou a plateia de eleitores do Lido por sua capacidade de ir além do óbvio e, ao mesmo tempo, ser tão ordinário, um paradoxo difícil de obter. Entrevistado por um site inglês, ele expressou a satisfação de ter tido sua produção bem recebida: “Estou feliz sobre como isso terminou”, e acrescentou, com simplicidade oriunda de longa experiência, a motivação de construir filmes cujo traço humorístico se funde ao trágico: “Nós somos criaturas vulneráveis, e é possível olhar para nós com tristeza, humor ou medo”. Tamanha lucidez e senso de humor diante da vida corroboram o seu talento como realizador, ao mesmo tempo em que geram lamentação por suas longas férias entre um filme e outro. Ao mesmo tempo, parece que tal demora permite um tempo maior de maturação de ideias e concepções maravilhosamente entregues a um público ao qual se pede, sobretudo, calma e atenção.

Lá pelas tantas, Andersson também pondera sobre o lado horrível do ser humano, cujo comportamento belicoso já produziu desgraças de imensas proporções no mundo contra outros seres humanos. A “máquina de destruição” apresentada em um dos planos é a simbologia desse pensamento, e sua coloração de ouro envelhecido é sublinhada em meio à paisagem cinérea. E o que dizer dos dias que estão passando cada vez mais rápido, em boa parte devido à ritmo veloz imposto por um sistema capitalista que produz escravos do lucro? Um homem questiona, a certa altura, sobre o dia da semana em que está, e outro o repreende, enfatizando que ele “precisa saber que hoje é quarta-feira”. Não há tempo para elucubrações, elas desandam o mundo. E, frequentemente, os quadros delineados pelo olhar arguto do cineasta apresentam suas imagens mais importantes nas zonas periféricas. Eis mais um convite do seu cinema: agucem a visão.

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

BALANÇO MENSAL - JANEIRO

Vamos direto a ponto: 2016 começou com tudo no plano cinematográfico. Nada menos do que 51 filmes vistos, sendo 47 inéditos e 4 revistos e ainda amados. Seguem abaixo a trinca de preferidos e a relação completa dos títulos vistos com diretores e notas, além dos melhores em algumas categorias que considero importantes.

PÓDIO

MEDALHA DE OURO

45 anos (Andrew Haigh, 2015)



Silêncios, olhares e respirações constituem o cerne desse conto intimista sobre um casal de união longeva. A descoberta de um elo forte do marido com o passado transforma e transtorna o cotidiano de uma professora aposentada que demonstra ter gastado boa parte de suas forças em prol daquele casamento. Como se trata de um recorte da vida de ambos, parte do que podemos saber são inferências, mas o empenho dela em festejar quatro décadas e meia de convivência é prova nítida de amor e esforço. A narrativa se desenvolve inebriada pela névoa londrina e esfumaça os sentimentos de uma mulher que descobre outra vida na sua vida.

MEDALHA DE PRATA


Os oito odiados (Quentin Tarantino, 2015)



Tarantino continua prolixo, mas está menos barrigudo. Sangue e neve se misturam na trama mirabolante que reúne oito delinquentes interessados apenas em seus respectivos quinhões. Poucos eventos acontecem - alguns deles são passado -, mas os diálogos estão hiperafiados, para deleite dos entusiastas do realizador, bem como dos que apreciam uma boa escrita vertida para o diálogo. A verborragia violenta se alia a ações violentas de todos, obrigados e conviver por tempo indeterminado em uma cabana que oferece abrigo contra uma nevasca das fortes. Os ouvidos também agradecem mais uma trilha assinada por Ennio Morricone.

MEDALHA DE BRONZE

Confidências à meia-noite (Michael Gordon, 1959)



Estrelada pela graciosa Doris Day e pelo charmoso Rock Hudson, na primeira de suas três parcerias -, esta comédia romântica pouco tem a oferecer de novo, ainda que seja precursora de um monte de outros exemplares do subgênero. Mas quem se importa? Uma receita de bolo seguida com cuidado e feita com carinho gera um ótimo resultado e, portanto, é muito bem-vinda. Os desencontros entre uma mulher sonhadora no amor e um canalha em processo de regeneração funcionam belamente e deixam o coração mais leve, mesmo que todos saibam que o roteiro de um filme quase nunca pode ser reproduzido na vida real.

INÉDITOS


1. Uma lição de amor (Ingmar Bergman, 1954) -> 8.0

2. Sentimentos que curam (Maya Forbes, 2014) -> 6.0
3. Relíquia macabra (John Huston, 1941) -> 8.0
4. Amizade colorida (Will Gluck, 2011) -> 4.5
5. Matar ou morrer (Fred Zinnemann, 1952) -> 7.5
6. Jauja (Alejandro Alonso, 2014) -> 8.0



7. Ajuste final (Ethan e Joel Coen, 1990) -> 7.5
8. 45 anos (Andrew Haigh, 2015) -> 8.5
9. A morte num beijo (Robert Aldrich, 1955) -> 7.0
10. Ligeiramente grávidos (Judd Apatow, 2007) -> 7.0
11. 007 contra o satânico Dr. No (Terrence Young, 1962) -> 7.5
12. Louca escapada (Steven Spielberg, 1974) -> 7.0
13. Música, amigos e festa (Max Joseph, 2015) -> 6.0



14. Jumper (Doug Liman, 2008) -> 6.0
15. Complicações do amor (Charlie McDowell, 2014) -> 7.0
16. O silêncio do lago (George Sluizer, 1988) -> 8.0
17. Distante (Nuri Bilge Ceylan, 2002) -> 8.0
18. Before we go (Chris Evans, 2015) -> 7.5
19. A demora (Rodrigo Plá, 2012) -> 7.5
20. O sorgo vermelho (Zhang Yimou, 1988) -> 7.0
21. O cidadão do ano (Hans Petter Moland, 2014) -> 8.0
22. 10 anos de pura amizade (Jamie Linden, 2011) -> 7.0



23. O clã (Pablo Trapero, 2015) -> 7.5
24. Os oito odiados (Quentin Tarantino, 2015) -> 8.5
25. Miami vice (Michael Mann, 2006) -> 7.0
26. Spotlight - Segredos revelados (Tom McCarthy, 2015) -> 6.0
27. Havaí (Marco Berger, 2013) -> 8.0
28. Garota sombria caminha pela noite (Anna Lily Amirpour, 2014) -> 8.0
29. Confidências à meia-noite (Michael Gordon, 1959) -> 8.0
30. A grande aposta (Adam McKay, 2015) -> 7.0 
31. Steve Jobs (Danny Boyle, 2015) -> 5.0



32. Boa noite, mamãe (Severin Fiala e Veronika Franz, 2014) -> 7.5
33. Por um triz (Carl Franklin, 2003) -> 7.0
34. Terapia do amor (Ben Younger, 2005) -> 6.0
35. Roubo nas alturas (Brett Ratner, 2011) -> 6.5
36. Caçada humana (Arthur Penn, 1966) -> 8.0
37. O estranho que nós amamos (Don Siegel, 1971) -> 8.0
38. O segredo da cabana (Drew Goddard, 2012) -> 5.0



39. Sr. Holmes (Bill Condon, 2015) -> 7.0
40. O nome do jogo (Barry Sonnenfeld, 1995) -> 6.0
41. O terceiro homem (Carol Reed, 1949) -> 8.0
42. Domingo maldito (John Schlesinger, 1971) -> 7.0
43. RED - Aposentados e perigosos (Robert Schwenke, 2010) -> 6.0
44. Apertem os cintos... o piloto sumiu! (Jim Abrahms, David Zucker e Jerry Zucker, 1980) -> 8.0
45. Janela secreta (David Koepp, 2004) -> 6.5
46. Breaking news - Uma cidade em alerta (Johnny To, 2004) -> 8.0
47. Victoria (Sebastian Schipper, 2015) -> 7.5

REVISTOS


Você vai conhecer o homem dos seus sonhos (Woody Allen, 2010) -> 8.0
Antes do amanhecer (Richard Linklater, 1995) -> 9.0
Antes do pôr do sol (Richard Linklater, 2004) -> 9.5
Antes da meia-noite (Richard Linklater, 2013) -> 10.0

MELHOR FILME: 45 anos
PIOR FILME: O segredo da cabana
MELHOR DIRETOR: Quentin Tarantino, por Os oito odiados
MELHOR ATRIZ: Charlotte Rampling, por 45 anos
MELHOR ATRIZ COADJUVANTE: Jennifer Jason Leigh, por Os oito odiados
MELHOR ATOR: Michael Fassbender, por Steve Jobs
MELHOR ATOR COADJUVANTE: Samuel L. Jackson, por Os oito odiados
MELHOR ROTEIRO ORIGINAL: Quentin Tarantino, por Os oito odiados
MELHOR ROTEIRO ADAPTADO: Andrew Haigh, por 45 anos
MELHOR TRILHA SONORA: Ennio Morricane, por Os oito odiados
MELHOR FOTOGRAFIA: Garota sombria caminha pela noite
MELHOR CENA: A dança da festa de bodas em 45 anos
MELHOR FINAL: 45 anos