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sábado, 30 de novembro de 2013

A árvore da vida: ultrapassando qualquer fronteira entre Cinema e experiência epifânica

O movimento perpétuo pode ser libertador. Entregar-se a um estado de embriaguez pela contemplação também pode se configurar como uma necessidade do ser humano. Há filmes que ultrapassam qualquer limite supostamente estabelecido entre vida, arte e reflexão. Os aparentes dispersos apenas citados são apenas um espécie de súmula do amálgama de sensações que derivam de uma sessão de A árvore da vida (The tree of life, 2010), excelente trabalho de direção propiciado por Terrence Malick. Interpretar o que o cineasta se propôs a dizer talvez seja uma das tarefas mais inúteis dentre aquelas que se podem levantar com relação ao filme. A ele, bastam o sentimento de fruição genuína. Somos embalados e enlevados por uma atmosfera de ensimesmamento que reúne o essencial da condição humana. Em nossos recônditos, questionamo-nos: Quem somos? Para onde vamos? De onde viemos? São indagações basais para qualquer um de nossa espécie e, talvez, delas derivem todas as outras que se vão suscitando em nossa longa, ou curta, ou apenas caminhada sobre esse pedaço de chão que se convencionou chamar Terra. 

Com efeito, houve quem dissesse que, a exemplo dos filmes anteriores do realizador, assistir a esse é quase uma experiência litúrgica. De fato, a dimensão espiritual do homem pode ser acionada imediatamente depois de se colocar os olhos nas cenas esplêndidas que se vão sucedendo, sem a menor preocupação – ao menos, aparentemente – de ser didático ou clássico. Subverte-se a narrativa, transgride-se a linearidade em prol de uma circularidade e um grau de complexidade que se assimila à própria existência. Reducionismos e constatações peremptórias se digladiam, mas não mantêm suas forças por muito tempo em A árvore da vida. A vida é poética, tocante, mas também uma eterna fonte de sofrimento. E quem disse que fomos feitos para ser felizes? De onde terá vindo tanta obrigação de felicidade? E a crença em uma posição privilegiada no espaço sideral e, por conseguinte, no Universo? Sua queda se deu há tempos, por indícios e signos diversos, entre os quais: a descoberta de um sistema heliocêntrico e a contribuição epistemológica da psicanálise. Fatos que vieram trazer à tona um homem que é pequeno diante de uma imensidão, que tem de se curvar à superioridade da Terra e de tudo o que nela há, e de um homem que tem natureza partida, fraturada, estilhaçada, cujos cacos são facetas que compõem um mosaico individual.

Podemos inferir respostas para nossas maiores fontes de inquietude na própria natureza. Um olhar para o firmamento talvez possa dirimir parte do desespero e da sofreguidão que se apoderam da alma de todos os que têm a consciência de sua finitude. Ninguém é eterno. Essa certeza pode ser uma grande fonte de tormento e angústia, e se mistura à absoluta ignorância sobre quando será o fim. Basta a cada dia o seu mal. Mesmo os que amamos, partem. Os pais partem antes dos filhos, mas os filhos podem partir antes dos pais. O senhor O’Brien (Brad Pitt) experimenta na pele essa dor em algum momento, e se ressente da inversão do ciclo “natural” da vida. Quem determina ordens? Quem pode presidir irrestritamente sobre um estado de coisas? O domínio de nós mesmos talvez possa não estar em nossas mãos. O pai austero busca a obediência de seus filhos, e exagera ao exigir uma conduta que não pode ser adquirida senão após um longo passar de anos. Conflitos derivam dessa dissonância entre expectativa e realidade. Não há conciliação possível quando se deseja impor aquilo a que o outro não pode, não deve ou não quer se submeter. Nasce desse jogo complexo uma relação dual entre Jack (Sean Penn, em um lampejo da fase adulta do personagem) e seu pai. Dual porque mistura de amor e raiva, de carinho, ternura e ressentimento. Tudo ao mesmo tempo. Estabelecer fronteiras é impossível.


As palavras são esparsas, propositalmente esparsas. Imagens brotam com abundância e exuberância, suplantando a comunicação verbal e evidenciando o abismo que existe entre os sentimentos, os objetos, os acontecimentos e as palavras. Palavras são sempre tentativas, nunca podem recobrir com exatidão o que começa como pensamento. Ciente dessa interdição, o realizador se valeu de uma compilação de códigos imagéticos geradores de êxtase e perturbação. À mais discreta sombra de questionamento, o mundo se ergue imponente, desafiando a pequenez que nos cabe. Viver é um claro enigma, e a ausência de respostas aliada à ampla possibilidade de conexões individuais dadas pelo filme garante sua força e intensidade. Em certo momento, não há pessoas em cena. Os pais e os filhos dão lugar a um mergulho na poeira das estrelas, na vida marinha, nas entranhas da Terra, no pulsar lento de animais que apenas cumprem seu ciclo. A trajetória de perscrutação chega perto do que há de mais basilar na natureza. Chega-se quase ao átomo. A existência é mais fantástica e mais grandiosa do qualquer intenção de classificá-la. Somos frutos um penoso trabalho, de acúmulos diários, de somatórios de momentos, de uma complexidade que é uma das nossas grandes fontes de agonia. A árvore da vida, sem qualquer alarde, pode-nos conduzir a essas constatações, exalando sua essência plena. Nós damos os significados que nos parecem os mais razoáveis, e não temos que depender da ciência das intenções do autor de uma obra para analisá-la. Há um nome por trás do filme, mas o filme fala por si só desde o momento em que começa a ser concebido. Tal qual cada pessoa não tem controle exato sobre o efeito que suas palavras poderão causar em seu interlocutor. Elas partem de um emissor e, uma vez ditas, não se recolhem mais.

Discorrer longamente sobre cada ínterim de um filme tão complexo e, ao mesmo tempo, tão simples, requer um esforço admirável. A árvore da vida é uma fonte inesgotável de possibilidades, que jorra para uma potente coalizão de forças que provoca no espectador um encontro consigo mesmo e com o mundo. A perda da capacidade de observação do simples e do prosaico parece irremediável, mas as imagens belíssimas e a decisão de Malick de abdicar de uma narrativa talvez funcionem como um antídoto para ela. As reverberações sonoras e silenciosas do filmes nos arremessam o tempo todo para uma faceta de princípio da incerteza, fortificando-o como estudo diligente da inabilidade do homem, bem como de sua falibilidade. As fronteiras entre cinema e experiência epifânica, sempre discretas, fundem-se com este exemplar magnânimo de cinema autoral. O filme sorri, questiona, impele e se apresenta sob tantas outras formas que levanta a certeza de se estar sendo confrontado com um caleidoscópio e suas imagens múltiplas e encantadoras. Entretanto, no caso do filme, a dor também pode ser acionada, quando está em presença de elementos que ferem, como a morte e a incomunicabilidade, esta cada vez mais presente hoje. Ao apontar suas lentes para tantos fenômenos naturais e para o mundo pura e simplesmente, Malick nos evoca um estado de contemplação, e uma necessidade de rompimento com uma volatilidade nas relações interpessoais, descartando-se a mediação eletrônica em prol de interações de corpo presente, dentre tantos outros temas que, a depender do público, podem se superpor.

10/10

quinta-feira, 28 de novembro de 2013

Sete dias com Marilyn, a reencarnação de um mito

Não é nenhum exagero dizer que a alma de Sete dias com Marilyn (My week with Marilyn, 2011) reside na presença vibrante de Michelle Williams interpretando o papel-título. A atriz, nascida em Montana, é um adorável furacão em cena, e demonstra capacidade total de galvanizar o mito Marilyn Monroe, que ecoa pelo ambiente cinematográfico há várias décadas. Entretanto, o que se vê a seu respeito no filme de Simon Curtis é filtrado e edulcorado pelo olhar de encanto de Colin Clark (Eddie Redmayne), que lutou com unhas e dentes por uma chance no clubinho fechado das estrelas e grandes produtores. Demonstrando ousadia e perseverança, ele foi atrás do emprego que tanto desejava, e conseguiu se tornar assistente de produção durante as filmagens de O príncipe encantado (The prince and the show girl, 1957), em que Marilyn dividiu a cena com o lendário Laurence Olivier. O que se acompanha no filme é o recorte temporal da semana mais importante de Clark na companhia da estrela, e que resultou em seu livro de memórias, sobre o qual a película se alicerça. 

Como se trata de uma das atrizes mais cultuadas da história do cinema, não necessariamente por conta de seus dotes interpretativos, Sete dias com Marilyn apresenta, quase inevitavelmente, ares de tributo à artista. Cabe a Williams emprestar seu corpo e sua voz para dar vida a ela, e embevecer o público com um dos trabalhos de composição mais bem elaborados de 2011. A disputa no Oscar, aliás, foi acirrada: ela concorreu com feras como Glenn Close, no papel de sua vida em Albert Nobbs (idem, 2011) e Meryl Streep, irrepreensível em A Dama de Ferro (The Iron Lady, 2011). Em um ano tão cheio de boas atrizes no páreo como foi esse, haveria que se cogitar a hipótese de a Academia lançar um pódio e premiar mais atrizes entre as indicadas. Por outro lado, não é somente um Oscar que assegura a qualidade de uma interpretação: quanto a isso não restam dúvidas. Williams é uma atriz que vem demonstrando segurança e versatilidade a cada novo trabalho. Dito isso, seu Oscar de atuação é apenas uma questão de tempo, e ela ter concorrido em 2012 com outras atrizes de alto escalão foi o seu azar.

A construção narrativa de Sete dias com Marilyn é um tanto previsível, diga-se de passagem, o que se justifica, em parte pelo seu argumento. Sabemos que o sonho, em algum momento, será dissolvido. A proposta trazida à tona por Curtis é examinar de perto o fascínio que a diva exercia sobre Colin, e o quanto o olhar do então rapaz está comprometido pelo indiscutível sex appeal da estrela, cuja porção atriz era das mais instintivas e admiráveis, conforme o próprio Laurence Olivier afirma depois de colocar os olhos em seu trabalho no filme em que contracenaram e ele a dirigu. Esse é o outro lado da moeda do filme de Curtis: apresentar os bastidores tumultuados das filmagens de O príncipe encantado. Boa parte dos problemas com o filme se deveram à personalidade instável e extremamente complexa de Marilyn, que resultou em sucessivos atrasos para as cenas e na necessidade constante de repetição de tomadas. Ela se desconcentrava, sentia-se insegura diante da responsabilidade da personagem e enervava Olivier, assertivamente interpretado pelo ótimo Brannagh, também devidamente contemplado com uma indicação à estatueta dourada. A relação dos dois no set se mostrou cheia de altos e baixos e, nesse sentido, Colin representou um elo importante entre a atriz e toda a equipe. Com ele, Marilyn parecia muito à vontade, e isso só ajudou a mexer mais com o coração do jovem.


É compreensível o embasbacamento do rapaz com Marilyn. A estrela é uma das mais atemporais do cinema e, inevitavelmente, volta-se à sua intérprete para comentar a respeito da força de Sete dias com Marilyn. Williams tinha certos obstáculos à sua composição, e o principal deles talvez seja a pouca semelhança física com a Marilyn original. Todavia, quando se coloca os olhos sobre ela, qualquer traço físico dissonante que ela apresente com relação à matriz perdem totalmente a relevância, porque ela sublinha em gestos, charme e sotaque a aura de gata surreal que há muito envolve Marilyn Monroe, dilacerando jovens corações e embevecendo olhares de marmanjos com retinas ávidas de fêmeas monumentais. Ela nem foi a primeira opção para o papel. Chegou-se a pensar em Scarlett Johansson inicialmente. E Colin é o mais atingido por esse meteoro, com quem chega a ensaiar um romance nos tais sete dias. É graças a ele que hoje temos em livro e em filme um dos retratos mais apaixonados e lisonjeiros sobre a musa de lourice forjada.

Outro ponto positivo de Sete dias com Marilyn é aquele que se aponta comumente em cinebiografias ou em recortes cinebiográficos, como é o caso aqui: a possibilidade de enxergar um lado mais humano e privativo da atriz. Antes de todo o turbilhão que ela representou e ainda representa, existia uma mulher cuja beleza ofuscante era diretamente proporcional às suas insegurança e perturbação. E, ainda que temos nos habituado a cultivar a imagem de Marilyn Monroe, esta é, por si só, um mito, já que nem era o seu verdadeiro nome – para quem não sabe, era Norma Jean. Isso fica nítido na cena em que, acompanhada de Colin, ela faz graça com um bando de fotógrafos que estava à sua espreita. Ela diz ao rapaz: “Devo ser ela”. Considerando a dubiedade do verbo “dever” em português, abre-se margem para entender o seu uso como indicador da possibilidade (“Talvez eu seja ela”) ou da obrigação (“Eu tenho que ser ela”) de ser Marilyn Monroe. Seja como for, Sete dias com Marilyn se presta muito bem a evidencias que o mito segue vivíssimo, para além de qualquer teoria que se proponha a justificá-lo ou traduzi-lo.

8/10

terça-feira, 26 de novembro de 2013

Cine Holliúdy, uma declaração de amor arretada ao Cinema

O Cinema é uma arte que congrega uma enorme variedade de cores, sons, imagens, olhares e sotaques, despida ou não de qualquer traço restritivo, a depender das escolhas de seus realizadores. E, mesmo quando uma história é ambientada em localização temporal e geográfica bem delimitadas, pode existir a chance de um diálogo mais amplo, que atinja o coração da plateia e a leve para dentro da história. Esse é o caso de Cine Holliúdy (idem, 2013), um exemplar arretado de declaração de amor a essa arte tão jovem se comparada às demais, cuja existência já foi muito mais longe do que poderiam supor os contemporâneos de seu nascimento, em fins do século XIX. Falado em “cearencês” e, por isso, legendado para os demais estados brasileiros (um dos índices cartunescos da história), o filme acompanha a jornada quixotesca de Francisgleydisson (Edimilson Filho), um sonhador por natureza que pula de cidade em cidade à procura de um lugar onde possa se estabelecer como dono de cinema (o local de exibição, não a arte). 

A trama é ambientada na década de 70, época em que as cidades brasileiras interioranas não contavam com muitas opções quando o interesse era assistir a filmes. Os cinemas eram artigos raros em várias delas, e muitos habitantes passavam suas vidas inteiras sem pisar em uma sala escura – realidade pavorosa para qualquer cinéfilo. Nesse cenário, o protagonista oferece alento para gente de cotidiano simples, desejosa de viajar para outros mundos e, inconscientemente, à procura de catarse. Logo nos primeiros minutos de narrativa, ele está se mudando novamente com a esposa Maria das Graas (Miriam Freeland) e o filho homônimo (Joel Gomes) em mais uma tentativa de recomeço. A cada vez que a televisão chega e dá o conforto de se assistir a filmes em casa, os cinemas de rua perdem terreno e, por conseguinte, Francisgleydisson fica sem função na cidade, sendo obrigado a procurar outro local mais no interior para se estabelecer como difusor dessa arte.

É assim que ele chega a mais uma cidade em que a televisão ainda não se popularizou e investe tudo que tem para erguer de novo o seu sonho, que ele transmite com notável entusiasmo ao filho, com quem mantém um relacionamento de verdadeiro carinho e amizade, no melhor estilo “meu pai é meu ídolo”. A esposa também se dispõe a fazer sacrifícios em nome dessa paixão pelo Cinema, e exerce a nobre função de esteio da pequena família, ora estimulando o marido, ora ponderando sobre o que eles podem fazer para garantir o sucesso da empreitada de suas vidas. Ali, deparam com uma fauna de habitantes hilários, com seus sotaques carregados e disposição para sonhar, que se relaciona com o Cinema de uma maneira bastante própria, que se traduz, por exemplo, em dar a um filho o nome de Valdisney (qualquer semelhança fonética ou gráfica com o falecido Midas da animação não é mera coincidência). E o vocabulário dos moradores locais é coalhado de palavras e expressões curiosas, não parafraseadas pelas legendas, mas deduzíveis pelos contextos em que são empregadas.


Nessa vasta galeria de tipos curiosos – que até podem parecer chapados, mas representam, de fato, uma fatia populacional brasileira -, não faltam os mal-intencionados, como o prefeito Olegário Elpídio (Roberto Bomtempo). Para ele, o esforço de Francisgleydisson em inaugurar uma sala de cinema é a chance de levar a fama sem deitar na cama. Acompanhado de sua mulher espilicute – “bonita”, em cearencês -, ele profere discursos em que dá cambalhotas com as palavras e, no fim das contas, não sai da zona da demagogia. E o povo se encanta com o que ouve e se permite sonhar novamente, adentrando as portas do cinema e entrando no universo mágico que os filmes permitem visitar e fazer parte. A essa altura, o longa de Halder Gomes se mostra muito próximo de Cinema Paradiso (idem, 1988), um dos mais lindos atestados do quanto a sétima arte pode marcar a vida definitivamente, desde a mais tenra infância. Não seria exagero afirmar que Cine Holliúdy é a versão nordestina do filme de Giuseppe Tornatore, o que significa dizer que também merece lugar no coração onde bate um peito cinéfilo.

O longa é derivado de O astista contra o caba do mal (idem, 2004), curta-metragem centrado nas tentativas de Francisgleydisson para que a primeira sessão de cinema na cidade em que chegou transcorra sem qualquer problema. Do começo ao fim da projeção, ele enfrenta uma série de dificuldades, tratadas com um humor que mescla ingenuidade e malícia, e essa sequência aparece novamente na versão longa-metragem, estendendo-se por mais tempo e se mostrando igualmente hilária. O protagonista se vê obrigado a fazer de tudo um pouco, da dublagem dos diálogos ao entretenimento do público quando o projetor deixa de funcionar. Quando se pensa que a história acontece no Brasil dos anos 70, uma época pré-milagre econômico, o que se percebe é que alguns problemas seguem acontecendo para quem deseja fazer Cinema. Se Francisgleydisson dedica toda a sua vida à paixão que o move, cineastas e produtores que tencionam ir além do cinema de linguagem televisiva precisam mover céus e terra para furar o bloqueio que essa vertente, por tantas vezes, nefasta da sétima arte ergue.

Cine Holliúdy também é um manifesto em favor de um Cinema que preserve a sua “cor local”, termo proveniente do Romantismo brasileiro para se referir a narrativas em que os elementos presentes são peculiares da região em que a trama se passa. Ao se pensar nessa questão, vêm a reboque as características positivas e negativas – nem tudo é exatamente agradável. Gomes fundiu suas memórias da infância com suas crenças particulares e as transformou em filme, abordando um tema que conhece bem, contando com a parceria de atores que compartilham de boa parte das suas idiossincrasias. Entre eles, Edimilson Filho, amigo de longa data do diretor, que mora há 13 anos nos Estados Unidos e trilha um caminho inverso ao da maioria dos seus colegas patrícios, que constrói uma carreira bem-sucedida aqui e expande seus horizontes territoriais a posteriori. Portanto, conhece ambos os lados da moeda e fica muito à vontade no papel. No olhar da crítica, o film causou rachas: houve quem encarasse o filme como problemático na montagem – um exagero; para Cacá Diegues, veterano realizador alagoano, o baixo orçamento não impede sua qualidade e serve para mostrar que Cinema se faz de várias maneiras, opinião muito mais digna de ser acolhida.

8/10

sexta-feira, 22 de novembro de 2013

Neuroses crônicas revisitadas em Blue Jasmine

Dizem as péssimas línguas que Woody Allen, de tempos em tempos, volta à boa forma, oscilando em intervalos de menor genialidade, por assim dizer. Entretanto, um olhar cuidadoso para seus longas-metragens evidencia que o diretor segue como um dos mais regulares – no melhor sentido do termo – do seu tempo, entregando anualmente obras que ocupam com muita justiça patamares superiores em vários aspectos. Não é diferente com Blue Jasmine (idem, 2013), sua primeira história filmada em São Francisco. Devoto de Nova York, ele voltou a trocar de ares para apresentar Jasmine (Cate Blanchett), uma ex-ricaça que se vê obrigada a abandonar o luxo e passar um tempo morando com a irmã Ginger (Sally Hawkins), habitante desta que é a quarta cidade mais populosa da Califórnia. 

Como Jasmine deixa bem claro em um diálogo com uma passageira no avião que à conduz ao local, ela e Ginger foram adotadas e vieram de famílias diferentes, o que ajuda a explicar as divergências abissais entre as duas. Enquanto a loura de olhos azuis é sofisticada e esnobe, a morena de olhos castanhos se contenta com uma vida mais modesta e escolhe seus amores baseada em critérios rasteiros. Do reencontro inicial entre as irmãs de consideração, surgem, aos poucos, os eventos que conduziram àquela realidade tenebrosa para Jasmine. A essa altura, a narrativa já começou a mostrar que é feita de idas e vindas no tempo, alternando a vida da protagonista como rica no passado e seu presente mais despojado.

Um dos vários acertos de Allen em Blue Jasmine é não investir na obviedade de mostrar as diferenças fundamentais entre esses dois momentos da personagem. De vez em quando, até surgem alguns detalhes que sublinham as características de cada ambiente em que Jasmine está ou esteve, mas eles são consequência de uma trama voltada a acompanhar a sua tentativa de se reinventar, como ela mesma afirma quando procura se defender diante de Ginger por ter mentido para um novo (e rico) pretendente. E, como não poderia deixar de ser, Jasmine é o alter ego da vez do diretor, que volta a se valer de uma persona cinematográfica feminina depois de cinco anos – para quem não se lembra, Scarlett Johansson era uma versão do próprio em Vicky Cristina Barcelona (idem, 2008).


Com essa grande tarefa nas mãos, Blanchett não decepciona. De longe, ela está em um de seus momentos mais inesperados, acenando para um belo Oscar de melhor atriz sem esforço (não visível, pelo menos). Cada fala, trejeito e reação de sua Jasmine faz ver Allen presente. Os ataques de pânico, a dificuldade para respirar no auge do desespero, a cota de misantropia: está tudo lá concentrado na personagem. E o que dizer dos seus olhos, de um azul hipnótico e sempre muito expressivos? A clássica frase que diz serem eles a janela da alma encontra representação perfeita na personagem. Ora vivazes em meio à riqueza, ora marejados pela inabilidade em lidar com universo “minimalista” em que teve de se inserir, eles são um dos maiores trunfos de que essa australiana se utiliza muito bem. Por sua vez, Hawkins faz uma codjuvante para espectador nenhum colocar defeito, com um sotaque estranho às primeiras escutas, mas facilmente absorvido e orgânico para sua personagem. Depois de um papel discreto em O sonho de Cassandra (Cassandra’s dream, 2007), ela tem muito mais chances de brilhar.

A outra (quase) novidade trazida por Allen em Blue Jasmine é sua parceria com Javier Aguirresarobe. É apenas a segunda vez que ele trabalha com o fotógrafo, que já colaborou com realizadores como Pedro Almodóvar [Fale com ela (Hable con ella, 2002)] e Alejandro Amenábar [Os outros (The others, 2001)], um caso raro em sua filmografia de nomes tão recorrentes nas funções técnicas. O espanhol acerta em cada detalhe dos ambientes que clica, esbanjando apuro visual e se garantindo nas cores alegres, tanto na antiga mansão de Jasmine quanto no simplório apartamento de Ginger. Foi uma escolha sábia de Allen retomar o contato com Aguirresarobe e novas parcerias serão muito bem-vindas. Na trilha sonora, o filme também não deixa a desejar, oferecendo deliciosos exemplares de jazz, outra paixão escancarada do diretor. Cada cena musicada por uma dessas canções fica ainda melhor.

A vocação cômica de Allen, todavia, nunca impediu que ele destilasse comentários corrosivos sobre a vida, o amor e a morte em geral. Jasmine e Ginger são grandes desafortunadas no campo do coração. A primeira era constantemente traída pelo marido Hal (Alec Baldwin, apropriadamente canastrão), que compensava as puladas de cerca mimando-a com joias e viagens, enquanto a segunda só escolhe pobretões por achar inconscientemente que é tudo o que merece, de acordo com a própria Jasmine. É nesse aspecto que se pode enxergar o pessimismo do diretor, que oferece soluções narrativas simples aos imbróglios que cria e, no caso de Blue Jasmine, encerra com um monólogo demolidor que coloca o público em dúvida, assim como já fez tantas vezes: é comédia ou tragédia?

9/10

quinta-feira, 21 de novembro de 2013

Um sonho de liberdade e a intensa luta por um recomeço

Geralmente associado a histórias aterrorizantes e assinaladas pelo suspense, Stephen King também é capaz de oferecer um olhar bastante curioso sobre a amizade, uma temática tão universal quanto o medo. Atento à força dos livros desse autor, Frank Darabont elegeu uma de suas obras que aborda o tópico, e concebeu Um sonho de liberdade (Shawshank redemption, 1994), tendo Tim Robbins e Morgan Freeman nos papéis de maior peso. O primeiro surge em cena na pele de Andy Dufresne, um banqueiro cuja vida sofre uma revolução negativa: acusado de ser o assassino da esposa e do amante com o qual ela o vinha traindo, ele é conduzido a uma penintenciária de segurança máxima, sob condenação à prisão perpétua. Uma vez confinado àqueles muralhas que o apartam do convívio com a família e os amigos, escolhe o silêncio como estratégia de autopreservação. 

Mais adiante, surge Freeman, que encarna Ellis Boyd, chamado Red pelos companheiros de longa data que compartilham com ele da realidade de prisioneiros. Ele já cumpriu dez anos de sua pena, e aposta com os velhos amigos que Andy será o homem que vai chorar na primeira noite atrás das grades. Acaba perdendo e a mudez contínua daquele homem começa a instigá-lo, mas ele prefere não se aproximar. Até que um dia o agora ex-banqueiro quebra o silêncio autoimposto e trava o primeiro diálogo com aquele que, depois de um certo tempo, se transforma em seu grande amigo. Em gestos discretos, o sentimento de afeto de um pelo outro vai se desenvolvendo, rodeado por circunstâncias nada fáceis - afinal, eles estão em um dos ambientes mais hostis que existe. A postura reservada de Andy o torna ainda mais visado pelos outros detentos, sobretudo um ruivo no qual desperta interesse sexual.

Com isso, o protagonista precisa aprender a lidar com as situações mais perigosas e se impor diante de homens obstinados e capazes de todo tipo de arroubos violentos. À medida que vai conquistando esse aprendizado, os anos transcorrem e, se a impressão que temos como espectadores é de que de o tempo passa velozmente, a sensação dos personagens é a oposta. Darabont condensa décadas de cárcere em pouco mais de duas horas, o que responde por esse falseamento na percepção do tempo, mas alguns elementos cênicos e dialogais do roteiro adaptado pelo próprio diretor atenuam esse inconveniente aparentemente incontornável. E não é somente a reagir diante das pressões violentas que Andy vai aprendendo, mas a confiar em pouquíssimos amigos e a conservar uma cota de segredo, até mesmo para o público, que descobre a parte oculta de seus planos juntamente com os personagens.

Acima de tudo, Um sonho de liberdade é um filme que trata sobre o quanto é importante não perder a esperança, e a conciliar esse sentimento com uma conduta pró-ativa, lição áurea para qualquer ser humano, independente de suas demais crenças particulares. E, na trilha difícil que Andy percorre, é fundamental ter com quem contar, o que ele encontra em Red, um homem capaz de pequenas negociatas com os colegas e que obtém qualquer material que lhe peçam. Fica nítido o quanto ele gostou de Andy gratuitamente, numa demonstração de empatia imediata, que só não é rapidamente desdobrada por conta da opção inicial de Andy pela distância. Passado esse gelo, podemos enxergar o carinho e a preocupação de um com o outro, e um desejo de ver o mundo externo de novo, mesmo que seja para morrer logo em seguida. 


Mas, entre eles, há uma diferença básica: enquanto Andy persegue seu objetivo de deixar a cadeia, por sua consciência limpa, Red sabe que fez por onde estar ali e se restringe a testemunhar timidamente em seu favor a cada dez anos, quando é perguntado se acredita já estar regenerado e pronto para a inserção social. Suas palavras não convencem os diretores do local, que carimbam com tinta vermelha "REJEITADO" ao pedido de absolvição do restante da pena. Nesse sentido, a convivência com Andy lhe faz bem, por injetar pouco a pouco um sentimento mais intenso de busca pela liberdade; ao mesmo tempo, Red tem medo da esperança, dizendo para o amigo que se trata de um perigo. Certamente, houve muitos outros casos como o de Andy e o coração de Red ficou desacreditado, um processo comum e do qual o ser humano é passível. Ainda assim, os dois não chegam a ser polos antagônicos, bem como seus intérpretes, que oferecem uma bela sintonia em cena e entregam excelentes desempenhos. Robbins fez seus melhores trabalhos nos anos 90 e, no mesmo ano de Um sonho de liberdade, foi dirigido por Robert Altman em Prêt-à-porter (idem, 1994), com quem já havia trabalhado dois anos antes em O jogador (The player, 1992) e pouco depois em Short cuts - Cenas da vida (Short cuts, 1993). Essa é a quadra dos seus melhores personagens.

Por sua vez, Freeman dá a razão a quem o considera um dos titãs de sua geração, investindo em uma atuação simples e contida, mas capaz de despertar a simpatia e a solidariedade do público, que vai se tornando íntimo de um homem cujo passado parece ter desaparecido por completo depois de sua ida para a cadeia. Sabe-se apenas que ele está ali por causa de um assassinato, e a maior parte de sua vida foi na condição de detento. Estranhamente, ele foi indicado ao Oscar de melhor ator pelo filme, apesar de ser coadjuvante, enquanto Robbins não foi sequer lembrado para a categoria, mais uma das várias injustiças que a Academia já cometeu. Há outros personagens periféricos que também conferem força à narrativa, como Brooks, que envelheceu na prisão e nem pode imaginar uma realidade extra-muros, e o rapaz que foi o verdadeiro autor do crime de que Andy foi acusado, ao qual ele tenta ajudar, mas que tem passagem rápida pelo lugar. Ambos despertam forte comoção e contribuem para que possamos enxergar os homens antes dos criminosos, com um olhar despido de qualquer determinismo ou estereótipo.

Diante de um filme que toca tão profundamente, é desalentador saber que sua recepção nos cinemas foi irrisória: orçado em 25 milhões de dólares, sua margem de lucro não chegou sequer aos 10%. Hoje, Um sonho de liberdade se encontra à disposição para sessões em casa, que se tornam ainda melhores se forem acompanhadas de amigos queridos, com os quais se pode compartilhar os sentimentos que nascem e crescem dentro de Andy e Red, leais companheiros de muitos anos. Não faltam passagens memoráveis e bem escritas, que se concatenam perfeitamente e são musicadas por uma belíssima trilha - a cargo de Thomas Newman, cujo vastíssimo currículo inclui Beleza americana (American beauty, 1999), Wall-E (idem, 2008) e tantos outros - grandes surpresas à espera do público. Vale ressaltar que Darabont era um diretor estreante à época, e debutou com notável traquejo na função. Até hoje, sua filmografia ainda é curta, mas formada por maravilhosos títulos, aos quais palavras elogiosas são mais que devidas.

10/10

terça-feira, 19 de novembro de 2013

A força de uma câmera trêmula comprovada em Capitão Phillips

A tensão serve de pedra angular para Capitão Phillips (Captain Phillips, 2013), mais um exercício vigoroso de estilo com a assinatura de Paul Greengrass. Com pouco mais de 10 minutos de trama, o filme mostra a que veio, colocando Tom Hanks na pele de Richard Phillips, um o capitão do título, em uma situação aterradora: comandando um imenso cargueiro repleto de mantimentos que devem chegar à costa norte do continente africano, ele precisa enfrentar a ameaça de piratas somalis que, dentro de duas barcarolas, investem contra o gigantesco flutuante. O espectador já pode começar a se remexer na poltrona a essa altura: primeiro, torcendo para que os tais piratas não sejam bem-sucedidos na tentativa de invasão ao navio; depois, desejando que Phillips e seus homens consigam expulsá-los dali e concluir a viagem sem mais sobressaltos. 

Acontece que, se não houver um imbróglio verdadeiramente difícil de ser resolvido, não há desenvolvimento de narrativa, e o enfrentamento entre aqueles experientes homens do mar e os neófitos dispostos a tudo para romper com o ciclo de miséria em que vivem se mostra a tônica de todo o filme. Greengrass não concede frestas de alívio ao público, deixando a tensão tomar conta da tela e revestindo o filme de uma atmosfera verdadeiramente angustiante, que é amplificada pela câmera na mão o tempo todo, com todos os tremores que essa escolha traz. À semelhança de quem está em alto-mar dentro de uma embarcação, Capitão Phillips pode se revelar um filme entontecedor, que percorre espaços abertos e fechados com a perícia de um cineasta afeito ao realismo em cada sequência. Desde a ida do capitão para mais uma longa viagem de trabalho até a sua chegada ao local, passando pelo planejamento dos piratas que vão ao ataque, o filme é quase uma defesa do Cinema-verdade, por assim dizer.

Uma vez dentro do navio, a gangue mostra pouca disposição para negociar valores, não se contentando com os 30 mil dólares que Phillips diz haver no cofre. Para ganhar tempo, ele fez boa parte dos seus homens se esconderem em locais de difícil acesso, enquanto procura o diálogo valendo-se do próprio discurso de seus oponentes. Nesse sentido, Capitão Phillips também é um grande filme, alternando um texto bem escrito - incumbência de Billy Ray, em sua primeira colaboração com o diretor - e um punhado de momentos inquietos, derivados da caça ao tesouro empreendida pelos piratas e a luta permanente da tripulação para não entregar o ouro. E, antes que se possa pensar que se trate de um mero confronto entre mocinhos e bandidos, arquétipo semeado aos montes e colhidos anualmente nas vindimas hollywoodianas. Assim como Peter Morgan em Rush - No limite da emoção (Rush, 2013), Ray não resvala na dicotomia estrita em seus personagens e abre espaço para entender ambos os lados, que podem se revezar em apoio ou contrariedade nas mais de 2 horas de trama.


Mas a construção de lados que se interpenetram pelas nuances que apresentam não é o único aspecto positivo de Capitão Phillips. O drama, que flerta com o suspense diretamente, também é o retorno de Tom Hanks aos bons papéis. Fazia tempo que esse californiano devia um personagem de alto calibre, devido às escolhas questionáveis dos últimos anos. Exceto por algumas participações em títulos como Tão forte e tão perto (Extremely loud and incredibly close, 2011), ele andava quase recluso e atendeu ao chamado de Greengrass na hora certa. Hanks investe em uma atuação minimalista, fazendo esquecer que estamos diante de um ator que comumente vem antes da pessoa que está encarnando. Phillips é gente como a gente: sente medo, tenta negociar sem usar a força bruta, e sabe que transparecer o máximo de calma é uma das suas armas mais eficientes. Quando acaba confinado em um baleeiro, exíguo por natureza, luta contra a própria agonia pelo maior tempo possível, e resiste bem mais do que muita gente poderia resistir, como alguém que traz sobre uma carcaça de anos de jornadas pelos mares literal e metaforicamente revoltos.

O forte realismo das sequências é sublinhado quando se sabe que o filme tem por base um o livro escrito pelo verdadeiro Phillips, que não fez desse fatídico episódio a sua última ida ao mar. E, por mais que essa informação possa vir a ser conhecida previamente ao filme, ele não perde um décimo sequer da sua força e da sua carga de tensão, que faz ignorar até mesmo o fato de se estar em um fileira tão grudada à tela, como aconteceu a este que vos escreve. Todo o foco se concentra naquela ilustração perfeita da expressão "sinuca de bico", usada para descrever situações em que, a princípio, só há duas saídas e ambas trazem a reboque consequências péssimas. Greengrass também lança mão de um comentário político, questionando as possibilidades alternativas que os piratas teriam para não precisar invadir o navio, mesmo sentindo temor do que lhes espera na hipótese de serem capturados pelas autoridades. A visão do diretor a respeito do tópico é sintetizada em um dos primeiros diálogos entre Phillips e o primeiro chefe do bando, que replica ao capitão quando este lhe diz que há outros meios de ganhar a vida. "Talvez na América", sentencia o rapaz do olhar em que o receio e a obstinação se misturam e se confundem. 

9/10

quinta-feira, 14 de novembro de 2013

Um estudo sobre a amoralidade ou Antes que o diabo saiba que você está morto

Antes que o diabo saiba que você está morto (Before the devil knows you're dead, 2007) revela sua força logo em seu título, tão comprido quanto pesado. O alerta é direcionado aos irmãos protagonistas da história, encarnados por Ethan Hawke e Philip Seymour Hoffman, profundamente sintonizados cena após cena. Cada qual estacionado em um degrau diferente na escada da amoralidade, Hank (Hawke) e Andy (Hoffman) vêm se afundando em dívidas, uma ofensa às suas perspectivas hedonistas de vida. Diante da iminente bancarrota, surge um plano ousado que pode trazer de volta aos dois o padrão de vida ao qual se habituaram nos últimos anos. E a tal amoralidade chega ao seu apogeu nos lábios de Andy, que está mais acima na tal escada: a ideia é assaltar a joalheria dos seus pais, faturar com a venda das joias e depois, com o seguro, o estabelecimento pode ser reconstruído. 

Hank oscila entre o choque e a tentação com a proposta do irmão mais velho. Entretanto,  com um pouco mais de insistência de Andy, que potencializa cada palavra que sai dos seus lábios com uma retórica de alta periculosidade, ele acaba embarcando no plano. Está posto o argumento do longa de Sidney Lumet, cuja filmografia tem suas bases fincadas em personagens à volta com dilemas morais, lidando com eles de maneiras bastante subjetivas, por assim dizer. A estreia louvável desse realizador, falecido em 2011, deu-se com 12 homens e uma sentença (12 angry men, 1957), um potente filme de tribunal capaz de produzir reflexões em várias instâncias que não ficou datado mesmo com o passar de muitas décadas. Ao longo de todos esses anos, Lumet foi mantendo a coerência fílmica sem abraçar a redundância, uma virtude dos grandes artistas, não somente os do Cinema.

No caso do filme em análise, a atenção deve estar focada não somente na trama em si, mas na maneira como ela é conduzida. Roteirizada por Kelly Marsterson, então novato na função, a narrativa apresenta idas e vindas temporais que, para além de mostrar em detalhes os reais problemas enfrentados por Andy e Hank, apresentam seus respectivos pontos de vista sobre aquele estado de coisas. Isso inclui o relacionamento deles com os pais, Nanette (Rosemary Harris, a Tia May de Homem-Aranha [Spider Man, 2002]) e Charles (Alber Finney), e também com Gina (Marisa Tomei), a esposa de Hank com a qual Andy tem um caso movido exclusivamente pelo furor sexual. Esse elo entre os irmãos também deixa entrever o quanto de competição existe no meio deles, gerando, por conseguinte, inveja e trapaça. Como se trata de dois homens que não tem um compromisso estrito com a moral vigente no mundo, esses e outros sentimentos e atitudes são detalhes que podem ser manobrados com certa tranquilidade.


Deriva desses elementos conjugados a apoplexia causada por Antes que o diabo saiba que você está morto. Os laços familiares não são minimamente representativos para os irmãos, que ferem códigos básicos nessa âmbito sem experimentar grandes remorsos ou arrependimentos. Não cabe esse tipo de conduta na cartilha seguida pelos irmãos, e o filme se revela um soco no estômago a cada nova sequência, reforçando os protagonistas como anti-heróis o tempo todo. Quando o tal plano é executado, as consequências são apenas as imaginadas por Andy e Hank: de última hora, Nanette aparece na joalheria e fica na mira do assaltante encomendado pelos seus próprios filhos e, transtornada, acaba sentindo na pele a ambição desenfreada dos dois, em uma das passagens mais fortes de todo o filme. É apenas nesse instante, aliás, que os irmãos demonstram algum tipo de refração moral. Ou seria simplesmente um inconformismo por uma meta não alcançada conforme o planejado?

O longa coincidiu temporal e tematicamente com O sonho de Cassandra (Cassandra's dream, 2007) e acabaram surgindo comparações entre ambos. Para boa parte da crítica, Lumet foi mais bem-sucedido, o que é uma grande injustiça com o filme de Woody Allen, uma lufada de grande peso dramático em sua carreira de comediógrafo. Na verdade, cada um tem suas características particulares que os tornam grandes filmes, apesar de serem realmente comparáveis. Antes que o diabo saiba que você está morto acabou sendo o canto de cisne de Lumet, que soube fechar bem sua carreira demonstrando uma ótima forma. Contam a seu favor os desempenhos formidáveis de Hawke e Hoffman, à vontade em seus papéis de homens capazes de dizer e fazer as maiores atrocidades com um ar incrivelmente natural. Tudo isso contribui para que assistir ao filme, da primeira à última sequência, tenha um efeito similar ao de um murro no estômago dado sem piedade.

9/10

segunda-feira, 11 de novembro de 2013

As peripécias de um devotado ao humor ou O mundo de Andy

James Eugene Carrey – mais conhecido como Jim Carrey - é dono de um currículo bem fornido de comédias com forte apelo popular, sobretudo as que estrelou na década de 90. Diante da indisposição da quase totalidade da crítica para os filmes do gênero, o ator demorou a ser levado a sério, com o perdão do trocadilho. Somente no final da década ele começou a ser mais respeitado, exatamente quando Milos Forman o recrutou para O mundo de Andy (Man on the moon, 1999), cinebiografia de um obstinado pelo riso que caiu como uma luva para o arsenal de caretas do intérprete, que soube usá-las novamente a seu favor para engendrar um ponto de virada em sua carreira. Entretanto, dessa vez, quem mais se entusiasmou com seu trabalho foi a crítica, visto que as bilheterias não responderam a contento. O filme aborda vários anos da vida desse que foi considerado um dos mais excêntricos artistas do humor, com capacidade para comprar brigas sérias em nome de sua vocação para satirizar a tudo e a todos. 

Cinebiografias são uma especialidade de Forman, que, três anos antes, havia dirigido O povo contra Larry Flynt (The people vs. Larry Flynt, 1996) e arrancado o que talvez seja o melhor desempenho da carreira de Woody Harrelson até hoje. Em O mundo de Andy, essa habilidade do realizador é novamente sublinhada desde a sequência inicial, em que o protagonista discorre sobre a dificuldade de se aturá-lo, propondo que o espectador abandone a sessão antes que se arrependa. Trata-se de um monólogo divertidíssimo, que sentencia o quanto Andy não está disposto a sacrificar suas convicções sarcásticas para agradar a quem quer que seja, nem mesmo o público que foi conquistando ao longo de sua ascensão sob a condição de comediante. Seu caminho é trilhado a duras penas, traduzindo-se em um percurso quixotesco em vários sentidos, inclusive pela presença de uma espécie de Sancho Pança, o seu incansável e fidedigno agente George Shapiro, vivido por um Danny DeVito na flor da inspiração. Boa parte dos êxitos alcançados pelo humorista no que se refere a espaço na mídia vem dos esforços contínuos de Shapiro.

Vale ressaltar que Carrey não era a única opção que Forman tinha em mente. Ele chegou a cogitar Edward Norton, com quem já havia trabalhado em seu longa anterior, para o papel. Incapaz de decidir, passou a bola para o estúdio, que bateu o martelo e elegeu Carrey para o personagem, o que se revelou uma escolha bastante acertada, justificável pelo desempenho memorável do ator, devidamente indicado e premiado com o Globo de Ouro de ator cômico. Aliás, O mundo de Andy se firma como uma comédia heterodoxa, cujos frouxos de riso despertados no público advêm de uma série de situações bizarras e surpreendentes. Cada espetáculo de Andy era uma caixinha de surpresas também no que se refere às reações da plateia de seus shows: ele era capaz de provocar risos, lágrimas, brigas e muitos outros tipos de desdobramentos com suas piadas e pantomimas, o que lhe rendeu a antonomásia de gênio da comédia estadunidense. Para o público do filme, cada um desses momentos é fonte de deliciosas gargalhadas, e nem é preciso concordar com a ideia de que Andy foi genial para, no mínimo, simpatizar com a figura.


Entre os coadjuvantes, também se encontram Paul Giamatti, ótimo na pele de Bob Zmuda, o grande parceiro de palco de Andy, capaz de embarcar em todas as suas ideias mirabolantes, fruto de suas idiossincrasias bem-humoradas, que incluem uma simulação épica de sua própria morte. O filme é uma bela oportunidade para conferir Giamatti em um dos papéis anteriores à sua atual zona de conforto interpretativa, iniciada com o superestimado Sideways – Entre umas e outras (Sideways, 2004). Seu tônus dramático estava em dia aqui, ainda que a função básica de seu personagem seja servir de escada para o de Carrey. Além dele, Forman reeditou sua parceria com Courtney Love, dando-lhe o papel da namorada de Andy, ela mesma incapaz de lidar o tempo todo com as mil peripécias do artista. É uma pena que, poucos anos depois, a carreira de atriz de Love tenha entrado em declínio por conta de uma série de escolhas equivocadas que levaram seu nome a figurar em títulos como Encurralada (Trapped, 2002), que não trazem qualquer relevância para o currículo de ninguém.

O alto grau de realismo alcançado pela direção de Forman e pelo roteiro concebido a quatro mãos por Scott Alexander e Larry Karaszewski é decorrente de três anos de uma pesquisa que inclui entrevistas com amigos, familiares e inimigos declarados de Andy. Cada uma delas serviu de contribuição para a feitura do texto, de acabamento meticuloso e – o mais importante – excelente timing cômico. A dupla de roteiristas do filme, aliás, sempre trabalha junta, e são mais dois dos colaboradores que o diretor trouxe de seu filme precedente. Contudo, ele não voltaria a dirigir um longa escrito por ambos, e entraria em um jejum de sete anos, quebrado com Sombras de Goya (Goya’s ghosts, 2006), outro exemplo de sua predileção por retratos biográficos. Ao longo de suas quase duas horas de duração, O mundo de Andy nos faz ver que uma das palavras-chave da vida do comediante era intensidade, sobretudo no tocante ao seu ofício da vida inteira, do qual não abria mão até mesmo quando caberia um ou outro mea culpa. Guardadas as devidas proporções, Sacha Baron Cohen faz algo semelhante a cada vez que promove um de seus filmes de humor negro declarado e não sai de seu personagem. O filme é, enfim, um intenso, apaixonante e comovente retrato acidentado da carreira e da vida de um homem que fez do humor a sua incógnita, despertando gargalhadas entusiásticas (ou não) em seu público sempre atordoado.

9/10

quarta-feira, 6 de novembro de 2013

Passion e as armadilhas de uma trama farsesca

Insultado com a falta de espaço no circuito comercial, Passion (idem, 2012) tem uma roupagem que pode conduzir muitos a tomá-lo por um filme menor de Brian De Palma. Trata-se de uma refilmagem do francês Crime de amor (Crime d'amour, 2010), originalmente protagonizado pelas beldades Kristin Scott Thomas e Ludivine Sagnier. Na versão do realizador nascido em Nova Jersey há 73 anos, as estrelas não ficam devendo no quesito beleza: Rachel McAdams e Noomi Rapace interpretam Christine e Isabelle, respectivamente. As duas trabalham juntas há pouco tempo, mas vêm estreitando laços rapidamente e ganhando uma cumplicidade que se estende para além das quatro paredes do escritório de publicidade em que são chefe e funcionária. Logo de cara, aparecem comemorando o fechamento de um importante negócio, e o roteiro adaptado pelo próprio diretor já oferece um vislumbre de tensão sexual entre elas conforme vão se embriagando, levemente interrompida pela presença de um outro funcionário do escritório. 

Esse clima de desejo latente e olhares provocativos se consolida nas cenas posteriores, mas acaba se rompendo e se transmutando a partir da atitude nada honesta de Christine, que atribui a si mesma a autoria de uma ideia que lhe havia sido apresentada no dia anterior por Isabelle, chocando-a. Demonstrando amoralidade, a chefe loura quer fazê-la pensar que foi um ato legítimo, que a própria Isabelle teria executado se estivesse em seu lugar. É a gota d'água para que uma vontade de vingança seja despertada na funcionária, e o ensejo ideal para que De Palma coloque elementos de suspense e ambiguidade que tornam Passion uma legítima trama farsesca. É bom que se lembre que, traduzido, o título do filme é Paixão, termo oriundo do grego que é, antes de mais nada, uma leitura aproximada e, por vezes, empobrecedora, de um conceito filosófico que vai muito além do desejo carnal. Tomado em uma instância mais ampla, é emoção e sentimento, para o bem e para o mal. Portanto, a escolha do diretor para o título, ainda que soe simplória aos ouvidos, é eficiente e resumitiva do quanto a narrativa está impregnada de sentimento.

Isabelle, então, quer colocar em prática um plano que faça Christine pagar por sua traição. A essa altura, o jogo sujo da chefe - que sabe usar e abusar da sua sensualidade áurea, por assim dizer - atingiu não somente o seu orgulho profissional, mas o seu coração. Esse segundo alvo, porém, não chega a ser explicitado em momento algum da trama, por mais que pareça óbvio a maior parte do tempo. E, aos poucos, De Palma vai mostrando o quanto Passion é coerente com a sua filmografia e, simultaneamente, é um sopro de renovação no que costuma fazer, por adequar seu olhar a um mundo contemporâneo em que a vigilância sobre as vidas é realidade patente. Não faltam elementos típicos do noir, que vão da fotografia de tons entenebrecidos (responsabilidade de José Luis Alcaine) ao estilo nem-tudo-é-o-que-parece, sintetizando nas figuras bipolares das protagonistas, envolvidas em um jogo de gata e rata que transborda sensualidade. A trilha sonora de Pino Donaggio, velho colaborador do cineasta, amplifica esse vigor sexy do longa-metragem, que competiu na edição 2012 do Festival de Veneza.


Como é de bom tom nos exemplares fidedignos de suspense, uma boa dose de reviravoltas está garantida em Passion. Se, de início, o público pode acreditar que toda a vilania está concentrada em Christine, esse julgamente está sujeito a oscilações e até mesmo à mudança, pelo que Isabelle vai revelando do seu caráter: teria sido ele sempre dúbio ou foi a circunstância da traição que o flexibilizou negativamente? Mais importante do que se assegurar de uma ou outra possibilidade é mergulhar nesse fio condutor que aponta para um universo no qual os fins parecem justificar os meios e um punhado de malícia pode garantir a permanência por cima. Com sua atmosfera inebriante, o filme evoca principalmente Um tiro na noite (Blow out, 1981) e Dublê de corpo (Body double, 1984), os dois grandes atestados do discipulado hitchcockiano que De Palma cultiva há tantos anos, sem se restringir a mero decalque do mestre. À diferença básica dos filmes mencionados, porém, Passion não tem espaço para o exercício da metalinguagem, ao menos não de forma tão escancarada.

Para além das autorreferências - trabalhadas pelo realizador a partir de um material alheio, é bom que se lembre -, a produção também estabelece diálogo com outros filmes de trama delirante, como o soturno Cidade dos sonhos (Muholland Drive, 2001). É bem verdade que David Lynch se abriu em muito mais devaneios que seu colega de ofício, mas não faltam a Passion o erotismo e a sagacidade que a narrativa embaralhada do longa ao qual pode ser reportado direta ou indiretamente. O longa ainda tem o mérito de ser daqueles que cresce na memória e alcança patamares mais elevados à medida que suas cenas vão sendo repassadas mentalmente, uma qualidade rara em tempos de produções requentadas e descartáveis que aportam nas salas de cinema a cada final de semana. Por outro lado, Passion também é capaz de fomentar a controvérsia, sobretudo por volta de seus vinte minutos derradeiros, que fazem de Terapia de risco (Side effects, 2013) seu primo de primeiro grau, especialmente em uma sequência determinante para as tramas de ambos. E quem diria que poderia haver diálogo entre Brian De Palma e Steven Soderbergh nessa história tão vagabunda e, ao mesmo tempo, tão sofisticada?

terça-feira, 5 de novembro de 2013

BALANÇO MENSAL - OUTUBRO

Vamos direto ao ponto: o mês de outubro veio com mais uma nota 10, destinada para o italiano A grande beleza, retorno de Paolo Sorrentino à sua terra natal depois de uma passagem por Hollywood. Emulando Fellini, o diretor passeia por cores, sons, hábitos e ideologias de uma Itália contemporânea, fazendo valer cada minuto diante da tela. Outubro também trouxe algumas bombas, como o patético Os encontros da meia-noite, estreia na direção de Yann Gonzalez, cujo ímpeto de gerar inquietação deixa tudo com gosto muito duvidoso. Fazendo companhia a esse desastre, estão Aposta máxima, coletânea de erros assinada por Brad Furman, e Obsessão, novo de Lee Daniels que tem Nicole Kidman e John Cusack em desempenhos constrangedores.

A seguir, a relação completa dos filmes vistos em outubro com notas e breves impressões:

LONGAS:
1. O passo suspenso da cegonha (1991) - Sob os escombros de uma vida, existem muitas histórias guardadas. Angelopoulos é o cineasta dos planos grandiosos musicados por acordes enternecedores. 8.0

Blue Jasmine (2013)
2. Blue Jasmine (2013) - Os anos passam e Allen continua afiadíssimo, unindo comédia e toques corrosivos de um jeito só seu. Blanchett e Hawkins estão fantásticas. 9.0 

3. Gravidade (2013) - Tensão sideral. 9.0

4. A garota de lugar nenhum (2012) - Uma porta se abre: entra o desconhecido, que não traz consigo todas as respostas. Crer e criar se confundem no olhar de Brisseau. 8.0

5. Suspensão da realidade (2012) - Sufocante, estiloso e sagaz, invoca David Lynch com seu mistério de toques oníricos. Vários achados se espalham pela narrativa intrincada. 8.0

6. Os encontros da meia-noite (2013) - Tremenda piada de mau gosto sobre as variantes do prazer combinada a um existencialismo grotesco. Do mesmo naipe de um Dolan da vida. 3.0

O imigrante (2013)
7. O imigrante (2013) - Gray segue filmando à moda antiga e oferece mais uma tragédia cinzenta à sua carreira. Com poucas reviravoltas, discorre sobre o perdão e o amor ao recomeço. 8.5 

8. A gatinha esquisita (2013) - "- Elefante rosa quer voar". "Espera, tenho que alimentar as galinhas primeiro". 7.0

9. Backwater (2013) - Com pouco a dizer, o cineasta escorrega em algumas redundâncias. Ainda assim, desperta interesse por observar o estado de confusão de um jovem lidando com a urgência do crescimento. 7.0

10. Fading gigolo (2013) - Turturro embebido em influências allenianas, a começar pelo próprio Allen marcando presença em cena. Uma delícia de comédia à qual não faltam boas tiradas e carisma. 8.0

11. The canyons (2013) - Sexo e decadência na Hollywood contemporânea, terra do hedonismo a qualquer preço e da beleza opaca. Em seu conjunto, um filme genérico e de elenco mediano. 7.0

Serra Pelada (2013)
12. Serra Pelada (2013) - Ouro de tolos. 7.5 

13. Apenas Deus perdoa (2013) - Refn expõe a violência com desconcertante placidez e silencia seus personagens a maior parte do tempo em prol da imagem. Toda a trama, em rotação vagarosa, poderia ter sido resolvida em um média-metragem. 7.0

14. A grande beleza (2013) - Quando uso o termo "filmaço", é a um desses que estou me referindo. Sorrentino genializando. 10.0

15. Frances Ha (2012) - Um filme que é a sua protagonista: irritante, carinhoso, desengonçado e síntese de uma geração que ainda não se adaptou ao mundo de escolhas que é a vida. 7.0

16. Only lovers left alive (2013) - Jarmusch velho de guerra, com toda a tranquilidade para desfiar suas idiossincrasias e brincar com um punhado de referências, alternando momentos de tédio e diversão de seus personagens seculares. 8.0

17. Atriz milenar (2001) - Um mergulho em um universo complexo de memórias e sobreposições temporais que contam uma história forte e marcante. Realidade e ilusão voltam a se confundir e pedem muita atenção ao jogo cênico arquitetado na mente criativa de Kon. 8.5

O clã das adagas voadoras (2004)
18. O clã das adagas voadoras (2004) - Esbanja apuro visual e abre espaço a certos ingredientes novelescos um tanto desabonadores. As surreais cenas de batalha enchem os olhos. 7.0

19. Ato final (1971) - O ato final é de arrepiar. 9.0

20. Terra firme (2011) - Uma Itália para além dos cartões-postais e a arte imitando a vida. Como Aki Kaurismaki, Crialese discute o desconforto europeu com a imigração ilegal africana. 7.0

21. Os suspeitos (2013) - Bem arquitetado narrativamente, traz reviravoltas críveis e uma escalação de elenco acertada, sobretudo Gylenhaal e Leo, os mais exigidos pelo roteiro. A fotografia cinzenta de Roger Deakins é outro ponto positivo. 8.0

22. Cléo de 5 às 7 (1962) - A poesia singela do quotidiano, o gesto apaixonado, o carinho sincero, a beleza de Corinne Marchand. 8.0

23. Machete (2010) - É Rodriguez botando pra quebrar e entretendo com a sua violência cartunesca. 8.0

24. A hora mais escura (2012) - Busca na realidade a matéria-prima para um filme em que paranoia, obsessão e arrogância caminham lado a lado em um vaivém exaustivo. Chastain está bem, mas a indicação ao Oscar foi um exagero. 5.0

Passion (2012)
25. Passion (2012) - Um labirinto de emoções construído com requinte e elegância. A cada novo desdobramento, uma surpresa resfolegante. 9.0 

26. Contos da noite (2011) - Variações de histórias de coragem em tempos diversos e um traço minimalista encantador. Dialoga com crianças e adultos e evoca o poder criador do Cinema. Lindíssimo exemplar de animação. 9.0

27. Aposta máxima (2013) - Uma bomba, senhores. O roteiro é banal e com ironias para otários, a canastrice reina, as escolhas estéticas são pífias, entre outros elementos que o desqualificam mesmo como passatempo. 4.0

28. Roma, cidade aberta (1945) - Um filme emblemático que, apesar do ritmo irregular, oferece passagens de reflexão oportuna. Rossellini foi corajoso ao revolver uma ferida ainda tão recente à época. 7.0

29. Obsessão (2012) - A começar pela direção desleixada, é um desastre em várias frentes. Sobram momentos constrangedores e uma pretensão de causar impacto. Como se não bastasse, Kidman e Cusack estão caricaturais. 4.0

30. Pagando bem, que mal tem? (2008) - A rima do título nacional é podre, mas até que o filme em si traz momentos divertidos. Smith gosta de unir sarcasmo e coração e a receita, longe de ser original, vale o tempo diante da tela. 6.5

31. Le passé (2013) - Tão somente os conflitos humanos, os acúmulos de uma vida, os interiores desnudados suavemente e os muitos pontos de vista sobre um mesmo estado de coisas. 8.5

32. Harakiri (1962) - Um épico intimista de força descomunal. 9.0
O castelo de Cagliostro (1979)

33. O castelo de Cagliostro (1979) - Emoção e aventura no melhor estilo Miyazaki. Partindo de uma premissa clássica, a narrativa envolve com magia deliciosa e torcer pelos personagens é quase inevitável. 8.0

34. Os cowboys de Leningrado vão para a América (1989) - Com seus topetes inacreditáveis, esses caubóis promovem o casamento entre o irônico e o surreal e esbanjam carisma desastrado. Comédia das ótimas! 9.0

35. Invocação do mal (2013) - Horror genuíno: atmosfera sufocante, noites traiçoeiras, sobressalto, simbolismos e muitos sustos. O mal existe e continua agindo, como sintetiza a frase final de Ed, que aproxima Cinema e realidade (e que baita edição de som...). 8.5

36. Laços de ternura (1983) - No quesito interpretações, o público está muito bem servido, inclusive pelas crianças. Quanto ao roteiro, um pouco menos de melancolia e prolixidade teria caído melhor, e é uma pena que Brooks tenha vencido Bergman naquele ano. 7.0

37. Irma Vep (1996) - Cinema como arte ou como indústria? A instigante discussão é entrecortada pelos bastidores tumultuados do filme dentro do filme e costurada por toques de ironia. Algumas escolhas, porém, ofuscam o que poderia ter mais brilho. 7.5

38. É o fim (2013) - Sem se levar a sério um minuto sequer, detona um arsenal de piadas e referências que não livram a cara de nenhum dos envolvidos no projeto. O escracho e a escatologia também foram convidados para a reunião. 7.0

39. O capital (2012) - As mentiras que o capitalismo conta. 8.0

CURTAS: 

Cavalette (1991) - Milhares de anos de História em traços simples e diretos. Piscou, perdeu a alusão. 7.5

Squamata (2012) - Ideia simpática e realizada com minimalismo. Nada que vá mudar a vida, mas um caso a se pensar. 7.0

O conde gostou da coisa (1970) - Puro devaneio amador. 6.0

O grande roubo do trem (1903) - Em 1903, andar de trem era um perigo com esse quarteto à solta por aí! 8.0

Junkopia (1981) - A estranheza visitando o cotidiano e chamando a atenção por seu mistério. 7.0

O pequeno caos (1966) - O 'enfant terrible' Fassbinder abre-alas para o Kubrick de 'Laranja mecânica' e partilha de algumas diretrizes da Nouvelle Vague cheio de marra. 8.0

MELHOR FILME: A grande beleza
PIOR FILME: Os encontros da meia-noite
MELHOR DIRETOR: Paolo Sorrentino, por A grande beleza
MELHOR ATRIZ: Cate Blanchett, por Blue Jasmine
MELHOR ATRIZ COADJUVANTE: Sally Hawkins, por Blue Jasmine
MELHOR ATOR: Toni Servillo, por A grande beleza
MELHOR ATOR COADJUVANTE: Jake Gylenhaal, por Os suspeitos
MELHOR ROTEIRO ORIGINAL: Woody Allen, por Blue Jasmine
MELHOR FOTOGRAFIA: Emmanuel Lubeski, por Gravidade
MELHOR TRILHA SONORA: Brian Copenhagen, por Blue Jasmine
MELHOR CENA: O plano de abertura de Gravidade
MELHOR FINAL: Only lovers left alive
MENÇÕES HONROSAS: Blue Jasmine, Gravidade, Contos da noite, Ato final, Passion

sexta-feira, 1 de novembro de 2013

50 diretores essenciais (parte 5)

A seleção de 50 realizadores cujas obras merecem a atenção de qualquer cinéfilo chega ao fim. Com esta quinta parte, fica à disposição um vasto universo de possibilidades de estilos, olhares, recortes e resultados. A escolha fica sempre por conta do espectador e, não necessariamente, haverá concordância plena com todas as escolhas, sem falar que, para se chegar a somente 50 nomes, é necessário enxugar bastante e deixar vários cineastas de fora. Mas... esse é o ônus de toda lista, bem como a razão da sua dificuldade.

Sendo assim, vamos aos 10 últimos eleitos que, os demais, não estão dispostos em ordem de preferência, à exceção do primeiro lugar, meu favorito indiscutível até aqui. As partes anteriores podem ser acessadas mais facilmente pelos links abaixo.


41. Luchino Visconti (1906 - 1976)


Mais um representante da era áurea da cinematografia italiana, Visconti foi responsável por assinar o marco inaugural do neorrealismo, que consistia em tramas ambientadas nas regiões menos glamourosas do seu país vivenciadas por gente comum, encarnada por atores não profissionais. Por outro lado, também adentrou os aposentos da burguesia perto do seu nascedouro, flagrando suas contradições e suas debilidades. Seu filme mais famoso, O leopardo, traz uma frase que sintetiza o espírito de várias épocas: "É preciso mudar para que as coisas permaneçam exatamente como estão".

PRINCIPAIS FILMES: Obsessão (1943), Rocco e seus irmãos (1960), O leopardo (1963).

42. Andrei Tarkovsky (1932 - 1986)


Cineasta de reflexões herméticas, esse russo convida a um mergulho sem precedentes no interior humano e na depuração constante do tempo, que atravessa qualquer relacionamento. Seus filmes exigem olhos bem abertos - leia-se, é preciso estar muito acordado - e assistir a eles somente uma vez não é o bastante. Tarkovsky estuda as chagas nas emoções, o valor de cada milissegundo, a angústia da solidão a que todos estamos fadados, em maior ou menor grau. Quase 30 anos depois de seu falecimento, sua obra continua firme como um monólito misterioso, ao alcance de ser tocado, mas de desvendamento penoso.

PRINCIPAIS FILMES: O espelho (1975), Stalker (1979), Nostalgia (1983), O sacrifício (1986).

43. Heitor Dhalia (1970 - )


A lista precisava de um representante brasileiro, mas ele não está aqui simplesmente para preencher cota. Seu talento é inversamente proporcional à sua filmografia, constituída de apenas quatro títulos até aqui. Em cada um, vem explorando diferentes nuances de dramaticidade e apresentando lados mais ou menos palatáveis do homem. Do fascínio por uma bunda, passando pela inquietude adolescente que deixa caminhar a esmo, à ganância que abala uma sólida amizade, seus filmes trazem um sopro de renovação ao Cinema nacional, sobretudo por deslocar o eixo de discussão sobre as mazelas do país, deixando de lado as favelas e buscando cenários menos insalubres e, nem por isso, menos problematizáveis.

PRINCIPAIS FILMES: O cheiro do ralo (2006), À deriva (2009), Serra Pelada (2013).

44. Alain Resnais (1922 - )


Um dos realizadores mais velhos em atividade - só perde para Manoel de Oliveira - Resnais gosta de relembrar o quanto o Cinema é um poderoso simulacro, no qual emoções e eventos podem se misturar de tal forma que se tornam praticamente indivisíveis, assim como é um repositório da memória, tanto passível de simular quanto o próprio Cinema. Nos últimos anos, tem se dedicado a mostrar também o alto grau de artificialidade a que as relações humanas têm chegado, traduzida especialmente por uma fotografia de cores berrantes e cenários esfumaçados. Não costuma filmar seus próprios roteiros, e se apropria dos textos alheios com habilidade inenarrável. Sua musa é a ruiva Sabine Azéma.

PRINCIPAIS FILMES: Hiroshima, mon amour (1959), Ano passado em Marienbad (1961), Medos privados em lugares públicos (2006), Ervas daninhas (2009).

45. James Gray (1969 - )

Falando em ruivos, aqui está um diretor representante dessa parcela tão rara da população. Em suas tramas, há um misto de violência scorsesiana com ópera viscontiana, uma conjunção que, por mais improvável que venha a soar em um primeiro momento, funciona maravilhosa e harmonicamente. A despeito dessa filiação imponente, esse novaiorquino imprime assinatura pessoal e brinda seu público com tramas simples que abarcam a complexidade de se escolher entre a segurança e a aventura, entre o relativo conforto da ambiguidade e a dureza de se assumir apenas um lado. Também é de currículo curto, mas já fez por merecer um lugar entre os essenciais.

PRINCIPAIS FILMES: Os donos da noite (2007), Amantes (2008), O imigrante (2013).

46. Valerio Zurlini (1926 - 1982)


Para a crítica, Zurlini era o "poeta da melancolia". Ao se entrar em contato com seus filmes, a afirmativa pode ser tomada como verdadeira, pois que os personagens que os compõem experimentam diferentes gradações de tristeza, mas não resvalam no dramalhão. São histórias de relações familiares, de amores complicados e da constatação do quanto é difícil saber se colocar em palavras diante do outro. Era impressionante sua capacidade de gerar consternação, e se deixar levar por suas narrativas calmas e clássicas é uma grande e intensa experiência.

PRINCIPAIS FILMES: Verão violento (1959), A moça com a valise (1961), Dois destinos (1962).

47. Mike Nichols (1931 - )


Traquejo para abordar os relacionamentos amorosos não faltam a Nichols, um veterano cuja ambição passa pelas mentiras e vaidades que assolam esse terreno que é sempre multifacetado. Diretor de atores como pouquíssimos, também sabe filmar a encenação de conflitos atemporais, sejam os internos, sejam os externos e os compartilhados entre parceiros que, ora se amam, ora se repelem. Sua obra-prima - ao menos, dentre as que já vi - é Closer - Perto demais, uma radiografia incômoda sobretudo pelo seu efeito especular, em que o egoísmo e outras fraquezas rondam os amores e tornam seu fracasso apenas uma questão de tempo. Um olhar pessimista, é verdade, mas no qual há casais que se encaixem.

PRINCIPAIS FILMES: A primeira noite de um homem (1967), Ânsia de amar (1971), Closer - Perto demais (2004).

48. Jean-Pierre Dardenne (1951 - ) e Luc Dardenne (1954 - ) 


Os rótulos podem ser empobrecedores, mas o que costumam dar a esses irmãos belgas não poderia ser mais abrangente: o de cineastas do humanismo. Atingindo um elevado patamar de realismo, a dupla perscruta os sentimentos mais submersos que vão no coração de uma criança, sua dificuldade de entender um mundo que se ergue codificado por muitas contradições e silêncios desoladores. Como tantos diretores, têm seu ator predileto: Jérémie Renier, presente em quase todos os seus filmes, que encarna tão bem a figura do jovem adulto irresponsável que é mais uma engrenagem de um ciclo nefasto de abandono. Preferem abrir mão de uma trilha sonora a maior parte do tempo e deixam as situações falarem por si sós.

PRINCIPAIS FILMES: O filho (2002), A criança (2005), O silêncio de Lorna (2008), O garoto da bicicleta (2011). 

49. Karim Ainöuz (1966 - )


Mais um nome brasileiro que tem méritos suficientes para constar da lista. Fascinado pela estrada e pelo deslocamento dos que se sentem deslocados, o cearense trouxe de volta as cores nordestinas, roubadas pela insistência isomorfista da televisão, que também passa pelos sotaques. Para ele, a viagem é tão ou mais importante que a chegada, pelo que permite de epifanias e pequenas revoluções interiores, que se processam a duras penas e chegam sem que seus personagens se deem conta delas exatamente no momento em que estão acontecendo. De sua parceria com Marcelo Gomes, surgiu uma das pérolas de nosso tempo, belo e triste até no título, retirado de uma frase de caminhão.

PRINCIPAIS FILMES: O céu de Suely (2006), Viajo porque preciso, volto porque te amo (2009), O abismo prateado (2011).

50. Aleksandr Sokúrov (1951 - )


Tão longe de nós e tão perto, Sokúrov é de uma ambição visual atordoante. Seus filmes primam por fotografias esmeradas, que podem ser de tons sépia ou acinzentados, um invólucro todo especial para histórias de sentimentos confusos, de espasmos visuais e de percursos históricos deslumbrantes. Mas a estética não é o seu único ponto positivo: cada enredo vai a fundo nas emoções e concede momentos únicos. Costuma acertar na maioria das vezes e faz por onde manter a Rússia entre as pátrias de grandes realizadores, tendo conterrâneos de peso a quem, por vezes, se reporta.

PRINCIPAIS FILMES: Arca russa (2002), Pai e filho (2004), Fausto (2011).