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quinta-feira, 24 de outubro de 2013

50 diretores essenciais (parte 4)

O especial sobre os realizadores que, no meu olhar, são fundamentais a qualquer cinéfilo ou entusiasta do Cinema, chega à sua penúltima parte. A essa altura, os poucos critérios que vêm norteando as minhas escolhas já foram explicitados. Reitero apenas que não há qualquer ordem ou hierarquia entre os nomes listados, exceto pelo primeiro lugar, ocupado pelo meu diretor preferido de fato. É bom lembrar também que a proposta dessa lista é não somente mencionar realizadores de apreço autenticado junto a público e crítica, mas chamar a atenção para alguns menos badalados cujas obras estão por descobrir para a maioria. Os 30 nomes anteriores podem ser conferidos nos links abaixo. Logo em seguida, os nomes desta quarta parte.


31. Lars von Trier (1956 - )


Poucos diretores em atividade provocam tanta controvérsia quanto este dinamarquês, contra quem a principal a acusação que pesa é a de misoginia, exercitada em vários dos exemplares de sua filmografia. Polêmicas à parte, a obra de von Trier vale a visita pelas qualidades que apresenta, a começar pela sua direção firme, decidida quanto ao ponto a que deseja chegar. São filmes que mergulham no oceano profundo da angústia humana, do extremo desconforto com a nossa condição de transeuntes do mundo.. Em seus dois últimos trabalhos, a abordagem desses tópicos se aliou a um refinamento visual notável, traduzida por planos belíssimos.  A grande derrapada aconteceu em sua incursão na comédia, terreno onde ainda pisa com insegurança.

PRINCIPAIS FILMES: Dançando no escuro (2000), Dogville (2003), Manderlay (2005), Melancolia (2009). 

32. Christophe Honoré (1970 - )


Os encontros e desencontros do coração são o foco de Honoré. As pulsões erótico-sentimentais dos seus protagonistas são musicadas por canções ao mesmo tempo romanceadas e honestas sobre o amor. Há quem o aponte como um dos tributários da Nouvelle Vague, uma observação que tem seu fundamento, já que seus filmes demonstram uma busca por espaços arejados onde jovens apaixonados se acham e se perdem. Louis Garrel é seu ator-assinatura, que se encaixa perfeitamente nos tipos blasé e ora sofre, ora faz sofrer por amor em tramas simples e de identificação fácil.

PRINCIPAIS FILMES: Em Paris (2006), Canções de amor (2007), A bela Junie (2008). 

33. Ethan Coen (1957 - ) e Joel Coen (1954 - )


A vida não tem o menor sentido. Diante dessa afirmação, os acontecimentos mais inesperados surgem com a maior naturalidade, afetando o cotidiano de personagens ordinários em sua (a)normalidade, a depender do ponto de vista. Pelo menos, é o que se vê nos filmes dos Coen. A dupla nascida no Minnesota consegue, na maioria das vezes, equilibrar projetos muito pessoais, como a semiautobiografia não assumida Um homem sério, com a releitura de um clássico, como fizeram com Bravura indômita. E a assinatura inconfundível desses irmãos é representada pela ciranda de erros de suas tramas que, quando não são banhadas com um adorável humor negro, invocam um lado sombrio e temerário do homem comum.

PRINCIPAIS FILMES: Gosto de sangue (1986), O grande Lebowski (1998), O homem que não estava lá (2001), Onde os fracos não têm vez (2007), Queime depois de ler (2008), Bravura indômita (2010).

34. Billy Wilder  (1906 - 2002)


Ainda hoje, Wilder segue como um maravilhoso exemplo de realizador que conseguia passear com elegância e competência por gêneros diversos, deixando inúmeras provas de versatilidade em sua filmografia apetitosa. Ele deixa saudades por ter brindado o espectador com histórias bem amarradas que exploram ambientes, situações e aspectos diversos da natureza humana, sabendo a dose exata de riso, lágrimas e emoções. Se o trabalho de um diretor é entregar ao menos um grande e inesquecível filme, o polonês radicado nos Estados Unidos foi muito além e deixou como legado muitas obras memoráveis, estreladas pela fina estirpe de intérpretes disponíveis à sua época.

PRINCIPAIS FILMES: Crepúsculo dos deuses (1950), Sabrina (1954), Quanto mais quente melhor (1959), Se meu apartamento falasse (1960).

35. Steven Spielberg (1946 - )


Cinema é, antes de tudo, entretenimento. A possibilidade de essa arte servir como plataforma para a reflexão não nasceu junto com ela, e Spielberg elegeu como norte de seus trabalhos a propriedade ou função original que essa arte tem. Dito isso, não há qualquer demérito intrínseco em sua filmografia extensa e pródiga em oferecer exemplares de aventura, suspense, drama e ficção científica, cujos fracassos são casos isolados. Para além dessa qualidade, sua obra é a porta de acesso para muitos cinéfilos em potencial sentirem explodir uma paixão latente pela arte, e não faltam casos de pessoas que devem sua cinefilia ao contato com Spielberg ainda na infância. Por essas e outras, ele merece lugar nessa lista.

PRINCIPAIS FILMES: E.T. - O extraterrestre (1982), Jurassic park - Parque dos dinossauros (1993), Prenda-me se for capaz (2002), O terminal (2004), Munique (2005).

36. Philippe Garrel (1948 - )


Em atividade há mais de quarenta anos, Garrel pai segue restrito a círculos muito específicos de cinéfilos, o que se configura como um tremenda injustiça. Ele é o poeta do tédio e da imprecisão, dos desarranjos sentimentais que impelem os indivíduos à busca pelo idílio rompido, um processo que sempre se dá a duras penas. Tal qual Honoré, elege Louis Garrel - seu filho na vida real - como protagonista habitual e tem predileção pelos tons de cinza, filmando quase sempre em preto e branco e dando a seus longas-metragens uma aura de clássicos instantâneos. Veneza já constatou seu talento, e lhe concede espaço em sua seleção oficial quase invariavelmente, além de prêmios como o Leão de Prata pela direção de Amantes constantes.

PRINCIPAIS FILMES: O nascimento do amor (1991), O vento da noite (1999), Amantes constantes (2004), A fronteira da alvorada (2008), Um verão escaldante (2011).

37. Akira Kurosawa (1910 - 1998)


Apontado por muitos como o mais ocidental dos cineastas japoneses, Kurosawa ultrapassou esses determinismos geográficos com filmes que dialogam com a alma pelo que trazem de universal. Guerreiros incansáveis deparam com ameaças potentes em suas batalhas, suplantam o medo e partem em direção ao novo e desconhecido nas histórias que trazem seu nome nos créditos de direção. E não se pode esquecer ainda sua habilidade para cuidar dos aspectos técnicos, como a edição de som caprichada de épicos como Os sete samurais, ou os planos estonteantes de Rashomon. Também não lhe faltava sensibilidade para enredos intimistas, como exemplifica o terno Viver.

PRINCIPAIS FILMES: Rashomon (1950), Viver (1952), Os sete samurais (1955), Trono manchado de sangue (1957).

38. Terrence Malick (1943 - )



Recluso até dizer chega, esse é diretor é para todos e para poucos ao mesmo tempo. Dedicado à exploração dos vácuos que assolam as relações humanas e da nossa pequenez diante da imensidão do universo, Malick entrega filmes que despertam sentimentos extremos, como o amor e o desprezo. Suas idiossincrasias compreendem filmar quase na surdina e recrutar atores que, não necessariamente, têm seus respectivos personagens mantidos na versão final dos filmes, além das ausências sistemáticas em premiações, que só fazem reforçar uma certa aura mística ao seu redor. Há poucos anos, a Academia praticou justiça ao indicar seu monumental A árvore da vida na categoria principal, além de reconhecer seu trabalho com uma nomeação para melhor diretor. 

PRINCIPAIS FILMES: Cinzas do paraíso (1978), Além da linha vermelha (1998), A árvore da vida (2011), Amor pleno (2012).

39. Abbas Kiarostami (1940 - )


Longos diálogos travados nos interiores de carros são a especialidade deste iraniano, que também gosta de investigar as incongruências dos relacionamentos, sejam amorosos, sejam de amizade. Kiarostami não exibe a pretensão das análises fechadas: antes, prefere descortinar um lugar escondido de sua terra natal e dali extrai o que há de mais comum a qualquer pessoa. Mais recentemente, expandiu também literalmente as fronteiras de seu cinema e rodou duas gemas consecutivas, passeando pela Itália e pelo Japão, demonstrando ser herdeiro de grandes realizadores que também tinham como leme essas questões inquietantes e, por tantas vezes, assombrosas. Sem falar na sua acuidade para brincar o discurso metalinguístico, no melhor estilo "confundindo para explicar e explicando para confundir".

PRINCIPAIS FILMES: Através das oliveiras (1994), Gosto de cereja (1997), Cópia fiel (2010), Um alguém apaixonado (2012).

40. Ingmar Bergman (1918 - 2007)


"O cineasta da alma". Quem pode tirar esse título de Ingmar Bergman? Resumitivo e, ao mesmo tempo, de uma amplitude abissal, ele joga luz sobre um homem que fez de seus vários demônios internos a base para filmes que visitam os desertos sentimentais, os pensamentos embaralhados, a confusão identitária, o descompasso entre vontade, verdade e realidade e tantos outros temas que rondam a quaisquer mortais. Um filme é sempre menor do que a vida de uma pessoa, mas Bergman chegou muito perto de encampá-la com suas escavações em forma de filme. Há sempre mais a se dizer e a se descobrir em sua obra, que fala e incomoda por si só.

PRINCIPAIS FILMES: Juventude (1951), Sorrisos de uma noite de amor (1955), O sétimo selo (1957), Morangos silvestres (1957), A fonte da donzela (1959), Persona (1966), A hora do lobo (1968), A paixão de Anna (1969), Gritos e sussurros (1972), Cenas de um casamento (1973), Sonata de outono (1978).

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