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domingo, 20 de julho de 2014

Tenebre e a perversa subversão de expectativas

Em se tratando de filmes de suspense, todo espectador, mais cedo ou mais tarde, acaba caindo na tentação de bancar o detetive, antecipando-se à resolução do mistério posto em cena. Por que haveria de ser diferente com Tenebre (idem, 1982)? Fazendo por onde merecer a etiqueta do gênero, ainda que incorpore elementos de outros, o longa-metragem tem a vibrante direção de Dario Argento. Aliás, é quase impossível classificar um filme apenas como suspense, drama ou comédia, o que se tem são elementos sobressalentes desse ou de outro gênero coexistindo com outros menos explícitos. Pois bem. Se o suspense triunfa nesse enredo simples de se resumir, é bom aguçar o faro sherlockiano, porque seus desdobramentos são constantes puxadas de tapete no público. 

Tudo orbita ao redor de Peter Neal (Anthony Franciosa), um escritor de romances gialli - famoso gênero polialesco nascido na Itália - que viaja a Roma para promover seu mais novo livro. Sua fiel assistente Anne (Daria Nicolodi) fica sabendo que ele está sendo alvo de estranhos telefonemas em que uma voz masculina recita trechos de seus livros em tom ameaçador, como se os tornasse fonte de inspiração para cometer crimes. O teor metalinguístico da narrativa é demonstrado logo no plano de abertura, em que alguém lê uma página de um dos livros em voz alta e depois a rasga - seria a mesma pessoa que atormenta Peter com ligações anônimas? E não para por aí: todo o filme é alicerçado nessa base e destaca a habilidade de Argento para brincar com a percepção da audiência a respeito do trânsito dos personagens e suas atitudes mais ou menos suspeitas.

Quanto menos se sabe previamente a respeito da trama de Tenebre, melhor. É o tipo de filme em que a descrição de uma simples cena pode entregar de bandeja informações muito importantes; por outro lado, assistir a essas cenas pode trazer muitas dúvidas, já que toda hora as aparências comprovam o quanto são ilusórias. Algumas, porém, valem ser comentadas por sua engenhosidade, como é o caso do plano milimetricamente arquitetado do assassinato de duas mulheres que mantinham um romance. A maneira como Argento posiciona a câmera, perscrutando cada detalhe da casa em que elas moravam até que o assassino conclua seu crime sem o menor empecilho, pode facilmente ser adjetivada como genial. Passeando pelos cômodos, subindo no telhado, mirando espelhos, essa observadora soturna é pura expressão do talento de um realizador que fez do medo e do sobressalto as forças motrizes de suas obras, aliando luzes, sombras e movimentos rodopiantes a elas, como faz tão bem aqui.


Tenebre marcou o retorno de Argento ao giallo, do qual andava distante enquanto investia em produções com toques sobrenaturais. Seus fãs pediam essa retomada e ele atendeu com uma perigosa brincadeira de gato e rato que desafia a todo que tentar se manter um passo à frente dos personagens. Em dado momento, Peter se embrenha na tentativa de descobrir a identidade do criminoso, e fica bem claro que ele não o faz por carregar qualquer traço de heroísmo em seus genes, mas a fim de livrar a cara antes que se torne o suspeito mais óbvio. É um detalhe interessante que o reveste de uma forte humanidade e contribui consideravelmente para acionar a cumplicidade da plateia, igualmente empenhada em responder a pergunta que não quer calar. Nesse percurso, não faltam mortes aterrorizantes em que os jorros de sangue e os gritos tétricos sintetizam: este é um filme de Argento.

Todo bom suspense se apoia também em uma trilha sonora eficaz, e Tenebre não é exceção à regra. Pontuado por músicas estranhamente dançantes, o longa tem esse aspecto técnico a cargo de três nomes: Massimo Morante, Fabio Pignatelli e Claudio Simonetti, embora todos assinem apenas seus sobrenomes e pareçam um só. Presente inclusive na supracitada sequência do duplo assassinato, ela potencializa o pavor ao mesmo tempo em que convida à dança, configurando o que se pode chamar de balé macabro. É mais um ponto para Argento, que encontrou em sua própria vida a inspiração para o filme, cujo roteiro também é de sua autoria. Segundo ele, no início dos anos 80 um fã obsessivo o atormentou com perseguições, telefonando-lhe diariamente até confessar que desejava matá-lo. Posteriormente resolvida, a situação lhe valeu um de seus melhores filmes, que evoca o voyeurismo à moda hitchcockiana e ainda exibe identidade visual autônoma para embevecer os fãs de histórias bem contadas, para além dos rótulos de gênero.

8/10

segunda-feira, 14 de julho de 2014

Sob a pele e os dilemas de existir em um corpo mortal

“Eu não queria estar na pele dela numa hora dessas”. Provavelmente, todo mundo já disse essa frase uma vez na vida, e ela costuma vir acompanhada de um alívio interno que, em última instância, é reflexo de um egoísmo perante o sofrimento alheio. A protagonista de Sob a pele (Under the skin, 2013) experimenta um mundo de sensações uma vez que se reveste todo o seu corpo com esse que é o maior órgão do corpo humano. Alienígena vinda de um planeta desconhecido, seu exterior é belo e atraente – o papel foi entregue a Scarlett Johansson, mas ela pouco ou nada sabe a respeito da condição humana, e esse é fio condutor do longa-metragem de Jonathan Glazer, de cujo currículo pregresso constam apenas dois títulos: Sexy beast (idem, 2000) e Reencarnação (Birth, 2004). 

Após um hiato de nove anos, o realizador inglês adaptou o romance homônimo de Michel Faber, dividindo a responsabilidade do roteiro com Walter Campbell, e concebeu um filme essencialmente imagético, atravessado por elipses que o transformam em uma espécie de iguaria a ser degustada. Entretanto, não é para todos os gostos. Trata-se de um típico “ame ou deixe-o”, na linha do que alguns diretores fazem ao longo de suas carreiras. Ao praticamente abrir mão de um eixo narrativo, concentrando-se “apenas” nas experiências sensoriais do ser de outro planeta (nomeada Laura nos créditos), Glazer fez de Sob a pele um exercício de observação paciente que não menospreza a inteligência de sua plateia, abrindo-se a leituras e preenchimentos diversos, como cabe aos grandes filmes. Entre as conclusões possíveis, está a de que Laura é muito mais próxima de nós do que pode parecer, na medida em que enfrenta a complexidade humana tentando entender todas as implicações que isso traz.

Entre espectadores e críticos, levantaram-se comparações entre o que Glazer faz e a oferta de uma experiência introspectiva usualmente praticada por cineastas como Andrei Tarkovsky e Michelangelo Antonioni. Há um certo exagero em tais comentários, mas eles não são de todo descartáveis. Como o diretor russo, ele apresenta imagens alegóricas; como o italiano, mergulha no silêncio. Todavia, constrói outros signos que não o mantêm atrelado a esses grandes referenciais pregressos, e deixa respirar e arrefecer segundo a perspectiva do espectador/experienciador. Quando atrai suas vítimas ao que parece um ritual de acasalamento, desfila sua em um cenário completamente negro, e essa ausência total de elementos cênicos faz lembrar Dogville (idem, 2003), a cidade inteiramente sugerida que dá nome ao filme de Lars Von Trier. É um misto de ficção científica e suspense, e a trilha sonora de Mica Levi – compositor estreante na função em Cinema – não deixa mentir quando à presença do segundo gênero.


Um outro detalhe muito interessante de Sob a pele é a oportunidade de contemplar Johansson como se houvesse todo o tempo do mundo para isso. Se em Ela (Her, 2013) fomos brindados unicamente com sua voz, emprestada ao programa de computador Samantha, aqui ela enche os olhos do público – sua nudez frontal foi um dos aspectos mais comentados do filme, e surge como parte da experiência de sua personagem enquanto vive sob a forma humana. Sua voz quase não é ouvida, em razão dos pouquíssimos diálogos que trava com interlocutores desconhecidos, daí a predominância de seu visual, dessa vez moreno. É uma história de descoberta, da dificuldade em verbalizar o que se sente, da estranheza diante do mundo, dos caminhos tortos percorridos no relacionamento com o outro, do incerto e do maravilhoso.

Se o Cinema, sobretudo o hollywoodiano, especializou-se em retratar seres de outros planetas como vidas muito mais inteligentes do que nós, Sob a pele vai na contramão dessa perspectiva e inunda a tela com o olhar curioso e perdido de Laura. Não há explicações nem respostas prontas, apenas perguntas que ecoam indefinidamente: por que vir à Terra? Por que escolher apenas homens? Houve um tempo de estudo sobre a nossa espécie antes de chegar? São apenas algumas entre várias indagações que podem assomar no espectador, mas que também podem se diluir à medida que as imagens vão sucedendo. O que está em jogo, para além de quaisquer dúvidas particulares, é a dificuldade que ora se esconde, ora se explicita nessa pele que todos habitamos.

8.5/10

terça-feira, 8 de julho de 2014

O confronto entre pureza e castração em Dersu Uzala

Houve quem dissesse que Akira Kurosawa foi o mais ocidental dos diretores do Ocidente. É uma afirmação categórica que, talvez, esbarre em contraexemplos surgidos após um exame mais detalhado dos vários realizadores do lado direito do mapa-múndi. Seria preferível dizer que se trata de um dos cineastas que mais aproximou sua obra de uma universalidade, abordando temáticas que alcançam um vasto público, ainda que sua condução possa afastar os espectadores mais afeitos ao frenesi visual e/ou narrativo. Entre tantos títulos de sua filmografia preciosa, Kurosawa nos legou Dersu Uzala (idem, 1975), em que discute a velha oposição entre os ambientes rural e citadino através de seu personagem-título, um idoso que vive como eremita nas gélidas paisagens russas, uma escolha que soa absurda para a maioria dos habitantes da selva urbana. 

De início, sabemos pouco a seu respeito, e muito do que está por vir ao longo de mais de 120 minutos de projeção é transmitido sob o filtro afetivo do olhar do capitão Vladimir Arseniev (Yuri Solomin), que relembra os anos de amizade com Dersu (Maksim Munzuk) ao retornar a um dos locais por que passaram em suas várias expedições frio adentro. Esse é o outro eixo sobre o qual o longa se baseia: a força e a importância do carinho em todas as horas. Depois de se conhecerem quase por acaso, quando o capitão precisa ser resgatado, Dersu e ele estabelecem um vínculo estreito, e logo percebem que podem contar um com o outro seja em que circunstância for. Cada qual a seu modo, eles representam polos opostos e estilos e meios de vida, mas as diferenças abissais que poderiam impedir um relacionamento saudável entre os dois produzem justamente o efeito contrário: um apego que resiste aos anos e aos períodos de distância.

Enquanto Dersu é a pureza e a liberdade para viver em contato com a natureza, Vladimir leva consigo a castração urbanoide, pensando a agindo conforme um código de restrições a hábitos simples, como sair para caçar e viver um dia de cada vez, sem ficar ansioso e preocupado com relação ao amanhã. Em alguns momentos, esses mundos distintos entra em choque, mas o que prevalece é o enorme afeto que os une, e servem para mostrar à plateia que boa parte das diferenças entre amigos pode ser conciliada em favor da continuidade da amizade. Paralelamente a essas e outras constatações que aciona, Dersu Uzala é um filme de belíssimas paisagens, inteiramente localizado fora do Japão natal de Kurosawa. Àquela altura, o diretor já tinha se internacionalizado de vez e recebido muitas críticas que davam conta de acusá-lo de negligenciar sua própria cultura. Pura bobagem. Ele sempre preferiu abraçar um cinema sem fronteiras, e isso é prova de que pode e deve ser encaixado no rol dos grandes realizadores, sem medo de exagerar.


A passagem mais marcante de toda a história, sem dúvida, é a que mostra Dersu e o capitão lutando contra uma nevasca que os acomete enquanto eles estão caminhando por uma estepe. Sozinhos naquele imenso espaço aberto, eles precisam somar suas forças e construir um abrigo. Inicialmente temeroso, o capitão é encorajado por Dersu, e eles lidam com uma temperatura baixíssima - inconcebível para cariocas e moradores de outras regiões tropicais - para dar cabo da empreitada. Aos poucos, o explorador russo vai entendendo o significado mais amplo do gesto, e os longos minutos gastos por Kurosawa na concepção da cena demonstram o seu zelo e a sua preocupação em dizer muito mais por imagens do que por palavras, embora ele também se valha de algumas delas quando os amigos declaram abertamente o quanto querem bem um ao outro.

Dersu Uzala é um gracioso convite para uma espécie de volta às origens, em que importavam os valores simples, a comunhão fraterna e o apreço pelos momentos cotidianos. Tudo isso sem qualquer traço de manipulação ou pieguice, fotografado com esmero por Asakazu Nakai e mais dois colaboradores. Para alguns, a narrativa se estende além do necessário, mas esse é um mal de que outro filme do diretor, muito mais celebrado, sofre: Os sete samurais (Shichinin no samurai, 1954), excessivo em retratar uma batalha e sua longa preparação para enfrentá-la, algo de que os fãs, certamente, discordam. O caso de Dersu Uzala, porém, é de um feliz encontro entre um roteiro bem construído, atores em estado de graça, cujas faces desconhecidas para a maior parte do público singularizam-nos e permitem que nossas memórias associem seus nomes aos seus personagens. A propósito do excelente texto, ele é adaptação do livro homônimo do capitão, o que deixa tudo com um sabor mais inesquecível. É maravilhoso saber que, verdadeiramente, houve um Dersu Uzala.

8.5/10

quinta-feira, 3 de julho de 2014

BALANÇO MENSAL - JUNHO

Com um pequeno atraso, apresento o meu balanço de filmes vistos em junho. Considero este o melhor mês do ano cinematográfico, embora não tenha assistido a nenhuma produção que merecesse nota máxima. A razão de pensar assim é que não houve um só filme que fosse digno de uma nota inferior a 6.0, que considero horrorosa. A menor cotação do mês ficou com Paisà, meu segundo filme de Roberto Rossellini, que segue me devendo um filme realmente maravilhoso. A expectativa permanece para o próximo, daqui a alguns meses.

Esse junho que passou vai deixar saudades. Depois de seis meses, encerrei a saga Star wars, conferindo o terceiro episódio, o último a ser lançado nos cinemas. Segui a ordem de estreias e o resultado foi uma trama que tem sua unidade e coerência garantidas, mas agora estou órfão de uma nova série de filmes - vou resolver essa ausência dando, finalmente, uma chance para a trilogia O Senhor dos Anéis em julho, e minha opinião só vai aparecer no próximo balanço.

O tema predominante dos filmes selecionados ao longo de junho foi a amizade, encontrada nos belíssimos Conta comigo e Dersu Uzala, vistos na mesma semana. A frustração com o mesmo tema veio de última hora, com Entre nós, que encerrou o mês como um dos mais fracos dos 34 longas-metragens que passaram diante dos meus olhos em 30 dias. A seguir, a relação completa dos títulos, com notas e breves comentários:

INÉDITOS:

Longas:

1. Assassinato no Expresso do Oriente (1974), de Sidney Lumet - Não é lá muito instigante, mas um elenco desses não se reunia toda hora. Então, vale a conferida. (7.0)

2. Um lance no escuro (1975), de Arthur Penn - Hackman em uma de suas viçosas interpretações, tendo como suporte um roteiro afiado e uma direção de personalidade. Um mergulho literal e metafórico na sujeira humana. (8.0)

3. Cold fish (2010), de Shion Sono - Insanidade pura. O instinto violento que emerge depois de tantos estímulos. A realidade oferece matéria-prima para histórias como essa todos os dias. (7.0)

4. O deserto dos tártaros (1976), de Valerio Zurlini - Zurlini, o Poeta da Melancolia, vai à guerra. E o resultado não é menos que desconcertante. (8.5)

5. O serviço de entregas da Kiki (1989), de Hayao Miyazaki - Crescer e viver um novo começo, experimentar novos medos, descobrir novas habilidades, fazer amigos. A vida é isso e muito mais, como Kiki nos faz concluir em uma das animações mais fofas do mundo. (9.0)

6. Os embalos de sábado à noite (1977), de John Badhan - Entre um e outro número musical esfuziante, uma juventude oscila entre vida e morte, entre ambição e incerteza, nos quarteirões de Manhattan. (8.0)

Os embalos de sábado à noite (1977)

7. Ciao maschio (1978), de Marco Ferreri - O desconcerto do mundo sob uma ótica nonsense. Ao abrir mão do compromisso com a lógica, ideias fervem na tela e o interrogativo inscrito na parede do quarto do protagonista ecoa narrativa adentro. (8.0)

8. Corpo fechado (2000), de M. Night Shymalan - O clima soturno e a junção paciente das pontas soltas garantem uma hipnose eficaz. Daquelas histórias em que tudo se encaixa, do roteiro à direção, passando pela montagem e pelas interpretações. Sem falar nas instigantes teorias subscritas... (8.0)

9. Yojimbo - O guarda-costas (1961), de Akira Kurosawa -  Um detalhe básico dificulta a conexão com a história: o excesso de personagens. Ainda assim, vale conferir Mifune como um samurai que vive para o próprio umbigo e lida com as consequências dessa escolha. (7.0)

10. Paixão proibida (2007), de François Girard - Exibe cuidado na ambientação e na construção das paisagens, enquanto a trama em si é um típico novelão de amor e adultério. (6.5)

11. O grito (1957), de Michelangelo Antonioni - Quando há somente seres humanos envolvidos, conjugar o verbo "amar" na primeira pessoa do plural acompanhado do seu respectivo pronome oblíquo é uma arte complexa. Antonioni sempre devastador. (8.0)

O grito (1957)

12. Fervura máxima (1992), de John Woo - Haja nervos e punhos de aço para enfrentar tanto tiro, porrada e bomba. (8.0)

13. No tempo das diligências (1939), de John Ford - Oferece uma galeria de personagens marcantes e um punhado de cenas que compõem o imaginário cinematográfico para além de seu gênero. Grande acerto de Ford. (8.0)

14. Jejum de amor (1940), de Howard Hawks - A metralhadora de diálogos não para um minuto, causando uma certa tontura no espectador, que precisa ficar com os olhos fixos nas legendas. De qualquer modo, tem presença de espírito e se garante pelo enorme carisma de Grant. (7.0)

15. Contrastes humanos (1941), de Preston Sturges - Uma jornada magnífica e edificante que revela qual é a verdadeira pobreza: a de espírito, que não tem a ver com a conta bancária. No fim, arrancar um sorriso sincero de alguém é tudo que importa. (9.0)

16. Soberba (1942), de Orson Welles e Robert Wise - Não são os tempos que mudam. É o olhar dos homens que se transforma e gera mudanças no mundo, embora alguns sentimentos e situações se repitam de forma atemporal. (7.5)

Soberba (1942)

17. Consciências mortas (1943), de William A. Wellman - Quando a justiça é tão cega que enxerga apenas a verdade que quer. (8.5)

18. Melhor é impossível (1997), de James L. Brooks - Nicholson abusa dos sorrisos e tiradas sarcásticas e mostra, com sua incorreção política e manias, que todos temos um pouco de Melvin, para o bem e para o mal. (7.0)

19. Agora seremos felizes (1944), de Vincente Minelli - O esplendor do techinicolor em um musical adorável a maior parte do tempo e nem tão típico. Se visto unicamente com os olhos de hoje (um erro) pode soar ultrapassado, mas há valores atemporais inscritos em seus diálogos e canções. (7.5)

20. Pais e filhos (2013), de Hirokazu Kore-eda - Seja aqui, seja no Japão, os laços de família estão para além do sangue que corre nas veias. Um belíssimo retrato do amor incondicional. (9.0)

21. Star wars episódio III - A vingança dos Sith (2005), de George Lucas - A gênese do lendário Darth Vader. Em meio a vários combates instigantes, demostra o perigo que alguém corre quando os ditames de suas ações vêm da raiva e da ambição. Numa tela de cinema, teria sido ainda melhor. (8.0)

Star wars episódio III - A vingança dos Sith (2005)

22. Almas perversas (1945), de Fritz Lang (1945) - Um êxito praticamente irretocável. Nesta vida, ninguém está isento de culpa: a perversão é inerente a todo ser humano. Em uma mente atormentada, um grito macabro ressoa através dos anos. (9.0)

23. Paisà (1946), de Roberto Rossellini  - A mão pesada de Rossellini compromete a organicidade dos episódios. Para além dessa falta de sutileza em deixar os personagens agirem, ecoa uma certa pretensão no uso do neorrealismo. (6.0)

24. A luz é para todos (1947), de Elia Kazan  - Cinemão clássico de carteirinha, simples e direto em sua mensagem. Pode soar um tanto ingênuo após tantas décadas, mas sua defesa do olhar acolhedor não pode ser restrita a ontem ou hoje. (7.5)

25. Conta comigo (1986), de Rob Reiner - Daqueles filmes que já entram em nossas vidas para ficar, afagando o peito e, por isso mesmo, deixando o coração mais aquecido. Amigos, como viver sem vocês? (9.0)

26. Os bons companheiros (1990), de Martin Scorsese - Uma trupe de parceiros embebidos no cinismo e na amoralidade, sempre à espreita e metidos em alguma peripécia escusa. Poderia ser um pouco menos prolixo, mas o trio central garante o espetáculo politicamente incorreto. (8.0)

27. Um dia na vida (2009), de Eduardo Coutinho - Lente de aumento na sua/minha/nossa/dele(a) televisão de cada dia. Um resumo estarrecedor do que nos servem todos os dias. Controle remoto, pra quê te quero? (8.5)

28. Dersu Uzala (1975), de Akira Kurosawa - Que vontade de abraçar o velho Dersu! Caminhando bravamente pelas intempéries do rigoroso frio russo, ele nos mostra as incongruências da vida em sociedade e representa um canal para o resgate de valores como amizade, fidelidade e gentileza desinteressada. (8.5)

Dersu Uzala (1975)

29. O enigma chinês (2013), de Cédric Klapisch - Uma vida baseada na arte de bagunçar tudo e depois organizar de novo, não necessariamente do mesmo jeito que era antes. (7.5)

30. Os anos felizes (2013), de Daniele Luccheti - Luchetti flerta com o cinema italiano de décadas passadas encarando as complicações em família mais uma vez. Direto e honesto no que parecem ser as intenções da obra. (7.0)

31. O tesouro de Sierra Madre (1948), de John Huston - O ouro trazendo à tona o pior do homem. Um notável estudo sobre o afrouxamento da moral em nome de uma riqueza maldita autenticado por grandes interpretações. (8.0)

32. Sob a pele (2013), de Jonathan Glazer - Sob essa pele que habitamos, existe um mundo de sensações. Quase todas indescritíveis, apenas vivenciáveis. (8.5)

33. Entre nós (2013), de Paulo Morelli - Os lugares comuns de filmes sobre reunião de amigos e um elenco anêmico, a maior parte do tempo no piloto automático. A ressalva positiva fica por conta do bom humor de Martha Norwill. (6.5)

34. Quem é o infiel? (1949), de Joseph L. Manckiewicz - Divertida comédia de costumes que não poupa os ricos de sua própria frivolidade. Elenco afiado e charmoso em uma trama na qual descobrir o tal infiel se torna uma atraente brincadeira. (8.0)

Curtas:

O vapor Willie (1928), de Ub Iwerks e Walt Disney - A orquestra improvisada é um achado divertido, e o carisma de Mickey já era notório desde o início. (8.0)

Flowers and trees (1932), de Burt Gillett - A brincadeira de apresentar plantas e animais antropomorfizados costuma render momentos divertidos, a exemplo desta simpática sinfonia. (7.5)

O velho moinho (1937), de Wilfred Jackson - Do tempo em que a Disney adorava construir sinfonias protagonizadas pela natureza. (7.0)

O coração delator (1953), de Ted Parmelee - Perfeita ilustração do quanto o órgão símbolo da vida também é a procedência metafórica de todo desassossego e traição. (8.0)

REVISTOS:

Laranja mecânica (1971), de Stanley Kubrick (9.0)
Desconstruindo Harry (1997), de Woody Allen (8.5)

MELHOR FILME: Pais e filhos / O serviço de entregas da Kiki
PIOR FILME: Entre nós
MELHOR DIRETOR: Hirokazu Kore-eda, por Pais e filhos
MELHOR ATOR: Gene Hackman, por Um lance no escuro
MELHOR ATRIZ: Scarlett Johansson, por Sob a pele
MELHOR ATOR COADJUVANTE: Max Von Sydow, por O deserto dos tártaros
MELHOR ATRIZ COADJUVANTE: Veronica Lake, por Contrastes humanos
MELHOR ROTEIRO ORIGINAL: Preston Sturges, por Contrastes humanos
MELHOR ROTEIRO ADAPTADO: Jonathan Glazer e Walter Campbell, por Sob a pele
MELHOR TRILHA SONORA: Mica Levi, por Sob a pele
MEHOR FOTOGRAFIA: Luciano Tovoli, por O deserto dos tártaros
MELHOR CENA: O abraço consolador de Chris em Gordie em Conta comigo
MELHOR FINAL: Sob a pele