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terça-feira, 30 de setembro de 2014

BALANÇO MENSAL - SETEMBRO

Mais um mês que se vai, mais um balanço que vem. Setembro deixou um legado de ótimos filmes e compensou bem agosto em termos de quantidade e qualidade. Apesar de continuar em jejum de notas 10, pude conferir mais produções de realizadores pelos quais sou apaixonado - por outros, nem tanto - e inserir no currículo alguns que ainda não tinha. A chegada do Festival do Rio na última semana do mês permitiu um aumento do número de títulos, refletidos na lista abaixo, que contempla longas e curtas acompanhados de suas respectivas notas, além dos melhores em categorias que considero essenciais, como venho fazendo a cada mês.

LONGAS:

1. Bem-vindo a Nova York (2014) - 8.0
2. Vícios e prazeres (1976) - 7.0
3. Locke (2014) - 8.0
4. Comboio do medo (1977) - 8.0
5. Coherence (2013) - 8.0
6. Um casamento perfeito (1982) - 8.5

Um casamento perfeito (1982)
7. Amargo regresso (1978) - 7.0
8. Amador (1979) - 8.0
9. The rover - A caçada (2014) - 7.0
10. Da vida das marionetes (1980) - 7.5
11. Um lobisomem americano em Londres (1981) - 8.5

Um lobisomem americano em Londres (1981)
12. Koyaanisqatsi - Uma vida fora de controle (1982) - 9.0
13. Pânico (1996) - 8.5
14. O baile (1983) - 7.5
15. Almanaque de outono (1984) - 8.0
16. Os limites do controle (2009) - 8.0
17. Deus não está morto (2014) - 7.0
18. A cor púrpura (1985) - 8.0

A cor púrpura (1985)
19. Filme demência (1986) - 8.0
20. Arizona nunca mais (1987) - 7.0
21. Weekend à francesa (1963) - 6.0
22. Roleta chinesa (1976) - 8.0
23. Mapas para as estrelas (2014) - 7.5
24. 1001 gramas (2014) - 6.0
25. Quod erat demonstrandum (2013) - 8.0
26. Metamorfoses (2014) - 7.0

Metamorfoses (2014)
27. Esta noite e as pessoas (2013) - 2.0
28. Frank (2014) - 8.5
29. As 4 aventuras de Reinette e Mirabelle (1987) - 7.5
30. O lobo atrás da porta (2013) - 8.5
31. Mr. Turner (2014) - 7.5
32. Land ho! (2014) - 7.5

CURTAS: 

Validation (2007) - 8.0
Goodnight, Mr. Foot (2012) - 6.0
Os três porquinhos (1933) - 8.0
Storytime (1968) - 8.0
Feliz aniversário (1962) - 8.5

MELHOR FILME: Koyaanisqatsi - Uma vida fora de controle
PIOR FILME: Esta noite e as pessoas
MELHOR DIRETOR: John Landis, por Um lobisomem americano em Londres
MELHOR ATRIZ: Julianne Moore, por Mapas para as estrelas
MELHOR ATOR: Michael Fassbender, por Frank
MELHOR ATRIZ COADJUVANTE: Talita Carauta, por O lobo atrás da porta
MELHOR ATOR COADJUVANTE: Danny Glover, por A cor púrpura
MELHOR ROTEIRO ORIGINAL: John Landis, por Um lobisomem americano em Londres
MELHOR ROTEIRO ADAPTADO: John Ronson e Peter Straughan, por Frank
MELHOR FOTOGRAFIA: Dick Pope, por Mr. Turner
MELHOR TRILHA SONORA: Elmer Bernstein, por Um lobisomem americano em Londres
MELHOR MONTAGEM: O lobo atrás da porta
MELHOR CENA: Havana comemorando seu papel em Mapas para as estrelas
MELHOR FINAL: Frank
MENÇÃO HONROSA: O lobo atrás da porta
HORS CONCOURS: Frank

O lobo atrás da porta e o suspense incrustado no cotidiano

Imprevisibilidade é um ingrediente fundamental a todo suspense que se preze. Não faltam exemplos, contudo, em que ela não se faz presente, jogando por terra toda a eficácia desejável junto ao espectador nesse gênero. Felizmente, esse não é o caso de O lobo atrás da porta (idem, 2013), realizado e escrito por Fernando Coimbra. O desaparecimento de uma criança é o ponto de partida da história, que alterna dois tempos e revela a perigosa dinâmica estabelecida entre Bernardo (Milhem Cortaz), Silvia (Fabiula Nascimento) e Rosa (Leandra Leal). Eles são, respectivamente, o marido, a esposa e a amante, e cada detalhe importa na (re)construção dos acontecimentos que culminaram com o tal sumiço, relatado por Silvia ao delegado (Juliano Cazarré). Desesperada, ela explica que a menina foi levada do colégio por um mulher de nome Sheila, uma desconhecida, acendendo a desconfiança do homem, calejado com tantos casos diários semelhantes àquele. Pouco depois, o marido chega para fornecer informações que podem elucidar os fatos, e então o relacionamento extraconjugal vem à tona. 

A essa altura, conhecemos duas versões para a mesma história, mas é quando Rosa é acionada pelos policiais que O lobo atrás da porta começa a desenhar o suspense, mostrando que o cotidiano pode ser sua fonte. Inicialmente assustada e afirmando não ter a menor ideia de onde a menina possa estar, Rosa apenas informa que a deixou com outra mulher e não sabia qual seria o seu destino. Entretanto, o delegado sente que há mais do que a superfície leva a crer, e instiga a jovem a desenvolver melhor sua versão da história. É quando somos transportados para um longo flashback cujo clímax, a depender da audiência, pode ser mais ou menos esperado. Para quem se encaixar no primeiro grupo, ainda existem elementos de tirar o fôlego e manter a atenção concentrada, como a extraordinária atuação de Leandra Leal, completamente entregue ao papel de uma simplória ex-operadora de telemarketing que cai de amores por um homem casado e não se importa com o fato de não ser a única em sua vida.

Não faltam sequências de franca inspiração de Coimbra, que assina um enredo de base na realidade, um episódio nefasto ocorrido no bairro da Penha, subúrbio do Rio de Janeiro. Entrar em detalhes tanto sobre o caso real quanto sobre a narrativa apresentada no filme é entregar de bandeja metade do monumento pacientemente construído pelo diretor, que fez desse seu primeiro longa, depois de ter realizado três curtas, entre eles, Trópico das cabras (idem, 2007). Coimbra se vale da cor local de uma região habitada por tipos banais, cujas histórias não interessam - ao menos, a priori - para além das páginas policiais, quando explode um conflito de alguma ordem em seus domínios. Ao mesmo tempo, é capaz de carregar o enredo de tintas universais, evidenciando que o ciúme, o adultério e a insanidade podem fazer parte de qualquer cultura, em qualquer lugar. O escolhido aqui é um Rio desglamourizado, o outro lado de uma cidade à qual a antonomásia Maravilhosa cabe melhor quando nos reportamos à zona sul. Existem muitas outras facetas que o turista não acessa em sua estadia na capital cultural do Brasil.


Assim, cena após cena, o faro detetivesco do público é atiçado, e os olhos devem ficar bem atentos aos passos de Rosa, que exibe um misto de resignação com possessividade. Cada vez mais desejando estar inserida na vida de Bernardo, ela se aproxima de Sylvia, forja outra identidade e cativa a filha do casal, detalhe que colabora para uma de suas atitudes, a mais importante de todo o filme e que responde à pergunta crucial lançada no início do percurso acidentado através do qual Coimbra nos conduz. Por sua vez, Sylvia é uma personagem contida, cujo valor está justamente nessa contenção, e reitera o talento de Fabiula Nascimento, exímia tanto na comédia quanto no drama sem perder um pingo de credibilidade. Sem dúvida, a dona de casa é a parte mais afetada nesse triângulo amoroso em que não há vencedores, apenas vencidos, em maior ou menor grau. Milhem Cortaz é outro que tem um ótimo papel nas mãos, e lhe imprime notável verossimilhança.

Já que o tópico é o formidável elenco, não é exagero tecer muitos elogios ao desempenho de Talita Carauta, demolidora na pele de Bete. Para quem associa a atriz somente à Janete do humorístico (??) televisivo Zorra total, vê-la em cena aqui é um belo de um atestado de versatilidade. Pode-se dizer que a personagem funciona como uma espécie de alívio cômico para uma história tão densa. Eventuais acusações de uma composição estereotipada são facilmente refutadas se se conhece bem a região em que a história transcorre e se constata o quanto pessoas como Bete são comuns por ali. Apesar de ser uma presença de curta duração, a personagem faz por onde ter importância no desdobramento dos fatos - e vale lembrar que tudo que está sendo contado a essa altura é filtrado pelo olhar de Rosa. Disso pode resultar uma tendência a retratá-la como a parte ofendida na situação, mas várias de suas atitudes deixam entrever uma mulher sorrateira, e quem verdadeiramente faz jus ao título da obra.

Entrevistado por um site de Cinema, Coimbra afirmou que o roteiro de O lobo atrás da porta passou por vários tratamentos ao longo de 15 anos, e seu interesse estava em apresentar o lado humano das partes envolvidas em um caso abordado com sensacionalismo pela mídia - uma praxe do setor que não vem de hoje. Sobre os atores, afirmou que não tinha nomes em mente à medida que ia escrevendo, mas quando começou a visualizar intérpretes para Rosa, percebeu que Leandra Leal era a escolha mais apropriada, e basta conferi-la atuando, por todos os motivos citados e mais alguns outros, para constatar que ele tinha razão. Os segredos entrelaçados por sua narrativa um tanto labiríntica apontam, em última instância, para a complexidade humana, tão fascinante quanto lacerativa. Histórias como essa também servem para ilustrar como um erro pode conduzir a outro e outros, formando um rastro de destruição que, no fim das contas, resultou em um dos filmes mais perturbadores do Cinema recente, para além de fronteiras de nacionalidade e gênero.

8.5/10

quinta-feira, 18 de setembro de 2014

Eles não usam black-tie, uma crônica urbana do proletariado

Aos espectadores que insistem em dizer que o Cinema brasileiro não oferece bons filmes, sempre haverá exemplares que contradizem essa afirmativa. Para qualquer década que se olhe, é possível encontrar obras de grandes diretores, que deixam suas contribuições para que se enxergue uma geografia cinematográfica tipicamente nacional. Assinado por Leon Hirszman, Eles não usam black-tie (idem, 1981) emerge como um desses exemplares. Narrando a história de uma família de classe média-baixa, o longa é uma crônica urbana de momentos simples e a prova de que as diferenças de perspectiva são fontes fundamentais de conflitos internos. Tudo gira em torno de Tião (Carlos Alberto Riccelli), operário de uma fábrica cujos donos não vem atendendo às reinvidicações de seus trabalhadores. Otávio (Gianfrancesco Guarnieri), seu pai, também tem um emprego ali, e está certo de que a única maneira de garantir os direitos de todos é iniciando uma greve, que ganha a adesão de vários outros operários.  

Paralelamente, Tião descobre que sua namorada, Maria (Bete Mendes), está esperando um filho seu, e teme perder o emprego se aderir ao movimento grevista. Sua escolha de continuar trabalhando acarreta um desequilíbrio em casa, já que o pai o considera um traidor. Está formado o nó narrativo de Eles não usam black-tie, que leva ao Cinema o espetáculo teatral homônimo, de autoria de Guarnieri. O filme todo é permeado por situações prosaicas e por uma economia de ambientes que evoca as origens de seu texto, comprovando que a simplicidade está longe de ser um demérito no universo artístico. As emoções florescem com viço e naturalidade ao longo dos fotogramas clicados por Lauro Escorel, um acumulador de prêmio em sua função, belamente desempenhada aqui. Por sua temática e sua construção, o longa deu continuidade tardia a uma safra de bons filmes sobre a realidade brasileira realizados na década de 60: Noite vazia (idem, 1961), de Walter Hugo Khouri, São Paulo S.A. (idem, 1965), de Luiz Sérgio Person, e Copacabana me engana (idem, 1968), de Antonio Carlos da Fontoura.

No elenco, está outro dos trunfos da produção. Riccelli defende muito bem seu protagonista e, apesar de sua estampa de galã, vai além dela e interpreta um homem absolutamente comum, cindido por suas decisões e arcando com as consequências de seus atos. As passagens mais marcantes têm sua presença em cena e envolvem os doloridos embates com o pai. Hirszman apresenta o antes e o depois da greve no que tange ao relacionamento dos dois. De parceiros para todas as horas, eles passam a dois representantes de correntes de pensamento distintas que se enfrentam na mesa do jantar, e quebram o clima de harmonia e concórdia que pairava sobre a família até então. A escolha de Tião reflete também em seu namoro com Maria. Se antes estavam de casamento marcado e felizes com os planos para um futuro próximo, agora a ideia já não soa bem para ela, também uma funcionária da fábrica. É curioso ver a atriz, hoje uma veterana da televisão, bem mais jovem e encarnando uma personagem de sensualidade brejeira, capaz de se despir na frente do irmão adolescente com quem divide o quarto e está naquela fase de descoberta sexual.


Os demais coadjuvantes não ficam atrás no quesito talento. A química entre Guarnieri e Montenegro é flagrante, auxiliada pelos vários anos de amizade fora do set. Ele tomou para si um papel de nuances. Por vezes, é um pai dócil e compreensivo diante da iminência de uma nova configuração da família. Em outros momentos, assume uma postura intransigente diante da discordância de Tião em fazer parte do movimento grevista. Essa oscilação de atitudes não poderia ser mais humana. Ela, carinhosamente conhecida pelos brasileiros como Fernandona, prova mais uma entre tantas vezes porque merece o título de uma das maiores atrizes do país, senão a maior, única representante nacional a ser indicada ao Oscar. Sua entrada em cena na passagem em que Tião conta ao pai que vai se casar com Maria é triunfal e, ao mesmo tempo, discreta. Quando nos damos conta, ela simplesmente está ali, reagindo à notícia e exercendo sua função de matriarca que coloca todos em seus devidos lugares. Décadas mais tarde, o público de televisão teve a chance de observar que os dois continuavam muito amigos, quando contracenaram em uma novela.

A questão trabalhista costuma ser a mais destacada em Eles não usam black-tie, o que não é sem motivo. Afinal, é a partir dela que se desenha a zona de conflito paterno e filial. O momento histórico brasileiro em que o filme foi concebido também era propício para reflexões de ordem política. Um ano antes, havia sido fundado o Partido dos Trabalhadores, cuja síntese é a figura de Luiz Inácio Lula da Silva, que chegou à presidência após inúmeras tentativas, e conseguiu instaurar uma continuidade petista em uma das mais importantes esferas do poder republicano, deixando uma espécie de discípula em seu lugar quando do fime de seu mandato. Otávio se identifica com a proposta de uma nova classe operária, enquanto Tião só quer garantir o sustento do filho que está a caminho. Porém, o rapaz parece sozinho em sua escolha dentro de uma camada social ávida de mudança. Para além de todos esses tópicos, entretanto, trata-se de um filme sobre a construção do pensamento individual, bem como das consequências que dela advêm. E, nesse sentido, Hirszman se apropriou bem de um material previamente elaborado para entregar uma ilustração do que essa verdade pode significar.

8/10

sexta-feira, 12 de setembro de 2014

Era uma vez em Nova York, o amor e o perdão em tons acinzentados

Os céus plúmbeos de Nova York dão o tom de Era uma vez em Nova York (The immigrant, 2013), mais um trabalho lapidar assinado por James Gray. Realizador de pérolas incrustadas em gêneros esgarçados como Os donos da noite (We own the night, 2007) e Amantes (Two lovers, 2008), ele volta a filmar em sua cidade natal e recruta, pela quarta vez, Joaquin Phoenix para o elenco. Dessa vez, porém, o protagonismo não cabe a ele, mas sim a Marion Cotillard. É dela a primeira cena do filme, na qual conhecemos sua personagem, Ewa Cybulski. Nascida na Polônia, ela vai para os Estados Unidos na companhia da irmã, que fica retida no posto de imigração devido à suspeita de tuberculose, apesar de suas tentativas de disfarçá-la. Não tarda para que Ewa descubra que a terra das oportunidades que estava em seu horizonte de expectativas é uma utopia.  

Suas dificuldades são atenuadas graças ao auxílio de Bruno (Phoenix), que já está no país há alguns anos e consegue se deslocar por espaços sociais distintos com traquejo e desenvolve um súbito afeto por ela assim que a vê em apuros. Entretanto, o que essa figura carismática tem a oferecer está muito longe dos planos e intenções de Ewa, que se vê transformada em atração de um cabaré, ainda que destoe completamente daquele cenário lúgubre. Seus esforços passam a ser em direção a uma estabilidade financeira e ao resgate da irmã, que ficou sob tratamento médico. Ao mesmo tempo, seu relacionamento com Bruno vai evoluindo e, para completar o que se insinua e, a posteriori, se confirma como um triângulo amoroso, entra em cena Orlando (Jeremy Renner).

O mágico de porte elegante não fica atrás de Bruno no quesito carisma, mas tem outros meios de cativar o coração de Ewa, surpreendendo-a com pequenas gentilezas. A imigrante se revela, portanto, como um filme tradicional sobre a cisão de uma protagonista entre dois caminhos. Nesse sentido, vale destacar que Gray não está preocupado em inventar a roda. O diretor investe em um terreno conhecido, a exemplo de suas obras precedentes, mas, o que poderia soar como uma insistência em permanecer numa zona de conforto se mostra como uma reafirmação de seu domínio sobre a técnica da filmagem e na condução de um roteiro pródigo em reflexões morais. Estamos diante de um cineasta à moda antiga, que dialoga com a tragédia em seu componente adjetivo, usado para se referir a enredos de clímax triste.


Em sua passagem pela 66ª edição do Festival de Cannes, o longa teve uma recepção morna e injusta. A verdade é que, desde a sua estreia, Gray divide opiniões na Croisette, apesar de ser habitué da mostra francesa: Era uma vez em Nova York é o quinto filme de sua carreira e o quarto a ter recebido indicação à Palma de Ouro. Para alguns, trata-se de um farsante, enquanto outros abraçam o seu estilo operístico de filmagem e escrita, rendendo-lhe comentários elogiosos. Esta segunda ala, que inclui tanto críticos quanto espectadores, parece a mais sensata, por assim dizer. Afinal de contas, não faltam virtudes em seu modus operandi e este quinto filme vem para confirmar essa tese nem tão facilmente refutável. O curioso é que, sobretudo entre os portugueses, o longa foi visto como o seu pior. Aliás, na Terrinha, ele foi batizado simplesmente como A imigrante, no feminino, um raro caso em que os gajos foram mais felizes na tradução, já que o filme é muito mais de Cotillard do que de Phoenix.

Por falar em Cotillard, há que se reconhecer o seu empenho na construção de Ewa, que inclui vários diálogos em polonês legítimo, que a atriz teve de aprender para conferir ainda mais veracidade à imigrante. Segundo a própria, esse foi o seu grande desafio, já que a língua - de grande incidência consonantal - exige uma impostação de voz distinta do inglês e do seu francês materno. Quanto à sua escalação, Gray afirmou que ela não se deveu a nenhum trabalho anterior seu, mas a seu rosto que o fazia lembrar Renée Falconetti em A paixão de Joana d'Arc (La passion de Jeanne d'Arc, 1928). Um elogio e tanto, é verdade, mas fica difícil aceitar que ele não a tenha visto em interpretações formidáveis como as de Piaf - Um hino ao amor (La môme, 2007), pelo qual foi oscarizada, e Ferrugem e osso (Rust and bones, 2012). Talvez, a essa altura, o cineasta já tenha corrigido sua falha. 

Por sua vez, Phoenix acrescenta outra grande desempenho à sua carreira, e elogiá-lo é chover no molhado. Em cada gesto, olhar e entonação, ele ratifica a moral ambígua de seu Bruno, capaz de atos de grande altruísmo e, na cena seguinte, de uma conduta deliberadamente egoísta. Imprensado entre ambos, está Renner, que mostra talento no pouco tempo em que aparece em cena, fazendo-se lembrar como o vértice mais suscetível do triângulo e respondendo pelo apogeu dramático da narrativa. A imigrante, em seu conjunto, é um filme sobre esperança, amor e perdão, atos e sentimentos universais e desejáveis, trazidos à tona em um discurso apologético e esplendidamente fotografado. Não se equipara à obra-prima que é Amantes, mas estabelece um elo coesivo com sua filmografia até aqui.

8.5/10

quarta-feira, 3 de setembro de 2014

BALANÇO MENSAL - AGOSTO

Com alguns dias de atraso em função de mais uma viagem, publico meu balanço relativo a mais um mês de vida cinéfila. Agosto foi o mais fraco em quantidade e em qualidade de filmes até agora, começando com o pior do ano, o primeiro digno de nota zero até aqui. A façanha foi alcançada por Fando y Lis, delírio surrealista dirigido por Alejandro Jodorowsky. Com esse segundo filme visto do diretor, começo a pensar que se trata de um daqueles casos de ame-o ou deixe-o, estando eu no segundo grupo. De qualquer modo, ainda resta ao menos uma chance para que eu possa encontrar algo de válido em seu cinema.

Como tenho feito desde novembro de 2012, selecionei um nome para se repetir este mês e o escolhido foi Alfred Hitchcock. Foi dele o melhor filme visto, o sensacional Disque M para matar, embora outros tenham chegado bem perto, inclusive Pacto sinistro, também assinado por ele. Na reta final, uma maratona de 11 filmes em apenas 3 dias incrementou a safra de longas, permitindo-me fechar o mês com um panorama bastante razoável de títulos, os quais seguem abaixo acompanhados de suas respectivas notas. Logo após, uma seleção dos melhores em categorias que julgo importantes, incluindo a partir desse mês a de hors concours, que não poderia começar melhor, já que é ocupada por um filme de Woody Allen, descaradamente meu diretor predileto.

LONGAS:
1. Fando y Lis (1968) - 0.0
2. Pacto sinistro (1951) - 8.0
3. O novo mundo (2005) - 6.5
4. Akira (1988) - 7.5
5. O informante (1999) - 8.0

O informante (1999)
6. O fim da violência (1997) - 6.0
7. A solidão de uma corrida sem fim (1962) - 8.0
8. Magia ao luar (2014) - 8.0
9. Estado de sítio (1972) - 8.0
10. Todas as canções falam de mim (2010) - 7.5
11. O estranho sem nome (1973) - 8.0

O estranho sem nome (1973)
12. Dark Star (1974) - 5.5
13. Calafrios (1975) - 7.0
14. Disque M para matar (1954) - 9.0
15. Guardiões da galáxia (2014) - 6.0
16. Starred up (2013) - 8.0
17. Despedida em Las Vegas (1995) - 8.0
18. A noite dos mortos-vivos (1968) - 7.0
19. Eles não usam black-tie (1981) - 8.0

Eles não usam black-tie (1981)
20. Meu pé esquerdo (1989) - 6.0
21. Sedução da carne (1954) - 7.5
22. Vitória amarga (1939) - 7.0
23. Um peixe chamado Wanda (1988) - 8.0

Um peixe chamado Wanda (1988)
24. O beijo amargo (1964) - 8.0
25. A mulher do dia (1942) - 6.0
26. A pele de Vênus (2013) - 8.5
27. Boneca de carne (1956) - 7.5
28. Meek's cutoff (2010) - 6.5

CURTAS:
O amor contra o destino (2005) - 3.0
Invention of love (2010) - 8.0

MELHOR FILME: Disque M para matar
MELHOR DIRETOR: Alfred Hitchcock, por Pacto sinistro
MELHOR ATRIZ: Emmanuelle Segnier, por A pele de Vênus
MELHOR ATOR: Daniel Day-Lewis, por Meu pé esquerdo
MELHOR ATRIZ COADJUVANTE: Elizabeth Shue, por Despedida em Las Vegas
MELHOR ATOR COADJUVANTE: Gianfrancesco Guarnieri, por Eles não usam black-tie
MELHOR ROTEIRO ORIGINAL: John Cleese, por Um peixe chamado Wanda
MELHOR ROTEIRO ADAPTADO: Roman Polanski e David Yves, por A pele de Vênus
MELHOR TRILHA SONORA: Mike Figgis, por Despedida em Las Vegas
MELHOR MONTAGEM: Rudi Fehr, por Disque M para matar
MELHOR CENA: A morte do terceiro cachorrinho em Um peixe chamado Wanda
MELHOR FINAL: A pele de Vênus
MENÇÃO HONROSA: A pele de Vênus
HORS CONCOURS: Magia ao luar

terça-feira, 2 de setembro de 2014

Despedida em Las Vegas, o encontro de duas almas corroídas

Ben Sanderson (Nicolas Cage) decidiu se entregar à bebedeira sem qualquer restrição, e parece bastante consciente da inevitável consequência dessa escolha. Aliás, ele a deseja. Disposto a ingerir doses cavalares de álcool - passando por cerveja, uísque, tequila e tantos outros privadores da lucidez -, ele passa boa parte da narrativa do longa de Mike Figgis embriagado e decide fazer sua Despedida em Las Vegas (Leaving Las Vegas, 1995). Na cidade onde tudo que acontece deve ficar por lá mesmo, ele conhece acidentalmente a prostituta Sera (Elizabeth Shue), e passa a ter ao seu lado uma espécie de alento momentâneo, para o bem e para o mal - seu bem e mal da moça, vale dizer. Os descaminhos (des)encontrados desses personagens são a tônica de um drama em que o tempo não parece mais urgir.  

Envolvidos e decididos a não interromper suas rotinas optadas, eles desenvolvem uma relação, até certo ponto, simbiótica, à semelhança dos protagonistas de Contra a parede (Gegen Die Wand, 2003), que selam um acordo de interesses para que ela possa se ver livre das regras extremamente rígidas de sua família. O processo de desintegração, por assim dizer, de Ben,  encontra-se em um estágio adiantado. Incapaz de se manter sóbrio por minutos que sejam, ele já comprometeu seu trabalho como roteirista de Cinema: foi demitido e gasta todo o dinheiro em alcóolicos, inclusive o que não tem. Diante desse cenário desolador, a figura de Sera é a melhor alternativa aos seus momentos de delirium tremens, psicose causada pela abstinência de drogas em geral. Sempre perto e disponível, ela assume todos os riscos de sua companhia, levando-o para morar em sua casa.

Despedida em Las Vegas é um filme sobre dois malditos, um homem e uma mulher que reúnem dor e desolação e as transpiram por todos os poros, resultando em um drama de alta voltagem que caminha em direção a um abismo cada vez mais deprimente. Sob a responsabilidade de Cage e Shue, os personagens são dilacerados a cada passagem, deflagrando a coragem suicida de um e a insistente bondade de outro. Ambos eram merecedores do prêmio da Academia, mas apenas Cage foi oscarizado e esse trabalho pertence à fase profícua de sua carreira, hoje reconhecidamente pontuada por equívocos (decerto, seu agente era outro nessa época; ele até tinha sido dirigido por David Lynch em Coração selvagem [Wild heart, 1990] poucos anos antes). Seus porres são sonorizados pelo próprio Figgis, também autor do roteiro, escrito a partir do romance de John O'Brien. São canções doloridas, verdadeiras pauladas que amplificam a espiral crescente de autoflagelo de Ben, o que torna o filme cada vez mais angustiante.


A propósito de O'Brien, sua história pessoal é bastante trágica. Tendo cometido o suicídio apenas duas semanas depois de o longa entrar em produção, ele fez o cineasta repensar o projeto no sentido de abandoná-lo, mas Figgis mudou de ideia e acabou levando-o adiante como forma de homenagear o escritor.  No que tange ao teor sensual das cenas, havia mais nas primeiras versões em VHS, assim como na versão em laserdisc, mas elas acabaram limadas do filme. E mesmo a sequência mais ousada se interrompe de modo um tanto abrupto, revelando mais uma vez os danos causados pelo abuso de álcool praticado por Ben. Definitivamente, ele já não consegue mais construir relacionamentos, seja no plano meramente físico, seja no aspecto sentimental. Sera é, antes de tudo, uma personagem quixotesca, doando-se em um relacionamento fadado ao fracasso.

Não há muitas pistas que conduzam a uma estruturação do que foi o passado de Ben. A escolha de Figgis é por apresentar o roteirista já em queda livre, descortinando sua fragilidade crescente e despertando um misto de compaixão e lamento por sua jornada de contornos cada vez mais letais. O filme já começa com Ben enchendo o carrinho de compras de bebidas com uma assustadora euforia. Em função dessa escolha, o cineasta afasta possibilidades redentoras, ofuscando qualquer luz, por mais tênue que seja, de incidir sobre sua vida. Trabalhando com um orçamento de "apenas" 4 milhões de dólares, ele demonstra habilidade na condução da câmera e investe em planos íntimos, que dissecam a fisicalidade combalida de Ben e, por tabela, escancaram sua decrepitude iminente. O final da sessão é apenas o início de um período reflexivo sobre o que acabou de passar diante dos olhos que fitaram a tela até ali.

8/10