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sábado, 24 de setembro de 2016

QUINTETO DE OURO - PALMAS DE OURO

O Festival de Cannes desfruta de enorme prestígio não é de hoje. Uma das mostras de cinema mais antigas da Europa, juntamente com Berlim e Veneza, tem sua realização agendada normalmente para maio, e já são 69 edições de filmes, tapetes vermelhos, estrelas, musas, astros, polêmicas, vaias (muitas vaias), aplausos inflamados e tantos outros ingredientes que entusiasmam o público cinéfilo. Mas quem não é espectador inveterado também dá uma espiadinha nessa deliciosa celebração anual sediada à beira do Mar Mediterrâneo.

Para essa edição do Quinteto de Ouro, a tarefa árdua a que me propus foi selecionar meus preferidos entre os vencedores da láurea máxima, a Palma de Ouro. Como forma de reduzir a enorme dificuldade de chegar a apenas 5 nomes, adotei o critério de pinçar um filme por década. Com relação à ordem adotada para a apresentação desses eleitos, mais uma vez recorri à cronologia. O resultado pode ser conferido abaixo, com os parágrafos minimamente justificadores sobre cada escolhido.

1. A doce vida (Federico Fellini, 1960)


O longa mais longo de Fellini é tão emblemático que até contribuiu para o surgimento de mais uma palavra no vocabulário italiano e, a posteriori, de outras línguas, como o português: paparazzo. O termo vem do sobrenome do protagonista, vivido por um Marcello Mastroianni no apogeu da beleza e do vigor, embora essa última característica esteja eclipsada no personagem, um jornalista que sorve o espírito fútil da sociedade romana de seu tempo. O esplendor do Cinema poderia ser facilmente representado e entendido no plano em que Marcello chega com Maddalena (Anouk Aimée) à Fontana di Trevi e ela se deixa envolver pelas águas do monumento. Encanto e poesia para além da palavra.

2. Paris, Texas (Wim Wenders, 1984)


Histórias sobre a volta podem ser consideradas um subgênero cinematográfico, e Wenders compôs seu exemplar com notório sentimento e delicadeza. A jornada de um homem que tem medo de avião e obriga o irmão a percorrer quilômetros de estrada para levá-lo de novo ao convívio familiar reserva passagens memoráveis para seu público. Memória, aliás, é o que falta a Travis (Harry Dean Stanton no papel de sua vida), e à medida que o roteiro desvenda o que forma o passado da estrada de sua vida, as emoções afloram. E como esquecer a sequência do reencontro dele com Jane na conversa telefônica, tendo Natassja Kinski a maior do tempo em primeiro plano, destacando sua lourice desalentada?

3. Pulp fiction (Quentin Tarantino, 1994)


Afeito a miscelâneas de várias sortes, Tarantino é garoto serelepe que angariou uma legião de admiradores e advogados ferrenhos, para o bem e para o mal. Sua mistura mais acertada, porém, foi justamente a que saiu vitoriosa da Croisette: um vórtice dramatúrgico em que sujeitos desgarrados dos ditames da boa conduta giram sem compromisso com a estrutura linear. Não estranhe, portanto, se alguém que parecia ter saído de cena volte a comparecer sem o menor aviso prévio, e, no fundo, o entendimento da trama é até bem fácil de se obter. Difícil é destacar uma única cena ou diálogo genial dessa antologia pop de histórias menores (?) e absurdas (?!).

4. A criança (Jean-Pierre e Luc Dardenne, 2005)


O cinema seco e com doses cavalares de realismo (quimera por vezes, superestimada) chega às linhas do zênite com A criança, pelo qual os Dardenne receberam sua segunda Palma. O cotidiano de Bruno (Jérémie Renier) e Sonia (Déborah François) é visto sem trilha sonora de violinos ou quaisquer outros instrumentos comuns em dramas calculados para emocionar. E o modo atabalhoado com que ele tenta conduzir a vida pós paternidade devasta. Quase sempre tendo a câmera bem rente a seus corpos em constante deslocamento, os jovens erram, se desentendem e experimentam a frialdade em mundo que lhes oferece baixíssimas expectativas. 

5. A árvore da vida (Terrence Malick, 2011)


Malick poderia facilmente receber a antonomásia de cineasta espiritual. Sua reflexão sobre a pequenez humana, a imensidão do universo e um Deus grande ao qual se lançam questionamentos e confissões embeveceu uns, afugentou outros. Mas indiferença não parece uma opção diante do filme, que vai aos primórdios da história terráquea e revela a beleza dura, tênue, perturbadora e estonteante da vida, só para ficar em alguns adjetivos. É o cinema buscando lidar com o indizível, flertando com a literatura ao adicionar fluxos de consciência à narrativa e evocando um pensamento do salmista Davi sobre Deus: Que é o homem mortal, para que Te lembres dele?

domingo, 11 de setembro de 2016

Aquarius: um baú de memórias e afetos

Assim como uma comida bem temperada atiça o paladar, um filme bem azeitado pode maravilhar seu público. A experiência de ver Aquarius (idem, 2016) pode então ser comparada à degustação de uma deliciosa iguaria condimentada por sentimentos de apelo universal. E o melhor: sem perder a brasilidade. Do prólogo ambientado em 1980, a "década que não acabou" ao desfecho memorável, o longa de Kleber Mendonça Filho tem açúcar, pimenta e afeto. Clara (Sonia Braga) está no centro da narrativa, fincada em solo recifense, que responde pela cor local da produção. Ao que parece, a maior parte de sua vida foi vivida na capital pernambucana. Esses e outros detalhes são inferências permitidas pelo subtexto do filme e algumas situações. 


O impasse estabelecido pelo roteiro do próprio diretor vem da relutância de Clara em abrir mão do apartamento localizado no edifício-título para a construção de um empreendimento de proporções (e intenções) megalomaníacas, de autoria do pretensioso Diego (Humberto Carrão). Porém, como nos grandes exemplares de bom cinema (ou literatura, teatro e outras artes), importa menos a "história" e mais os caminhos trilhados pelos personagens, sejam eles figurados ou denotativos. E Aquarius vai revelando sua vocação, a qual é, no fundo, a vocação de todo filme: o compartilhamento de uma(s) memória(s). Memórias essas que impregnam tanto Clara quanto outras pessoas de seu convívio, como a tia aniversariante lá nos anos 80. (Se a cômoda da sala falasse... Ela também é personagem.) Ou a filha Ana Paula (Maeve Jinkings), ressentida pelo biênio em que a mãe esteve ausente a trabalho. (Nesse momento, um puxão de orelha do irmão vem pela dedicatória de Clara no livro que escreveu nessa época, reconhecendo o tempo que lhes foi roubado.)

Boas memórias também podem vir acompanhadas de boas músicas, o que é habitual na vida de Clara, uma entusiasta da boa e velha vitrola, mas que também sabe usufruir da tecnologia vigente, embora sua entrevista sobre a carreira seja reduzida à mísera frase "Eu ouço mp3", usada como chamariz no título. Em outro momento, ela aconselha o sobrinho que vai receber uma garota carioca em casa a fazê-la ouvir Maria Bethânia: - Mostra logo que você é intenso, ela diz, doce e resolutamente. Aquarius fala sobre o cabelo, o amor e o câncer de Clara, e cada uma dessas três partes é permeada por uma delicadeza ímpar, muito mais imagética do que verbal. É cinema para olhos que veem, não que apenas enxergam. É filme para ouvidos aguçados, não apenas dotados de audição. É memória gostosa, que mora dentro do peito e brinca de vaivém entre coração e cabeça. A trilha primorosa vem logo na abertura, acompanhando uma coletânea de fotos que situa o público no Recife de outros tempos. 

A pimenta, bem nos olhos de Clara, vem da guerra que se instaura contra ela da parte de Diego, nem um pouco inclinado a entender o lado da única moradora que restou no edifício. Carrão, aliás, reitera sua queda para encarnar tipos revestidos de cinismo, além de uma conduta passivo-agressiva, como bem atesta Clara num dos únicos embates em que os dois se enfrentam abertamente. E o clima pesa. Algo de bem desconfortável e preocupante fica no ar, e essa nuvem incômoda lembra muito O som ao redor (idem, 2012), em que o mesmo Mendonça Filho subverte a gramática do thriller a serviço de uma varredura na hipocrisia e nos temores (!) da dita classe média. O cotidiano pacato da escritora, de caminhadas e mergulhos na praia de Boa Viagem, em frente a qual se encontra o prédio, não é mais o mesmo. Ameaças vêm de onde menos se espera, e vários ângulos escolhidos pelo diretor corroboram uma atmosfera de sobressalto. 


Para além de sua capacidade de evocar memórias e sensações, questionando inclusive pontos de vista - Se você não gosta, é velho. Se você gosta, é vintage -, Aquarius é um hino à resistência. Defender aquilo em que se acredita ou que se ama não é tarefa de fracos, sobretudo em tempos de verdades e conceitos voláteis. Clara é uma mulher de personalidade flexível, mas o roteiro focaliza seu lado leoa, disposta a impedir que o símbolo de toda sua vida seja violado. Que atriz não gostaria de ter um papel desses nas mãos? E tê-lo entregado a Sonia Braga foi um acerto imenso do realizador. Os espectadores mais antigos certamente têm suas memórias com ela, e os mais jovens podem agora apreciar esse escândalo de atriz dando seu melhor, que deixou Cannes apaixonada. As entrelinhas politizadas do texto são outro tempero muito bem-vindo a esse caldo bem cozido: Aquarius fala de uma ideologia fincada na exploração, de cupins metafóricos e literais que corroem tudo. E nos brinda com um sopro catártico lá pelas tantas, fazendo por onde, afinal, ser memorável.

10/10

quinta-feira, 1 de setembro de 2016

BALANÇO MENSAL - AGOSTO

Mês de viagem, como nos dois anos anteriores, agosto teve menos filmes vistos e revistos, mas não quer dizer que não houve ótimos exemplares cinematográficos. Rolou meu terceiro Jia Zhang-ke logo no início do mês, e ele conquistou o primeiro lugar do pódio, deixando o resto dos dias só para decidir a prata e o bronze, que podem ser conhecidos abaixo, assim como os demais títulos com notas e algumas categorias com seus melhores. Seguem abaixo!

PÓDIO

MEDALHA DE OURO

As montanhas se separam (Jia Zhang-ke, 2015)



Concebido como um tríptico em que os diferentes formatos de tela ajudam a delimitar as fases da história, o longa de Zhang-ke é uma potente reflexão sobre amores espargidos no ar e a poluição cada vez mais extrema da nação chinesa. Vale lembrar que até pôr do sol artificial já está sendo oferecido aos cidadãos. Entre passado, presente e futuro, o enredo acompanha dois homens em franca disputa por uma mulher - temática muitas vezes revisitada na ficção - e os descaminhos de cada integrante desse triângulo amoroso, cada vez mais escaleno. As paisagens flagradas pela câmera, uma recorrência em Zhang-ke, são parte fundamental da história, gerando planos embasbacantes. Tal qual outros compatriotas orientais (sobretudo Wong Kar-wai), ele tenta flagrar o tempo, esse signo tão potente, fora do qual parece não existir vida possível. E que belíssima sequência de encerramento...

MEDALHA DE PRATA

Julieta dos espíritos (Federico Fellini, 1965)



Dono de uma imaginação enorme, Fellini encontrou as cores pela primeira vez em Julieta dos espíritos, e ninguém melhor que sua Giulietta da vida real, a Masina, para encarnar essa mulher de alma e espírito dóceis. Nos minutos iniciais, sua câmera reluta em mostrar o rosto da protagonista, que surge iluminado, como alguém que não se abala mesmo diante das circunstâncias de infidelidade do marido. O fluxo imaginativo fica por conta de um guru que é levado por suas irmãs ao seu aniversário de casamento, e então começam a surgir visões de uma espécie de mundo paralelo em meio ao seu cotidiano. Comparado a outros títulos fellinianos, este até que é comportado, afinal, estamos falando do mesmo autor de 8 1/2 (idem, 1963) e Amarcord (idem, 1973). O esplendor do Technicolor é muito bem explorado na fotografia, bem como nos visuais excêntricos de Giuletta, uma baixinha que não se abatia.

MEDALHA DE BRONZE

Sing street (John Carney, 2015)



A poesia de canções originais pontua os fotogramas de Sing street e ratificam uma escolha louvável de John Carney: a de construir uma carreira de realizador formada por longas regidos pelo compasso musical. Assim como em Apenas uma vez e Mesmo se nada der certo, o realizador irlandês desfia uma repertório agridoce, melancólico e apaixonado para flagrar a jornada de um adolescente que encontra força e autoafirmação em uma banda que monta com outros garotos do seu colégio. Ao mesmo tempo, se vê à volta com uma típica paixonite que aumenta seu nível de endorfina, e felizmente o sentimento não parece unilateral. Carney triunfa com a simplicidade de seu olhar sobre crescer, mudar e aprender, verbos que, de alguma maneira, todos nós precisamos conjugar a vida inteira.

LONGAS

INÉDITOS


261. Terra estrangeira (Walter Salles, 1996) -> 8.0

262. As montanhas se separam (Jia Zhang-ke, 2015) -> 9.0
263. Valentin (Alejandro Agresti, 2002) -> 8.0
264. 007 - O espião que me amava (Lewis Gilbert, 1977) -> 6.0
265. Alpes (Yorgos Lanthimos, 2011) -> 6.0


266. Doido para brigar... louco para amar (James Fargo, 1978) -> 7.0
267. Como treinar o seu dragão (Dean DeBlois e Chris Sanders, 2010) -> 6.0
268. Shaun: o carneiro (Mark Burton e Richard Starzack, 2015) -> 8.0
269. Machuca (Andrés Wood, 2004) -> 8.0



270. A corrida do século (Blake Edwards, 1965) -> 7.0
271. Deus branco (Kornél Mundruczó, 2014) -> 9.0
272. Descompensada (Judd Apatow, 2015) -> 6.0
273. Um romance muito perigoso (John Landis, 1985) -> 7.5



274. Sing street (John Carney, 2016) -> 8.0
275. Julieta dos espíritos (Federico Fellini, 1965) -> 8.5
276. oo7 contra o foguete da morte (Lewis Gilbert, 1979) -> 6.0
277. Pulse (Kyioshi Kurosawa, 2001) -> 8.0
278. Os outros caras (Adam McKay, 2010) -> 6.0
279. Dois caras legais (Shane Black, 2016) -> 7.0
280. A noiva cadáver (Tim Burton, 2005) -> 7.5
281. Born to be blue (Robert Budreau, 2015) -> 7.0

REVISTOS

O aviador (Martin Scorsese, 2004) -> 7.0
Onde os fracos não têm vez (Ethan e Joel Coen, 2007) -> 9.0
O eclipse (Michelangelo Antonioni, 1962) -> 9.0

MELHOR FILME: As montanhas se separam
MENÇÃO HONROSA: Deus branco
MELHOR DIRETOR: Federico Fellini, por Julieta dos espíritos
MELHOR ATRIZ: Giulietta Masina, por Julieta dos espíritos
MELHOR ATOR: Fernando Alves Pinto, por Terra estrangeira
MELHOR ATRIZ COADJUVANTE: Fernanda Torres, por Terra estrangeira
MELHOR ATOR COADJUVANTE: John Landis, por Um romance muito perigoso
MELHOR ROTEIRO ORIGINAL: Jia Zhang-ke, por As montanhas se separam
MELHOR ROTEIRO ADAPTADO: Blake Edwards, por A corrida do século
MELHOR TRILHA SONORA: Sing street
MELHOR FOTOGRAFIA: As montanhas se separam
MELHOR CENA: A música para os cães em Deus branco
MELHOR FINAL: Deus branco/As montanhas se separam