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sexta-feira, 1 de setembro de 2017

BALANÇO MENSAL - AGOSTO

Diferentemente dos últimos 3 anos, agosto não teve nenhuma viagem que interrompesse meu fluxo de sessões de filmes, por isso o número de títulos é superior ao de balanços anteriores do mesmo mês. Entre os diretores que trouxeram filmes inéditos para o meu currículo de 2017, que já passa de 300 longas, estiveram Jacques Demy em sua última experiência com o preto e branco, Akira Kurosawa em produção um tanto prolixa, Edgar Wright e Christopher Nolan com seus trabalhos mais recentes vistos no cinema, bem como Sofia Coppola na mesma circunstância. Também abri espaço para Ettore Scola, velho conhecido que não dava as caras há tempos. E dois queridinhos meus, que podem ser conferidos logo abaixo, fizeram tão bonito que ganharam vaga no disputado pódio. Vamos ver todo mundo que passou pelos meus olhos em agosto?

PÓDIO

MEDALHA DE OURO

O outro lado da esperança (Aki Kaurismäki, 2017)


A cada filme, Aki Kaurismäki reafirma sua vocação humanista, retratando histórias de indivíduos comuns precisando sobreviver em um mundo tantas vezes hostil, mas onde ainda se encontram centelhas de gentileza e solidariedade pontilhadas por aí. Parte de mais uma trilogia iniciada com O porto (Le Havre, 2011), O outro lado da esperança (Toivon tuolla puolen, 2017) também é um olhar do finlandês para a urgente questão imigratória, que tanto convulsiona a Europa e levanta a poeira da xenofobia e do racismo, só para ficar em duas reações adversas entre os nativos do continente. E, novamente, ele focaliza as exceções ao que parece a regra não somente lá, mas em outras partes. Não sem um toque de nonsense, é bom que se diga, e aí está umas das delícias do modus operandi kaurismäkiano. [crítica completa]

MEDALHA DE PRATA

Esse obscuro objeto do desejo (Luis Buñuel, 1977)


O detalhe mais inusitado desse que é o derradeiro longa-metragem assinado por Buñuel é a alternância de atriz no papel de Conchita, o tal objeto de desejo negativamente adjetivado do título. Carole Bouquet e Ángela Molina vão e vem a cada duas ou três cenas como se fossem a mesma atriz o tempo todo, e o possível estranhamento do recurso logo cede lugar ao envolvimento com uma trama que vai sendo traçada com paciência, no esquema de flashback. Aos poucos, vamos dando cada vez mais razão ao protagonista narrador de Fernando Rey, que joga um balde de água numa mulher antes de embarcar em um trem, e pouco depois o público fica sabendo que era a tal Conchita. Depois de seus títulos mais emblemáticos, críticas mordazes à burguesia, ele encerrou a carreira mostrando mais um lado dessa classe, mas focalizando um misto de sentimentos e deixando dúvidas sobre o julgamento mais razoável para os personagens, ambos capazes de atitudes questionáveis, uma grande sacada do roteiro de Jean-Claude Carrière.

MEDALHA DE BRONZE

O que traz boas novas (Philippe Falardeau, 2011)


O subgênero filme escolar ganha novos exemplares de tempos em tempos, nem sempre de qualidade. Felizmente, o caso desse canadense que concorreu ao Oscar de melhor filme estrangeiro, entregue naquele ano para A separação (Jodaeiye Nader az Simin, 2011) - uma vitória merecida, diga-se de passagem, é positivo. O senhor Lazhar do título original é um imigrante argelino passado à condição de refugiado que assume uma turma de ensino fundamental em um colégio com alunos sobretudo de classe média. Sua chegada acontece logo depois de uma atitude extrema da professora anterior, que repercute dramaticamente entre as crianças, inicialmente resistentes aos exercícios difíceis do novo mestre. Onde estariam as tais boas novas do título nacional? A princípio, elas vêm do sobrenome do professor, que ele explica em sua primeira aula, mas aos poucos o coração dos meninos vai se abrindo para ele, sem aquele apelo indutor do choro em que Hollywood tanto gosta de se basear. 

INÉDITOS

LONGAS

259. Quiz show - A verdade dos bastidores (Robert Redford, 1994) -> 8.0
260. Nossa vida não cabe num Opala (Reinaldo Pinheiro, 2008) -> 5.0
261. Nosso fiel traidor (Susanna White, 2016) -> 7.0
262. A baía dos anjos (Jacques Demy, 1963) -> 8.0
263. Oh, boy (Jan Ole Gerster, 2012) -> 6.5
264. As crônicas de Nárnia - Príncipe Caspian (Andrew Adamson, 2008) -> 7.0


265. Bem-vindo ao Norte (Luca Miniero, 2012) -> 6.5
266. Esse obscuro objeto do desejo (Luis Buñuel, 1977) -> 8.5
267. Entrando numa fria maior ainda (Jay Roach, 2004) -> 6.0
268. Kagemusha - A sombra do samurai (Akira Kurosawa, 1980) -> 7.5
269. Terra estranha (Kim Farrant, 2015) -> 6.0
270. Ausência (Chico Teixeira, 2014) -> 7.0
271. Grave (Julia Ducornau, 2016) -> 7.0


272. Leviatã (Andrey Zvyagintsev, 2014) -> 7.5
273. O segurança fora de controle (Jody Hill, 2009 -> 4.0
274. Em ritmo de fuga (Edgar Wright, 2017) -> 8.0
275. Dunkirk (Christopher Nolan, 2017) -> 6.0
276. O outro lado da esperança (Aki Kaurismäki, 2017) -> 9.0
277. Uma aventura na Martinica (Howard Hawks, 1944) -> 7.0
278. Olmo e a gaivota (Petra Costa e Lea Glob, 2014) -> 7.5
279. Voltando a viver (Denzel Washington, 2002) -> 7.0


280. Violeta foi para o céu (Andrés Wood, 2011) -> 8.0
281. Caçador de morte (Walter Hill, 1978) -> 7.0
282. Pets - A vida secreta dos bichos (Yarrow Cheney e Chris Renaud, 2016) -> 6.0
284. O filme da minha vida (Selton Mello, 2017) -> 6.0
285. Colossal (Nacho Vigalondo, 2016) -> 5.0
286. Rififi (Jules Dassin, 1955) -> 7.5
287. O estranho que nós amamos (Sofia Coppola, 2017) -> 7.0


288. O último pôr do sol (Robert Aldrich, 1961) -> 8.0
289. O baile dos bombeiros (Miloš Forman, 1967) -> 7.0
290. Feios, sujos e malvados (Ettore Scola, 1975) -> 8.0
291. O bar (Álex da la Iglesia, 2017) -> 7.5
292. A comunidade (Thomas Vinterberg, 2016) -> 7.0
293. A perseguição (Joe Carnahan, 2011) -> 7.5


294. Perigo por encomenda (David Koepp, 2012) -> 6.0
295. Anna Karenina (Joe Wright, 2012) -> 6.0
296. Jogos patrióticos (Philip Noyce, 1992) -> 5.0
297. O que traz boas novas (Philippe Falardeau, 2011) -> 8.0
298. Planeta proibido (Fred M. Wilcox, 1956) -> 7.0

CURTA

World of tomorrow (Don Hertzfeldt, 2015) -> 8.0

REVISTOS

Zodíaco (David Fincher, 2007) -> 8.0
Canções de amor (Christophe Honoré, 2007) -> 7.0
Veludo azul (David Lynch, 1986) -> 9.0
De volta para o futuro 3 (Robert Zemeckis, 1990) -> 8.0
Ensaio sobre a cegueira (Fernando Meirelles, 2008) -> 8.0

MELHOR FILME: O outro lado da esperança
PIOR FILME: O segurança fora de controle
MELHOR DIRETOR: Aki Kaurismäki, por O outro lado da esperança
MELHOR ATRIZ: Trine Dyrholm, por A comunidade
MELHOR ATOR: John Turturro, por Quiz show - A verdade dos bastidores
MELHOR ATRIZ COADJUVANTE: Viola Davis, por Voltando a viver
MELHOR ATOR COADJUVANTE: Denzel Washington, por Voltando a viver
MELHOR ROTEIRO ORIGINAL: Aki Kaurismäki, por O outro lado da esperança
MELHOR ROTEIRO ADAPTADO: Dalton Trumbo, por O último pôr do sol
MELHOR TRILHA SONORA: Aki Kaurismäki, por O outro lado da esperança
MELHOR FOTOGRAFIA: Timo Salminen, por O outro lado da esperança
MELHOR CENA: O jantar japonês de O outro lado da esperança
MELHOR FINAL: Esse obscuro objeto do desejo

sábado, 26 de agosto de 2017

O outro lado da esperança e o humanismo sutilmente inscrito

A cada filme, Aki Kaurismäki reafirma sua vocação humanista, retratando histórias de indivíduos comuns precisando sobreviver em um mundo tantas vezes hostil, mas onde ainda se encontram centelhas de gentileza e solidariedade pontilhadas por aí. Parte de mais uma trilogia iniciada com O porto (Le Havre, 2011), O outro lado da esperança (Toivon tuolla puolen, 2017) também é um olhar do finlandês para a urgente questão imigratória, que tanto convulsiona a Europa e levanta a poeira da xenofobia e do racismo, só para ficar em duas reações adversas entre os nativos do continente. E, novamente, ele focaliza as exceções ao que parece a regra não somente lá, mas em outras partes. Não sem um toque de nonsense, é bom que se diga, e aí está umas das delícias do modus operandi kaurismäkiano. 

Inicialmente desencontrados, Wikhström (Sakari Kuosmanen) e Khaled (Sherwan Haji) entram em cena sob essa ótica inusitada que o realizador gosta de cultivar. O primeiro está deixando a esposa sem qualquer fala, apenas lhe entregando o velho símbolo da união de ambos: uma aliança, que ele joga sobre a mesa e ela sequer tenta segurar. Não se sabe ao certo o que causou a decisão, mas ela parece, àquela altura, irreversível. O segundo aparece enegrecido após a emersão de uma montanha de carvão mineral, e só mais adiante a razão para ele ter estado ali é contada: ele é um imigrante sírio em busca de asilo político que foi parar na Finlândia depois que não conseguiu sair de um navio que rumava àquele país. A essa altura, O outro lado da esperança é um díptico sobre dois homens em processo de reconstrução, e as marcas que consagraram Kaurismäki e lhe tornam um cineasta inconfundível aos primeiros minutos desfilam pela tela. 

Além do já citado elemento nonsense, seus atores parecem não se esforçar muito para interpretar, digamos assim. O roteiro emulsiona possíveis gorduras sentimentais vai direto ao ponto, mas engana-se quem pensa que o resultado é a frieza. A estratégia remete a um de seus mentores, um certo Robert Bresson, de longas como O batedor de carteiras (Pickpocket, 1959) e A grande testemunha (Au hasard Balthazar, 1966), mas as semelhanças com a obra do francês não vão muito além de tal detalhe. Kaurismäki se filia bem mais a Yasujiro Ozu, e o próprio diretor já declarou que pretende fazer vários filmes ainda para então se conformar que nunca vai chegar aos pés do realizador japonês, cuja filmografia pode ser "acusada" de monotemática sob um olhar meramente sinóptico. Porém, como vários outros medalhões da realização cinematográfica, Ozu conseguia pintar com novas tonalidades seu tema preferido: a filha que adia sua partida de casa para se devotar ao pai que não se viraria muito bem com sua ausência. É a mesma acusação que se faz contra Woody Allen e seus recortes sobre neuróticos sem rumo. 


Dito isso, é de uma modéstia exagerada o finlandês afirmar que não é tão bom quanto Ozu: cada qual com seu estilo e temática, eles presenteiam seu público com um humanismo sempre bem-vindo. O outro lado da esperança é um filme de seu tempo, ao mesmo tempo em que reforça valores atemporais aliado a um conjunto cênico minimalista e às comentadas interpretações comedidas. Ao escolher abordar os fluxos migratórios, ele não só coloca o dedo numa ferida aberta (por força de expressão, uma vez que é descabido falar em ferida tanto literal quanto figuradamente), como também lembra que é na ajuda mútua que o mundo gira melhor, sem perder de vista o senso de humor. Para ilustrá-lo, dois exemplos: o desastrado cruzamento das trajetórias de Wikhström e Khaled, que começa com uns sopapos um no outro para, na cena seguinte, o dono do restaurante acolher o sírio com um prato de comida; e o jantar japonês (alguém pensou em Ozu?) improvisado de última hora para receber clientes daquela nação, com todos os empregados vestidos a caráter. Situações que geram um sorriso discreto, assim como Wes Anderson costuma fazer em suas comédias.

Kaurismäki foi premiado com o Urso de Prata de direção no Festival de Berlim, no qual competiu com nomes como Agnieska Holland, Sebastián Lelio e Calin Peter Netzer. Por incrível que pareça, nenhum filme seu tinha sido selecionado para o Festival até então, e nada mais justo do que um reconhecimento desses para seu trabalho, merecido mesmo, não um daqueles casos de premiação tardia pelo conjunto da obra. Ele é uma voz dissonante entre seus conterrâneos, que estigmatizam os estrangeiros e, por vezes, chegam à agressão física, e notícias de 2016 apontam o surgimento de patrulhas anti-imigrantes, formadas por civis que argumentam que os refugiados elevam os índices de criminalidade. Autorreferidos como Soldados de Odin, entidade mitológica associada à guerra, eles também existem nas vizinhas Suécia, Dinamarca e Noruega. A princípio, o cineasta faria uma trilogia sobre cidades portuárias, mas mudou de ideia e agora está tratando de refugiados, uma decisão perfeitamente sintonizada com a exigência de um tempo em que mesmo fatos e atitudes óbvias precisam ser defendidos.

9/10

sábado, 19 de agosto de 2017

QUINTETO DE OURO - FILMES DE ESTRADA

Referidos mais comumente pela nomenclatura inglesa - road movies - os filmes que colocam seus personagens para rodar por aí constituem um subgênero prolífico, que contém várias pérolas a serem conferidas ou rememoradas. Particularmente, é um dos que eu mais gosto, e já era hora de prestar minha singela homenagem a ele com uma edição do Quinteto de Ouro. A seleção de apenas cinco títulos, como de hábito, é trabalhosa, porque me obriga a deixar de fora alguns queridinhos por pura falta de espaço, mas sigo fiel à proposta de me esforçar num recorte, mesmo que ele possa ser representativo apenas da época em que foi feito. E será interessante, daqui a algum tempo, revisitá-lo e constatar o que mudou ou o que segue firme e forte no meu coração. 

O critério para organizá-los na lista, dessa vez, não foi cronológico. Para variar um pouco, decidi recorrer à ordem alfabética, tão prática e objetiva quanto a cronologia e, por isso mesmo, um pouco menos torturante - o paradoxo das listas é esse: uma deliciosa agonia. Cada diretor aparece com somente um filme, compondo um panorama rico de indicações e lembretes que, certamente, suscitarão debates - "esse entrou e aquele não?", dirão alguns. Mas aí também está a graça de fazer listas: compartilhar com os amigos e conhecidos e discutir os vários pontos de vista e gostos. Agora é hora de cair na estrada com ótimas companhias!

1. A estrada da vida (Federico Fellini, 1954)


Desencanto e ternura desfilam pela tela em igual proporção nos 104 minutos dessa viagem felliniana pelos caminhos tortuosos em que se mete Gelsomina (Giulietta Masina). A protagonista baixinha e de olhos altamente expressivos deixa seu cotidiano de pobreza com a mãe para uma suposta melhora de vida com Zampanò (Anthony Quinn), mas as dificuldades permanecem. E o relacionamento entre eles não é dos melhores, ocasionando momentos oscilantes entre expectativa e ilusão. O mundo parece não ter boas surpresas para Gelsomina, mas existe um brilho no fundo de seu olhar que insiste em se manter aceso - o mesmo brilho que veríamos poucos anos depois na personagem título de Noites de Cabíria (Le notti di Cabiria, 1957), vivida pela mesma Masina. Esposa de Fellini até a morte do cineasta, era uma gigante em cena, a despeito da estatura física desfavorável à primeira vista. Três paixões fellinianas estão reunidas aqui: ela, a estrada e o circo, este último um palco e tanto para suas alusões ao sonho e à esperança.

2. História real (David Lynch, 1999)


O filme mais comportado de Lynch é também o seu mais emocionante. Quem conhece um pouco de sua filmografia sabe que ele capaz de abraçar a estranheza em maior ou menor grau - A estrada perdida (Lost highway, 1997) e Cidade dos sonhos (Mulholland Drive, 2001). Mas aqui ele deixa a sutileza reinar e nos leva junto com Alvin (Richard Farnsworth), que usa um velho cortador de grama como meio de transporte para visitar o irmão que não vê há anos e mora longe demais. À medida que vai trilhando seu caminho, Alvin vai se deparando com variados tipos, alguns com verdadeira vocação para o abandono e sedentos de afeto em seus corações. Exatamente como a jovem grávida que ele encontra logo no começo de sua odisseia particular, a quem dá conselhos sábios, assim que descobre sua situação complicada. Como um bom exemplar do subgênero que é, reforça a certeza de que o percurso é tão importante quanto a chegada ao destino, reservada para os minutos finais, em uma das cenas mais acolhedoras de toda a narrativa. Triste é saber que apenas um ano depois do longa, Farnsworth deixou este mundo.

3. Nebraska (Alexander Payne, 2013)



Terceiro filme consecutivo a abraçar a temática, Nebraska mostra seu valor logo em seus primeiros minutos. A questão familiar também rege a narrativa, centrada em pai e filho que viajam os 1300 km que separam sua casa do estado que intitula o filme para receber um suposto prêmio de uma editora. O genitor é vivido por Bruce Dern, prêmio de interpretação masculina em Cannes: arrancou elogios da plateia, que se emocionou com seu desempenho minimalista de um homem marcado pelo tempo e pelo vício, mas que conserva um humor sagaz sob a aparência de idoso desamparado. Seu sarcasmo vem à tona nos diálogos com Will, travados nos bares aos quais ele não resiste não entrar. E não se pode deixar de mencionar June Squibb (indicada ao Oscar de melhor atriz coadjuvante) a matriarca que também acaba se juntando nessa longa viagem. Sem quaisquer papas na língua diante dos demais componentes da família, que todos visitam no caminho para o prêmio falacioso, assim como os vizinhos locais, ela destila seu senso de humor pesado contando várias verdades que Will não imaginava existirem. 

4. No decurso do tempo (Wim Wenders, 1976)


No Quinteto de Ouro sobre a década de 70, ele estava presente, assim como no artigo dos 15 subestimados e se encaixou muito bem em mais uma categoria, por isso volta a aparecer.  Já deu para ver o quanto amo o filme, e repito aqui o texto escrito para o Quinteto. As viagens dos protagonistas pelas estradas também traz à tona a questão da incomunicabilidade que tanto aflige os seres humanos, da qual os personagens não escapam. Os pequenos ruídos de comunicação entre ambos responde pela oscilação na sua proximidade, assim como acontece com amigos cuja relação sofre ranhuras, ainda que imperceptíveis a olho nu, a cada vez que uma dissonância importante se concretiza. Nesse sentido, a abrangência de No decurso do tempo é enorme, por nos deixar entrever na lenta caminhada de Bruno e Robert algumas das nossas idiossincrasias mais veladas, ainda que, mesmo no filme, elas não apareçam escancaradamente. Wenders aposta nos silêncios e nos olhares que comunicam em parte e sublinham a angústia da procura por um interlocutor. A amizade entre Bruno e Robert é como um pálio de luz que se abre sobre eles e está circunscrita a um arco de tempo específico. Enquanto o tempo não finda, eles conhecem um pouco sobre o outro e um pouco sobre si mesmos. 

5. Pequena Miss Sunshine (Jonathan Dayton e Valerie Falls, 2006)


Uma família com várias disfunções entre seus membros cai na estrada e propicia uma crítica bem-humorada e consistente ao nefasto hábito estadunidense de tachar alguns de perdedores, longe de qualquer perspectiva refratária. A estreia de Jonathan Dayton e Valerie Faris atrás das câmeras, digna de alvíssaras, é um achado em termos de personagens, tão verossímeis em suas fragilidades. Quem nunca se viu inclinado a torcer por um candidato com poucas chances de vitória talvez não compreenda o fascínio exercido por Pequena Miss Sunshine, mas cada instante seu transpira encanto genuíno. Da pequena Olive ao atormentado Frank, passando pelo tresloucado Edwin, os habitantes da narrativa são mais do que meros tipos desenhados às pressas. Cativam pelo que têm de mais parecidos com cada um de nós, para o bem e para o mal, sem demonstrar qualquer esforço para serem adoráveis. Pontuado por cenas inesquecíveis, os diretores indicam o quanto um olhar afetuoso pode ser a melhor alternativa diante da indizível tristeza quando os sonhos se frustram e é preciso certo tempo antes de se encarar o recomeço. Entre risos e lágrimas, invoca nossa humanidade, por vezes, combalida. (Texto originalmente publicado no Cineplayers)

terça-feira, 1 de agosto de 2017

BALANÇO MENSAL - JULHO

Está chegando mais uma leva de longas-metragens vistos e revistos ao longo de mais um mês do ano. O balanço de agosto reúne vários títulos, todos provenientes dos Estados Unidos, e a medalha de ouro foi entregue a um novo James Gray, que me arrancou um 9, nota que anda tão rara quanto o 10. Sigo à procura de um filme merecedor dessa avaliação máxima - desde setembro de 2016, com Aquarius, não tem acontecido. Notas à parte, os leitores vão encontrar muita coisa boa distribuída nas próximas linhas. Prevalecem os dramas, como de hábito, mas houve espaço para uma comédia bem gostosa no pódio, tendo Warren Beatty, uma figura que vem se tornando frequente nas minhas escolhas deste ano, como ator principal. Fechando o trio de melhores, um certo carpinteiro alçando um automóvel de motor fatal à condição de protagonista. E lá vêm eles!


MEDALHA DE OURO

Z - A cidade perdida (James Gray, 2016)




Este que vos escreve sentiu receio quando soube da premissa do sexto filme de James Gray: um homem obstinado por encontrar uma civilização perdida se embrenha na Amazônia por causa dessa procura. Resumidamente, é sobre esse pilar que se apoia Z - A cidade perdida (The lost city of Z, 2016), exibido no Festival de Berlim. Por que o receio? Não é exatamente a temática que se espera de um diretor de seu calibre, mais afeito a retratos urbanos pintados com certo intimismo, especialmente sua obra-prima, Amantes (Two lovers, 2008). O filme em análise está mais para um Werner Herzog, realizador de Aguirre, a cólera dos deuses (Der Zorn Gottes, 1972) e Fitzcarraldo (idem, 1972), cujos enredos se desdobram em aventuras megalomaníacas. Os pés atrás, contudo, ficaram no passado logo nos primeiros minutos de sessão de mais um Gray, que demonstra manter um elo coesivo com sua obra pregressa, e são detalhes aqui e e ali a sedimentar essa observação. [crítica completa]


MEDALHA DE PRATA

O céu pode esperar (Warren Beatty e Buck Henry, 1978)



Não é das comédias que mais me arrancou risos, mas me despertou um carinho tão grande pelos personagens principais que logo foi me conquistando. Com Warren Beatty na direção, no roteiro e no papel de protagonista, o longa setentista parte de um argumento insólito: um jogador de futebol americano é levado ao céu prematuramente e, quando se confirma seu direito de passar mais uns anos na Terra, seu corpo já foi cremado. Resta então encarnar em outro corpo, e o escolhido é um milionário ganancioso que já estava para ser liquidado em um plano maligno de sua esposa, mancomunada com o suposto braço direito dele. Movido por um senso de justiça, o atleta procura fazer o bem sob a carcaça do tal milionário, ao mesmo tempo em que se empenha para atuar no Super Bowl, no qual jogaria se não tivesse quase morrido antes. Estão garantidos momentos de humor genuíno, como as tentativas frustradas de assassinato da dupla de trambiqueiros e a surpresa geral diante da ideia de um homem que nada tinha a ver com esporte querer competir em pé de igualdade com os demais integrantes do time. E o que dizer da química absurda de Beatty e Julie Christie, também parceiros na vida real? 


MEDALHA DE BRONZE

Christine - O carro assassino (John Carpenter, 1983)



Dizer que o motor de Christine é envenenado está longe de ser mera força de expressão. Quem cruza o caminho dessa máquina pode experimentar seus últimos instantes de vida, e a quem ousar duvidar, o castigo vem em um motor de muitos cavalos. O ocupante do terceiro lugar do pódio de agosto é outro exemplar de premissa inusitada que funciona em várias frentes, sobretudo no roteiro e na trilha sonora, bem casada com as sequências em que o eletrizante e o assustador se conjugam. Carpenter manja do riscado e, como carpinteiro - tradução de seu sobrenome, afinal -, faz de sua arte um veículo (opa, escapuliu um trocadilho!) para emoções vivazes. Aliás, Christine é um carro bem sentimental, e é justamente por conta de seus sentimentos (especialmente o ciúme) que ele arranca com tudo para cima de quem desafiá-los. Ainda sobre a trilha, ela é um misto de horror e ironia bem pensados por uma mente criativa. 

INÉDITOS



224. A senhora da van (Nicholas Hytner, 2015) -> 6.0
225. De menor (Caru Alves de Souza, 2013) -> 6.5
226. A lei da noite (Ben Affleck, 2016) -> 6.5
227. Christine - O carro assassino (John Carpenter, 1983) -> 8.0
228. Da colina Kokuriko (Goro Miyzaki, 2011) -> 7.5
229. Entrando numa fria (Jay Roach, 2000) -> 6.0



230. Okja (Joon Bong-hoo, 2016) -> 7.5
231. As crônicas de Nárnia - O leão, a feiticeira e o guarda-roupa (Andrew Adamson, 2005) -> 8.0
232. Traffic (Steven Soderbergh, 2000) -> 5.0
233. Z - A cidade perdida (James Gray, 2016) -> 9.0
234. Saneamento básico, o filme (Jorge Furtado, 2007) -> 8.0
235. Maria Antonieta (Sofia Coppola, 2006) -> 8.0
236. Procura-se um amigo para o fim do mundo (Lorene Scarfaria, 2012) -> 4.0



237. Eleição (Alexander Payne, 1999) -> 7.0
238. Quando meus pais não estão em casa (Anthony Chen, 2013) -> 7.5
239. Missão impossível - Nação secreta (Christopher McQuarrie, 2015) -> 8.0
240. Negócio das Arábias (Tom Tykwer, 2016) -> 6.0 
241. São Bernardo (Leon Hirszman, 1971) -> 8.0
242. História de melancolia e tristeza (Seijun Suzuki, 1977) -> 8.0
243. Crônica de uma fuga (Israel Adrián Caetano, 2006) -> 7.0



244. Sangue do meu sangue (Marco Bellocchio, 2015) -> 7.5
245. Sangue pela glória (Ben Younger, 2016) -> 6.0
246. Mate-me por favor (Anita Rocha da Silveira, 2015) -> 5.0
247. Herói por acidente (Stephen Frears, 1992) -> 5.0
248. Fim dos tempos (M. Night Shyamalan, 2008) -> 1.0
249. Um condenado à morte escapou (Robert Bresson, 1956) -> 7.0
250. Cliente morto não paga (Carl Reiner, 1982) -> 7.0



251. O céu pode esperar (Warren Beatty e Buck Henry, 1978) -> 7.0
252. Gattaca - A experiência genética (Andrew Niccol, 1997) -> 7.0
253. Manila nas garras de neon (Lino Brocka, 1975) -> 8.0
254. O portal do paraíso (Michael Cimino, 1980) -> 8.0
255. Família do bagulho (Rawson Marshall Thurber, 2013) -> 6.5
256. Veloce com il vento (Matteo Rovere, 2016) -> 7.0
257. Uma segunda chance (Mike Nichols, 1991) -> 7.0
258. Agente 117 - Uma aventura no Cairo (Michel Hazanavicius, 2006) -> 6.0

REVISTOS

Abraços partidos (Pedro Almodóvar, 2009) -> 8.5
Agora ou nunca (Mike Leigh, 2002) -> 8.0
De volta para o futuro 2 (Robert Zemeckis, 1989) -> 10.0
Desejo e perigo (Ang Lee, 2007) -> 8.0
Wall - E (Andrew Stanton, 2008) -> 8.0


MELHOR FILME: Z - A cidade perdida
PIOR FILME: Fim dos tempos
MELHOR DIRETOR: James Gray, por Z - A cidade perdida
MELHOR ATRIZ: Isabelle Huppert, por O portal do paraíso 
MELHOR ATOR: Charlie Hunnan, por Z - A cidade perdida / Warren Beatty, por O céu pode esperar
MELHOR ATRIZ COADJUVANTE: Tilda Swinton, por Okja / Camila Pitanga, por Saneamento básico, o filme
MELHOR ATOR COADJUVANTE: Robert Pattinson, por Z - A cidade perdida
MELHOR ROTEIRO ORIGINAL: Jorge Furtado, por Saneamento básico, o filme
MELHOR ROTEIRO ADAPTADO: James Gray, por Z - A cidade perdida
MELHOR TRILHA SONORA: John Carpenter, por Christine - O carro assassino
MELHOR FOTOGRAFIA: Darius Khondji, por Z - A cidade perdida
MELHOR CENA: A viagem de pai e filho em Z - A cidade perdida
MELHOR FINAL: Z - A cidade perdida

sábado, 22 de julho de 2017

QUINTETO DE OURO - KATE WINSLET

Chegou a vez de mais uma atriz fantástica brilhar no Quinteto de Ouro. Depois de Meryl Streep e Julianne Moore, a seção mensal do blog em que listo meus cinco favoritos de temas quaisquer relacionados a cinema é dedicada a Kate Winslet, britânica com beleza e talento em iguais proporções: imensas. Como sempre, a tarefa de formar uma seleção de apenas cinco componente é hercúlea, mesmo porque os temas são escolhidos a dedo e surgem mares de opções. Mais uma vez, recorri ao critério da ordem cronológica para não enlouquecer com os níveis de paixão muito próximos por cada uma das atuações presentes, e o resultado ficou bastante satisfatório, ao menos até que novas atuações arrebatadoras surjam. A essa altura, aliás, estou à espera de sua primeira (sim, que venham outras!) parceria com Woody Allen no vindouro Wonder wheel - já quero indicação ao Oscar seguida de vitória...

Falando em Oscar, ela já foi indicada sete vezes, quase todas na categoria de atriz principal, e demorou a levar sua primeira (sim, que venham outras!) estatueta. Faz somente 8 anos que a vimos subir ao palco e discursar com genuína emoção pelo reconhecimento do trabalho realizado em O leitor (The reader, 2008). Deveria ter levado antes o prêmio pela Clementine de Brilho eterno de uma mente sem lembranças (Eternal sunshine of the spotless mind, 2004), onde se mostrou versada em um senso de humor melancólico que fazia dobradinha com as várias cores de cabelo. A própria Kate considera esse seu papel mais querido. Mas a Academia tem dessas mancadas, e estatuetas à parte, é visão praticamente unânime (totalmente entre as pessoas que conheço) que Winslet bate um bolão. No mesmo ano em que levou o Oscar, a propósito, ela foi duplamente premiada no Globo de Ouro, curiosamente como coadjuvante pelo mesmo O leitor e como principal por Foi apenas um sonho (Revolutionary road, 2008). Que ano para ser fã dessa mulher!

Sua carreira de atriz data de 1991, quando iniciou na televisão de seu país, então com 16 anos. A estreia no cinema foi sob a direção de Peter Jackson em Almas gêmeas (Heavenly creatures, 1994), pelo qual já foi elogiada. Ainda não conferi seu début, mas cinéfilos sempre têm pendências em suas listas, e mesmo Winslet sendo uma das minhas prediletas, acabo adiando os filmes que ainda me faltam, só para não zerar as opções. De lá para cá, ela contabiliza mais de 30 papéis em longas-metragens e em parte deles responde pela dignidade das produções. Como as já citadas Streep e Moore, ela tem o dom raro de escapar ilesa das críticas em filmes de gosto e qualidade duvidosos. Como já estamos no terceiro parágrafo, não quero me alongar mais, então deixo vocês, leitores, com meus cinco mais de Kate Winslet.

1. Brilho eterno de uma mente sem lembranças (Eternal sunshine of the spotless mind, 2004), de Michel Gondry


A primeira atuação memorável de Winslet foi na pele da maluquinha Clementine Kruczynski , interesse amoroso do travado Joel (Jim Carrey) em um encontro casual dentro de um trem. Seus cabelos em uma cor inusitada já denunciavam uma personalidade exótica e inquieta, corroborada por seu discurso sincero para o então futuro namorado: ela enjoa com facilidade. E não dá outra, pois o passar de pouco tempo já consome o seu entusiasmo com aquela relação, e vem uma ideia na qual todos nós já pensamos algumas vezes: apagar da memória lembranças que se tornaram indesejadas. No argumento proposto por Gondry e transformado em roteiro por Charlie Kaufman, esse pensamento pode se converter em atitude, e ela parte para uma clínica especializada no procedimento de remoção de recordações, um golpe e tanto no coração já partido de Joel. Em boa parte da narrativa do longa - premiado com o Oscar de melhor roteiro original -, Clementine é vista sob a ótica do ex-namorado, e qualidades e defeitos se misturam no seu pensamento invadido pelos profissionais da clínica. É uma personagem complexa. Humana, demasiadamente humana, afinal.

2. O amor não tira férias (The holiday, 2006), de Nancy Meyers


O ano de 2006 foi de dois grandes trabalhos na carreira da atriz, cada um com um diferente grau de visibilidade. Sua presença ainda rara em comédias foi marcada nesse simpático trabalho com a assinatura de Nancy Meyers, em que vive Iris, jornalista inglesa que vive uma desilusão amorosa - parece até castigo pelo que fez Joel passar como Clementine. Na tentativa de superar a dor de cotovelo ela faz um intercâmbio de casas com a estadunidense Amanda (Cameron Diaz, também divertida), também à volta com questões do coração. Como evidencia o título nacional, elas acabam não muito longe de novos amores, e Iris mostra a capacidade de Winslet para ser deliciosamente desengonçada no que se refere aos sentimentos, além de um timing cômico bem acertado. Não é de seus trabalhos mais vistos ou comentados, e o roteiro não é nenhum primor, funcionando bem para uma sessão da tarde com a chuva caindo lá fora, mas um feijão com arroz também mata a fome com muita eficiência.

3. Pecados íntimos (Little children, 2006), de Todd Field


Encarnar personagens multifacetados é uma especialidade de Winslet, e Pecados íntimos está aí para confirmar mais uma vez tal observação. Curiosamente, a adaptação do livro Criancinhas, de Tom Perrotta, não era ideia inicial de Todd Field. Ele queria verter para o cinema Revolutionary road, projeto que acabou não indo à frente, mas foi parar nas mãos de Sam Mendes, então marido de Winslet, que também atuou no longa baseado no romance de Richard Yates. No longa pelo qual concorreu ao Oscar como atriz principal com Meryl Streep (olha ela de novo), entre outras, ela interpreta Sarah Pierce, que assim como Clementine, não vê mais graça na rotina. Suburbana de nenhuma amiga real, ela encontra alento na paixão adúltera por Brad (Patrick Wilson), erguendo seu castelo de areia que, cedo ou tarde, começa a ruir. É um de seus desempenhos mais contidos, cheio de força no olhar e despido de qualquer caracterização especial, e até mesmo a mais básica maquiagem ficou ausente. Ela está naturalmente linda, mas sua beleza é sufocada no caos emocional que se lhe instala, e tarde para ir embora.

4. O leitor (The reader, 2008), de Stephen Daldry


Fazia tempo que Winslet e Daldry queriam trabalhar juntos. Ele havia pensado na atriz para dar vida à Laura Brown de As horas (The hours, 2002), personagem que acabou por ser interpretada por Julianne Moore (olha ela de novo). Depois de ter visto três vezes o longa, confesso que não consigo imaginar Winslet no papel, magnificamente defendido por Moore. Seis anos depois, o encontro de atriz e diretor no set finalmente aconteceu e ela deu conta de viver Hanna Schmitz, cobradora de semblante sempre sisudo que tem seu cotidiano anódino sacudido ao ajudar um rapaz acometido por um mal estar. O tórrido relacionamento com ele se estende por algum tempo, até que ela desaparece de sua vida, para ressurgir muitos anos depois em um cenário e situação bastante desagradáveis, para dizer o mínimo. Novamente Winslet demonstra a força do seu olhar, aqui exibindo um misto de arrependimento, nostalgia e culpa no reencontro inesperado com Michael (agora na pele de Ralph Fiennes). Foi com ele que Hanna teve o gosto de acessar obras literárias, que de outro jeito não teriam passado para ela de amontoados de letras e frases incompreensíveis.

5. Deus da carnificina (Carnage, 2011), de Roman Polanski


Muitos resumem esse papel de Winslet à cena do vômito, passagem catártica que ocorre depois de longos minutos de diálogo na adaptação da peça teatral de Yasmina Reza. Sob a regência de Polanski, ela faz bem mais que lançar dejetos estomacais, e divide a cena brilhantemente com Jodie Foster, Christoph Waltz e John C. Reilly, todos vivendo pais empenhados em não descer do salto da correção política para administrar um caso de briga entre dois meninos, cada um deles filho de um dos casais. O filho Nancy (Winslet) e Alan (Waltz) acerta o outro garoto com um taco, que lhe arranca dois dentes. Todos ali são verborrágicos, e sua Nancy coloca a boca no trombone, sendo uma das primeiras a abandonar os meios termos e culminar na referida cena que tem leitura metafórica também nesse retrato do discurso hipócrita. Winslet e seus colegas fazem rir de nervoso, espezinhando nossas mazelas sob a forma de um código linguístico muitas vezes não condizente com a linguagem corporal e dissolvendo o tênue verniz social da cordialidade. Outra cena maravilhosa de Nancy é quando ela joga longe o celular de Alan, até então sempre grudado no aparelho com mil telefonemas.

domingo, 16 de julho de 2017

A perseguição de um ideal através dos anos em Z - A cidade perdida

Este que vos escreve sentiu receio quando soube da premissa do sexto filme de James Gray: um homem obstinado por encontrar uma civilização perdida se embrenha na Amazônia por causa dessa procura. Resumidamente, é sobre esse pilar que se apoia Z - A cidade perdida (The lost city of Z, 2016), exibido no Festival de Berlim. Por que o receio? Não é exatamente a temática que se espera de um diretor de seu calibre, mais afeito a retratos urbanos pintados com certo intimismo, especialmente sua obra-prima, Amantes (Two lovers, 2008). O filme em análise está mais para um Werner Herzog, realizador de Aguirre, a cólera dos deuses (Der Zorn Gottes, 1972) e Fitzcarraldo (idem, 1972), cujos enredos se desdobram em aventuras megalomaníacas. Os pés atrás, contudo, ficaram no passado logo nos primeiros minutos de sessão de mais um Gray, que demonstra manter um elo coesivo com sua obra pregressa, e são detalhes aqui e e ali a sedimentar essa observação. 

O papel principal coube a Charlie Hunnan, e aqui está outra diferença em relação aos últimos filmes do diretor: sua parceria habitual com Joaquin Phoenix, celebrada em três longas, foi interrompida aqui. Se, por um lado, fica a lamentação pela ausência de Phoenix, por outro fica a tranquilidade pela competência de Hunnan vivendo Percy Fawcett, cujo ímpeto aventureiro desafia o conhecimento geográfico de seu tempo. Mesmo já tendo família constituída, com um filho pequeno e outro no ventre da esposa Nina (Sienna Miller), ele embarca numa jornada selva adentro tendo ao seu lado uma comitiva que também conta com Henry Costin (Robert Pattinson), conhecedor de alguns dos mistérios que o ambiente hostil resguarda. Assim, Z - A cidade perdida revela sua estrutura narrativa clássica, reafirmado Gray como um diretor perdido no tempo, o que está muito longe de ser um defeito. Pode ser para muitos nesses dias de obsolescência acelerada de relações e sentimentos, mas há beleza e qualidade nesse anacronismo, por assim dizer. 

Hunnan teve um desafio e tanto como Percy. O explorador atravessa os anos movido pela já citada obsessão, focado em estabelecer seu nome, mas o roteiro é cuidadoso em não achatá-lo como um mero vilão ou como herói prototípico. Ao fugir de perspectivas maniqueístas, a aventura fica mais rica e interessante, valendo cada um de seus 141 minutos, que passam com notável fluidez. O tempo avança e suas feições de Percy vão se tornando envelhecidas, e seu corpo vai deixando aos poucos de responder como antes, em grande medida por causa das idas e vindas à floresta, sempre com uma sucessão de perigos, incluindo nativos que não dominam a língua inglesa, fator dificultante na comunicação com ele e sua equipe. Na primeira viagem eles já precisam lidar com a hostilidade dos habitantes locais, que lhes destinam flechas, e ao tentar se defender das armas, se jogam no rio, infestado de piranhas, numa das sequências que despertam mais nervosismo em todo o filme. Aos poucos, Percy vai aprendendo o espanhol e conquistando a confiança dos ex-inimigos, mas a chegada a Z ainda parece uma quimera. 


O livro assinado por David Grann, repórter da conceituada revista New Yorker, foi a base para o roteiro de Gray. A publicação apresenta a aventura do coronel Fawcett em busca da cidade de Eldorado, à qual ele deu o codinome de Z, da mesma maneira que o longa conta. Suas expedições repercurtiram não apenas entre a comunidade científica da época, mas também ecoaram pelas décadas subsequentes como um exemplo de delírio febril, até que novas pesquisas pelo território selvagem lançaram uma luz diferente sobre o que se conhecia até então. Com pouca novidade a descobrir em termos de acontecimentos, Z - A cidade perdida é um daqueles casos de filme em que não importa muito o que acontece, mas como acontece. E os aspectos técnicos reforçam a qualidade da obra, como a fotografia na qual predominam tonalidades contrastantes para delinear o ambiente da floresta e o da sociedade urbana das primeiras décadas do século XX. É o segundo trabalho consecutivo de Gray nessa categoria com o o iraniano Darius Khondji, depois das duas parcerias com Joaquin Baca-Asay - em Os donos da noite (We own the night, 2007) e Amantes. 

Do currículo de Kohndji, de mais 62 títulos, constam trabalhos com David Fincher e Woody Allen, referências mais do que autenticadas de qualidade. Uma breve pesquisa sobre o fotógrafo revela que seu contato com essa arte vem da infância, quando já filmava em super 8, e diz-se que talvez seja dessa época que vem seu gosto por cores saturadas e que tão bem se encaixam no cinema de Gray. Para além dessa saturação cromática verificável em Z - A cidade perdida, seu trabalho também coloca os personagens em atmosferas enfumaçadas e cultiva um perfeccionismo que por vezes o diferencia de outros colegas, não necessariamente no sentido de torná-lo melhor - estilos de trabalho diferentes, afinal. Cabe falar ainda que brevemente de Pattinson, bem distante da persona de certo vampiro. Suas últimas escolhas (ou buscas) têm sido acertadas e aqui ele quase desaparece na pele de Costin, deixando o personagem prevalecer sobre o ator. E a jovem promessa Tom Holland surge na pele do filho mais velho de Fawcett, com quem tem relação conturbada, um dos entrechos mais emocionantes de todo o longa, sobretudo quando eles têm nova chance juntos rumo ao epílogo da obra, que reafirma Gray como um classicista do nosso tempo.

9/10

domingo, 2 de julho de 2017

BALANÇO MENSAL - JUNHO

Junho foi um mês de início complicado. Tive um problema de saúde que tornou algumas sessões menos confortáveis, interrompidas por uma dor que ia e voltava, mas passada a primeira semana do mês, a rotina voltou a flui normalmente. E foram muitos ótimos filmes desfilando na tela em 30 dias. Sigo com a proposta de ao menos um longa por dia, às vezes dois, entre inéditos e revisitados. Alguns cineastas decepcionaram em maior ou menor grau, como foi o caso de Alfred Hitchcock, em um filme indeciso entre o humor negro e o suspense, e Tony Scott com sua abordagem no estilo videoclipe clorófilo que se esgota bem antes da metade. Entre os bem-sucedidos posso citar Kenneth Lonergan, com quem fiz contato pela segunda vez, Frank Darabont, em mais uma grande adaptação da obra de Stephen King, e a sensibilidade de Catherine Hardwicke em minha primeira visita à sua obra. O cinema estadunidense acabou dominando de novo, mas sempre gosto de escapar dessa hegemonia passando por terras europeias, asiáticas e sul-americanas. Esse mês teve filme islandês, colombiano, romeno e japonês. Como resultado, surgem pequenos tesouros aqui e ali, devidamente registrados na lista completa que forma outra edição do balanço mensal.

MEDALHA DE OURO

Mississipi em chamas (Alan Parker, 1988)


Logo em sua abertura, a narrativa mostra que não está para brincadeira: dois bebedouros lado a lado com placas onde se lê black (preto) e white (branco) são focalizados, evidenciando uma tremenda segregação pelo tom de pele que é prática na cidadezinha do estado-título. Em seguida, as chamas ardem na tela, antecipando um fogaréu criminoso que traduz a mentalidade odiável de boa parte dos habitantes locais. Dali em diante, somos levados pela câmera de Parker junto com Rupert (Gene Hackman) e Alan (Willem Dafoe), agentes do FBI de concepções distintas, as quais lhes fazem bater de frente logo a caminho do lugar. Uma das explicações para a qualidade impressa em Mississipi em chamas é afastar qualquer traço de sentimentalismo, inclusive na trilha sonora, e acompanhar de perto os perigosos desdobramentos do ódio aos negros, especialmente aquele que, de certa forma, se encontra institucionalizado. Ao mesmo tempo, o roteiro de Chris Gerolmo não perde de vista a dimensão policialesca da trama, de inspiração na realidade e ainda atual em tempos como os nossos, de ódio amplificado via redes sociais.

MEDALHA DE PRATA

Minha vida de abobrinha (Claude Barras, 2016)


Quanto tempo é necessário para contar uma bela história? A julgar pela animação de Claude Barras, concorrente francesa ao Oscar de melhor animação em 2017, pouco mais de uma hora é o suficiente. Ainda que, ao chegar à sua última cena, a história de um garoto que se vê subitamente órfão deixe uma vontade de continuar vendo. Adotando o visual (hoje) clássico do stop motion, o realizador demonstra enorme carinho tanto pelo protagonista quanto pelos coadjuvantes, a maioria crianças com as quais Abobrinha, codinome pelo qual o menino gosta de ser chamado, passa a conviver com gente nova em um orfanato. O histórico de cada um é desproporcional à faixa etária: são vivências pesadas que forjam uma maturidade precipitada ou uma conduta repelente, como é o caso de Simon, que se protege sob a superfície de encrenqueiro e implicante. Por vezes, a condução dramática se revela seca e direta, mas não contradiz a observação sobre o carinho dedicado às crianças: na verdade, é a fuga de um estilo tipicamente hollywoodiano que pretende arrancar lágrimas pelo som de instrumentos de cordas ao fundo e diálogos calculados. São crianças, afinal.

MEDALHA DE BRONZE

Karen chora no ônibus (Gabriel Rojas Vera, 2011)


A Colômbia é um dos nossos vizinhos, e tal proximidade não é apenas econômica, mas também social e cultural. Na figura de Karen (Angela Carrizosa) o diretor resume uma porção de sentimentos que acomete uma mulher recém-saída de casa depois de ter desistido de um casamento que não lhe trazia satisfação. Fugindo da perspectiva reducionista de apenas vitimar Karen, o roteiro do próprio cineasta também mostra a personagem como alguém passível de erros, que se acomoda com sua condição de dependente da ajuda de estranhos pela rua. Uma cena é bastante emblemática de sua conduta questionável: depois de ter pedido várias vezes dinheiro a passantes - e consegui-lo de alguns - ela consegue fazer uma refeição; enquanto come, uma adolescente moradora de rua pede alimento a ela, que ignora solenemente os apelos da garota. É um filme que pertence ao grupo dos realistas, desprovido de movimentos de câmera inusitados ou mesmo ângulos extravagantes, limitado a mostrar o cotidiano de seus personagens em um fluxo temporal de poucos dias e a acompanhar as pequenas transformações internas que fazem seu mundo girar aos poucos.

INÉDITOS

189. Lenny (Bob Fosse, 1974) - > 7.0
190. O terceiro tiro (Alfred Hitchcock, 1955) -> 7.0
191. Um plano brilhante (Michael Radford, 2007) -> 6.0
192. A testemunha (Peter Weir, 1985) -> 6.0
193. Domino - A caçadora de recompensas (Tony Scott, 2005) -> 4.0
194. O estranho visitante (J.-P. Valkeapää, 2008) -> 5.5
195. A cidade onde envelheço (Marília Rocha) -> 7.5


196. Estranha compulsão (Richard Fleischer, 1959) -> 6.0
197. Viagem insólita (Joe Dante, 1987) -> 7.0
198. Margaret (Kenneth Lonergan, 2011) -> 7.5
199. A ovelha negra (Grímur Hákonarson, 2015) -> 8.0
200. A vida de outra mulher (Sylvie Testud, 2012) -> 6.0
201. Liberdade (Tony Gatlif, 2009) -> 7.0
202. Missão impossível - Protocolo fantasma (Brad Bird, 2011) -> 8.0


203. Personal shopper (Olivier Assayas, 2016) -> 7.5
204. Se eu quiser assobiar, eu assobio (Florin Serban, 2010) -> 5.0
205. Já estou com saudades (Catherine Hardwicke, 2015) -> 8.0
206. À espera de um milagre (Frank Darabont, 1999) -> 8.0
207. O gorila (José Eduardo Belmonte, 2012) -> 5.0
208. Amor impossível (Lasse Hallström, 2011) -> 6.0
209. Todos os homens do presidente (Alan J. Pakula, 1976) -> 8.0


210. Duro de matar - Um bom dia para morrer (John Moore, 2013) -> 5.0
211. Olhos da justiça (Billy Ray, 2015) -> 6.5
212. Karen chora no ônibus (Gabriel Rojas Veras, 2011) -> 8.0
213. O médico alemão (Lucía Puenzo, 2013) -> 5.0
214. Café lumière (Hou Hsiao-Hsien, 2003) - > 8.0
215. Tour de France (Rachid Djaïdani, 2016) -> 7.0
216. Sob o domínio do mal (Jonathan Demme, 2004) -> 7.5


217. Rede de mentiras (Ridley Scott, 2008) -> 6.0
218. Mississipi em chamas (Alan Parker, 1988) -> 8.5
219. Te prometo anarquia (Julio Hernández Cordón, 2015) -> 5.0
220. A salvo (Todd Haynes, 1995) -> 7.0
221. Leonera (Pablo Trapero, 2008) -> 7.0
222. Busca frenética (Roman Polanski, 1988) -> 7.0
223. As duas faces da felicidade (Agnès Varda, 1965) -> 7.0

REVISTOS

Queime depois de ler (Ethan e Joel Coen, 2008) -> 7.5
Os imperdoáveis (Clint Eastwood, 1992) -> 8.0
Maridos e esposas (Woody Allen, 1992) -> 9.0
De volta para o futuro (Robert Zemeckis, 1985) -> 9.0
O fantástico Sr. Raposo (Wes Anderson, 2009) -> 8.0
Hora de voltar (Zach Braff, 2004) -> 8.0

MELHOR FILME: Mississipi em chamas
PIOR FILME: Domino - A caçadora de recompensas 
MELHOR DIRETOR: Alan Parker, por Mississipi em chamas
MELHOR ATRIZ: Toni Colette, por Já estou com saudades
MELHOR ATOR: Gene Hackman, por Mississipi em chamas
MELHOR ATRIZ COADJUVANTE: Frances McDormand, por Mississipi em chamas
MELHOR ATOR COADJUVANTE: Brad Dourif, por Mississipi em chamas
MELHOR ROTEIRO ORIGINAL: Chris Gerolmo, por Mississipi em chamas
MELHOR ROTEIRO ADAPTADO: William Goldman, por Todos os homens do presidente
MELHOR FOTOGRAFIA: Ping Bin Lee, por Café Lumière
MELHOR TRILHA SONORA: Harry Gregson-Williams, por Já estou com saudades
MELHOR CENA: O diálogo ameaçador entre Rupert e Clinton no bar em Mississipi em chamas
MELHOR FINAL: Já estou com saudades