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domingo, 17 de junho de 2018

BALANÇO MENSAL - ABRIL

A vida anda corrida e eu ando cansado. Como consequência, o balanço de abril bate recorde de atraso entre os balanços e, por isso, vou ser bem mais sucinto com o texto introdutório e os ocupantes do pódio. O mês trouxe nomes importantes em produções nem sempre ótimas, e vale destacar - para o bem e para o mal - realizadores como John Boorman, Peter Greenaway (de quem oficialmente desisti depois de um terceiro filme fraco), Sidney Pollack, Naomi Kawase e Claire Denis. Vamos então aos vistos, revistos e melhores naquelas categorias já tradicionais.


PÓDIO 

MEDALHA DE OURO

Um lugar silencioso (John Krasinski, 2017)


Quebrei o jejum de nota 10 depois de mais de 1 ano - desde Aquarius (idem, 2016) - porque não há pontos realmente negativos a citar em Um lugar silencioso. Dificilmente me enveredo pelo gênero terror, mas não me arrependi da chance que dei ao longa de Krasinski, que coloca uma família em uma situação limite: garantir sua sobrevivência em um cenário pós apocalíptico, sem referência locativa específica. O desafio é conseguir manter o silencio a maior parte do tempo, já que a ameaça à vida são seres devoradores com uma audição hipersensível. Pensado como um filme sobre a capacidade de um pai de ser eficiente em proteger seus filhos - como declarou Krasinski em uma entrevista - Um lugar silencioso foi concebido também para referenciar outras obras do gênero. Ao ler o roteiro do marido, Emily Blunt não teve dúvidas: o papel da mãe deveria ser dela. Seu pedido foi atendido e, como os demais integrantes do elenco, ela está excelente, e um dos momentos mais tensos da narrativa é sua cena de trabalho de parto, desde já antológica e candidata forte a uma das melhores do ano.

MEDALHA DE PRATA

Tropa de elite 2 (José Padilha, 2010)



Tão bom quanto o primeiro, o segundo longa sobre os meandros da Polícia e da política no estado do Rio de Janeiro já tem quase uma década de existência, mas ainda não perdeu um pingo de sua atualidade. Agora coronel, Nascimento (Wagner Moura) acredita que pode fazer mais por sua cidade devido à patente mais alta, porém o que encontra são outros mecanismos de corrupção que o levam à famosa sentença, usada à exaustão por aí não sem razão: O sistema é foda. Para cariocas, a realidade apresentada é bastante palpável, e Tropa de elite 2 acaba se mostrando como um documento da revolta de quem quer andar na contramão dos podres poderes e se encontra sempre em uma caminhada quixotesca, desafiando gente graúda que não suja as mãos, porém manda fazer sem uma fagulha de crise de consciência ou risco de punição. Quem insiste em ver o cinema brasileiro apenas como um braço da Globo, cheio de comédias besteirol, precisa rever seus conceitos diante de uma obra como essa.

MEDALHA DE BRONZE

O homem nas trevas (Fede Alvarez, 2015)



O terror e a claustrofobia se relacionam em O homem das trevas, e o resultado é um dos longas do gênero mais angustiantes dos últimos anos. Confinados em um espaço limitado, os jovens protagonistas querem roubar a fortuna de um idoso que vive sozinho há muitos anos em uma casa afastada da vizinhança. Eles acreditam que será muito fácil lesar o homem, certeza que é corroborada quando, uma vez dentro da casa, descobrem sua condição de deficiente visual. Mas as aparências enganam, e é a partir desse momento que a faceta aterrorizante do longa de Fede Alvarez -  uruguaio quarentão com experiência de roteirista e diretor em quatro filmes até o momento - começa a vir à tona. O título original também vai se tornando cada vez mais justificável: não respire. É aconselhável também evitar as longas piscadas, e uns bons sustos estão garantidos.

INÉDITOS


127. Duelo de titãs (John Sturges, 1959) -> 8.0
128. À queima-roupa (John Boorman, 1967) -> 7.5
129. O passageiro (Jaume Collet-Serra, 2017) -> 7.0
130. Afogando em números (Peter Greenaway, 1988) -> 5.0
131. Crimes na madrugada (Baran bo Odar, 2017) -> 7.5
132. Assassino a preço fixo (Michael Winner, 1972) -> 6.5


133. Entre dois amores (Sidney Pollack, 1985) -> 6.0
134. A última missão (Hal Ashby, 1973) -> 7.0
135. Um lugar silencioso (John Krasinski, 2017) -> 10.0
136. O insulto (Ziad Doueiri, 2017) -> 7.5
137. Esplendor (Naomi Kawase, 2017) -> 7.5
138. O especialista (Luis Llosa, 1994) -> 6.5
139. Deixe a luz do sol entrar (Claire Denis, 2017) -> 6.0



140. O massacre da serra elétrica (Tobe Hooper, 1974) -> 7.0
141. Tropa de elite 2 (José Padilha, 2010) -> 8.0
143. Ana, meu amor (Calin Peter Netzer, 2017)  -> 7.5
144. O autor (Manuel Martín Cuenca, 2017) -> 7.5
145. You were never really here (Lynne Ramsey, 2017) -> 6.0
146. Todo o dinheiro do mundo (Ridley Scott, 2017) -> 5.0
147. Jogador nº 1 (Steven Spielberg, 2017) -> 7.5


148. Um grito no escuro (Fred Schepsi, 1988) -> 7.0
149. Correndo atrás de um pai (Lawrence Sher, 2017) -> 5.0
150. Meu rei (Maiwënn, 2015) -> 8.0
151. Bicicletas de Pequim (Xiaoshuai Wang, 2001) -> 7.5
152. A morte lhe cai bem (Robert Zemeckis, 1992) -> 7.5
153. Planeta dos macacos: a origem (Rupert Wyatt, 2011) -> 7.0
154. Seres rastejantes (James Gunn, 2006) -> 7.5



155. A vingança está na moda (Jocelyn Moorhouse, 2015) -> 5.0
156. Barry Lyndon (Stanley Kubrick, 1975) -> 8.0
157. Os iniciados (John Trengove, 2017) -> 7.0
158. Amor e revolução (Florian Gallenberger, 2015) -> 6.5
159. The post: a guerra secreta (Steven Spielberg, 2017) -> 6.0
160. Madrugada dos mortos (Zack Snyder, 2004) -> 7.0



161. Valente (Mark Andrews, Brenda Chapman e Steve Purcell, 2012) -> 6.0
162. A enguia (Shohei Imamura, 1997) -> 7.0
163. O experimento de aprisionamento de Stanford (Kyle Patrick Alvarez, 2015) -> 5.0
164. Aniquilação (Alex Garland, 2017) -> 5.5
165. Lendas do crime (Brian Helgeland, 2015) -> 6.0

REVISTOS

A caça (Thomas Vinterberg, 2012) -> 9.0
A pele que habito (Pedro Almodóvar, 2011) -> 9.0
Mais um ano (Mike Leigh, 2010) -> 9.0
Rebobine, por favor (Michel Gondry, 2008) -> 8.0
Dublê de corpo (Brian De Palma, 1984) -> 9.0

MELHOR FILME: Um lugar silencioso
MELHOR DIRETOR: John Krasinski, por Um lugar silencioso
MELHOR ATRIZ: Emily Blunt, por Um lugar silencioso
MELHOR ATOR: Wagner Moura, por Tropa de elite 2
MELHOR ATRIZ COADJUVANTE: Michelle Williams, por Todo o dinheiro do mundo
MELHOR ATOR COADJUVANTE: Vincent Cassel, por Meu rei
MELHOR ROTEIRO ORIGINAL: John Krasinski, por Um lugar silencioso
MELHOR ROTEIRO ADAPTADO:  William Makepeace Thackeray e Stanley Kubrick, por Barry Lyndon
MELHOR TRILHA SONORA: Jonny Greenwood, por You were never really here
MELHOR FOTOGRAFIA: Thomas Towned, por You were never really here
MELHOR CENA: O parto em Um lugar silencioso
MELHOR FINAL: Um lugar silencioso

domingo, 8 de abril de 2018

BALANÇO MENSAL - MARÇO

Chegou mais um balanço de filmes vistos e revistos, e mais uma vez o cinema oriental ganha destaque ocupando o lugar mais alto do pódio de março. Ainda estou em jejum de nota 10, mas ótimos títulos passaram diante dos meus olhos ao longo do terceiro mês do ano, em que já ultrapassei a marca dos 130 filmes. A cada ano que passa, me sinto um cinéfilo mais voraz, e essa sensação se traduz em quantidade, a qual, peneirada, deixa bons exemplares de cinema. Entre os diretores que desfilaram em março posso destacar queridinhos como Paul Thomas Anderson, Ken Loach, Aki Kaurismäki e Fatih Akin, este último um pouco longe de sua melhor forma, mas ainda digno de atenção.

MEDALHA DE OURO

Paradoxo (Wilson Yip, 2017)



Não é de hoje que o cinema oriental vem dando um banho em Hollywood, especialmente no terreno dos suspenses e dos policiais. O segundo gênero é talentosamente explorado em Paradoxo, que acompanha o desespero de um pai, negociador da polícia, diante do desaparecimento da filha. No passado, ele já havia perdido a esposa em um acidente e passou a ter apenas a garota de companhia, daí sua disposição insaciável para localizá-la. O que de melhor o roteiro oferece são as cenas de perseguição e a pancadaria muito bem coreografada. Uma sequência em especial é de deixar o fôlego suspenso, quando um dos suspeitos tenta escapar do cerco do protagonista - a essa altura junto com um aliado - e eles correm por vários minutos feito cão e gato. Ação da melhor qualidade e com muita substância: é só ficar de olho nos exemplares orientais.

MEDALHA DE PRATA

Trama fantasma (Paul Thomas Anderson, 2017)



Anunciado como a despedida de Daniel Day-Lewis do ofício de ator, Trama fantasma é um filme calcado em detalhes. Narrado sem pressa, pode entediar boa parte do público, especialmente em sua primeira hora, quando focaliza o cotidiano de gestos e hábitos impávidos de Reynolds Woodcock, alfaiate de mão cheia atento a qualquer milímetro fora do lugar em suas luxuosas criações para a alta sociedade de sua época - pormenores que outros deixariam passar ou não perceberiam. Sua jornada friamente calculada sofre alterações quando ele se envolve com Alma (Vicky Krieps, em interpretação vigorosa), garçonete simples, mas longe de ser ingênua. Lentamente, PTA vai desenrolando sua trama, levando seus personagens por caminhos inquietantes e revelando um relacionamento de estranha interdependência e aberto a mais de uma leitura. Está um pouco abaixo de joias como Magnólia (Magnolia, 1999), Sangue negro (There will be blood, 2007) e O mestre (The master, 2012), mas não se enganem: tanto Day-Lewis quanto PTA ainda têm muita lenha para queimar. Pena que o primeiro tenha optado por interromper esse processo.

MEDALHA DE BRONZE

Maudie (Aisling Walsh, 2016)




Sally Hawkins esteve entre as indicadas ao Oscar de melhor atriz por seu desempenho em A forma da água (The shape of water, 2017) com grande justiça. Poderia ter levado o prêmio, inclusive. Mas a Academia papou mosca ano passado ao não colocá-la entre as cinco premiáveis por seu papel em Maudie. Em cada trejeito, olhar e fala, essa londrina consegue imprimir uma personalidade marcante pertencente à mulher que encarna, em quem a vida pregou muitas peças. Depois de adulta, ela descobre um delicado talento pela pintura, mas, em paralelo, trava uma luta contra o avanço de uma artrite reumatoide. Em seu caminho também surge Everett (Ethan Hawke, subestimado), com quem desenvolve um relacionamento abusivo e que traz as cenas mais incômodas do longa, cuja direção coube ao pouco conhecido Aisling Walsh. A entrega de Hawkins é imensa, e a torna uma das mais brilhantes atrizes de sua geração, que vem mostrando o quanto é capaz desde que foi escalada por Mike Leigh para Agora ou nunca (All or nothing, 2002).

INÉDITOS

86. Invasores de corpos (Philip Kaufman, 1978) -> 6.5
87. O artista do desastre (James Franco, 2017) -> 7.5
88. Mad world (Chun Wong) -> 7.0
89. Não me mandem flores (Norman Jewinson, 1964) -> 7.0
90. Eu, Tonya (Craig Gillespie, 2017) -> 8.0
91. Apenas um beijo (Ken Loach) -> 7.5



92. Trama fantasma (Paul Thomas Anderson, 2017) -> 8.0
93. Quando o dia chegar (Jesper W. Nielsen, 2016) -> 7.0
94. Una (Benedict Andrews, 2016) -> 5.0
95. Mulheres do século XX (Mike Mills, 2016) -> 6.0
96. O que é que há, gatinha? (Clive Donner e Richard Talmadge, 1965) -> 6.0
97. Fidelidade sem limite (Michael R. Roskam, 2017) -> 7.0



98. Pai em dose dupla 2 (Sean Anders, 2017) -> 6.0
99. Uma noite e tanto (Gavin Wiesen, 2017) -> 7.0
100. Uma espécie de família (Diego Lerman, 2017) -> 5.0
101. O segundo rosto (John Frankenheimer, 1966) -> 7.5
102. Paradoxo (Wilson Yip, 2017) -> 8.5
103. A hora do rush 3 (Brett Ratner, 2007) -> 6.5



104. O touro Ferdinando (Carlos Saldanha, 2017) -> 5.0
105. Rebeldia indomável (Stuart Rosenberg, 1967) -> 7.5
106. Maudie (Aisling Walsh, 2016) -> 8.0
107. Hamlet vai à luta (Aki Kaurismäki, 1987) -> 7.0
108. Em pedaços (Fatih Akin, 2017) -> 7.0
109. O leão no inverno (Anthony Gilbert, 1968) -> 8.0
110. Five nights in Maine (Marris Curan, 2015) -> 7.5



111. O bom gigante amigo (Steven Spielberg, 2016) -> 4.0
112. Andando (Hirokazu Kore-eda, 2008) -> 8.0
113. Uma sombra passou por aqui (Jack Smight, 1969) -> 5.0
114. Tom of Finland (Dome Karukoksi, 2017) -. 6.0
115. Spartan (David Mamet, 2004) -> 6.5
116. Terremoto - A falha de San Andreas (Brad Peyton, 2015) -> 6.0
117. Twentynine palms (Bruno Dumont, 2003) -> 0.0
118. Love story - Uma história de amor (Arthur Hiller, 1970) -> 7.0



119. Tropa de elite (José Padilha, 2007) -> 8.0
120. Plano de voo (Robert Schwentke, 2005) -> 7.0
121. Voo noturno (Wes Craven, 2005) -> 7.0
122. Vidas que se cruzam (Guillermo Arriaga, 2008) -> 6.5
123. Ninguém sabe dos gatos persas (Bahman Gohbadi, 2009) -> 7.0
124. A longa caminhada (Nicolas Roeg, 1971) -> 7.5
125. Um senhor estagiário (Nancy Meyers, 2015) -> 7.0
126. Happy end (Michael Haneke, 2017) -> 6.0

REVISTOS


Onze homens e um segredo (Steven Soderbergh, 2001) -> 7.0
Doze homens e outro segredo (Steven Soderbergh, 2004) -> 6.0
Treze homens e um novo segredo (Steven Soderbergh, 2007) -> 7.0
História real (David Lynch, 1999) -> 9.0
A comunidade (Álex de la Iglesia) -> 8.5

MELHOR FILME: Paradoxo
PIOR FILME: Twentynine palms
MELHOR DIRETOR: Wilson Yip, por Paradoxo
MELHOR ATRIZ: Sally Hawkins, por Maudie
MELHOR ATOR: Daniel Day-Lewis, por Trama fantasma
MELHOR ATRIZ COADJUVANTE: Dianne Wiest, por Five nights in Maine
MELHOR ATOR COADJUVANTE: Ethan Hawke, por Maudie
MELHOR ROTEIRO ORIGINAL: Paradoxo, por Nick Cheuk, Lai-yin Leung
MELHOR ROTEIRO ADAPTADO: O leão no inverno, por John Goldman
MELHOR TRILHA SONORA: Jonny Greenwood, por Trama fantasma
MELHOR FOTOGRAFIA: Guy Godfree, por Maudie
MELHOR CENA: A perseguição coreografada em Paradoxo
MELHOR FINAL: Em pedaços

domingo, 25 de março de 2018

QUINTETO DE OURO - FILMES DE 1998

A exemplo do que havia feito ano passado, em que retrocedi no tempo para revisitar um ano e listar meus cinco preferidos, este ano decidi fazer o mesmo, com o detalhe de que, dessa vez, a volta no tempo é para um ano mais distante. Lá se vão 20 anos desde que vivemos 1998, e a sensação é que a contagem cronológica não bate com a biológica. Como assim já faz 20 anos que eu era uma criança no ensino fundamental que ainda não ligava quase nada para filmes e hoje sou um cinéfilo roxo? Pois é, meu caros leitores... O tempo não para! E como sou muito saudosista e apaixonado por idas e vindas no tempo, compartilho com vocês meu quinteto de preferidos de 1998. Mesmo porque, o cinema é uma arte sem prazo de validade, e sempre será possível olhar para trás em busca de bons filmes. 

É claro que, como em toda lista, ainda mais uma que só comporta cinco eleitos, títulos preciosos acabaram ficando de fora, parte deles porque simplesmente não couberam e outra parte porque ainda não assisti a eles, afinal um bom amante do cinema está sempre endividado: a relação de filmes para conferir não diminui nunca, mas existe débito mais gostoso? Quem dera a expressão ficar no vermelho fosse aplicável somente ao caso de se estar com muitos filmes à espera! Divagações à parte, o ano de 1998 trouxe obras importantes para as telas, e uma rápida busca para chegar algumas delas me fez chegar a nomes de realizadores como Terrence Malick e seu Além da linha vermelha - cotadíssimo para esse artigo - Walter Salles com o emocionante Central do Brasil, Thomas Vinterberg e o polêmico Festa de família, ícone do Dogma 95, além de Brian De Palma dando um bom papel a Nicolas Cage em Olhos de serpente e Todd Haynes visitando a cena do glam rock em Velvet goldmine. Esses são apenas alguns dos exemplares de um ano pouco comentado, mas com motivos de sobra para tal. Vamos então aos meus eleitos em ordem alfabética!

1. Conto de outono (Conte d'automneEric Rohmer)


Último representante da tetralogia de contos das quatro estações do ano pensada por Rohmer, o longa não economiza no falatório, característica marcante do realizador falecido em 2010, que também assinava o roteiro de suas produções. Aqui, uma mulher comum e solteirona é surpreendida pela amiga, que coloca um anúncio no jornal na tentativa de lhe arranjar um marido. É então que aparece um simpático homem, que demonstra genuíno interesse na "oferta", mas um outro alguém também fica à sua volta, e a partir dessa premissa básica Rohmer entretece sua trama de fios cotidianos, como tantas outras que se encontram em andamento por aí. Numa obra como a sua, pouco importa sobre o que ela é, mas como ela é sobre o que é. E já dizia a crítica com muita propriedade: foi com as palavras que o mestre Rohmer sempre nos conquistou. Em Conto de outono ele retoma a parceria com uma de suas atrizes mais queridas: Béatrice Roman volta à posição de protagonista, na qual tinha estado mais de uma década antes em Um casamento perfeito (Le beau marriage, 1982), e se mostra perfeitamente encaixada ao modus operandi rohmeriano.

2. A eternidade e um dia (Mia aioniotita kai mia mera, Theo Angelopoulos)


Longas jornadas no espaço e no tempo são uma constante no cinema de Angelopoulos, mas um grande artista que já nos deixou, mas cuja obra segue intacta para visitas e revisitas. O mote desse belo conto são as lembranças do escritor Alexandre (Bruno Ganz), evocadas depois que ele encontra uma carta da esposa, na qual ela relata um dia de verão passado 30 anos antes. É também com a leitura da carta que ele percebe os dias que deixou de viver enquanto estava mergulhado na palavra, e lhe vem o desejo de ter de volta ao menos alguns desses dias, mas, como todos sabemos, o tempo caminha apenas para frente. Porém, no roteiro de Angelopoulos, assinado com Tonino Guerra e Petros Markaris, parece haver uma chance tardia de viver momentos importantes. O caminho de Alexandre cruza com o de um garoto albanês que precisa atravessar a fronteira da Grécia, e a amizade entre eles ganha contornos singelos e emocionantes. O poliglota Ganz, alemão de nascimento, dessa vez atua em grego, mostrando que é o maior ator vivo no que se refere à variedade idiomática de papéis. Devido à sua temática, o longa faz uma dobradinha perfeita com O porto (Le havre, 2011), do querido Aki Kaurismäki, valendo a pena uma sessão de ambos em sequência.

3. Um plano simples (A simple plan, Sam Raimi)


Antes de dirigir a trilogia original de Homem-Aranha, Sam Raimi já tinha mais de 20 nos de carreira como ator e cineasta, e seus filmes desse período ainda seguem desconhecidos para a maioria do público, sejam cinéfilos ou não. Eu mesmo até hoje só conferi este exemplar da década de 90 de sua filmografia, e colocá-lo neste Quinteto é uma forma de chamar a atenção para ele, revelando o quanto é subestimado. O tal plano do título envolve dois irmãos - Hank (Bill Paxton) e Jacob (Billy Bob Thornton) -, que encontram os destroços de um navio cobertos de neve em plena floresta. No interior da aeronave, o piloto sem vida e uma mochila com quatro milhões de dólares. Descobrir a ideia que eles têm depois de tal detalhe é como juntar dois e dois. O problema é que a tal simplicidade do plano estava apenas na teoria, e Raimi aponta sua narrativa para um rumo degringolante - para os irmãos, não enquanto cinema. O destaque da dupla é Thornton, ator de muitos recursos expressivos, ele também subestimado por crítica e plateia. É interessante notar que a neve constante na história também se presta a uma leitura metafórica: os irmãos entram no meio de uma avalanche de problemas.

4. Quem vai ficar com Mary? (There's something about Mary, Bobby e Peter Farrelly)


Gênero esnobado nas premiações, a comédia tem vez no meu Quinteto de Ouro. Com a assinatura dos irmãos Farrelly, o resultado pode oscilar entre o fraco e o ótimo, e aqui a tendência é muito mais para o segundo. Reunindo escatologia e sentimento, uma combinação bastante inusitada, ele conta a jornada de encontros e desencontros do tímido e estabanado Ted (Ben Stiller), que perdeu a chance de sair com Mary (Cameron Diaz) na época do baile do colégio. Os anos passam e o coração dele ainda está ocupado por ela, daí a ideia de contratar um detetive (Matt Dillon) para saber seu paradeiro - mas o cara se interessa por Mary também. Para completar, ainda surge o ex-namorado da garota, e a ciranda de confusões está armada. Até hoje, Quem vai ficar com Mary? é celebrado como um dos mais divertidos filmes de comédia, e algumas cenas se tornaram antológicas, como a do topete de Mary feito com sêmen, o que dá uma dimensão do nível de humor politicamente incorreto, algo impensável para o contexto dos anos 2010. O mais valioso nos filmes dos Farrelly é o subtexto carinhoso (repare na canção tema), mesmo que ele muitas vezes possa estar soterrado sob uma pá de situações bizarras.

5. O show de Truman - O show da vida (The Truman show, Peter Weir)


Precursor da era dos reality shows que tomaram conta da televisão no alvorecer dos anos 2000 - e seguem firmes e fortes de algum modo até hoje -, o filme de Peter Weir, australiano setentão, lança um questionamento em meio a tantos outros: vale tudo pela audiência? O personagem do título seria um homem de vida absolutamente comum se não fosse por um importante detalhe: seu cotidiano é mostrado para milhões de telespectadores em cadeia nacional desde que ele veio ao mundo. Os amigos, os amores, os ganhos e perdas são parte do roteiro de um programa que vem se mantendo no ar graças aos elevados índices de audiência, revelando o tamanho do interesse das pessoas pela vida alheia. Jim Carrey dá vida a Truman sem lançar mão das caras e bocas com que deita e rola na comédia, trilhando um caminho de contenção e apresentando uma faceta que poucos diretores até hoje lhe deram a chance de exercitar - depois dessa, a outra chance foi em Brilho eterno de uma mente sem lembranças (Eternal sunshine of the spotless mind, 2004). A ideia do programa fez escola em alguma medida, e hoje os Trumans, quase todos sem qualquer brilho e profundidade, estão povoando as redes de televisão ano após ano. 

sábado, 3 de março de 2018

BALANÇO MENSAL - FEVEREIRO

O mês mais curto do ano também é cheio de filmes! Faz quase seis anos que venho mantendo o ritmo de um filme por dia, com raras interrupções nessa jornada e alguns dias de dobradinhas e até mesmo trios. A flexibilidade dos meus horários ajuda bastante, além de poder ver os filmes no celular - a menos ideal das telas, é verdade - para cima e para baixo pela cidade. Os eleitos desse mês para o pódio são todos dramas estadunidenses, dois deles super recentes, situação que nunca é planejada. Admito que prefiro a variedade total de épocas, nacionalidades e gêneros, mas também não posso fingir que não gostei mais de certos filmes simplesmente em nome de uma suposta diversidade nesses aspectos, então seguem os meus mais queridos acompanhados de breves comentários e a lista completa dos longas vistos e revistos em fevereiro.

PÓDIO

MEDALHA DE OURO

Três anúncios para um crime (Martin McDonagh, 2017)



Com uma personagem escrita sob medida para ela, Frances McDormand deita e rola em Três anúncios para um crime (Three billboards outside Ebbing, Missouri, 2017), sua primeira parceria com o realizador Martin McDonagh. Os tais anúncios do título, localizados em uma estrada de raras passagens de veículos, denunciam a lentidão da polícia local em descobrir e capturar os responsáveis pelo estupro seguido de assassinato da filha de Mildred (McDormand), bem como manifestam o desejo de ver o cumprimento da lei como uma espécie de alívio parcial de uma dor profunda. Casando drama e humor negro em momentos inesperados, o roteiro do próprio diretor joga na tela discussões importantes, como os limites e a validade da justiça com as próprias mãos - nos atos, por vezes, extremos de Mildred e a persistência do racismo nos dias atuais, demonstrando que o cidade parou no tempo nesse quesito. O elenco afiado está à vontade em cena e McDormand volta a chamar a atenção para a atriz maravilhosa que sempre foi - a essa altura, já devidamente premiada pelo filme com Globo de Ouro, SAG e Bafta.

MEDALHA DE PRATA

A melhor escolha (Richard Linklater, 2017)



O tempo é o grande foco de Linklater a cada filme. De uma forma ou de outra, essa convenção fora da qual parece não existir vida comparece quase como personagem nas suas histórias. Depois do extraordinariamente simples Boyhood (idem, 2014), era alta a expectativa por mais um trabalho excepcional. Por mais que não alcance o nível do que tinha feito antes, A melhor escolha também é um filme de grandes momentos, cuja ação é desencadeada quando um veterano de guerra encontra dois companheiros daquele tempo - graças à internet, onde se acha todo mundo, ele conta. Aqueles três homens que conviveram por um período relativamente curto e estiveram separados por décadas voltam ao contato para o sepultamento do filho do primeiro, e tais personagens são defendidos por um trio ao qual não falta talento: o subestimado Carrel é o pai em luto, enquanto Laurence Fishburne e Bryan Cranston vivem um reverendo que deixou o passado de excessos e um dono de bar sem a menor fé em Deus, respectivamente - situação que é explorada pelo roteiro. No fim das contas, Linklater entrega mais um filme em que a viagem importa mais do que a chegada, e o tempo mostra seus efeitos sobre corpos e mentes, até seu final honesto e bem palpável.

MEDALHA DE BRONZE

Rio violento (Elia Kazan, 1960)



Se tem uma palavra-chave para o cinema empreendido por Elia Kazan, ela é desencanto. Seus personagens enfrentam situações em que o sentimento emerge ou já aparece de cara, e com Rio violento (Wild river, 1960) não é diferente. O mote da narrativa é a necessidade de convencer a única família que resta em uma ilha que está muito perto de ser tomada pelas águas. Muitos funcionários do governo já estiveram ali argumentando sobre a importância de se retirar o quanto antes, mas os habitantes se apegam à história que construíram ali, sobretudo a matriarca, intransigente quanto à proposta de viver em outro lugar. Então surge Chuck Glover (Montgomery Clift, especialista em sujeitos tristes), que não se dá por vencido e embarca numa causa que se mostra perdida a cada nova tentativa. O que seria apenas um trabalho como outro qualquer acaba se transformando em um recomeço para o seu coração, mas em se tratando de um cinema desencantado, até que ponto? Alívio parece uma realidade distante demais para aqueles tipos, extraídos do romance de William Bradford Huie e Borden Deal.

INÉDITOS

46. Moby Dick (John Huston, 1956) -> 7.0

47. Perdidos em Paris (Fiona Gordon e Dominique Abel, 2015) -> 7.0
48. Coincidências do amor (Josh Gordon e Will Speck, 2010) -> 5.0
49. Meu melhor companheiro (Robert Stevenson, 1957) -> 8.0
50. Feito na América (Doug Liman, 2017) -> 6.5
51. A forma da água (Guillermo Del Toro, 2017) -> 8.5
52. Fome de poder (John Lee Hancock, 2016) -> 7.0


53. Pai em dose dupla (Sean Anders, 2015) -> 5.0
54. Neve negra (Martín Hodara, 2017) -> 5.5
55. Suburbicon (George Clooney, 2017) -> 6.0
56. O ataque da mulher de 15 metros (Nathan Juran, 1958) -> 6.5
57. A mulher do lado (François Truffaut, 1981) -> 7.0
58. Redemoinho (José Luiz Villamarim, 2016) -> 7.0



59. As duas Irenes (Fabio Meira, 2017) -> 7.0

60. De volta para casa (Hallie Meyers-Shyer, 2017) -> 7.0
61. Brigada 49 (Jay Russell, 2004) -> 7.0
62. Viagem ao centro da Terra (Henry Levin, 1959) -> 6.5
63. O guia do mochileiro das galáxias (Garth Jennings, 2005) -> 4.0
64. Lion - Uma jornada para casa (Garth Davis, 2016) -> 6.0
65. A hora do rush 2 (Brett Ratner, 2001) -> 6.0


66. Lady Bird - A hora de voar (Greta Gerwig, 2017) -> 7.0
67. Rio violento (Elia Kazan, 1960) -> 8.0
68. Roman J. Israel, Esq. (Dan Gilroy, 2017) -> 7.0
69. O grande truque (Christopher Nolan, 2006) -> 7.0
70. Homem de Ferro (Jon Favreau, 2008) -> 6.0
71. O amor é um crime perfeito (Jean-Marie e Arnaud Larrieu, 2013) -> 5.0
72. O terror das mulheres (Jerry Lewis, 1961) -> 8.0


73. O formidável (Michel Hazanavicius, 2017) -> 7.5
74. Me chame pelo seu nome (Luca Guadagnino, 2017) -> 8.0
75. A melhor escolha (Richard Linklater, 2017) -> 8.5
76. Pantera Negra (Ryan Coogler, 2017) -> 7.5
77. Atraídos pelo crime (Antoine Fuqua, 2009) -> 5.0
78. Os Meyerowitz - Família não se escolhe (Noah Baumbach, 2017) -> 6.0


79. Hatari! (Howard Hawks, 1962) -> 7.5
80. O turista acidental (Lawrence Kasdan, 1988) -> 6.0
81. Três anúncios para um crime (Martin McDonagh, 2017) -> 9.0
82. A vingança do ator (Kon Ichikawa, 1963) -> 7.0
83. O procurado (Timur Bekmambetov, 2008) -> 6.5
84. Pendular (Julia Murat, 2017) -> 7.0
85. Sede de viver (Vincente Minelli, 1956) -> 7.0

REVISTOS

Grandes esperanças (Alfonso Cuarón, 1998) -> 8.0
Lilo e Stitch (Chris Sanders e Dan DeBlois, 2002) -> 7.5
Sideways - Entre umas e outras (Alexander Payne, 2004) -> 8.0
Memórias (Woody Allen, 1980) -> 8.0

MELHOR FILME: Três anúncios para um crime
MELHOR DIRETOR: Martin McDonagh, por Três anúncios para um crime
MELHOR ATRIZ: Frances McDormand, por Três anúncios para um crime
MELHOR ATOR: Denzel Washington, por Roman Israel, Esq.
MELHOR ATRIZ COADJUVANTE: Laurie Metcalf, por Lady Bird - A hora de voar
MELHOR ATOR COADJUVANTE: Sam Rockwell, por Três anúncios para um crime
MELHOR ROTEIRO ORIGINAL: Três anúncios para um crime, por Martin McDonagh
MELHOR ROTEIRO ADAPTADO: Rio violento, por Paul Osborn
MELHOR TRILHA SONORA: A forma da água
MELHOR FOTOGRAFIA: Me chame pelo seu nome
MELHOR CENA: O diálogo final de Mildred e Dixon em Três anúncios para um crime
MELHOR FINAL: A forma da água

segunda-feira, 19 de fevereiro de 2018

QUINTETO DE OURO - DENZEL WASHINGTON

Ainda foram poucos os atores homenageados com um Quinteto de Ouro aqui pelo blog, e para ajudar a diminuir essa injustiça, selecionei um dos meus queridos dos últimos anos para apresentar o que prefiro dentro de sua filmografia. Nascido Denzel Hayes Washington há 63 anos em Mont Vernon, meu escolhido do mês acumula mais de 40 filmes em sua carreira, e em 3 deles também assinou a direção. Seu prenome foi dado como forma de reconhecimento pelo trabalho do médico que o trouxe ao mundo, e seus pais eram um pastor protestante e uma esteticista. Denzel, aliás, fala abertamente sobre sua fé e aconselha seu público baseado nela, um dos pouquíssimos em Hollywood a adotar essa postura. 

Sua entrada para o mundo da atuação não era algo previsto inicialmente: ele entrou na universidade para cursar Jornalismo, mais logo foi para o Teatro, e então começou sua carreira de ator. A estreia no cinema veio com A história de um soldado (A soldier's story, 1984), então aos 30 anos e em sua primeira parceria com Norman Jewinson, com quem voltaria a se encontrar em Hurricane - O furacão (Hurricane, 1999), pelo qual recebeu uma das suas 8 indicações ao Oscar e uma das 9 ao Globo de Ouro. A Academia costuma lhe fazer justiça, aliás, embora também já tenham deixado passar alguns papéis. Duas vezes premiado com o Oscar - uma delas incluída na minha seleção -  e duplamente vencedor no Festival de Berlim, ele demonstra não se importar com tais questões. Basta ver seu jeito desconfortável ao ser anunciado nessas cerimônias e mesmo ainda quando vence, tal como aconteceu na edição 2017 do prêmio do Sindicato dos Atores de Hollywood. Muitos hoje o apontam como um sucessor legítimo de Sidney Poitier, que inclusive levou o Oscar honorário no mesmo ano em que ele foi premiado pela segunda vez por uma atuação.

Uma ressalva importante sobre o quinteto escolhido: até o momento, visitei a filmografia de Denzel dos anos 2000 para cá, com exceção de O colecionador de ossos (The bone collector, 1999), mas que não é bom o suficiente para estar aqui. A dívida com o que ele fez entre os anos 80 e 90 vai ser paga com o tempo, e por enquanto ofereço esse recorte dentro de sua carreira, e nesse arco de tempo ele tem filmes que realmente valem a pena. E no fim das contas todas as listas ficam sempre sujeitas a revisões de integrantes e ordens - não vai ser essa que conseguirá escapar dessa sina. Falando em ordem, a escolhida para listar os filmes aqui foi a cronológica. Vamos ao que de melhor o carismático Denzel tem para mim até o momento.

1. Dia de treinamento (Training day, 2001)


Um dos filmes mais citados de sua carreira, Dia de treinamento é também o primeiro de seus três encontros com o realizador Antoine Fuqua, e o mais bem-sucedido deles. Na pele de Alonzo Harris, ele desnuda a corrupção que habita a Divisão de Narcóticos, levantando o questionamento: lei para quem? No seu caso, a lei é a que ele faz e a que lhe convém, e essa é a péssima lição que ele quer transmitir a Jake Hyot (Ethan Hawke), policial com uma vida pessoal tumultuada que precisa decidir até onde vai sua capacidade de servir e proteger os cidadãos. Alonzo é daqueles personagens amorais, que precisa de um ator tarimbado para lhe conferir as nuances, e Denzel é uma excelente escolha. Apesar da pinta de bom moço, ele sempre consegue ser convincente como sujeitos transgressores e perigosos, e aqui mostra bem as facetas de um homem que só mantém o compromisso consigo mesmo. O papel lhe valeu a segunda estatueta do Oscar, depois de um jejum de de 12 anos. Curioso notar a empolgação de Julia Roberts ao anunciar sua vitória na cerimônia: antes de pronunciar seu nome, ela soltou um "Eu amo minha vida!" e, com seu largo sorriso, declarou que o Oscar ia para ele. Pelo visto, ficou uma amizade depois que eles contracenaram em O dossiê pelicano (The pelican brief, 1993).

2. Um ato de coragem (John Q, 2002)


Um ano depois, sai o cinismo deslavado, entra a paternidade obstinada. Porque ator bom é assim: consegue transitar por personalidades diferentes sem perder a credibilidade. Aqui, seu personagem título é um pai levado ao limite pelo complicado e cruel sistema de saúde estadunidense. Seu filho precisa de um transplante de coração, já que o seu se encontra aumentado, mas logo descobre que o plano de saúde pelo qual paga não cobre tal procedimento, e o pior é testemunhar o descaso do plano e do hospital com a situação - muitos justificam o fato de eles verem situações iguais ou parecidas o tempo todo, mas o senso de humanidade não deve se esvair mesmo nas piores rotinas. O que fazer nesse cenário? O tal ato de coragem do título nacional é fazer as pessoas presentes no hospital no momento de reféns, para liberá-los somente com a garantia de que o transplante vai ser realizado. Daí em diante a narrativa se mantém tensa e Denzel estampa a agonia de um pai que agiu por impulso e vai enfrentar as consequências, mas que também desperta um forte sentimento de identificação.

3. Chamas da vingança (Man on fire, 2004)


Além de Jewinson e Fuqua, Denzel também repetiu parcerias com Tony Scott. Aliás, foi o diretor com quem ele trabalhou mais vezes, totalizando cinco longas, dos quais o melhor é Chamas da vingança, com ação para ninguém reclamar, efeito alcançado em boa parte pela estética de videoclipe adotada por Scott. Ex-agente da CIA, seu John Creasy dribla a depressão e entra de novo em atividade para descobrir o paradeiro da filha de um poderoso empresário. Até então, ele era guarda-costas da menina e tinha desenvolvido uma relação terna com ela, mas seu lado furioso vem à tona a partir do sumiço da menina, situação que o leva à fronteira dos Estados Unidos com o México para comprar briga com imperadores do pó branco inalante. Sob a direção de Scott - hoje uma ausência sentida -, ele exala sua fome de justiça, mesmo que para isso também precise se desencaminhar dos trilhos originais dela, levando consigo o espectador para um mundo lúgubre onde compaixão é palavra riscada do vocabulário. Quase não há momentos de respiração livre, e John precisa ser menos palavra e mais pancada. Então uma criança, Dakota Fanning é uma parceira de cena com a qual Denzel alcança ótima química.

4. O voo (Flight, 2012)


Mais um filme a render indicação ao Oscar de melhor para Denzel, fato que interrompeu um hiato de 11 anos sem estar entre os cinco preferidos da Academia, O voo é teste de resistência para acrofóbicos em parte de sua primeira metade. Aqui ele interpreta Whip Whitaker, cujos problemas derivam diretamente do alcoolismo - o que, obviamente, já é um problema em si. Com sua experiência acumulada por anos trabalhando como piloto, ele consegue salvar tripulação e passageiros de uma tragédia iminente, e uma de suas manobras é tremendamente vertiginosa. O grande x da questão é que, durante a "performance" que o levou ao ato heroico, ele estava sob efeito de álcool e cocaína, situação inaceitável sob qualquer prisma, mas nos parâmetros da lei a situação é dúvida até que se prove sua autenticidade, e o roteiro trata de dedicar um bom tempo à investigação e abrir para o público um pouco mais da vida daquele homem de motivação combalida. É verdade que o filme tem uma barriga de uns 20 minutos e traz algumas obviedades na caminhada do protagonista, mas Denzel segura bem o papel e dá humanidade a Whip em cada cena.

5. Um limite entre nós (Fences, 2016)


Outro hiato foi quebrado aqui. Depois de 9 anos sem dirigir, ele decidiu levar para as telas um texto de August Wilson, que já havia encenado no teatro e pelo qual foi laureado com o Tony, premiação máxima da área nos EUA. Junto com Viola Davis, sua parceira de cena também nos palcos, ele vive um enredo em que a palavra assume a primazia, sobretudo no primeiro terço, quando a saraivada de diálogos quase impede o movimento das pálpebras para quem acompanha o filme em versão legendada. Seu Troy Maxon tem camadas que vão se revelando aos poucos, num trabalho de composição admirável que leva a audiência a oscilar sua perspectiva e seus sentimentos quanto a ele quase a cada nova cena. Pai extremoso e desastrado em seus afetos, marido relapso e também cheio de amor, o personagem é bem próximo do real, e tal detalhe também é um traço incômodo: se você não é um Troy, provavelmente conhece algum. Sua atuação foi a primeira a ser vitoriosa com o prêmio do SAG, desbancando o favorito da noite, Casey Affleck, num caso bem-vindo de surpresa.

domingo, 4 de fevereiro de 2018

BALANÇO MENSAL - JANEIRO

Este mês faz três anos que o pódio começou a aparecer nos balanços mensais, detalhe que o tornou um pouco mais longo e trabalhoso, porém no qual pretendo continuar insistindo. Janeiro deixou uma pá de filmes nota 8, o que tornou bastante difícil fechar os ocupantes da segunda e da terceira posição, enquanto a primeira foi garantida pelo único 8.5 que dei. O critério então passou a ser os dois nota 8 que mais me arrebataram e marcaram, e assim cheguei aos eleitos, podendo os demais serem considerados como menções honrosas. 

Enquanto em 2017 abri os trabalhos com um exemplar de terras italianas, este ano a longa caminhada cinematográfica teve seu pontapé inicial em solo japonês, com meu quarto Kyioshi Kurosawa, ao qual se sucederam nomes como James Ivory (um tanto abaixo das expectativas), Martin Scorsese (em um dos trabalhos menos típicos de sua carreira), George Cukor (num segundo contato mais proveitoso), William Wyler (provando que domina a arte das narrativas espacialmente restritas) e Todd Haynes (uma decepção ainda não digerida), só para citar brevemente alguns nomes. Cabe destacar também a forte presença feminina entre os diretores: foram nove no total, entre elas Kathryn Bigelow e Valerie Falls, um número significativo e que alia quantidade e qualidade. Segue a primeira leva de longas vistos e revistos em 2018!

PÓDIO

MEDALHA DE OURO

The square - A arte da discórdia (Ruben Östlund, 2017)


O realizador comemorou efusivamente sua Palma de Ouro no 69º Festival de Cannes, e tinha toda a razão. O prêmio máximo da mostra nunca tinha sido entregue a uma obra tão irreverente e de muitas ressonâncias morais, artísticas e sociológicas que provoca seu espectador do início ao fim. Não são poucas as situações absurdas a desafiar o status quo e provocar reações como o riso e o desconforto, sempre aliadas a ótimas interpretações, entre elas uma das atuais queridinhas do mundo das séries: Elizabeth Moss. Com The square, o realizador alfineta e dá tapas com luva de pelica no universo da arte, questionando o que pode ser enquadrado nesse rótulo. Aliás, o título original apresenta uma dubiedade, já que é traduzível por praça ou quadrado, mas o caso é o segundo mesmo, uma obra que está para ser lançada no museu do qual o protagonista é curador e precisa divulgar. Ao recorrer a uma empresa de marketing, eles realizam um trabalho de gosto, no mínimo, duvidoso, e daí surgem alguns dos achincalhes enfileirados por Östlund em pouco mais de duas horas de narrativa.

MEDALHA DE PRATA

Enquanto você dorme (Jaume Balagueró, 2011) 


Parece consenso que todos vivemos nossos momentos de felicidade, mas o protagonista de Enquanto você dorme coloca esse raciocínio em xeque com seu cotidiano absolutamente desprovido de tal sentimento. Em sua narração em off, ele declara que nunca se sentiu realmente feliz e tem enorme dificuldade para achar motivação que o faça se levantar da cama todos os dias. Seu semblante carregado é incapaz de esboçar sorrisos além daqueles que indicam cordialidade, e também esses são vazios porque, uma vez sem qualquer experiência em ser feliz, a empatia com quem o é permanece sempre a nível zero. Pior é que ele ocupa a função de porteiro do prédio onde mora, e lhe incomoda especialmente uma nova moradora, que segue com expressão de alegria mesmo com os reveses que enfrenta. Ele então declara uma guerra silenciosa àquela cujo único "erro" foi demonstrar felicidade, e e em cima dessa ideia se constrói o suspense de dar nos nervos (bom ou mau sentido, a depender do momento), que reserva momentos realmente surpreendentes e traz uma brilhante atuação de Luis Tosar, mais do que crível em seu personagem nada heróico.

MEDALHA DE BRONZE

O amante de um dia (Philippe Garrel, 2017)


Na atividade de realização cinematográfica desde os anos 60, Philippe Garrel não faz a menor questão de fugir de um certo anacronismo na concepção formal de seus longas, escolha que gera efeitos particulares no público contemporâneo, avesso a caminhadas lentas onde "nada acontece". Suas histórias sempre acabam versando sobre o mal de amar, que vem basicamente do fato de que o amor, ao menos o que se vivencia pelos seres humanos, é o sentimento mais imprevisível que existe. Em O amante de um dia quem sente o peso dessa verdade é Jeanne (Esther Garrel, filha do diretor), chorosa enquanto enfrenta o término de um relacionamento no qual estava inteiramente mergulhada. De volta à casa do pai, um professor universitário envolvido com uma estudante, ela encontra um ouvido para seus desabafos e uma interlocutora para suas questões de coita amorosa, termo que procede do Trovadorismo e encontra guarida na proposta de cinema da qual Garrel pai segue como estandarte e arvora a cada dois ou três anos, para felicidade de uma parcela da população cinéfila.

INÉDITOS

1. Sonata de Tóquio (Kyioshi Kurosawa, 2008) -> 7.5
2. Com amor, Van Gogh (Dorota Kobiela e Hugh Welchman, 2016) -> 5.0
3. Um clarão nas trevas (Terence Young, 1967) -> 7.0
4. Uma janela para o amor (James Ivory, 1985) -> 6.5
5. Detroit em rebelião (Kathryn Bigelow, 2017) -> 8.0
6. A região selvagem (Amat Escalante, 2016) -> 7.0
7. Silêncio (Martin Scorsese, 2016) -> 8.0


8. Fúria sanguinária (Raoul Walsh, 1949) -> 8.0
9. O guarda (John Michael McDonaugh, 2011) -> 8.0
10. Extraordinário (Stephen Chbosky, 2017) -> 8.0
11. Nascida ontem (George Cukor, 1950) -> 7.5
12. The square - A arte da discórdia (Ruben Östlund, 2017) -> 8.5
13. The whispering star (Shion Sono, 2015) -> 8.0



14. O incidente no Nile Hilton (Tarik Saleh, 2017) -> 7.0
15. Joaquim (Marcelo Gomes, 2017) -> 7.0
16. Viva - A vida é uma festa (Lee Unkrich e Adrian Molina, 2017) -> 8.0
17. Terra fria (Niki Caro, 2005) -> 7.5
18. A guerra dos sexos (Valerie Falls e Jonathan Dayton, 2017) -> 7.0
19. O amante de um dia (Philippe Garrel, 2017) -> 8.0
20. Chaga de fogo (William Wyler, 1951) -> 8.0




21. O efeito aquático (Sólveig Anspach e Jean-Luc Gaget, 2016) -> 7.5
22. Victoria e Abdul - O confidente da rainha (Stephen Frears, 2017) -> 7.0
23. Alien 3 (David Fincher, 1992) -> 7.5
24. Colo (Teresa Villaverde, 2017) -> 7.0
25. A hora do rush (Brett Ratner, 1998) -> 5.0
26. Conspiração e poder (James Vanderbilt, 2015) -> 7.0
27. A carruagem de ouro (Jean Renoir, 1952) -> 7.0
28. Sem fôlego (Todd Haynes, 2017) -> 4.0



29. Bingo - O rei das manhãs (Daniel Rezende, 2017) -> 7.5
30. A vilã (Byung-gil Jung, 2017) -> 6.0
31. A um passo da eternidade (Fred Zinemann, 1953) -> 8.0
32. Souvenir (Bavo Defurne, 2016) -> 7.0
33. Enquanto você dorme (Jaume Balagueró, 2011) -> 8.0
34. Caindo na real (Ben Stiller, 1994) -> 6.0
35. Lágrimas sobre o Mississipi (Dee Rees, 2017) -> 7.5



36. Tempo de despertar (Penny Marshall, 1990) -> 8.0
37. 2000 léguas submarinas (Richard Fleischer, 1954) -> 7.5
38. O idiota (Yuriy Bykov, 2014) -> 8.0
39. Infância clandestina (Benjamín Ávila, 2011) -> 6.0
40. Paris pode esperar (Eleanor Coppola, 2016) -> 7.0



41. Western (Valeska Grisebach, 2017) -> 4.0
42. Um sábado violento (Richard Fleischer, 1955) -> 8.0
43. O homem que incomoda (Jens Lien, 2006) - 7.0
44. A troca (Clint Eastwood, 2008) -> 7.5
45. Projeto Flórida (Sean Baker, 2017) -> 7.0

REVISTOS

Paris, te amo (Gurindher Chadcha, Sylvain Chomet, Wes Craven, Ethan e Joel Coen, Alexander Payne e outros, 2006) -> 7.5
Paris, Texas (Wim Wenders, 1984) -> 8.5
2 dias em Paris (Julie Delpy, 2007) -> 7.5
Amor em cinco tempos (François Ozon, 2004) -> 7.5
Trem mistério (Jim Jarmusch, 1989) -> 8.5

MELHOR FILME: The square - A arte da discórdia
MELHOR DIRETOR: Jaume Balagueró, por Enquanto você dorme
MELHOR ATRIZ: Judie Holliday, por Nascida ontem
MELHOR ATOR: Luis Tosar, por Enquanto você dorme
MELHOR ATRIZ COADJUVANTE: Julia Roberts, por Extraordinário
MELHOR ATOR COADJUVANTE: Ernest Borgnine, por A um passo da eternidade
MELHOR ROTEIRO ORIGINAL: Ruben Östlund, por The square - A arte da discórdia
MELHOR ROTEIRO ADAPTADO: Martin Scorsese e Jay Cocks, por Silêncio
MELHOR FOTOGRAFIA: The whispering star
MELHOR TRILHA SONORA: Viva - A vida é uma festa
MELHOR CENA: A canção da infância que desperta a memória da bisavó em Viva - A vida é uma festa
MELHOR FINAL: A um passo da eternidade