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terça-feira, 2 de janeiro de 2018

BALANÇO MENSAL - DEZEMBRO

Antes de eu declarar 2017 definitivamente encerrado do ponto de vista cinematográfico, não pode faltar meu balanço mensal, que reúne as últimas sessões do ano, parte das quais vou levar na memória ao longo deste e dos próximos anos, tamanha a qualidade que apresentam. O pódio acabou reunindo somente filmes novíssimos, o que revela a total possibilidade de realização de excelentes produções no cinema contemporâneo. Seguem, portanto, os inéditos e os revisitados de dezembro. Feliz 2018!

PÓDIO

MEDALHA DE OURO

Roda gigante (Woody Allen)


Em breve, crítica completa, como sempre faço para os filmes de Allen. Por enquanto, o textinho que escrevi para justificar sua inclusão na lista de melhores filmes de 2017: O mesmo filme e, ainda assim, um filme diferente. A façanha anual de Allen se cumpriu novamente, e seu encontro com ninguém menos do que Kate Winslet nos leva para os anos 50 em Coney Island para encontrar uma mulher amarga, cujo erro do passado ainda atormenta e o casamento atual não satisfaz. Um romance com um salva-vidas parece uma tábua de salvação (conceito que é uma das recorrências do diretor) e um novo erro vem para desarranjar o estado das coisas. Tudo isso com luzes impressionantes, trabalho do esteta Vittorio Storaro. 

MEDALHA DE PRATA

O sacrifício do cervo sagrado (Yorgos Lanthimos)


Estranheza é um dos pilares do cinema proposto por Yorgos Lanthimos, cineasta grego que surgiu com um o duvidoso Dente canino (Kynodontas, 2009) e, desde então, vem melhorando a cada filme. Curiosamente, sem deixar suas características de lado, mas depurando um estilo que vem demonstrando amadurecimento como realizador. Em seu quarto trabalho, ele causa incômodo ao adentrar o cotidiano de uma família cujo patriarca (Colin Farrel, intérprete mais sólido a cada filme), consumido pela culpa, desenvolve um relacionamento de contornos cada vez mais bizarros com o filho de uma vítima sua, e tal bizarrice vem das atitudes do garoto, mais e mais obcecado. Não faltam momentos em que o inesperado é dito ou feito, e a crescente atmosfera de terror, potencializada por enquadramentos insólitos e uma trilha incidental opressora, leva a narrativa para além de um drama familiar. O prêmio de melhor roteiro no Festival de Cannes ficou em ótimas mãos.

MEDALHA DE BRONZE

Star wars episódio VIII - Os últimos Jedi (Rian Johnson)


O filme também ganhou um textinho por ter sido listado entre os melhores de 2017, e o trago novamente aqui: Foram dois anos de espera até o reencontro com figuras carismáticas e queridas em duas aventuras galácticas no ano em que o quarto episódio completou quarenta anos. E foi o encontro com mais um herói vulnerável: Luke Skywalker assume suas fraquezas e se revela um mito desconstruído, com um erro pelo qual se culpa, mas uma aparição muito especial o faz rever sua postura. Tentativas e erros de outros heróis também surgem, mostrando que sempre há muito a aprender. E os comentários acabam aqui!

INÉDITOS

394. Minha mãe é uma viagem (Anne Fletcher, 2012) -> 5.0
395. Assassinato no Expresso do Oriente (Kenneth Branagh, 2017) -> 7.0
396. Coisas belas e sujas (Stephen Frears, 2002) -> 7.0
397. O corpo (Oriol Paulo, 2012) -> 8.0
398. Kingsman: o círculo dourado (Matthew Vaughn, 2017) -> 6.0
399. Shine - Brilhante (Scott Hicks, 1996) -> 6.0


400. O colecionador de ossos (Philip Noyce, 1999) -> 6.0
401. Delicatessen (Jean-Pierre Jeunet e Marc Caro, 1991) -> 7.0
402. Contra o tempo (Duncan Jones, 2011) -> 7.0
403. Minha irmã (Ursula Meier, 2012) -> 7.0
404. Doentes de amor (Michael Showalter, 2017) -> 7.5
405. Estômago (Marcos Jorge, 2007) -> 8.0


406. Cadê os Morgan? (Marc Lawrence, 2009) -> 4.0
407. Perfume - A história de um assassino (Tom Tykwer, 2006) -> 6.5
408. Agente 86 (Peter Segal, 2008) -> 7.0
409. O cidadão ilustre (Gastón Duprat e Mariano Cohn, 2017) -> 8.5
410. O dia depois (Hong Sang-soo, 2017) -> 7.5
411. Pasqualino sete belezas (Lina Wertmüller, 1975) -> 6.0
412. Como irmãos (Hugo Célin, 2012) -> 7.0


413. Depois daquela montanha (Hany Abu-Asad, 2017) -> 5.0
414. Amor à distância (Nanette Burstein, 2010) -> 6.0
415. Star wars episódio VIII - Os últimos Jedi (Rian Johnson, 2017) -> 8.5
416. Columbus (Kogonada, 2017) -> 8.0
417. Sombras do pavor (Henri-Georges Clouzot, 1943) -> 7.5
418. Clever (Federico Borgia e Guillermo Madeiro, 2015) -> 7.0


419. Revelação (Robert Zemeckis, 2000) -> 6.0
420. Desamor (Andrey Zvyagintsev, 2017) -> 8.0
421. O bebê de Bridget Jones (Sharon Maguire, 2016) -> 7.0
422. Elon não acredita na morte (Ricardo Alves Jr., 2016) -> 4.0
423. O motorista de táxi (Hun Jang, 2017) -> 8.0
424. Dieta mediterrânea (Joaquín Oristrell, 2009) -> 7.0
425. A festa (Sally Potter, 2017) -> 7.0


426. O que te faz mais forte (David Gordon Green, 2017) -> 7.0
427. A sombra da árvore (Hafsteinn Gunnar Sigurðsson, 2017) -> 8.0
428. Um dia em Nova York (Gene Kelly e Stanley Donen, 1949) -> 7.0
429. Roda gigante (Woody Allen, 2017) -> 9.0
430. Rastros (Agnieska Holland e Kasia Adamik, 2017) -> 5.0
431. O sacrifício do cervo sagrado (Yorgos Lanthimos, 2017) -. 9.0
432. Ensiriados (Philippe Van Leuuw, 2017) -> 7.5

REVISTOS

Horas de verão (Olivier Assayas, 2008) -> 8.0
O jogador (Robert Altman, 1992) -> 8.0
Conto de verão (Eric Rohmer, 1996) -> 8.0
Desejo e obsessão (Claire Denis, 2001) -> 8.0
Blow up (Michelangelo Antonioni, 1966) -> 7.0

MELHOR FILME: Roda gigante
MELHOR DIRETOR: Woody Allen, por Roda gigante
MELHOR ATRIZ: Kate Winslet, por Roda gigante
MELHOR ATOR: Colin Farrel, por O sacrifício do cervo sagrado
MELHOR ATOR COADJUVANTE: Barry Keoghan, por O sacrifício do cervo sagrado
MELHOR ATRIZ COADJUVANTE: Juno Temple, por Roda gigante
MELHOR ROTEIRO ORIGINAL: Woody Allen, por Roda gigante
MELHOR ROTEIRO ADAPTADO: Rian Johnson, por Star wars episódio VIII - Os últimos Jedi
MELHOR TRILHA SONORA: O sacrifício do cervo sagrado
MELHOR FOTOGRAFIA: Vittorio Storaro, por Roda gigante
MELHOR CENA: O diálogo com variação de luzes em Roda gigante
MELHOR FINAL: Roda gigante

domingo, 31 de dezembro de 2017

MELHORES DO CINEMA EM 2017: OUTRAS CATEGORIAS

Nesta terceira e última parte da retrospectiva dos meus preferidos do cinema em 2017, apresento quem mais me chamou a atenção em categorias que considero importantes, as mesmas que costumo citar nos meus balanços mensais. O percurso cinematográfico de 2016 somou 491 longas-metragens, dos quais mais de 50 foram revistos pela primeira ou segunda vez, uma prática que comecei a adotar no fim de 2014 e venho mantendo e me faz voltar ao contato com produções que amei e, em sua maioria, o sentimento permanece.

Em relação ao ano passado, as listas desse ano contêm uma diferença e um retorno: em vez de dez, reuni cinco pôsteres -  certamente haveria espaço para dez de novo, mas optei por cinco por uma questão de economia de tempo; e novamente listo os 30 filmes fora do circuito que mais me marcaram, em vez de 25 títulos como fiz em 2016. Considero que esse ano foi o em que estive mais eclético, o que me pôs diante de algumas bobagens também, mas os ótimos filmes prevaleceram.  Por último: assim como as demais seleções, coloquei meus eleitos em ordem alfabética. E lá vamos nós rumo a 2018!


ROTEIROS


Corra!, por Jordan Peele

O dia mais feliz da vida de Olli Mäki, por Juho Kuosmanen e Mikko Myllylahti

Eu, Daniel Blake, por Paul Laverty

Frantz, por François e Philippe Piazzo

Manchester à beira-mar, por Kenneth Lonergan

Minha vida de abobrinha, por Céline Sciamma

O outro lado da esperança, por Aki Kaurismäki

Roda gigante, por Woody Allen

Toni Erdmann, por Maren Ade

Z - A cidade perdida, por James Gray


FOTOGRAFIAS


Frantz

Manchester à beira-mar

O outro lado da esperança

Roda gigante

Z - A cidade perdida


TRILHAS SONORAS


Atômica

Bom comportamento

La la land - Cantando estações

Paterson

Star wars episódio VIII - Os últimos Jedi


CENAS


A pancadaria pelos prédios em Atômica

O protesto nas ruas em Eu, Daniel Blake

Anna e Adrien a cores à beira do rio em Frantz

A perseguição na sala dos espelhos em John Wick - Um novo dia para matar

O que poderia ter sido e não foi em La la land - Cantando estações

O último encontro de Randi e Lee em Manchester à beira-mar

O jantar japonês em O outro lado da esperança

O diálogo com luzes oscilantes em Roda gigante

A chegada do pai com a fantasia inusitada em Toni Erdmann



CARTAZES


Frantz

Moonlight - Sob a luz do luar

Paterson

Roda gigante

Toni Erdmann


FORA DO CIRCUITO (em ordem cronológica das sessões)


1. O filme de Oki (Hong Sang-soo, 2010)
2. Verão feliz (Takeshi Kitano, 1999)
3. Sob a sombra (Babak Anvari, 2016)
4. A estrada (John Hillcoat, 2009)
5. O garoto (Charles Chaplin, 1921)
6. Sombras do mal (Jules Dassin, 1950)
7. O túnel (Seong-Hun Kim, 2016)
8. Ninotchka (Ernst Lubitsch, 1939)
9. ABC do amor (Mark Levine, 2005) 
10. Quando os homens são homens (Robert Altman, 1971)
11. Aliens - O resgate (James Cameron, 1986)
12. Ponte para Terabítia (Gabor Csupo, 2007)
13. O abismo de um sonho (Federico Fellini, 1952)
14. Terra de minas (Martin Zandvliet, 2015)
15. Suntan ( Argyris Papadimitropoulos, 2016)
16. A ovelha negra (Grímur Hákonarson, 2015)
17. Missão impossível - Protocolo fantasma (Brad Bird, 2011)
18. Já estou com saudades (Catherine Hardwicke, 2015)
19. Karen chora no ônibus (Gabriel Rojas Vera, 2011)
20. Mississippi em chamas (Alan Parker, 1988)
21. Christine - O carro assassino (John Carpenter, 1983)
22. O céu pode esperar (Warren Beatty e Buck Henry, 1979) 
23. Quiz show - A verdade dos bastidores (Robert Redford, 1994)
24. A baía dos anjos (Jacques Demy, 1963)
25. Esse obscuro objeto do desejo (Luis Buñuel, 1977)
26. Contratempo (Oriol Paulo, 2016)
27. Omar (Hany Abu-Asad, 2013)
28. A turba (King Vidor, 1928)
29. A falecida (Leon Hirszman, 1965)
30. Estômago (Marcos Jorge, 2007)

sábado, 30 de dezembro de 2017

MELHORES DO CINEMA EM 2017: INTERPRETAÇÕES FEMININAS E MASCULINAS

A exemplo do que fiz em 2016, este ano trago 20 nomes, sendo 10 atrizes e 10 atores, como meus favoritos em matéria de atuação. Não quis traçar a fronteira entre principais e coadjuvantes, preferindo seguir o critério adotado no Festival de Cannes, que entrega seus prêmios aos atores simplesmente sob o título de interpretação feminina ou masculina, daí também o título desta segunda parte do meu especial de melhores do ano no cinema. Também é importante ressaltar que a lista não está organizada em escala decrescente de qualidade. Assim como na seleção de filmes, recorri à ordem alfabética, procurando mostrar que todos os 20 selecionados ocupam meu coração e minha mente com igual relevância. Por muitas vezes, montar listas em ordem de preferência é se ver perdido em delimitações milimétricas, e não tenho porque me dar a esse trabalho. Seguem então os nomes...

INTERPRETAÇÕES FEMININAS


Amy Adams (Animais noturnos)
Charlize Theron (Atômica)
Juno Temple (Roda gigante)
Kate Winslet (Roda gigante)
Kim Min-hee (Na praia à noite sozinha)
Michelle Williams (Manchester à beira-mar)
Michelle Pfeiffer (Assassinato no Expresso do Oriente)
Paula Beer (Frantz)
Sandra Hüller (Toni Erdmann)
Viola Davis (Um limite entre nós)


INTERPRETAÇÕES MASCULINAS


Adam Driver (Paterson)
Casey Affleck (Manchester à beira-mar)
Charlie Hunnam (Z - A cidade perdida)
Dave Johns (Eu, Daniel Blake)
Denzel Washington (Um limite entre nós)
Jarkko Lahti (O dia mais feliz da vida de Olli Mäki)
Peter Simonischek (Toni Erdmann)
Pierre Niney (Frantz)
Robert Pattinson (Bom comportamento)
Trevante Rhodes (Moonlight - Sob a luz do luar)

sexta-feira, 29 de dezembro de 2017

MELHORES DO CINEMA EM 2017: FILMES E DIRETORES

A poucos dias do fim de mais um ano, chegam minhas listas de melhores do cinema, a exemplo de vários outros amigos apaixonados por essa arte. Sem a pretensão de oferecer uma relação definitiva, mesmo porque não assisti a todos os filmes que desejava, reuni nessa primeira de três partes de seleções os meus preferidos entre títulos e realizadores, sendo 15 para aqueles e 5 para estes. Reforço, também como todos os anos, minha falta de preocupação em montar listas segundo o grau de preferência, e este ano adotei o critério da ordem alfabética (desconsiderando os artigos), diferentemente de outras edições, em que tinha recorrido à ordem de lançamento nos cinemas. Portanto, não cabem comentários do tipo "eu colocaria X em outra posição" ou "Y deveria estar mais acima ou abaixo".

Diferentemente dos anos anteriores, essa lista não contém nenhum filme nota 10, fato que lamento, porque sei que ainda é possível realizar produções de franca excelência, mas 2017 se mostrou um ano relativamente difícil para se alcançar a cotação máxima. Por isso, alguns títulos foram incluídos com ressalvas, mas as qualidades prevaleceram. A maior nota foi 9, e somente cinco diretores fizeram por merecê-la: Ken Loach, Kenneth Lonergan, François Ozon, Woody Allen e Aki Kaurismäki. As razões são apontadas nos pequenos parágrafos que redigi para cada, e três deles na verdade são trechos das críticas feitas para cada filme deles. Outro reforço importante: foram considerados para essa seleção apenas os filmes lançados oficialmente em circuito comercial, seja no Rio de Janeiro, minha cidade natal e de habitação, seja em outro local do Brasil. Assim, filmes rodados esse ano, mas sem exibição nos cinemas ficaram de fora, podendo aparecer na lista de 2018, caso sejam lançados.

1. Atômica (David Leitch)



A despeito de seu excesso de nomes e relações intricadas entre personagens, é gostoso acompanhar Charlize Theron linda, loura e fatal sob a pele de uma charmosa agente cujas imensas habilidades física e intelectual fazem que ela transite por mundos diferentes sem perder a boa forma. Muitos apontam como uma versão feminina de John Wick, e não é absurdo pensar num parentesco entre os filmes, embora Atômica exiba uma mescla de conspirações nebulosas e pancadarias, estas últimas impressionantemente coreografadas.

2. Bom comportamento (Benny e Josh Safdie)



Parece que a dupla de cineastas quis trazer ao público uma representação audiovisual da célebre lei de Murphy: o que pode dar errado vai dar errado. Construído em um ritmo de frenético, de poucas concessões para respirar, o longa coloca Robert Pattinson dando vida a um jovem que se mete em desventuras em série para tentar livrar a cara do irmão, que acabou sendo preso depois que um assalto praticado por eles foi descoberto pela polícia. A comparação aqui foi com Depois de horas - meu Scorsese preferido, diga-se de passagem - e dessa vez houve um certo exagero, mas Bom comportamento também funciona como diversão agoniante.

3. O dia mais feliz da vida de Olli Mäki (Juho Kuosmanen)



Escrevi um textinho sobre o filme para o balanço de abril, no qual ele ocupou o primeiro lugar do pódio, e segue aqui um trecho: "A narrativa desse representante da Finlândia para uma vaga entre os finalistas ao Oscar de melhor filme estrangeiro acompanha em alguns dias a rotina de um padeiro levado à posição de ídolo nacional. Tudo por causa de grande talento no boxe. O real interesse do realizador é mergulhar na humanidade de Olli Mäki, então o ringue é presença escassa na história. No título reside um misto de ironia com uma ida na contramão das hipóteses. 

4. Eu, Daniel Blake (Ken Loach)



Em 2016, Ken Loach passou a formar com  Michael Haneke, Jean-Pierre e Luc Dardenne o quarteto dos diretores premiados duas vezes com a Palma de Ouro em Cannes. Sua segunda láurea veio com uma história de resistência, que expõe a burocracia nefasta do governo inglês, não devendo em nada ao Brasil nesse quesito. O protagonista passa a depender de um auxílio doença enquanto se recupera de uma ataque cardíaco, mas chegar a recebê-lo se torna um périplo, e no pedregoso caminho ele conhece uma mãe solteira também vivendo circunstâncias nada fáceis. O queridinho da Croisette acertou de novo e deu um irmão mais velho para Clara, a estrela de Aquarius: os dois resistem apesar de tudo. 

5. Frantz (François Ozon



Escrevi um textinho sobre o filme para o balanço de abril, no qual ele ocupou o primeiro lugar do pódio, e segue aqui um trecho: "Retrocedendo quase 100 anos no nosso calendário, sua narrativa acompanha um jovem ex-soldado francês da Primeira Guerra Mundial corroído pela culpa de ter atirado - e assassinado - um inimigo alemão. [...] Tudo é conduzido com imensa elegância por Ozon, que elegeu o preto e branco para filmar quase todas as cenas, somente quatro delas ganham cores e um significado ainda mais forte no contexto da narrativa.

6. La la land - Cantando estações (Damien Chezelle



Homenagem e citação é o que não falta em La la land. E a mais notável paráfrase do longa, sem dúvida, é a Os guarda-chuvas do amor (Les parapluies de Cherbourg, 1964), clássico cinquentão de Jacques Demy sobre um casal e seu relacionamento atravessado pelas estações. A estrutura adotada por Chezelle é análoga àquele, evidenciando a beleza de um diálogo com uma geração que até hoje ecoa no próprio e cinema e deixa saudade em muitos pelo seu modus vivendi. [crítica completa]

7. Logan (James Mangold)



A humanidade do herói está exposta, a começar pela presença de seu "nome social" no título. O célebre Wolverine, com suas garras de aço sempre disponíveis, enfrenta a decrepitude e ganha uma companheira que está só começando sua viagem. Sobram desencanto e emoção nesta que é a despedida de um personagem icônico, Logan também transpira aventura e combate, mesmo com seu protagonista envolto em temores, no melhor exemplo de "quem te viu, quem te vê".

8. Manchester à beira-mar (Kenneth Lonergan)



Cada pessoa é uma soma de acontecimentos, e a narrativa de Manchester à beira-mar reafirma essa concepção com sensibilidade, evitando incorrer no dramalhão pesado. Lonergan exercita seu lado cineasta apenas pela terceira vez, com planos encantadores que mostram Lee como um cara que já teve motivos para sorrir e navegava frequentemente com Joe, o irmão, e Patrick, o sobrinho. Eram momentos ternos e divertidos e Joe adorava contar piadas de tubarão, lembranças que vão e vêm da mente de Lee após seu retorno a Manchester. [crítica completa]

9. Na praia à noite sozinha (Hong Sang-soo)


Pelo segundo ano consecutivo, tem Sang-soo na lista de melhores do ano. O sul-coreano emenda um filme no outro, conseguindo ser mais "produtivo" (estranho usar essa palavra para falar de arte, daí as aspas) que Woody Allen: este ano foram dois longas, um deles rodado na surdina com Isabelle Huppert. Mas o escolhido foi este, em que segue no uso da metalinguagem para acompanhar uma mulher desiludida e abraça uma estética da sinceridade um tanto inesperada para o mundo oriental na concepção basal do lado de cá.

10. O outro lado da esperança (Aki Kaurismäki)




Parte de mais uma trilogia iniciada com O porto (Le Havre, 2011), O outro lado da esperança (Toivon tuolla puolen, 2017) também é um olhar do finlandês para a urgente questão imigratória, que tanto convulsiona a Europa e levanta a poeira da xenofobia e do racismo, só para ficar em duas reações adversas entre os nativos do continente. E, novamente, ele focaliza as exceções ao que parece a regra não somente lá, mas em outras partes. Não sem um toque de nonsense, é bom que se diga, e aí está umas das delícias do modus operandi kaurismäkiano. 

11. Paterson (Jim Jarmusch)



A impressão que Jarmusch deixa com seus filmes é a de que vive de boa, sem grandes arroubos, e observa detalhes banais da vida com lente de aumento. Sob um certo ponto de vista, Paterson é mais um de seus filmes sobre o "nada", e essa concepção se reforça em nossos dias, tão velozes que nos roubam a capacidade de cultivar "olhos de ver", aqueles que são capazes de perceber que existe poesia até mesmo em uma caixa de fósforos e apreciar a companhia de um cãozinho adorável. A missão de encarnar esse poeta que vê onde não veem foi muito bem cumprida por Adam Driver.

12. Roda gigante (Woody Allen)



O mesmo filme e, ainda assim, um filme diferente. A façanha anual de Allen se cumpriu novamente, e seu encontro com ninguém menos do que Kate Winslet nos leva para os anos 50 em Coney Island para encontrar uma mulher amarga, cujo erro do passado ainda atormenta e o casamento atual não satisfaz. Um romance com um salva-vidas parece uma tábua de salvação (conceito que é uma das recorrências do diretor) e um novo erro vem para desarranjar o estado das coisas. Tudo isso com luzes impressionantes, trabalho do esteta Vittorio Storaro. 

13.  Star wars episódio VIII - Os últimos Jedi (Rian Johnson)



Foram dois anos de espera até o reencontro com figuras carismáticas e queridas em duas aventuras galácticas no ano em que o quarto episódio completou quarenta anos. E foi o encontro com mais um herói vulnerável: Luke Skywalker assume suas fraquezas e se revela um mito desconstruído, com um erro pelo qual se culpa, mas uma aparição muito especial o faz rever sua postura. Tentativas e erros de outros heróis também surgem, mostrando que sempre há muito a aprender. E os comentários acabam aqui!

14. Toni Erdmann (Maren Ade)


Este foi um dos queridinhos do 69º Festival de Cannes, de onde saiu com o prêmio da crítica. Exibido num dos primeiros dias, repercutiu ao longo de toda a mostra e mesmo sua longa duração não chega a tornar a narrativa enfadonha, como de outros filmes que erram a mão na prolixidade e não justificam mais de 120 minutos. Por investir em momentos cômicos que aliviam o peso da relação tumultuada entre Winfried e Ines, a produção também ajuda a "combater" o mito de que alemães não são bem-humorados ou avessos a ironias. [crítica completa]

15. Z - A cidade perdida (James Gray)


Não é exatamente a temática que se espera de um diretor de seu calibre, mais afeito a retratos urbanos pintados com certo intimismo, especialmente sua obra-prima, Amantes (Two lovers, 2008). O filme em análise está mais para um Werner Herzog, realizador de Aguirre, a cólera dos deuses (Der Zorn Gottes, 1972) e Fitzcarraldo (idem, 1972), cujos enredos se desdobram em aventuras megalomaníacas. Os pés atrás, contudo, ficaram no passado logo nos primeiros minutos de sessão de mais um Gray, que demonstra manter um elo coesivo com sua obra pregressa, e são detalhes aqui e e ali a sedimentar essa observação. [crítica completa]


DIRETORES

Aki Kaurismäki (O outro lado da esperança)
Barry Jenkins (Moonlight - Sob a luz do luar
James Gray (Z - A cidade perdida)   
Kenneth Lonergan (Manchester à beira-mar)
Woody Allen (Roda gigante)


segunda-feira, 18 de dezembro de 2017

QUINTETO DE OURO - PLANOS SEQUÊNCIA

Conforme o crítico francês André Bazin, o plano sequência acontece quando a câmera filma um longo período de ação ininterrupta, caracterizando uma única tomada. Essa simples definição permite compreender o que muitos diretores já fizeram ao longo da história do cinema, e as intenções que levam a essa escolha são as mais variadas: podem ir desde um exercício formal de estilo a uma adequação a um tema abordado. Para o mesmo Bazin, o plano sequência confere mais realismo ao cinema, detalhe que ficaria prejudicado com os vários cortes da montagem que acontecem tradicionalmente nos filmes. Seja como for, é um recurso difícil de ser utilizado, pois qualquer falha na captura da cena obriga a começar tudo de novo, e não se pode esquecer que filmagens sempre vão significar gastos. Cada vez que vejo um plano sequência, um dos meus principais pensamentos é justamente no grau de dificuldade que ele apresenta, já me levando a considerar o diretor corajoso e arrojado.

Essa lista não foi das mais difíceis de fazer porque eu tinha bem claros na cabeça quase todos os integrantes, filmes que me marcaram e não foi somente por tal detalhe. Mesmo porque, um filme em que a técnica se sobrepõe à trama ou ao elenco é um filme sem alma. Cinema é diversão sim, mas também é uma história bem contada e capaz de mostrar outros mundos, tanto os físicos quanto aqueles psicológicos onde habitam os personagens. A memória, porém, é traiçoeira, então foi dar uma pesquisada em títulos que poderiam constar da minha seleção, bem como numa boa definição do tema, que foi devidamente parafraseada no parágrafo anterior. E boa parte dos citados nessas outras listas são os mesmos que eu já queria para a minha. Ficou uma relação eclética de títulos, congregando diretores diferentes e merecedores de atenção. Como não consegui trazer os vídeos dos planos para o blog, segue junto a cada textinho o link para conferi-los. Assim se formou o último Quinteto de Ouro de 2017.

1. O jogador (Robert Altman, 1992)


A longa sequência inicial desta crônica irreverente sobre os bastidores de Hollywood oferece um panorama do modus operandi dessa indústria quase centenária, cujos peões até podem se mover nas mais variadas direções, mas ainda assim a base do jogo permanece. Consoante o aparecimento dos créditos na tela, a câmera vai e vem sem se deter em nenhum personagem específico, ainda que o protagonista seja Griffin Mill (Tim Robbins), sujeito arrogante e espertalhão muito à vontade na posição de produtor que seleciona quase a seu bel prazer os roteiros que podem ser transformados em filmes. O jogador é um paraíso de metalinguagem, com nomes famosos que desfilam aqui e ali em vários momentos da narrativa. E nesse já citado começo, Altman nos leva de dentro para fora, abrindo com um quadro que serve de fundo decorativo em uma das salas do estúdio onde Griffin trabalha, e saindo dali para seguir ao ar livre com muitos diálogos sobrepostos que revelam intrigas, desejos e intenções, uma conhecida marca do saudoso cineasta, que se foi há mais de uma década. (https://vimeo.com/169425300)

2. Boogie nights - Prazer sem limites (Paul Thomas Anderson, 1997)


Para cinéfilos, é informação velha, mas não custa avisar aos demais seres humanos: o cinema de Robert Altman sempre foi uma fonte de inspiração para Paul Thomas Anderson. Ele inclusive chegou a trabalhar como assistente de direção do falecido realizador, e soube emular o cinema de seu mestre sem deixar de demonstrar assinatura própria. Uma das intertextualidades entre os filmes de ambos está justamente no recurso do plano sequência, que em Boogie nights também é usado na abertura do filme, quando a plateia é levada para o universo licencioso da indústria pornográfica, mais especificamente a setentista, quando esse setor do mercado estava em alta. Alguém aí também notou a metalinguagem? Pois é, ele também está presente aqui, mas com o toque de Anderson, que não deixa confundir os filmes. Em alguns minutos de ação contínua, vamos conhecendo os excessos de uma década que representou um ponto de virada nos costumes e impregnou Hollywood de uma atmosfera de ousadia. A quantidade enorme de figurantes se movimentando nesse plano é apenas um dos itens que revelam a complicação que certamente foi elaborá-lo. (https://vimeo.com/169371357)

3. Arca russa (Aleksandr Sokúrov, 2002)


O caso mais impressionante de todos os planos sequência citados na lista, Arca russa é um filme totalmente realizado com esse recurso. Foram necessários meses de ensaio para que Aleksandr Sokúrov chegasse ao nível de sincronia e fluidez exigidos para narrar um passeio pelo museu Hermitage, situado em São Petersburgo, um dos maiores do mundo. A riqueza histórica é apresentada por uma entidade fantasmagórica, que conduz o público por corredores, salas e antessalas onde os detalhes importam e contam a história da Rússia entre os séculos XVIII e XXI. Só de imaginar o esforço e a técnica para dar conta de tal intenção, vêm o cansaço e a surpresa. Os números são impressionantes, e apenas três deles são suficientes para ilustrar o tamanho do empreendimento de Sokúrov: sete meses de ensaio e três mil figurantes espalhados por 35 salas do imenso museu. É bom que se diga que o filme não é apenas sua técnica: o roteiro valoriza a história e a arte, e consegue envolver pela beleza visual e por aquela que se enxerga nas entrelinhas. Faz uns oito anos que vi e ainda hoje está em minha memória. (https://www.youtube.com/watch?v=ZV1kphEEXn8)

4. Filhos da esperança (Alfonso Cuarón, 2006)


Na seara dos longas de ficção científica, Filhos da esperança ainda é um exemplar subestimado. Com sua narrativa seca e sem firulas, o enredo visita um futuro desalentado, no qual a humanidade é infértil e não nasce um bebê há 18 anos. Nesse cenário, surge uma jovem grávida, que rapidamente se torna alvo de gente interessada em roubar o bebê. Há duas cenas com plano sequência, e ambas estão entre as mais tensas de todo o filme, retratando partes da fuga da menina, sempre acompanhada por Theodore (Clive Owen, fantástico), espécie de guardião que também tem seus desafetos. O primeiro plano acompanha os personagens em um carro sendo perseguidos, e a câmera os mostra de vários ângulos, sendo uma das sequências mais trabalhosas de realizar segundo Cuarón. A outra sequência é uma correria ao ar livre em que a luta para escapar se dá em meio a passagens por corredores e cômodos de um prédio abandonado, e as balas vêm de todos os lados em ambas as situações. (https://vimeo.com/169371360)

5. O cavalo de Turim (Béla Tarr, 2011)


Inspirado em um episódio contado pela História a respeito de Nietszche, o longa de Tarr é assinalado por uma infinidade de tempos mortos. Segundo se conta, o filósofo alemão teria intervindo numa situação de maltrato a um cavalo, admoestando o homem que atentava contra o animal e sendo açoitado no lugar dele, um acontecimento do qual jamais conseguiu se recuperar. A câmera do realizador vai atrás do tal cavalo, combalido por dias e tratado por uma jovem que mora com seu pai em uma casa isolada de tudo, onde o silêncio é uma constante tanto pelo ambiente que os circunda quanto pelas raríssimas palavras que eles trocam um com o outro. A bem da verdade, a câmera se move bem pouco, e os longos planos se enfileiram uns atrás dos outros, tornando o filme um exercício de paciência em tempos de hipervelocidade. Para quem se dispõe a dar uma chance para a meditação oferecida pelo cineasta húngaro, o resultado pode ser altamente compensatório. (https://vimeo.com/169371365)

segunda-feira, 11 de dezembro de 2017

QUINTETO DE OURO - TRANSFORMAÇÕES FÍSICAS

Quando se trata de encarnar um personagem, certas adaptações se fazem necessárias para o ator. No processo de composição podem entrar mudanças físicas também, conforme o tamanho da distância entre o um e outro: engordar, emagrecer, perder os cabelos, mudar a fisionomia, emular um sotaque alheio... Daí existem chances de surgir interpretações memoráveis, às vezes até mesmo dentro de filmes que não detêm mais nenhuma outra qualidade. Pensando nos vários casos de atores que desaparecem em um papel, elegi o tema do Quinteto de Ouro, que volta esse mês depois de um pequeno recesso, de certa forma involuntário. O tempo andou voando demais, e quando dei por mim tinha passado outubro e novembro em brancas nuvens nesse departamento. 

É fato conhecido que a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood, vulgarmente conhecida como Oscar, adora essas transformações. Praticamente todos os anos surge algum indicado nas categorias de atuação com esse "requisito", e muitos são premiados. Um exemplo recente é a vitória de Eddie Redmayne por A teoria de tudo (The theory of everything, 2014), em que viveu Stephen Hawking, e seu prêmio foi bastante questionável, já que a interpretação se baseou demais na fisicalidade, e os outros candidatos, sem esse recurso, eram mais merecedores de ganhar. 

Meus escolhidos vão por outro caminho. Procurei selecionar atores e atrizes que conseguiram não apenas entregar ótimos desempenhos, mas também estiveram inseridos em histórias com bons roteiros e direções, o que significam filmes a serem lembrados por algo mais, e não simplesmente como "filmes de atores", e acredito que a maioria se encaixa nessa descrição. Na minha lista, o aspecto físico é complementar, não uma muleta. Certos atores poderiam figurar até mais de uma vez nessa lista, mas com vaga para apenas cinco integrantes eu não poderia me dar ao luxo de repetir nomes. Ademais, não me preocupei em estabelecer ordem de preferência, detalhe que sempre tenho que reforçar porque vai na contramão do que a maioria espera e pratica.

1. Robert De Niro em Touro indomável (Raging bull, 1980)


Em sua terceira parceria com Martin Scorsese, novamente De Niro precisou exercitar a fúria, a exemplo do que havia feito quatro anos antes em Taxi driver (idem, 1976). Na pele do boxeador Jake LaMotta, ele precisou lutar como uma fera, e a passagem do tempo sobre o personagem trouxe efeitos visíveis no corpo, em parte devido à natureza da atividade física (me recuso a chamar boxe de esporte), em parte devido à irresponsabilidade de Jake com a própria saúde. Era uma figura difícil, que apanhava e batia em igual proporção nos ringues e na vida, de raros sorrisos e fartos rompantes, como quem está sempre esperando a hora de desferir um golpe antes que seja pego de surpresa. O interessante é que De Niro precisou convencer Scorsese a ficar com o papel, e para isso se dedicou a treinos por 1 ano com ninguém menos que LaMotta, e ainda engordou 25 quilos. O resultado foi uma interpretação que impressiona pelo físico, mas também pela maneira intensa como o ator se doou ao personagem. O Oscar de melhor filme não veio - uma queixa de muitos - mas De Niro foi contemplado com uma estatueta por seu desempenho.

2. Daniel Day-Lewis em Meu pé esquerdo (My left foot, 1989)


O filme vale mesmo pela presença impressionante de Day-Lewis. Quem conhece um pouco sobre o ator conhece seu método de interpretação, que significa levar para a vida cotidiana o personagem que tem nas mãos. Há poucas semanas, ele anunciou sua aposentadoria (precoce) do cinema e agradeceu à esposa pela paciência em todos esses anos com tal envolvimento com seus papéis. Agora imagina levar para casa o papel de um homem acometido de paralisia cerebral na infância cujos movimentos se resumem ao pé esquerdo? Sabe-se lá como ele conviveu com família (e amigos talvez?) no período das filmagens, mas o fato é que seu desempenho extraordinário é referência para qualquer ator disposto a se entregar ao ofício, ainda que também se possa dizer que alguém como Day-Lewis é raríssimo. Por conta da decisão de permanecer na cadeira de rodas mesmo nos intervalos das cenas, ele acabou quebrando duas costelas. Nos demais aspectos, Meu pé esquerdo é um filme bem quadrado e esquecível, que se beneficia de um ator desse naipe e alcançou, por isso, notoriedade. É mais uma figura real da lista que foi parar nas telas.

3. Nicole Kidman em As horas (The hours, 2002)


Parece que transformação física, personalidade real e Oscar andam sempre de mãos dadas. A terceira integrante do quinteto ratifica essa observação. Conhecida por sua beleza e seus fios ruivos no início da carreira, Nicole Kidman se reinventou sob a pele de Viriginia Woolf, escritora atormentada por episódios de insanidade e intenções suicidas acompanhada no processo de escrita de Sra. Dalloway. O detalhe mais notável de sua transformação foi uma prótese no nariz, o suficiente para enfeiá-la e fazê-la irreconhecível. Diferentemente de Meu pé esquerdo, As horas tem mais do que uma ótima atuação: tem três. E ainda apresenta qualidades no roteiro, na montagem, na trilha sonora... Além de ficar feia, Kidman também precisou aparentar mais idade, e sua magreza (dita natural e muitas vezes questionada) também veio a calhar para representar o tipo físico esquálido da verdadeira Woolf. À época, Kidman estava em sua melhor fase até hoje, emendando personagens interessantes e mudando consideravelmente de visual a cada novo trabalho. Aliás, ela é uma das atrizes mais camaleônicas do cinema, já tendo exibido muitas cores e cortes de cabelo.

4. Christian Bale em O operário (The machinist, 2004)


Uma lista sobre mudanças físicas em nome de um papel não pode deixar de conter ao menos uma vaga para Christian Bale, rei das engordas e emagrecimentos. Poderia ter escolhido outro longa no qual ele se metamorfoseou, mas nem todos são tão bons para além do sua presença - aquele critério que já expus anteriormente. A vaga então foi para O operário, rodado pouco antes de sua primeira experiência como Batman. O ator simplesmente emagreceu 30 kg, ostentando um visual cadavérico para encarnar Trevor, homem cada vez mais surtado, incapaz de se alimentar e passando os dias sem a mínima perspectiva. Ainda assim, se aproxima e se envolve com uma mulher também complicada, mas de maneira conflituosa, que ainda eleva suas paranoias. É bastante perturbador acompanhá-lo como um esqueleto ambulante, sempre dando a impressão de que vai se quebrar a qualquer momento. E pensar que pouco depois ele precisou recuperar os quilos e desenvolver músculos para viver um certo Batman...

5. Marion Cotillard em Piaf - Um hino ao amor (La môme, 2007)


Já fazia algum tempo que Marion Cotillard atuava, inclusive com passagens por Hollywood, mas nossos olhos começaram a enxergá-la de fato quando ela desapareceu sob o visual de Edith Piaf. O comentário soa paradoxal, mas descreve exatamente o sentimento de perplexidade de muitos espectadores que conferiram o longa antes de vê-la como outras mulheres. Seu rosto jovem, luminoso e exuberante foi apagado pela tristeza que impregnava a trajetória da verdadeira Piaf, cujas tragédias lhe trouxeram marcas físicas impossíveis de esconder. Viveu pouco, e nos últimos anos sua real idade era inacreditável: seus 48 pareciam 80 e poucos, tamanha a devastação no corpo. Mas a voz... esta seguia ali, inabalável em sua intensidade, mas com as rachaduras da vida integradas. Não foi fácil para a atriz se desvencilhar da personagem, algo que ela declarou em entrevista. Os oito meses que sucederam as filmagens foram de esforço para "expulsar" Piaf de sua vida, e serviram de aprendizado para que ela estabelecesse limites de envolvimento em seus papéis seguintes.