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quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

Questão de tempo e o olhar carinhoso sobre a vida e o amor

Roteirista bem-sucedido de títulos como Quatro casamentos e um funeral (Four weddings and a funeral, 1994) e Um lugar chamado Notting Hill (Noting Hill, 1999), pelo qual segue lembrado a cada novo trabalho, Richard Curtis fez de Questão de tempo (About time, 2013) o seu terceiro longa-metragem como realizador, em que volta à temática do amor. A premissa é muito similar a de tantas outras produções ora dramáticas, ora cômicas que têm lugar cativo em Hollywood, mas a ternura e a honestidade com que ele reveste o decorrer da narrativa a colocam alguns patamares acima de tantos exemplares genéricos e esquecíveis. Trata-se de um filme sobre segundas chances e saber aproveitar os momentos que a vida oferece e que buscamos, tópicos de alto potencial para comover. A ocasião para abordá-los se faz através de Tim (Domhnall Gleeson), jovem desajeitado no amor que, ao completar 21 anos, conhece um segredo importante: os homens de sua família têm o poder de viajar no tempo. 

A introdução desse elemento fantasioso ao enredo, diferentemente do que pode parecer, não o afasta da verossimilhança. Tudo segue bastante palpável e vai revelando um filme preocupado com a humanidade dos seus personagens, que não os isenta de enfrentar problemas. Tim é informado pelo pai (Bill Nighy, sempre ótimo) de que as tais viagens só podem levá-lo ao passado e não vão lhe oferecer soluções mágicas. Inicialmente incrédulo quanto à novidade, ele segue as instruções para voltar no tempo e, uma vez ciente da sua veracidade, decide usá-lo para conseguir uma namorada. É quando vai se aproximando de uma garota que vai passar as férias em sua casa, mas não consegue alcançar seu coração, e o faz entender, na prática, que a possibilidade de ir e vir ao longo dos dias, meses e anos não vão fazer de uma mulher alguém apaixonado por ele. Para além dessa constatação, ele percebe o quanto o sexo feminino é complicado, desejando sempre o oposto do que os homens fazem.

É na completa falta de controle sobre o seu destino que ele, finalmente, encontra o amor, sintetizado na figura de Mary (Rachel McAdams), amiga da nova conquista de seu amigo. Totalmente entregue ao sentimento pela bela jovem, ele volta a meter os pés pelas mãos em atitudes desengonçadas, sobretudo no jantar às escuras em um restaurante cujos garçons são todos cegos. A sequência, aliás, é uma das melhores do filme, que leva os personagens a compartilhar aquela experiência inovadora com os personagens. Por breves minutos, não vemos nada na tela e ficamos apenas com o som da conversa do quarteto, aquela típica situação de primeiro encontro em que os assuntos engrenam com dificuldade e há um esforço em se mostrar o melhor de si. Somente após saírem do local, Tim e Mary se veem pela primeira vez, mas ele já estava apaixonado antes daquele momento. O fator complicador da trama surge quando ele apaga acidentalmente o dia em que a conheceu, e precisa fazê-la conhecê-lo de novo, numa espécie de reconquista.

A essa altura, Questão de tempo é essencialmente um romance que acompanha a luta de um personagem absolutamente comum por um amor no qual acredita. O biotipo ao mesmo tempo exótico e banal de Gleeson contribui para torná-lo próximo de qualquer um e despertar a torcida para que seus planos deem certo. Apesar de uma carreira que já compreende mais de 20 filmes, o ator ainda passa por novato e não faz jus à imagem apolínea de galã à qual o público está habituado. Sendo gente como a gente, fica fácil crer na sua vulnerabilidade e desejar que Mary passe o resto da vida ao seu lado. Felizmente, ele acaba conseguindo um novo começo com ela, e narrativa passa a trilhar um rumo levemente distinto. Passada a fase da conquista, os personagens experimentam a construção de um relacionamento pensado para ser duradouro, o que inclui o casamento e a geração de filhos, acontecimentos que são planejados e vividos com intensidade. Em paralelo, Tim continua com suas viagens no tempo, sempre cuidando para não alterar demais os fatos do futuro/presente.


É nessa etapa da vida que Tim e Mary começam a lidar com questões mais objetivas, que envolvem a busca por uma estabilidade financeira e decisões das mais simples às mais complexas que compõem a vida de um casal, outros elementos que tornam Questão de tempo um filme superior a tantos "concorrentes" diretos e indiretos. Curtis aposta em um olhar sobre o amadurecimento dos protagonistas, que precisam encarar a vida com seus pesares e contentamentos, e não em um romance de encontros e desencontros causados pelas adversidades, o que pode ser encontrado em qualquer novela global. Em seu cinema, o amor é muito mais, e não se restringe a um só tipo: não existe apenas o amor erótico. Também autor do roteiro, ele gasta parte do seu tempo analisando o amor entre pai e filho, apresentando a linda relação de Tim com o homem a quem deve sua vida, traduzida em conversas francas e gestos carinhosos. 

Justamente por conta do pai é que ele faz uma das suas últimas viagens no tempo, já alguns anos depois de lançar mão do expediente pela primeira vez, e nos brinda com uma das cenas mais emocionantes dos últimos anos: em um dia na praia, estão apenas os dois, compartilhando momentos, simplesmente vivendo e sabendo que tudo aquilo, em breve, fará parte apenas da memória. Tim, então, se dá conta de que viver se aprende, e erros e acertos compõem a bagagem de todos. Longe de abraçar o didatismo ao deixar sua mensagem, o filme flui e deixa respirar, sem a pretensão de inventar a roda ou doutrinar ninguém. A exemplo de seu xará Richard Linklater, um exímio analista dos efeitos do tempo sobre um casal, Curtis se apropria do tema e adiciona outros; a julgar por suas idades - ambos estão na faixa dos 50 anos -, já tem experiência suficiente com essas questões, e falam do que conhecem bem, lembrando que amar e viver são verbos indissociáveis. 

9/10

segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

Bala na cabeça, um teste de fogo para os códigos de amizade

Fundamentais a qualquer pessoa, os laços de amizade são a tônica de Bala na cabeça (Die xue jie tou, 1990), filme pertencente à fase chinesa do diretor John Woo. O foco está sobre três amigos de longa data cuja obstinação por uma vida mais confortável os empurra para longe da Hong Kong dos anos 60, cidade onde sempre moraram, e é justamente a busca insistente por ganhar suas vidas que, de variadas formas, os faz perdê-las. Ben (Tony Leung Chiu-Wai), Paul (Waise Lee) e Frank (Jacky Cheung) selaram um pacto de companheirismo e lealdade que parece inabalável, e mantém sua firmeza até onde o dinheiro permite. É quando o vil metal entra em cena que todos os anos de experiências em comum acumuladas parecem jamais ter existido.


Baseado em uma premissa de apelo universal, Woo concebeu um longa-metragem pungente em que há muito mais balas do que singular do título faz supor. O cineasta não economiza munição e coloca seus personagens em situações-limite que testam constantemente sua resistência e desafiam sua fidelidade um ao outro. Para além de toda a violência a que os espectadores de filmes de ação se habituaram, Bala na cabeça é uma história de feridas abertas e nunca totalmente cicatrizadas, que laceram muito mais do que uma infinidade de disparos. Os anos passam, mas a cura parece nunca chegar. Nesse sentido, estamos diante de um drama pesado, que pode nos colocar diante da nossa própria ambição e fazer questionar sobre o que, de fato, vale a pena para cada um. Ao mesmo tempo, apresenta os efeitos devastadores de uma busca que se torna maior do que a própria vida.

Todo esse drama atinge o seu ápice quando os amigos vão parar na Guerra do Vietnã, talvez o exemplo máximo do quanto os Estados Unidos se especializaram em exercitar a autoindulgência, entregando o posto de vilões a alguma nação oriental. Aqui, o episódio traumático sobretudo para os vietnamitas é visto sob a ótica de um circunvizinho, atento a um lado do conflito que lutou com os parcos recursos de que dispunha e surpreendeu os ianques com sua resistência sem precedentes. Mas Woo não demonstra o menor interesse em condenar ou absolver qualquer um dos lados: antes, prefere observar o quanto aquele ambiente de tensão fustiga o psicológico do trio, expondo-os a um nível insuportável de estresse e os conduzindo a atos extremos. Um deles é obrigado a escolher entre a própria vida e a de um combatente recém-conhecido, numa das sequências de maior tensão de toda a narrativa.

É duro constatar que todas essas provas de fogo correm uma amizade tão linda, e invertem gestos e simbologias construídas nos primeiros minutos da história, uma espécie de prólogo quase idílico e de promessas sinceras. Consciente da sinopse, o espectador já pode começar a sentir o desconforto de saber que todas aquelas palavras serão levadas pelo vento das adversidades. O maior acometido pela sede de grana é Paul, que se apega a um punhado de ouro e responde pelas primeiras rachaduras na amizade do trio, já que começa a colocar o metal precioso acima das tais promessas de um passado nem tão distante. À medida que esse apego financeiro se intensifica, Bala na cabeça nos faz testemunhar o desmonte dos seus escrúpulos e a alçar o personagem à condição de antagonista dos outros dois, que carregam as chagas mais profundas de um relacionamento estilhaçado.


Os movimentos de câmera de Woo são outro grande achado do filme. Em várias passagens, a lentidão com que filma os projéteis cruzando os espaços e fazendo suas vítimas potencializa o seu efeito destruidor, esmigalhando os nervos dos amigos e trincando seus ouvidos, que se tornam captores de barulhos incessantes, sobretudo Frank, o mais atingido por toda aquela espiral de pesadelo que também envolve mafiosos interessados em manter seus negócios e privilégios. Tais movimentos e ângulos fazem parte do estilo do realizador, que migrou para os Estados Unidos e viu seu talento regredir - se é que isso existe - e o sucesso de seus filmes despencar. Seguramente, Bala na cabeça pertence a uma época áurea de sua filmografia, pautada por enredos em que o drama e a ação se equilibram de maneira orgânica e se constituem em muito mais que entretenimento acéfalo.

O trio de atores funciona impecavelmente ao longo das mais de duas horas de projeção. Dos três, Chiu-Wai foi mais longe, e repetiu a parceria com o diretor dois anos depois em Fervura máxima (Lat sau san taam, 1992), onde também não era poupado das armas de fogo. Seu papel na trama de Bala na cabeça é o de mediador entre os outros dois amigos. Enquanto Frank é tempestade emocional e fica na linha de frente de uma bifurcação absurda, Paul se deixa ser possuído pelo que deveria possuir. Como fiel dessa balança altamente instável, ele presencia momentos avassaladores e precisa manter a firmeza que os demais perderam, tantas vezes esquecendo de si mesmo para isso. Cheung, por sua vez, somou alguns trabalhos posteriores no Cinema e vinha de duas colaborações com Wong Kar-Wai, de quem Chiu-Wai acabou se tornando queridinho, e representa o extremo dessa aventura desastrosa dos amigos para além dos limites de Hong Kong. Por sua vez, Lee teve uma filmografia muito mais curta, tendo sido dirigido por Woo anteriormente e rodando apenas mais um filme após Bala na cabeça.

Alguns apontam um certo parentesco com O franco atirador (The deer hunter, 1978), um longo estudo sobre a devastação mental de quem vai à guerra (também do Vietnã) e passa o resto da vida tentando superar o que só é capaz de entender quem viveu - nunca vamos além de meras testemunhas dos acontecimentos. As semelhanças temáticas e sinópticas entre ambos são nítidas e fomentam a concepção de que os conflitos armados são matérias-primas para filmes memoráveis, que clamam por nossa humanidade. Esse diálogo entre John Woo e Michael Cimino é uma das provas de que o Cinema, como todas as demais vertentes da Arte, congrega pessoas e lugares e pode produzir o enfrentamento do homem consigo mesmo. Longe de salvar quem quer seja, ela aponta possibilidades e chama a atenção para um mundo em colapso. Após termos sido expostos a tantos momentos doloridos cujo gatilho se deveu à ambição financeira, podemos recorrer à Bíblia, que afirma categoricamente: "Porque o amor ao dinheiro é a raiz de toda a espécie de males; e nessa cobiça alguns se desviaram da fé, e se traspassaram a si mesmos com muitas dores." (1Tm 6.10)

10/10

sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

A montanha dos sete abutres e a tragédia humana como espetáculo

Cinismo e amoralidade são as marcas registradas de Charles Tatum (Kirk Douglas), protagonista de A montanha dos sete abutres (Ace in the hole, 1951). Jornalista que carrega várias matérias sensacionalistas e 11 demissões no currículo, ele chega a Albuquerque, no Novo México, uma pacata cidade onde vai trabalhar em uma redação modesta, e logo percebe que não há grandes acontecimentos sobre os quais escrever ali. Como fazer um jornal diário se falta assunto? O jeito é apelar para os fatos banais e estender sua duração ao máximo. Qualquer semelhança com a imprensa marrom dos nossos dias não será, portanto, mera coincidência. É sobre esse material que o diretor Billy Wilder se debruça, e oferece um excelente drama que coloca em questão os limites da dignidade e da ética jornalística quando se trata de fazer notícia. 

A grande chance de vender muitos exemplares de jornal surge para Charles de modo um tanto inesperado. Designado para ir a uma localidade vizinha à redação, ele fica sabendo de um desabamento que deixou um mineiro soterrado, e decide que ali há material suficiente para várias edições. Não importa necessariamente a integridade física daquele trabalhador, e sim o quanto sua situação adversa pode render, o que nos faz notar o quanto o jornalista está distante do perfil de um mocinho virtuoso e preocupado com o bem-estar de quem quer que seja. Antes, vêm os seus interesses e o quanto ele pode se dar em bem em cima da miséria alheia. Por assim dizer, Charles é um antepassado de alguns indivíduos que ostentam o título de "jornalistas" e infestam as mídias impressas, virtuais e televisivas com suas "bombas" diárias - caberia um sem-número de exemplos para ilustrar esse comentário.

O pior é que ele acredita piamente que as coisas devem funcionar desse modo, e transmite seus ensinamentos amorais ao jovem fotógrafo que o acompanha nessa viagem, a qual tinha feito originalmente para cobrir um evento que não tinha a menor relevância em seu julgamento: uma corrida de cascavéis. Talvez nenhuma delas seja mais perigosa do que ele, com seu caráter corrompido e fascinado pelo brilho de uma fama obtida à custa da tragédia alheia. Charles é capaz de forjar uma amizade com o operário, que sequer sonha que está travando diálogos diários com o seu algoz. Ele é capaz de dizer as palavras mais lisonjeiras aliadas a um sorriso dissimulado enquanto cuida para que o resgate seja feito pela alternativa mais demorada e, assim, possa vender jornais feito água. 


Ao investir em um protagonista desse naipe, A montanha dos sete abutres se distancia dos filmes açucarados que fizeram a fama de Hollywood e caminha por um terreno pesado e incômodo. Wilder faz companhia a George Stevens, diretor de Um lugar ao sol (A place in the sun, 1951), cujo personagem principal também andava na corda bamba entre a fidelidade aos próprios códigos de conduta e alguns lapsos de generosidade que nada mais são do que efeitos transitórios de uma consciência pesada. Em outras palavras, as raras atitudes bondosas desses homens parecem sempre motivadas unicamente pelo desejo de garantir uma boa noite de sono, sem qualquer nuvem de preocupação pairando sobre a cabeça. Chalres defende suas ideias com tamanha ferocidade que os mais incautos podem tomá-las por verdadeiras e corretas, numa perigosa inversão de valores que encontra lastro na sociedade contemporânea, relativizadora e invasiva, só para citar duas de suas características perniciosas.

Mas Charles não está sozinho em sua empreitada sensacionalista. Ele conta com a anuência do xerife local e de sua esposa, que também não é flor que se cheire, para que alcancem o trabalhador por cima da montanha do título. Tudo isso mesmo com a desconfiança de um experiente chefe da equipe de resgate, que insiste em avisar que há um meio mais simples e rápido de encerrar o caso. É nas interações com esses e outros personagems que Charles vai mostrando o quanto os anos de profissão o tornaram desprezível e, em vez de simplesmente vilanizá-lo, despertam a questão: até que ponto ele não é fruto de um sistema podre que brinca de criar vítimas e carrascos e pode alternar esses papéis quando bem lhe convier? Se toma atitudes altamentes questionáveis, elas também foram aprendidas com anos de convivência com outros ditos profissionais da área. E o que dizer dos leitores e espectadores, que consomem esse teatro de mazelas, ajudando a manter a roda girando em uma direção tão maligna? A culpa há de ser dividida.

Algumas curiosidades interessantes envolvem os bastidores de A montanha dos sete abutres, a começar pelo ecletismo de seu realizador, que visitou vários gêneros ao longo de sua carreira e exibiu notável traquejo para administrá-los, sem sucumbir aos clichês mais rasteiros e ser mero reprodutor de insígnias. Sua vasta filmografia inclui Crepúsculo dos deuses (Sunset boulevard, 1950), outro drama metalinguístico legendário filmado apenas um ano antes, e uma comédia deliciosa para sempre lembrada: Quanto mais quente melhor (Some like it hot, 1959). Para além de seu talento na condução de tramas - também era um roteirista de mão cheia -, Wilder trabalhava com atores afiadíssimos e Douglas é um dos representantes dessa vasta lista de intérpretes. Infelizmente, a Academia não se deu conta disso e sequer o indicou a melhor ator, assim como o filme não chegou a concorrer na categoria principal, o que se configura em mais dois erros crassos que a premiação carrega consigo. O espanto aumenta ao se saber que o longa fracassou entre público e crítica à sua época, fazendo os produtores alterarem seu nome original a contragosto de Wilder. É maravilhoso notar que o tempo fez justiça a essa obra magna que desfia sua crítica ao espetáculo sobre a tragédia. Tragédia que, no fundo, é tanto do operário quanto de Charles.

10/10

terça-feira, 21 de janeiro de 2014

A poesia melancólica de A primeira noite de tranquilidade

“Por que a morte é a primeira noite de tranquilidade? Porque, finalmente, se dorme sem sonhos!”  (Goethe)


A melancolia é o sentimento fundamental do cinema de Valerio Zurlini. Seus personagens sempre aparecem embebidos nesse sentimento desolador, e passar pela vida sem experimentá-lo é simplesmente impossível. Atento aos seus efeitos e reações, o realizador italiano concebeu obras maravilhosas em série, vagando entre o desconforto da existência e os lampejos de contentamento que certos encontros podem trazer. A primeira noite de tranquilidade (La prima notte di quiete, 1972) é um dos títulos de sua carreira em que se pode flagrar essa predileção por um terreno de emoções tão incômodas, que não deixam o espectador tão logo a sessão acaba. Passamos a ter parte na angústia de Daniele Dominici (Alain Delon), um professor em crise no casamento que vai a Rimini (cidade natal de Federico Fellini) para substituir um colega e logo trava amizade com os tipos marginais do local. Sua filosofia de trabalho é simples e direta: não se preocupa se os alunos vão aprender ou não, apenas faz sua parte e não quer ser atrapalhado em suas exposições. Permite, até mesmo, que os alunos fumem durante as aulas. 

Entre os jovens que ficam sob sua tutela nesse breve período de substituição, está Vanina Abati (Sabrina Petrovna), garota de beleza estonteante à qual ele não consegue ficar indiferente, por mais que simule o contrário. Seus primeiros diálogos são secos e distantes, mas a mesma aura melancólica que envolve o professor se enxerga na aluna, e nasce um romance malfadado entre os dois. A essa altura, a esposa de Daniele praticamente não aparece, o que não dá a chance de conhecermos um pouco de sua personalidade e tentar entender ao menos parte dos motivos geradores da crise no casamento. Zurlini nos faz acompanhar a rotina sensabor do mestre e não demonstra qualquer pressa em desenvolver um relacionamento do tipo paixão avassaladora entre ele e Vanina. Mesmo porque, não é o que cabe aos dois, desesperados silenciosos que encontram no olhar uma forma de expor seus peitos dilacerados. Se se pode falar em almas gêmeas aqui, é apenas no sentido de vazios compartilhados, a exemplo do que ocorre nos filmes de Michelangelo Antonioni, compatriota e contemporâneo do diretor.

Como na Trilogia da Incomunicabilidade, os filmes de Zurlini valorizam os silêncios e os ecos sentimentais revelados em pequenos gestos. São personagens envoltos em si mesmos e incapazes de grandes arroubos emocionais, a não ser em situações realmente extremas. Daniele se encaixa nesse perfil e exibe suas contradições: mesmo sendo um homem inteligente, bonito e charmoso, carrega medos e inseguranças dignos de um adolescente que acabou de chegar à fase dos namoros. Também se mostra egoísta com sua insistência em meditar apenas sobre as próprias lacunas e não oferecer aos alunos todo o conhecimento que adquiriu ao longo dos estudos e do exercício da profissão. Em suas aulas, ele privilegia os monólogos e cultiva um certo sadismo ao fazer perguntas sobre literatura, disciplina que leciona. Nesse sentido, o roteiro escrito pelo diretor em colaboração com Enrico Medioli, seu parceiro também em A moça com a valise (La ragazza con la valigia, 1961), não demonstra qualquer preocupação em tornar Daniele agradável. Ele está muito longe de um perfil virtuoso e heroico. Para alguns, pode funcionar como um espelo de emoções e atitudes (ou da falta delas) límpido demais e, portanto, sufocante.



A tranquilidade presente nos títulos original e brasileiro do filme é uma quimera. Nenhum dos personagens a encontra em sua jornada pela vida, o que leva um deles a mencionar Goethe, que sentenciou que, somente na morte, quando não se tem mais sonhos, é possível estar tranquilo. É de um pessimismo atroz a afirmação, mas que há que se lembrar que se trata do autor fundador do Romantismo alemão, o mesmo cuja obra mais famosa, Os sofrimentos do jovem Werther, causou uma onda de suicídios em boa parte dos seus leitores. Para ele, a fonte de todos os sofrimentos era o amor, e vivê-lo era, em última instância, apegar-se à morte. Por outro lado, Daniele não chega sequer a flertar com a ideia de suicídio e, justamente por pensar tanto na morte, prova que está cheio de vida, já que o homem tende a buscar fora de si o que mais lhe falta. Sua perseguição é também a Vanina, que namora um dos jovens alunos desajustados do liceu. O rapaz a trai com o conhecimento da jovem, que nunca chega a colocar um fim definitivo no relacionamento de idas e vindas. 

Sem qualquer idílio amoroso para edulcorar os olhos e o coração do espectador, A primeira noite de tranquilidade se afirma como uma meditação pesada sobre as chagas da vontade, que converte em objeto de desejo tudo o que não se pode ter ou alcançar com certa facilidade. Há algumas cenas emblemáticas a esse respeito, mas a que, talvez, seja a mais representativa, acontece em uma boate. Sob as luzes multicoloridas alternadas com uma certa escuridão, Vanina dança quase involuntariamente sedutora, ao alcance do olhar de Daniele, que a contempla como quem está diante de uma miragem. Não há mais como negar: existe um sentimento forte pulsando em seu coração, mas de uma complexidade muito maior do que uma paixão, ainda que este sentimento seja suficientemente complexo para ser traduzido em algum tipo de definição - os exemplos acabam sendo uma saída razoável. Eis mais um exemplo do diálogo de sua obra com a de Antonioni, que também se expressa aqui pela presença de Léa Massari no elenco, uma das atrizes-assinatura do realizador. Ela dá vida à Monica, esposa de Daniele.

Talvez estejam ali a síntese da proposta zurliniana e mais uma afirmação de suas temática preferidas: a vida que escapa por entre os dedos, a distância que insiste em permanecer mesmo na proximidade física, a inquietude que invade e fica. É o que se contempla no relacionamento conturbado dos protagonistas de Verão violento (Estate violenta, 1959), no amor doloroso do garoto de A moça com a valise e na força dos laços fraternos revelada em Dois destinos (Cronaca familiare, 1962). A cada filme, ele tem seu jeito de arrebentar o público e acenar para a dificuldade em lidar com o que vai no coração, além de compartilhar seu pensamento de que escapar é um sonho muito distante, como dá conta de demonstrar com Daniele e Vanina em sua busca por um sopro de recomeço que seja. Ainda em seu olhar, o encontro de duas pessoas e uma possível e/ou breve realização no amor é solidão disfarçada, à qual se amarra como quem vê na âncora a chance de não ficar à deriva. Hoje, um grande tributário desse cinema é Philippe Garrel, com seus retratos de corações combalidos e cenas de danças angustiantes, dos quais somos feitos testemunhas impotentes. Esse trio de realizadores flagra homens e mulheres  à ingrata procura de calmaria e sintetiza que estar preso a este corpo mortal é o maior de todos os desconfortos.

9/10

sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

Um grito abafado por reparação em Fruitvale station - A última parada

Um episódio real traumático serve de inspiração a Fruitvale station – A última parada (Fruitvale station, 2012). Pouco depois das comemorações pela passagem de 2008 para 2009 nos Estados Unidos, o agir truculento e carregado de preconceito da Polícia de São Francisco na estação de metrô que dá nome ao filme arrancou a vida de Oscar Grant (Michael B. Jordan), um jovem de 22 anos que estava acompanhado de alguns amigos e da esposa. De volta para casa após a tradicional queima de fogos, às quais nem conseguem chegar a tempo, eles são visados pelas autoridades policiais depois de se envolverem num foco de desentendimento. As consequências dessa aproximação dos chamados “agentes da lei” acabam se revelando desastrosas e mostrando com toda a força o racismo de um país ainda tido como referência cultural, a começar pelo idioma.  

Entretanto, o longa-metragem realizado e escrito por Ryan Coogler se fixa primeiramente nas horas que antecederam o fatídico incidente, apresentando o cotidiano de reveses enfrentado por Oscar. Pai de uma garotinha com seus 7, 8 anos, ele esconde da esposa Sophina (Melonie Diaz) que perdeu o emprego em supermercado há uma semana por causa dos seus atrasos recorrentes. Apesar da demissão justa, ele ainda tinha esperança de reaver sua vaga de trabalho, o que seu ex-chefe mostra ser impossível, já que outro funcionário já ocupou o posto. Então, se vê obrigado a revelar a má notícia e entra em um novo conflito com a mulher, que já havia levantado a suspeita de uma traição da parte dele. Oscar ainda tem que se desdobrar para comparecer ao aniversário da mãe, Wanda (Octavia Spencer), única pessoa que parece ter continuado ao seu lado depois que ele foi preso por tráfico de drogas.

Calcado nessa conjunção de elementos densos, Fruitvale station – A última parada comprova o quanto a vida real pode ser pródiga em situações de alta dramaticidade. O olhar de Coogler se voltou para um fato que despertou comoção geral quando foi noticiado e, ao transformá-lo em Cinema, amplificou a intensidade de uma história por si só bastante pungente e capaz de levar o espectador à indignação. Sem recorrer aos esquematismos seculares (quiçá milenares) de mocinhos e bandidos, o roteiro expõe as dificuldades práticas de um homem que construiu sua própria família de maneira desastrada, o que nada tem a ver com a sua capacidade de dar e receber amor da filha e da esposa. Até mesmo pequenos atos de “deseducação”, como entregar à menina um pacote de doces escondido da mulher, ele comete em nome de ver um sorriso em seu rosto. Por ser alguém extremamente humano, Oscar pode ser encarado em sua complexidade, não cabendo julgamentos superficiais sobre sua conduta.


A construção da narrativa está longe de ser inovadora, o que se revela um dos poucos senãos de Coogler. Atualmente em voga na seara hollywoodiana, a estratégia de mostrar a culminância de um evento para, logo em seguida, introduzir o público em um longo flashback, é utilizada aqui. Mas as únicas formas de saber para onde a vida do protagonista caminha são lendo uma sinopse mais detalhada do filme – essa crítica não vai muito longe nesse sentido – e vendo o filme. Ainda assim, não há uma diluição do impacto das sequências apresentadas nos minutos finais da produção, dessa vez, encenadas, que fez sua estreia mundial no Festival de Sundance, reduto autenticado do Cinema independente. Meses depois, o filme ganhou ainda mais projeção ao fazer parte da seleção oficial de Cannes, onde foi exibido dentro da mostra Um Certo Olhar, dedicada a cineastas estreantes com potencial para se tornar grandes nomes nos próximos anos. Saiu do evento merecidamente laureado com o Prêmio Avenir de melhor longa-metragem.

No que se refere aos seus intérpretes, há mais méritos no filme. A começar por Jordan, o elenco demonstra afiação e naturalidade tamanha que é fácil esquecer que estamos diante de atores. É o primeiro grande papel confiado ao jovem, que acumulava personagens periféricos em séries televisivas e filmes de menor visibilidade e bilheteria e, de certa forma, ele pode ser considerado uma revelação na pele de Oscar, uma entre tantas engrenagens de um sistema cruel no qual, definitivamente, as oportunidades não são para todos. Por sua vez, Spencer – vencedora do Oscar de atriz coadjuvante em 2012 por Histórias cruzadas (The help, 2011), extrai a força de sua desempenho da compreensão do sentimento de uma mãe por um filho: incondicional, forte e para uma vida inteira. Jamais resvala no tom caricatural e emociona de verdade em várias cenas, sobretudo a da visita a Oscar na penitenciária e a da oração confiante a Deus para que a vida de seu filho não se perca. Sequências fortes que merecem ser recordadas como algumas das melhores do ano.

Ainda hoje, os envolvidos na tragédia esperam por reparação e seguem tendo passagens de ano doloridas que a força policial lhes causou. De alguma forma, Fruitvale station – A última parada é o grito de Coogler contra a covardia e uma forma de reavivar a lembrança a respeito de um entre vários episódios terríveis, muitos dos quais sequer chegam a ser televisionados. Mesmo porque, é sabido que fatos como os narrados aqui são fonte de interesse midiático durante um certo tempo. Uma vez tendo sido abordados à exaustão, acabam descartados e outros acontecimentos passam a ganhar as manchetes. E a maneira direta, muito próxima de uma objetividade, com que a câmera acompanha os acontecimentos de apenas 24 horas, tornam o filme ainda mais devastador e uma demonstração do quanto o Cinema funciona como depositário de memórias doloridas e chagas que, cicatrizadas ou abertas, continuam sendo sentidas.

8.5/10

terça-feira, 14 de janeiro de 2014

As peripécias de dois adoráveis trapaceiros em Lua de papel

O surgimento da narrativa quase se confunde com o nascimento de um protagonista heroico, com virtudes que transbordam e o colocam perto de um ideal de perfeição, seja no âmbito psicológico, seja no âmbito físico. Dessa perspectiva, um sem-número de de tramas e enredos ganharam forma e, ainda hoje, servem de modelo nas mais variadas manifestações da arte. Entretanto, há outras possibilidades a considerar, e foi o que fez Peter Bogdanovitch ao conceber Lua de papel (Paper moon, 1973) e colocar como personagens principais dois trambiqueiros de marca maior. Bem longe do tal padrão virtuoso - que tem a sua legitimidade, é bom que se diga - Moses Pray (Ryan O'Neal) e Addie Loggins (Tatum O'Neal) são anti-heróis que aplicam seus golpes para sobreviver pela estrada afora.  

Os dois se encontram e se estranham quando ele precisa levá-la ao encontro de sua tia que mora em um estado muito distante. Com apenas nove anos, a garota se tornou órfã e a única pessoa com quem pode contar para cruzar vários quilômetros é Moses, a quem insiste em chamar de pai unicamente porque ele teve alguns encontros com sua falecida mãe. De fato, existe uma enorme semelhança física entre eles, o que pode fazer o espectador pender para o lado de Addie, dona de uma certeza assustadora e capaz de construir teias de ironia muito avançadas para a sua pouca idade. Irritado com aquela criança tão esperta, Moses vai levá-la a contragosto, mas uma sutil afeição vai surgindo entre eles durante o longo percurso. 

A caminho da nova casa da menina, ele a faz parar algumas vezes na porta de casas e vai cobrar por exemplares da Bíblia que, supostamente, algum falecido da casa teria comprado. A situação é sempre a mesma: ao perguntar a quem atende a porta sobre um tal cliente, finge surpresa quando ouve sobre a sua morte e faz menção de ir embora, não sem antes mencionar que havia uma encomenda no nome daquela pessoa. O plano se revela infalível, uma vez que ninguém tem coragem de se recusar a fica com a Bíblia e Moses garante uma boa quantia em dinheiro, ao menos de acordo com os padrões financeiros da época, irrisórios em nossos dias. Matreira, Addie logo saca o truque do seu tutor provisório e intervém em uma das cenas interpretando sua filha. De início, Moses adota uma postura temerária diante dessa atitude, mas logo percebe que tem ao seu lado uma parceira muito eficiente.


Some-se a isso o detalhe de que ele está devendo uma quantia em dinheiro a ela. Portanto, sua disposição em ajudá-lo a faturar um pouco mais vem de um interesse em recuperar o que é seu. Daí para a frente, a dupla faz das suas e, esbanjando carisma, consegue facilmente a adesão do público, que pode se pegar torcendo para que as falcatruas deem certo. O mérito, sem dúvida, vem sobretudo desses atores tão afinados e capazes de atos e palavras impensáveis para os tempos de forte correção política (leia-se, hipocrisia) em que vivemos atualmente. Afinal, que filme recente colocaria uma garota de apenas 9 anos fumando cigarros sem o menor pudor? Por mais que eles fossem, na verdade, feitos com folhas de alface... Tatum, aliás, é filha de Ryan na vida real, e ganhou um Oscar de melhor atriz coadjuvante por sua Addie, uma vitória em uma categoria curiosa, já que a personagem tem o mesmo peso de Moses no filme.

Ryan, por sua vez, já havia sido dirigido por Bogdanovitch no ano anterior, também fazendo comédia com Essa pequena é uma parada (What's up, Doc, 1972), em que se metia em confusões ao lado de Barbra Streissand. Infelizmente, pai e filha se encontram hoje afastados do Cinema, não vivendo mais o sucesso experimentado há décadas. Os últimos papéis dele foram de coadjuvantes em longas de menor expressão, e sua saúde não vem colaborando para o trabalho como ator. Restam, portanto, as lembranças dos ótimos personagens encarnados por ele, como o adorável trapaceiro Moses, que se encanta com a malandragem de Addie e, com ela, vai sobrevivendo de golpe em golpe e tornando o espectador um refém quase voluntário das peripécias que também envolvem uma aspirante a artista e um chefe do contrabando de bebidas. Lua de papel é daqueles filmes que cairiam bem em uma Sessão da tarde mais vigorosa, sem os títulos anêmicos que vem predominando nessa faixa de filmes da Rede Globo.

9/10

sábado, 11 de janeiro de 2014

À procura do amor e o doce sabor da simplicidade

Charme e despretensão caminham lado a lado na proposta feita por À procura do amor (Enough said, 2013), cujo maior chamariz está no fato de ser o derradeiro filme estrelado por James Gandolfini. Falecido em junho de 2013, o ator empresta seu biotipo robusto para um personagem simpático e cotidiano, desses que podemos encontrar pelas ruas ou em uma festa qualquer. Aliás, é exatamente por ocasião de uma festa que Eva (Julia Louis-Dreyfus) o conhece. A outra protagonista da história é uma extrovertida massagista que, separada há vários anos, adotou uma postura desacreditada no amor e varre para debaixo do tapete qualquer possibilidade de atração física que venha a sentir por algum homem. Logo que é apresentada a Albert (Gandolfini) por um amigo em comum, faz questão de deixar isso claro, ganhando a concordância do sujeito de barriga proeminente – no juízo da própria.  

Entretanto, o amor reserva armadilhas, e Albert se interessa em se aproximar mais de Eva, pedindo o seu telefone e marcando um encontro. Essa primeira vez dos dois a sós rende os primeiros momentos inspirados da comédia de Nicole Holofcener, que responde tanto pela direção quanto pelo roteiro. Apostando na identificação que o mais democrático dos sentimentos desperta, ela põe nos lábios de seus personagens diálogos deliciosos, muitos deles confissões íntimas feitas sem cerimônia e, em boa parte, de modo desastrado. Eva e Albert são dois atrapalhados que nem sempre escolhem bem as palavras, e dizem mais do que o suficiente, ao contrário do que o título original do filme leva a supor. E, nessa falta de habilidade para lidar um com o outro, o carinho vai crescendo e se transformando e paixão, para se sedimentar mais adiante como amor, sem jamais perder a verossimilhança. É fácil sorrir junto com eles ou de suas atitudes, e somos colocados em uma posição vantajosa como espectadores, pois testemunhamos vários lados desse relacionamento.

Ocorre que, na mesma festa em que foi apresentada a Albert, Eva consegue mais uma cliente para a sua massagem, a poetisa Marianne (Catherine Keener, atriz-assinatura da realizadora) que, à semelhança dela, está divorciada há tempos e vive de encontros eventuais com homens que nunca chegam a empolgá-la. O elemento complicador da narrativa, sempre leve e ligeira, está no detalhe de que Albert é o ex-marido de Marianne, algo que Eva descobre aos poucos a partir das constantes reclamações da sua nova cliente. A escritora diz horrores sobre o homem com quem foi casada por pouco mais de uma década, criando uma imagem execrável na cabeça da massagista que, depois de juntar as peças e ligar as atitudes à pessoa, fica em uma saia justa da qual não sabe como se livrar, e se enrola cada vez mais no frágil equilíbrio entre continuar saindo com Albert e permanecer emprestando seus ouvidos às lamúrias de Marianne, uma personagem que merecia um acabamento mais interessante e que soa um tanto cansativa a partir de certa altura da história.


À procura do amor também traz personagens periféricos interessantes e divertidos, como Sarah (Toni Collette, sempre bela), melhor amiga de Eva, cuja realização está em viver trocando os móveis da casa de lugar, confundindo o marido e o filho a cada nova mudança que faz. Seus desentendimentos com a empregada, que coloca os objetos nos compartimentos mais inusitados, também rendem momentos engraçados, e deixam a certeza de que a atriz merece ser mais lembrada e ganhar mais espaço nos filmes em que atua. Não chega a ser uma ladra de cenas, pois a generosidade é uma das suas características como profissional. Prefere funcionar como escada para Louis-Dreyfus com muita elegância e talento, dando provas que o termo “papel pequeno” é uma falácia digna de ser derrubada: o que existe são atores pequenos. A outra subtrama interessante é o relacionamento meio gangorra entre Eva e a filha única. A jovem tem uma amiga de quem a mãe acaba se aproximando demais, causando-lhe ciúmes, algo que Eva demora a perceber, como distraída que é. Há uma discussão minimamente consistente a esse respeito que ganha espaço na história.

A estrutura geral de À Procura do Amor é bastante similar à de tantas outras comédias românticas que surgem no circuito, mas Holofcener tem a seu favor a ótima química entre os atores e a capacidade de extrair graça das situações mais prosaicas, um forte despertador de identificação. De certa forma, todo mundo é ou conhece um ou mais dos personagens do filme, seja pelos seus desejos, seja pelos seu planos. E a tal saia justa em que Eva passa a estar a certo ponto da narrativa é totalmente verossímil, dessas que pode acontecer a qualquer um. A propósito, há um certo ar alleniano em sua construção, o que, para alguns, pode tornar a personagem ainda mais cativante. Sua intérprete, aliás, já compareceu em dois filmes do diretor em papéis discretos – Hannah e suas irmãs (Hannah and her sisters, 1986) e Desconstruindo Harry (Deconstructing Harry, 1997) – e incorpora bem a figura da amante aparvalhada. Ao chegar à sua cena final, A despedida de Gandolfini do Cinema e da vida ratifica o triunfo da simplicidade e da delicadeza, sem qualquer malabarismo técnico ou narrativo. Por que negar uma necessidade que todos nós temos?

7.5/10

quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

Álbum de família, a polifonia típica entre iguais

Álbum de família (August: Osage county, 2013) faz parte do que se convencionou chamar filme de atores. A bem da verdade, é um rótulo e, como tal, carrega suas limitações intrínsecas, e também não deixa de ser um certo tipo de redundância, já que os atores são um pressuposto básico de um filme. Entretanto, quando se fala em filme de atores, o que se tem em mente é uma produção cuja ênfase está nas interpretações de seu elenco e cujo roteiro é, antes de mais nada, um veículo para que os atores escalados possam dar seus shows na tela. Os demais aspectos, por sua vez, não são igualmente bem cuidados, e acompanhar a história passa a valer quase exclusivamente pelos intérpretes. No caso específico de Álbum de Família, há que se dedicar atenção especial a dois nomes do elenco: Meryl Streep e Julia Roberts. Pela primeira vez reunidas em cena, as atrizes são, de longe, o melhor trunfo do diretor John Wells, que estreia no Cinema depois de uma carreira como produtor executivo de séries de sucesso na televisão, como West Wing.  

As atrizes encarnam, respectivamente, Violet e Barbara, mãe e filha afastada há muitos anos uma da outra, o que resulta em constantes embates e trocas de acusações quando se reencontram. Confinadas novamente sob o mesmo teto, elas vão deixando aflorar os ressentimentos acumulados e lançam palavras cortantes uma à outra, tendo como testemunhas os demais membros da família, que assistem desconcertados a tantos duelos verbais consecutivos. Todos estão novamente juntos por conta do desaparecimento do patriarca Beverly (Sam Shepard, em rápida participação), que aconteceu sem motivação aparente. Uma vez tendo o clã novamente ao alcance da sua voz, Violet não é capaz de poupar ninguém e destila toda a sua amargura, potencializada pelo estado de saúde debilitado – ela enfrenta um câncer de boca, um detalhe funcional do roteiro de Tracy Letts, adaptado de peça teatral também de sua autoria. Além de Barbara, estão presentes ali suas outras duas filhas, dois genros, a irmã, o cunhado e a neta, e não faltam situações do tipo barril-de-pólvora-prestes-a-explodir ao longo dos 121 minutos de narrativa.

Para além dos vários pontos a ponderar que essa família tem internamente, todos ainda têm que lidar com um fato externo que desgasta ainda mais o relacionamento familiar: o calor intenso da região onde se encontram e, vez por outra, surge como reclamação dos personagens. Esse calor, aliás, chega a ser um personagem invisível da trama, contribuindo para aquecer e inflamar ainda mais as discussões entre os parentes. Muitas vezes, elas se superpõem, formando uma desagradável polifonia que se assemelha a um aparelho de rádio fora à procura de sintonia em alguma estação. Nada muito diferente de uma família da vida real, com suas constantes lavagens de roupa suja que, em certos casos, têm início sem qualquer aviso prévio. Um detalhe interessante foi a data escolhida pela distribuidora para o lançamento do filme no Brasil: apenas três dias após a comemoração do Natal, uma ocasião em que, tradicionalmente, as desavenças familiares são deixadas de lado – ou, pelo menos, há um esforço maior para esquecê-las ou abrandá-las. É, no mínimo, curioso assistir a esse festival de conflitos pouco tempo após uma ceia farta entre os consaguíneos.


Apoiados nessa verborragia intermitente, os atores contam muito mais uns com os outros do que com a direção para oferecer bons desempenhos. A falta de traquejo de Wells para a função acarreta problemas em várias sequências de Álbum de família, como a que ilustra um dos pôsteres do filme e mostra Barbara partindo para o confronto físico com Violet. Congelada no cartaz, ela parece melhor do que é na verdade, e a deficiência em sua condução se deve à inabilidade de Wells em administrar vários atores em cena ao mesmo tempo. Todo o elenco, à exceção de Shepard, está reunido naquele momento, e o que deveria ser inteiramente centralizado nas interpretações de Streep e Roberts vira uma passagem confusa filmada de modo quase amador, como alguém que não capta a tempo um daqueles barracos memoráveis em família e, anos mais tarde, será acusado de não ter sido um bom cinegrafista quando a parentela se reencontrar para relembrar a ocasião originalmente fatídica que terá se transformado em um episódio risível.

Com os holofotes voltados para Streep e Roberts quase o tempo inteiro, sobra pouco espaço para os demais atores, que acabam subaproveitados. É o caso especialmente de Ewan McGregor, que, na pele de Bill, que está prestes a se tornar no papel ex-marido de Barbara depois de trocá-la por uma estudante mais jovem, só consegue mostrar algum serviço em uma (para variar) cena de bate-boca, na qual a troca de acusações evidencia a falência daquele casamento, adiada em favor da única filha do casal, uma típica rebelde adolescente encarnada por Abigail Breslin, linda em versão ruiva. A garota, aliás, flerta com Steve (Dermot Mulroney, usualmente canastrão), namorado da tia Karen (Juliette Lewis, restrita a um tipo), num clássico exercício de chamada de atenção que exemplifica as obviedades da sua faixa etária. No mais, Álbum de família apresenta um andamento condizente com o de uma novela problemática, trazendo clichês mal utilizados em seus desdobramentos, entre eles a descoberta de que dois primos, na verdade, são meio-irmãos. Quantas vezes já não vimos uma revelação do tipo? De motivação para se assistir ao filme, permanece a oportunidade de testemunhar duas atrizes afiadíssimas em cena, que precisam se encontrar mais vezes, pelas mãos de cineastas mais competentes e com experiência acumulada na função.

7/10

domingo, 5 de janeiro de 2014

Inventividade e beleza desastrada em A vida secreta de Walter Mitty

Uma consulta ao dicionário permite verificar o significado atribuído ao termo surrealismo: trata-se de um movimento artístico nascido na década de 20 do século passado cujo foco são as manifestações do pensamento desvinculado de qualquer preocupação lógica, moral ou artística. Entretanto, o termo foi se alargando com o passar dos anos e hoje recobre muito mais que as produções de um movimento, mas qualquer obra em que a liberdade criativa ultrapasse às fronteiras da verossimilhança, ainda que não se desligue totalmente dela. A vida secreta de Walter Mitty (The secret life of Walter Mitty, 2013) está contido nessa ampliação de conceito, e se revela como uma das comédias mais inventivas e cativantes dos últimos anos, um título que está longe de ser aceito com parcimônia, num típico caso de polêmica envolvendo a arte. 

O personagem-título, vivido por Ben Stiller, é um introvertido fotógrafo da revista Life – que existiu de fato entre 1936 e 2000. Voltada para o fotojornalismo, a publicação se tornou uma referência na área, veiculando imagens que rodaram o mundo e celebrizaram pessoas contextualizadas nas situações mais diversas. Quando o público se encontra com Walter, ele está à volta com a indecisão sobre fazer ou não contato com uma colega de trabalho que tem um perfil na mesma rede social que ele. De tão tímido, hesita várias vezes antes de enviar uma piscadinha para a moça – este é o modo como as pessoas interagem na tal rede, cujo objetivo é aproximar corações solitários. Quando, finalmente, se decide, um problema no administrador do site o impede de enviar a tal piscadinha. Chega a hora de ir novamente para o trabalho e, então, o cotidiano desbotado de Walter vem à tona.

Completamente desajeitado para o convívio com os próprio colegas, ele se refugia em seu laboratório de revelação de fotos, onde recebe um pacote com os negativos de uma série de imagens clicadas por Sean O’Connell (Sean Penn, em participação afetiva), que servem como sugestões para a capa da última edição impressa da revista, que está prestes a se tornar inteiramente digital e, com isso, muitos funcionários, sobretudo os mais novos, estão com a cabeça a prêmio. O problema começa quando ele e o amigo mais chegado, com quem divide o espaço do laboratório, notam que falta o negativo de número 24, justamente o exigido por Ted Hendricks (Adam Scott), sarcástico gerente de marketing contratado para modernizar a revista e conduzi-la em sua fase virtual. O sujeito de topete alinhado e ternos impecáveis faz chacota de Walter assim que percebe os seus momentos de ausência, em que se deixa dominar pelos pensamentos mais surreais possíveis, daí a menção ao surrealismo para se comentar sobre o filme.


Na imaginação de Walter, ele assume as mais variadas personas, coincidentemente ou não, muito mais atraentes e resolutas do que a sua figura real. É capaz de cortejar ser rodeios a bela Cheryl (Kristen Wiig), colega de trabalho para quem não consegue piscar na rede social e desafiar o novo chefe pelas ruas da cidade montado em um skate superpoderoso. Os arroubos criativos da mente do protagonista invadem a tela sem aviso prévio, e são o sopro de invenção de um filme que, visto de coração aberto, afaga o peito e instiga a aproveitar os momentos mais prosaicos. A exemplo de realizadores como Wes Anderson, que se vale do que há de bizarro no dia a dia, o Stiller diretor assume riscos e convida o espectador a uma aventura em que não há limites para a surpresa e o nonsense.

Demarcado em duas grandes fases, A vida secreta de Walter Mitty carrega os genes de um blockbuster em seu DNA, mas a constatação passa longe de ser depreciativa – por que viver em luta contra os filmes capazes de abraçar um público mais amplo? Os mais casmurros podem ter dificuldades em se conectar com a história, refilmagem de O homem de 8 vidas (The secret life of Walter Mitty, 1947), que tinha até Boris Karloff em seu elenco, mas o filme é bastante honesto em sua proposta. A primeira fase é centrada nos delírios imaginativos do fotógrafo e em como esses devaneios o conduzem a uma vida no piloto automático. Mais adiante, a necessidade misturada à curiosidade sobre o negativo desaparecido o impulsionam a uma série de aventuras genuínas, que incluem pular em um mar revolto, escapar do ataque de um tubarão e fugir a tempo do rio de lavas de um vulcão em atividade.

A odisseia bem-humorada de Walter, que produz transformações internas em sua personalidade, rendeu comparações com Forrest Gump – O contador de histórias (Forrest Gump, 1994), que também trazia um protagonista envolvido em mil peripécias. Semelhanças e diferenças à parte, A vida secreta de Walter Mitty é um delicioso achado na safra 2013 de comédias, em que o cinismo perde terreno para uma inocência quase pueril, sempre calcado em uma direção de fotografia estonteante que convida a deixar o retraimento de lado e a investir mais nos instantes que o cotidiano nos reserva. Não é qualquer um que pode experimentar tantas sensações extremas consecutivamente como Walter, mas ele vai bem longe para nos mostrar que o sonho é uma ferramenta poderosa para enfrentar o tédio de uma existência burocrática, presa a repetições. Por outro lado, enquanto estamos acordados, podemos encarar o desafio de encontrar a beleza incrustada na rotina.

9/10

sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

BALANÇO MENSAL - DEZEMBRO

O atraso no balanço de dezembro ocorreu por motivos de força maior. A falta de energia em casa interrompeu minha rotina de filmes e postagens no blog à minha revelia. Finalmente, o problema está resolvido e posso compartilhar com os leitores e visitantes o que andei vendo ao longo do último mês do ano. Sendo assim, eis os filmes com suas respectivas notas e comentários:

LONGAS:

1. Rosetta (1999) - No cinema dos Dardenne, pulsa a força da alma inquieta, que não sabe corresponder quando encontra algum calor em um mundo tão gélido. Mesmo assim, os silêncios e os gestos contidos denunciam: há uma fagulha de esperança. 9.0

2. A noviça rebelde (1965) - Boa parte dos clichês mais adoráveis comparecem ao longo da narrativa e despertam o encanto pelos personagens, afiados na fala e no canto. Mas a extensa duração é desnecessária: uns 40 minutos a menos teriam bastado. 8.0  
A vida em preto e branco (1998)

3. A vida em preto e branco (1998) - A brincadeira com as cores é sensacional! Uma eficiente e simpática metáfora sobre a importância de se estar aberto a mudanças e sobre como pequenas atitudes fazem a diferença no cotidiano. 8.0

4. Um final de semana em Hyde Park (2012) - Não há uma trama efetivamente desenvolvida: o roteiro patina em cenas disfuncionais, por assim dizer, e a motivação para continuar assistindo à história vem de Murray, que parece se divertir em cena. 5.5

5. Ondine (2009) - A certa altura, a realidade supera a fantasia e cobra alguns do seus ônus, como tantas vezes acontece às pessoas. Belo exemplar da versatilidade de Jordan e do carisma de Farrell. 7.0

6. Vício frenético (2009) - Herzog põe Cage nas garras do vício e sintetiza o espírito de uma época em cenas intensas e cortantes. De certa forma, o mundo atual está chapado e com o olhar cheio de ilusões. 8.0

7. A primeira noite de tranquilidade (1972) - Junto a Garrel pai e Antonioni, Zurlini é o poeta da melancolia e dos corações combalidos, à ingrata procura de calmaria. Estar preso a este corpo mortal é o maior de todos os desconfortos. 9.0

8. O raio verde (1985) - "Ah, que chegue o momento dos corações em contentamento!" (Arhur Rimbaud). 9.0

9. Amor é tudo o que você precisa (2012) - A abordagem novelesca enfraquece o andamento da narrativa, que navega por águas superficiais enquanto as subtramas seguem pouco aproveitadas. Em todo caso, Dyrholm é uma gracinha com ou sem peruca. 6.5

10. Muito barulho por nada (2012) - A proposta de atualizar somente os cenários e figurinos e manter o rebuscamento vocabular de Shakespeare causa estranheza (por mais suspeito que eu seja pra comentar isso). No mais, é o atestado da inconstância humana. 7.5  
A busca (2012)

11. A busca (2012) - Carrega uma curiosa ambiguidade: as ações dos personagens são críveis, mas surgem quase sempre de modo abrupto, o que não chega a comprometer a empatia com o drama do pai perdido. Um filme escrito para Moura reiterar o quanto é ótimo ator. 7.0

12. São Paulo S.A. (1965) - Aquela melancolia que corrói por dentro e destrói tudo à sua volta. 9.0

13. Azul é a cor mais quente (2013) - Uma experiência intensa e passional, como qualquer relacionamento a dois. Na condição de espectadores das várias fases vividas por essas protagonistas, testemunhamos cada nuance capturada pelas lentes de Kechiche. 8.0

14. Lua de papel (1973) - Quem pode resistir a essa improvável dupla de trambiqueiros? Caprichando na incorreção política - aos olhos de hoje -, o roteiro nos dá uma volta e nos faz torcer por eles, como vítimas de um exímio mão leve. 9.0

15. A infância de Ivan (1962) - Uma reflexão delicada e poética sobre o salto de etapas que uma guerra traz a qualquer um. Belíssimas imagens esculpidas com paciência e emoção pesada. 8.0

16. Prelúdio para matar (1975) -  Esgarça os nervos da plateia com um suspense macabramente musicado. 8.5

17. Sangue ruim (1986) - Há belos momentos e frases desoladoras, especialmente o monólogo final de Alex. Mas a opção por uma narrativa truncada faz oscilar a sensação de se estar diante de um belo filme. 7.0

Um lugar ao sol (1951)
18. Um lugar ao sol (1951) - Para onde a ambição leva? A resposta de Stevens é desoladora e o seu julgamento, implacável. 9.5 

19. Infância nua (1968) - Uma espécie de antepassado dos Dardenne e de contemporâneo de Truffaut, que aborda as dificuldades de crescimento e desconcerta pela crueza. Optando por ser sucinto, Pialat oferece uma reflexão sobre os afetos e o peso da vida. 8.0

20. A vida secreta de Walter Mitty (2013) - Abra o coração e deixe-se levar por lugares e pessoas que fazem a vida valer a pena. Os pensamentos bizarros que todos temos ganharam o Cinema. 9.0

21. Segredos de sangue (2013) - Transborda identidade visual e se apega a detalhes dos ambientes para contar uma história trôpega, em que exercitar o estilo parece mais importante do que se aprofundar um pouco mais nos personagens. 6.0

22. A embriaguez do sucesso (1957) - Um olhar sobre a amoralidade cínica de uma Nova York mergulhada em escândalos (forjados ou não), temperado com um roteiro esperto e uma dobradinha formidável entre Lancaster e Curtis. Não é de hoje que a imprensa marrom faz das suas. 9.0

23. Ninfomaníaca: volume 1 (2013) - Espalhando deboche e provocando o espectador, Von Trier torna a enxergar o corpo humano como um campo de provas. 8.0

24. Círculo de fogo (2013) - Mais do mesmo hollywoodiano com uma pitada de acidez crítica em seu prólogo. Consegue prender a atenção nas várias sequências de confronto, bem mais interessantes que alguns diálogos e desdobramentos óbvios. 7.0   
Adeus, Dragon Inn (2003)

25. Adeus, Dragon Inn (2003) - Espectadores da nostalgia, do silêncio e da impossibilidade do toque. Cinema em seu aspecto mais contemplativo. 8.0 

26. Elegia de Osaka (1936) - Espião do cotidiano, Mizoguchi confere a complexidade das relações humanas e das escolhas errôneas do coração. 7.5

27. O verão do Skylab (2011) - Com sua vocação para a escrita de diálogos coloquiais e verossímeis, Delpy oferece uma agradável crônica familiar repleta de acontecimentos prosaicos e um certo frescor. 7.0

28. Um dia de cão (1975) - Começa em seu clímax. Consequentemente, vai decaindo até seu desfecho, em que parte da adrenalina se recupera, mas já é um pouco tarde. Ainda bem que temos Pacino. 6.5

29. Sete psicopatas e um shih tzu (2012) - Descontadas algumas confusões do roteiro, é uma trama espirituosa em que a metalinguagem e os diálogos afiados valem mais do que o conjunto da obra. O shih tzu é irresistível! 7.0

30. Álbum de família (2013) - Verborragia corrosiva entre consanguíneos, tem sua força nos constantes duelos entre Roberts e Streep, que, finalmente, encontraram-se na tela grande. 7.0 
A aventura de Kon-Tiki (2012)

31. A aventura de Kon-Tiki (2012) - O espírito explorador, a fidelidade a uma crença, os longos períodos de tédio, a coragem desafiada: os elementos e fatores que marcam uma grande expedição filmados com afinco e vigor por uma câmera que nos descortina imagens estonteantes. 8.0

32. Weekend (2011) - Envoltos em uma atmosfera cinérea, os protagonistas meditam sobre o amor e fazem suas confissões em tom grave. Um pulsar melancólico invade toda a narrativa. 8.5

33. Possessão (1981) - Risadas sucessivas em uma trama que, supostamente, seria de terror, mas perde a credibilidade com seus diálogos, atuações e cenas de péssimo gosto. Um trash involuntário e histérico pra fechar um ano com os amigos sem compromisso. 8.0

34. A montanha dos sete abutres (1951) - A obstinação pelo grande furo de reportagem corrompendo os princípios básicos de humanidade e produzindo espetáculo sobre a tragédia. Parece que foi rodado ontem. 10.0

35. Plata quemada (2000) - Ação e explosão, o velho binômio da cartilha policial, repassado com hispanofalantes e subvertido com protagonistas que não estão atrás da mocinha. Tudo por um punhado de pratas. 7.0

36. O dia em que ele chegar (2011) - Idas e vindas, repetições, coincidências e sutis variações sob uma Seul fria e de neve eventual. Houve quem dissesse que todas as histórias são a mesma. Esse alguém tem razão. 8.5

MÉDIA:

O balão vermelho (1956) - De uma belezura indescritível.

CURTAS: 

Outros mundos (1997) - Amor: o eterno dilema. 8.0

Destino (2003) - O tempo que sempre escapa e talha a percepção do real. Seria a memória uma boa trapaceira? 9.0

MELHOR FILME: A montanha dos sete abutres
MELHOR DIRETOR: Eric Rohmer, por O raio verde
MELHOR ATRIZ: Émilie Dequenne, por Rosetta
MELHOR ATOR: Kirk Douglas, por A montanha dos sete abutres
MELHOR ATRIZ COADJUVANTE: Julia Roberts, por Álbum de família
MELHOR ATOR COADJUVANTE: Sam Rockwell, por Sete psicopatas e um shih tzu
MELHOR ROTEIRO ORIGINAL: Eric Rohmer, por O raio verde
MELHOR ROTEIRO ADAPTADO: Abdelatiff Kechiche e Ghalia Lacroix, por Azul é a cor mais quente
MELHOR TRILHA SONORA: Mark Isham, por Vício frenético
MELHOR FOTOGRAFIA: Urszula Pontikos, por Weekend
MELHOR CENA: O plano de abertura de A primeira noite de tranquilidade
MELHOR FINAL: Lua de papel
PIOR FILME: Possessão