Pesquisar este blog

sexta-feira, 30 de maio de 2014

A amizade como um tesouro de valor inestimável em 3 idiotas

"[...] mas há um amigo mais chegado do que um irmão." (Pv 18.24)

Gentileza e carinho genuínos. Ambos os ingredientes transbordam pelos quase 180 minutos de duração de 3 idiotas (3 idiots, 2009) e estão inseridos em um contexto de amizade que não conhece quaisquer fronteiras de espaço ou tempo. O realizador indiano Rajkumar Hirani foi extremamente feliz ao reunir três sujeitos com suas idiossincrasias através de laços invisíveis, mas estreitíssimos e profundos, comprovando a veracidade do versículo bíblico que abre está crítica, encontrado no livro de Provérbios, coletânea de reflexões sobre a vida em sua plenitude que demonstram uma sabedoria decorrente da experiência ou da inteligência adquirida ao longo de muitos anos. Os tais idiotas do título são Raju (Sharman Joshi), Rancho (Aamir Khan) e Farhan (Madhavan), que se conhecem na faculdade de engenharia, na qual estão por razões distintas e não exatamente por vontade própria. 

Boa parte da história é narrada sob a forma de flashback, com a voz em off de Farhan, que trata de informar os detalhes do relacionamento do trio, que viveu poucas e boas (ou muitas e péssimas, para ser mais fiel aos acontecimentos) desde que iniciaram o curso universitário, até que seus caminhos foram se dividindo. A união dos amigos foi propiciada pela figura algo subversiva de Rancho, questionador dos métodos adotados e dos conteúdos ministrados pelos professores da faculdade, que envolvem memorizações mecânicas e teorias que soam muito distante da realidade que espera ao alunos. Tal conjunto de regras é fruto da mentalidade tacanha do diretor Viru Sahastrabudhhe (Boman Irani), "carinhosamente" apelidado de ViruS, por sua influência perniciosa aos corpos docente e dicente, não permitindo que ninguém pense fora de seu horizonte de expectativas, limitadíssimo, como se pode perceber por essa breve descrição de seu caráter.

Durante as aulas, Rancho manifesta seu inconformismo, e deixa um professor sem palavras ao fazê-lo cair em sua própria armadilha de exigir que os alunos expliquem tudo em função de uma série de termos técnicos. Ele se refere a um de seus pertences com um vocabulário propositalmente pedante e confunde o mestre para, em seguida, usar o nome pelo qual o objeto é facilmente conhecido: caderno. Em outra ocasião, ele consegue boicotar o tradicional trote aplicado aos calouros, pregando uma peça no líder da prática. Por essas e outras atitudes, ele se torna uma referência para Raju e Farhan, e não tarda para que os três se tornem inseparáveis e comecem a ser vistos como idiotas pelo restante das pessoas. Mas trata-se de uma perspectiva enviesada, já que nenhum deles tem nada de idiota. Muito pelo contrário: a inteligência de Rancho para inventar soluções e o afinco de Raju e Farhan, que logo aprendem a ir além em seus conhecimentos, colocam em xeque o uso do adjetivo com eles.

O contraponto desse pensamento arejado é o irritante Chatur (Omi Vaidya), que restringe seus estudos a decorar fórmulas e conceitos para repeti-los mecanicamente nas aulas e nas provas, servindo de oportunidade para o roteiro escrito pelo realizador em colaboração com Abhijit Joshi criticar o sistema de ensino indiano. É prática comum ainda hoje nas escolas e universidades do país a mera transmissão de conteúdo por parte dos professores, que também insistem em uma relação verticalizada com os alunos, como supostos detentores da verdade e da certeza sobre tudo que apresentam em sala. Ao ir contra esse sistema, Rancho se torna persona non grata, indignando ViruS, um homem de hábitos estranhos, como a soneca diária de sete minutos e meio depois do almoço, durante a qual é barbeado em sua sala. Para piorar, ele se envolve com Pia (Kareena Kapoor, lindíssima), ninguém menos do que a filha daquele que se tornou seu inimigo declarado.


Em meio a esses e outros elementos folhetinescos, 3 idiotas pensa a amizade como um fonte de ajuda e aprendizados mútuos, falando ao coração muito mais do que aos olhos ávidos de efeitos visuais mirabolantes. Em se tratando do cinema indiano, também se trata de um filme bem típico, que reúne vários números musicais, que podem ser de gosto duvidoso para alguns espectadores, mas nunca perdem totalmente de vista o senso de humor, como a passagem em que os amigos dançam no vestiário durante o banho e vão até o pátio central da faculdade, combinados com uma letra digna de atenção e uma melodia contagiante. A dose de romantismo - também passível de análises positivas e negativas por ser uma questão de gosto, afinal - fica por conta de Rancho e Pia. Com seu jeito inquiridor, ele acaba levando a jovem a reconsiderar a ideia de se casar com um playboy que está sempre dizendo o preço de tudo que compra, numa aspiração deletéria à aristocracia.

Com uma narrativa tão longa, sobra tempo e ocasião para 3 idiotas discutir várias outras questões, como o direito dos filhos à escolha de seus caminhos, promovida através de Farhan, que alimenta o sonho de ser fotógrafo e só está cursando engenharia por causa do pai, e também de Raju, que toma uma atitude drástica ao ver que corre o sério risco de desapontar a mãe necessitada, que aposta todas as fichas em sua graduação. Não faltam momentos em que pode ser muito difícil segurar as lágrimas, já que o cuidado e o apreço dos amigos um pelo outro é incondicional e se traduz em gestos emocionantes, como fazer uma festa para um deles voltar à consciência. O grande herói da história é mesmo Rancho, interpretado por um dos atores mais requisitados do país, que também exibe vocação para galã com sua estampa visualmente agradável, por assim dizer. Sua figura já foi até matéria-prima de uma monografia da área de Comunicação Social que versa justamente sobre a representação do herói, mais um atestado do valor do filme para além de algumas horas de entretenimento - embora cumprir esse papel já o legitimasse o suficiente. 

Aliás, se encarado sob o prisma conservador da cultura indiana, Rancho é o extremo oposto do que se espera de um herói, segundo a análise empreendida nessa monografia. O que se nota é um país que, apesar de tão distante e diferente do Brasil, também é palco da convivência sempre tumultuada entre o tradicional e o moderno, o que torna ele e ViruS personagens extremamente verossímeis. O traço mais cinematográfico talvez fique por conta do testemunho da mudança experimentada por esses indivíduos, que desenvolve de maneira gradual e faz acreditar que ninguém é tão inflexível no fim das contas. Em seu todo, 3 idiotas acende a esperança diante das pessoas e relembra que ninguém está sozinho se tem amigos, lição já ensinada por Frank Capra em A felicidade não se compra (It's a wonderful life, 1946), e que um bom amigo é para se levar para vida toda, o que seu xará Darabont fez ver em Um sonho de liberdade (Shawshank redemption, 1994). Resta, então, a certeza de que todos precisamos de amigos assim.

10/10

terça-feira, 27 de maio de 2014

O amigo da minha amiga e a irresistível prosa rohmeriana

Diretores como Eric Rohmer existiram (ou existem) para atestar que também é possível encontrar beleza no extraordinário. A cada filme seu, personagens dialogam interminavelmente sobre questões banais e profundas, e essa miríade de palavras que invade a tela é responsável por um fruir filosófico passível de ecoar na memória por um bom tempo. Esqueça a ação desenfreada, as reviravoltas policialescas ou qualquer outro elemento largamente utilizado pelo cinema das grandes plateias. Rohmer elegeu a prosa cotidiana como a base para sua carreira na sétima arte, e vale ressaltar o seu passado de crítico quando ele começou a carreira de realizador. Em suas produções, ele reuniu atores de rostos desconhecidos para declamar, com a maior naturalidade do mundo, um texto que, quando não se mostra rico em reflexões, exibe comentários espirituosos sobre as pessoas e suas complicações. 

O amigo da minha amiga (L'ami de mon amie, 1987) reúne essas características. Aliás, cada filme seu é metonímia de toda a sua produção, o que deixa o espectador à vontade para começar a visita à sua filmografia pelo título que preferir. Último exemplar da série de Comédias e Provérbios, que Rohmer dirigiu ao longo da década de 80 e se compõe de seis obras, parte de uma premissa incrivelmente simples para investigar os caminhos tortuosos do coração, simbolicamente o centro da vontade humana. Uma jovem secretária está almoçando sozinha em um restaurante quando uma outra moça se aproxima e pede permissão para se sentar com ela, que concorda. Em poucos minutos, as duas já terão engatado uma animada conversa sobre amenidades, e se tornarão como amigas de longa data. Elas atendem pelos nomes de Blanche (Emmanuelle Berchot) e Léa (Sophie Renoir). A primeira é solteira e um tanto seletiva com os homens, enquanto a segunda vive um relacionamento morno com Fabien (Eric Viellard).

Também em pouco tempo, Léa percebe que seu namorado cairia muito melhor para Blanche, e começa a empurrá-lo sutilmente para a amiga, a qual resiste devido à sua exigência e ao respeito que tem por Léa. Para introduzir um pouco mais de complicação à narrativa, surge a figura de Alexandre (François -Eric Gendron), um sujeito vaidoso ao extremo que está acostumado a esperar que as mulheres o abordem para iniciar a conquista. Esse garanhão às avessas, por assim dizer, consegue mexer com Blanche, mas Léa a aconselha a não criar muitas expectativas quanto a ele porque relacionamentos duradouros não fazem parte de sua cartilha. Ainda assim, ela ajuda a amiga a se aproximar de Alexandre, como forma de fazê-la sentir na própria pele o desencanto conforme for conhecendo mais de perto aquele pavão nada misterioso. Mais adiante, porém, é Léa quem começa a se interessar de outra maneira por Alexandre, enquanto Blanche e Fabien, em boa parte devido a casualidades, se unem cada vez mais.


Em termos de sinopse, resta pouco a se descobrir sobre O amigo da minha amiga. Mas, em se tratando de um cinema pobre em ação como o de Rohmer, detalhe já apontado por esta crítica, o mais importante se torna a condução dos conflitos - leves ou pesados, a depender da perspectiva de quem os enxerga e, para quem os vive, sempre pesados. É uma história para quem gosta de se sentar à janela e olhar a paisagem enquanto o trem o ou ônibus se locomove, sem pressa de chegar. A modernidade nos roubou esse tempo e essa inclinação, fazendo cada segundo se tornar uma eternidade diante da pressa - quem suporta esperar cinco segundos para pular as propagandas que antecedem os vídeos do YouTube? Entretanto, para os amantes de uma boa prosa, os filmes de Rohmer são altamente compensatórios, e a teia de coincidências engendrada pelo diretor em O amigo da minha amiga soa orgânica e interessante. A pergunta que não quer calar não é "quem vai ficar com Blanche?", mas "como as amigas conseguirão administrar a mistura de sentimentos que vêm experimentando?".

O figurino das amigas também merece atenção. O roteiro brinca o tempo todo com as cores que cada uma escolhe, transmitindo mensagens através delas. É como se ambas estivessem numa espécie de distribuição complementar diante da vida, perspectiva que encontra correspondência na atração despertada em uma e outra diante de Fabien e Alexandre. Se uma veste uma blusa azul, a outra aparece vestindo verde, e esses tons frios contrastam com as personalidades cálidas de ambas, embora Blanche aparente ser um pouco mais fleumática. As protagonistas parecem ter sido revistas anos mais tarde por Woody Allen no seu Vicky Cristina Barcelona (idem, 2008), um outro belíssimo ensaio sobre as armadilhas do querer estrelado por duas amigas cindidas por suas escolhas. Por fim, cabe assinalar a ambiguidade presente no título original: "ami" pode ser traduzido como "amigo" ou "namorado", o que faz toda a diferença nos códigos estabelecidos entre os indivíduos. Esse detalhe se perdeu no nome brasileiro do filme, e é claramente reforçado com a epígrafe, que resume: "Os amigos dos meus amigos são meus amigos".

8.5/10

sexta-feira, 23 de maio de 2014

O peso do preconceito investigado em No calor da noite

Já foi comprovado cientificamente há tempos que não existe qualquer diferença do ponto de vista genético entre pessoas cujos tons de pele não são iguais. Entretanto, o preconceito contra os negros ainda é uma realidade. Imagine isso há quase cinco décadas. Na verdade, nem é preciso usar a imaginação, já que No calor da noite (In the heat of the night, 1967) está disponível como uma das ilustrações dessa corrente de pensamento perversa, que vem à tona através de dois personagens. Após um crime que tira a vida de uma figura influente de uma pequena cidade, começam as investigações para descobrir o culpado, e logo a suspeita recai sobre Virgil Tibbs (Sidney Poitier), um detetive negro que estava de passagem por ali. Um policial encontra o corpo estirado na rua em plena madrugada e, ao fazer uma ronda pela estação de trem, encontra o tal detetive e o revista aos gritos, como se o assassinato estivesse praticamente resolvido. 

Uma vez na delegacia, o tratamento que recebe do delegado é bem parecido, e essas duas passagens do filme de Norman Jewinson bastam para causar indignação no espectador que não partilha de uma perspectiva tão abjeta. Alguns minutos depois, porém, esse sentimento pode ser substituído pelo de satisfação, já que Virgil se apresenta como um importante homem da lei e um perito em homicídios, examente o profissional de que Bill Gillespie (Rod Steiger, perfeitamente intratável), o chefe de Polícia, necessita. Sem alternativa, ele dá o braço a torcer e passa a contar com as observações e sugestões do detetive, que tem um faro apuradíssimo para investigações e logo conquista a confiança da viúva, que exige sua liderança para que o autor do crime seja encontrado e punido. O problema é que Bill e seu subordinado não são os únicos a lidar mal com a presença de Virgil: o preconceito está espalhado pela cidade e vencê-lo pode ser mais difícil do que contrariar uma das leis da Física.

A cidade fica no Mississippi, ao sul dos Estados Unidos, reconhecidamente um território em que hostilizar negros soa como a atitude mais normal do mundo, quase um senso comum entre os brancos. Vários filmes têm abordado essa temática ao longo dos anos, alguns com mais ou menos sucesso - veja-se o caso do pavoroso Crash - No limite (Crash, 2004) para exemplificar a segunda possibilidade. O próprio Poitier traz em seu currículo outros personagens em alguma situação de enfrentamento desse tipo de preconceito, e acabou se tornando um nome icônico não necessariamente por levantar um bandeira, mas por demonstrar através da ficção que a igualdade é um desejo e um direito de qualquer pessoa. No calor da noite tem a seu favor, além dessa noção claramente exposta, uma trilha maravilhosa, cuja canção-título é entoada por ninguém menos que Ray Charles e apresentada logo no plano de abertura juntamente com os créditos. Os versos apontam, entre outras questões, para a dificuldade de se manter o controle em determinadas situações, algo que Virgil experimenta a cada vez que precisa legitimar seu discurso, pois o que salta aos olhos da maioria de seus interlocutores é a sua melanina.


O talento do protagonista para localizar e interpretar pistas é comprovado em diversos momentos, como a passagem na qual ele percebe que um dos homens mais ricos da cidade tem alguma culpa simplesmente por encontrar o ramo de uma planta típica do lugar em seu carro. Enquanto isso, Bill e seu parceiro se mostram incrivelmente desatentos, preferindo não criar nenhum tipo de mal estar com alguém tão poderoso. A postura resoluta de Virgil é encarada como uma ofensa para ele, que formaliza todo o seu racismo ao questionar se o detetive estaria certo o tempo todo. É por meio de diálogos como esse que No calor da noite exala sua força. O longa, aliás, teve duas continuações, ambas igualmente estreladas por Poitier. No ano seguinte à sua realização, concorreu em sete categorias do Oscar, faturando as de filme, ator (que acabou indo para Steiger, um equívoco de distribuição, pois basta assistir ao filme para notar que é um coadjuvante), som, edição e roteiro adaptado. Felizmente, a Academia não é só injustiça, embora seja mais comum os membros premiarem produções imerecidamente, e o supracitado Crash - No limite é apenas um exemplo na categoria de melhor filme.

Alguns detalhes cruciais da narrativa de No calor da noite devem ser salvaguardados de quem ainda não assistiu o filme, como outras sacadas de Virgil que contribuem decisivamente para o andamento da investigação. Com seu carisma inegável, Poitier faz de seu personagem um herói totalmente plausível, que defende suas convicções, silencia comentários tacanhos, e denotam a fragilidade de pensamentos que associam tom de pele a alguma capacidade cognitiva e/ou de realização. Então, um iniciante, o falecido e respeitadíssimo crítico Roger Elbert teceu muitos elogios ao longa e o incluiu em sua lista de dez melhores filmes do ano. Para alguns, a trama ficou datada. Para este que vos escreve, segue atual até demais, visto que o passar de tanto tempo ainda não derrubou inteiramente tamanha ignomínia.

8/10

quinta-feira, 22 de maio de 2014

Mais estranho que a ficção, uma viagem além do óbvio ululante

Em sua teoria sobre o componente de ficção da literatura, Coleridge afirma que, para que o leitor possa se apropriar mais plenamente de um texto, é necessário comprar a ideia proposta pelo autor, seja ela totalmente ancorada na realidade ou não. A essa disposição em acolher todo elemento que se apresente em um texto ele chamou suspensão da descrença. Em outras palavras, tudo é permitido na literatura. Tomando emprestado esse princípio, é possível pensar em um filme como Mais estranho que a ficção (Stranger than fiction, 2006), o encontro de Marc Forster com a excelência. Por mais que o postulado de Coleridge tenha sido pensado para a literatura, ele pode ser estendido para a arte de uma forma geral. E, uma vez que se compra a ideia do filme, torna-se possível embarcar em sua viagem além do óbvio ululante, termo cunhado por Nelson Rodrigues em seu elogio da heterogeneidade. As bases do roteiro de Zach Helm estão na realidade, mas ele a ultrapassa em certa medida e revela toda uma inventividade capaz de agradar ao espectador apaixonado por premissas originais. 

A trama flagra o cotidiano de Harold Crick (Will Ferrell), um homem de vida absolutamente banal que repete suas idiossincrasias diuturnamente, numa sistematicidade que se revela como efeito colateral de uma exposição prolongada à solidão. Subitamente, ele começa a ouvir uma voz narrando os seus passos em terceira pessoa, como se ela ressoasse de um alto-falante, e que só ele é capaz de perceber. A partir daí, inicia-se um maravilhoso jogo metalinguístico, que vai se desenhando à medida que descobrimos que ele é protagonista de uma história escrita por Kay Eiffel (Emma Thompson). A voz que passa a reverberar no dia a dia de Harold pertence a ela, que decidiu matar o personagem que, na verdade, existe. O problema é que a escritora não faz a menor ideia de como conduzir a trama que criou até ao seu desfecho, ou seja, não sabe como causar a morte do protagonista que idealizou. Enquanto isso, Harold tenta encontrá-la o mais rápido possível e impedir a escrita desse fim, uma vez que a morte do personagem é também a sua morte.

Com uma sinopse tão promissora nas mãos, Forster entrega um filme esplêndido em todas as suas possibilidades, convidando seu público a viajar com ele. Na verdade, Mais estranho que a ficção representa a concretização audiovisual de uma atitude que pode ser hábito de alguns. Quem nunca se imaginou personagem de uma história fictícia e se pegou narrando os próprios passos? Para os que já fizeram isso ao menos uma vez na vida, o filme pode ganhar um sabor ainda mais delicioso, e ainda há o bônus de um elenco afiado, dando conta de seus papéis magistralmente, como se cada um deles fosse o único intérprete possível para as pessoas que passam a encarnar. A começar pelo protagonista de Ferrel: o ator costuma ser pouco criterioso em suas escolhas, mas aqui acertou em cheio. 


Além de ter aceitado um convite irrecusável, ele está magnífico na pele de um homem que sofre uma reviravolta em seu cotidiano a partir do momento em que se dá conta de que não é alguém tão comum quanto pensava. Thompson também está espetacular com ao escritora atormentada com ideias de morte, que sempre recorre à “estratégia” de matar os protagonistas de seus livros. Harold tem tudo para ser o próximo de uma lista relativamente longa de defuntos literários, por assim dizer. Ainda há espaço para um inspirado Dustin Hoffman, que dá vida a Jules, um professor universitário que ouve o relato de Harold com o pé atrás e tenta auxiliá-lo a descobrir de que história ele faz parte. O diálogo entre os dois no qual Jules revela quais livros em que Harold poderia estar que já descartou é uma das várias lufadas de bom humor arguto do filme.

O  cotidiano de Harold também é sem graça e repetitivo por conta de sua profissão. Ele é auditor da Receita Federal, e isso inclui um dia inteiro de cálculos e balanços para verificar quem está sonegando impostos, função que lhe rendeu uma excepcional habilidade em resolver contas mentalmente. É por causa de uma de suas auditorias que ele conhece Ana Pascal (Maggie Gylenhaal), a dona de uma padaria que simplesmente se recusa a pagar o percentual de impostos estipulado pelo governo. O primeiro encontro dos dois é desastroso, e ela já balança as suas estruturas com seu jeito ousado e não tão perfeitinho quanto o de Harold. Eles voltam a se encontrar mais vezes para que Harold consiga convencê-la a pagar o que deve, e isso gera um envolvimento entre ambos para além da esfera profissional, representando um renovo benvindo e necessário para o protagonista, que, devemos lembrar, tem toda a sua trajetória escrita por Kay. Ao mesmo tempo em que narra o desenrolar dos caminhos de Harold, ela é sua consciência, e compartilha com o espectador cada detalhe de seu esquadrinhamento contínuo do personagem.

Sem dúvida, Mais estranho que a ficção é daqueles filmes rico em possibilidades, e que não desperdiça nenhuma delas. Helm é feliz em não fazer de seu roteiro algo totalmente didático, e nem se dá ao trabalho, felizmente, de encontrar uma explicação plausível para a criação ficcional de Kay simplesmente exisitir. Desde o começo, somos convidados a mergulhar profundamente em uma trama que flerta com o absurdo, e essa mágica é capaz de conquistar no primeiro olhar. E, ainda que o tom impresso pelo roteiro e pela direção seja de comédia, há passagens de drama reflexivo que podem arrancar discretas lágrimas de encantamento, especialmente em uma de suas sequências finais, quando Harold se conforma em se sacrificar pela qualidade da obra de Kay. É o amor pela arte falando mais alto que vaidades ou fatores pessoais, configurando o longa como uma declaração totalmente apaixonada ao cinema e a ficção como um todo. Depois de uma sessão do filme, o espectador pode ficar se perguntando: por que eu não assisti a ele antes? De fato, é um questionamento pertinente, dada a extrema qualidade da obra, que faz brotar um largo sorriso de satisfação, expressão de quem acabou de deparar com uma das mais fabulosas apropriações do discurso metalinguístico do cinema recente.

10/10

segunda-feira, 19 de maio de 2014

Bunny Lake desapareceu: o Cinema brincando de esconde-esconde

Diversão comum entre crianças até há algum tempo, o esconde-esconde (ou pique esconde, como também é conhecida) surge carregado de suspense e angústia em Bunny Lake desapareceu (Bunny Lake is missing, 1965), de Otto Preminger. O realizador alemão incita as emoções do público ao deixar uma dúvida pairando no ar: estaria sua protagonista embebida em um delírio? A tal brincadeira é evocada a partir de certa altura da narrativa, respondendo pelo seu apogeu dramático. Até lá, Ann Lake (Carol Lynley) é apresentada como uma pacata dona de casa que acabou de se mudar para Londres junto com a filha, cujo apelido está presente no título, e Stephen (Keir Dullea), que parece o seu marido a princípio devido ao modo como se tratam mas, na verdade, é  seu irmão.  

Uma vez instalados na casa nova, Ann procura se adaptar ao modo de vida londrino, e o roteiro de John e Penelope Mortimer, que se baseia no romance de Marryam Modell, mostra os habitantes locais como ríspidos e voltados para seus próprios afazeres, especialmente os funcionários da escola em que Bunny é matriculada. Os problemas de Ann começam exatamente ali: quando vai buscar a menina ao final do primeiro dia de aula, constata, perplexa, que ninguém sabe dela e nem sequer a viu. Então, o questionamento apontado no início do texto ganha corpo: Bunny realmente existe ou não passa de fruto da imaginação de Ann? Para deixar a incerteza ainda mais acentuada, não vemos garotinha alguma, tendo a opção de crer incondicionalmente na verdadeira protagonista ou manter o pé atrás como o superintendente Newhouse (Laurence Olivier), a encarnação da austeridade.

O único a permanecer ao lado de Ann, corroborando todas as suas declarações, é Stephen, o que o leva a bater de frente com Newhouse em vários momentos. Assim, Bunny Lake desapareceu vai se revelando pródigo em tensão, quase não se utilizando de uma trilha sonora para despertar o sentimento. Numa das raras cenas musicadas, vemos um show da banda The Zombies sendo transmitido pela televisão, em uma sequência imediatamente posterior à de uma calorosa discussão ocorrida em um pub. É um uso inesperado de uma canção e apenas uma entre várias demonstrações do talento de Preminger, que também se vale de uma fotografia em elegante preto e branco para apresentar a dor de uma mãe que se vê cada vez mais desacreditada. No elenco afiado, reside outra notável qualidade do filme, que teria Jane Fonda no papel principal. Entretanto, Lynley provou ter sido um acerto de escalação do estúdio.


Para além de todos esses índices que apontam para uma obra memorável, o longa apresenta a tarimba do realizador para a encenação. Sua câmera percorre os espaços frequentados pelos personagens em planos-sequência belamente orquestrados, que amplificam a perseguição de Ann pela verdade e sua luta contra tudo e contra todos. Cada fotograma contribui para a alusão a um jogo cênico, cujas peças nunca se movimentam de maneira randômica, podendo revelar detalhes importantes do final da partida com total discrição. Daí a necessidade de olhos atentos, tal qual o competidor de uma partida de xadrez, sob pena de levar xeque-mate subitamente. Vale desconfiar de cada passo, seja de quem for. É uma pena que a crítica de sua época tenha esnobado o filme, e somente com o passar dos anos ele tenha alcançado o atual status de cult, a ponto de ser considerado a obra-prima de Preminger.

À medida que a narrativa avança, o clima de desconforto se acentua e atiça ainda mais o lado detetive do espectador, sobretudo aquele que gosta de se meter a encontrar a solução dos mistérios dos filmes bem antes de ela ser apresentada e fica anunciado sua descoberta aos companheiros de sessão, um tipo definitivamente insuportável. Muitos outros suspenses com premissa similar se alastraram no decorrer dos anos, mas este segue como um maravilhoso exemplar do gênero, importando cada minuto de sua execução para a chegada ao seu ápice dramático, o esconde-esconde propriamente dito. Portanto, não importa o que já se viu antes, porque um mesmo enredo se presta a mil desdobramentos, o que Machado de Assis já indicava quando escreveu que "O importante é a viagem, não a chegada". Sua frase é muito anterior ao Cinema, o que não nos impede de estendê-la a essa arte centenária através da qual obras memoráveis como Bunny Lake desapareceu podem surgir.

8.5/10

segunda-feira, 12 de maio de 2014

Horror e culpa misturados em Os olhos sem rosto

Inspiração clara de Pedro Almodóvar para A pele que habito (La piel que habito, 2011), Os olhos sem rosto (Les yeux sans visage, 1960), é um exemplar do cinema de horror que hipnotiza desde os seus primeiros minutos. Como os títulos francês e brasileiro entregam, o ponto de partida é uma jovem desfigurada após um acidente automobilístico causado por seu próprio pai. Respeitado cirurgião plástico, ele passa a várias tentativas de reestruturar a face da filha, procurando doadoras em potencial através de sua secretária, uma fiel escudeira que sofreu com o mesmo problema anos antes e foi operada com sucesso por ele. Assim, o realizador Georges Franju nos coloca diante de Christiane (Edith Scob), a filha; Génessier (Pierre Brasseur), o médico; e Louise (Alida Valli), a secretária. Esse trio dá o tom de uma sinfonia macabra costurada em pouco menos de 90 minutos em que a mera sugestão aflige muito mais do que o explícito. A plateia confere o rosto destruído de Christiane apenas uma vez, sob o olhar atônito de uma de suas vítimas. Pelo resto do tempo, ela usa uma máscara que lhe confere uma aparência, ao mesmo tempo, angélica e aterradora.  

Filmado em preto e branco, Os olhos sem rosto se vale de um minimalismo cênico e textual que o colocam em um patamar superior quando comparado a outros filmes de seu gênero. Até mesmo a trilha sonora é utilizada de maneira comedida, deixando que as cenas atemorizem por si só. Quando surge, vem numa cadência lenta e num timbre agudo, belamente executada e permitindo, assim, uma estranha fusão entre o terrível e o maravilhoso. Outra mescla fundamental e inesperada da história é a de culpa e frieza, traduzidas nas expressões faciais e nas atitudes de Génessier. Não se sabe exatamente em que circunstâncias aconteceu o tal acidente com Christiane, tampouco se houve intenção da parte do doutor. O que se sabe é que o sentimento de culpa o corrói e o leva a um esforço desmedido em prol da reconstrução do rosto da jovem. Louise se encarrega de ir ao centro da cidade escolher a dedo as doadoras, já que a mansão em que moram é distante de tudo. Ela se aproxima de garotas magras e de cabelos claros fingindo solicitude, e então as atrai até aquela masmorra imponente da qual nunca mais se libertam.

Génessier é um perito no que faz. Entretanto, o caso de Christiane é o mais complexo com o qual ele já deparou, o que se traduz na rejeição de seu corpo aos tecidos implantados. Assim como só a vemos com a face desfeita em uma única oportunidade, também só podemos contemplá-la com um belo rosto em uma cena, quando um dos transplantes parece ter sido bem-sucedido. Os sucessivos fracassos das cirurgias geram uma forte desesperança na jovem, que deseja a própria morte para não sofrer mais com o círculo de otimismo seguido de revés. Ela confessa tal vontade a Louise a certa altura, mas não obtém a aquiescência da secretária, sempre devotada a Génessier como alguém que jamais poderá pagar por um favor que recebeu. O interessante é saber que todo esse horror que impregna a obra não passava pela cabeça de Franju. Ele discordava da ideia de que Os olhos sem rosto fosse um filme do gênero: para o cineasta, tratava-se de uma obra angustiante. Rótulos à parte, há material de sobra na narrativa para causar ambos os sentimentos.


De todas as cenas tensas ou aflitivas filmadas por Franju, nenhuma supera a que mostra uma de suas cirurgias na filha. Tendo Louise a postos em caso de qualquer necessidade, ele começa a delinear com um lápis os contornos do rosto da jovem doadora para, em seguida, recortá-la com o bisturi. A câmera permanece estática acompanhando cada movimento e não há qualquer som diegético interferindo no ato, o que só deixa a agonia à beira do insuportável. Muitos outros filmes não iriam tão longe na sequência, interrompendo-a antes que a cirurgia chegasse à sua conclusão. É um raro momento em que o diretor vai além de somente sugerir e nos insere em um cenário que exige sangue frio, sob pena de se ver obrigado a desviar o olhar da tela. A rigidez externa de Génessier, que nunca chega a verter uma lágrima de tristeza sequer pela condição da filha encontra correspondência na face austera de Louise e contrasta com o desespero da garota, presa em seu corpo mortal e desejando o seu fim o mais rápido possível.

É possível reconhecer ainda uma atmosfera onírica em Os olhos sem rosto, sublinhada pela escolha do preto e branco. Em geral, o que se filma com essa paleta ganha um aspecto de legendário e distante de uma realidade palpável e objetiva, embora, no fundo, essa seja a condição máxima do Cinema. Mas o onirismo aqui remete à sua versão negativa: o pesadelo. Parece inevitável acabar compartilhando do sofrimento de Christiane, refém de um remorso que lhe faz tão vítima quanto o acidente. A pulsão para a morte inebria cada fotograma, e ilustra de modo tétrico o ditado popular de que "a emenda ficou pior do que o soneto". Cada vez mais, Génessier se fecha em um sentimento egoísta, anulando a possibilidade de escolha da filha. Esta, por sua vez, se decide por um extremo e, ainda que tal inclinação seja compreensível, também se mostra passível de discordância. Essa profundidade emergente de conceitos, sensações e discussões faz de Os olhos sem rosto um dos mais notáveis exemplos de uso do aterrorizante para além da simples intenção de causar medo. Um detalhe curioso é que, décadas mais tarde, Christiane é evocada em outro filme por meio da própria Scob. Em Holy motors (idem, 2012), outra personagem da atriz volta para casa após um longo dia com uma máscara verde, a serviço de uma das várias metáforas do diretor Leos Carax em uma narrativa que também trata sobre a desconstrução e a reconstrução.

8/10

quinta-feira, 1 de maio de 2014

BALANÇO MENSAL - ABRIL

Início de mês é sempre época de avaliar os filmes vistos no mês anterior, acompanhados de suas respectivas notas, além de uma relação dos melhores em algumas categorias que, para mim, são as mais relevantes. Ao longo dos 31 dias de abril, passei por diretores e países que trouxeram, em sua maioria, boas experiências cinematográficas. Entre os nomes badalados que assinaram filmes vistos por mim, estão François Ozon, que abriu os trabalhos do mês, Ari Folman, Zhang Yimou, George Lucas, Costa-Gavras e o meu primeiro Mario Bava, que começou agradando, apesar de levemente abaixo das expectativas.

Seguem abaixo os longas e curtas que compuseram meu cardápio cinéfilo de abril:

LONGAS:

1. Gotas d'água em pedras escaldantes (2000) - 7.0
2. Água quente sob uma ponte vermelha (2001) - 7.0
3. A promessa (1996) - 8.0
4. O pianista (2002) - 9.0
5. Acontece nas melhores famílias (2003) - 6.0
6. O pagamento final (1993) - 9.0
7. A bela do palco (2004) - 6.0

A bela do palco (2004)


8. O corte (2005) - 7.0
9. Terra prometida (2012) - 7.5
10. Alpha dog (2006) - 8.0
11. Star wars episódio I - A ameaça fantasma (1999) - 7.5
12. 5 centímetros por segundo (2007) - 9.5
13. Aquele querido mês de agosto (2008) - 8.0

Aquele querido mês de agosto (2008)


14. Boogie woogie (2009) - 3.0
15. O congresso futurista (2013) - 8.0
16. Os lobos maus (2013) - 8.0
17. A árvore do amor (2010) - 8.5
18. Joe (2013) - 6.0
19. 170 Hz (2011) - 8.0
20. Keoma (1976) - 8.0

Keoma (1976)

21. Piranha (1978) - 6.0
22. Elefante branco (2012) - 8.0
23. Hannah Arendt (2012) - 8.0
24. Breathe in (2013) - 4.0
25. O ciclo do pavor (1966) - 7.5
26. O nevoeiro (2007) - 9.0
27. O guerreiro silencioso (2009) - 3.0
28. Tropas estelares (1997) - 6.0
29. Ela vai (2013) - 7.0

CURTAS:

Palhaços (2011) - 4.0
Aprendizado para a morte (1943) - 8.0

MELHOR FILME: 5 centímetros por segundo
MELHOR DIRETOR: Roman Polanski, por O pianista
MELHOR ATRIZ: Barbara Sukowa, por Hannah Arendt
MELHOR ATOR: Al Pacino, por O pagamento final
MELHOR ATRIZ COADJUVANTE: Sharon Stone, por Alpha dog
MELHOR ATOR COADJUVANTE: Jérémie Renier, por Elefante branco
MELHOR ROTEIRO ORIGINAL: Pablo Trapero, por Elefante branco
MELHOR ROTEIRO ADAPTADO: David Koepp, por O pagamento final
MELHOR TRILHA SONORA: Tenmon, por 5 centímetros por segundo
MELHOR FOTOGRAFIA: Stephen H. Burum, por O pagamento final
MELHOR CENA: Wladyslaw Szpilman lutando pela sobrevivência entre os escombros em O pianista
MELHOR FINAL: 5 centímetros por segundo