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quinta-feira, 29 de agosto de 2013

Amor pleno e as eternas lacunas

Ondas vão e vem. Silêncio. Uma voz interior. Pensamentos que se misturam, sem qualquer ordenação cronológica ou espacial.  _______ Uma vida em comum, as memórias compartilhadas, a celebração dos momentos felizes, o desgaste, a separação. Tudo em Amor pleno (To the wonder, 2012), sexto filme de Terrence Malick em 39 anos, é fragmentário.


As imagens e os sons aparecem superpostos a maior parte do tempo, e essa conjunção audiovisual traz como consequência paradoxal uma série de lacunas.              A escolha por uma abordagem desordenada, por assim dizer, amplia os horizontes do espectador posto em contato com a obra, exibida na 69ª edição do Festival de Veneza.



Novamente, as opiniões foram rachadas. Há os que se rendem, há os que repelem o percurso acidentado de vivências de Neil (Ben Affleck) e Marina (Olga Kurylenko), que se casam e vão conhecer A Maravilha, famosa antonomásia para se referir ao Monte Saint-Michel, um ilhéu rochoso no qual se encontra uma abadia em homenagem a um dos únicos anjos (   ) cujo nome é revelado pela Bíblia: Michel, que traduzido, é Miguel.

Os dias se passam e a felicidade parece eterna para o casal. Mas o sopro da crise os alcança e os abala. O eterno, talvez, seja apenas um instante. (                                                                               )



A constatação da finitude das coisas é sempre dolorida. Teriam as relações um prazo de validade que só é conhecido quando se chega a ele?                                   Como lidar com essa possibilidade nefasta? O coração tapeia os homens. É balança enganosa.        Quem pode conhecê-lo de fato? Nem mesmo seu próprio dono.



Enquanto se pensa a respeito, é preciso continuar vivendo. _______________O fluxo de pensamentos ____________ não se encerra _____ jamais. Viver é pensar. (Como as ondas incidem sobre a mais robusta das rochas, as ideias, os desejos e as intenções assaltam o corpo, o coração, a mente e a alma. O antigo amor volta à tona. Um novo/velho turbilhão de emoções retorna junto com o amor) de outrora. É felicidade para sempre dessa vez? Vamos tentar outra vez? Mas... ainda falta algo.


A lacuna. Para onde quer que olhe, o homem encontra uma lacuna, um vazio, uma aresta. O que poderá aplacar a sede insistente?        Para onde o olhar se volta?    ___________________  Para si mesmo soa como uma resposta razoável. E os céus, o que dizem sobre a questão?

(                                                 ) (      )  (                                             )


A fé. O crer sem ver. O diálogo com o invisível. O relacionamento íntimo e sincero com quem não se pode apalpar. Quando se anda por vista, não se anda por fé. Esqueça as leituras fechadas. Divagação, teu nome é ser humano.

A palavra. Em nossos lábios, nossas próprias palavras nunca são o bastante. Parecem nunca cumprir de fato o objetivo para o qual foram direcionadas.                           E a vida é vivida, em grande parte, de tentativas de esclarecer o que se quis dizer e, na verdade, não se disse.     De arrependimentos pelo que se disse. De arrependimentos pelo que não se disse.              Onde não cabe a palavra, resta o olhar, o gesto. Onde só cabe o olhar, resta a contemplação.

9/10


segunda-feira, 26 de agosto de 2013

Três homens em conflito, o desfecho de uma trilogia cheia de balas

Um tesouro, três interessados, três pedaços de informação. Conjugando esses elementos básicos, Sergio Leone dirigiu Três homens em conflito (Il buono, il brutto, il cattivo, 1966), derradeiro exemplar da Trilogia dos Dólares (ou do Homem sem Nome). O mais longo dos filmes, esse aqui traz novamente o personagem do pistoleiro, dessa vez, chamado Blondie (Clint Eastwood), que está de olho em uma alta quantia em dinheiro, assim como Angel Eyes (Lee Van Cleef) e Tuco (Eli Wallach). Cada um deles guarda uma informação a respeito da localização do tesouro, e precisam de ajuda mútua para colocar as mãos na quantia que pode resolver seus problemas financeiros – ao menos, por um longo tempo. O problema do surge da total falta disposição dos três em dividi-lo, sendo justamente esse o fator de conflito mencionado no título nacional da obra. Resta-lhes, então, colocar em prática toda a sagacidade de que dispõem e reunir os dados o mais rápido possível para enriquecer subitamente. 

Como nos longas anteriores da Trilogia, a premissa rasa é a deixa para uma longa competição balística, durante a qual o famoso ditado “Cada um por si e Deus por todos” é levado ao pé da letra. Confiar é uma palavra que não existe no vocabulário desses homens, que são apresentados um por vez e recebem os codinomes de Bom, Feio e Malvado, traduções do bom italiano que consta do título original do faroeste. Aos poucos, eles vão justificando essas alcunhas com suas atitudes e escrevendo os próprios destinos à custa de muitos tiros disparados para todos os lados. O espectador, por sua vez, pode acabar simpatizando com um deles, por mais tortas que sejam suas condutas. Aliás, que ninguém se engane: o Bom não é apenas bom, o Feio não é apenas feio e o Malvado não é apenas malvado. Leone sabe trabalhar com nuances e produzir certas quebras de expectativas, o que afasta Três homens em conflito de uma atmosfera de previsibilidade. Na busca pelo tesouro, eles podem surpreender a qualquer momento, para o bem e para o mal.

O tal tesouro compreende 200 mil dólares roubados, soma bastante superior àquelas pelas quais os protagonistas de Por um punhado de dólares (Per um pugno de dollari, 1964) e Por uns dólares a mais (Per qualche dollaro in più, 1965) lutavam ardorosamente. Cada qual com a sua estratégia, Blondie, Angle Eyes e Tuco se exercitam na arte da trapaça, julgando-se sempre um mais esperto que os outros. Essa pretensão “intelectual”, por assim dizer, rende situações de humor genuíno, apresentado por vias irônicas. São instantes de alívio cômico em meio à saraivada de projéteis que ecoa na tela, e o trio faz rir se mantendo sério. E as dificuldades que eles enfrentam nessa busca obstinada e frenética incluem campos de prisioneiros e o transcorrer da Guerra Civil Americana, cuja eclosão se deu no longínquo ano de 1861. Sem falar que os três precisam continuar vivos, afinal, são partes integrantes do valioso quebra-cabeça rumo aos milhares de dólares. A expressão popular “sinuca de bico”, usada para descrever situações em que há duas escolhas a serem feitas e ambas podem ser prejudiciais de alguma forma, encontra ilustração perfeita aqui.


Dos três, o mais cativante, talvez, seja Blondie, com sua predisposição maior a atos bondosos, por mais que esteja tão interessado no dinheiro quanto os demais. Na verdade, nunca se sabe o seu nome verdadeiro, já que Blondie é um apelido criado por Tuco devido à sua cor de cabelo – traduzido, o nome significa “louro”. Seu intérprete, Eastwood, é o único presente em todos os filmes da Trilogia, o que revela a predileção de Leone pela sua aparência de pouquíssimos amigos. O cineasta, aliás, foi categórico ao se referir ao ator: “Eu gosto de Clint Eastwood porque ele tem somente duas expressões faciais: uma com o chapéu e outra sem ele”. De fato, suas performances na Trilogia se resumem a essas expressões dicotômicas, o que está longe de querer dizer que se trata de um ator limitado. Muito pelo contrário: naquele Oeste selvagem, cai muito bem ser econômico em emoções, até mesmo por uma questão de sobrevivência mais efetiva.

Comparado aos longas predecessores, Três homens em conflito é o que mais tem ares de superprodução, a começar pelo fato de durar 161 minutos, bem mais tempo que os outros. Leone também dispôs de um orçamento mais polpudo para filmar esse desfecho, investindo em uma abordagem que incorpora acontecimentos históricos à jornada fictícia dos pistoleiros e em uma infraestrutura mais complexa, o que inclui também uma grande quantidade de figurantes.  E, em meio aos cenários épicos, o roteiro, também escrito pelo realizador em parceria com Luciano Vincenzoni, que colaborou pela primeira vez na Trilogia, assinala que o universo do faroeste é habitado por indivíduos que dependem muito mais da sorte do que da honra ou da benevolência. Ainda assim, é interessante observar que os três homens mantêm uma relação de interdependência absoluta, obviamente, por conta do interesse no tesouro, embora se possam vislumbrar laivos de uma certa amizade, ainda que em um sentido heterodoxo. O resultado final de Três homens em conflito é um filme um tanto extenuante, levemente inferior a Por uns dólares a mais – o melhor da Trilogia -, mas capaz de conquistar mesmo que não é entusiasta do western spaghetti.

7/10

sexta-feira, 23 de agosto de 2013

Tabu e o bom uso da metalinguagem

Lá se vão mais de 110 anos desde que o cinematógrafo foi inventado. De lá para cá, ele ganhou um apelido carinhoso e passou a se chamar simplesmente Cinema, até mesmo para os não íntimos. Muitas histórias já foram contadas, muitos gêneros visitados, explorados e, ao que parece, esgotados. Depois de tanto tempo de existência, teria ainda o Cinema a capacidade de arrebatar o seu espectador com uma nova história sobre um velho tema? A resposta talvez possa ser encontrada em Tabu (idem, 2012), joia portuguesa dirigida por Miguel Gomes. O realizador de 41 anos, uma criança perto da idade do Cinema, soube se apropriar do discurso metalinguístico de forma apaixonante, prestando sua homenagem a essa arte que, à época de seu surgimento, foi encarada como passageira.

Não há nada de mirabolante na trama de Tabu. Ao contrário: ela pode ser resumida em poucas linhas, que sugerem apenas uma parte do percurso empreendido por seus personagens. Tudo gira em torno de Aurora (Laura Soveral), uma idosa dada a rompantes de personalidade que mora com Santa (Isabel Muñoz Cardoso), sua empregada nascida em Cabo Verde. A vizinha do apartamento em frente, Pilar (Teresa Madruga), é a única amiga que Aurora conserva. Paciente, a dona de casa lhe faz companhia e ouve suas constantes lamúrias sobre a vida com o dinheiro contado e a distância da filha, que mora em outro país. As três parecem ter apenas uma às outras e, se Aurora não se conforma com sua situação atual, Santa e Pilar adotaram uma postura resignada diante da vida. Assim, a senhora lamentosa se reafirma como o centro da narrativa, que se bifurca em dois grandes momentos.

Inicialmente, as personagens vivenciam os dias atuais, que transcorrem sem grandes sobressaltos ou novidades. Aurora gosta de frequentar o bingo, ao qual Santa a acompanha contra a vontade, por saber que a filha de sua patroa já recomendou várias vezes que não a deixasse gastar o dinheiro que envia em jogos de azar. Mas Aurora é impossível e arrasta Santa consigo. Somente Pilar consegue colocar algum juízo em sua cabeça, usando seu tom de voz macia e monocórdia para lhe dar conselhos e levá-la de volta para casa depois de mais uma tarde de jogo malsucedida. O passar dos anos fez de Aurora um baú de memórias que, de tempos em tempos, vêm à tona. É a essas memórias que Pilar e Santa acessam na segunda parte de Tabu, quando o seu título começa a fazer sentido. Duplamente, aliás. 

Ventura (Henrique Espírito Santo), um antigo amante de Aurora, surge nessa segunda parte, trazendo consigo o passado de amor intenso vivido por ela junto a ele. Através das palavras de Ventura, esses anos distantes vão se materializando na tela, no mesmo preto e branco com que ocorrem as (poucas) ações do presente. Os dois se amaram em circunstâncias pouco favoráveis, que, em vez de soterrarem o sentimento que nasceu em seus corações, só fizeram aumentá-lo. Quando jovem, Aurora era uma mulher lindíssima, de olhar penetrante, longos cabelos negros e pele alva. Ventura, um homem destemido e altivo, apegado ao desafio e à novidade. Ao deixarem o amor um pelo outro falar mais alto, eles acabaram por transgredir algumas das regras do código que regia seu tempo e se tornaram, por assim dizer, amantes fora-da-lei, condenados por amar. Vítimas da própria paixão, a tradução mais próxima do grego pathos, que inunda Tabu e o transforma irremediavelmente em filme de amor. A duplicidade contida no título, então, vai sendo revelada: o romance dos dois era uma questão muito delicada, sobre a qual Aurora, na velhice, não falava abertamente, e floresceu no sopé do monte Tabu, situado no continente africano.



A demarcação das duas partes do longa-metragem é feita também pelo uso de títulos distintos para cada uma. O passado, no qual boa parte da trama se passa, é encarado como idílico e, sobretudo, positivo. Há que se lembrar que esse olhar advém da perspectiva de Ventura, que lamenta os rumos que o conduziram ao presente e se volta para os anos de sua juventude como quem preserva um tesouro residente apenas na imaginação, totalmente livre para reescrever os acontecimentos com boas doses de edulcorantes. Nesse sentido, Tabu é, a um só tempo, um filme sobre a memória e o Cinema, que Gomes une através de uma ponte. No fim das contas, é uma união tão íntima que ambos se confundem. A história contada em Tabu é como tantas outras. É como a realização de um filme sobre qualquer um de nós, que costumamos dizer que nossas próprias vidas ou de outrem daria um filme. Porém, se há ausência de novidade no conteúdo, a forma tem seu componente de novidade e se mostra capaz de enredar o público afeito à construção paciente de enredos e a sutis ironias que se distribuem nos dois tempos justapostos da narrativa.

Tabu está impregnado de um tom elegíaco, que lamenta o atual estado das coisas e celebra os dias em que se era feliz e se tinha consciência plena dessa condição. O prólogo, que apresenta uma anedota sobre um explorador que se deixa devorar por um crocodilo e passa a sê-lo e espiar com seus olhos grandes e intimidadores. Trata-se de uma síntese do que vem a seguir, narrada com sutileza e um certo carinho, afinal de contas, a coita amorosa é um sentimento que, facilmente, desperta a alteridade de quem, como o espectador do filme, é testemunha ocular dos acontecimentos e, de certa forma, cúmplice dos amantes desventurados e eclipsados, numa desagradável antítese dos seus nomes. Os gêneros se misturam nessa história bela e triste: aventura, desejo, sorrisos, emoções, violência e outros ingredientes típicos de cada um têm vez e se acoplam de modo orgânico. Tabu é, antes de mais nada, uma ode ao Cinema, arte de vida longa que ainda tem muitos anos para celebrar.

10/10

segunda-feira, 19 de agosto de 2013

Intocáveis, uma adorável ode à amizade

Corações sensíveis certamente aproveitarão muito melhor uma sessão de Intocáveis (Intouchables, 2011), segundo longa-metragem da dupla Olivier Nakache e Eric Toledano que se tornou uma das grandes bilheterias francesas de 2011. Sua trama é centrada nas figuras carismáticas de Philippe (François Cluzet) e Driss (Omar Sy), típicos sujeitos de personalidades antagônicas que se aproximam cada vez mais à medida que convivem. Na primeira sequência do filme, eles estão a toda velocidade pelas estradas parisienses madrugada adentro, sem medo de serem felizes. No volante, Driss comanda a corrida desenfreada, até que os policiais rodoviários passam a ficar no seu encalço, o que faz os dois terem uma brilhante ideia – que só é esclarecida como simulação pouco depois. Ao serem parados pelas autoridades, Driss explica que Philippe está tendo um derrame cerebral, daí o automóvel a tantos quilômetros por hora. Convencidos, os policiais passam de seus acusadores a seus escoltadores, fazendo de Driss o ganhador da aposta que havia feito com Philippe antes de parar o carro.  

À essa primeira sequência, seguem-se vários outros momentos da história desses dois amigos, contados de modo retroativo. Driss e Philippe se conhecem depois que o primeiro vai à casa do segundo – um milionário – para pedir uma assinatura que lhe garanta mais um período de seguro desemprego. Philippe está em uma série de entrevistas para contratar um novo enfermeiro que o acompanhe em jornada integral, algo estritamente necessário, dada a sua condição de tetraplégico. Ao irromper na sala de onde Philippe convoca os candidatos, Driss demonstra toda a sua audácia diante do futuro amigo, dizendo-se cansado de esperar pela sua vez na fila. E ainda encontra tempo para flertar com a assistente de Philippe, uma ruiva estonteante, diante da qual é fácil ficar embasbacado. Nasce ali o primeiro contato entre os protagonistas, que, mais tarde, serão unha e carne. 

É certo que Intocáveis lança mão de alguns lugares comuns na construção de sua narrativa, sobretudo por colocar dois homens que não têm nada em comum e, aos poucos, vão se tornando amigos inseparáveis. Essa premissa é recorrente no cinema, com leves variações – às vezes, a birra inicial é entre um homem e uma mulher, que tempos depois, estarão irremediavelmente apaixonados. Entretanto, os clichês, por si só, não devem afugentar o espectador nesse filme. Nakache e Toledano sabem utilizá-los a favor da história, e a conduzem de modo irresistível, celebrando as diferenças de personalidade que temperam tão bem as relações interpessoais. E o melhor de tudo é que eles sabem dirigir as sequências entre os personagens com muita sensibilidade, um elemento primordial no trato com o outro. Pouco a pouco, Driss e Philippe vão reconhecendo a importância um do outro, e ultrapassando aquele velho chavão do abismo social que acentua diferenças. Tanto um quanto o outro tem várias de suas resistências quebradas pela amizade, experimentando momentos e sensações que lhes tocam de alguma forma, contrariando cada vez mais o título da obra.


Nesse sentido, Intocáveis é um filme bastante abrangente, que cativa nos seus primeiros instantes e discute valores fundamentais para uma boa convivência e um relacionamento amigável duradouro. No seu transcorrer, o filme traz à tona carinho, respeito, admiração, cuidado, apreço, bondade, sinceridade e tantas outras virtudes que, vez por outra, parecem confinadas a um espaço-tempo distante dos nossos dias. E todos esses sentimentos vêm entremeados de boas doses de riso, o que torna o longa uma eficiente comédia dramática sobre a importância de se permitir ter sensações. Para além de qualquer interdição milenarmente imposta ao relacionamento de amizade entre dois homens, Intocáveis assegura que é possível desenvolver o amor fraternal entre dois amigos, sem qualquer receio ou vergonha. Amigos devem se livrar de todas as bobagens que possam amarrar seu contato. Por que não abraçar e beijar quando se tem vontade? Por que deixar passar a oportunidade de declarar ao seu amigo o quanto ele é importante para você, seja com palavras, seja com gestos? Por que cultivar uma “distância de segurança” toda vez que você encontra seu bom amigo para evitar “suspeitas” da parte dele?

A mensagem do longa de Nakache e Toledano é simples e extremamente atual, não se restringindo apenas ao campo da amizade: ela se desdobra e encampa diversos tipos de relações inter e intrapessoais. E quem consegue resistir ao carisma de Cluzet e Sy? Os dois conquistaram uma maravilhosa empatia em cena e entregam interpretações preciosas, colocando seus corações em cada sequência em que contracenam. As regras de etiqueta de Philippe vão sucumbindo aos poucos à invasão de efusividade proposta por Driss, que, por sua vez, também vai exercitando o seu olhar para prazeres mais sofisticados. Boas amizades são assim: uma ponte para o mundo. Você apresenta o seu mundo a mim e eu apresento o meu mundo a você. Eventuais discordâncias, e até algumas discussões, fazem parte desse caminho. O importante é nunca perder de vista aqueles valores tão importantes comentados anteriormente. São eles que sedimentam o contato e tornam a presença do outro tão desejada. Pontuado por momentos adoráveis, Intocáveis renova a tese de que bons amigos valem ouro – sem se ater a questões étnicas, que até caberiam na história – e convida a deixar todas as reservas e simplesmente sentir.

10/10

quarta-feira, 7 de agosto de 2013

O aspecto imperfeito da humanidade em Ferrugem e osso

Inexplicavelmente esnobada pelo Oscar, Marion Cotillard é a alma que preenche cada espaço de Ferrugem e osso (De rouille e d’os, 2012), drama assinado por Jacques Audiard. Realizador de O profeta (Un prophète, 2009), ele entrega mais uma história em que a intensidade se faz presente, capaz de comover e surpreender ao longo de seu desenvolvimento. Cotillard é Stéphanie, uma treinadora de baleias orca devotada ao seu trabalho e de poucos amigos. Quase sempre séria, ela vive um relacionamento conturbado como um namorado que está longe de oferecer o carinho de que alguém necessita, e seu caminho se cruza com o de Alain (Matthias Schoenaerts). Ele veio do norte da França e tem a árdua tarefa de criar o filho pequeno. Atualmente morando com a irmã, procura um emprego do qual possa tirar o seu sustento, e seu primeiro contato com Stéphanie não é dos mais felizes.  

Porém, depois de um início um tanto desastrado, não tarda para que os dois vão se aproximando mais e mais, até que surja entre eles algo além da amizade e aquém da paixão – ao menos, os dois insistem em afirmar para si mesmos e um para o outro que esse é o caso de ambos. Posteriormente, um acontecimento trágico se interpõe no caminho que Stéphanie e Alain vinham trilhando juntos, e envolve justamente a profissão que ela tanto ama. O fato despedaça a treinadora, inclusive literalmente, e inaugura uma nova condição em sua vida, na qual ela ainda pode contar com a presença de Alain, mas permeada por dificuldades, já que o mundo não foi pensado para alguém naquele estado. A essa altura do filme, Audiard já deu provas de que não está interessado em simplesmente comover seu público, mas em enxergar toda a humanidade dos personagens, sobretudo no aspecto imperfeito. Stéphanie e Alain não são meras vítimas das circunstâncias: os dois apresentam condutas proativas, indo à luta com as armas que encontram.

É justamente esse importante detalhe que evita o maniqueísmo da narrativa e permite que os protagonistas entreguem desempenhos memoráveis, sobretudo Cotillard. Trata-se de um papel complexo, marcado por nuances emocionais que seriam uma armadilha interpretativa para qualquer atriz, e ela consegue se desvencilhar de qualquer centelha de sentimentalismo barato – ainda que temporariamente privada de sua liberdade para ir e vir, Stéphanie jamais assume uma postura de coitadinha. E uma das cenas mais belas traz somente ela e a baleia responsável pelo seu acidente. De pé em frente ao tanque no qual fica o cetáceo, ela demonstra que seu amor pelo animal continua o mesmo e, simultaneamente, lamenta dentro de si por saber que não poderá retornar ao trabalho que tanto lhe dava alegria. A emoção da cena é potencializada pela trilha sonora, uma incumbência de Alexandre Desplat, parisiense que também cuidou das canções de filmes como O discurso do rei (The king’s speech, 2010) e Argo (idem, 2012). Longe de soarem apelativas, as melodias tristes invadem essa e outras passagens, imergindo o espectador em um clima melancólico que contribui para entender em parte a dor dos protagonistas.  


Por sua vez, Schoenaerts ainda é um rosto semidesconhecido que empresta frescor e vigor à figura de Alain, um homem que tende a rompantes de fúria e é apaixonado pelo filho, indo de um polo a outro em questão de minutos. Seu aspecto físico robusto contrasta com seu interior quebrantado pelos reveses que já enfrentou e sua relação com Stéphanie é um renovo em seu estado combalido. O ator está longe de ser um estreante: sua filmografia já acumula mais de quarenta títulos anteriores a Ferrugem e osso, sendo A espiã (Black book, 2006) um dos mais famosos. Também depõe a seu favor e notável química alcançada com Cotillard, traduzida em olhares que se encontram e no prazer que seus personagens experimentam juntos, inicialmente em um relacionamento movido a sexo e, em um segundo momento, na procura por laços mais estáveis e duradouros. Não lhe falta naturalidade em cada cena, incluindo a sequência em que a nudez do personagem se revela, quando ele conduz Stéphanie ao banheiro após mais uma noite lado a lado.

A verdade é que Ferrugem e osso vem fazer companhia a bons melodramas recentes, entre os quais Amantes (Two lovers, 2008). Seu painel de emoções complexas transmite a dificuldade que o ser humano tem de acertar – a tendência ao erro é inerente à nossa natureza. Nesse sentido, o longa de Audiard é um atestado da imperfeição que atravessa a cada pessoa, e com Stéphanie e Alain não haveria de ser diferente. Todavia, seu roteiro, escrito em parceria com Thomas Bidegain a partir do romance de Craig Davidson, passa longe de exaltar ou justificar essa condição errante, ao mesmo tempo em que não oferece brechas para condenar os personagens. O juízo de valor, com base em seu arcabouço moral particular, cabe ao espectador, uma característica habitual de boas obras de ficção que dialogam plenamente com a realidade. O cotidiano em que Stéphanie e Alain se encontram mergulhados é cruel, mas, juntos, eles enxergam a beleza de um amor que nasce como ganga bruta, para além de qualquer floreio escapista e injeta força e ânimo às suas almas desalentadas. 

9/10

segunda-feira, 5 de agosto de 2013

BALANÇO MENSAL - JULHO

Início de mês é tempo de mais um balanço dos filmes vistos no mês anterior. Ao longo dos 31 dias de julho, pude ampliar meu currículo cinéfilo assistindo a 35 filmes, os quais me despertaram as reações mais diversas, segundo o desenvolvimento de suas propostas.

O mês trouxe a terceira nota 10 do ano, concedida a Tabu, experiência metalinguística e saudosista de Miguel Gomes, proveniente do cinema português, que também marcou presença com Espelho mágico, este nem tão atraente assim, sobretudo pelo formalismo excessivo de Manoel de Oliveira, seu realizador. Houve também alguns filmes dignos de 9, como o irresistível Duas garotas românticas, musical de Jacques Demy que embriaga de amor da primeira à última cena. Dois destinos, pérola italiana, também mereceu essa nota, oferecendo uma comovente história de reaproximação entre irmãos distantes. É mais uma prova de que seu diretor, Valerio Zurlini, é talentoso na abordagem de dramas humanos, sempre dosando a sensibilidade.

No outro extremo, surgiu um filme digno de nota zero: Tony Manero, de Pablo Larraín, tem tudo contra si. Do protagonista intratável à fotografia desleixada, passando pelo roteiro hiper mal escrito, não há o que se possa salvar nesse representante da cinematografia chilena. Outro filme péssimo visto em julho foi A erva do rato. Meu terceiro Julio Bressane é um poderoso sonífero que desperdiça o talento de Alessandra Negrini e Selton Mello em diálogos cheios de empáfia e pretensão. Nem tão cedo pretendo dar outra chance ao diretor. 

Sem mais delongas, segue a relação do completa dos filmes do mês, com breves comentários e notas. Logo depois, os melhores em categorias que considero importantes.

INÉDITOS:

LONGAS:

1. Planeta Terror (2007) - Orgulho trash! Nota: 8.0

2. Duas garotas românticas (1967) - Sua atmosfera genial e irresistível embriaga de amor, o sentimento mais delicioso que existe, e suas canções pulsam a inquietude dos que o têm dentro de si - mas ainda não encontraram o destinatário ideal para entregá-lo. Nota: 9.0  
Duas garotas românticas (1967)

3. Nathalie X (2003) - Restitui o equilíbrio inicial perdido ao longo da narrativa de maneira óbvia. Seus intérpretes enfastiados complicam ainda mais a situação, restando pouco além das belezas distintas de Ardant e Béart. Nota: 6.0

4. Os amantes passageiros (2013) - É Almodóvar afetadíssimo, retornando às origens escrachadas de seu cinema. O festival de piadas de duplo sentido nem sempre funciona.

5. Tabu (2012) - Navega pelas águas do melodrama metalinguístico e presenteia com gentilezas, emoções e ironias. Um magnífico achado sobre a persistência da memória em todos os sentidos. Nota: 10.0

6. Tiranossauro (2011) - Considine põe sentimentos paradoxais em rota de colisão e atinge o âmago de seu espectador com sequências e diálogos perturbadores. Não lhe faltam ousadia e intensidade. Nota: 8.5

7. Entre irmãos (2009) - Faltam-lhe viço e intensidade no desenrolar de uma trama de potencial explosivo sobre o peso dos laços amorosos e familiares. O trio central parece fadado ao piloto automático e a empatia com seus dramas é dificultada. Nota: 6.5

8. A espuma dos dias (2013) - Um elogio surrealista - portanto, imprevisível - ao instinto da preservação. Nota: 9.0

9. Espelho mágico (2005) - O excessivo rigor formal do cineasta depõe, em parte, contra o filme, uma comédia discretíssima sobre aproveitar um ensejo vantajoso e lucrar sobre a fé alheia - nem tão ingênua assim. 
Espelho mágico (2005)

10. Irina Palm (2007) - Até onde vai a disposição de um indivíduo para o sacrifício? Garbarski investe em uma abordagem naturalista para tentar responder a essa pergunta e deixa Faithfull reinar a cada cena, unindo comoção e perplexidade. Nota: 7.0

11. O iluminado (1980) - O verdadeiro terror está concentrado na meia hora final, que exibe um protagonista tenso e arisco, sem enxergar mais um palmo a frente do nariz. A força da imagem e do som a serviço do desespero contagiante. Nota: 8.0 

12. O que resta do tempo (2005) - Elia Suleiman pratica um irritante Cinema especular. Andando em círculos, seu recorte autobiográfico acumula cenas que resultam em indiferença. Nota: 5.0

13. A arte da conquista (2011) - Flagra o caos mental da paixão em uma abordagem formulaica, da qual se destacam alguns momentos singelos e passíveis de identificação. Highmore está ótimo como o garoto inseguro, deslocado e algo misantropo.

14. A erva do rato (2008) - Um eficiente aliado contra a insônia. Nota: 3.0

15. A regra do jogo (1939) - Renoir investe no tom jocoso para arquitetar encontros e desencontros no jogo amoral dos burgueses. Não faltam situações e diálogos hilariamente inspirados. Nota: 8.5  
A regra do jogo (1939)

16. Piquenique na montanha misteriosa (1975) - Transita entre o onírico e o letárgico para falar de medos e incertezas. O visual e o som sibilante da flauta também são personagens da história. Nota: 7.0

17. Mal dos trópicos (2004) - A tentativa de estabelecer contato com o intangível e, assim, encontrar alívio para um espírito inquieto e apegado a memórias. Oferece circuitos abertos em vez de quadrados perfeitos. Nota: 8.5

18. O piano (1993) - Direção esmerada, atores muito à vontade em seus papéis - incluindo a então criança Anna Paquin - e uma trilha sonora incidental apaixonante fazem deste um filme digno de ser lembrado. Nota: 8.0

19. Delta (2008) - As escolhas estéticas do diretor quase sempre chamam mais a atenção do que a trama em si. Em meio a tantas supressões de palavras, tem-se uma análise discreta do nascimento de um sentimento indevido. Nota: 7.0

20. Bling ring: a gangue de Hollywood (2013) - A fixação doentia pelas celebridades não pelo que são, mas pelo que ostentam, como uma tentativa de suprir um enorme vácuo interior. Os consumistas e frívolos piram... Nota: 8.0

21. Boy meets girl (1984) - A balada triste dos corpos em aproximação parcialmente diluída em divagações. Nota: 7.5

22. Dois destinos (1962) - Aborda os laços fraternos de maneira incrivelmente tocante, amparado pelas interpretações devastadoras de Mastroianni e Perrin. Da terra dos afetos explícitos, não se poderia esperar por menos. Nota: 9.0  
Dois destinos (1962)

23. Império dos sonhos (2006) - A esquizofrenia não pode ser compartilhada. Nota: 4.0

24. Extermínio (2002) - Mantém o fôlego até a última cena e prega vários sustos. Tensão e realismo muito bem trabalhados se somam a personagens pelos quais vale a pena torcer. Nota: 8.0

25. Tony Manero (2008)  - Um equívoco pleno: do protagonista intragável à fotografia esmaecida, passando pelo roteiro horroroso, também se afirma redundantemente como um desperdício de tempo e atenção. Nota: 0.0

26. Código desconhecido (2000) - A tentativa de estabelecer conexão com os personagens é constante, mas Haneke não parece minimamente disposto a permitir essa possibilidade. Decorre disso um filme enfadonho e sem rumo. Nota: 5.0

27. Algumas horas de primavera (2012) - Sabe aquele nó na garganta que emudece na hora em que mais deveríamos dizer? É esse nó que fere de morte. Nota: 9.5

28. Acossado (1960) - Acelerado e irreverente, promove um revezamento entre angústia e riso, além de se impor com uma sintaxe cinematográfica genuinamente autoral. Uma ode ao movimento. Nota: 7.0

29. O Homem de Aço (2013) - Filme de herói genérico que tenta impressionar o tempo inteiro com efeitos visuais, enquanto vai descuidando da profundidade da história. É sessão de cinema à qual se vai acompanhado de ótimos amigos.

30. Antes que o diabo saiba que você está morto (2007) - Argumento tenso e extremamente bem trabalhado. Esqueça o apego aos laços familiares: por aqui, só há espaço para murros no estômago e decisões amorais.  
Antes que o diabo saiba que você está morto (2007)

31. O vento da noite (1999) - Os velhos problemas no amor que se revelam insolúveis para alguns inábeis. Nota: 8.0

32. Era uma vez um pai (1942) - A beleza e a singeleza dos laços que unem pai e filho captados com a paciência e a sensibilidade de um realizador atento aos pequenos acontecimentos. É capaz de despertar emoções profundas e discretas. Nota: 8.0

33. Crimes em Wonderland (2003) - As idas e vindas no tempo dinamizam a narrativa e renovam o interesse, mas não há muito mais a se destacar nesta trama de entorpecimento. Nota: 6.5 

34. O grande Lebowski (1998) - Um desfile de nonsense e digressões consecutivos que aponta para o absurdo da vida. Inventivo e hilário ao seu modo, traz um dos personagens mais carismáticos de todos os tempos: O Cara.

35. Sentidos do amor (2011) - Proposta insólita e bem realizada sobre um mundo cada vez mais caótico e, portanto, sem sentido. A cada nova perda dos personagens, cresce a angústia por um presente sem saída.

CURTAS:

Quase abduzido (2006) - Simpático e despretensioso, mantém a coerência da Pixar em suas propostas. Nada espetacular, mas eficiente. Nota: 7.0

Pixels (2010) - Uma provocação inventiva ao atual condicionamento humano de enxergar o mundo por telas. Nota: 8.0

Seu amigo, o rato (2007) - Ratos continuam sendo intragáveis depois desse curta, mas as curiosidades distribuídas nele fazem estender a concepção sobre esses roedores com uma mistura bacana de recursos gráficos e visuais. Nota: 7.0

La luna (2011) - Singeleza e doçura são irresistíveis separadamente. Quando se unem, o resultado é ainda melhor, e eis aqui um lindo exemplo. Nota: 7.0

Cine Holiúdy - O astista contra o Caba do Mal (2004) - Uma certa dose de cara de pau sempre vem a calhar. É o caso do nosso amigo multimídia aqui, disposto a tudo para não perder seu público apaixonado (?) pelo Cinema. Nota: 7.0

REVISTO:

Os excêntricos Tenenbaums (2001) - O óbvio e o bizarro sob as lentes policromáticas de Wes Anderson. Uma genial fábula de esquisitices adoráveis. Nota: 10.0

MELHOR FILME: Tabu
PIOR FILME: Tony Manero
MELHOR DIRETOR: Jacques Demy, por Duas garotas românticas
MELHOR ATRIZ: Catherine Deneuve, por Duas garotas românticas
MELHOR ATOR: Philip Seymour Hoffman, por Antes que o diabo saiba que você está morto
MELHOR ATRIZ COADJUVANTE: Olivia Colman, por Tiranossauro
MELHOR ATOR COADJUVANTE: John Goodman, por O grande Lebowski
MELHOR ROTEIRO ORIGINAL: Miguel Gomes e Mariana Ricardo, por Tabu
MELHOR ROTEIRO ADAPTADO: Luc Bossi, por A espuma dos dias
MELHOR FOTOGRAFIA: Rui Poças, por Tabu
MELHOR TRILHA SONORA: Michel Legrand, por Duas garotas românticas
MELHOR DIREÇÃO DE ARTE: Pierre Renson, por A espuma dos dias
MELHOR CENA: O passeio de Colin e Chlöé pelos céus de Paris em A espuma dos dias
MELHOR FINAL: Dois destinos

MENÇÃO HONROSA: Algumas horas de primavera
MENÇÃO DESONROSA: A erva do rato
HORS CONCOURS: Os excêntricos Tenenbaums