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terça-feira, 7 de dezembro de 2010

“Horas de verão” e a árdua tarefa de dar um fim às coisas

Carregado de referências ao universo da arte, Horas de verão (2008) é um filme para ser sentido em sua plenitude. Dirigido por Olivier Assayas (de Clean e Traição em Hong Kong), o longa é centrado numa história como a de tantos outros: a de uma família reunida para lavagem eventual de roupa suja. O motivo da reunião também não é inovador: o aniversário de 75 anos da matriarca, Hélène, vivida com propriedade por Edith Scob. Ali, três irmãos que vivem em lugares diferentes do globo irão se reencontrar, para celebrar essa data tão emblemática.

Frédéric (Charles Bering) é o mais velho dos irmãos. Ele é um economista que trabalha como professor universitário, e o único que continua vivendo em Paris. Seu temperamento é prático, em parte um reflexo claro de sua formação em uma ciência exata. Como mais velho, tem reclamada para si a posição de timoneiro do barco que conduz os irmãos, mas não parece demonstrar muita inclinação para essa função. Adrienne (Juliette Binoche) é a irmã do meio, e a única mulher. Ela vive em Nova York há alguns anos, onde desenvolveu uma sólida carreira como designer. É cheia de vida e não tem grande apego ao comportamento tradicionalista da mãe. Sua personalidade solar se delineia, entre outras coisas, por seus cabelos louros e sedosos. Jérémie (Jérémie Renier), o caçula, por sua vez, é um empresário jovem que foi morar na China, e que está perfeitamente estabelecido e satisfeito com a fase da vida em que se encontra. Apesar de ter pouca idade, ele exibe convicção e maturidade para lidar com suas escolhas.
O grande acontecimento da vida dos irmãos, porém, dá-se logo depois da festa de aniversário da mãe. Eles passam dois dias na casa de campo da família para celebrar o aniversário de Hélène, e vão embora de volta para suas rotinas. Mas, subitamente, a matriarca morre, obrigando Adrienne e Jérémie a viajarem de novo para Paris, com a finalidade de enterrar a mãe e cuidar de questões de ordem burocrática, como a partilha dos bens deixados por ela. Hélène era uma grande colecionadora da obra de Paul Berthier, um pintor pouco conhecido fora do contexto de especialistas em arte. A questão que justifica a presença dos irmãos ali é: o que fazer com tantos quadros e pequenas esculturas que foram deixadas pela mãe deles? Nenhum dos três parece muito interessados em se apropriar da obra.
Horas de verão (L’heure d’étè, no original) transcorre, então, num ritmo semelhante ao do trabalho de um artista paciente. O filme está debruçado exatamente sobre a dúvida dos três irmãos em lidar com o que, para eles, parece um amontoado de quinquilharias. A lavagem de roupa suja, de que se falou anteriormente, tinha sido muito suave no reencontro deles no aniversário de Hélène, mas agora passa a ser mais feroz, pois cada um empurra para o outro a tarefa de cuidar dos bens da família. Frédéric, pelo fato de morar em Paris, é o mais cotado pelos outros dois irmãos para tomar conta do patrimônio da família, mas ele não se mostra disposto a assumir essa responsabilidade. Adrienne e Jérémie alegam a distância do lugar onde vivem para se eximir da atribuição de dar continuidade à preservação dos bens do clã.

No fundo, a grande preocupação de Assayas é flagrar a importância da memória, que nem sempre é vista positivamente pelo senso comum. Não deveria ser assim. Afinal, a memória é o receptáculo de fatos, pessoas, cores, texturas e sensações, que tornam a visão da realidade de cada indivíduo absolutamente singular. A atmosfera de recordação é assinalada por uma fotografia apaixonante, assinada pelo francês Eric Gautier. Ele é o responsável pelo ótimo trabalho em filmes como Irmãos (Son frère, 2004), Reis e rainha (Rois et reine, 2005), no cenário francês, e também é requisitado para cuidar do visual de filmes de Hollywood, como Santos e demônios (A guide to recognizing your saints, 2006) e Na natureza selvagem (Into the wild, 2007). Gautier também já havia trabalhado antes com Assayas, quando assumiu a fotografia de Clean (idem, 2003). A repetição da perceria permite que o entrosamento entre o diretor e o fotógrafo seja ainda mais produtiva, já que um está familiarizado com o estilo do outro. E a grande qualidade de Horas de verão é exatamente a fotografia criteriosa de Gautier, que confere naturalidade às interpretações dos atores, bem como transmite a sensação de que os espaços frequentados pelos personagens ao longo da história.
Em seus 103 minutos de duração, esse é um filme simples, sobre coisas banais e, ao mesmo tempo, fundamentais. Assayas analisa com certa despretensão o peso que as recordações têm na vida de cada um, e como é possível edulcorar acontecimentos unicamente com o dispositivo da memória. A câmera atenta do diretor percorre ambientes com um olhar perscrutador, como quem procura com afinco vestígios de tempos transcorridos, na esperança de notar aquilo que foi um dia e que, pelo passar dos anos, deixou de ser. Aliada a essa notória disposição para flagrar traços, o realizador conta com um elenco bastante coeso, que colabora para retratar uma relação de irmandade bastante próxima do real. Adrienne, Frédéric e Jérémie são perfeitamente palpáveis, passíveis de serem conhecidos em um mundo verdadeiro. A atriz mais uma vez entrega um desempenho espetacular, uma característica de seu trabalho no cinema. Na pele de Adrienne, sua atuação é minimalista, centrada nas nuances de personalidade da artista plástica que não abre mão de seguir levando sua vida hedonista. Binoche transita muito bem entre o francês e o inglês, o que só reforça sua habilidade em se superar e criar tipos bem distintos entre si. Recentemente, Gérard Dépardieu comentou que não sabe o que as pessoas veem nela para considerarem-na uma ótima atriz. Talvez tenha sido certa dor de cotovelo do ator, que não tem tido a sorte de obter bons papéis no cinema ultimamente. É fato que Dépardieu não sabia o que estava dizendo sobre a atriz.
Jérémie Rénier é outro que se sai muito bem vivendo um personagem que é seu homônimo. O ator é seguro em sua interpretação, e atrai a atenção do público como um jovem adulto para quem toda a parafernália conservada pela mãe ao longo de décadas não tem grande relevância. A ele interessa muito mais seguir galgando degraus em sua carreira como empresário que viver preocupado com a manutenção de peças de arte. Como o mais novo dos irmãos, ele é a evidência mais clara do conflito de gerações que se instaura na família. Renier tem uma carreira com ótimos títulos, e já trabalhou com nomes importantes do cinema francês. Por três vezes, atuou em um filme de Jean-Pierre e Luc Dardenne: A promessa (La promesse, 1996), A criança (L’enfant, 2005) e O silêncio de Lorna (Le silence de Lorna, 2008), além de ter estado em Amantes criminais (Les amants criminels, 1999), de François Ozon e de ter trabalhado com Joachim Lafosse em Propriedade privada (Nue proprieté, 2006).
Em nome de uma observação cautelosa do universo particular de uma família, Assayas acaba por estender suas impressões para um macrocosmos, já que a situação vivida por aqueles membros se estende para a França em geral, funcionando como metáfora para o flagrante cuidado que a sociedade francesa tem com relação ao antigo. O país, como berço de uma série de manifestações artísticas que é, faz frente a um desapego às representações concretas da memória. Como foram morar em outros países, Adrienne e Jérémie se “desnacionalizaram”, e perderam o gosto por salvaguardar o que há de mais precioso na obra do tio-bisavô. Em seus minutos finais, Horas de verão oferece uma bela visão panorâmica da casa onde a família passou vários finais de semana, depois de ser mostrada uma sequência em um museu que evoca Arca russa (Russkiy Kovcheg, 2002), e clarifica ainda mais qual é a sua vocação: apresentar a passagem do tempo comprovada em objetos, pessoas e lugares. O tempo que não retrocede, só avança. O tempo sorrateiro.

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

Silêncio, escapismo e imobilidade em "3 macacos"

De tempos em tempos, surgem no cinema exemplares audiovisuais de rara beleza somada a existência de algo a dizer por meio de uma boa história. Há que se saudar um diretor em especial por isso, e o seu nome é Nuri Bilge Ceylan. Ele é o principal responsável por sacudir internamente o público com a experiência provocada por 3 macacos (2008).

Rodado em 2008, entre França, Itália e Turquia, o filme é um tratado competente sobre a dissolução de verdades aparentemente estáveis entre os membros de uma família. Pai e filho, marido e esposa, cada um dos polos de uma relação tríptica, têm dentro de si espécies de subverdades quase a ponto de transbordar. Falta apenas uma gota d'água.
E tudo começa a desmoronar, de fato, depois que o pai é chamado por seu chefe para assumir a culpa por um crime cometido por ele numa estrada enquanto dirigia à noite. Essa é, inclusive, a primeira cena do filme. A mais completa escuridão dá lugar, paulatinamente, a uma penumbra, para que se veja um atropelamento. Ainda que tenha sido por acidente, o culpado (o chefe de Eyüp, o pai) pensa apenas em fugir do local, e logo contata seu funcionário para lhe falar do ocorrido, propondo-lhe um acordo. Em troca de uma alta quantia em dinheiro, Eyüp irá preso pelo crime que não cometeu. Ao final de um período, a família dele receberá o dinheiro determinado. Desde o começo da narrativa, fica claro que não há muita comunicação entre o marido, a mulher e o filho. Os três não chegam a ter uma conversa franca sobre a atitude de Eyüp, que concorda com o trato. Ele simplesmente aceita, vai para a cadeia, e recebe apenas visitas regulares do filho enquanto está lá. Sua mulher parece não estar muito preocupada com sua estada naquele lugar.
Esse comportamento frio e silencioso é o ponto convergente entre o trio de protagonistas. Daí a eficiência de um título como 3 macacos. Tal qual os primatas do velho provérbio oriental, eles fingem não ver, ouvir ou falar sobre seus problemas. A todo custo evitam partir para o conflito aberto, varrendo qualquer deixa para uma discussão a respeito do que estão fazendo de suas vidas. Estão cegos, surdos e mudos por convicção.
Por meio desses laços frágeis que existem na família, Ceylan aborda uma questão tão antiga quanto crucial: o abismo entre os homens. Por mais que falem, conversem, nunca estão completamente a par do que o outro sente. Aqui, como se vê, a escolha é pelo silêncio, valorizada por uma quase ausência de trilha sonora, salvo em algums cenas. Além disso, há poucos diálogos no filme, o que permite destacar algumas passagens em especial, como a que vem a seguir.
A mãe tenta participar da vida do filho, perguntando sobre seus passos e com quem está andando, mas não obtém respostas. Sua preocupação é interpretada como invasão e controle, o que desagrada profundamente o filho. É patente a divergência entre o que se quer dizer e o que se entende daquilo que se diz. Cineastas com carreira brilhante enveredaram por esse caminho, como Bergman e Antonioni. O sueco criou a Trilogia do Silêncio, que em que discorre sobre a ausência de vínculo comunicativo eficaz entre as pessoas. O mesmo procurou fazer, com uma habilidade inenarrável, o italiano, ao dirigir a Trilogia da Incomunicabilidade.
Com 3 macacos, Nuri Bilge Ceylan se filia diretamente a essa tradição cinematográfica de mergulhar no íntimo das relações humanas. Durante a prisão do marido, Hacer, a mulher, sofre de grande carência, e se aproxima do chefe de Eyüp. O filho, por sua vez, está muito mais interessado e se beneficiar com o dinheiro que será entregue pelo autor da proposta. Em uma cena, chega a pedir à mãe que consiga o adiantamento do valor acordado. Não fica explícito no filme, mas parece que o jovem tem más companhias, e sua preocupação em ter a quantia reside aí. Ele até se mostra inclinado a defender o pai, vigiando a mãe, para que esta não se relacione amorosamente com ninguém.
O tempo passa, e o pai sai da cadeia, inaugurando uma nova fase na espiral de imobilidade que tomou conta dessa família. Vem a fúria em Eyüp, assim que ele descobre que foi traído. A sua reação violenta é um dos pontos de maior ação de todo o filme, que transcorre, na maioria das vezes, sem grandes sobressaltos ou viradas de roteiro. Essa característica ajuda a manter a coerência com o projeto inicial de flagrar o oculto por trás das aparências que sufocam a convvivência entre trâs pessoas. Nada acontece subitamente, mas segue um ritmo linear e gradual, uma coisa após outra. Como na vida, afinal. E Ceylan parece ter o controle desse timing nas mãos.
Outro detalhe de impacto e relevância em todo o filme é sua fotografia. A luz é utilizada de maneira parcimoniosa, aparecendo com grande discrição, mesmo em ambienteas mais abertos. Há um aspecto naturalista muito forte, associado a um teor claustrofóbico intenso percorrendo os espaços filmados em 3 macacos. Isso se traduz em momentos de incômodo no espectador, que tem sua capacidade de se manter impassível ante o pesar alheio desafiada contumazmente.
Por todos esses fatores, aqui está um filme que expressa sua mensagem de forma oblíqua, levando a uma crescente necessidade de se atentar para detalhes. O grande perigo, e também a grande possibiidade, é se reconhecer em algum personagem, ou em alguma atitude. Quem procura diversão passageira e piadas rasas deve passar longe de uma história como essa. Mas aquele que buscar ir além do ordinário será confrontado com sua prostração em cada gesto, olhar e fala desse trio.

Conversas entre amigos em "Sobre café e cigarros"

Certos diretores, ao ecoar de seus nomes, logo são associados ao termo cult, o que pode ser tanto pejorativo quanto elogioso, a depender do gosto de quem está classificando. Jim Jarmusch, representante do cinema independente, com muita facilidade se enquadra em tal definição, a qual também pode ser limitadora.

Entretanto, em Sobre café e cigarros (2003) o adjetivo é a melhor escolha para comentar a proposta que Jarmusch apresenta. O filme é uma compilação de onze curtas-metragens rodados durante vários anos que, juntos, compõem um mosaico interessantíssimo da diversidade de assuntos que pode pairar entre amigos, e que exala um forte aura cult. Para todos eles, Jarmusch abriu mão das cores, como já fizera antes em Estranhos no paraíso (1984), exercitando seu estilo e fazendo um recorte da realidade ao optar pelo preto e branco.
À sua frente, um elenco primoroso se encarrega de interpretar a si mesmo, em sua maioria, ou de dar vida a personagens no mínimo curiosos e dignos de uma galeria de achados imperdíveis. A lista de atores, ou de colaboradores, por assim dizer, é extensa e eclética. Estão lá Cate Blachett, genial como primas que mais parecem gêmaeas univitelinas, Bill Murray, em mais uma composição impecável, além de Iggy Pop, Isach de Bankolé, Roberto Benigni, Steve Coogan e Alfred Molina. Os dois últimos, aliás, estão no pirmeiro de todos os curtas, ou seja, o mais antigo, filmado ainda nos anos 80.
O que une os onze curtas é um detalhe simples: entre um gole de café e uma tragada num cigarro, pessoas comuns conversam sobre fatos corriqueiros da vida, e alguns outros nem tanto. Entre os assuntos abordados nos vários segmentos do filme, estão: Paris nos anos 20, o modo correto de se preparar um chá inglês, o uso de nicotina como inseticida, picolés de cafeína, Elvis e Costello, as invenções de Nikola Tesla, e vários outros. Tudo envolto em um clima de agradável camaradagem, de conversa jogada fora entre amigos que se conhecem há tempos.
Basicamente, Sobre café e cigarros está alicerçado nessa combinação simples e eficaz. O uso de preto e branco também funciona metaforicamente, já que remete ao preto do café e ao branco do cigarro, coadjuvantes em todos os curtas, invariavelmente. Nos diálogos inspirados dos personagens, Jarmusch faz um apanhado instigante de elementos do cotidiano, lançando um olhar acurado sobre coisas que se fazem e se dizem quase automaticamente, sem que se perceba. O espectador que espera algo de extraordinário ao assistir ao filme pode se desapontar. Não há grande inventividade no que o diretor apresenta. Na verdade, a inovação não está na forma, e sim no conteúdo.
A atmosfera de intimidade entre velhos conhecidos é reforçada o tempo todo, e alguns trechos de longas acabam alcançando mais brilho que outros. Não deixa de ser um filme com estrutura episódica, em que o maio clichê é a irregularidade. Porém, em "Sobre café..." essa desagradável característica é quase incipiente. Há que se destacar o curta com Bill Muray, cômico na medida exata na pele de um atendente, e no trecho protagonizado por Vinny Vella e Vinny Vella Jr., ótimos como pai e filho em comentários agridoces sobre assuntos do dia a dia. É nesse caminhar paciente que surgem a graça, o inesperado, o triste, o bizarro e o divertido.
No geral, tudo o que se vê na tela é uma grande celebração da vida e de acontecimentos simples, que movem a existência de cada um. Ao retratar personagens com uma forte tendência a verborragia, e não se preocupar tanto com ação, Jarmusch acaba distanciando seu filme do público comum, deixando-o como um prazer do qual usufruem pequenas plateias. Seja como for, observar o lento desenvolver das linhas da vida, sem a pressa que alucina, também pode valer muito a pena. E Sobre café e cigarros entra nessa proposta, sevindo para refletir e também como um ótimo exercício de contemplação.

terça-feira, 30 de novembro de 2010

Detalhes secretos da natureza humana perscrutados em “Edifício Master”

Documentários são tidos frequentemente como um espelho para a realidade, sem que haja qualquer refração que impeça o espectador de contemplar a conexão entre o que se está filmando e o que encontra palpabilidade no prisma do real. Mas não é bem assim que esse gênero cinematográfico funciona. Eduardo Coutinho, mestre nesse subtipo de filme, sentenciou, certa vez: “Não existe a filmagem da realidade, mas sim a realidade da filmagem”. E é sobre um de seus filmes que essa crítica se propõe a tratar. Edifício Master, produção rodada pelo diretor em 2002, é um atestado de como a câmera diante dos olhos de uma pessoa podem levá-la, ainda que sutilmente, a uma construção delicada de sua personalidade.

Coutinho passou sete dias colhendo depoimentos de moradores do conjunto de apartamentos de Copacabana, situado a poucas quadras da praia, onde vive gente simples e com histórias fascinantes para contar. Como ele mesmo disse em uma entrevista, Coutinho é um grande fofoqueiro, que está interessado em desarmar seus interlocutores, e ter seus olhos e ouvidos atentos ao que cada um tem a dizer. Esse exercício de curiosidade é praticado exaustivamente em Edifício Master, que perscruta aquilo que há de mais humano nas colocações feitas pelos habitantes daquele prédio.
O cineasta é um espectador paciente, e esse traço de sua personalidade se reflete diretamente em sua maneira de filmar: tranquila, contemplativa semiestática, mas nunca tediosa. Cada morador entrevistado, e que ficou na montagem final, procura se mostrar por inteiro, mesmo que se saiba que, diante de uma lente de filmagem, defeitos mais desagradáveis podem ser encobertos. Depois de horas a fio de filmagem, o resultado das entrevistas de Coutinho é um interessante amálgama de episódios notáveis das vidas particulares dos cariocas de nascimento ou por adoção, que geram no espectador a empatia quase imediata. De uma forma ou de outra, os homens e mulheres que abrem suas moradas também abrem suas almas, e desnudam seus interiores de modo bastante naturalista. O mérito vai para Coutinho, que sabe o limite entre o simples entrevistador e o interlocutor que apenas observa, atento, as falas de seus entrevistados. Por isso, em pouco minutos de conversa, os “personagens” do filme se sentem à vontade para se mostrar por inteiro.
O edifício Master é um prédio residencial composto de 12 andares, com 23 apartamentos por andar, totalizando 276 apartamentos onde moram 500 pessoas. Ali, diferentemente do que muitos podem pensar, não existe aquele grande glamour que envolve os habitantes da Zona Sul carioca. Reunidos em pouco mais de duas horas de imagens, eles são essencialmente humildes, gente ordinária, no sentido primeiro da palavra, que é comum. As pequenas vivências de seus cotidianos, entretanto, rendem histórias extraordinárias, e os tornam claramente heróis e heroínas de suas vidas. No total, Coutinho entrevistou 37 moradores, que expressam a revitalização do interesse do diretor pelo discurso alheio, espargida em uma série de confissões, que não são, necessariamente, a inteireza dos caracteres daqueles que falam.
Para quem é pouco afeito aos documentários, confundindo-os como videoaulas, Edifício Master é uma ótima chance de adentrar esse universo particular de filmes que se propõem a estar mais vinculados ao real que as ditas produções ficcionais. É claro que, como já foi comentado, o documentário não é a realidade em estado puro. Cada fotograma apresentado no filme é uma construção, e não uma chegada a uma verdade objetiva, o que clarifica para o público que um dos aspectos importantes que serve de diretriz para a obra de Coutinho é esse: ele não está interessado em capturar a realidade tal como ela é formada. Até porque, no fundo, é praticamente impossível ter acesso total à realidade, já que somos o tempo todo filtrados pelos nossos sentidos no contato com o real.
Com as inúmeras portas e janelas de que o edifício é formado, o cineasta também atenta para a multiplicidade de discursos que aparece em seu filme, tornando a polifonia de vozes e depoimentos totalmente metaforizada. Coutinho aprecia a mescla de cores e formas infinitas, que acentuam a enorme discrepância – que é saudável, diga-se de passagem – que marca a raça humana. E os discursos que se vão sucedendo transparecem essa disparidade de olhares, como no caso de uma garota de programa que expõe sua rotina, sendo precedente à entrevista de uma espanhola extremamente pudica. A verve iconoclasta, por assim dizer, do realizador, mostra-se afiada, portanto. Como em obras posteriores, entre as quais estão O fim e o princípio (2005) e Jogo de cena (2007), não há qualquer julgamento moral sobre o que está sendo retratado na tela. Coutinho se limita a ouvir, e quase não faz perguntas, conduzindo muito levemente os depoimentos de seus entrevistados.
O documentário tem um tratamento da imagem bastante delicado e suave, que colabora para criar (sim, criar!), uma atmosfera de intimidade com aquelas pessoas que estão falando de suas vidas. Por mais que não vivam reviravoltas mirabolantes em suas trajetórias, elas têm sempre muito a declarar. Em Edifício Master,o interesse maior de Coutinho é pelo prosaico, pela maneira com que cada entrevistado conduz sua vida. Os relatos não passaram por nenhum tratatamento, além da edição que recorta alguns trechos que tornariam os depoimentos longos demais. Mais do que tudo, é um filme em que a palavra triunfa, como uma espécie de tentativa de conhecimento do outro a partir daquilo que dizem. Nas entrelinhas das entrevistas, cabe uma multiplicidade de discursos, que abarcam as mais diferentes esferas da vida humana, e são um polo gerador de identificação.