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sexta-feira, 24 de junho de 2011

O vencedor e a vivência de um dia após o outro


A dificuldade de lidar com a necessidade do recomeço é uma temática sobre a qual versa O vencedor (The fighter, 2010), filme de David O. Russell que ficou entre os dez indicados da edição 2011 do Oscar. Na confluência de atores de grande talento está o grande mérito do longa-metragem, que traz como personagem principal Mickey Ward, encarnado com propriedade por Mark Wahlberg. Ele é um pugilista que se vê obrigado a lidar com os reveses de sua vida, muitos deles ocasionados pela influência de seu irmão Dicky Eklund (Christian Bale), a quem sua família sempre busca dar uma nova chance. Entretanto, Dicky é problemático, e se envolve com drogas, o que só tumultua seu relacionamento com os membros do clã. E, assim, em poucos minutos, o filme demonstra a que veio: entremear os conflitos que ocorrem no seio familiar com a trajetória de treinos e lutas dos dois irmãos.
Como tem mais experiência no assunto, Dicky decide treinar Mickey, que não tem grandes chances de ascender na carreira inicialmente, algo que só vai mudar quando ele conhecer Charlene Fleming (Amy Adams), que colabora para que ele reúna forças para bater de frente com a família. Sim, Mickey é o caçula preterido pelos pais que tem de provar várias vezes que é capaz de grandes feitos. Qualquer associação feita pelo espectador com personagens de filmes pregressos só fará comprovar a presença de elementos reconhecíveis na trama de O vencedor, que não oferece grandes inovações e se fundamenta no desempenho cênico admirável dos nomes já citados, e de outros que ainda serão comentados. O filme assinala o retorno de David O. Russel depois de um hiato de 6 anos, já que seu último trabalho havia sido Huckabees – A vida é uma comédia (I heart Huckabees, 2004), que praticamente ninguém viu. Seu novo trabalho se aproxima muito mais de Três reis (Three kings, 1999), em que trabalhou pela primeira vez com Wahlberg, por conta de sua estética mais realista e de sua aura mais rústica.
A direção de atores é, sem dúvida, o que chama mais a atenção no longa-metragem. É prazeroso acompanhar a dobradinha entre Wahlberg e Bale, que recebeu o Oscar de melhor ator coadjuvante por seu papel. Seu desempenho impressiona, e comprova seu talento como intérprete mais uma vez. Bale tem a capacidade de transitar entre filmes de apelo mais comercial e outros com um teor mais artístico e/ou artesanal, como O operário (The machinist, 2004), em que encarnou um homem atormentado e para o qual teve de perder 30 quilos. Seu Dicky é uma clara demonstração do quanto ele pode ser camaleônico quando se trata de entrar em um personagem, e fica ainda mais notório seu trabalho de composição quando, ao final do filme, surge na tela o verdadeiro Dicky. Wahlberg, por sua vez, aposta em uma atuação propositalmente comedida, por vezes quase apagada, levando a concluir que o filme é muito mais de Bale que dele. É um típico caso de alguém que não consegue ser protagonista de sua própria vida, sendo ofuscado por pessoas próximas que lhe tomam a frente.

Além deles, há também Melissa Leo, outra grande atriz que dá o melhor de si e apresenta uma performance totalmente diferente da que rendeu sua primeira indicação à estatueta dourada. Uma comparação rápida entre sua personagem em Rio congelado (Frozen river, 2008) e neste filme permite perceber o quanto ela é capaz de se reinventar. Aqui, ela dá vida a uma espécie de perua que mima o filho mais velho e se mostra descrente da capacidade do caçula, o que a leva a embates, velados ou não, com Charlene, a namorada que Mickey arranja em uma de suas noitadas. A atriz merece ser descoberta e vista em seus outros trabalhos, que não são poucos. No dia de sua vitória no Oscar, foi uma delícia assistir à sua reação extática pela coroação de seu trabalho. De fato, a cada nova aparição sua na tela, é evidente sua capacidade de fazer misérias como intérprete.
O vencedor expõe pela vertente do contrastivo o abismo e a ponte que existe entre os irmãos Ward, e de como pode ser terrível deixar a vida nas mãos de outrem. Disposto a ajudar Mickey, Dicky muitas vezes mete os pés pelas mãos, e causa problemas infinitos à família. O filme também traz a realidade de uma comunidade de descendentes de imigrantes irlandeses, a exemplo de títulos recentes como Terra de sonhos (In America, 2002), de Jim Sheridan, e Atração perigosa (The town, 2010), de Ben Affleck. Cada qual, entretanto, apresenta o seu viés. O filme de Russell não tem a preocupação de examinar politicamente o estado de coisas desses descendentes, mas em oferecer um retrato realista, pincelado de matizes dramáticos, de um homem comum que foi galgando degraus até alcançar um patamar desejado. E seu lançamento se deu apenas dois anos depois de O lutador (The wrestler, 2008), filme que também abordava o universo dos ringues, embora fossem os da luta livre. A temática mais uma vez chamou a atenção da Academia, que concedeu 7 indicações ao filme, mas somente no quesito atores ele saiu de fato vitorioso. Outro ponto positivo de O vencedor, porém, é sua direção firme e veloz de Russell, que imprime vitalidade as sequências e afasta o marasmo da condução do enredo, cujo roteiro também esta sob sua responsabilidade. São muitos os momentos de ação e as situações de virada na narrativa, com certos escorregões no estereótipo que, com um pouco de indulgência, são desconsideradas.
Durante o transcorrer de sua trama, o filme permite que se enxergue o caminho trilhado por Mickey por mais de uma perspectiva, fato que se dá simplesmente pela maneira como as atitudes do protagonista vão sendo mostradas uma a uma. A edição funde imagens documentais com as filmagens dos atores em seus respectivos personagens, e confere um tom ainda mais realista à obra. Os atores, como já se disse, são o ponto forte de um filme que examina os erros e acertos de alguém que tateia o próprio caminho. A história é ambientada no presente, mas demonstra sua atemporalidade ao se afirmar como um retrato de um ser humano e sua necessidade de autossuperação. Há uma certa dubiedade com relação do gênero do filme, que se inicia em tom mais cômico, o qual vai dando lugar a um componente melodramático que passa a assinalar a narrativa a partir daí. E nesse hibridismo, Russell potencializa sua habilidade em não se limitar ao traço de arquétipos.

sábado, 11 de junho de 2011

Flores partidas e a força dos laços sanguíneos


Sob a batuta de Jim Jarmusch, surge um novo exemplar de filme sobre relacionamento familiar, cujo título já transmite uma ideia de desolação: Flores partidas (Broken flowers, 2005). O filme é a oportunidade de acompanhar Bill Murray em mais um grande papel, à semelhança do que se pôde verificar dele em Encontros e desencontros (Lost in translation, 2003). Neste trabalho, ele dá vida a Don Johnston, um conquistador inveterado que não abre mão de sua privacidade, o que, em seu caso, rima com solidão. Quando o filme começa, ele está sendo abandonado por mais uma namorada, algo que não lhe causa a menor comoção. Sua rotina monótona de conquistas sequenciais e etéreas só parece ser sacudida quando do recebimento de um misterioso envelope rosa, que porta a informação de que ele tem um filho de 19 anos, ao qual deve conhecer. A partir de então, o empenho do personagem passa a ser descobrir quem, dentro de seu extenso currículo amoroso, é a autora daquela mensagem. E seu amigo e vizinho Winston (Jeffrey Wright) o convence a tomar partido daquela história e a sair em busca de seu rebento e daquela ex-namorada que entrou em contato.
Com base nesse argumento, Jarmusch vai moldando um filme que guarda semelhança temática com Estrela solitária (Don’t come knocking, 2005), do realizador alemão Wim Wenders, do qual é contemporâneo. Assim como este, Flores partidas se propõe a tratar dos interstícios do relacionamento paterno, que pode ocorrer tantas vezes aos sobressaltos. Mas cada qual desenvolve um mesmo assunto por vias distintas. Se Wenders lançou mão da abordagem mais prototipicamente dramática, Jarmusch optou por conduzir seu longa-metragem em tom de comédia, mas daquelas de que se sorri com discrição e parcimônia, o que traz à memória outro filme protagonizado pelo mesmo Murray que segue uma cartilha semelhante: A vida marinha com Steve Zissou (The life aquatic with Steve Zissou, 2004). Neste último, Murray deu vida a um homem de humor obtuso, sem grandes pretensões diante da vida e movido por um único e simples desejo e vingança. Feitas as associações mais imediatas, cabe a observação. São três filmes rodados sequencialmente (Encontros e desencontros, A vida marinha com Steve Zissou e Flores partidas), mas, mesmo com três papéis tão parecidos Murray assinala suas dissonâncias com discretos charme e talento.
No caso do filme analisado aqui, a jornada “semiexistencial”, por assim dizer, de Don começa quando ele parte em busca de várias de suas ex-namoradas para recolher pistas que o levem a solucionar aquele que passa a ser o mistério da sua vida. Entretanto, sua busca não é feita com empenho, e cada novo encontro do protagonista com mulheres que lhe atravessaram o caminho em algum momento é, em última instância, a possibilidade de novamente concretizar um fugaz enlace amoroso. O reencontro de Don com seu passado, metaforizado e metonimizado na figuras de suas ex-namoradas, também é a deixa para o desfile de atrizes talentosas na tela. Julie Delpy, Chlöe Sevigny, Sharon Stone, Jessica Lange e Tilda Swinton aparecem, cada uma a seu tempo, para encher a tela de beleza e encanto. Todas elas têm alguma ligação com o passado ou com o presente de Don, e ajudam a compor o quadro de uma lida esmorecida com a existência adotada pelo personagem. O protagonista é assinalado por uma expressão blasé que o acompanha aonde quer que ele vá, e sua caracterização como alguém descolado de uma convivência diária com outrem. É como uma pessoa que vive um dia após o outro sem se preocupar com o que haverá de ser, apenas em seguir. Em seu encontro com a personagem de Sharon Stone, fica clara a entrega da atriz ao papel, imprimindo vivacidade no seu pouco tempo de permanência em cena. É louvável acompanhar o desempenho desenvolto de Stone em alguns minutos que sejam, especialmente se se considera suas derrapadas no cinema, ocorridas em um passado recente.



Flores partidas é um filme que se destaca pelo poder de concisão. Jarmusch foge ao exercício verborrágico, preferindo se concentrar no percurso acidentado dee seu protagonista pelas estradas multidirecionais de sua trajetória. É por meio de seu longo currículo de conquistas que algumas das arestas de sua vida vão sendo expostas, muitas das quais ele não se esforça para podar. Antes de mais nada, a obra é a junção de dois artistas do minimalismo. De um lado, está a economia narrativa do diretor. Do outro, a performance de um ator que entrega dados preciosos de sua expressão em palavras não ditas e em pequenos gestos contidos. Esse é um daqueles filmes em que se vislumbra um certo niilismo que permeia parte das relações interpessoais. A condução da trama pode soar fria e distante em muitos momentos, mas cabe ressaltar que esse aspecto é intencional e eficiente para seu andamento, pois acaba incomodando quem está do outro lado da tela e servir como uma sacudidela para o rompimento da monotonia. Não é um filme que apresente mais ou menos do que deveria, mas que se resigna a apresentar o bastante para ser acompanhado. Trata-se da segunda parceria entre Murray e Jarmusch, que foi iniciada com Sobre café e cigarros (Coffee and cigarettes, 2003). Entretanto, tem gosto de estreia, pois é o primeiro longa-metragem em que eles trabalham juntos.
Enquanto dura sua projeção, Flores partidas pesa a falta de comunicação, a necessidade de se criar laços para se ter um ponto de identificação no mundo e a volatilidade que perpassa os encontros entre pessoas que estão relacionadas pelos mais diversos modos de estruturação. O filme discute a paternidade sob um viés pouco ortodoxo, ao mesmo tempo em que se desvia desse foco em alguns momentos para estender sua análise para a real condição humana. Don Johnston reafirma a cada passo a sua condição de andejo, da qual não parece querer abrir mão, e sente que a escolha por um apego duradouro a alguém – especificamente um filho – lhe pode ser lancinante. Com um roteiro que oscila entre as abordagens cômica e dramática, assinado também por Jarmusch, o filme também é guarnecido de frestas pelas quais o realizador espia o tédio que tomou de assalto a contemporaneidade, com um estilo de filmagem discreto e simples, que valoriza sobretudo os desempenhos de atores que servem a seus papéis de cara limpa. Sem se preocupar em ser didático ou escancarado, o diretor abarca o ordinário de forma sensacional, comprovando que seu cinema é feito principalmente da utilização de gretas.

quinta-feira, 2 de junho de 2011

Perseguindo um sonho entre os reveses ou Quem quer ser um milionário?

Quando começou sua carreira internacional, Quem quer ser um milionário? (Slumdog milionaire, 2008) causou furor nas cerimônias de premiação e revelou ao mundo um Danny Boyle inspirado e mais uma vez demonstrador de ecletismo. Frequentemente tido como um Cidade de Deus (idem, 2002) indiano, o filme é um retrato realista – até certo ponto – e carismático de um jovem em longo processo de busca da realização de seus sonhos. Jamal M. Malik (Dev Patel) é um garoto do subúrbio de Nova Délhi que ganha a vida servindo chá em uma empresa de telemarketing. Sua vida até ali sempre fora marcada pela pobreza e pelas sérias dificuldades, e ele só tem ao irmão mais velho, Salim (Madhur Mittal), que se revela um crápula desde a tenra infância. Para dar um novo rumo ao seus passos, ele decide participar do programa de TV que dá o título em português do filme. Entretanto, seu grande intento com a participação no programa é obter a visibilidade necessária para reencontrar Latika (Freida Pinto), a garota dos seus sonhos, já que a atração é uma das maiores audiências de seu país.

Está formado o enredo de um filme multicolorido, que não renega sua filiação a uma tradição de filmes indianos, que são os mais produzidos no mundo inteiro. Hoje a grande maioria do público já sabe que a maior indústria cinematográfica do mundo é Bollywood, uma aglutinação entre os nomes das cidades de Bombaim (atualmente chamada Mumbai) e Hollywood. São centenas de filmes todos os anos, muitos dos quais ultrapassam facilmente as 3 horas de duração. Boyle não é tão prolixo, e concentra sua narrativa em 120 minutos de correria e estripulias visuais. Quem quer ser um milionário? alia um quê de drama social com uma aventura individual de toques eletrizantes, que deixam a plateia em permanente interesse pelos desdobramentos da caminhada de Jamal rumo a uma nova perspectiva de vida. Na verdade, é uma história bem simples e sem grandes ousadias no seu conteúdo. Sua forma é o que desperta mais curiosidade, com certas idas e vindas temporais que afastam a monotonia da narrativa. Elas acontecem na medida certa, sem que causem entorpecimento no público e o deixe perdido.
Ao longo do filme, é possível deparar com vários aspectos positivos, que enaltecem a proposta de Boyle de conferir ecletismo à própria carreira. Seus trabalhos antecessores, além de versar sobre temáticas diversas, têm formas distintas e tratamentos idem, como é o caso de A praia (The beach, 2000) e Extermínio (28 days later, 2003). É louvável o esforço do diretor em inovar a cada trabalho, seja na forma, seja no conteúdo. Quem quer ser um milionário? não traz muitas novidades no campo dramático, mas conquista por trazer no centro da trama personagens carismáticos e facilmente encontráveis na vida real. O título original é um pouco mais seco, e pode ser traduzido como “milionário favelado”, em alusão à periferia da cidade habitada pelo protagonista. Patel faz uma bela dupla com Pinto, e fica irresistível para o plateia torcer pelo reencontro do jovem casal. É fato que o filme tem um forte apelo comercial, o que o tornou um sucesso popular quase instantâneo e, de certa forma, popularizou a cerimônia do Oscar 2009, que entregou nada menos que oito prêmios ao longa-metragem, incluindo o principal, além de lhe ter concedido as láureas nas categorias de fotografia, trilha sonora e roteiro adaptado. Havia sido dez indicações no total, e o filme simplesmente abocanhou quase todas. Talvez tenha havido um certo exagero da Academia em dar tantos prêmios a um único filme, mas é perceptível que há qualidades nele.

Por falar na trilha sonora, ela foi composta em apenas 20 dias, sob a responsabilidade de A. R. Rahman, indiano com um extensa carreira de músico em filmes de sua terra. Entre 1992 e 2007, foram mais de trinta títulos com trilha sonora de sua autoria, sendo Quem quer ser um milionário? um de seus primeiros trabalhos em solo estadunidense, precedido apenas por Elizabeth – A era de ouro (Elizabeth – The golden age, 2007). Ele voltaria a colaborar com Boyle no filme seguinte do diretor, 127 horas (127 hours, 2010), respondendo por uma trilha sonora atordoante e arrepiante. No caso do filme analisado, há uma deliciosa mescla de canções conhecidas na Índia com outras mais familiares para ouvidos ocidentais, que pontuam as ações da narrativa sem soar acessórias e, por isso, irritantes. Este é um filme que não se envergonha de ter uma pegada mais popular, e também faz jus ao rótulo de entretenimento, o que, por si só, não constitui um demérito.
O roteiro também conta pontos a favor do filme, e é assinado por Simon Beaufoy, cujo currículo inclui filmes de comédia, como Ou tudo ou nada (The full monty, 1997), e que firmaria novamente uma parceira com Boyle em seu filme anterior. Aqui, a grande contribuição é a já citada não-linearidade da trama, que alterna a infância e a adolescência dos personagens com habilidade notável. A mescla entre os atores que dão vida ao trio quando crianças e aos que o interpreta quando jovens evidencia o talento de ambos os atores para cada papel. A grande preocupação do cineasta é discorrer sobre o peso da sorte no destino de cada um, e sobre como é possível mudar os rumos da própria vida quando se adota uma conduta pró-ativa. Um senão se revela a cada momento de pieguice do qual o filme, às vezes, não consegue escapar, e esse aspecto lhe é comprometedor. Mas, muitas vezes, o que se quer é apenas uma diversão com menos dose de reflexão, e Quem quer ser um milionário? cumpre bem esse papel.