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quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

"Morangos silvestres": a persistência da memória

A obra de Ingmar Bergman já se encontra inscrita no cânone cinematográfico. Tal qual Machado de Assis ou Fiódor Dostoiévski para a literatura universal, só para citar dois exemplos, a produção bergmaniana é preciosa para o cinema.
Sua filmografia é vasta, mas se tivéssemos de resumi-la em uma única palavra, talvez a melhor fosse: interiores. Daí, pode-se desdobrar o que configura a grande busca do diretor: o entendimento do que se passa no coração dos homens, a angústia que qualquer um tem diante da existência e de sua finitude, as incongruências da vida a dois, o silêncio que paira, latente e lancinante, entre os homens, ainda que se fale muito e se dialogue muito. Temas universais, como se vê, ainda que quase toda sua obra tenha sido filmada na longínqua Suécia.

No caso de Morangos silvestres, a chave para que se penetre no longa não está presente desde seu título, um tanto obscuro, mas interessante. O interesse de Bergman no filme é flagrar a memória, uma das mais importantes ferramentas que um indivíduo tem, pois se trata de uma aliada do conhecimento.
A memória específica de que o sueco fala no filme é a de um professor de idade avançada, que tem um prêmio importante para receber na cidade onde morou, por sua contribuição como docente e como médico. Para chegar ao local da honraria, toma seu carro, e para lá segue com sua nora. No caminho, é tomado por lembranças de episódios de sua longa vida. Lembranças boas e ruins, que trazem à boca e ao coração gosto de mel ou de fel, como ocorre com qualquer indivíduo. O mergulho feito pelo personagem em suas memórias é acompanhado pelo espectador, que flagra a infância do personagem ,na qual ele costumava colher morangos silvestres, o que justifica o título dado ao filme. O idoso relembra festas, diálogos, pessoas, cores, sabores, texturas e emoções que o atravessaram ao longo do tempo.
Ainda que em preto e branco, a história é contada com belas imagens, e num ritmo lento para os padrões contemporâneos. Lentidão que cabe às recordações de alguém que já não tem mais seus vinte anos. E vale lembrar também que o longa foi rodado no distante ano de 1957, época em que Bergman dirigira outra pérola: O sétimo selo. Apesar de longe no tempo, o cinema de Bergman não ficou datado. Suas questões são ainda atuais, pois o ser humano é sempre ser humano, em qualquer lugar ou momento histórico.
Os filmes do cineasta evocam todo tipo de discussão: filosófica, existencial, psicanalítica. A preocupação aqui não é enveredar por nenhum desses caminhos, mas apenas descrever o êxtase gerado pela contemplação de pequenas epifanias de alguém que já percoreu uma extensa trajetória, o que Bergman faz como poucos. Ele desnuda o humano, expondo suas fragilidades, tendo a câmera como cúmplice. É como se, em certa medida, o espectador também fosse desnudado, a partir da identificação que tem com as cenas apresentadas.
São esses fatores que, somados, dão beleza, graça e vitalidade a Morangos silvestres. É cinema autoral, que não se faz preocupado em arrebatar grandes platéias, e que deleita olhos enfadados de efeitos visuais escalafobéticos. Um cinema que se faz sem traço algum de maniqueísmo, sem a preocupação de se colocar um herói e seu antagonista. Até porque, sabe-se muito bem, nós mesmos podemos ser nossos maiores inimigos.
Assistir ao filme é tarefa obrigatória. Mas é uma obrigação que e cumpre com extremo prazer por aqueles que se interessam por vislumbrar a dimensão do humano, e que desejam compartilhar, ainda que pela simples contemplação, a dúvida sobre o sentido da vida, a maior inquietação que temos.

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

"Waking life": perambulando pela falta de sentido do ser e do estar

Muito se discute se a animação seria um gênero de filme ou se ela, na verdade, pode comportar qualquer gênero cinematográfico dentro de si. A discussão frequentemente pode voltar à tona, especialmente quando se leva em consideração um filme da estirpe de Waking life. Dirigido por Richard Linklater (Antes do amanhecer), o filme é uma viagem cerebral sem precedentes pela existência humana, apoiado exatamente na destituição de imagens reais em favor de uma visão e de uma linguagem oníricas.
Daí se torna novamente relvante entender que, mais do que admitir um rótulo de gênero, a animação se presta a diferenciados exercícios de estilo, desde os mais esdrúxulos aos mais sofisticados. E, múltipla como é, apresenta uma série de vertentes. Desde a animação em stop motion, da qual O estranho mundo de Jack(1997) é um bom exemplo, passando pela animação em 3D, do recente Up - Altas aventuras (2009) e pela rotoscopia de Renaissance (2007), até chegar às cores estouradas e instigantes desse Waking life. Sim, porque o filme não é exatamente uma animação, mas também não pode ser encaixado com propriedade na classificação de filme.
Compartimentações à parte, o fato é que a invenção de Linklater merece crédito e atenção do espectador, por sua essência. No enredo do longa, nada de muito palatável, mas sim a certeza da incerteza, que permeia o pensamento ocidental desde os tempos platônicos, aristotélicos, socráticos e afins. Waking life quer ser metafísico, e se utiliza de inúmeros argumentos para isso. A grande questão que direciona a caminhada do seu protagonista é a seguinte: "Estamos feito sonâmbulos quando estamos acordados ou será que estamos conscientes quando sonhamos?". É o tipo de pergunta que requer acurada atenção, e que já desperta um mínimo de curiosidade pela proposta do diretor.
O que se segue são longas divagações, amplificadas por sua profundidade, a despeito de a duração do filme ser de apenas 99 minutos. Willey, o personagem principal, caminha longamente por um cidade anônima, que pode ser a minha ou a sua, a depender de sua vivência e de sua capacidade de percepção do familiar em meio ao desconhecido. Tomado pelo desejo de encontrar respostas para suas inquietações mais pulsantes, ele encontra pessoas, ouve conversas, pensa, sonha, acorda, reflete, pondera, sofre, sente, mergulha, entre outras coisas. Tudo dentro de um "caos organizado", em que aparecem figuras enigmáticas, extravagantes e interessantes. Linklater também aparece como um homem jogando pinball, e depois como um homem em um navio. Mas aquele pode ou não ser ele. Assim como o mundo em que Willey vive pode ou não existir.

Norteado por esse e outros princípios, o trajeto desse personagem é potencialmente perigoso, tanto do ponto de vista humano quanto do viés cinematográfico. Ao abordar temas tão universais pautando-se na imagem fantasiosa, o diretor lida com pensamentos angustiantes que todos teimam em salvaguardar nos sótãos escuros e empoeirados de suas consciências. Aquela consciência que fere, que impede a ingnorância e que lacera compulsoriamente as relações humanas, seja no amor, seja na amizade. Porque ter consciência é, acima de qualquer coisa, um fardo. Cinematograficamente falando, Linklater poderia incorrer no erro de reduzir tudo a uma colagem de imagens bonitinhas, sem um arremate final. De fato, manter a unidade não parece ter sido uma de suas preocupações ao dirigir o filme. Mas cada uma, de alguma maneira, contribui para o resultado envolvente do todo.
Nessa grande brincadeira chamada Waking life (algo como "caminhando pela vida"), há espaço também para uma boa dose de metalinguagem, através da presença de dois atores em versão "animada". São Ethan Hawke e Julie Delpy, que personificam novamente Jesse e Celine, seus personagens em Antes do amanhecer, que rendeu uma sequência anos depois, Antes do pôr-do-sol. Nos dois filmes, a palavra tem importância notável, pois é através dos diálogos entre os protagonistas que a trama evolui. Assim também acontece com Waking life. Seu roteiro prima pelos longos diálogos, que facilmente conduzem à reflexão de que nada é duradouro o suficiente na vida, exceto a certeza de que, quanto mais vivemos, mais temos a aprender. Com Willey, o público também enxerga a falta de sentido da vida, que rende discussões intermináveis, que normalmente não chegam ao lugar algum.
Longe de parecer voltado para uma "filosofia de botequim", atividade que tem lá sua vantagem e não deveria ser vista com tanta pejoratividade, as reflexões de "Waking life" levam o cinema ao patamar da análise psicanalítica, mediado pelos delíros individuais de Willey, e que também podem ser os seus e os meus delírios. Nem tudo o que se vê e se ouve na tela precisa ser necessariamente compreendido. Como diria Camões, quanto mais ele escrevia, menos ele entendia. E falar longamente talvez seja apenas uma entre tantas maneiras de mitigar nossas chagas da dúvida, que nunca deixam de nos perseguir.