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terça-feira, 22 de outubro de 2013

Contos da noite e o poder criativo do Cinema

O traço minimalista é um dos elementos que mais deve chamar a atenção do espectador de Contos da noite (Les contes de la nuit, 2011), animação encantadora assinada por Michel Ocelot. Sua primeira imagem é a fachada de um cinema antigo, dentro do qual estão os protagonistas, um termo não muito adequado para classificá-los, já que eles estão sempre mudando de identidade. Ali, um senhor e dois jovens imaginam diversas histórias às quais eles mesmos dão vida, recorrendo a lendas e mitos de partes diferentes do mundo. Basta uma leve adaptação aqui e ali para seis contos que prendem a atenção justamente pela simplicidade com que são contadas. E todas são amarradas por um elemento em comum, que soa como um ingrediente fundamental para narrativas memoráveis: a coragem de um homem cuja conduta proativa detona uma ação que impulsiona o seu andamento.  

Para além desse elo, todas são apresentadas com um visual muito interessante, por assim dizer. Ocelot se decidiu por traçar apenas as silhuetas dos personagens e, com isso, destacar os cenários, sempre multicoloridos e, portanto, de encher os olhos. Da imaginação e do conhecimento dos três simpáticos amigos, surgem tramas ambientadas em reinos dourados, florestas tropicais, savanas e outros recantos em que a natureza e a arquitetura se revezam para garantir um deslumbrante espetáculo. A estrutura de Contos da Noite é tão simples quanto seu visual: em apenas 84 minutos, o roteiro escrito pelo próprio Ocelot se alterna entre as pesquisas do senhor e dos jovens e a encenação das histórias que eles encontram. Nesse sentido, não há nada de extraordinário na animação, mas esse é justamente o seu charme: sua simplicidade convicta.


Essa é a primeira experiência do realizador com o 3D, mas ele se utiliza da mesma fórmula de seus trabalhos anteriores, que é justamente essa costura de diferentes narrativas provenientes de um grupo de personagens imaginativos. Para quem não conhece nada sobre seu currículo pregresso, ele também dirigiu Kirikou e a feiticeira (Kirikou et la sorcière, 1998) e As aventuras de Azur e Asmar (Azur et Asmar, 2006). São poucas obras até aqui, mas ele vem se afirmando como um remanescente da animação tradicional, a exemplo de Hayao Miyazaki, por mais que tenha feito uma concessão à tecnologia mais recente no filme em análise. Contos da noite se mostra, sobretudo, como um elogio genuíno ao poder criador do Cinema. Não há muitos detalhes sobre os amigos que conduzem e encenam as histórias, mas fica nítido que ambos são cinéfilos incorrigíveis que amam não somente estar diante da tela, mas ser parte da ação e do ambiente.

É justamente por conta desse aspecto que o filme tem longo alcance, ainda que a observação faça pensar que se trate de uma produção específica para cinéfilos. Mesmo porque, o Cinema tem a capacidade de dialogar com várias plateias, sem qualquer restrição de idade, tempo ou lugar. As histórias encenadas pelos amigos também evidenciam um princípio básico para a fruição de qualquer arte: a suspensão da descrença, que traz consigo a completa imersão no enredo testemunhado, a ponto de surgir uma identificação tal entre público e personagem que, a certa altura, nós somos os personagens. A fronteira entre realidade e ficção, que já é tênue por si só, é completamente rompida nesse processo de aproximação e, por fim, de fusão. Nisso reside boa parte da beleza da Arte, uma necessidade que precisa ser extravasada por qualquer pessoa, desde o mais simplório representante das camadas populares, de idas raras a uma sala de cinema ou leituras de romances até o mais intelectual e erudito, com todas as implicações políticas e ideológicas que esses termos e caracterizações suscitam.

9/10

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