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terça-feira, 15 de outubro de 2013

Gravidade, pura tensão no espaço sideral

A doutora Ryan Stone (Sandra Bullock) se encontra em sua primeira missão espacial. Médica experiente em solo terráqueo, ela experimenta passar dias além da estratosfera junto com Matt Kowalski, astronauta igualmente gabaritado cujo senso de humor insistente denota intimidade com aquele ambiente onde o som não se propaga. Os dois estão ali para fazer reparos no telescópio Hubble, mas o silêncio sideral não rima com tranquilidade, e uma chuva de destroços está para alcançá-los, o que os lança em uma espiral de tensão crescente. Essa é a premissa de Gravidade (Gravity, 2013), nova investida de Alfonso Cuarón no terreno da ficção científica. Ele também é o nome por trás de Filhos da Esperança (Children of Men, 2006), injustamente menosprezado em seu lançamento e que hoje segue como um pequeno tesouro a ser (re)descoberto. 

Seu retorno ao gênero, contudo, é ainda melhor que a primeira empreitada. Tal afirmação se mostra verdadeira logo no plano de abertura, que rouba o fôlego do espectador ao arremessá-lo para muito além dos confins da Terra. Nosso planeta é visto em contraste com o breu da imensidão do universo, que transforma tudo em poeira cósmica, inclusive os humanos. Ryan e Matt são agulhas no palheiro que, a partir de determinado momento, apenas lutam para garantir um pouso seguro de volta. É quando a tensão invade a narrativa minimalista e os instantes de alívio cômico, produto das tiradas de Matt e que já eram rarefeitos, desaparecem de vez. Nesse sentido, Gravidade passeia por três gêneros ao longo de sua duração: é casado com a ficção científica, mas corteja o drama e flerta com o suspense. Essa alternância se faz sutilmente e tem efeitos positivos sobre a estrutura do longa, que conta apenas com Clooney e Bullock em cena. Além deles, somente uma voz de comando que alerta sobre o fragmentos de um satélite recém-destruído vindo na direção dos astronautas.

No que tange ao seu aspecto de ficção científica, Gravidade é um espetáculo ímpar. Efeitos visuais de ponta redobram a angústia de Ryan, à deriva no espaço com os problemas que se somam depois do incidente com os destroços. Por conseguinte, a plateia é desafiada a permanecer em mero estado de contemplação e com ritmo cardíaco inalterado. A sucessão de entraves e desventuras exigem pensamento rápido da personagem, que luta contra o tempo para não perder todo seu oxigênio e precisa se agarrar à primeira estação espacial que encontrar pelo caminho ermo. Em determinado momento, ela gira descontroladamente, ainda em uma posição de dependência de Ryan, e seu temor pode acabar sendo o temor do público. Não faltam a essas sequências demonstrações da perícia técnica de Cuarón - sem desmerecer os vários nomes envolvidos no projeto, ele é o grande nome por trás da história. Também autor do roteiro, escrito em parceria com seu filho, Jonás, ele aposta em pouquíssimos elementos cênicos e atinge um elevado patamar de tensão com essa proposta.


Sobre ser também um drama e um suspense, o filme dá inúmeras provas desse olhar e levanta questões simples e atemporais como o valor da vida e os limites a que uma pessoa pode ser exposta sem desistir da luta. Estamos diante de um enredo que polariza entretenimento e reflexão de forma exemplar, sem que a sua porção mais acessível represente qualquer demérito. O Cinema é totalmente válido como experiência para todos os sentidos, não somente a visão e a audição, e Gravidade permite essa possibilidade altamente desejável. O mérito também está com seus intérpretes, em fina sintonia dramática. Clooney exercita seu carisma nato injetando uma tranquilidade desconcertante a Matt, além de trazer alguns sorrisos de canto de boca ao fazer seus tais comentários irônicos. Por sua vez, Bullock está no papel de sua vida, superior ao de Um Sonho Possível (The Blind Side, 2009), seu único Oscar de atriz até aqui. Não faltam cenas em que ela brilha solitária, desafiando as circunstâncias adversas e carregando consigo alguns dos belos simbolismos do filme. Sem falar em sua notável forma física, vista lá pelas tantas quando sua personagem se desfaz temporariamente da roupa de astronauta.

Gravidade fez surgir comparações com 2001: Uma Odisseia no Espaço (2001: a Space Odyssey, 1968), que não deixam de fazer sentido. Como Kubrick, Cuarón exibe um perfeccionismo traduzido na atenção aos detalhes e na fidelidade à ciência, por mais que a ala xiita dos entusiastas do falecido realizador veja essas aproximações como heresia ou sacrilégio. Ainda pensando comparativamente, se o clássico tem ares de tese de doutorado sobre a história da civilização e seus rumos, o neoclássico - permitam-me ser profético - é eficiente em produzir catarse e sobrecarregar as glândulas suprarrenais (nossas produtoras de adrenalina) como poucos de seu naipe. Entretanto, ambos os filmes têm o seu espaço e o seu valor, e não cabe o raciocínio tacanho de elogiar um em detrimento do outro, apenas salientar seus pontos de contato e de dispersão. Mesmo porque, 2001 tem lugar cativo entre a maioria esmagadora dos cinéfilos há tempos. E, sem dúvida e sem medo do exagero, este trabalho de esteta assinado por Cuarón faz por onde garantir o seu lugar no panteão das grandes obras cinematográficas.

9/10

3 comentários:

  1. Achei a nota bem generosa pra um filme de roteiro tão raso. Acredito também que você deu uma viajada, principalmente, nesse período "...Cuarón exibe um perfeccionismo traduzido na atenção aos detalhes e na fidelidade à ciência...". Apesar do filme ser bem bonito visualmente, tem muita coisa ali pouco fiel à ciência e que ultrapassa, e muito, o limite do razoável. Algumas revistas fizeram vários apontamentos acerca do invencionismo científico de Cuarón. Fora a beleza do cenário de Gravidade, a obra não tem mais nada de interessante e acredito que uma nota 7 estaria de bom tamanho pelo trabalho técnico que o filme trouxe. Apesar de que eu ainda prefiro assistir documentários referentes ao espaço que também retratam uma boa fotografia (e real...), só que sem exageros e clichês dramáticos, como os trazidos por este filme. Me surpreendo também com o fato de algumas pessoas alegarem uma tensão absuuurda durante todo o filme. Não consigo entender como alguém fica tenso com cenas repetidas mesmo sabendo como o filme irá terminar já nos seus 30 primeiros minutos. Enfim, parece que a comunidade cinéfila estava realmente carente de um filme com visual encantador e esqueceu completamente dos outros inúmeros atributos que compõe uma película.

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  2. Maria,

    agradeço pela visita e pelo comentário, mas discordo de alguns pontos em que você tocou.

    De fato, o filme não obedece a algumas leis da Física, mas também segue algumas delas. Há, pelo menos, duas cenas que comprovam essa tese: os momentos em que Ryan gira sem rumo pelo espaço, justamente pela ausência de gravidade, e a sua dificuldade em se equilibrar de pé quando chega à superfície do nosso planeta.

    Eu senti tensão do começo ao fim da história, e acredito que, para tal, é preciso se deixar levar pela experiência sensorial e aflitiva que o roteiro propõe, e fico muito feliz por ter conseguido isso, o que também não significa que eu seja mais capaz do que você ou qualquer outro espectador, apenas que o filme funcionou comigo.

    Finalmente, Cinema é imagem e, nesse sentido, Gravidade também é um excelente filme, já que faz uso do visual de maneira espetacular. O som também é um show à parte. Quanto a roteiro, atuação, direção e tudo mais, é tudo secundário.

    Espero que você volte sempre aqui e continue comentando!

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