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sábado, 21 de janeiro de 2017

QUINTETO DE OURO - JULIANNE MOORE

Qualquer lista de boas atrizes que se preze tem de reservar espaço para Julianne Moore. Essa ruiva autêntica nascida em 1960 na Carolina do Norte como Julie Anne Smith tem uma belíssima estrada percorrida no mundo cinematográfico. Pelo menos uma meia dúzia de filmes de sua carreira é memorável, e sua presença neles é um dos fatores determinantes para essa constatação. Moore é o tipo de atriz que encarna personagens muito distintos sem recorrer tanto a mudanças de visual. Seus já citados fios ruivos já serviram a muitas mulheres às quais deu vida nas telas e, embora a lista apresentada abaixo contenha menos papéis nos quais ela manteve esse visual, Moore ruiva é sempre a melhor pedida.

Como qualquer ser humano, ela também erra de vez em quando na carreira, tendo atuado em uns títulos de gosto duvidoso - eu mesmo passei longe de alguns, mas sinto que não resultaram em algo bom. Quem pode defender, por exemplo, bobagens como Evolução (Evolution, 2001) e Os esquecidos (The forgotten, 2004)? Falhas à parte, vamos nos concentrar no que ela tem de melhor na carreira, afinal essa é a proposta do Quinteto de Ouro! Moore já foi dirigida por nomes incríveis: só com Robert Altman, trabalhou duas vezes, e nenhuma delas, infelizmente, coube nessa lista. Joel e Ethan Coen a recrutaram para O grande Lebowski (The big Lebowski, 1998), e ela não fez por menos, perfeitamente integrada ao universo nonsense dos irmãos. E já rolaram duas parcerias com Paul Thomas Anderson (discípulo de Altman, por sinal), e uma delas ganhou espaço na minha seleção.

É pena que os membros da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas tenham sido tão tardios em reconhecer seu talento com um Oscar, e até mesmo as indicações ainda são parcas. Sua única estatueta veio em 2015 pelo desempenho em Para sempre Alice (Still Alice, 2014), que nem é o seu papel mais extraordinário. Até mesmo em 2003, ano em que foi duplamente indicada - por Longe do paraíso (Far from heaven, 2002) e As horas (The hours, 2002), tiveram a coragem de deixá-la de mãos vazias. Por outro lado, ela é das pouquíssimas intérpretes já premiadas nos três maiores festivais de cinema do mundo: Cannes, Veneza e Berlim. Até aqui, já deve ter ficado claro que Moore é uma das minhas atrizes prediletas. Se não tinha ficado, agora não resta dúvida... Vamos aos meus cinco mais com ela (em ordem cronológica)!

1. Magnólia (1999), de Paul Thomas Anderson


Linda Partridge se casou por interesse, até que um dia a ficha caiu e ela percebeu que a indiferença se transformou em um sentimento de perda devastador. A inevitabilidade da morte de seu marido, idealizador de um célebre e longevo programa televisivo, a perturba e as faz dizer palavras desagradáveis. Mesmo com pouco tempo de cena - o filme passa das três horas de duração e ela não deve aparecer nem quarenta minutos, Moore abocanha a personagem com toda a voracidade, usando uma maquiagem que não encobre tanto suas sardas e ressaltando a natureza perdida de Linda. A tal "liberdade" que está por vir com o falecimento de Earl não é mais do que uma sentença de desespero e, como os demais integrantes desse "filme coral", ela está à procura de um rumo. Levou o Globo de Ouro de atriz coadjuvante pelo papel.

2. Longe do paraíso (2002), de Todd Haynes


Outro cineasta com quem ela já trabalhou mais de uma vez foi Todd Haynes. Até hoje não vi o primeiro encontro do dois, mas duvido de que tire o segundo do posto de minha colaboração preferida entre eles. Na pele de uma dona de casa que tipifica os anos 50, com sua aura idealizada pela qual o próprio cinema leva boa parte da culpa, ela deixou temporariamente a ruivice de lado e exibiu um rosto que realmente parece daquele tempo. Resignada, Cathy Whitaker procura manter a rotina de organizar festas para a alta sociedade enquanto seu mundo particular vai desmoronando. É uma linda homenagem de Haynes ao melodrama, especialmente a Douglas Sirk, de quem muitos cinéfilos sabe que ele é fã declarado. Sua Coppa Volpi de melhor atriz em Veneza foi conquistada por esse esplendoroso trabalho.

3. As horas (2002), de Stephen Daldry


Cada atriz do trio principal desse filme merece ser considerada em listas individuais. No Quinteto de Ouro dedicado a Meryl Streep, As horas estava presente, e quando eu fizer uma homenagem a Nicole Kidman certamente esse filme vai aparecer de novo. É interessante notar que Moore rodou As horas no mesmo ano em que Longe do paraíso e os dois filmes guardam semelhanças, a começar pelo fato de que Laura Brown, assim como Cathy Whitaker, é uma dona de casa da década de 50. Porém, há uma diferença crucial entre ambas: Laura desafia o modelo de sua época e cede ao impulso que a inquieta. Sua postura é influenciada pela leitura de Mrs. Dalloway, que Virginia Woolf escrevia lá nos anos 20 e refletia o fluxo de consciência de uma mulher deslocada. Atuando sobretudo com os olhos - dos mais expressivos do cinema - Moore demonstra imensa empatia com alguém que nos parece tão diferente dela. O júri de Berlim gostou tanto que a premiou.

4. Ensaio sobre a cegueira (2007), de Fernando Meirelles


Podem acusar o segundo produto da carreira internacional de Meirelles de muitas coisas, e várias dessas acusações têm fundamento. Mas não venham me dizer que Julianne Moore está menos do que fantástica na pele da Mulher do Médico. Sua aparência poucas vezes esteve tão vulnerável, e ela carrega consigo o fardo de ser a única capaz de enxergar. "Se podes ver, repara", diz o livro de José Saramago no qual o longa fincou suas bases. E ela repara mais do que gostaria. Testemunha ocular da estupidez humana, a personagem jamais nomeada, como os demais que habitam a narrativa, ela segue caminhando apesar dos pesares, e Moore deixa os sinais do tempo à mostra em sua pele, no rosto cansado e nos cabelos quase sem cor. Brincalhona, ela comentou em entrevista à epoca de lançamento do filme: "Tive sorte porque os outros atores que desempenharam papel de cegos tiveram que trabalhar muito mais que eu!".

5. Mapas para as estrelas (2014), de David Cronenberg


Um encontro e tanto esse de Moore e Cronenberg. Suas carreiras iam muito bem, obrigado, correndo em paralelo, até que se encontraram em um filme incendiário, como um dos cartazes dá conta de mostrar. Sua Havana Segrand é mais uma prova do quanto ela pode transitar por tipos tão opostos sem perder a credibilidade, e foi o trabalho pelo qual levou o prêmio de interpretação feminina em Cannes. Enquanto a Mulher do Médico tem a clareza do que está ao seu redor, Havana só tem olhos para si mesma, chegando ao cúmulo de pular de entusiasmo diante da notícia da morte de um concorrente ao papel que estava disputando. Escrachada, é capaz de dizer as palavras mais horríveis e expor os conceitos mais abjetos como se estivesse dando a receita de um bolo, resultando em uma das personagens mais atraentes de sua carreira. Encontrar alguém como ela na vida real é péssimo, mas na cena dramática Havana é uma piscina cheia na qual Moore nada de braçada.

sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

O espetáculo multicolorido de La la land: cantando estações

Musicais frequentemente são acusados de falta de compromisso com a verossimilhança. Pudera. Onde já se viu gente cantando e dançando alegremente sem mais nem menos no meio da rua? É característica do gênero esse tipo de situação, e com La la land: cantando estações (La la land, 2016) - vencedor do Globo de Ouro nas sete categorias em que foi indicado - não é diferente. Mas o diferente é superestimado. Algumas lições e cenas merecem ser repisadas muitas e muitas vezes, porque sempre haverá alguém precisando ser lembrado delas. Aqui, o amor e o sonho dão o tom e a paleta multicolorida empapuça as retinas para apresentar um recorte da trajetória de Mia (Emma Stone) e Sebastian (Ryan Gosling), cada qual perseguindo sua quimera em uma Los Angeles atemporal, com referências à Hollywood clássica, uma fábrica de ídolos que fez a cabeça de gerações. 

Pois se a verossimilhança não é o forte dos musicais, nem por isso eles devem ser deslegitimados. É apenas uma questão de proposta. No outro extremo ficam os documentários, exaltados como "cinema verdade", mas que não deixam de ser um olhar conduzido, com direito a roteiro também. Para muitos, tal constatação soa óbvia, mas esse tipo de confusão ainda está longe de ser raro entre o público. E a tal cantoria típica já aparece na primeira sequência, em pleno viaduto engarrafado, prenunciando o clima de romance que vai permear boa parte da história e deixando uma mensagem no ar: as decepções são parte da caminhada, e nem por isso justificam interrompê-la. Há que se aprender a se refazer dia após dia: as estações passam, nenhum ciclo tem de ser necessariamente igual ao outro.

Mia e Sebastian têm aspirações que ultrapassam os limites aos que vem sendo sujeitos, mas são resistentes às intempéries. Enquanto ela vive atrás de testes para engrenar uma carreira de atriz, ele é um músico purista amante do jazz e almejando mais do que dedilhar canções natalinas em um bar. Como em O fabuloso destino de Amélie Poulain (Le fabuleux destin de Amélie Poulain, 2001), são tempos difíceis para os sonhadores Mia e Sebastian, e as sucessivas portas na cara teriam feito muitos outros jogarem a toalha. Tais ideias surgiram da cabeça de Damien Chazelle, que entrou pela porta da frente de Hollywood com Whiplash - Em busca da perfeição (Whiplash, 2014), em que a música também pulsava com força. Novamente assinando roteiro e direção, ele é daqueles jovens cheios de amores pelo Cinema, com toda a pinta de que cresceu fascinado pelos áureos tempos dessa arte centenária.


Homenagem e citação é o que não falta em La la land. E a mais notável paráfrase do longa, sem dúvida, é a Os guarda-chuvas do amor (Les parapluies de Cherbourg, 1964), clássico cinquentão de Jacques Demy sobre um casal e seu relacionamento atravessado pelas estações. A estrutura adotada por Chezelle é análoga àquele, evidenciando a beleza de um diálogo com uma geração que até hoje ecoa no próprio e cinema e deixa saudade em muitos pelo seu modus vivendi. Foi a década que chegou à sua reta final com os protestos de maio de 68 e Woodstock: os jovens sonhadores estavam com a corda toda, ávidos de transformação, mas o fim da história não é novidade para ninguém. O fim de uma etapa, pelo menos. E, de tempos em tempos, é preciso voltar a sonhar, daí certamente vem o forte apelo de La la land sobre as plateias, já que o cinismo dos anos 2010 cansa e magoa demais.

Outra flagrante homenagem é a Juventude transviada (Rebel without a cause, 1955), representante mais icônico da filmografia de um certo Nicholas Ray, a quem Jean-Luc Godard apontou como sendo o cinema. A passagem na qual o longa é trazido para a narrativa é metalinguagem pura, com saudosismo aos baldes para os personagens e para o público atento às referências. Daí não é absurdo comparar Chezelle e Tarantino e lembrar que cinema também é cruzamento de bagagens e afluir de experiências distinas, que contribuem para o enriquecimento mútuo. Quanto de Mia e Sebastian não existem em vários corações por aí? E o mérito dessa alta identificação também é de Stone e Gosling, afiando um pouco mais a química que já haviam demonstrado ter em Amor a toda prova (Crazy, stupid love, 2011), outra produção que se vale com esperteza do cânone cultivado dentro do gênero, e Caça aos gângsteres (Gangster squad, 2013). Os olhos arregalados dela se encontram com as órbitas discretas dele e é assim que muito mais é dito do que em longos diálogos expositivos.

A problemática do longa está na montagem um tanto descuidada. Cenas que parecem embaralhadas e uma duração um tanto excessiva comprometem parte do resultado, ainda que ele continue sendo embevecedor a maior parte do tempo. Alguns momentos também são desnecessários, seja pela pieguice, seja pela redundância, e um exemplo de cada caso é o monólogo de Mia em um de seus testes para o cinema, e seu retorno ao café onde trabalhava, dessa vez como cliente, agindo com a nova funcionária exatamente como uma outra atriz. Mas ainda cabe um outro elogio: mesmo destoante da realidade a maior parte do tempo, La la land ainda se parece com a vida, uma fábrica de ilusões que não está sempre de portas abertas. Não se pode dizer, portanto, que Chezelle não esteja trilhando um belo caminho como realizador e roteirista, e sua juventude talvez explique parte da prolixidade que acomete a obra, inclusive na reta final, quando o epílogo é insinuado pelo menos três vezes. Parece que só com o passar de muitas estações aprendemos que menos pode ser mais. 

8/10

quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

Animais noturnos, um conto imagético de desencontros

A noite ronda os personagens de Animais noturnos (Nocturnal animals, 2016), segunda incursão do estilista Tom Ford atrás das lentes. Também signatário do roteiro, ele adapta o romance de Austin Wright, que contém uma trama apontada por alguns como sendo atravessada pelo sentimento de vingança. À medida que a narrativa se desenvolve, entretanto, tal observação parece indevida: o que está em jogo aqui parece ser a necessidade de um dos protagonistas de afirmar ser capaz diante de um amor do passado. Existe uma história dentro da história, e é nela que o espectador é imerso a maior parte do tempo, ganhando aos poucos certas informações que permitem entender como era a relação entre Susan (Amy Adams) e Edward (Jake Gylenhaal). 

Até que seja apresentado a ambos, o público tem diante de si uma sequência de abertura um tanto deslocada do conjunto. Fica a pergunta no ar: que significado poderia ter sido atribuído àquelas mulheres? Elas só voltam a aparecer em uma única cena, cuja exclusão da montagem final não teria feito falta para algum tipo de compreensão do enredo. A ideia de vingança, aliás, é empurrada pelo próprio roteiro, no momento em que Susan se dá conta da existência de um quadro que contém justamente a palavra REVENGE (vingança, em inglês), momento esse carregado de um didatismo dispensável. Mas, afinal, o que estaria em jogo em Animais noturnos? Há pouco a dizer sobre a trama sem entregá-la quase totalmente. É a fusão de tempos que a faz um pouco menos óbvia: dois antes e um agora se revezam ao longo de pouco menos de duas horas de sessão.

Susan e Edward foram apaixonados um pelo outro durante certo tempo, até que o relacionamento degringolou e o afastamento se tornou a única opção viável. As dificuldades que minaram a vida a dois não são escancaradas, mas um detalhe importante é acenado: Edward se ressente da falta de crédito de Susan, e seu livro, do qual o filme toma de empréstimo o título, se mostra como um tapa com luva de pelica nessa característica da ex-parceira que tanto o atingia. O problema é que a história narrada no livro ocupa tempo demais, e Susan acaba reduzida à "função" de leitora daquele manuscrito. Gylenhaal tem mais chances em cena porque acumula o papel de Tony, espécie de alter ego seu no livro. A opção por uma outra atriz em detrimento de Adams no papel feminino principal da história não é nada louvável. É sabido o quanto ela é uma intérprete de muitos recursos, e sua presença ruiva encorpa qualquer personagem.


Em mais de uma passagem, o único "conflito" de Susan é a queda do livro, que interrompe sua leitura atenta e leva a câmera para mais perto, em close-ups redundantes que só valem a pena porque estamos diante de um lindo rosto. Enquanto isso, Gylenhaal deita e rola em sequências que exigem de seu físico e reafirmam seu potencial dramático, atestado em títulos como Os suspeitos (Prisoners, 2013) e O abutre (Nightcrawler, 2014). Seu grande companheiro de cena é Aaron Taylor-Johnson, que encarna um tipo intragável e cuja caracterização e atuação aqui fazem lembrar um jovem Sean Penn. O ápice da narrrativa é desencadeado por seu personagem de atos desequilibrados, um convite ao estereótipo do qual Taylor-Johnson, o protagonista franzino de Kick-ass - Quebrando tudo (Kick-ass, 2010) se desvia muito bem. Vale citar ainda a presença de Michael Shannon, especialista em sujeitos não muito convencionais que também dispõe de considerável espaço. Não houve chances igualitárias de brilho para o trio, uma falha muito difícil de passar despercebida. 

Sete anos separam o Ford de Direito de amar (A single man, 2009) do de Animais noturnos e a comparação - aquela tentação à qual estamos sempre sucumbindo - permite notar um certo amadurecimento na sua direção. Ele consegue impor um ritmo à trama que desperta o interesse por acompanhar seus desdobramentos e, no que se refere aos pontos de intersecção com o trabalho anterior, investe outra vez em figurinos deslumbrantres - sua porção estilista, afinal. É uma obra na qual a imagem tem peso, o que, em se tratando de cinema, é qualidade desejável e admirável. As arestas que emergem daqui e de lá denunciam a necessidade de um melhor acabamento no estofo dramático, não exatamente com vistas ao belo. A beleza aqui, aliás, é triste e solitária, como uma noite sem lua.

7/10

quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

Eu, Daniel Blake: uma odisseia da resistência

Resistir é preciso. A frase, carregada de vontade, é intensamente tornada ação pelo protagonista de Eu, Daniel Blake (I, Daniel Blake, 2016), segundo filme pelo qual o realizador Ken Loach foi contemplado com a Palma de Ouro em Cannes. Sujeito pacato e ainda convalescendo de um ataque cardíaco, ele se vê nas garras de um governo burocrático ao extremo, capaz de exigir provas e tarefas estapafúrdias em troca da concessão de um auxílio financeiro durante sua impossibilidade de trabalhar. Muito se falou sobre Aquarius (idem, 2016) - também exibido na Croisette - ser um filme de fortes reverberações políticas, mas este aqui vai ainda mais fundo em questionar um sistema defasado e desumano que coloca um trabalhador em uma espiral de humilhações. Em comum com Clara, porém, Daniel tem o espírito guerreiro. São legítimas ilustrações da expressão "não deixa a peteca cair". 

Mais uma vez, Loach dirige e Paul Laverty escreve - tomara que essa parceria siga firme e forte - a trajetória de um sujeito na contramão das circunstâncias que angaria simpatizantes e defensores que se identificam diante da sua disposição em assumir o posto de estandarte dos desmandos de uma organização nefasta, que lembra muito o horror da burocracia brasileira. É o governo das escrivaninhas, literalmente, que cava uma trincheira entre o cidadão e seus direitos mais básicos, chegando ao cúmulo de vilanizá-lo pelo descumprimento de uma regra absurda: é preciso cumprir 40 horas semanais de procura por emprego, mas não se pode aceitar nenhuma oferta; é uma procura "para inglês ver", os ingleses compatriotas, nesse caso. Daí surge a exasperação na audiência exposta àquele caso que, pasmem, está longe de ser singular. Newcastle, afinal, não parece mais tão longe assim.

O papel é defendido com tarimba por Dave Johns, cuja estrada artística passa pelo stand-up comedy e pela escrita além da atuação. Para o público brasileiro, porém, ainda representa sangue novo, e sua aparência de homem comum é um gancho perfeito para o estabelecimento de uma forte empatia com sua causa que, como já se disse, é a de muitos outros cidadãos. Quem nunca se viu ao menos uma vez pendurado em um telefone com uma musiquinha insuportável à espera de atendimento? E, para piorar, quando a tal musiquinha é interrompida, receber a informação redundante de que todas as linhas estão ocupadas e é necessário esperar o contato de um atendente? Essas e outras situações irritantes formam o périplo de Dan, como é chamado pelo vizinho estrangeiro que tenta fazer a vida com um comércio alternativo de tênis, por assim dizer. Em torno de Dan, parece haver somente pessoas em situação parecida ou pior que a sua, e seu caminho logo se cruza com o de uma jovem também vítima do governo.


O verdadeiro vilão da história é essa tal entidade quase abstrata, da qual todos nos queixamos e a cujas arbitrariedades acabamos por nos curvar. O governo maltrata, retarda, testa, exige, questiona e não oferece uma contrapartida razoável diante de tantos verbos negativos. Mas Dan resiste. Resiste como o Eric (Steve Evets), de À procura de Eric (Looking for Eric, 2009), o Fergus (Mark Womack) de Rota irlandesa (Route irish, 2010), o Robbie (Paul Brannigan) de A parte dos anjos (The angel's share, 2012), o  Jimmy (Barry Ward) de Jimmy's hall (idem, 2014), só para citar alguns homens da galeria construída pelo diretor e seu parceiro roteirista. Não é de se espantar que se transforme em uma espécie de herói, sobretudo quando recorre a uma medida desesperada para atrair atenção para seu caso. É assim, aliás, que Loach reafirma sua veia política, tônica de boa parte de seus filmes, talvez todos, mesmo os mais aparentemente despretensiosos. A rotina de tapeações de Dan encontra paralelo na do personagem de Ricardo Darín em Relatos selvagens (Relatos salvajes, 2014), este em guerra contra a indústria de multas automobilísticas. 

Por sua estrutura tão verossímil e suas interpretações tão orgânicas, Eu, Daniel Blake tem seu título facilmente interpretável como uma triste metonímia. É também a prova de que uma nação dita de primeiro mundo também carrega suas mazelas e não distribui igualitariamente suas riquezas. Com toda a razão, Loach e sua equipe foram ovacionados por 15 minutos após a exibição do filme em Cannes. Ele também é um resistente, com seus 80 anos de vida e uma carreira fílmica que já se tornou cinquentenária. Para além de rótulos de comunismo, capitalismo e tantos outros "-ismos", o roteiro nos lembra que é importante conservar a humanidade, na acepção do sentimento que leva a se colocar no lugar do outro, de ver que ambos estão no mesmo barco e precisam singrar juntos o mar encapelado.

9/10

segunda-feira, 2 de janeiro de 2017

BALANÇO MENSAL - DEZEMBRO

Hora de dar o adeus definitivo ao ano de 2016 no que se refere ao mundo cinematográfico. Seguem abaixo meus preferidos do mês de dezembro acompanhados de pequenos textos, assim como a relação completa de filmes vistos e revistos, entre longas e curtas, e os que considerei melhores em algumas categorias. Feliz Ano Novo!

PÓDIO

MEDALHA DE OURO

O lamento (Na Hong-jin, 2016)


O cinema de horror é formado por obras legendárias, que habitam o imaginário cinéfilo e são citados com recorrência em listas de melhores ou preferidos. Pois o gênero recebeu mais um integrante de peso em 2016 com a realização de O lamento, que acompanha um inspetor da Polícia à volta com uma misteriosa força espiritual que produz estragos na pequena cidade que habita. Indo longe na exposição do mal e suas facetas, o cineasta e roteirista produz imagens acachapantes, como a do ritual de exorcismo liderado por um xamã a quem o inspetor recorre diante da ineficiência dos métodos aos quais está habituado. Some-se a isso uma direção engenhosa, de planos complexos, e estamos diante de um olhar sobre a importância de não ignorar nem subestimar as artimanhas satânicas.

MEDALHA DE PRATA

Nossa irmã mais nova (Hirokazu Kore-eda, 2015)


Desde os tempos da Grécia Antiga existe a discussão sobre a ficção e como é importante estabelecer um conflito para o andamento da narrativa. Afinal, qual interesse haveria em acompanhar uma história em que nada (?) acontece, cujos personagens vivenciam momentos que qualquer um de nós atravessamos dia após dia? Pois foi essa a escolha de Kore-eda, realizador afeito a examinar os meandros familiares com paciência e carinho. Focado em três irmãs de idades próximas que resolvem se aproximar da irmã adolescente que vivia com o pai delas, o drama é pontuado por situações prosaicas, como uma caminhada despreocupada na praia, e o encantamento por fogos de artifício em uma noite de céu escuro. Yasujiro Ozu teria ficado orgulhoso do discípulo.

MEDALHA DE BRONZE

Sinfonia da necrópole (Juliana Rojas, 2014)


Manuel Bandeira, poeta recifense, chamou a morte de A Indesejada das Gentes. Mas é diretamente com ela que Deodato (Eduardo Gomes) e Jaqueline (Luciana Paes) lidam em sua rotina de trabalho. Afinal, são funcionários de um cemitério. A base insólita de Sinfonia da necrópole serve a um enredo de momentos engraçados sem a menor força, mas também dotados de um sentimento muito próximo de um estado de pureza. O rapaz, um coveiro não muito satisfeito com seu ofício, fica mais animado com a chegada da moça, que abraça a missão de revitalizar o lugar em algumas semanas. Juliana Rojas assina seu primeiro filme solo como diretora - depois de suas parcerias com Marco Dutra - e acerta em cheio nas sequências musicais inesperadas, que fazem as vezes dos diálogos que, apenas falados, teriam sido banais.

INÉDITOS

LONGAS

380. Como roubar um milhão de dólares (William Wyler, 1966) -> 7.5
381. Napoleon Dynamite (Jared Hess, 2004) -> 6.0
382. Terra em transe (Glauber Rocha, 1967) -> 7.0
383. O vale do amor (Guillaume Nicloux, 2015) -> 7.5
384. Kubo e as cordas mágicas (Travis Knight, 2016) -> 8.0
385. Os passos (Luigi Bazzoni e Mario Fanelli, 1975) -> 8.0
386. Party girl (Marie Amachoukeli-Barsacq, Claire Burger e Samuel Theis, 2014) -> 7.0


387. Departure (Andrew Steggall, 2015) -> 6.0
388. Deserto (Jonás Cuarón, 2015) -> 8.0
389. Vou rifar meu coração (Ana Rieper, 2011) -> 7.5
390. O lamento (Na Hong-jin, 2016) -> 9.0
391. A economia do amor (Joachim Lafosse, 2016) -> 7.5
392. Os últimos passos de um homem (Tim Robbins, 1995) -> 8.0


393. A garota de rosa-shocking (Howard Deutch, 1986) -> 6.0
394. A vizinhança do tigre (Affonso Uchoa, 2014) -> 8.0
395. Sinfonia da necrópole (Juliana Rojas, 2014) -> 8.0
396. Amor a toda velocidade (George Sidney, 1964) -> 5.0
397. 007 - O amanhã nunca morre (Roger Spottiswoode, 1997) -> 7.0
398. Um dia perfeito (Fernando León de Aranoa, 2015) -> 6.0
399. Nus na noite (Takashi Ishii, 1993) -> 6.0
400. Pessoas, lugares e coisas (James C. Strouse, 2015) -> 7.5


401. Rogue one: uma história Star Wars (Gareth Edwards, 2016) -> 7.5
402. Sete homens e um destino (Antoine Fuqua, 2016) -> 8.0
403. Baccalauréat (Cristian Mungiu, 2016) -> 8.0
404. O último cine drive-in (Iberê Carvalho, 2015) -> 7.5
405. Sully (Clint Eastwood, 2016) -> 7.0
406. Nossa irmã mais nova (Hirokazu Kore-eda, 2015) -> 8.5
407. Entre as pernas (Manuel Gomez Pereira, 1998) -> 6.0


408. Invasão zumbi (Sang-ho Yeon, 2016) -> 8.0
409. Manglehorn (David Gordon Green, 2014) -> 5.0
410. A tartaruga vermelha (Michael Dudok de Wit, 2016) -> 8.0
411. O ato de matar (Joshua Oppenheimer, 2012) -> 7.0
412. Herança de sangue (Jean-François Richet, 2016) -> 6.5
413. A qualquer custo (David Mackenzie, 2016) -> 7.0

CURTAS

A voz mais rápida do Oeste (Erick Kissack, 2014) -> 7.0
Monsieur Pug (Janet Perlman, 2014) -> 6.0

REVISTOS

Um tiro na noite (Brian De Palma, 1981) -> 8.0
Assassinato em Gosford Park (Robert Altman, 2001) -> 8.0
O homem sem passado (Aki Kaurismäki, 2002) -> 9.0
No decurso do tempo (Wim Wenders, 1976) -> 9.0
Viajo porque preciso, volto porque te amo (Marcelo Gomes e Karim Aïnouz, 2009) -> 8.0

MELHOR FILME: O lamento 
PIOR FILME: Manglehorn
MELHOR DIRETOR: Na Hong-jin, por O lamento
MELHOR ATRIZ: Isabelle Huppert, por O vale do amor
MELHOR ATOR: Sean Penn, por Os últimos passos de um homem
MELHOR ATRIZ COADJUVANTE: Judi Dench, por 007 - O amanhã nunca morre
MELHOR ATOR COADJUVANTE: Jeong-min Hwang, por O lamento
MELHOR ROTEIRO ORIGINAL: Na Hong-jin, por O lamento
MELHOR ROTEIRO ADAPTADO: Tim Robbins, por Os últimos passos de um homem
MELHOR FOTOGRAFIA: O lamento
MELHOR TRILHA SONORA: Kubo e as cordas mágicas
MELHOR CENA: A travessia no túnel em Invasão zumbi
MELHOR FINAL: Invasão zumbi