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sexta-feira, 25 de março de 2016

QUINTETO DE OURO: Martin Scorsese

Incensado por boa parte da comunidade cinéfila, Martin Scorsese é um cineasta que entrou na minha vida ainda na adolescência, mas não gerou em mim o efeito desejado em meu primeiro contato com sua obra. Eu deveria ter uns 13 anos quando assisti a Gangues de Nova York - e ainda não o revi -, e terminei a sessão pensando que o diretor talvez tivesse uma fama acima do seu talento. Os apaixonados por sua filmografia terão uma síncope lendo essa confissão, mas acho importante registrá-la porque, muitos anos depois, voltei a encarar um Scorsese e a primeira impressão foi substituída. Estava mesmo diante de um grande realizador, afinal.

Setentão nascido no Brooklyn, ele construiu uma carreira sólida amparada no retrato de sujeitos dados a rompantes, em constante ebulição mental na selva urbana. Na minha seleção de ouro assinada por Scorsese, aparecem alguns títulos que parecem unanimidade, e outros sempre lembrados estão de fora. É uma lista que, involuntariamente, deve causar polêmica pelos ausentes, mas é claro que toda reunião de melhores é sempre subjetiva e temporal. Vamos a ela?

1. Taxi driver (1976)


Uma das primeiras parcerias com Rober DeNiro, aqui intérprete de um taxista irascível e indignado com o sistema implacável que o deixa à margem e o coloca na condição de observador dos privilégios de uma minoria. Amante inábil, é capaz de levar uma pretendente ao cinema para um filme nada romântico ou engraçado, e também desenvolve uma relação de afeto desastrado com uma adolescente que se faz nas ruas. O retrato de um homem que sequer reconhece a si mesmo diante do espelho é um dos maiores acertos na carreira de Scorsese, e já entrou há tempos para a antologia dos grandes do Cinema.

2. Touro indomável (1980)


Mais um encontro com DeNiro, mas um resultado exitoso. Através dos anos, acompanhamos a trajetória de um boxeador que não foge da raia, mesmo que isso lhe custe muitas feridas internas em si mesmo e naqueles que estão ao seu redor. Em um trabalho notável de entrega ao personagem, seu Jake LaMotta vai ganhando quilos (DeNiro realmente engordou para o papel) e ratificando sua personalidade difícil que justificam uma alcunha nada amistosa. As lutas musicadas por Pietro Mascagni são o ápice da fúria em forma de homem.

3. O rei da comédia (1982)


Jerry Langford (Jerry Lewis) está bem servido de fãs quando tem na sua cola um tal de Robert Pumpkin (DeNiro de novo!). Convicto de que tem todas as prerrogativas para galgar degraus e se tornar um comediante de sucesso, ele apronta mil e uma loucuras para cima do apresentador de rádio. A dobradinha entre os atores rendeu maravilhosamente, e ficou sendo a primeira incursão do cineasta no terreno cômico depois de tantos retratos violentos. Escolhido como filme de abertura da edição de 1983 do Festival de Cannes, só reforçou a versatilidade de um diretor com então menos de 10 anos de estrada.

4. Depois de horas (1985)


O pesadelo nem sempre assume a forma de monstros horripilantes ou assassinos com artefatos elétricos. No caso de Paul Hackett (Griffin Dune), o que tira seu sono são as possibilidades cada vez mais remotas de voltar para casa depois de uma noite malfadada com uma garota problemática (Rosanna Arquette). Uma sucessão de incidentes no melhor estilo buñueliano desordena sua caminhada e revelam um Scorsese com um timing invejável, em um de seus trabalhos menos típicos e, ainda assim, um dos melhores. Sabe aquelas histórias malucas que, se contar ninguém acredita? Depois de horas é justamente sobre um punhado delas.

5. O lobo de Wall Street (2013)


Depois de ter atravessado a década de 90 com filmes empolgantes e outros nem tanto, e agora sem a colaboração fiel de Thelma Schoonmaker na montagem, Scorsese retornou com seu novo queridinho, Leonardo DiCaprio. Na quinta parceria com o ator, ele orquestrou uma odisseia desajuizada que nunca perde o fôlego, tal qual os negociantes da Bolsa de Valores e seus telefonemas histéricos. A cena mais emblemática de toda essa doideira é a que traz Jordan(DiCaprio) e Donnie (Jonah Hill) sob o efeito de remédios fora da validade e a versão real do que ocorreu na noite em que eles ficaram chapados. Quem pode duvidar de que Scorsese ainda está em plena forma? 

terça-feira, 1 de março de 2016

BALANÇO MENSAL - FEVEREIRO

Lá vem mais uma relação de filmes vistos no mês... Reunir todos os títulos que compuseram meu cardápio cinéfilo (adoro essa expressão, por isso a uso com tanta recorrência) é uma tarefa prazerosa e cansativa quase na mesma medida. Apesar de um pouco mais curto, fevereiro rendeu em quantidade e qualidade e, a partir desse balanço, dou sequência à numeração de filmes vistos, em vez de começar a contagem do número 1 de novo. Pelo menos no que se refere aos inéditos. Ressalva colocada, serei mais direto dessa vez. Eis o pódio, os filmes todos reunidos e os melhores em algumas categorias logo abaixo:

PÓDIO

MEDALHA DE OURO

Anomalisa (Charlie Kaufman, 2015)



Crítica disponível aqui

MEDALHA DE PRATA

O que eu mais desejo (Hirokazu Koreeda, 2011)




A sensibilidade no trato com a infância é elemento-chave no cinema praticado por Koreeda. Sem arroubos ou timbres agudos, inclusive de trilha sonora, seus filmes apresentam a infância como um genuíno refúgio da inocência, das amizades puras e do olhar em direção à família com ternura e busca por acolhimento. Reunidos aqui, tais elementos servem à história de dois irmãos separados pelas dificuldades financeiras, cada qual morando com um dos pais. O que um deles mais deseja é ver a família toda de novo sob o mesmo teto, e a descoberta de que, no raro cruzamento de dois trens-bala um desejo feito se torna concreto, impulsiona o garoto a ir a uma estação e pedir por essa dádiva.

MEDALHA DE BRONZE

Montanha da liberdade (Hong Sang-soo, 2014)



O Oriente predominou como fonte dos meus preferidos de fevereiro, e aqui está novamente um Sang-soo para ser marcado. Apelidado de Woody Allen oriental (alguns também o associam a Eric Rohmer, duas alusões maravilhosas), ele segue com um maestro que, com as mesmas notas, testa e apresenta milhares de combinações possíveis, afagando os ouvidos com sons maravilhosos. A trajetória de um homem deslocado na Seul contemporânea, revelada em uma estrutura narrativa epistolar, é uma síntese do homem moderno. Foram precisos apenas 60 e poucos minutos para a construção do enredo cativante e seus desdobramentos em ordem cronológica aleatória, resultado do embaralhamento das cartas que explicavam seus passos.

INÉDITOS

LONGAS


48. Love (Gaspar Noé, 2015) -> 5.0
49. Anomalisa (Charlie Kaufman, 2015) -> 9.0
50. Tragam-me a cabeça de Alfredo Garcia (Sam Peckimpah, 1974) -> 6.0
51. Guerra mundial Z (Marc Forster, 2013) -> 6.5
52. Moscou contra 007 (Terrence Young, 1963) -> 7.0
53. Tristana, uma paixão mórbida (Luis Buñuel, 1970) -> 7.5
54. Terra de sonhos (Jim Sheridan, 2002) -> 8.0



55. Céu e inferno (Akira Kurosawa, 1963) -> 7.5
56. O que eu mais desejo (Hirokazu Koreeda, 2011) -> 8.5
57. Winchester '73 (Anthony Mann, 1950) -> 7.5
58. O regresso (Alejandro González-Iñarritú, 2015) -> 8.0
59. O exército do extermínio (George A. Romero, 1973) ->7.0
60. Montanha da liberdade (Hong Sang-soo, 2014) -> 8.0
61. Os noivos (Ermanno Olmi, 1963) -> 8.0
62. Macbeth: ambição e guerra (Justin Kurtzel, 2015) -> 6.0



63. As corças (Claude Chabrol, 1968) -> 8.0
64. Professora sem classe (Jake Kasdan, 2011) -> 5.0
65. O encontro (Oren Moverman, 2014) -> 4.0
66. Um dia no campo (Jean Renoir, 1936) -> 7.5
67. Reflexões de um liquidificador (André Klotzel, 2010) -> 8.0
68. Interior. Leather bar (James Franco, 2013) -> 2.0
69. Cada um vive como quer (Bob Rafelson, 1970) -> 7.0
70. Como sobreviver a um ataque zumbi (Christopher Landon, 2015) -> 7.5
71. Um rei em Nova York (Charles Chaplin, 1957) -> 8.0



72. Os aventureiros do bairro proibido (John Carpenter, 1986) -> 7.0
73. Deadpool (Tim Miller, 2015) -> 7.5
74. À beira do abismo (Howard Hawks, 1946) -> 7.0
75. Sonho (Kim Ki-Duk, 2008) -> 4.0
76. O quarto de Jack (Lenny Abrahamson, 2015) -> 8.0
77. Zoolander (Ben Stiller, 2001) -> 5.0
78. Maus hábitos (Pedro Almodóvar, 1983) -> 6.0


79. Ligações perigosas (Stephen Frears, 1988) -> 7.5
80. Creed - Nascido para lutar (Ryan Coogler, 2015) -> 8.0
81. Elegia da luta (Seijun Suzuki, 1966) -> 7.0
82. Vidas amargas (Elia Kazan, 1955) -> 8.0

CURTAS

Thelastnote.com (Leo Falcão, 2004) -> 6.0
Dossiê Rê Bordosa (Cesar Cabral, 2008) -> 0.0

REVISTOS


Os excêntricos Tenenbaums (Wes Anderson, 2001) -> 10.0
Os sonhadores (Bernardo Bertolucci, 2003) -> 10.0
Cidade dos sonhos (David Lynch, 2001) -> 10.0
Depois de horas (Martin Scorsese, 1985) -> 9.0

MELHOR FILME: Anomalisa
PIOR FILME: Interior. Leather Bar
MELHOR DIRETOR: Hong Sang-soo, por Montanha da liberdade
MELHOR ATRIZ: Brie Larson, por O quarto de Jack
MELHOR ATOR: Leonardo DiCaprio, por O regresso
MELHOR ATRIZ COADJUVANTE: Marion Cotillard, porMacbeth: ambição e guerra
MELHOR ATOR COADJUVANTE: Sylvester Stallone, por Creed - Nascido para lutar
MELHOR ROTEIRO ORIGINAL: Charlie Kaufman, por Anomalisa
MELHOR ROTEIRO ADAPTADO: Alejandro González-Iñárritu e Mark L. Smith, por O regresso
MELHOR FOTOGRAFIA: Emmanuel Lubezki, por O regresso
MELHOR TRILHA SONORA: Montanha da liberdade
MELHOR CENA: O pedido no trem em O que eu mais desejo
MELHOR FINAL: Anomalisa