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segunda-feira, 16 de março de 2015

A outra face, um belo casamento de ficção científica e ação policial

John Woo já tinha uma carreira consolidada em sua China natal quando se envolveu com a missão de dirigir A outra face (Face/off, 1997). De seu currículo, já constavam Bala na cabeça (Die xue jie tou, 1990), pungente retrato de amizades esfaceladas, e Fervura máxima (Lat sau san taam, 1992), igulamente balístico, porém mais voltado para a perseguição desenfreada - esses são apenas dois exemplos de seu talento como realizador. A maior novidade, então, seria lidar com um orçamento mais volumoso e orientar dois atores hollywoodianos em cena, tarefa que desempenhou muito bem, basta assistir ao filme para conferir. Os astros em questão são John Travolta e Nicolas Cage. 

Então ressuscitado depois de um grande apoio de um certo Quentin Tarantino - que o havia escalado para interpretar o Vincent Vega de Pulp fiction (idem, 1994) - Travolta encarnou aqui Sean Archer, agente especial do FBI que tem seu filho pequeno assassinado logo nos primeiros minutos de projeção pelo psicopata Castor Troy (Cage), crime cometido sem qualquer razão aparente, e assim permanece até o fim no roteiro de Mike Werb e Michael Colleary. Desesperado para que a justiça seja feita, Sean gasta anos de sua vida à procura do criminoso, até que surge uma oportunidade tão inusitada quanto tentadora para colocar as mãos no vagabundo: assumir sua identidade para descobrir onde está uma bomba que ameaça Los Angeles. O plano pode ser executado graças ao estado de coma de Castor.

Uma vez assumindo o rosto e incorporando a voz do seu maior inimigo por meio de uma avançada técnica de cirurgia plástica - muito antes de o primeiro transplante facial bem-sucedido ter acontecido de verdade -, Sean tem diante de si o mal encarnado, e precisa conter o ódio que passa a sentir de si mesmo pelo que vê no espelho para dar conta da missão. A essa altura, A outra face já revelou todo o seu potencial, sendo uma eficiente mistura de ficção científica com ação e policial. Os três generos ora se fundem, ora se alternam ao longo da produção, que se estrutura por 137 minutos de narrativa, nenhum deles desperdiçado. 


É sensacional ver dois atores de talento duelando em cena. Ao mesmo tempo, é triste constatar que, menos de duas décadas mais tarde, suas escolhas de papéis não seguiram acertadas, especialmente as de Cage. Sem dúvida, os anos 90 foram os mais profícuos de sua carreira, e ele já tinha um merecido Oscar de melhor ator na estante por seu desempenho memorável em Despedida em Las Vegas (Leaving Las Vegas, 1995) quando filmou A outra face. Ambos têm pouco tempo para convencer o público na pele de seus personagens originais, já que a tal troca de identidade de Sean acontece com pouco mais de meia hora de filme. Apesar de curto, o tempo se mostra suficiente para essa tarefa, e se torna fácil para a audiência exercitar seu ódio pela violência e cinismo de Castor enquanto concentra seus votos positivos para Sean em sua árdua missão, que fica ainda mais complicada quando Castor acorda do coma e toma a mesma atitude de Sean.

Inicialmente, a trama seria ambientada no futuro, o que talvez justificaria melhor o sucesso do transplante. Nem Sean nem Castor apresentam quaisquer sintomas de rejeição ao tecido epitelial estranho, recuperando-se quase instantaneamente das cirurgias. Mas compromisso com a realidade nunca foi obrigação do Cinema, por mais que tramas realistas e amparadas em gente como a gente também sejam dotadas de grande valor. A exemplo de seus trabalhos pregressos, Woo não economiza munição de nenhum dos dois lados, e entrega um produto de qualidade para uma plateia que raramente abria mão de uma boa sessão de cinema. Os tempos eram outros, não havia a possibilidade downloads e, quando os espectadores não iam para o escurinho, as locadoras ficavam lotadas nos fins de semana. Porém, assim como Travolta e Cage não seguiram acumulando sucessos, A outra face permanece ainda hoje como o último grande filme de John Woo.

terça-feira, 3 de março de 2015

BALANÇO MENSAL - FEVEREIRO

O mês mais curto do ano também foi um mês de menos filmes que o normal, como o balanço a seguir mostrará. Por conta de uma viagem de 11 dias, a quantidade de filmes não foi alta, o que não é motivo de reclamação, pois o tempo foi muito bem preenchido com outras atividades. Na reta final, ótimas produções garantiram que fevereiro se encerrasse com muita dignidade. Pude conferir, pela primeira ou segunda vez, trabalhos assinados por Mike Nichols, Mel Brooks, Mario Bava, Alejandro González-Iñárritu e James Gray.

Como passou a ser em janeiro deste ano, a lista dos filmes do mês vem precedida de pequenos parágrafos sobre os três melhores vistos, formando um pódio de ouro, prata e bronze que compartilho com vocês, leitores, abaixo:

PÓDIO

MEDALHA DE OURO


Dia de treinamento (Antoine Fuqua, 2001)

A lei é a que o policial faz. Embasado nessa filosofia apócrifa, Alonzo, personagem de Denzel Washington, mostra para Jake (Ethan Hawke), quase um novato na área, que amizades não existem se qualquer interesse monetário estiver em jogo, bem como que reescrever o código de conduta diante de uma nova ocorrência pode ser a atitude mais corriqueira para homens como ele. Ambos indicados ao Oscar por seus desempenhos, apenas Washington vencedor, eles duelam ao longo de quase duas horas, em um roteiro e uma direção enérgicos. Ainda hoje, o filme mais lembrado de Fuqua, cujo eixo filmográfico passou a ser filmes de ação de qualidade questionável. 


MEDALHA DE PRATA



Operação Big Hero (Chris Williams e Don Hall, 2014)

A primeira frase que vem ao pensamento diante da visão do robozinho Baymax é "eu quero!". Dotado de fofura no mais alto grau, e criado com a intenção de oferecer auxílio médico a qualquer pessoa, o adorável gigante inflável é o personagem animado mais digno de ser apertado desde Totoro. Mas não é apenas por ele que o longa da Disney cativa, mas também por mostrar uma relação terna entre dois irmãos e apostar em coadjuvantes carismáticos, nerds com limitações divertidas que se unem para livrar a cidade em que vivem, megalópole que funde características de São Francisco e Tóquio (inclusive no nome). Por mais que não invente a roda, desperta torcida e mantém entretido do início ao fim.

MEDALHA DE BRONZE

De volta ao jogo (David Leitch e Chad Stahelski, 2014)

Mais um filme recente no pódio e também dirigido em dupla, esse policial estiloso se apoia no carisma de Keanu Reeves, que sabe se valer de um repertório facial sutil para dar vida a um assassino cujo furor é aceso por uma turma de jovens inconsequentes que lhe tiram a mais importante lembrança concreta deixada por sua falecida esposa. Filmado e colorido com igual eficiência, é a prova de que o gênero pode continuar vivo e forte, basta um roteiro bem escrito que capriche nas cenas de confronto e perseguição. As palavras não são tão necessárias, já que as balas dizem muito mais e melhor, sem a necessidade de se conferir se o recado foi mesmo dado. O climão de outros tempos envolve o pacote em papel de presente.

INÉDITOS

1. O jogo da imitação (Morten Tyldum, 2014) -> 5.5
2. Quatro vezes naquela noite (Mario Bava, 1972) -> 2.5
3. Lembranças de Hollywood (Mike Nichols, 1990) -> 7.5
4. De volta ao jogo (David Leitch e Chad Stahelski, 2014) -> 8.0
5. Banzé no Oeste (Mel Brooks, 1974) -> 7.0
6. O menino e o mundo (Alê Abreu, 2013) -> 7.5
7. Livre (Jean-Marc Valée, 2014) -> 7.0


8. Namoro ou liberdade (Tom Gormicam, 2014) -> 6.0
9. Operação Big Hero ((Chris Williams e Don Hall, 2014) -> 8.5
10. Birdman ou (a inesperada virtude da ignorância) (Alejandro González-Iñárritu, 2014) -> 6.0
11. Força maior (Ruben Östlund, 2014) -> 8.0
12. Sem escalas (Jaume Colett-Serra, 2014) -> 7.0
13. Foxcatcher (Bennett Miller, 2014) -> 8.0


14. I origins (Mike Cahill, 2014) -> 7.0
15. O destino de Júpiter (Larry e Andy Wachowski, 2014) -> 3.0
16. Débi e Lóide 2 (Bobby e Peter Farrelly, 2014) -> 7.0
17. Acima das nuvens (Olivier Assayas, 2014) -> 7.0
18. Dia de treinamento (Antoine Fuqua, 2001) -> 8.5
19. Sex tape - Perdido na nuvem (Jake Kasdan, 2014) -> 4.0
20. Interestelar (Christopher Nolan, 2014) -> 6.0
21. Pura adrenalina (Wes Anderson, 1996) -> 7.0
22. Pelos olhos de Maisie (Scott McGehee e David Siegel, 2014) -> 7.5

REVISTOS:

Amantes (James Gray, 2008) -> 10.0
Intocáveis (Olivier Nakache e Eric Toledano, 2011) -> 9.0
Meu amigo Totoro (Hayao Miyazaki, 1988) -> 9.0

MELHOR FILME: Dia de treinamento 
PIOR FILME: Quatro vezes naquela noite
MELHOR DIRETOR: Bennett Miller, por Foxcatcher
MELHOR ATOR: Steve Carrel, por Foxcatcher
MELHOR ATRIZ: Juliette Binoche, por Acima das nuvens
MELHOR ATRIZ COADJUVANTE: Emma Stone, por Birdman ou (a inesperada virtude da ignorância)
MELHOR ATOR COADJUVANTE: Ethan Hawke, por Dia de treinamento
MELHOR ROTEIRO ORIGINAL: Ruben Östlund, por Força maior
MELHOR ROTEIRO ADAPTADO: Carrie Fischer, por Lembranças de Hollywood
MELHOR FOTOGRAFIA: Fredrik Wenzel, por Força maior
MELHOR CENA: John assistindo o vídeo na TV em Foxcatcher
MELHOR FINAL: Força maior