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domingo, 29 de janeiro de 2012

Leves dúvidas sobre a existência em Onde está a felicidade?


Estigmatizadas por grande parte dos apreciadores de um cinema complexo ou cerebral, a comédia pode render bons filmes, e é sempre válido conceder uma chance a elas. Por isso, Onde está a felicidade? (idem, 2011) deve ser visto antes de se pensar nele como uma obra descartável. A indagação presente no título está longe de ser respondida objetivamente, para alívio ou desespero da plateia. O que Carlos Alberto Riccelli, diretor do longa, promove, é um passeio divertido e multicolorido pela vida de Teodora (Bruna Lombardi), mais conhecida como Teo, a apresentadora de um programa televisivo de gastronomia. Aparentemente, ela nada na mais completa estabilidade, tanto profissional quanto pessoalmente. Aí reside o problema: é apenas aparentemente. Seu mundo cor-de-rosa vira de cabeça para baixo com a descoberta da traição do marido Nando (Bruno Garcia), bem como de que seu programa não anda muito bem de audiência. A conjunção de fatores a leva a tomar uma decisão revolucionária para os seus padrões: fazer o famoso Caminho de Santiago.

Como se comentou inicialmente, trata-se de uma comédia, o que leva os rumos da narrativa para sorrisos e algumas gargalhadas, no estilo saudável do termo. Onde está a felicidade? flerta bem de perto com a gramática mais comercial e se configura como um filme redondo, cujas arestas são bem podadas e levam à conclusão de que é uma obra sem grandes pretensões, para sair do cinema com a cuca fresca. Demérito? Eis um termo que até pode ser aplicado ao filme, mas há que considerar que uma boa parcela do público pode se agradar da proposta do diretor. Pode-se dizer, na verdade, que ele ocupe uma posição limítrofe entre o ótimo e o regular. Em outras palavras, não é maravilhoso, mas também não é ruim. E tem alguns detalhes que o engrandecem como cinema, especialmente a citação notável a Almodóvar, o mestre da policromia cinematográfica. Cada cenário, cada figurino e algumas situações remetem ao estilo do realizador espanhol, caracterizando-se como homenagens oportunas. Entretanto, é bom que fique claro que Riccelli não brinca de copiar Almodóvar, mas emula o seu arsenal de particularidades de modo interessante.

A propósito, uma comparação rápida entre esse o filme anterior do brasileiro, O signo da cidade (idem, 2007), demonstra que versatilidade não lhe falta, para o melhor ou para o pior. Aliás, ambos os filmes valem, antes de mais nada, pela possibilidade que oferecem de diálogo com os outros. No filme de 2007, Riccelli investiu em uma estética mais obscura, remetendo aos painéis de Robert Altman. No filme de 2011, apostou em uma comédia ensolarada que fala de perto com um público amplo, sem resvalar para a baboseira. As entrelinhas de Onde está a felicidade? estão impregnadas dos questionamentos que todos fazemos sobre a existência. Existe um caminho ideal para ser feliz? Somos totalmente responsáveis pela nossa própria felicidade e pela de quem está perto de nós? Sempre despojado da obrigação de dar uma resposta fechada a essas perguntas, o filme vai dando o seu recado de forma simples e agradável, mesmo que pouca coisa permaneça após o fim da sessão. Por conta dessa espécie de hibridismo, ele dividiu opiniões desde o início de sua carreira. Ao ser exibido no Festival de Paulínia, que vem ganhando renome e prestígio a cada ano que passa, o filme levantou o questionamento sobre o espaço que seria devido a obra de apelo marcadamente comercial. Em um reduto de filmes mais alternativos, este soaria deslocado.



Discussões à parte, o fato é que o filme merece uma chance, devendo ser visto sem a capa dos pré-conceitos que enviesam o relacionamento com uma obra, seja ela do tipo que for. O cinema, afinal, é feito de instantes de reflexão e também de diversão, e Onde está a felicidade? consegue equilibrar, de certa maneira, os dois lados. Bruna Lombardi é a principal responsável por encher a tela de brilho, mostrando que também tem um bom timing cômico, que também se traduz em sua escrita, já que ela é roteirista do longa. Apesar de faltarem diálogos memoráveis, existem cenas que chamam a atenção pelos conceitos que trazem embutidos a ela. Como a que brinca com os estereótipos masculinos, trazendo um homem muito educado que é confundido por outro personagem como homossexual. Será que homens não podem ser gentis uns com os outros? O roteiro também é feliz ao trazer como amiga da protagonista. Na pele de Aura, María Pujalte oferece vários momentos hilários para a trama, dando alguns conselhos divertidos para Teodora e umas pílulas muito apreciadas pela apresentadora.

O filme também se aproxima de outro que recentemente ganhou os cinemas: Comer, rezar, amar (Eat, pray, love, 2010). Ambos se relacionam por trazerem mulheres em busca de um eixo central para suas vidas, mas Onde está a felicidade? chama mais a atenção pelo visual charmoso e pelas cores quentes. No mais, é aquela velha história: em time que está ganhando, não se mexe. Centrado nessa concepção, o diretor também recrutou Bruno Garcia para o papel que ele sabe fazer melhor, o de abobalhado divertido. Por conta disso, o filme deixa aquela sensação um tanto desconfortável de que, apesar de bom, poderia ter alçado voos mais altos. Sua intenção nunca pareceu ser a de se mostrar uma obra-prima, mas um pouco mais de ousadia e sofisticação no estofo dramático, no fim das contas, teria sido muito benvindo, e a visão geral do filme talvez fosse menos imparcial ou, por que não dizer, em cima do muro.

sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

Atlantic city ou as intrigas secretas de uma cidade grande


Louis Malle nasceu na França, viveu 63 anos e então faleceu. Nesse longo ínterim, dirigiu pouco mais de 10 filmes, alguns dos quais figuram como clássicos indiscutíveis em muitas listas. Atlantic city (idem, 1980) é posterior a quase todos esses clássicos, o que não significa dizer que seja um filme menos importante ou de menos qualidades. Narrado com vigor e destreza, o filme é um dos últimos grandes papéis de Burt Lancaster, intérprete de Lou Pascal, um gângster velho de guerra que lhe rendeu indicações ao Oscar e ao Globo de Ouro. Ele se apegou fortemente às lembranças do passado em que era temido, respeitado e querido por todos, até que o seu caminho se cruza com o de uma simpática e agoniada garçonete chamada Sally (Susan Sarandon), cujo sonho de vida é se tornar crupiê em Monte Carlo.

O encontro entre ambos, porém, não acontece logo. Antes, Lou é apenas um observador do modo charmoso como Sally se apresenta na janela do apartamento defronte ao seu todas as noites. Até que chegue a ela, conhecerá Dave (Robert Joy), que o convence a entrar em negócio de tráico de drogas que dá errado e culmina com a morte do rapaz, que vem a ser o ex-marido de Sally. Ele fugira algum tempo antes com a cunhada, e volta disposto a recuperar o seu amor e o seu carinho, que ela lhe nega. O episódio de contornos trágicos funciona como o ensejo para que Lou, de certa maneira, volte à ativa em seus esquemas no submundo. Subitamente, ele se vê com a missão de salvar a pele da bela garota e, de quebra, intimidar alguns bandidos maus feito pica-paus.



Malle oferece, com Atlantic city, uma deliciosa homenagem aos filmes de gângster, deixando cada minuto de narrativa completamente interessante, o que é fundamental para a qualidade do filme como um todo. A história pega o espectador logo no início, e o deixa cúmplice de Lou e de suas peripécias tão atraentes. O protagonista apresenta indícios de um heroísmo meio tortuoso, sem estar acima do bem ou do mal. Ele é o típico homem na hora errada e no lugar errado que precisa virar a mesa o jogo e dançar conforme uma música cujo ritmo ele já conhece muito bem. E essa dança tem uma bela coreografia pensada por John Guare, responsável também por diálogos espirituosos e muitas passagens de tom jocoso. Os personagens estão longe da caracterização chapada que muitas vezes acomete filmes de boas intenções cujos resultados finais são desestimulantes. Felizmente, o realizador é talentoso demais para cometer esse tipo de equívoco, tendo a parceria com roteirista supracitado para dar conta da tarefa de contar uma boa história. É ótimo ver o grande Lancaster tão à vontade como Lou, quando já se encontrava sexagenário e com grandes personagens no currículo, entre os quais se encontra o Dom Fabrizio de O leopardo (Il gattopardo, 1963), do não menos legendário Luchino Visconti.

Outro grande destaque é a presença luminosa de Sarandon, excelente como Sally e com o adicional de ainda exibir aqui uma fresca juventude. Malle inclusive encontra deixas para mostrar suas curvas com certa discrição, e compartilha com a plateia o encanto de Lou pela sua bela aparência, nas cenas da janela. E sua dobradinha com Lancaster, que não tarda a começar no filme, faz muito bem à narrativa, reforçando a torcida do público para que tudo venha dar certo para o protagonista e ele consiga faturar aquela bela mulher, no melhor sentido do termo. Em sua carreira, Atlantic city obteve vários prêmios, como o Leão de Ouro de diretor no charmoso Festival de Veneza, melhor roteiro e melhor ator pelo Círculo dos Críticos de Cinema de Nova York, todos com muita representatividade na comunidade cinematográfica, de modo geral. É fato que os prêmios não são garantia de que o filme premiado seja bom, haja vista a longa história de injustiças escrita anualmente em vários casos. Contudo, este é realmente um bom filme, que vale a sessão.

Para a plateia contemporânea, o longa pode soar um tanto antiquado por alguns códigos de conduta de Lou, mas isso não é o menor demérito para o filme, que serve, exatamente por essa aura démodé, para apresentar uma história de descaminhos e retornos. O roteiro não chega a ter a complexidade de uma intrincada montanha-russa, mas está longe de ser simplório. É daquelas obras que não subestima a inteligência do público, o que não quer dizer, por outro lado, que invista em um sem-número de reviravoltas. Atlantic city vale pelo seu ótimo roteiro e pelos desempenhos digníssimos de seu elenco coeso, tal qual já se comentou anteriormente. Fica nítido que Malle era um grande diretor de atores, tendo sido capaz de extrair intepretações brilhantes de Lancaster e Sarandon, algo que costumava se repetir em seus trabalhos. Perdas e danos (Damage, 1992) é outro exemplar dessa sua grande capacidade como realizador. No fim das contas, Atlantic city é um filme cujo todo funciona otimamente e chama a atenção pela fluidez, organicidade e qualidade.

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

O calor do amor em Eu receberia as piores notícias dos seus lindos lábios


Ostentando um título comprido e pleno de poesia, Eu receberia as piores notícias dos seus lindos lábios (idem, 2011) é um dos trabalhos recentes do celebrado Beto Brant, aqui associado a Renato Ciasca na direção. Para quem não está ligado o primeiro nome à sua obra, ele é responsável por uma quantidade relativamente grande de filmes, entre os quais os mais conhecidos são O invasor (idem, 2001) e Crime delicado (idem, 2005), que também estão entre suas produções de maior alcance ao público. Ele ainda assinou a direção de histórias mais herméticas e alternativas, como O amor segundo B. Schianberg (idem, 2009), que quase ninguém viu. No longa citado inicialmente, Brant coloca Gustavo Machado e Camila Pitanga em estado de sofreguidão e incendeia seus corpos em evidência com traços de romance, dialogando com certa facilidade com a plateia por conta da universalidade do tema abordado.

Cauby (Machado) e Lavínia (Pitanga) são ao vértices principais de um triângulo amoroso na selva amazônica, que se completa por Ernani (Zé Carlos Machado), o marido dela. Cauby é um fotógrafo. Ela, uma mulher bonita e instável na mesma intensidade. Ernani, um pastor cujo discurso traz elementos persuasivos e verdadeiros. Assim se forma a proposta do diretor: apresentar, por meio de cada personagem, o olhar, o corpo e a palavra, entrelaçando os três de modo sutil e irremediável. Com isso, obteve um hibridismo de sofisticação com simplicidade que responde acima de qualquer coisa pela qualidade de seu filme. Este é um filme sobre as armadilhas da vontade, e sobre a impossibilidade de escolher as consequências dos atos praticados. O enredo quase banal serve de força motriz para a discussão desses tópicos, associado a uma fotografia ímpar que corrobora o tempo todo o olhar aguçado de Cauby e hipnotiza o espectador para a beleza de Lavínia, assim como acontece com o protagonista.

A propósito de Camila Pitanga, a sua interpretação é o maior de todos os trunfos do filme. Na pele de Lavínia, a atriz demonstra uma entrega vulcânica a uma personagem que tem três momentos muito bem demarcados, como se o longa, por conta dela, pudesse apresentar três atos bem distintos. Preste atenção em cada uma de suas fases. Em todas elas, Pitanga impressiona, e exibe o corpo e a alma a serviço de um papel denso e pungente, indo muito além do que já apresentou nas novelas em cujo elenco figurou até hoje. O delírio e a excitação pela vida caminham emparelhados na vida de Lavínia, e é a combinação entre esses dois polos que delimitam (ou tira os limites) dos seus passos, e mantém sua trajetória em constante afastamento e conjunção com a de Cauby. Lavínia é a expressão da desorientação, e alucina o amante com a mesma facilidade que um objeto desejado atiça o desejo de quem sonha com ele. Em Cauby, ela vê a completude do êxtase erótico, ao passo que em Ernani representa o conforto e o consolo das palavras de vida que anuncia e oferece a ela. Caminhante por esses vértices destoantes, a personagem parece incapaz de se decidir.



O filme foi um dos longas selecionados para a mostra competitiva do Festival do Rio em 2011, porém foi contemplado tão-somente com o prêmio de atriz para Pitanga. Foi um reconhecimento justíssimo ao seu trabalho notável, mas o filme poderia também ter recebido tranquilamente os prêmios de direção – em dupla, vale lembrar -, roteiro, montagem e fotografia, de longe as qualidades mais notáveis enxergadas nos filme, depois de Pitanga, obviamente. No Festival de Huelva, na Espanha, Eu receberia as piores notícias dos seus lindos lábios foi laureado com o prêmio de melhor filme, o que também se revelou uma vitória digna. É como se Brant e Ciasca tivessem obtido uma bela alquimia entre sensualidade, amor, desejo, medo, poesia e loucura ao longo dos 100 minutos do filme, cujo transcorrer é totalmente fluido e orgânico. O filme trata dos excessos do coração e da razão, mas não é excessivo. Cada cena e cada diálogo afirma a sua validade e a sua importância de estar presente ali.

Marçal Aquino é o autor do romance no qual o filme foi baseado. No início da obra literária, Cauby narra as desventuras de se viver no submundo enquanto está convalescendo no interior paraense. O submundo é uma referência indireta a Lavínia, cuja beleza portentosa é a razão de seu afeto, seu amor e sua obsessão lasciva. É por causa dela que o fotógrafo aprendeu as regras da atração da forma mais hiperbólica possível. No livro, os fatos são narrados em flashback, em sua maioria, e ajudam a compor um quadro de tragédia na história do trio, que se verifica também no filme. Há espaço, inclusive, para o desempenho admirável de Gero Camilo como o melhor amigo de Cauby e um escândalo envolvendo pedofilia. Não é a primeira nem a segunda vez que Brant se apropria de uma obra de Aquino para levar às telas. Seus dois filmes mais famosos, citados no início desta crítica, também são adaptações de romances do autor paulista. Outro que recentemente usou uma obra sua como fonte foi Marco Ricca, estreando na direção com Cabeça a prêmio (idem, 2010), este de recepção morna entre público e crítica. No caso do filme de Brant e Ciasca, as imagens de tom poético e agoniante que se seguem diante do nosso olhar são, em última instância, a beleza transfigurada.

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

A separação, muitos lados, versões e verdades


Diante de um juiz cuja face jamais é revelada, Simin (Leila Hatami) e Nader (Peyman Moaadi) expõem os motivos que os levaram a divergir fortemente. Ela quer sair do Irã, onde ambos vivem. Ele insiste em permanecer no país para cuidar do pai doente de Mal de Alzheimer. Entre os dois, está Termeh (Sarina Farhadi), a filha de 11 anos que, segundo a mãe, terá condições de vida muito melhores fora daquela pátria. No afã de obter a vitória do seu desejo, cada um deles defende com ferocidade a sua versão e, desde esse início, o espectador se vê cindido pelas muitas verdades que se superpõem no longa de Asghar Farhadi, intitulado A separação (Jodaeiye Nader az Simin, 2011). Um questionamento urgente reverbera por todo o filme: quem está com a razão se ambos apresentam argumentos críveis e razoáveis? Em ritmo de perseguição lenta e diligente a essa resposta, o diretor varre a poeira desértica que encobre inicialmente os personagens e lança o público em uma história fascinante.

Muitos críticos assinalaram o fato de o filme dialogar com qualquer plateia, ainda que seja um exemplar do cinema iraniano. De fato, as questões levantadas aqui vão muito além das fronteiras do país que está sob a chancela violenta e reacionária de Marmud Armadinejad. Tudo é passível de ser debatido sob uma ótica universal, sendo uma história que poderia ter acontecido em qualquer ponto do globo, e essa é uma das razões para que o drama vivido pelo casal em profunda e inesperada dissintonia seja abraçado pelo público com extrema facilidade. Farhadi nunca toma partido: antes, prefere esquadrinhar as demandas de cada uma das partes envolvidas no desacordo e enxergar a humanidade de ambos. Diante da dificuldade de Simin e Nader em adotar uma postura conciliatória, ela sai de casa, e o marido fica com os cuidados com Termeh e o pai doente, fardos bastante pesados para uma única pessoa. É então que ele contrata Razieh (Sareh Bayat), uma mulher resignada e cheia de restrições, que se pergunta, por exemplo, se não seria pecado limpar o senhor quando ele urina na própria calça.

A separação cresce como filme e como história a cada nova cena. Somos impelidos constantemente pelo roteiro original escrito pelo próprio diretor a entender como funcionam as estruturas naquele país. Aos poucos, o que era uma simples divergência ente um casal ganha contornos cada vez mais macroscópicos, em um processo similar em eficiência ao de A missão do gerente de recursos humanos (The human resources manager, 2010). A diferença é que neste último o diretor Eran Riklis parte de um evento de grandes proporções para chegar ao cerne de um homem inquieto com a própria vida. No caso do filme de Fahradi, existe a trama paralela de Razieh, que esconde do marido o seu trabalho de cuidadora do pai de Nader, para que, assim, possa garantir a sua ajuda no sustento da família. A personagem representa o arquétipo da mulher iraniana: calada, temerosa e coberta de tecido dos pés à cabeça, ela tem a vida pautada pelos costumes e exigências de sua religião, sendo vetado a ela até mesmo um toque de outro homem que não seja o seu marido. Por outro lado, Simin é mais livre, usando seu véu muito mais como adorno que como obrigação, e adotando uma postura emancipatória diante da discordância com seu marido. O contraponto entre elas é feito de modo sutil, como a maior parte dos acontecimentos do filme, que, ao final, terão formado um novelo completo.



Para além da necessidade de manter seu emprego em oculto, o qual passa perto de ser assumido pelo seu marido, Razieh lida com uma gravidez que, a certa altura da história, será uma espécie de novo pomo da discórdia entre ela e os outros nomes envolvidos na briga judicial. Trata-se de uma verdade semiencoberta que contribui para que os fatos degringolem ainda mais. Com isso, Fahradi mostra que os atos, sobretudo no mundo adulto, têm sempre consequências, algumas delas imprevisíveis, mas sem recorrer a lições de moral banais. Simin, Nader, Razieh e seu marido erram, mas não é possível reduzir nenhum deles a vilão ou vítima. São pessoas envolvidas com seus próprios atos, antes de mais nada. E a consciência do que se fez de errado, muitas vezes, pode ser aterradora. É uma bela decisão do diretor limar quaisquer traços de maniqueísmo da história, já que tudo se torna ainda mais realista. Ademais, com sua potência dramática, o filme abarca uma série de tópicos propulsores de calorosas discussões, como o peso das omissões e a relativização da verdade em nome da defesa de um ponto de vista individual.

Em sua passagem pelo Festival de Berlim, A separação conquistou o Urso de Ouro de melhor filme e enredou a plateia com sua trama substancial e reflexiva. Feliz atitude do júri da mostra. Premiar um longa tão pontilhado de cenas prosaicas – nem sempre para os padrões ocidentais – e de ensejos para a constatação do talento de um diretor quarentão cujo trabalho pregresso é Procurando Elly (Darbareye Elly, 2009), também laureado no prestigiado festival alemão. Fahradi é o tipo de cineasta no qual os olhos devem estar postos, sempre atentos aos seus próximos passos, a exemplo de outros nomes tarimbados do cenário oriental, tão longe e tão perto de nós simultaneamente. Aparentemente, ele está lançando um olhar meticuloso sobre um microcosmos. Entretanto, essa perspectiva cai por terra quando os vários desdobramentos da história vão se descortinando. O público é reclamado em sua posição de juiz, um papel que cada instante do filme nos incita a executar. Será possível assumir apenas um lado na disputa entre Simin e Nader? O que pensar e como agir no lugar de Termeh quando ela tem de escolher entre pai ou mãe? Razieh agiu de má fé contra o ex-patrão? Em meio a obliterações esmiuçadas em segundos momentos e diálogos pungentes, A separação convida à escolha. Se há uma única que seja a certa, o tempo pode dizer, mas não é uma resposta que se preocupe em dar por aqui. A discussão segue para muito além da exibição dos créditos finais...

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

O palhaço e a luta para conservar a motivação interior


Exaltado pela crítica mesmo antes de entrar oficialmente em cartaz, durante sua exibição em festivais, O palhaço (idem, 2011) é a segunda incursão de Selton Mello na direção de um longa-metragem. A exemplo do que fizera em Feliz Natal (idem, 2008), aqui ele se volta para a introspecção, e oferece uma história cativante sobre a procura pela identidade e pela motivação de um artista do riso em deambulação constante. Benjamim (Mello) é o palhaço do título, que, quando está no picadeiro, atende pelo nome de Pangaré e tem a árdua missão de arrancar risadas de seu público. Ele é apenas um dos integrantes da trupe do circo Esperança, um nome bastante sugestivo para quem está à volta com a necessidade de reencontrar a sua. Seu grande companheiro de cena é o pai, Valdemar (Paulo José), também conhecido como o palhaço Puro Sangue. Ambos são a grande atração do circo, mas vivem momentos conturbados quando estão fora de cena.

O grande acerto de Selton Mello com esse filme é a sua aposta na delicadeza. O diretor conduz as cenas com fluidez notável, e abre mão de certos diálogos, que prefere manter implícitos quase sempre. Diferentemente do seu trabalho anterior, aqui ele também está à frente das câmeras, e sua decisão de se escalar para protagonista também foi acertada. Em meio às nuances de sorrisos e lágrimas represadas de seu Benjamim, ele traduz a angústia de um homem simples e tímido que se questiona o tempo todo sobre quem pode fazê-lo sorrir enquanto ele se preocupa em despertar essa reação nas outras pessoas. Trata-se de um drama profundo que atravessa a sua caminhada e, a certa altura, compromete sua atuação no picadeiro. Mais do que o palhaço, interessa a Mello examinar o homem que se encontra sob a pintura facial que denota alegria a despeito do estado de certa amargura vivido pelo protagonista.

E, nessa busca pelo homem, ele construiu um filme de muita sensibilidade e certa pureza, que dialoga com a plateia pelo que traz de universal, de inerente à condição humana. É sabido que existe um paralelo entre Benjamim e o próprio diretor, que se encontrava desmotivado com a sua arte à época das filmagens. Essa quase depressão do artista teve relação direta com a baixa receptividade do público a Feliz Natal, o que o levou a repensar seu ofício. Felizmente, essa decepção serviu de matéria-prima para O palhaço, e gerou uma espécie de conciliação entre o público, a crítica e Mello, uma unanimidade sempre almejada mas nem sempre alcançada. Ao longo do filme, o diretor se dedica a desconstruir Pangaré e a apresentar Benjamim, sem dar respostas totalmente prontas e investindo com relativa intensidade nas elipses. O protagonista fala muito mais com seus olhares do que com seus lábios. É preciso estar atento a essas nuances de comportamento que determinam suas atitudes (ou a falta delas).



Grandes filmes podem ser assim: valorizadores de passagens silenciosas de diálogos, cuja potência reverbera intensamente. É uma escolha algo arriscada, mas que o realizador brasileiro soube fazer muito bem em O palhaço. Aliás, ele também conseguiu uma harmonia notória entre os componentes do elenco. E essa coesão que o elenco ostenta é fruto, principalmente, de uma vasta gama de pequenas gentilezas feitas pelo diretor durante as filmagens. Em entrevista a um importante veículo de comunicação, o autor da matéria sublinhou a preocupação dele em demonstrar o quanto cada ator é importante para o sucesso do todo, o que incluía recadinhos carinhosos para a equipe e um convite a uma das atrizes cheio de delicadeza. Com muito afeto, o Selton Mello diretor conquista o público e o Selton Mello pessoa conquistou seu elenco, afiadíssimo em seus papéis, alguns até menos óbvios para suas envergaduras físicas, como é o caso da dócil personagem de Fabiana Karla, a quem o cineasta se referiu como uma das grandes atrizes do país, e que faz misérias diante da câmera em instantes fugidios de sua presença.

Há que se destacar a magna interpretação de Paulo José, um mestre no que faz. A sua parceria com Mello é estupenda e rende cenas memoráveis, seja quando eles estão na pele de palhaços, seja quando são apenas Benjamim e Valdemar, envoltos em problemas e mergulhados em tentativas de levar seu ofício à frente. Paulo comove com seu personagem, mas não é uma comoção que rima com pena. Trata-se de um sentimento de empatia profunda que Valdemar desperta no espectador dotado de um mínimo de sensibilidade pelo ser humano. Veteraníssimo, ele sabe atingir nossos corações e produzir encanto e alegria na medida certa. E pensar que, diante da figura quase mítica do ator, Selton Mello hesitou em dirigi-lo, com medo de suas reações. Grande bobagem. Segundo o próprio diretor, ele exibiu uma generosidade ímpar em cena e trouxe boas contribuições ao filme, como quando sugeriu muito sutilmente que Mello interpretasse uma de suas cenas com um pouco mais de contenção.

A princípio, o papel de protagonista tinha sido oferecido a Wagner Moura e Rodrigo Santoro, mas ambos se viram obrigados a declinar do convite por conflito de agendas. Com isso, Mello assegurou sua onipresença no cinema nacional, incluindo mais um personagem marcante à sua vasta galeria de seres humanos notáveis, tanto para o bem – o Leléu de Lisbela e o prisioneiro (idem, 2003) – quanto para o mal – o João Guilherme Estrela de Meu nome não é Johnny (idem, 2007). Em sua condição de palhaço, Benjamim sintetiza o homem inquieto, que precisa cavar poços profundos para reencontrar a motivação interior, renovando-a para ser uma fonte perene. Essa intensa procura se traduz principalmente em um ventilador, que é, por assim dizer, o signo identitário do personagem, ao qual ele se apega como forma de ser alguém no mundo e para o mundo, e não apenas para si mesmo, se é que essa certeza ainda existe. E é assim que O palhaço nos arrebata: economia dialogal por verborragia, sorrisos discretos por risos rasgados, gestos contidos por atitudes exacerbadas.

sábado, 14 de janeiro de 2012

Não me abandone jamais: a vida com prazo de validade



Exemplares de filmes sobre a juventude não faltam no cinema, especialmente quando ela está relacionada a um triângulo amoroso. A junção dos dois elementos constitui um subgênero da sétima arte, e já rendeu obras maravilhosas ou, no mínimo, dignas de muita atenção. Não me abandone jamais (Never let me go, 2010) se encaixa mais apropriadamente na segunda possibilidade, fazendo valer todos os seus 103 minutos de duração. O filme versa sobre a urgência de viver e sobre peso dos erros, valendo-se de Kathy (Carey Mulligan), Tommy (Andrew Garfield) e Ruth (Keira Knightley), que se conhecem desde o final da infância, fase que é mostrada no começo da nrativa. Os três estudam em um colégio que apresenta um pequeno e importante diferencial, do qual eles serão informados abruptamente um pouco mais adiante.

Esse diferencial responde pela sutil inserção de toques de ficção científica no arco dramático do filme, resultando em uma fusão que soa arriscada, mas que dá muito certo por aqui. Esses protagonistas são, na verdade, duplicatas de outros, e foram criados com intuito de doar parte de seus órgãos ao chegar à idade adulta. Uma vez tendo sido descoberto esse propósito de vida pensando para eles por outrem, como viver? De que maneira é possível fazer planos a longo prazo, sabendo que a vida será curta e pouco proveitosa no final das contas? Atravessados por essa angústia, o trio vai se encontrar um no outro, distanciar-se e se encontrar novamente através dos anos, tornando o filme uma reflexão potente e algo dolorida sobre as instâncias da morte que podem rondar um ser humano ao longo de sua caminhada pela vida.

A sensação que parece acompanhar o espectador é a de que, por mais que se viva, nunca se pensa que se viveu o suficiente. Sempre há lacunas deixadas para trás, mesmo que involuntariamente. Nas entrelinhas, Não me abandone jamais apresenta sua linha de raciocínio: viver é sempre urgente e sempre nos parecerá curta e transitória; acostumemo-nos a isso. Não há via de escape para nenhum de nós. Contudo, no caso de Ruth, Tommy e Kathy, essa transitoriedade é amplificada, gerando o desconforto, a angústia e o desespero. Em meio a essa confluência de sentimentos dispostos em gradação, Ruth se mostra um grande óbice ao romance que vinha florescendo entre Kathy e Tommy, interpondo-se entre eles de maneira incisiva e sistemática. Anos mais tarde, quando os três já são adultos, ela estará corroída pelo arrependimento com relação ao seu ato negativo e, em um dos reencontros com o ex-futuro casal, demonstrará a sua procura por redenção. Torna-se curioso pensar nessa culpa de Ruth quando se pensa em sua intérprete. Se em Desejo e reparação (Atonement, 2007) ela interpretava uma jovem vitimada pela calúnia, aqui é ela quem comete um erro e passa a (curta) vida tentando se redimir.



Não me abandone jamais é apenas o terceiro filme de Mark Romanek, que vinha de um longo hiato até chegar a ele. Seu longa anterior é o perturbador Retratos de uma obsessão (One hour photo, 2002), em que redimensionou o potencial dramático de ninguém menos que Robin Williams. O filme de 2010 é um novo acerto de sua carreira ainda reduzida no cinema, embora tenha se iniciado na década de 80. Ele também tem um histórico na direção de videoclipes, tendo sido o nome por trás do clipe de Can’t stop, dos Red Hot Chili Peppers que veio a ser considerado o segundo melhor de todos os tempos. Nada mau para o currículo de alguém, diga-se de passagem. No caso de seu filme mais recente, a estética recortada do videoclipe é aplicada com parcimônia, o suficiente para não transformar a história em uma compilação de fragmentos. A narrativa é linear, embora seja apresentada em flashback, com a voz em off, por vezes, de um dos protagonistas. Com isso, ficamos interessados em saber como a história chegou ao ponto em que foi mostrada no começo que, em verdade, é o fim. Trata-se de um recurso usando abundantemente no cinema, e que frutifica positivamente na maioria das vezes, como é o caso aqui, mas que jamais funciona como qualidade isolada.

Romanek tem nas mãos um elenco jovem fantástico em seu filme. Entretanto, o talento do trio de atores reluz irregularmente. Quem se sobressai de verdade é Mulligan, que transita pelos outros dois personagens na pele de Kathy. É através da sua personagem que o roteiro apresenta as reflexões pontuais sobre o valor da vida e as consequências das escolhas e das atitudes. Aos poucos, ela vem trilhando um caminho de grandes atuações, e está muito perto de se tornar conhecida do grande público com os filmes vindouros que contam com ela no elenco. Drive (idem, 2011), que tem feito uma ótima carreira por onde passa, é um dos exemplos dessa notoriedade crescente. Knightley, por sua vez, poderia ter rendido um pouco mais na pele de Ruth, o que aumentaria o interesse por ela. Seu papel tem grande peso, pois ela é uma espécie de catalisadora das emoções inicialmente contidas de Kahty e Tommy. Se em outros trabalhos ela costuma pecar pelo excesso, aqui seguiu o caminho inverso, sendo eclipsada por Mulligan. Garfield é outro que poderia ter saído mais vezes do piloto automático. Seu Tommy parece sempre apoplético e não se posiciona nunca diante da vida e da disputa cada vez mais franca entre Kathy e Ruth por ele. Não seria nada mal um pouco de intensidade em seu papel.

A base para o filme está no romance homônimo de Kazuo Ishiguro, um grande sucesso de vendas que descreve as situações vividas pelos jovens com riqueza de detalhes, suprimidos em boa parte para caber em pouco menos de duas horas de projeção. A escolha de adaptar o livro é muito benvinda, por toda a sorte de discussões que ele suscita. A principal delas, como já se disse, é angústia da morte rondando a vida. É a morte que nos torna finitos, e é a nossa impotência e total vulnerabilidade diante dela que nos angustia. No caso dos seres humanos normais, já existe o incômodo de saber que um dia ela virá, mesmo que não se saiba quando. Essa ignorância leva a vontade de viver mais e mais. No caso dos protagonistas de Não me abandone jamais, eles não só morrerão como sabem que isso acontecerá muito em breve. Como eles demonstram, ainda que sutilmente, a angústia é redobrada. Principalmente para Kathy, que testemunha as situações-limite de seus amigos e sabe que a sua vez chegará. Na cena final, passada no presente da história, ela olha o horizonte distante e faz sua última reflexão sobre a existência diante de nós. Depois dela, somos impelidos a correr para vida de braços abertos.

quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

O homem que não estava lá e os contrastes entre o óbvio e o bizarro


O humor negro é totalmente caro aos irmãos Ethan e Joel Coen. Em sua carreira, eles priorizam o exame de aspectos inusitados da vida, apresentando leituras muito peculiares de fatos bizarros e de personagens cujas características produzem no espectador a oscilação entre a compreensão e a surpresa. Tem sido assim a cada nova comédia dramática lançada por eles. Imagine agora essas particularidades correlacionadas aos signos mais básicos do cinema noir. O resultado atende pelo interessante nome de O homem que não estava lá (The man who wasn’t there, 2001), e pode, facilmente, ser apontado como um dos maiores acertos cinematográficos do ano em que foi concebido. A mescla de dois gêneros que parecem discrepantes é uma das garantias desse tal acerto.

Ed Crane (Billy Bob Thornton) é o protagonista da história. Ele é um sujeito quieto a maior parte do tempo e trabalha em uma barbearia com três cadeiras, embora só haja dois barbeiros por ali. Seu companheiro de trabalho, em contrapartida, é um grande falastrão, que não se cala até que o expediente termine. Essas informações nos são dadas pela voz em off do próprio Ed, que narra suas vivências para o espectador durante do todo o filme, pontuando com algumas observações comedidas o desenrolar dos fatos que o levaram à sua atual condição, revelada somente nos minutos finais da história. Até lá, uma série de desdobramentos com um quê de improváveis vai recheando o filme. Sabiamente, os Coen abriram mão das cores em O homem que não estava lá, transformando tudo em um curios recorte artístico, em que as ações e as conduta dos personagens chamam muito mais a atenção que os espaços em que eles se encontram.

As pequenas surpresas do filme começam quando Ed descobre que investir em lavagem a seco pode lhe trazer muitos lucros, algo de que é convencido por um cliente da barbearia, um tipo bastante risível. Para o tal negócio, ele precisa desembolsar uma alta quantia. Como não dispõe dela, propõe-se a chantagear seu amigo, de quem suspeita estar tendo um caso com Doris (Frances McDormand, formidável), sua esposa. Em meio a um certo mal-entendido que gera um certo desencontro, ele obtém a tal quantia e entrega ao negociante, esperançoso de começar uma nova vida. Entretanto, esse mesmo dinheiro seria investido em uma grande empreitada pelo seu amigo, que também havia prometido um cargo de contadora a Doris, o qual não vem e a frustra. Trata-se apenas do primeiro de uma série de incidentes que permeia a trajetórias de personagens tão curiosos, ao mesmo tempo distantes e próximos de cada um de nós. É possível se reconhecer neles mesmo que seja pelo caminho da inversão. São pessoas enredadas pelas circunstâncias, mas que agem proativamente diante delas. Contraditório? Não em um filme dos Coen.



O diálogo do longa com a tradição de cinema noir acontece por meio da utilização do já comentado preto e branco, assim como pela presença de personagens de caráter um tanto dúbio, belas mulheres e segredos desvendados ao longo da evolução da narrativa. Mas os Coen se apropriam desses aspectos à sua maneira, levando à reflexão sobre o quanto a vida, muitas vezes, mostra-se vazia de sentido, tal como já tinham feito em seus trabalhos anteriores e voltariam a fazer mais recentemente em Um homem sério (A serious man, 2009). Com toda a diligência de experts no que fazem, eles traçam contrastes entre o óbvio e o bizarro, e brindam o público com sequências e diálogos muito inspirados, fazendo do filme um dos melhores de sua carreira. A dupla sabe muito bem nos maravilhar com maneiras peculiares de abordar seus temas prediletos e, aqui, contam com um talento especial: Billy Bob Thornton.

O ator cinquentão, nascido no Arkansas, é exemplar na composição de Ed Crane. Com um repertório mínimo de expressões faciais, tanto quanto de palavras, ele é a alam de O homem que não estava lá. Suas contatações se dão muito mais por meio de seus pensamentos, resultado de um longo tempo de acúmulos de impressões mordazes sobre sua própria estrada da vida. Nos olhos fugidios, sérios e penetrantes de Thornton, encontra-se a perfeita verossimilhança de um homem resignado diante dos fatos, mas apenas até certa medida. Dois anos depois, ele retomaria a parceria com os Coen no razoável O amor custa caro (Intolerable cruelty, 2003), que poderia não fazer parte do currículo de todos os envolvidos. O grande acerto do diretor e do ator é mesmo no filme de 2001. Por tudo isso, é lamentável que boa parte do público não atente para o seu trabalho magistral aqui, já que o filme passou praticamente batido. Ao menos o Globo de Ouro foi justo ao indicá-lo como melhor ator dramático, mas ele perdeu para Russell Crowe, favorito por Uma mente brilhante (A beautiful mind, 2001).

O filme também vale para conferir Scarlett Johansson ainda bem novinha no papel de Birdy, um apelido que a menina recebeu por sua vocação musical. Ela é o doce mel que apascenta as inquietações de Ed, sempre dissolvido quando em sua presença. A atriz está graciosa e afável aqui, e ainda não chega a lembrar a voluptuosa Nola Rice, que viria a interpretar apenas quatro anos depois no ótimo Ponto final (Match point, 2005). McDormand, por sua vez, é um espetáculo à parte. Esposa de um dos irmãos Coen na vida real, ela encarna com maestria uma mulher algo desolada que cai em uma espécie de armadilha do destino. Os rumos que sua história segue são verdadeiramente inesperados, o que torna toda a trama do filme ainda mais envolvente. É ótimo ver que, ainda que se trate de um exemplo de nepotismo, a presença de McDormand no elenco do filme só lhe faz bem, diferentemente de uma certa pífia Helena Bonham Carter nos filmes de seu marido Tim Burton, com exceção de Sweeney Todd – O barbeiro demoníaco da rua Fleet (Sweeney Todd, 2007).

Com seu desfile de excentricidades, O homem que não estava lá também pode representar uma porta de entrada no universo particular dos Coen. Embora a assinatura da direção caiba apenas a Joel, Ethan também oferece sua colaboração na história, sendo co-diretor e respondendo pelo roteiro juntamente com o irmão. Nessa categoria, aliás, Joel foi devidamente premiado em Cannes, reconhecedora de filmes de verdadeira qualidade, diferentemente do que a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas costuma fazer. Mas isso é assunto para uma discussão mais ampla. Independentemente de prêmios, este é um grande filme, que disputa, em pé de igualdade com Onde os fracos não têm vez (No country for old men, 2007) o título de melhor da dupla, emparelhando-se com ele.

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

As canções: falando de mim, de você e de todos nós



O entusiasmo que se segue ao final de uma sessão de As canções (idem, 2011) é plenamente justificável pelo que é apresentado até chegar a esse momento derradeiro. O novo documentário de Eduardo Coutinho transpira encanto, poesia, vivacidade e realismo, graças a uma vasta coletânea de histórias de pessoas ordinárias, no sentido primeiro do termo, que é comum. Partindo de uma ideia trivial, mas ainda não explorada pelo gênero até então, o diretor toca o coração, desperta o riso e faz refletir. Os depoimentos colhidos têm como esqueleto a seguinte indagação: qual é a música mais marcante da sua vida, à qual se acrescentam outras igualmente pertinentes: por quê? é possível contar o episódio da sua vida ao qual essa música se relaciona diretamente? Essas questões centrais estão sempre subscritas aos testemunhos, e compõem uma geleia geral de causos que apontam para muitos elos comuns a qualquer pessoa.

Coutinho é um paciente ouvinte de histórias. Essa é a maior qualidade e a maior necessidade que um ofício como o seu exige. As pessoas que, voluntariamente, estão ali depondo sobre passagens importantes de suas vidas precisam de atenção e tranquilidade, e ele é exatamente esse tipo de interlocutor. Suas palavras, naturalmente, são esparsas e, quando vêm, jogam luz sobre quem está ali, no palco, contando o que viveu como se estivesse revivendo. O recurso de ambientar as entrevistas em um teatro, aliás, é utilizado pela segunda vez por Coutinho. Ele havia feito o mesmo em Jogo de cena (idem, 2007), sem dúvida, um de seus melhores trabalhos, inserido em uma carreira que já tem mais de 40 anos de duração. No caso de As canções, porém, ele contou apenas com anônimos para concederem seus depoimentos, e conseguiu pessoas muito parecidas com qualquer uma dessas com as quais se pode esbarrar na rua, a qualquer momento.

Como se trata de leigos em música, as vozes e os ritmos nem sempre se encontram quando os depoentes entoam as canções de suas vidas. Mas isso pouco importa. Todas fluem com grande naturalidade, tal qual uma água de nascente desfila serena até a foz do rio de que faz parte. A grande maioria das histórias emolduradas pelas músicas é de sofrimento amoroso. Pode-se dizer que este tenha sido o caso de quase todas as pessoas que contaram sobre parte da vida. Algumas músicas até se repetem em depoimentos diferentes, evidenciando o poder de uma canção e sua abrangência. A grande maioria delas também é um tanto antiga, sendo mais conhecidas por gerações com idade superior a 40 anos, e trazem à tona um pouco do passado musical do Brasil. Em alguns casos, o próprio Coutinho chega a cantar uns trechos, auxiliando os entrevistados mais esquecidos. Por falar nele novamente, um detalhe curioso de sua vida pessoal chama a atenção aqui: faz décadas que ele não ouve música (!). Em se tratando do diretor de um documentário sobre a relevância de canções na vida de pessoas absolutamente normais, a informação é, no mínimo, espantosa. No entanto, ele parece, em alguns momentos, compartilhar do gosto musical de seus entrevistados, haja vista a relativa antiguidade da maior parte das canções, conforme já se comentou.



Merecidamente, As canções recebeu o prêmio de melhor documentário no Festival do Rio de 2011, fazendo reluzir ainda mais o trabalho de um cineasta que se interessa, acima de tudo, pelo humano, e pelo componente que existe em cada um que nos faz encaixados nesse “rótulo”. Homens e mulheres falam abertamente no documentário, comentando sobre amores perdidos, corações partidos, perdas irreversíveis. O depoimento mais diferente é o de um rapaz que conta sobre a relação que mantinha com seu pai. Ele diz que não convivia diariamente com o pai, que trabalhava por vários dias embarcado em uma plataforma. Quando estava em casa, gostava de chamar o então garoto para ir à praia, e o filho nem sempre se entusiasmava com o programa. Até que o pai morreu e as suas quase recusas viraram um grande fardo, pesado demais para se carregar, e a canção que se lhe tornou marcante é uma espécie de pedido de desculpas, como ele mesmo diz. De longe, é uma das passagens mais tocantes de todo o documentário.

Revisitando um pouco da obra pregressa do diretor, é possível lembrar de um dos entrevistados de Edifício Master (idem, 2002), que cantou uma música que ele dizia ser muito marcante em sua vida. O depoimento poderia perfeitamente fazer parte de As canções, e talvez tenha sido o germe da ideia de fazer este último, que foi amadurecendo ao longo dos quase dez anos que separam um filmedo outro, e apontam para um interessante diálogo entre os exemplares de sua obra. Em entrevista a um famoso site brasileiro de cinema, Coutinho defendeu sua opção por gravar os depoimentos sem a presença de qualquer acompanhamento musical. Segundo ele, todos os depoentes cantaram a capella para que ficasse nítida a letra de cada música, não importando qualquer instrumento que pudesse servir de base para as tais canções. Tanto a escolha quanto a sua justificativa são mais do que razoáveis, e atestam a grande validade de se unir simplicidade e magnitude às histórias de vida mostradas, todas com uma pitada de cada um de nós.

sábado, 7 de janeiro de 2012

Mamma mia! e o charme da descontração em forma de musical



Charme e descontração são duas palavras-chave para se comentar a respeito de Mamma mia! (idem, 2008), um dos musicais mais divertidos e envolventes dos últimos dez anos. O filme é a estreia na direção de Phyllida Lloyd e demonstra uma alta capacidade de sacudir o esqueleto da plateia com seus números musicais quase sempre divertidos, quando não são comoventes. Como ponto de partida para muita cantoria, está a história de Sophie (a fraca Amanda Seyfried), uma jovem que está prestes a se casar, mas não sabe quem é seu pai. A fim de descobrir a sua identidade de uma vez por todas, ela convida para a sua festa de casamento três homens que podem ser quem ela tanto procura. Assim, entram em cena Sam (Pierce Brosnan), Harry (Colin Firth) e Bill (Stellan Skarsgard).

Os candidatos a pai de Sophie são convidados surpresa da garota, que não avisa sobre a sua decisão a Donna (Meryl Streep), sua mãe. Assim, um mundo de incertezas paira sobre a festa, e Donna precisa acertar os ponteiros com três antigos amores. Como se trata de um musical, naturalmente esses ajustes se dão por meio de canções, que vêm a ser parte do repertório do Abba, o mais famoso grupo sueco, se não o único famoso. É exatamente na presença desse ingrediente que reside o tal charme de Mamma mia!, uma comédia passada na exuberante ilha grega de Kalokairi. A trama e as situações não são exatamente originais, mas o filme ganha o espectador com seu despojamento e com as músicas que tanto fizeram sucesso em décadas anteriores. Sem falar que não é toda hora que Meryl Streep se coloca em projetos cômicos, e aqui ela está especialmente bonita e jovial.

Como de hábito, aliás, sua atuação é preciosa, e sua personagem é diferente daquilo que estamos habituados a ver quando se trata dela. Não há como não se encantar por sua Donna, uma mulher de espírito libertário que colecionou casos amorosos na juventude, e que agora, na maturidade, precisa lidar com a vontade incessante de sua filha de saber quem a ajudou a colocá-la no mundo. Na época do lançamento do filme, Meryl concedeu uma entrevista a uma importante revista de cinema, hoje muito mal das pernas afirmando que era gostosa nos anos 70, época em que o Abba estourou no mundo. É difícil duvidar da atriz, que demonstra estar envelhecendo muito bem, assim como exibe uma capacidade de reinvenção na pele de Donna, e ainda se arrisca nos vocais, fazendo bonito em várias cenas, especialmente na que canta The winner takes it all para Sam, um de seus ex-namorados que mais a magoou. A sequência é de derreter o coração.



O roteiro é esperto ao fazer de Donna o centro da história, já que, de fato, ela é a personagem mais interessante do filme. Pressionada pela circunstância de ter três homens com viveu romances presentes na festa de casamento de sua filha, ela começa a inventar desculpas para não revelar quem é o pai da jovem, e alimenta tanto a curiosidade de Sophie quanto a do público, que espera pela tal verdade no decorrer da narrativa. Percebe, com base nessa característica, que Donna é uma mulher comum e errante, como qualquer outra mulher real, sem a idealização e a bondade pouco verossímil de personagens musicais. Ela transgrediu e continua transgredindo, podendo ser comparada, nesse aspecto a uma outra personagem de musical, a Satine (Nicole Kidman) de Moulin rouge! – Amor em vermelho (Moulin rouge!, 2001). Por outro lado, ela exibe tanto frescor e naturalidade que não importam tanto os seus erros, e ela consegue até mesmo despertar uma nova fagulha de desejo em Harry, que, como se verifica adiante, não está mais tão interessado assim no sexo oposto.

A história de Mamma mia! se passa em 1999, mesmo ano em que estreou a peça teatral na qual se baseia. Não deixa de ser uma homenagem e uma citação direta à matéria-prima original, embora pouco se perceba dessa época na caracterização dos personagens e nos cenários, todos paradisíacos e com potencial para embevecer o espectador. O investimento é todo em ambientes ensolarados que casam perfeitamente com a descontração que o filme pede. Talvez o seu maior senão seja Amanda Seyfried. A jovem atriz ainda é bastante crua, não se mostrando uma escolha acertada para o papel. Sua Sophie é, no máximo, engraçadinha, mas pouco chama a atenção com sua personalidade voluntariosa e seu excesso de chamego com o futuro marido. Ela viria a se tornar uma das requisições mais recorrentes dos filmes água com açúcar pouco tempo depois, estando presente nos créditos de títulos como Cartas para Julieta (Letters to Juliet, 2010) e Querido John (Dear John, 2010), dispensáveis em qualquer currículo cinéfilo. E pensar que outras atrizes, como sua xará Amanda Bynes, estiveram cotadas para o papel...

Com relação aos numerários, Mamma mia! também se saiu muito bem. O filme teve a maior abertura de um musical na história do cinema, arrecadando mais de 20 milhões de dólares em seu primeiro final de semana de exibição nos EUA. Na certa, o filme foi ao encontro de uma plateia de órfãos do grupo oriundo da Suécia, que ofertou ao mundo outras bons produtos, por assim dizer, além de Ingmar Bergman. São as várias canções da trilha sonora, como a balançante Dancing queen, que pontuam os momentos divertidos, hilariantes ou tristonhos do enredo, feito sob medida para entreter e animar. No final das contas, estamos diante de uma comédia inofensiva e deliciosa, que faz bem aos olhos e à cabeça, e corrobora a tese de que um passatempo um tanto escapista também pode valer a pena, ampliando com eficácia o paladar cinéfilo privilegiador de dramas pungentes, a exemplo do autor deste texto.

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

RETROSPECTIVA: 2011 NO CINEMA (final)

51. O palhaço (idem, 2011), de Selton Mello

Segunda incursão Selton Mello na direção de um longa-metragem, o filme ganhou as plateias brasileiras com muita justiça. A saga de um palhaço que não consegue mais disfarçar a própria tristeza, que resulta na sua incapacidade de entreter os frequentadores de um circo com o sugestivo nome de Esperança. E ainda tem Paulo José em uma participação afetiva e memorável.



Nota: 9.0

52. Amores imaginários (Les amours imaginaires, 2010), de Xavier Dolan

O filme versa sobre as ilusões de ótica – propositais ou não – decorrentes da antiquíssima disposição humana para a idealização amorosa, com todos os ônus e bônus que isso acarreta. O tema, em si, é gerador de profundo interesse e já rendeu pérolas de valor inestimável, elaboradas por cineastas que trilham caminhos acordados com os certames de uma boa exposição dialógica. Mas, no caso de Dolan, a pretensão com que a trama é conduzida deturpa toda a tentativa de seduzir o espectador.



Nota: 4.0

53. O garoto da bicicleta (Le gamin au vélo, 2011), de Jean-Pierre e Luc Dardenne

Não é de se espantar se, ao assistir ao filme, seja-se atravessado por um desejo de grito e intervenção nos passos do garoto. É interessante notar que, nos filmes dos Dardenne, o sentimento não se confunde com o sentimentalismo, e o realismo invade cada fotograma como uma demonstração da urgência de viver e fazer escolhas determinantes, cheias de consequências. Ademais, cada personagem apresenta as suas camadas e, ao se furtarem de expô-los em detalhes, os diretores deixam sempre algo a ser descoberto ou inferido.



Nota: 9.5

54. Submarino (idem, 2010), de Thomas Vinterberg

Pautado pela lentidão, Vinterberg entregou mais um filme pungente, exibindo a mesma destreza na captura das discretas nuances que envolvem os seres humanos. A exemplo de sua faiscante estreia mais de uma década atrás, com o incisivo Festa de família (Festen, 1998), ele vislumbra o cotidiano de pessoas ligadas por laços sanguíneos e as derivações nem sempre tão benévolas desse tipo de relacionamento.



Nota: 8.0

55. Adeus, primeiro amor (Un amour de jeunesse, 2011), de Mia Hansen-Løve

Outro entre os vários filmes com amor no título, esse também peca pela duração excessiva. A história de dois jovens amantes e as interdições que a vida e eles mesmos se impõem poderia se resolver em 20 minutos a menos, sem comprometer as sutilezas apresentadas pela diretora, que faz de sua câmera uma testemunha quieta e bela dos desenlaces dos protagonistas.



Nota: 8.0

56. Triângulo amoroso (3, 2010), de Tom Tykwer

De volta à sua terra natal, o diretor alemão criou uma espécie de comédia truncada, sobre a inusitada geografia da felicidade traçada por um casal que vê sua união cindida e posteriormente soldada pela presença de um outro homem, com o qual ambos se envolvem sem que o outro se dê conta de imediato. Os sorrisos surgem por conta das condutas um tanto incomuns os personagens, e de alguns diálogos um tanto estranhos.



Nota: 7.0

57. As canções (idem, 2011), de Eduardo Coutinho

Mais uma vez, somos arrebatados pela incrível capacidade de Coutinho de selecionar histórias de vida ordinárias, mas cheias de sentimento e emoção, contadas com base na brilhante ideia de relacioná-las a músicas. Não é um ponto de partida exatamente original, mas quem se importa? A cada novo depoimento, ele nos transporta para realidades distintas e nos comove como ninguém.



Nota: 9.0

RETROSPECTIVA: 2011 NO CINEMA (parte 5)

41. Contágio (Contagion, 2011), de Steven Soderbergh – MOSTRA PANORAMA, FESTIVAL DO RIO

O roteiro é dotado de um estrutura algo didática, com a narrativa distribuída um tanto linearmente, começando pelo dia 2, passando por outros que são determinantes para o desenrolar dos fatos. O tal dia 1 é a grande incógnita, que não deixa de ser respondida, ainda que de modo um tanto óbvio a certa altura. Ainda há espaço para a discussão da força das mídias em sua potência disseminadora de informação, traduzida no personagem de Jude Law.



Nota: 7.5

42. A pele que habito (La piel que habito, 2011), de Pedro Almodóvar – MOSTRA PANORAMA, FESTIVAL DO RIO

Tudo cabe perfeitamente ao filme, que é sempre temperado por boas reviravoltas, e ajuda a manter Almodóvar na contramão de tantos outros diretores de seu continente, contemporâneos ou não, que privilegiam os acontecimentos no plano psicológico de seus protagnistas. Aqui, a ação flui totalmente, em uma rotação um pouco menos acelerada mas, nem por isso, maçante.



Nota: 9.0

43. O cavalo de Turim (A torinói ló, 2011), de Béla Tarr – MOSTRA O ENIGMA BÉLA TARR, FESTIVAL DO RIO

Pouquíssimos espectadores serão capazes de suportar a leitura exegética que Tarr faz do marasmo, da decadência e da finitude, através de um filme em que apenas três ou quatro acontecimentos se alternam em suas repetições. Ao longo de mais de duas horas de projeção, somos confrontados com uma atmosfera de desalento e introspecção que chega a doer na alma.



Nota: 8.5

44. Os crimes de Snowtown (Snowtown, 2011), de Justin Kurzel – MOSTRA EXPECTATIVA, FESTIVAL DO RIO

A inspiração em uma história real ocorrida na Austrália torna o filme ainda mais assustador e repugnante, com um dos personagens mais intragáveis que o cinema recente já pôde apresentar. Até que ponto um a reação violenta a uma violência pode ser justificada? A pergunta ecoa por todos os fotogramas deste drama denso e atordoante.



Nota: 7.5

45. Beleza adormecida (Sleeping beauty, 2011), de Julia Leigh – MOSTRA PANORAMA, FESTIVAL DO RIO

Decalcado do romance homônimo da diretora, que debuta na função, o filme tem um ar um tanto surreal e situações conduzidas com uma estranha naturalidade. Emily Browning, que cresce aos olhos do público, desfila nua por todos os lados, e aposta em uma frieza na interpretação que auxilia na certeza de que esta é uma trama pontuada pela insolidez, com a análise de um mundo de hipocrisia.



Nota: 6.0

46. Homem no banho (Homme au bain, 2010), de Christophe Honoré - MOSTRA MUNDO GAY, FESTIVAL DO RIO

Incrivelmente ousado, Honoré flerta com a pornografia ao apostar em uma história rápida e rasteira sobre o desenlace de dois amantes, invertendo os papéis esperados para a configuração física de cada um de seus intérpretes. Sem Louis Garrel no elenco, sobra para Omar Bem Sellem a incumbência de ser o ator-fetiche do cineasta.



Nota: 7.0

47. Eu receberia as piores notícias dos seus lindos lábios (idem, 2011), de Beto Brant e Renato Ciasca – MOSTRA PRÉMIERE BRASIL, FESTIVAL DO RIO

O título poético compõe o quadro de uma história de triângulo amoroso – temática recorrente no cinema – de moldura trágica, em que Camila Pitanga aparece com uma fúria vulcânica, ainda mais atrevida do que já foi na televisão. O filme é dela, que vive três momentos de uma personagem que é a luz e as trevas na vida de um fotógrafo no interior da Amazônia.



Nota: 8.0

48. Inquietos (Restless, 2011), de Gus Van Sant

Quando chega bem perto de seu final, Van Sant coroa Inquietos com uma aura de profundo pesar, deixando tudo mais realista, e decantando a sensação que um sonho bom precisava se encerrar. Então, somos despertados do sono, ainda surpresos como o pássaro descoberto por Annabel, cantando, perplexos, a vida que ainda nos é dada de presente.



Nota: 9.0

49. Um método perigoso (A dangerous method, 2011), de David Cronemberg – MOSTRA PANORAMA, FESTIVAL DO RIO

O filme discute fetiches, medos inconscientes, mecanismos de defesa e tantos outros termos e conceitos trazidos pela teoria psicanalítica, sem que o interesse pela obra diminua um minuto sequer. O caso extraconjugal de Jung com Sabrina também tem espaço, e responde por boa parte das cenas desinibidas de Keira Knitghtley, muito à vontade com uma personagem que flerta com a loucura e se relaciona com a realidade de modo muito singular.



Nota: 8.5

50. Dark horse (idem, 2011), de Todd Solondz - MOSTRA PANORAMA, FESTIVAL DO RIO

O grande mérito desse filme é trazer Mia Farrow de volta à cena. Ela é a melhor coisa de uma história que trafega por estradas estranhas e pouco consegue cativar o espectador. Seu protagonista é um sujeitinho irritante, que merece certos acontecimentos que a vida lhe proporciona. Selma Blair, um tanto envelhecida, é outra que se sai bem com seu papel esquisito.




Nota: 6.5

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

RETROSPECTIVA: 2011 NO CINEMA (parte 4)

31. Capitão América – O primeiro vingador (Captain America: the first avenger, 2011), de Joe Johnston

O que é o final desse filme? O trabalho competente de Chris Evans, dirigido por um vigoroso Joe Johnson, é o sopro de qualidade em um longa que, antes de mais nada, serve de abre-alas para que os demais vingadores surjam em uma nova produção. Tudo fica pior para quem, como eu, assistiu ao filme em versão dublada...



Nota: 6.0

32. Melancolia (Melancholia, 2011), Lars Von Trier

O diretor aposta em um clima de constante asfixia, resultante da escolha de uma trilha sonora que desperta agudeza de sentimentos, além de uma câmera trôpega que filma cores frias e uma luz pálida que dimensiona o público para um ambiente em que nada está bem. Portanto, estamos diante de um drama na acepção mais estrita do termo, sem qualquer brecha para o alívio. Melancolia confronta o tempo todo e levanta a questão da sensação de falta de sentido da vida.



Nota: 9.0

33. Super 8 (idem, 2011), de J. J. Abrams

Mesmo os clichês que atravessam a narrativa são temperados da melhor maneira possível, resultando em um entretenimento de primeira e comprovando que o cinema também deve ter espaço para histórias fantásticas. Muito se comentou sobre a semelhança do filme com obras oitentistas de Steven Spielberg, de quem Abrams pode ser considerado um discípulo confesso.



Nota: 7.5

34. A árvore da vida (The tree of life, 2011), de Terrence Malick

Com efeito, houve quem dissesse que, a exemplo dos filmes anteriores do realizador, assistir a esse é quase uma experiência litúrgica. De fato, a dimensão espiritual do homem pode ser acionada imediatamente depois de se colocar os olhos nas cenas esplêndidas que se vão sucedendo, sem a menor preocupação – ao menos, aparentemente –de ser didático ou clássico. Subverte-se a narrativa, transgride-se a linearidade em prol de uma circularidade e um grau de complexidade que se assimila à própria existência.



Nota: 10.0

35. Balada do amor e do ódio (Balada triste de trompeta, 2011), de Álex de la Iglesia

Investindo em um humor nigérrimo, o diretor apresenta um filme com mil estripulias e reviravoltas cujas oscilações vão da estupefaciência ao estômago embrulhado, criando um balé trágico de sombras, deformidades e terríveis constatações. Em meio a muitas elocubrações, ainda sobram pequenas referências à ditadura franquista. Uma pérola de um cineasta afeito ao bizarro e ao grotesco.



Nota: 8.5

36. Um sonho de amor (Io sono l’amore, 2009), de Luca Gudagnino

No fundo, o que interessa aqui não é a história que será contada, mas a maneira pela qual isso será feito. Há quem diga que só existem 48 histórias, e que as demais são variações desses tipos limitados. Talvez seja verdade. Não importa. Um sonho de amor consegue partir de uma temática esgarçada para lhe conferir um tratamento precioso e levar à fruição com requinte e passionalidade.



Nota: 9.0

37. Onde está a felicidade? (idem, 2011), de Carlos Alberto Riccelli

A terceira incursão de Riccelli na direção representa um flerte declarado com as cores e a extravagância de Almodóvar, e exibe uma Bruna Lombardi radiante e com ótimo timing cômico. O diálogo com o cineasta espanhol fica ainda mais claro por conta das lindas locações em Santiago de Compostela, cenário do refúgio que a protagonista busca para um divertido reencontro com seu eu interior.



Nota: 6.0

38. Amor a toda prova (Crazy, stupid love, 2011), de Glenn Ficarra e John Requa

É bem verdade que existem alguns clichês no filme, mas eles são tão bem administrados e desenvolvidos que se tornam irresistíveis. Amor a toda prova flerta com a gramática tradicional dos filmes do gênero, e não tem vergonha de se assumir como um filme de amor, mas essa é apenas a sua superfície. Há muito mais a se descobrir acompanhando a jornada algo desastrosa de seus protagonistas.



Nota: 8.5

39. Um conto chinês (Un cuento chino, 2011), de Sebastián Borensztein

O filme só tem a reforçar a onda de prestígio que o cinema argentino tem vivido há alguns anos, bem como ratifica o carisma de Ricardo Darín como intérprete. Por mais que seu personagem seja uma grande resmungão que vê a vida com olhos austeros, é quase impossível não se deixar levar por toda a sua humanidade. Suas repetições chegam a ser cômicas, involuntariamente risíveis diante da condução ligeira que o diretor dá a elas, e ajudam a compor seu modo de agir para além de esquemas e enviesamentos.



Nota: 8.5

40. As harmonias de Werckmeister (Werckmeister harmóniák, 2000), de Béla Tarr – MOSTRA O ENIGMA BÉLA TARR, FESTIVAL DO RIO

Composto por apenas 39 planos-sequência, o longa-metragem aborda discussões filosóficas por meio de figuras que permanecem ocupando a mente do público por um longo tempo. O lugar citado no título é uma pequena cidade que vem sendo castigada pelo rigoroso inverno húngaro. Nota-se que é uma região que parece estática no tempo. Aquele lugar tão pacato e gélido ganhará certa movimentação quando da chegada de uma trupe de artistas de circo que trazem uma enorme baleia empalhada, fato que logo desperta a curiosidade de muitos moradores locais.



Nota: 9.0

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

RETROSPECTIVA: 2011 NO CINEMA (parte 3)

21. Piratas do Caribe: navegando em águas misteriosas (Pirates of the Caribeen: on stranger tides, 2011), de Rob Marshall

Tudo indica que este foi o epílogo da franquia baseada em um brinquedo da Disney. É bom que seja mesmo, pois a trama já rendeu mais do que o suficiente, o que fica muito claro aqui: Johnny Depp acerta novamente como Jack Sparrow, mas o roteiro mal acabado desperdiça o talento do ator e ainda coloca a bela Penélope Cruz em uma personagem constrangedora.



Nota; 5.0

22. Um novo despertar (The beaver, 2011), de Jodie Foster

A crítica apedrejou o novo trabalho de Foster na direção, e deve ter afugentado muitos espectadores em potencial de um filme que está longe de ser ruim como apontaram. Some-se ao roteiro sincero a interpretação maravilhosa de Mel Gibson, que renasce como ator em um papel complexo, capaz de gerar a comoção, a cumplicidade e o riso.



Nota: 7.0

23. O homem ao lado (El hombre de al lado, 2009), de Gastón Duprat e Mariano Cohn

Um embate entre dois vizinhos por conta de uma janela se torna uma das comédias argentinas mais improváveis dos últimos anos, com desdobramentos que oscilam entre o riso e a constrição. Pequenas armadilhas espalhadas no roteiro esperto fazem o público mudar constantemente de lado nesse conto moderno sobre a paranoia da insegurança nas grandes metrópoles.



Nota: 8.0

24. Singularidades de uma rapariga loura (idem, 2009), de Manoel de Oliveira

A trama aparentemente simples é apenas um pretexto para questões mais profundas sejam debatidas pelo roteiro, decalcado de uma obra que enxovalha certos códigos de conduta a que a sociedade se viu obrigada a se apagar com o passar dos anos. Uma pequena joia do cinema português lapidada pelo longevo e incansável Manoel de Oliveira.



Nota: 9.0

25. Namorados para sempre (Blue valentine, 2010), de Derek Cianfrance

O longa-metragem trata de incongruências, de falsas similitudes, e do quanto se está sozinho mesmo diante da presença de alguém a quem se escolheu para dividir a vida. Há que se lembrar que, assim como nascemos sozinhos, estamos fadados também a morrer sozinhos. E esse breve sopro que é a vida, uma sutil respiração que transcorre como um vento passageiro, que aparece e vai embora, é a tentativa intermitente de estabelecer uma conexão com outro.



Nota: 9.5

26. Meia-noite em Paris (Midnight in Paris, 2011), de Woody Allen

É fato que o filme agradou em cheio a crítica e o público, proporcionando, em certos termos, uma reconciliação entre esses dois polos e Allen, algo que não acontecia efetivamente desde o lançamento de Ponto final (Match point, 2005), por acaso, no mesmo festival de Cannes. Meia noite em Paris traz uma fusão interessante entre apego à arte e certa ingenuidade salutar. O subtexto trazido pelo diretor é bastante simples e eficiente: a evasão espaço-temporal não é suficiente para a resolução de qualquer problema.



Nota: 10.0

27. Potiche – Esposa troféu (Potiche, 2010), de François Ozon

Em sua definição básica, o farsesco é um gênero de teor dramático, mas que suscita situações com um quê de ridículo, e se baseia normalmente em um núcleo familiar. Longe de ser enciclopédica, essa breve observação auxilia a compreensão de que Ozon nos forneceu, em diálogo com uma produção pregressa, um retrato caricatural de certa classe social abastada e suas doces frivolidades. É uma pena que tenham tascado um subtítulo tão óbvio e irritante no Brasil.



Nota: 8.0

28. Saturno em oposição (Saturno contro, 2007), de Ferzan Özpetek

Capricha no drama para contar a história de amigos cujos laços que os mantêm unidos são mais fortes do que a morte de um deles. O diretor de ascendência turca oferece um retrato carinhoso das relações humanas e produz calor com uma crônica moderna e sincera, com poucos tropeços no sentimentalismo exacerbado.



Nota: 7.0

29. Estranhos normais (Happy family, 2010), de Gabriele Salvatores

Mais uma comédia italiana a ter chance no circuito, que brinca com a metalinguagem e oferece ao público a chance de conferir uma outra faceta do diretor, que se sai bem ao conduzir uma trama que flerta com Pirandello e leva a um divertido e interessante quebra-cabeças.




Nota: 8.0

30. A missão do gerente de recursos humanos (The human resources manager, 2010), de Eran Riklis

Não é exatamente necessário ter tido um contato anterior com a filmografia de Eran Riklis para apreciar o filme a contento. Mas é interessante ter uma visão de um de seus dois filmes anteriores, para um cotejo entre elementos que parecem ser recorrentes em sua carreira. A despeito disso, o filme vale por si só, e se configura como uma produção que parte de uma centelha de humanidade para expandi-la e refletir sobre uma luta individual contra instituições de ordem superior.



Nota: 8.0