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quinta-feira, 31 de março de 2011

Irreversível e os ciclos e acasos de crueldade

Sob a chancela do diretor Gaspar Noé, o público de cinema pôde se colocar diante de uma das visões mais perturbadoras da violência contra a mulher na ocasião do lançamento de Irreversível (Irreversible, 2002). O filme é o trabalho de maior repercussão e alcance midiático do realizador argentino radicado em território francês até hoje, o que se deve ao fato de ser uma obra que expõe sem edulcorantes a trajetória de rendição à barbárie vivenciada por Alex (Monica Belucci), uma mulher que sofre um doloroso estupro no caminho de volta para sua casa. Esse fio de argumento é o norte de uma trama que busca discutir a urgência de se repensar o tratamento dispensado ao sexo feminino nos dias de hoje, e se estende como um indicador da necessidade de se combater o acelerado processo de coisificação a que os seres humanos estão sendo submetidos dia após dia, num ritmo perigosamente progressivo.

A partir de seu título pessimista, Noé engendra o enredo do filme de forma não-linear, preferindo iniciar pelo fim e finalizar pelo início o cotidiano tranquilo que se torna tumultuado dessa protagonista. Paulatinamente, o diretor vai acionando sua máquina de acasos aterrorizante, o que responde pelo extremo desconforto que muitas plateias demonstraram nas primeiras sessões do filme pelo mundo. No festival do Rio de 2002, por exemplo, eram frequentes os relatos de mulheres que julgaram a violência contra Alex acima do suportável. Houve inclusive casos de desmaios, tamanho o impacto gerado pela sequência “magna”, por assim dizer. Pois bem. Tudo começa (ou termina, evidentemente, já que se trata de uma narrativa em retrocesso) com a corrida de dois homens desesperados e desarvorados à procura do homem que estuprou e espancou Alex. Eles são Marcus (Vincent Cassel) e Pierre (Albert Dupontel), o atual e o ex-namorado dela, que juram vingança ao responsável por ferir a honra e a dignidade de Alex.
Daí em diante, o espectador vai acompanhando, sempre em ritmo contrário, o que aconteceu antes da ocasião fatídica, e o principal evento precedente é uma festa na qual estão os três personagens citados, durante a qual eles dançam e embriagam-se, e de onde surge uma discussão de relação entre Alex e Marcus. É por causa dessa discussão que Alex toma a decisão de voltar para casa sozinha, caminhando compassivamente pelas ruas desertas de uma Paris noturna e assustadora. E é nessa caminhada solitária de volta para casa que ela se torna vítima da ânsia sexual de um estuprador, e Irreversível nos apresenta seu ápice narrativo. A sequência que mostra a violência cometida contra Alex consome cerca de 10 minutos do filme, demonstrando um realismo abissal para os padrões da representação cinematográfica. Isso explica perfeitamente o intenso desconforto sentido por parte do público que foi exposto à cena. É realmente devastador presenciar aquele acinte tão deliberado contra uma mulher, um ser humano que só estava em seu caminho de retorno a casa. Noé imprime uma visceralidade notável ao filme nesse momento, amplificando sua força como um manifesto urgente sobre a violência que gera violência, bem como sobre as instâncias malévolas da vingança que vão sendo disseminadas nos corações e nas mentes de Marcus e Pierre.
Os dois amigos passam a dar a vazão a uma sede implacável de justiça, e iniciam uma caçada veemente ao autor daquela barbaridade. Em cada um de seus instantes, Irreversível vai se mostrando como uma crescente espiral de desconforto, suprimindo o fôlego do espectador a passos compridos, com o perdão da estranha sinestesia. Mas é exatamente essa sensação que acompanha o espectador do longa-metragem: a de desorientação. Noé lança mão de uma artilharia pesada ao retratar essa jornada de desespero e crueldade, que não deixa impassível a quem põe os olhos diante dela. Irreversível não um filme para se ver confortavelmente, mas sim um tratado pesado sobre chagas medonhas de uma sociedade em passos de falência, de uma humanidade que assinala uma caminhada para a autodestruição preocupante. Em uma outra sequência, de igual peso dramático, Marcus e Pierre invadem um clube sadomasoquista gay, no qual pensam poder encontrar o estuprador de Alex. Ali, a verve violenta da direção de Noé aparece novamente com toda a força, em cenas que marcam, como a que mostra a fúria de um dos amigos, extravasada por meio de um extintor de incêndio. Trata-se de um momento tétrico apresentado pelo filme.

Ao longo de sua carreira, Noé vem demonstrando forte interesse em abordar as temáticas do sexo e da violência, bem como da vingança e da percepção relativa da passagem do tempo, outro fator determinante no desenrolar às avessas de Irreversível. O primeiro trabalho do diretor foi um curta-metragem intitulado Tintarella di luna (idem, 1985), já apresentava parte de sua inclinação para tratar desses assuntos. Seu filme seguinte também foi um curta, que atende pelo nome de Carne (idem, 1991), e que foi premiado no festival de Cannes de 1991, ao qual se sucedeu Sodomites (idem, 1998), que apresenta cenas de sexo explícito. O primeiro longa-metragem de Noé foi Sozinho contra todos (Seul contre tous, 1998), filmado na França, país em que ele vive já há algumas décadas. Esse último foi exibido em inúmeros festivais, e recebeu láureas em quase todos, dentre as quais se podem citar o prêmio de melhor diretor no festival de Sarajevo e o de melhor filme no festival de Buenos Aires. Então, veio Irreversível, até hoje sua obra mais conhecida, mas não a mais impactante, ou não a única impactante. O próprio Noé fez uma aparição em Irreversível, na qual está completamente nu, interpretando um dos frequentadores do clube invadido por Marcus e Pierre. A exemplo de seus trabalhos pregressos, esse recebeu o Cavalo de Bronze no festival de Estocolmo, além de ter sido exibido no festival de Cannes, para uma plateia horrorizada com o que estava vendo.
Os diálogos são outro ponto forte de Irreversível, que constrói uma ponte de pilares bastante sólidos para a reflexão sobre a condição humana nos ditos tempos modernos. O filme tem quase dez anos de existência, e é o tipo de obra que ainda terá ressonâncias pelas próximas décadas seguramente. Parte desses bons diálogos são pronunciados na cena em que o trio de protagonistas está conversando no metrô, ainda antes de ir à festa na qual o casal discute. Cassel e Belucci, aliás, são casados na vida real, e já o eram à época de filmagem do longa. Ambos exibem uma sintonia brilhante em cena, e dão conta da intensidade dramática requerida em seus papéis, assim como Dupontel, que ainda segue como um semidesconhecido do grande público. O casal já trabalhou oito vezes juntos, em títulos como O apartamento (L’appartement, 1996) e O pacto dos lobos (Le pacte des loups, 2001), e refinam sua capacidade simbiótica em cena a cada nova parceria. Vale comentar que o recurso de contar a história de trás para a frente voltaria a ser empregado em outro filme francês dois anos depois, o drama Amor em cinco tempos (5 x 2, 2004), no qual François Ozon analisa o início e o fim de um casamento em exatamente cinco momentos. É um recurso narrativo eficicente que, em Irreversível, configura-se como uma das armas mais letais oferecidas por Gaspar Noé, em um filme que não deixa pedra sobre pedra, cujo aparente happy end é apenas o prenúncio de uma longa e trágica jornada noite adentro.

terça-feira, 29 de março de 2011

Retratos do real em Entre os muros da escola


Capturar a realidade nunca foi uma obrigação do cinema, embora muitos cineastas já tenham se debruçado sobre essa premissa ao longo de mais de cem anos da invenção desse que é um dos mais poderosos instrumentos de comunicação, por muito tempo não tendo sido considerado arte. Mas o outro lado também sempre existiu.
É maravilhoso poder embarcar em histórias surpreendentes em sua inverossimilhança, com carros explodindo, mortes inacreditáveis, romances em que o final feliz é um caminho certo e outras improbabilidades da vida real. Mas acompanhar a tentativa de apreensão das agruras diárias que, por vezes, nos entorpecem, também tem sua validade.
Entre os muros da escola (Entre les murs, 2008) navega pelas águas assustadoras do verdadeiro, ainda que na acepção mais cinematográfica da palavra, sem se dar a discussões filosóficas e existencialistas que ela pode e, certamente, suscita. As lentes de Laurent Cantet (Em direção ao sul) estão voltadas para o cotidiano tumultuado de uma escola na periferia parisiense onde se encontram todos os tipos de estudantes. Ali, os professores que têm de lecionar para um público tão heterogêneo matam um leão por dia, lidando com reações inflamadas de estudantes que não encontram motivação para prosseguir com suas atividades discentes. Não raro, perdem a paciência, explodindo nos bastidores com os demais colegas.
O foco do longa, todavia, está em um professor específico: François Bégaudeau. Ele dá aulas de francês, e vive o desafio de colocar na cabeça dos seus alunos a importância de se aprender e do quanto o estudo pode render bons frutos. A turma para a qual ele ensina tem imigrantes de várias etnias misturados aos franceses "legítimos", o que é um polo gerador de constantes conflitos. De certa forma, esse contingente diversificado que se justapõe em um espaço tão reduzido funciona como um microcosmos da sociedade francesa atual: múltipla, polarizante e, ao mesmo tempo, fragmentária em sua essência. Esse cnceito pode ser estendido, ainda, para a sociedade contemporânea, na qual reina o multifacetado. Assim, é de se esperar que a sala de aula seja um barril de pólvora, com pequenas bombas em potencial para explodir.
Vale ressaltar um aspecto que torna Entre os muros da escola um filme que se coloca no meio do caminho entre ficção e documentário: os personagens do filme não são atores profissionais, o que lhes confere em cena um naturalidade flagrante. Quando falam, de certa forma expõem o que verdadeiramente sentem e vivem, pois as características que apresentam são também as de seus intérpretes. O próprio François é autor do livro no qual o filme se baseia, e faz o papel dele mesmo, sendo personagem e figura real simultaneamente. Os limites entre o que é ou não verdade ficam por demais fragilizados, a ponto de serem dissolvidos paulatinamente. Nessa linha, há também Jogo de cena (idem, 2007), um espécime exemplar da leva de documentários que confundem a cabeça do espectador.

Mas decifrar se isto ou aquilo é, de fato, real, é perder muito do debate que Cantet levanta, sobre as mais variadas questões. Afinal, qual o o papel de um profissional da educação nos dias de hoje? As escolas devem ter sua parcela de responsabilidade no ensino das regras de conduta de um indivíduo? Como estimular o aluno a aprender, se o próprio sistema educacional empurra para uma forma de lecionar que apresenta falhas graves? São essas e várias outras questões que se sucedem durante o transcorrer do filme, que levou a Palma de Ouro em Cannes no ano de 2008, e foi um dos indicados ao Oscar de Filme Estrangeiro em 2009. Ambos merecidos, embora o segundo prêmio não tenha sido ganho, já que o filme perdeu para A partida (Okubirito, 2008), representante do Japão naquele ano.
Em várias passagens, Entre os muros da escola revela sua força, como quando os alunos ganham voz e explicitam o que pensam de forma categórica. Alguns não sabem muito bem o que querem, mas já descobriram o que não querem. A ação do filme é quase toda passada no ambiente escolar, e é naquelas quatro paredes, sejam as da sala, sejam as da quadra de esportes, que os anseios, angústias, ressentimentos, inseguranças, e também as alegrias e vontades de cada um ficarão nítidas. No fim das contas, o longa serve como um eficiente tratado do que é encarar o desafio de transmitir a um grupo de seres tão distintos entre si algo que possa transformar suas vidas, e lhes garantir um futuro alentador.

Dores do crescimento em Estamos bem mesmo sem você


O cinema italiano recente oferece aos seus espectadores uma pequena pérola chamada Estamos bem mesmo sem você (Anche libero va bene, 2006). Com sensibilidade e destreza, essa é a estreia de Kim Rossi Stuart na direção, depois de alguns trabalhos como ator. Trata-se de mais uma feliz incursão atrás das câmeras, da qual também são representantes Goerge Clooney e Sean Penn.
No centro da trama do filme de Stuart estão o próprio ator, que dá vida ao protagonista Renato, e dois jovens atores, que fazem seus filhos. Os três vivem juntos num modesto apartamento em um subúrbio italiano, desde que a esposa de Renato o abandonou com o casal de filhos à própria sorte. Mesmo a duras penas, parece que eles conseguiram sobreviver à partida dela.
A fim de impor respeito sobre os filhos, entretanto, Renato foi se transformando em um homem austero e dominador, que exige que o filho pratique natação, esporte do qual o garoto não gosta nem um pouco, e que pratica apenas para agradar ao pai. Na verdade, seu sonho é ser um bom jogador de futebol, ambição que é obrigado a tolher.
Toda a frágil harmonia entre o trio é quebrada quando Stefania, a mãe desnaturada, retorna em busca de reconciliação com os filhos e o marido. É a partir daí que as antigas feridas familiares emergem com veemência, despertando diferentes reações em cada um deles. O menino parece mais aberto à volta da mãe, embora seja a garota quem demonstre mais sua vontade de que o pai a perdoe. Está formado o clímax de uma história cuja sinopse, contade de forma rasteira, pode dar a impressão ilusória de que é mais um filme comum e descartável sobre a fragilidade das relações familiares. Mas, como já se disse, essa impressão é ilusória, já que Stuart conduz o filme com notável brilhantismo, seguindo veredas da sinceridade e arrancando atuações emocionantes dos jovens atores que interpretam seus filhos. Numa cena específica, em que Renato insiste com Tommaso para que ele vá para mais uma aula de natação, e o menino reluta, Renato demonstra sua intransigência com o filho, o que acaba fazendo-o chorar. Ainda inflexível, o pai consegue convencer o garoto a entrar para a aula.

Renato precisa, ainda, lidar com o despertar da sexualidade da filha, que começa a se corresponder pela internet com um namorado virtual, e em dados momentos do filme parece manter uma relação algo incestuosa com o irmão,através de algumas brincadeiras, que acaba ficando apenas na superfície. O cenário encontrado por Stefania não é dos mais estáveis, pois, além disso tudo, existe a amargura de Renato, que não suporta a ideia de ter novamente sob o mesmo teto que ele a mulher que lhe causou tanto mal. Pelos filhos, todavia, ele pode ser capaz de fazer concessões, mas tem certeza de que ela os deixará novamente sem aviso prévio.
Com todos esses elementos presentes no enredo, o diretor poderia fazer com que o filme se transformasse num dramalhão pesado, mas não é o que acontece. A tênue linha que separa um drama honesto de uma trama chorosa jamais é ultrapassada, e o enredo também se calca em um realismo que torna tudo bastante verossímil e geradora de identificação. Contar como se processa o desfecho desse pequeno conto moral sobre as rachaduras causadas pelo abandono é entregar de bandeja um filme que deve ser saboreado em suas minúcias, tal qual como foi concebido. Nem sempre é preciso que o extraordinário aconteça para que a vida gire, é o que Stuart demonstra o tempo todo.
Um detalhe é que o roteiro foi escrito a oito mãos, mas, mesmo assim, não se flagram sinais de desarmonia entre os responsáveis por dar vida a um filme tão rico e sentimental, no sentido mais positivo da palavra. É uma pena que tenha passado despercebido para a maioria do público, que deve buscar assistir a esta joia sobre as dores e as dificuldades de se crescer. Nas entrelinhas de Estamos bem mesmo sem você, está a reafirmação de uma máxima: Viver e crescer doem muito, mas ainda valem a pena.

sexta-feira, 25 de março de 2011

Cinema, aspirinas e urubus: uma ode à simplicidade

Quem menospreza o cinema nacional corre o sério risco de perder um grande filme como Cinema, aspirinas e urubus (idem, 2005). Aliás, a ojeriza à cinematografia de qualquer nação é completamente infundada, pois em qualquer lugar do mundo existem bons e maus diretores, bons e maus filmes. Cabe a cada espectador vasculhar no amplo universo de produções aquelas que mais lhe aprazem. Sempre haverá algum filme que agrade a algum gosto pessoal. No caso de Cinema, aspirinas e urubus, o título um tanto estranho encobre uma obra em que a sensibilidade reina absoluta, através de diálogos, cenas e caracterização de personagens.


Quando de seu lançamento, em 2005, o longa atraiu tanto o público quanto a crítica, que rapidamente comprou a história de Johann (Peter Ketnath) e Ranulpho (João Miguel), dois homens em estado bruto que têm suas trajetórias ordinárias confrontadas em pleno sertão brasileiro. Cada qual por seu motivo, eles se unem para percorrer lugares áridos, marcados pela desesperança de seus habitantes, que encontram nas sessões de cinema do remédio vendido por Johann um regaço para suas almas cansadas de sofrimento. Suas longas viagens incluem no roteiro visitas a comunidades de gente simples, para quem o alívio chega sob a forma de pequenos comprimidos, a aspirina do título.

A época em que vivem é o início do século XX, durante a Segunda Guerra Mundial, período nebuloso da história ocidental recente, que justifica a vinda de Johann para o Brasil. Afinal, ele é um alemão, que acaba radicado em nosso país, por uma questão de sobrevivência. Como Ranulpho, ele não tem raízes fincadas em lugar algum, e deseja apenas ter para si o pão diário, através do qual vai sobrevivendo. Ambos apresentam outros pontos de convergência, como a simplicidade com que enxergam a vida, que nem sempre é vista como uma dádiva, mas como um fardo pesado que se deve carregar diligentemente. Juntos, eles sofrem baques, vivenciam experiências inesquecíveis diante da miserabilidade dos indivíduos para quem oferecem o medicamento, e buscam se adequar ao que as circunstâncias lhes apresentam.

A grande eficência do filme está, entre outras coisas, na direção segura de Marcelo Gomes, que reforça o tempo todo uma estética da simplicidade com os diálogos econômicos dos personagens centrais do longa. Cada fotograma é marcado pelo lirismo em seu sentido adjetivo, no qual assume o significado de expositor das impressões pessoais de um eu. Longe de qualquer ambição de análise teórica de Cinema, aspirinas e urubus, essas linhas funcionam muito mais como uma impressão afetiva sobre uma história que tem brilho próprio. Tanto Peter Ketnath quanto João Miguel foram escolhas bastante acertadas para dar vida a Johann e a Ranulpho. Ao observá-los na tela, tem-se a nítida ideia de que eles nasceram para os papeis, e fica até mesmo a dúvida se eles estão mesmo interpretando.

A câmera de Gomes também é uma parceira eficaz. Sua observação do desenrolar dos acontecimentós é discreta, como a de uma fiel testemunha que apenas espia ao redor, isenta de qualquer sentença contra ou a favor do objeto de observação. O cineasta despe seus personagens de qualquer maquiagem, e não faz deles meras vítimas da vida, rejeitando a hipótese, remota que seja, de lhes imprimir uma aura de desvalidos e pobres de espírito. Pelo contrário, eles crescem com a longa jornada em que se inscrevem, colhendo fatos e situações para os quais não veem solução, mas que lhes servem de fonte de encantamento ou indignação. Extraem daquilo que vivem lições preciosas, e buscam obter vitórias em meio à limitação. Sombras discretas de um otimismo pairam em seu caminho, demonstrando que eles se conformam apenas com centelhas de um porvir mais positivo que os dias hodiernos.


Com Cinema, aspirinas e urubus, Marcelo Gomes prova que a cinematografia brasileira pode ser bastante fecunda, apresentando títulos que dialogam com uma macrorrealidade, para além das fronteiras do nosso país. Àqueles que insistem em encerrar a produção brasileira a uma masmorra obscura, dentro da qual cabe somente o retrato violento de favelas - o que nem é um demérito, por razões de ordens diversas - a lição de que um bom cinema também pode abdicar dessa premissa é urgente e necessária. Depois da assistir ao filme, certamente a sensação que ficará é a de estar diante de um talento indiscutível de alguém que consegue radiografar as mazelas de uam sociedade doente, cujos problemas apresentados há décadas ainda não encontraram uma solução eficiente.

E tudo isso assinalado por um ritmo, uma montagem e uma edição que deixam o melhor para o espectador, sem fazê-lo tropeçar em concessões óbvias. Gomes faz a opção por uma drama de contornos naturaliastas, apresentando a realidade da qual fez um recorte em tom quase documental, espargindo progressivamente a tênue fronteira entre real e fictício. Não por acaso, a empatia é gerada no espectador sem grandes esforços, pois aquilo que está diante de seus olhos é uma realidade patente, isenta de vernizes filosóficos. E a paisagem é revelada através de um meticuloso estudo de cores contrastantes, jamais edulcorados por qualquer fagulha de idealização. Por meio de uma fotografia excelente, que demarca a solidão daqueles indivíduos que são dois entre tantos outros por que passam dia após dia, o filme cumpre um papel de porta para a reflexão sobre o cotidiano de seres que defendem honestamente seus víveres. E, mais do que isso, o papel de plataforma para o pensamento crítico a respeito da condição humana.

sexta-feira, 18 de março de 2011

Eu, meu irmão e nossa namorada: uma comédia com estilo


Espectadores habituados a escolher o filme a que vão assistir pelo título podem ser afugentados por "Eu, meu irmão e nossa namorada". Afinal, tudo indica que se trata de mais uma comédia boboca, daquela que se produz aos montes anualmente em Hollywood e ganha sempre um espaço nas salas de exibição. Mas o caso desse filme é diferente. Levar-se por sua nomenclatura é cair em ledo engano.
Aqui, tem-se uma série de boas razões para se acompanhar uma história redonda, com roteiro muito bem azeitado, personagens cativantes e situações que fogem dos chavões tão caros a diretores despojados de inventividade. As peripécias nas quais eles se envolvem são uma delícia de se acompanhar, a fim de se descobrir qual será a solução para o nó da narrativa.

Contada em linhas não tão reveladoras, para que não se estraguem as surpresas que haverão de surgir, o filme mostra a vida trivial de Dan (Steve Carrel, de talento incontestável para o humor), um viúvo pai de três filhas, que não se apaixona de verdade por alguém há tempos. Ele tenta se manter próximo das meninas, mas elas estão cada vez mais distantes, lépidas com a chegada da fase adolescente. Ele escreve para um jornal local, e decide passar um fim de semana nas montanhas com a família que pouco vê. Para Dan, a vida tem de ser sempre cheia de regras de boa conduta, as quais acabaram por aprisioná-los sem que ele se desse conta disso. Uma vez iniciado esse final de semana, ocorrerá um incidente que será decisivo para modificá-lo.

O motivo de sua mudança atende pelo nome de Marie (Juliette Binoche, ainda linda), uma mulher simpática que desperta seu interesse logo de cara, assim que ele a vê em uma livraria. A chegada de Dan àquele local se deve a ums situação desconfortável que ele acabara de viver com seus pais e outros parentes, que insistem em interferir em sua vida, até mesmo na educação que ele dá para as filhas, aborrecendo-o profundamente. Tímido, e por isso mesmo, com dificuldades de se aproximar de uma mulher, ele vê as barreiras que o atrapalham desmoronar diante de Marie. É de uma graça e simplicidade incríveis a cena em que ele se passa por um vendedor e dá dicas de livros interessantes a Marie, assumindo uma posição inesperada de cara de pau. Aquela bela mulher consente em levar as obras sugeridas por ele, e os dois vão rapidamente da simpatia ao bem querer um pelo outro, sem que nada possa lhes servir de aviso prévio.


Isso vira um grande problema quando Dan descobre que Marie é ninguém menos que a nova namorada de seu irmão, o aparvalhado Mitch (Dane Cook). Nada permanece tão fácil como aparentava, portanto. Resta a Dan encontrar uma maneira de se livrar dessa terrível saia justa em que se meteu. Exatamente quando ele encontra aquela que pode ser a mulher de sua vida, o destino lhe prega uma peça? A essa altura, o público já foi conquistado pela doce melancolia de Dan, e vem a torcida para que ele consiga arrumar a desordem que se transforma sua vida pacata.

O que se segue é uma sucessão de cenas deliciosas, que tornam o filme uma comédia romântica assumida, mas num patamar superior ao de muitas outras. "Eu, meu irmão e nossa namorada" é um filme de categoria. O diretor Peter Hedges (Do jeito que ela é) se baseou em experiências vividas por ele mesmo em família para contar a trama do longa. Mas nunca procurando o caminho mais fácil para a resolução do problema criado no enredo. A grande sacada do filme é apresentar personagens que encantam por sua simplicidade, e atores entragando desempenhos formidáveis. A dupla central vivida por Carrel e Binoche, tem excelente química, que salta aos olhos. E cada passo dado pelos seus personagens em cena colabora para que todo o filme seja uma coleção de pequenos achados imperdíveis. O roteiro valoriza os detalhes, e investe em cenas criativas ou delicadas e apaixonantes. Como a sequência em que Marie ensina Dan, as filas e Mitch a dançar uma coreografia contagiante. Dá vontade de sair dançando em pleno cinema, ou em casa, dependendo de onde você estiver assistindo ao filme.

Infeliz mesmo é o título em português que esse filme ganhou. No original é "Dan in real life", muito mais eficiente e interessante. Bastaria que fosse traduzido: Dan na vida real. Como já dissera anteriormente, "Eu, meu irmão e nossa namorada" remete a uma historiazinha idiota, com um show de obviedades, muito distante da verdadeira realidade desse filme. Liberto de amarras que o prendam a rótulos, que são sempre limitadores e quase sempre errôneos, o espectador que se decidir por acompanhar essa história não se arrependerá. Hedges conseguiu a alquimia perfeita entre humor e dor para narrar uma saga particular de quebra de paradigmas e renascimento através do mais nobre dos sentimentos, desde a literatura medieval: o amor.

Romantismo e fugacidade em Todos dizem eu te amo


A instabilidade dos sentimentos é o grande tema de "Todos dizem eu te amo", vigésimo sexto filme da carreira de Woody Allen. Cineasta dos mais produtivos, seu ritmo atual de produção, um filme por ano, começou ainda nos anos 80. De lá para cá, sua obra tem tido, segundo a crítica especializada, momentos de plena inspiração e instantes de certa debilidade criativa.

Mas para fãs essa divisão faz pouco sentido, visto que, a exemplo de outros filmes, "Todos dizem eu te amo" versa sobre temas corriqueiros para qualquer mortal. Estão lá os arrepios típicos da paixão, as besteiras que todos fazemos diante da pessoa amada unicamente com o intuito de impressioná-la, e a incerteza em relação a uma vida inteira ao lado de uma pessoa. Pode ser que, em alguns casos, Allen não tenha sido muito feliz na captação desses assuntos em seus filmes, mas é sempre uma delícia acompanhar a trajetória de seus tipos desajustados, loucos adoráveis. Num filme que fala escancaradamente de amor como esse, não poderiam ficar de fora cidades tão românticas como Paris e Veneza. E elas aparecem, com tal força que podem ser consideradas personagens da narrativa. A presença de ambas é luminosa, principalmente Paris, que serve de cenário para uma dança entre os personagens de Allen e Goldie Hawn.

"Todos dizem eu te amo" conta, de maneira musicada, as histórias de amor de uma família tipicamente novaiorquina (mais alleniano, impossível). Cada membro do clã dos quais Joe (Allen) e Steffi (Hawn) são patriarcas vive, à sua maneira, uma paixão. Como Skylar (Drew Barrymore), que está encantada por Holden (Edward Norton), com quem vai se casar logo. E também as irmãs Laura (Natalie Portman, ainda adolescente) e Lane (Gaby Hoffman), que estão experimentando o sentimento pela
primeira vez. Há vários outros personagens que transitam pela história ao longo de seu transcorrer, e citar todos seria como transcrever uma lista telefônica.


Cada um deles, ao se juntar, forma um coro divertido de canções, que servem de elemento de ligação entre as subtramas do filme. Aliás, ele pode ser apreciado como um musical desengonçado sobre as armadilhas do amor, e também sobre suas consequências, ora cômicas, ora dramáticas. Os personagens têm todos uma aura cativante, e são muitos os destaques em todo o longa. Julia Roberts, por exemplo,
está perfeita como uma mulher inconstante que deseja uma aventura para sair da mesmice do seu casamento, mas que, depois, percebe que precisa da rotina de antes. O avô da família também é outro achado, com suas atitudes insólitas, que enlouquecem a todos, principalmente a empregada. Há, ainda, espaço para discussões entre pai e filho por causa de diferenças de opinião política, e é essa uma das passagens em que o humor arguto de Allen entra em ação, questionando a validade do comunismo ou do capitalismo.

No geral, o filme tem um roteiro bastante inspirado, e entretém do início ao fim com suas piadas inteligentes e suas locações charmosas. Desde os primeiros minutos, o espectador é seduzido por cenas divertidas e situações inesperadas que podem surgir para os amantes. Como na sequência em que Holden vai a uma joalheria comprar um anel de noivado para Skylar, e se vê sem muitas escolhas por causa do alto preço das joias. Quando, enfim, escolhe uma, começa a cantar e dançar junto com os clientes do lugar, comemoranro seu casamento vindouro. Até mesmo fantasmas camaradas entram em cena. Assim, o público vai acompanhando com atenção e curiosidade o desenrolar das ações. Definindo em poucas palavras, pode-se dizer que é um filme recomendado para quem ama amar.

segunda-feira, 7 de março de 2011

Os incompreendidos, uma bela homenagem ao cinema

Celebrado como uma das obras basais da cinematografia europeia, sobretudo a francesa, Os incompreendidos (Les 400 coups, 1959) marcou a estreia de François Truffaut como diretor de cinema. Egresso do corpo de críticos da revista Cahiérs Du Cinema, ele lançou-se para trás das câmeras a fim de pintar com poesia o quadro de desalento de um garoto de apenas 14 anos de idade. Iniciava-se, ali, a sega de Antoine Doinel, vivido por Jean-Pierre Léaud, e que viria a ser reconhecido como o alter ego de Truffaut.

A narrativa do filme se concentra em uma série de eventos que sucedem na vida de Antoine, com um ritmo leve e gracioso que cooperam decisivamente para tornar o filme bastante agradável. Ele é um adolescente em plena fase de autoafirmação, que não hesita em matar aulas diante da ausência de seus pais, muito mais voltados para os próprio problemas do que para a educação do garoto. Por conta disso, Antoine vai adquirindo um comportamento nocivo a si mesmo, andando com más companhias e se dando ao desfrute de pequenos vícios que lhe vão corrompendo sutilmente. Um dado que já chama a atenção na rotina de caminhadas a esmo do protagonista é a sua paixão pelo cinema, já que ele sempre aproveita o tempo em que deveria estar nas aulas para ir assistir a algum filme em cartaz. Verifica-se, nesse aspecto da sua personalidade, uma delicada homenagem pensada por Truffaut àquele que se tornou o seu ofício.
Os incompreendidos é cheio de passagens que exalam poesia, e flagram a fase de transição entre o fim da infância e o começo da adolescência, em que a necessidade de se conhecer de tudo parece gritar dentro do indivíduo. Como sugere o título em português, o olhar lançado pelo diretor é de ternura e de certa compaixão por aqueles meninos tão sem rumo, sem eira nem beira. Antoine discute com mãe nas poucas vezes em que tenta dialogar com ela, e o problema do conflito de gerações se instaura com veemência no seu cotidiano. É como se Truffaut fosse, em certa medida, complacente com os pequenos dramas que Antoine vive, e tentasse se colocar no lugar do garoto, fazer da lente das câmeras que acompanham os seus passos os seus olhos.
A situação de Antoine só piora quando, em uma de suas escapadas do colégio, ele descobre que seu pai tem uma amante, e então seu universo fica ainda mais desorganizado. É quando ele começa a praticar pequenos roubos, caminhando para a esfera da delinquência juvenil. A essa altura, o título original da obra, de sentido muito diverso do título em português, começa a fazer ainda mais sentido: a expressão “les quatre cents coups” é oriunda de outra, “faire les quatre cents coups”, que pode ser traduzida livremente para nossa língua como “pintar o sete”. Antoine e seus amigos fazem exatamente isso, quando descambam para uma vida de golpes e dissimulações, fazendo de Os incompreendidos um libelo à ausência dos progenitores no cotidiano de seus rebentos. Cabe ressaltar que o diretor não está interessado em ser didático, como um pedagogo que pretende apresentar as diretrizes para a boa educação de um filho. Entretanto, ao colocar na tela jovens rapazes que não hesitam em cometer pequenos roubos e pais que estão mais atentos aos seus bel-prazeres, ele oferece exemplos que não devem ser seguidos.

O filme foi rodado em solo francês em pouco menos de dois meses, de 10 de novembro de 1958 a 5 de janeiro de 1959, e deu o pontapé inicial na carreira de um cineasta que passou a ser conhecido como um dos mais importantes de todos os tempos. Juntamente como nomes como Claude Chabrol e Eric Rohmer, François Truffaut trouxe à existência o movimento da Nouvelle Vague, a nova onda que injetou um frescor notável ao modo de fazer cinema de seu tempo. Não há uma lista de melhores filmes do século XX que não conte com Os incompreendidos entre seus títulos, tamanha a relevância dessa obra no trato das questões que atravessam a fase mais tumultuada da vida de uma pessoa. Dali para frente, Truffaut dirigiria uma série de filmes igualmente relevantes, entre os quais se pode citar o lendário Jules e Jim – Uma mulher para dois (Jules et Jim, 1962) que, apesar de superestimado, tem suas qualidades como filme. Ele chegou a filmar na Inglaterra, onde realizou o ótimo Fahrenheit 451 (idem, 1966), adaptação do famoso romance de Ray Bradburry.
Antoine Doinel, por sua vez, tornar-se-ia um personagem recorrente na filmografia do diretor, sempre interpretado por Jean-Pierre Léaud, até que este crescesse e se tornasse adulto. Ele também esteve presente em Antoine e Colette (idem, 1962), um média-metragem, Beijos proibidos (Baisers volés, 1968), Domicílio conjugal (Domicile conjugal e O amor em fuga (L´amour em fuite, 1979). Juntos, o filmes compõem a chamada série “Antoine Doinel”, e representam uma espécie de retrato da vida do diretor, mas que também possuem vida própria. Ao final da sessão de Os incompreendidos, o espectador pode facilmente concluir que estava diante do nascimento da filmografia de um realizador de olhar atento para as agruras da vida, sem abrir mão de uma dose de humor e de carinho com as figuras que retrata, e que viria a inscrever seu nome no panteão dos grandes artistas da imagem.