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segunda-feira, 28 de setembro de 2015

A vã filosofia terrena flagrada em Homem irracional

Woody Allen pertence à estirpe de realizadores cuja obra está calcada em sutis variações de poucos temas, mas talvez possa ser resumida (e não reduzida, é bom que se frise) a um só: o impedimento moral, como o autor desta crítica (e outros críticos) já “diagnosticaram” há algum tempo. Uma vez detectada essa recorrência, o fruir de Homem irracional (Irrational man, 2015) pode se mostrar mais efetivo, mas espectadores não habituados ao estilo e à temática do novaiorquino – até aqui, às vésperas de se tornar octogenário – também podem se embrenhar no 45º título de sua carreira. O tal homem negativamente adjetivado é Abe Lucas (Joaquin Phoenix), renomado professor da cadeira de Filosofia que se transfere para uma pequena cidade onde segue atuando no meio acadêmico. 

Por que ele seria irracional é uma pergunta que o roteiro do próprio Allen (como de praxe) vai se encarregando de responder à medida que sua personalidade complicada emerge. Desprovido de um mínimo de entusiasmo pela vida, ele não vê sequer um propósito ou uma utilidade para seguir lecionando, e sentencia sobre o quanto, a seu ver, filosofia e vida prática se encontram apartadas. Sua citações de Kant, Kierkegaard e Heidegger, este último, base para o novo livro que tenta escrever sem muito sucesso, são emitidas em um tom fleumático, que escancara seu desalento em estar no mundo. A aparência também não é das melhores: ostentando uma barriga proeminente, resultado de muita bebedeira, ele parece não corresponder ao mito que se criou em torno dele, gerando frustração entre alunos e professores que estavam à sua espera na universidade.

A possibilidade de um cotidiano com certo alumbramento – na extensão do termo, que engloba inspiração e revelação – parece surgir na figura de Jill (Emma Stone, na segunda parceria consecutiva com o diretor), dedicada e talentosa aluna de uma de suas turmas. A aura de intelectualidade presente em Abe a torna uma típica apaixonada por ele, embora o fato se lhe torne patente depois de certa relutância. É seu namorado Roy (Jamie Blackley, de Se eu ficar [If I stay, 2014]) o primeiro a notar que ela não tem mais outro assunto que não o docente. Portanto, mesmo com a pegada algo arredia de Abe, e talvez justamente por isso, os laços entre eles se estreitam cada vez mais. Nada que impeça um envolvimento com Rita (Parker Posey), professora atirada e infeliz no casamento que não hesita em dar em cima dele com poucos dias de sua chegada a Braylin.

Mas Homem irracional não trilha um caminho tão óbvio. O amor aqui não é a única (nem a primeira) possibilidade redentora. Uma conversa ouvida com mais atenção em uma lanchonete prende muito mais a atenção de Abe e lhe traz de volta um certo interesse pela vida, embora o fator que desencadeia essa reversão seja completamente amoral – e somos levados de volta à reflexão inicial desta crítica de que Allen gosta de discutir sobre os conflitos diante de um desejo que fere o contrato social e ético vigente, bem como da sublimação destes últimos. Entrar em detalhes a respeito desse insólito sopro de vida é tarefa para o autor de uma sinopse comentada, e quem chegou até esse trecho já deve ter-se dado conta de quem não é o caso aqui. Filmes como os de Allen estão para além de uma leitura sinóptica: o que conta são as entrelinhas inteligentemente desenhadas com que ele constrói sua corrente de pensamento, se não irretocável, dotada de grande validade.


Um risco que se corre – e não é de todo mal – em analisar qualquer filme do diretor já tendo assistido a pelo menos outros dois ou três é o de traçar paralelos entre eles. Porém, Homem irracional, assim como cada exemplar de sua obra, também funciona em termos absolutos. De certa maneira, Abe representa o trágico homem moderno, que não tem estímulo suficiente no mundo para garantir sua motivação, e encontra no hábito de beber uma distração acessível. Ele mesmo chega a dizer a Jill antes da reviravolta de sentimento: “Não consigo escrever, não consigo respirar. Não consigo lembrar a razão para viver. E quando eu lembrei não foi o suficiente.” Existe um Abe antes e depois da conversa ouvida casualmente, e a fina ironia do roteiro se encontra aí. Já estamos acostumados a protagonistas reacendidos por uma paixão, mas Abe não é desses. Leitor de Dostoiévski, oscila entre a misantropia e pequenas concessões ao convívio social.

E se o personagem se revela tão fascinante em sua humanidade fragmentada, o mérito não se encontra apenas na escrita afiada de Allen (que se vale de um coloquialismo surpreendente na maioria dos diálogos), mas na interpretação viçosa de Phoenix, cuja especialidade são os papéis de problemáticos. Trata-se de um feliz encontro entre dois artistas que oferecem vários lados da mesma moeda, tornando em riqueza de detalhes o que poderia resvalar em mera repetição. A parceria entre ambos é um feliz encontro que poderia ter acontecido antes e mais vezes, mas é fato conhecido que boa parte dos nomes presentes nos filmes do cineasta lhe são soprados aos ouvidos por Juliet Taylor, que segue com ele na função de diretora de elenco desde A última noite de Boris Grushenko (Love and death, 1975). O mesmo talvez já não se possa dizer de Emma Stone e seus olhos esbugalhados: depois de Magia ao luar (Magic in the moonlight, 2014), ela parece ter conquistado Allen, mas também pode ser apenas um flerte, como o que ocorreu com Scarlett Johansson entre 2005 e 2008.

Na tela, é notória a química entre Abe e Jill, e apenas um certo exagero de Stone em algumas cenas destoam do ótimo trabalho da atriz, que segue com sua irritante dicção eminentemente linguodental. Ela já parece bem à vontade no universo do diretor, representando o polo da moralidade e do juízo que parece ter escapado definitivamente do alcance do professor, cujos atos caminham para uma preocupante espiral de decadência. Abrindo as portas da comparação, Homem irracional não se mostra condescendente. Está mais próximo de O sonho de Cassandra (Cassandra’s dream, 2007), franco subestimado da fase recente da produção alleniana, e mais distante de Crimes e pecados (Crimes and misdemeanors, 1989). Sem o menor aviso prévio, Homem irracional saca um deus ex machina da cartola e prova que Abe é a síntese de uma moral corroída, de um entusiasmo forjado por meio torpe, e não deixa de ser redarguido. O cinismo alleniano de outrora se converteu em sábia correção.

sexta-feira, 11 de setembro de 2015

Casa grande e os conflitos de uma sociedade em convulsão

"Todo brasileiro traz na alma e no corpo a sombra do indígena ou do negro."

O plano de abertura de Casa grande (idem, 2014) é pródigo em resumir o que vem a ser a estrutura geral do filme: uma habitação de proporções imensas, vista de frente a uma certa distância, com as luzes de vários cômodos acesas e o patriarca na jacuzzi ao ar livre terminando de se refrescar antes de mais uma noite de sono. Pacientemente, os créditos aparecem na tela, enquanto Hugo (Marcello Novaes) conclui seu banho, entra na casa e vai apagando as luzes. Logo, o espectador descobre que ali moram apenas mais três pessoas, a esposa Sônia (Suzana Pires) e os filhos Jean (Thales Cavalcanti) e Nathalie (Alice Melo). Aquela grandeza toda seria um sinal de desperdício ou ostentação? Sempre aos poucos, o roteiro de Fellipe Barbosa - que também dirige o longa - tenta oferecer respostas possíveis a essa pergunta, bem como a outras que vão se enfileirando ao longo da narrativa. 

Como o título evidencia, a produção apresenta semelhanças com o romance Casa grande e senzala, do sociólogo Gylberto Freire, também autor da citação que abre esta crítica. Para além da intertextualidade, o filme revela suas camadas à medida que, sob a ótica do garoto Jean, vamos estudando as contradições daquela família que já não encontra mais seu lugar em uma sociedade atravessada por profundas transformações de ordens diversas. As mazelas sociais a que eles pareceram sempre seguir incólumes agora já os rondam de alguma forma: é um castelo de cartas prestes a ruir. O adolescente é como outros de sua classe social: residente no Rio de Janeiro contemporâneo, não sabe o que é andar de ônibus e reproduz um discurso maniqueísta e retrógrado (se é que um dia já fez sentido) aprendido com o pai. Sonha com uma vida fora dos limites daquela casa (cada vez mais um elefante branco), mas o conforto de que (ainda) dispõe ali não é de se jogar fora.

Barbosa se utiliza de vários signos, alguns claros e outros mais discretos para dissecar os moradores. Sônia dá aulas de francês para ajudar no orçamento, e não poderia haver símbolo mais evidente de uma filiação aristocrática do que dominar esse idioma, quintessência da elite carioca no alvorecer do século XX e assim até o advento da hegemonia estadunidense - fato que qualquer estudante de História do Brasil pode guardar na memória. Diante da necessidade desconfortável (e qual necessidade não o seria?) de cobrar à aluna e amiga o pagamento pelas aulas do último mês, ouve uma proposta: por que não descontar o dinheiro da quantia que o marido da professora deve ao seu? O detalhe é que Sônia não fazia a menor ideia de que existia essa dívida e vai confrontar o marido a respeito. Esses e outros segredos estão incrustados na casa, e as paredes têm olhos, boca e ouvidos para todos. 

O diagnóstico daquela família é claro e triste: são reacionários incapazes de lidar com a própria decadência, sobretudo Hugo, que não abre mão de um orgulho besta de que o impede de conquistar um novo emprego. As economias, escondidas no closet em meio aos paletós com que desfilava outrora, estão perto de acabar, mas ele não perde a pose. Os empregados já não se justificam: é um luxo que não se pode mais manter. E será mera coincidência o fato de eles serem negros ou nordestinos? Entretanto, Casa grande não é um filme de extremos bem definidos, como acontece na sociedade. Não se trata de uma disputa entre vilões ou mocinhos, e mesmo o diagnóstico dado no início deste parágrafo pode ser relativizado ou acrescido de algumas nuances. Assim são as pessoas reais, o que só reforça a mímesis impressionante alcançada por Barbosa. Como não reconhecer indivíduos com os quais convivemos (no presente ou no passado) em Hugo, Sônia o Jean?



E Nathalie? Alguém aí ainda se lembra dela? Com quase nenhum direito a voz, a garota é um retrato do que deveria ser a mulher para muitos. Mas é justamente a autora das constatações mais sensatas de toda a família nas poucas vezes em que abre a boca. Fica até difícil sintetizar tantos sintomas de que ali o patriarca parou no tempo, e Barbosa se lembra de vários deles a cada sequência. Em críticas, foi apontado um parentesco entre Casa grande e O som ao redor no que tange a dissetar sobre a posição cada vez mais instável da classe média-alta brasileira, e as comparações têm razão de ser. Ambos não têm medo de tocar nas feridas de um grupo social que insiste em uma visão verticalizada e não se dá conta ou não admite que o mundo vai muito além dos seus cercados. A bem da verdade, são filmes complementares, que mostram que tal realidade não é comum apenas no Sudeste ou no Nordeste do País.

Quanto mais se distancia daquela grandeza falida, mais Jean (cujo nome deve ser pronunciado à francesa, como Sônia faz questão de frisar) é confrontado com o nível de descalabro que sua filosofia de vida herdada do genitor apresenta. Ele se envolve com uma garota moradora do bairro de São Conrado (localizado na área nobre do Rio de Janeiro) que serve como legítima vox populi de tempos mais arejados. Estudante do 3º ano do Ensino Médio e ilustração da frase de Freyre, pretende entrar na universidade através do sistema de cotas, para horror de Hugo, que enche o peito para dizer que nunca conquistou nada com sem esforço na vida. Será mesmo? Casa grande é um filme para a toda a família, e não se trata do lugar comum de produções com um humor leve e sem constrangimentos, mas porque todos, dos pais aos filhos, precisam entender que o mundo não cabe nos limites impostos por quatro paredes.

quarta-feira, 2 de setembro de 2015

BALANÇO MENSAL - AGOSTO

Senhoras e senhores, está no ar mais um balanço mensal! Em um mês cortado logo em seus primeiros dias por uma viagem em que não assisti a filmes, a quantidade de títulos foi reduzida a 25, e a qualidade se manteve boa no saldo final. Dessa vez, apenas longas inéditos compõem a lista, que traz entre realizadores famosos nomes como Edward Wood - e outro filme péssimo -, David Gordon Green encontrando o humor na incorreção política, Mike Nichols abraçando a despretensão, Aki Kaurismäki e sua obsessão pelo nonsense, Luis Buñuel e mais uma proposta surrealista. É hora de conferir o trio que merece o pódio - todos vistos nos últimos dias do mês e conhecer os melhores nas categorias de melhor importância na minha visão. Ei-los abaixo:

MEDALHA DE OURO


Rugas (Ignacio Ferreras, 2011)

Dedicado a todos os anciãos e todos que ainda virão a sê-lo, essa dócil animação não esconde o jogo sobre o que pode se tornar a última fase da vida. Conforme os anos passam, vem a decrepitude para a maioria de nós, e lidar com essa crescente incapacidade pode ser menos desalentador quando se pode contar com boas companhias. Assim acontece com Emilio, levado para uma casa de repouso porque o filho e a nora já não conseguem lidar com ele. Ao travar amizade com Miguel, depois de certa relutância em ficar longe da família, entra em contato com uma outra visão de mundo, e lida com outros personagens aos quais o roteiro dispensa notável carinho, como a senhorinha que guarda gelatinas e manteigas para o neto que a visita e o ex-locutor que só repete o que ouve, depois de ter "gastado todas as palavras". Emocionante, para dizer o mínimo, e obrigatório para todos que ainda têm idosos na família.

MEDALHA DE PRATA 


Homem irracional (Woody Allen, 2014)

Crítica completa aqui

MEDALHA DE BRONZE


O fantasma da liberdade (Luis Buñuel, 1974)

Um casal descobre que sua filha aceitou fotos de um estranho numa praça. São imagens comprometedoras dos dois em viagem de lua de mel. Um professor é convidado para um jantar na casa de amigos e lá as pessoas se sentam à mesa em vasos sanitários e comem em locais que se parecem com banheiros. Essas são apenas duas das passagens insólitas do penúltimo Buñuel, que fez do surrealismo uma arma pontiaguda para colocar em xeque a sociedade burguesa, como já vinha fazendo há alguns filmes. Entre o riso e a perplexidade, passando pelo desconforto, o espanhol não economizava críticas aos emergentes e as situações que beiram o ridículo são uma espécie de espelho curvo que acentua a maneira errônea com que lidam com os membros de outras classes. Aliás, onde já se viu dividir seres humanos pelo critério econômico?

INÉDITOS

LONGAS:

1. Solteiros com filhos (Jennifer Westfeldt, 2011) -> 6.0
2. La playa (Juan Andrés Arango Garcia, 2012) -> 6.0
3. Não olhe para trás (Dan Fogelman, 2014) -> 7.5
4. Plano 9 do espaço sideral (Edward Wood, 1959) -> 3.0
5. No calor do verão (Christophe Ali e Nicolas Bonilauri, 2005) -> 5.0
6. Filmefobia (Kiko Goiffman, 2008) -> 8.0
7. O protetor (Antoine Fuqua, 2014) -> 6.0


8. O ódio (Mathieu Kassovitz, 1995) -> 7.0
9. Segurando as pontas (David Gordon Green, 2008) -> 7.0
10. Uma secretária de futuro (Mike Nichols, 1988) -> 7.0
11. Rota irlandesa (Ken Loach, 2010) -> 7.5
12. Mortalmente perigosa (Joseph H. Lewis, 1950) -> 8.0
13. Calamari union (Aki Kaurismäki, 1985) -> 8.0


14. Escola de rock (Richard Linklater, 2003) -> 8.0
15. Noites de Cabiria (Federico Fellini, 1957) -> 8.5
16. Beijos de emergência (Philippe Garrel, 1989) -> 8.0
17. Secretária (Steven Shainberg, 2002) -> 4.0
18. O fantasma da liberdade (Luis Buñuel, 1974) -> 8.5
19. O estranho (Orson Welles, 1946) -> 7.5
20. No (Pablo Larraín, 2012) -> 8.0


21. Viagem ao princípio do mundo (Manoel de Oliveira, 1997) -> 8.0
22. O operário (Brad Anderson, 2004) -> 8.0
23. Hermano (Marcel Rasquin, 2010) -> 8.0
24. Grandes olhos (Tim Burton, 2014) -> 6.5
25. Rugas (Ignacio Ferreras, 2011) -> 9.0
26. Homem irracional (Woody Allen, 2015) -> 9.0

REVISTO

Poderosa Afrodite (Woody Allen, 1995) -> 8.0

CURTA

O banquete (Patrick Osborne, 2014) -> 7.0

MELHOR FILME: Rugas
PIOR FILME: Secretária
MELHOR DIRETOR: Luis Buñuel, por O fantasma da liberdade
MELHOR ATRIZ: Giulietta Massina, por Noites de Cabiria
MELHOR ATOR: Joaquin Phoenix, por Homem irracional e Christian Bale, por O operário
MELHOR ATRIZ COADJUVANTE: Emma Stone, por Homem irracional
MELHOR ATOR COADJUVANTE: Bob Cannevale, por Não olhe para trás
MELHOR ROTEIRO ORIGINAL: Woody Allen, por Homem irracional
MELHOR ROTEIRO ADAPTADO: Ignacio Ferreras, Rosanna Cecchini e Ángel de la Cruz, por Rugas
MELHOR TRILHA SONORA: No
MELHOR FOTOGRAFIA: Homem irracional
MELHOR CENA: O jantar inusitado de O fantasma da liberdade
MELHOR FINAL: Rugas