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terça-feira, 30 de novembro de 2010

Detalhes secretos da natureza humana perscrutados em “Edifício Master”

Documentários são tidos frequentemente como um espelho para a realidade, sem que haja qualquer refração que impeça o espectador de contemplar a conexão entre o que se está filmando e o que encontra palpabilidade no prisma do real. Mas não é bem assim que esse gênero cinematográfico funciona. Eduardo Coutinho, mestre nesse subtipo de filme, sentenciou, certa vez: “Não existe a filmagem da realidade, mas sim a realidade da filmagem”. E é sobre um de seus filmes que essa crítica se propõe a tratar. Edifício Master, produção rodada pelo diretor em 2002, é um atestado de como a câmera diante dos olhos de uma pessoa podem levá-la, ainda que sutilmente, a uma construção delicada de sua personalidade.

Coutinho passou sete dias colhendo depoimentos de moradores do conjunto de apartamentos de Copacabana, situado a poucas quadras da praia, onde vive gente simples e com histórias fascinantes para contar. Como ele mesmo disse em uma entrevista, Coutinho é um grande fofoqueiro, que está interessado em desarmar seus interlocutores, e ter seus olhos e ouvidos atentos ao que cada um tem a dizer. Esse exercício de curiosidade é praticado exaustivamente em Edifício Master, que perscruta aquilo que há de mais humano nas colocações feitas pelos habitantes daquele prédio.
O cineasta é um espectador paciente, e esse traço de sua personalidade se reflete diretamente em sua maneira de filmar: tranquila, contemplativa semiestática, mas nunca tediosa. Cada morador entrevistado, e que ficou na montagem final, procura se mostrar por inteiro, mesmo que se saiba que, diante de uma lente de filmagem, defeitos mais desagradáveis podem ser encobertos. Depois de horas a fio de filmagem, o resultado das entrevistas de Coutinho é um interessante amálgama de episódios notáveis das vidas particulares dos cariocas de nascimento ou por adoção, que geram no espectador a empatia quase imediata. De uma forma ou de outra, os homens e mulheres que abrem suas moradas também abrem suas almas, e desnudam seus interiores de modo bastante naturalista. O mérito vai para Coutinho, que sabe o limite entre o simples entrevistador e o interlocutor que apenas observa, atento, as falas de seus entrevistados. Por isso, em pouco minutos de conversa, os “personagens” do filme se sentem à vontade para se mostrar por inteiro.
O edifício Master é um prédio residencial composto de 12 andares, com 23 apartamentos por andar, totalizando 276 apartamentos onde moram 500 pessoas. Ali, diferentemente do que muitos podem pensar, não existe aquele grande glamour que envolve os habitantes da Zona Sul carioca. Reunidos em pouco mais de duas horas de imagens, eles são essencialmente humildes, gente ordinária, no sentido primeiro da palavra, que é comum. As pequenas vivências de seus cotidianos, entretanto, rendem histórias extraordinárias, e os tornam claramente heróis e heroínas de suas vidas. No total, Coutinho entrevistou 37 moradores, que expressam a revitalização do interesse do diretor pelo discurso alheio, espargida em uma série de confissões, que não são, necessariamente, a inteireza dos caracteres daqueles que falam.
Para quem é pouco afeito aos documentários, confundindo-os como videoaulas, Edifício Master é uma ótima chance de adentrar esse universo particular de filmes que se propõem a estar mais vinculados ao real que as ditas produções ficcionais. É claro que, como já foi comentado, o documentário não é a realidade em estado puro. Cada fotograma apresentado no filme é uma construção, e não uma chegada a uma verdade objetiva, o que clarifica para o público que um dos aspectos importantes que serve de diretriz para a obra de Coutinho é esse: ele não está interessado em capturar a realidade tal como ela é formada. Até porque, no fundo, é praticamente impossível ter acesso total à realidade, já que somos o tempo todo filtrados pelos nossos sentidos no contato com o real.
Com as inúmeras portas e janelas de que o edifício é formado, o cineasta também atenta para a multiplicidade de discursos que aparece em seu filme, tornando a polifonia de vozes e depoimentos totalmente metaforizada. Coutinho aprecia a mescla de cores e formas infinitas, que acentuam a enorme discrepância – que é saudável, diga-se de passagem – que marca a raça humana. E os discursos que se vão sucedendo transparecem essa disparidade de olhares, como no caso de uma garota de programa que expõe sua rotina, sendo precedente à entrevista de uma espanhola extremamente pudica. A verve iconoclasta, por assim dizer, do realizador, mostra-se afiada, portanto. Como em obras posteriores, entre as quais estão O fim e o princípio (2005) e Jogo de cena (2007), não há qualquer julgamento moral sobre o que está sendo retratado na tela. Coutinho se limita a ouvir, e quase não faz perguntas, conduzindo muito levemente os depoimentos de seus entrevistados.
O documentário tem um tratamento da imagem bastante delicado e suave, que colabora para criar (sim, criar!), uma atmosfera de intimidade com aquelas pessoas que estão falando de suas vidas. Por mais que não vivam reviravoltas mirabolantes em suas trajetórias, elas têm sempre muito a declarar. Em Edifício Master,o interesse maior de Coutinho é pelo prosaico, pela maneira com que cada entrevistado conduz sua vida. Os relatos não passaram por nenhum tratatamento, além da edição que recorta alguns trechos que tornariam os depoimentos longos demais. Mais do que tudo, é um filme em que a palavra triunfa, como uma espécie de tentativa de conhecimento do outro a partir daquilo que dizem. Nas entrelinhas das entrevistas, cabe uma multiplicidade de discursos, que abarcam as mais diferentes esferas da vida humana, e são um polo gerador de identificação.