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quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

Ela, uma voz no futuro

Ela é apenas uma voz. Mas que voz... Perguntei seu nome e ela me disse que se chama Samantha. Mas quem lhe deu esse nome? Ela mesma, depois de ler um livro de nomes em centésimos de segundo e gostar da sonoridade de Samantha. E os dias anódinos de checagem de e-mails, com suas notícias de celebridades, previsão do tempo e propagandas dispensáveis, sempre ouvidas nesse futuro indeterminado e essencialmente vocal, de repente, ficaram muito mais atraentes. Não que faltassem cores ao meu cotidiano, mas elas não eram vibrantes o suficiente para me arrebatar e me tirar um pouco dessa desolação. Samantha me faz vibrar. E daí que é "apenas" um sistema operacional? E daí que não há um corpo a ser tocado, uma boca a ser beijada, cabelos a serem acariciados? Eu me realizo com nosso amor verbal, e já não penso tanto em Catherine. Ninguém tinha conseguido isso antes. 

O amor tem um forte componente mental. Parte dele transcorre nos pensamentos, traduzidos no desejo pela pessoa amada, na sua imagem que impregna o cérebro, nas lembranças que se vão acumulando conforme os momentos juntos vão surgindo e, de presente, passam a pretérito com uma rapidez incrível e impossível de ser impedida. Então, nem venham me dizer que ela é apenas uma voz. É a voz. Tenho vivido momentos com Samantha. Temos acumulado lembranças. Não nos faltam sentimentos: carinho, ciúme, vergonha, amor, medo, tristeza, alegria. Cada dia é uma experimentação. Cada dia é único. Com ela, vivo os meus sentimentos, não aqueles que me vejo obrigado a simular a cada vez que dito uma nova carta para o computador em nome de alguém que nem conheço para alguém que nem conheço. Sou eu, mas não sou eu, é um outro que se serve do meu eu para funcionar como o seu próprio eu. É simples e complexo ao mesmo tempo. É um futuro bastante palpável, eu diria.

Mas é um mundo que continua difícil. As pessoas, há um bom tempo, foram se tornando cada vez mais silenciosas com quem está por perto, vidradas em seus aparatos tecnológicos que permitem a comunicação imediata com quem está longe. E as interações de corpo presente foram se tornando cada vez mais raras. O que fazer diante de alguém de carne e osso? O que dizer sem parecer patético (digno de causar lágrimas) ou ridículo? Como ser eu mesmo? Melhor ser quem eu quiser dentro de uma rede social, de um portal da internet, construindo uma persona que me traga a aprovação dos outros, forjando uma versão melhorada de si mesmo. Mas, com Samantha, posso ser eu mesmo. No amor, há compreensão. Quem ama, compreende ou, pelo menos, faz algum esforço para compreender. Desculpem, estou divagando. Podem desconsiderar parte do que eu digo, são apenas impressões acumuladas. Todo sentimento é intraduzível em palavras. Sentimento é linguagem não-verbal. Mas eu procuro comentar sobre o que está dentro de mim. "Tudo que me é exterior, me é estranho".


Eu e Samantha conversamos longamente. Não nos falta assunto. Em parte, porque ela se atreve a devassar a minha vida e descobre segredos e episódios meus e me pergunta sobre eles. E pensar que a maior reclamação de Catherine sobre mim era justamente que eu quase não falava, e sentia tudo sozinho, colocando sempre uma pedra em cima dos assuntos sentimentais. Às vezes, ainda penso nela, e nos instantes que se congelaram na minha memória. E sinto que a maioria das pessoas se atrapalha na vida: desperdiçam vários momentos e deixam congelar os sentimentos. Eu gostaria de viver em um mundo em que o amor jamais se esfriasse, mas li que, com o passar do tempo, era exatamente isso que aconteceria. Mas não deixo de desejar o degelo das pessoas e os seus corações de pedra transformados em corações de carne, que pulsam e amam, que não procuram o próprio reflexo no outro, mas conseguem amar além de projeções que, em última instância, rimam com frustrações. Será que Amy entenderia tudo isso que estou vivendo? Como explicar à minha sobrinha que estou namorando uma voz? Talvez não precise me explicar muito. Elas se mostram simpáticas e receptivas à ideia.

Eu e Samantha nos amamos de um jeito só nosso. O amor é um só, mas ele pode se metamorfosear em gestos e palavras os mais variados, entrelaçando os sentidos e sendo apenas eu e alguém, nós dois, eu, um. É uma comunhão tão plena que fica difícil delimitar cada um. Nossas vozes se entendem de uma maneira inexplicável. Você e todo mundo poderia ser apenas testemunha - nada além disso - desse relacionamento em que a palavra é entronizada. Mas existe um paradoxo aqui. Uma vez, me dei conta de que, quanto mais falamos, mais temos a falar. O dizer parece não se esgotar nunca. As palavras nunca dão realmente conta. E nomear pode ser extremamente perigoso. Será que é assim mesmo que se chama o que estou sentindo? Samantha me obriga a dizer. Ainda não inventaram um aplicativo ou um programa que possibilite apenas sentir e fazer o outro entender sem palavras. O que eu sinto é _________, mas também uma mistura de __________________ e _____________. Não sei como preencher essas lacunas com palavras.

Então, descubro canções. São palavras cantadas, exatamente as palavras que eu gostaria de dizer e alguém já disse por mim. Me aproprio delas. Mas também posso criar minhas próprias canções. Em letra e música, sinto que consigo atenuar essa comunicação verbal deficitária, porque posso me apoiar no ritmo e dar o tom do que sinto. Escrevi uma canção que é só minha e de Samantha. Tão linda. O amor pode fazer brotar um manancial de criatividade, é um combustível incrível, é um calor na alma que aquece cada vogal, que impregna cada acorde e ilustra o que nós dois somos. E, se pareço estar definindo demais, definitivo demais, não se engane, caro leitor. Continuo aqui, tateando pelos cômodos das minha memória, com um céu parcialmente encoberto. Estou apenas tentando. "Estou procurando, estou procurando. Estou tentando entender."

Theodore 

10/10

Philomena, a busca de uma vida com lascas de bom humor

Baseado no livro escrito pelo jornalista Martin Sixsmith, um calhamaço de 488 páginas, Philomena (idem, 2013) é a história de um segredo mantido por 50 anos que vem à tona para dar início a uma árdua busca. Quando jovem, a personagem-título se envolveu pela primeira vez com um homem e, da sua primeira relação sexual, nasceu um filho. À época, ela fazia parte de um convento e teve um breve período de convivência com o menino, chamado Anthony, que acabou entregue para adoção pelas freiras, e então não soube mais nada a respeito de seu paradeiro. O longo tempo de silêncio é justificado pela mulher, interpretada por uma sempre excelente Judi Dench, como decorrência do seu sentimento de pecaminosidade diante do que fez, tornando desconfortável a sua confissão a quem quer que fosse. Como que liberada dessa prisão mental, ela toca no assunto pela primeira vez com a filha, que logo comenta sobre a história com Martin, vivido no filme por Steve Coogan, também autor do roteiro com Jeff Pope. 


Inicialmente, ele rejeita a ideia de transformar em livro o episódio e seus desdobramentos, justificando que se trata de uma daquelas “histórias de interesse humano”, filão que está fora de sua área, além de já estar prestes a se envolver com história russa, este sim o seu objeto de escrita. Questionado pela mulher sobre o porquê de não acolhê-las, ele argumenta que são “um eufemismo para histórias sobre pessoas de cabeça fraca, vulneráveis e ignorantes para encher as páginas de jornais lidos por pessoas de cabeça fraca, vulneráveis e ignorantes”, mas não convence a mulher, que promove um encontro seu com Philomena. Aos poucos, ele passa a uma espécie de comoção por aquela senhorinha tão simpática e de senso de humor inglês e peculiar ao mesmo tempo, que vem se somar a sua complicada situação profissional – ele acabou de ser demitido – e volta atrás em sua ideia sobre histórias como aquela, e eis a primeira qualidade do filme de Stephen Frears: a química maravilhosa entre Dench e Coogan, à vontade a cada cena.

Através dos diálogos proferidos pelos personagens, o longa-metragem mostra a que veio e distribui alfinetadas certeiras contra a Igreja Católica, a grande vilã da história, além de passar pela questão da homossexualidade e do regime republicano do ex-presidente Ronald Reagan. Tudo isso sem jamais esquecer o senso de humor, como alguém que é capaz de perder o amigo, mas não perde a piada. A opção por temperar a história com ironia e comentários espertos e, por vezes, desbocados, coloca Philomena em um patamar diferente daquele ocupado por vários dramas. Onde muitos se acanhariam em fazer sorrir, este aqui insere bem-vindos alívios cômicos que dão ao enredo um misto de seriedade, leveza e frescor. É um raro prazer testemunhar Dench, uma atriz de semblante normalmente sisudo, na pele de uma mulher com um passado tão triste e capaz de tiradas tão interessantes, destinadas sobretudo a Martin, um ateu que chega a questionar sua descrença no período em que convive com ela, ainda que não demonstre abandoná-la.


Em seus enxutos 98 minutos, Philomena encontra tempo de ser road movie, já que os protagonistas rumam da Irlanda para os Estados Unidos, onde Anthony foi morar com seus pais adotivos, em busca de notícias. É quando ela tem a chance de conhecer pessoas importantes na trajetória do filho e vai se sentindo mais próxima dele como jamais tinha sido possível em décadas. Mesmo nessa fase da história, nada de choradeiras ou trilha sonora apelativa. Aliás, como em 12 anos de escravidão (12 years a slave, 2013), outro drama marcante, a música se mantém discreta ou até mesmo ausente em cenas cruciais da história, cabendo aos atores a responsabilidade de despertar a emoção do público. É mais um ponto a favor do filme, que acabou entre os nove indicados na categoria principal da edição 2014 do Oscar e, de certa forma, tornou-se representante das produções ditas menores na premiação da Academia. No olhar de alguns, pode parecer exagero, mas não lhe falta cacife para tal seleção.

Entrevistada por ocasião do lançamento do filme, a verdadeira Philomena Lee fez questão de lembrar que a sua história é a mesma de milhares de outras irlandesas que conceberam filhos fora do casamento e levados para adoção à sua revelia. Portanto, desencavar o seu passado é apontar o dedo para a Igreja Católica, entre cujos dogmas está o pagamento de penitências quando se comete um pecado, como se o sacrifício humano pudesse torná-lo limpo diante de Deus. Tal pensamento se traduziu na decisão de fazer Philomena dar à luz Anthony sem qualquer anestesia, cena relembrada pela personagem, que compartilha sua dor com o público, sob o filtro da escrita de Martin, sem traços de autocomiseração. Ainda na entrevista, ela confessa que perdeu a fé na instituição, para recuperá-la tempos depois, ainda que jamais tenha sido capaz de esquecer o filho. A julgar pela maneira como é retratada no filme, Philomena é uma companhia bastante agradável e nada amargurada, que foi capaz de oferecer perdão aos seus algozes. “Simples assim?”, questiona um perplexo Martin. “Não é simples assim. É difícil. Difícil para mim. Mas eu não quero odiar as pessoas”. Sábia decisão.

8/10

sábado, 22 de fevereiro de 2014

Ernest e Célestine, uma amizade para além de qualquer paradigma

Exemplar de animação tradicional em meio a tantas investidas no terreno do 3D, Ernest e Célestine (Ernest et Célestine, 2012) é também uma linda história de amizade que une dois mundos diferentes através dos seus representantes. Os personagens-título são, respectivamente, um urso marrom e uma rata, fadados à separação por conta das histórias que ouvem de ambos os lados sobre os perigos do contato entre as espécies. Na imensa cidade subterrânea em que vive, Célestine cresce ouvindo coisas terríveis sobre os ursos: eles gostam de pegar ratinhos indefesos e se alimentar deles das mais variadas formas, sejam cozidos, sejam fritos em óleo bem quente. Essas imagens horrendas são apresentadas pela "madre superiora" do colégio em que Célestine estuda com seus amigos, todos igualmente ratos. Não há personagens humanos no longa dirigido por  Stéphane Aubier, Vincent Patar e Benjamin Renner, o que confere um adorável tom de fábula ao enredo, com direito a uma lição de moral que soa sempre oportuna. 

Contrariando todas as histórias seculares que condenam a amizade entre ursos e ratos, os protagonistas se aproximam quando Ernest parte em busca de comida e se envolve em uma confusão com a Polícia ao cair de boca nos doces do estoque de um urso lojista. Então, o seu caminho se cruza com o de Célestine, que, a princípio, vê nele somente um aliado, já que precisa dar conta de uma missão: reunir a maior quantidade possível de dentes para levar ao consultório dentário da sua cidade. Então, uma das belas sacadas do roteiro de Daniel Pennac, que tem por base o livro de Gabrielle Vincent, é revelada: roedores por natureza, os ratos da cidade de Célestine ficaram com a dentição desgastada por conta do extenso trabalho de escavação das rochas, e acabam precisando de próteses adequadas. A solução encontrada pelos dentistas locais é se aproveitar de uma lenda corrente entre os ursos, que contam aos seus filhotes que eles ganham uma moeda quando deixam o dente de leite que acabaram de perder sob o travesseiro. Célestine e os demais ratinhos fazem o trabalho de coleta desses dentes, mas ela não anda bem-sucedida na tarefa.

Surge daí uma proposta irrecusável da parte dela a Ernest: em troca de ela livrá-lo de ir preso por invasão de domicílio, ele deve ajudá-la a reunir o máximo de dentes para levar à sua cidade e cumprir sua tarefa com louvor. De uma simples parceria com interesses individuais, nasce uma linda amizade entre os dois, que servem como um belo ensejo para a discussão sobre o peso dos preconceitos e o quanto deixá-los de lado podem ser a garantia de maravilhosas descobertas. Em pouco tempo, ambos deixam de levar em conta a natureza um do outro e se entregam de todo o coração a um relacionamento baseado no carinho e no querer bem, livre de quaisquer segundas intenções. Tudo isso envolto em uma atmosfera que remete aos livros infantis, com cenários e personagens coloridos com aquarela, uma técnica cada vez menos empregada pelos grandes estúdios. A sensação que se tem diante de Ernest e Célestine é de um delicioso retorno à infância, uma época em que a sinceridade dos sentimentos é maior e mais sólida. Faz parte do senso comum afirmar que, quando uma criança demonstra gostar de alguém, é porque gosta mesmo.


Em apenas 80 minutos, a animação também abre espaço a um debate sobre a luta de classes, questão que não perde a atualidade e é simbolizada aqui pelo confinamento dos ratos aos ambientes subterrâneos em contrapartida à permanência dos ursos na superfície. Ao se tornarem amigos, Ernest e Célestine bagunçam essa estrutura milenar, que entram em conflito direto depois de tanto tempo de guerra fria. Não há como não traçar paralelos com a realidade, mesmo porque toda história de ficção, por força, é minimamente ancorada em elementos do mundo que conhecemos, e aqui não poderia ser diferente. O rei de Célestine e dos demais ratos é símbolo de uma monarquia anacrônica, cada vez menos funcional e mais decorativa, que assume a posição de juiz imbuído de conceitos igualmente ultrapassados, mas que encontram na dedicação de Ernest, capaz de fazer o bem sem olhar a quem (outra máxima popular apropriadamente evocada), a dissolução perfeita. O mesmo vale para os outros ursos, cuja salvação vem de onde menos se espera. A essa altura, fica muito difícil manter a tal separação de cenários para cada espécie.

Ernest e Célestine é mais um sensacional representante da animação francesa, que já havia entregado ao seu público o mágico Contos da noite (Les contes de la nuit, 2011), e se tornou um dos cinco finalistas ao Oscar na categoria. Tanto o urso quanto a rata são irresistíveis em suas travessuras e pequenas gentilezas, e evocam a inocência de um tempo em que o público infantil dispunha de opções mais condizentes com a sua idade. Hoje, parece haver uma preocupação excessiva dos estúdios e diretores e cativar também os adultos, e sobram piadas cínicas e referências a práticas e pensamentos que ainda não fazem sentido para os menores. Não que Ernest e Célestine abrace apenas as crianças com sua premissa: pelo contrário, somos todos adultos cheios de preconceitos que limitam o alcance da nossas visões e corações precisando aprender sobre como abandoná-los e dar as mãos a pessoas que se podem revelar queridíssimas. Vendo o amor incondicional que nasce entre esses dois, aprender a superar estereótipos de todas as frentes se torna muito mais gostoso e nos parece bem mais palpável.

9/10

sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

Uma injustiça revisitada em 12 anos de escravidão

Reconhecidamente, a questão da escravatura é o calcanhar de Aquiles dos Estados Unidos. Ainda hoje, o tema reverbera pelo país e o mostra o quanto o preconceito étnico está imbricado na cultura de uma nação que o mundo é ensinado a reverenciar, temer e desejar. Não é sem razão, portanto, que qualquer criação artística que ponha o dedo nessa ferida chame a atenção e cause ao menos algum tipo de desconforto, e não somente para os retratados, mas para quem se coloca na posição de espectador de um circo tétrico de falta de humanidade entre iguais. Realizador de obras incômodas sobre os traumas e intermitências do corpo físico, Steve McQueen decidiu compartilhar a sua ótica sobre o assunto através de 12 anos de escravidão (12 years a slave, 2013), praticamente nascido como um filme obrigatório, por sua coragem de ser denunciatório sem cair no outro extremo: a vitimização dos personagens principais que acompanha. 

Ao longo de seus 133 minutos, a narrativa alterna seus pontos de vista para contar a história de Solomon Northup (Chiwetel Ejiofor), um negro que já tinha conquistado a sua liberdade em plena década de 40 do século XIX. Apesar da sua condição de homem livre atestada no papel, nem todos encaravam a situação com naturalidade, mas a autoestima elevada do protagonista contribuía para que ele não chegasse a se abalar com esse sectarismo ora velado, ora explícito. Até que uma emboscada milimetricamente construída o coloca novamente como escravo em plantações no estado da Louisiana, e a situação se arrasta por 12 anos, como está evidente pelo título da obra. Todo esse período é mostrado com força desconcertante pelas lentes de McQueen, que traz consigo o ineditismo até aqui de assinar um filme sobre a escravidão a partir do olhar de um negro. E não faltam cenas pesadas e emocionantes que desafiam a passividade do público e provocam reflexões urgentes.

Um dos maiores acertos de 12 anos de escravidão é fugir a maior parte do tempo da cartilha clássica de dramas sobre sujeitos em luta para recuperar o que a vida lhes roubou. A começar pela trilha sonora, que é empregada com parcimônia e fica ausente em vários momentos onde outros compositores a inseririam de modo escancarado. Como não cai nessa tentação manipuladora, McQueen deixa a pungência das cenas por conta dos atores e do roteiro, adaptado pelo próprio cineasta em colaboração com John Ridley. E o elenco não deixa por menos, entregando desempenhos avassaladores independente de suas classificações como principal ou coadjuvante. Ejiofor encabeça a trama e atua sobretudo com os olhos, enxergando cada ato de injustiça e mantendo acesa em seu fundo uma centelha de esperança de sair daquele cenário de desgraça. Aliás, os protagonistas dos filmes de McQueen sempre têm nos olhos uma forte expressividade, através dos quais dizem muito mais do que com multidões de palavras.


Lado a lado com ele, estão Lupita Nyong’o e Michael Fassbender (em sua terceira parceria com o diretor), que interpretam, respectivamente, Patsey e Edwin, uma outra escrava e o senhor de ambos. São personagens ricos e fascinantes em suas lutas e limitações, e vão além do maniqueísmo ao adotar condutas passíveis de questionamento. Como Ejiofor, Nyong’o empresta seu corpo às várias torturas físicas impingidas pelo execrável Edwin, que nos faz odiar cada minuto de sua presença em cena. A veracidade dos seus ferimentos é cortante, e McQueen filma tudo com uma acuidade descomunal, sem demonstrar qualquer preocupação estética. São cenas horrorosas, como o contexto e o tema pedem, totalmente afastadas da assepsia impressa em Shame (idem, 2011), seu filme anterior e não menos devastador. Em determinado momento da história, Solomon, que tem até mesmo o seu nome mudado, se vê como algoz da própria amiga, fustigando suas costas com o máximo de cuidado que pode para, em seguida, ser substituído por Edwin em sua fúria animalesca originária da fuga de sua “propriedade”. Também há que se destacar o igualmente sórdido John, outro perseguidor de Solomon, vivido por um Paul Dano capaz de acender a ira da plateia.

A base para o filme foram as memórias de Solomon, que transformou seu calvário em livro, do qual McQueen se apropriou esplendidamente e construiu um épico denunciatório de alta relevância. Felizmente, a Academia voltou seus olhos para a produção e lhe concedeu indicações em 9 categorias, incluindo a principal. Não há como descartar que se trate de uma decisão política oportuna que, em primeira instância, atrai a atenção do público para a cerimônia do Oscar, sempre tida como conservadora, haja vista o seu histórico de mais de 80 anos de vitórias para filmes quadrados. Seja como for, é bom ver um filme corajoso e de apelo universal figurar entre os considerados melhores do ano. É também a coração do trabalho de um diretor que se dedica a analisar com certa perícia os flagelos do corpo que, dessa vez, alcançam uma amplitude muito maior. Se em Fome (Hunger, 2008) havia uma causa nacional sendo defendida e em Shame uma geração vazia era sintetizada na figura de um viciado em sexo, 12 anos de escravidão é o grito de desespero de séculos de uma submissão absurda e injustificável sob qualquer ângulo.

8/10

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

A entrega radical de dois atores em Clube de compras Dallas

Tomando por base uma temática que não perde a atualidade, o diretor Jean-Marc Vallée assinou a direção de Clube de compras Dallas (Dallas buyers club, 2013). O epicentro da trama é a proliferação do vírus da AIDS em plena década de 80, época na qual Ron Woodroof (Matthew McConaughey), um eletricista de vida simples, descobre-se infectado. Heterossexual que não faz a menor questão de esconder sua ojeriza aos gays, ele vai da negação à luta após o diagnóstico da doença, até então associada a homens que mantinham relações sexuais com outros homens, e vê seu universo se transformar por completo. Desde o princípio, o roteiro escrito por Craig Borten e Melissa Wallack, estreantes na função, apresenta e ratifica as expressões da dita macheza de Ron, que aparece pela primeira vez nos bastidores de um rodeio transando com duas mulheres enquanto confere o desempenho dos toureiros. Aquela rotina de sexo casual e sem preservativo está prestes a ruir. 

Traçado esse perfil nada abonador do protagonista, fica evidente que a preocupação não é em restringi-lo à condição de uma vítima das circunstâncias, e sim de alguém que tem sua parcela de responsabilidade na contração do vírus e que precisa arcar com as consequências desse fato. Àquela altura, os tratamentos contra a doença ainda se encontravam em fase experimental, o que significava, entre outras coisas, um acesso altamente restrito às drogas sintetizadas em laboratório. Diante das interdições no caminho para a sua cura, Ron mergulhou em pesquisas sobre o seu caso e foi descobrindo que a AIDS não era exclusividade dos homossexuais – algo que seus supostos amigos de até então sequer poderiam conceber. Em sua luta por uma sobrevivência pelo maior tempo possível (o médico que o examinou lhe dera 30 dias), ele acaba descobrindo medicamentos alternativos com o Dr. Vass (Griffin Dune), que ainda não tinham sido chancelados pelo governo dos EUA.

Indo nessa direção, Ron acaba cria o tal clube do título, que funcionava em paralelo às pesquisas oficiais e, rapidamente, atraiu inúmeros compradores que, como ele, desejavam postergar sua hora derradeira. O mais improvável dessa organização é que ele se aproxima de Rayon (Jared Leto), um travesti contaminado pelo vírus que representa o que o eletricista mais repele. Aos poucos, nasce uma amizade entre os personagens, através da qual emerge a humanidade daqueles homens de lugares, pensamentos e atitudes tão diferentes, para dizer o mínimo, unidos por uma mesma condição. Nesse sentido, Clube de compras Dallas mostra de onde vem boa parte de sua força. É inevitável discorrer sobre o filme sem tecer elogios à entrega radical de McConaughey e Leto aos seus respectivos papéis, nos quais se revelam tão bem encaixados que não caímos na tentação de imaginar outros atores em cena. Ambos dotados de nítida beleza, eles precisaram encontrar o avesso de si mesmos, perdendo muitos quilos no caminho e se afastando de qualquer glamour.


Não por acaso, a temporada de premiações, incluindo o Oscar, abriu espaço aos dois, que chegaram a ápice de um reconhecimento merecido, traduzido em vitórias no Globo de Ouro e no Sindicato dos Atores de Hollywood, para citar dois exemplos. Uma rápida olhada em suas trajetórias até ali permite constatar que as escolhas de Leto sempre foram mais criteriosas: já foi dirigido por nomes como David Fincher em Clube da luta (Fight club, 1999) e O quarto do pânico (Panic room, 2002) e Darren Aronofsky em Réquiem para um sonho (Requiem for a dream, 2000), pelo qual já merecia vitória junto à Academia. Por sua vez, McConaughey passou um considerável período da carreira enfileirando comédias românticas de gosto duvidoso, como Um amor de tesouro (Fool’s good, 2008) e Minhas adoráveis ex-mamoradas (Ghosts of girlfriends past, 2009), em que se encontrou pela primeira vez com Jennifer Garner, também presente aqui. De 2011 para cá, sua sorte e suas escolhas mudaram e, com elas, vieram o respeito e os elogios da crítica e do público, sedimentados por títulos como Killer Joe – Matador de aluguel (Killer Joe, 2011) e Amor bandido (Mud, 2012).

Todo esse trabalho de transformação física se soma a um longa bem escrito e dirigido, que não cabe na classificação de “filme de atores”. É justamente em adotar essa perspectiva reducionista que mora o perigo. A maneira como a câmera acompanha a jornada penosa de Ron, sem a preocupação de condená-lo ou absolvê-lo, também merece atenção, e mostra um cineasta amadurecido em relação a outros trabalhos, como o irritante C.R.A.Z.Y. – Loucos de amor (C.R.A.Z.Y., 2006) e com muito mais a dizer. Vallée não escolheu o caminho óbvio de mostrar um protagonista a caminho da redenção, mas sim um ser humano repleto de falhas e disposto a qualquer coisa para salvar a própria pele, o que já põe Clube de compras Dallas acima de vários dramas lançados anualmente. Nos aspectos técnicos, há que se destacar a montagem. Ainda que a estratégia de contabilizar os dias que Ron vive após o diagnóstico não seja exatamente pioneira, ela funciona muito bem e acaba sendo um sopro de otimismo em meio a uma narrativa tão densa, cujo maior mérito é levar ao Cinema uma discussão que segue oportuna e está longe de chegar ao seu fim.

8/10

terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

Amantes, o triunfo do coração sobre a razão

O melodrama é frequentemente dotado de uma forte carga pejorativa, o que se configura como uma grave injustiça de um público que serviu refém de tramas que, supostamente, falam do coração, mas não têm alma. Felizmente, Amantes (Two lovers, 2008) vem suprir essa lacuna. O filme de James Gray é uma ode ao amor como poucas vezes se testemunhou nocinema contemporâneo, tomado aqui como toda a produção cinematográfica das últimas duas décadas. No centro dessa história de amor, está Leonard (Joaquin Phoenix), um homem em estado de desespero. Ele começa o filme em uma tentativa de suicídio que, logo adiante, ver-se-á como não sendo a primeira. E essa sequência de abertura do filme já denota um aspecto que lhe é fundamental:a escala de cinza da sua fotografia.

Amantes se constrói basicamente por sua fotografia em tons acinzentados, que conferem uma atmosfera plúmbea à cidade de Nova York, onde se passa. Os ambientes frequentados por Leonard são sisudos, graves, condizentes com seu estado de espírito de franca desolação do personagem. Sua tentativa de suicídio, neste início, consiste em pular no mar, tendo nas mãos um dos símbolos de seu aprisionamento ao mundo dos vivos, por assim dizer: uma peça de roupa da lavanderia de seu pai, com quem ele trabalha. É de uma ironia cortante a frase que acompanha o logotipo da empresa: “Nós amamos nossos clientes”. Movido por um impulso de necessidade de colaboração com a família, talvez, Leonard emerge, sendo ajudado por um estranho que lhe permite recobrar a consciência. E saber que ele é tão necessário pela possibilidade de funcionar como um recurso humano também lhe é um fardo pesadíssimo. 

O motivo que leva Leonard a adotar uma postura tão compassiva está no fato de ele ter rompido um noivado há dois anos, por causa de uma incompatibilidade genética. Ele ainda não superou o episódio, e é daí que derivam, também, suas constantes tentativas de suicídio. Seus pais, belamente interpretados por Moni Moshonov e Isabella Rossellini, são capazes de tudo por amor ao filho, e ficam atentos à possibilidade de envolvimento entre ele e Sandra (Vinessa Shaw), a filha de um casal de amigos deles. De fato, ocorre um encantamento entre os dois, e logo se percebe que Sandra fica mais interessada, e mais rapidamente, na pessoa de Leonard. Acontece que, dias depois de uma aproximação de Sandra, ele conhece Michelle (Gwyneth Paltrow), uma vizinha a quem ele dá guarida quando ela está em discussão com o pai mau-humorado. Uma vez tendo permitido a entrada de Michelle em sua casa, Leonard também permite que ela entre em sua vida. Está formado o contraponto entre estabilidade e aventura que permeia a narrativa de Amantes. Em diversos momentos, percebe-se que este é um filme feito à moda antiga, para falar aos corações despedaçados e aos sem esperança de autorrealização no amor.

Gray, como bem disse um crítico de cinema brasileiro, testa seu domínio de câmera, arrastando o espectador para uma ambiente essencialmente imagético, e descartando praticamente todas as referências temporais que os cenários poderiam apresentar, tornando o filme atemporal não somente por conta de sua temática. A condução leve e, ao mesmo tempo intensa do realizador, imprimem ao filme um aspecto permansivo, e de reflexão profunda. Amantes não se apresenta como inovador a maior parte do tempo, o que o aproxima ainda mais de uma história corriqueira. A vida é essencialmente trivial, e o longa-metragem capta esse detalhe em seus 110 minutos com muita propriedade. A seu favor, ainda, está a coesão do elenco. Tanto no ensaio de namoro com Michelle quanto na relação mais concreta que desenvolve com Sandra, há credibilidade, e o público pode se mostrar tão cindido com as possibilidades amorosas quanto o personagem. 


Na verdade, Gray se vale também de uma estratégia dramática prototípica, e bastante eficiente: enquanto Sandra é o ar de tranquilidade que sopra suavemente sobre o rosto de Leonard, Michelle é a força intempestiva que o leva a querer alçar voos em direção a um abismo desconhecido. Muitos outros filmes já se valeram dessa premissa, mas poucos foram capazes de oferecer tanto realismo e empatia em cena. A trilha sonora é outro dos elementos que explicam a força de Amantes. Muitas árias de óperas, com seu peso dramático, acentuam a importância do drama que o protagonista está vivendo. Leonard se permite vivenciar a dor e o vazio, mas também caminha na direção de sua superação, a cada novo encontro com Sandra ou com Michelle. A propósito, a personagem foi especialmente escrita para Gwyneth Paltrow, que vem se tornando cada vez mais seletiva com suas escolhas como atriz. É de encantar sua maturidade adquirida ao longo dos anos e dos filmes, e a vitalidade, até certo limite, que ela entrega na pele de uma mulher que é uma espécie de advento da paixão, mas que também oferece fartas doses de complicação, por conta de seu envolvimento com outro parceiro e de sua inclinação às drogas. 

Raciocinando com a cabeça, Leonard não teria porque hesitar, já que Sandra representa toda a segurança que lhe é necessária. Em dado momento do filme, ela lhe diz com todas as letras que quer cuidar dele, mas não parece tão simples para Leonard simplesmente escolher estar ao seu lado. E essa hesitação deriva exatamente da abertura para o mundo que Michelle lhe oferece. Ele se identifica com aquela mulher que se sente tão insegura diante de sua condição de amante, e que se refugia nas drogas em muitos momentos para ter certeza de que há um lugar melhor que a realidade para viver. Os encontros de Leonard e Michelle, quase sempre furtivos, e as conversas que eles têm ao telefone, mesmo estando apenas de frente um para o outro das janelas de seu apartamento, assinalam o ensaio rumo à liberdade feito pelo protagonista. Aliás, também cabe ressaltar a atuação contida, na medida certa, de Joaquin Phoenix. Ele sela com Amantes sua terceira parceria com James Gray, com quem já havia filmado Caminho sem volta (The yards, 2000) e Os donos da noite (We own the night, 2007). Este último foi apontado como um sopro de renovação na seara dos dramas policiais, e ajudou a consolidar a carreira de Gray como realizador, permitindo-lhe também a incursão pelo drama mais propriamente dito. 

O resultado final de Amantes é simplesmente encantador, com uma ambientação que lhe permite a classificação como excelente. A narrativa segue com uma fluidez impressionante, graças ao roteiro bem azeitado a cargo do próprio cineasta. Seu filme traça um painel plausível da angústia de querer, e do quanto o ser humano é complexo, especialmente no que se refere ao campo amoroso. Apesar de investir pesado no drama, o filme não carrega consigo uma aura pessimista, mas reforça o tempo todo a faliblidade das relações, que podem sucumbir ao menor solavanco. Para além de qualquer referência espaço-temporal, o filme se constrói com delicadezas, gestos que trazem as verdadeiras perspectivas de seus autores e a constatação de que o amor reverbera na vida de uma pessoa, e não há como fugir da necessidade de sua concretização.

10/10

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

Luzes da ribalta e o elogio da generosidade

Especialista em retratar momentos de singeleza e genuína ternura, Charles Chaplin não poderia fazer diferente em um filme que muitos consideram como a sua obra-prima. Luzes da ribalta (Limelight, 1952) é o atestado da sensibilidade do realizador, que nos deixou órfãos do seu cinema há quase quarenta anos. Do início ao fim, sobram razões para amar essa história de benfeitoria incondicional, sintetizada na figura afável de Calvero (interpretado pelo próprio Chaplin). Palhaço experiente, ele reconhece o peso da idade sobre o ofício e não desfruta da mesma popularidade de outrora, fazendo seus shows esporadicamente. A decadência nos palcos lhe trouxe o hábito de beber quase todas as noites, e é num desses porres que ele se encontra com Thereza (Claire Bloom), uma bailarina que encontra no suicídio a alternativa para uma carreira que nunca decola de fato. 


Apesar de embriagado, Calvero ainda conserva alguns reflexos e consegue impedir Thereza de arrancar sua vida, e eis o início de uma belíssima amizade que tanto bem fará a jovem desiludida. Desde os primeiros minutos de um na presença do outro, o artista dá mostras de sua generosidade, encontrando meios de garantir um lugar tranquilo para a moça. Como o quarto dela está impregnado pelo cheiro de gás, ele não hesita em subir com ela nos braços para o seu quarto, e chega a sugerir a Thereza que eles se passem por marido e mulher para evitar qualquer constrangimento por parte das pessoas, que jamais poderiam admitir um casal de amigos em tamanha proximidade. Uma vez estabelecido esse acordo entre ambos, o desafio de Calvero passa a ser apresentar à bailarina o lado bom da vida (qualquer semelhança com o título nacional do longa de David O. Russell é tão somente uma coincidência das mais infelizes). E não falta empenho da sua parte nesse sentido, o que só faz crescer nossa afeição pelo personagem, brotada junto com sua entrada em cena cambaleante e sorridente.

Para além de elogiar a generosidade repetidas vezes através de seu enredo, o que Chaplin faz em Luzes da ribalta é pensar a respeito da condição do artista e de seu papel no mundo. Indiscutivelmente, ele deixou sua marca no Cinema como um ás da comédia, porém olhos mais atentos sempre puderam notar uma melancolia subscrita à figura do Vagabundo, que, por sua vez, confunde-se com a imagem de um palhaço, de quem se cobra sempre a alegria, mas que pode trazer uma tristeza recolhida sob a maquiagem pitoresca. De alguma forma, essa parecia ser a sina do próprio Chaplin e de todo artista cômico: fazer rir passa a ser uma obrigação, e o criador se torna uma espécie de refém de sua criatura, num esfumaçamento da fronteira entre si e seu alter ego. Muitos outros artistas enfrentaram ou enfrentam ou mesmo problema, como Woody Allen, muitas vezes confundido como Alvy, Isaac, Sandy, Leonard e tantos outros personagens de sua vasta carreira a quem ele mesmo deu vida, embora o cineasta já tenha declarado que jamais poderia ser como qualquer um deles, ou não teria a disciplina exigida para se fazer um filme sequer.


Há momentos engraçados em Luzes da ribalta, mas eles decorrem de alguns diálogos e números de Calvero, que relembra seus áureos tempos e compartilha essa memória com o público, que pode se reportar ou não a trabalhos anteriores do diretor, a depender de sua bagagem. Essencialmente, esse é um lindo drama que exalta a vida em suas singularidades, e um atestado da versatilidade de Chaplin, que não era extraordinário apenas atrás das câmeras, mas demonstrava um talento notável como ator e compunha muito bem para todos os seus filmes - a trilha sonora, também de sua autoria, não deixa mentir. A mais inesquecível delas talvez seja justamente a que carrega a homonímia com o título, vencedora do Oscar de melhor canção original e reinterpretada em várias versões pelo mundo. Os acordes dão conta de expressar a alquimia entre o sorridente e o melancólico, entre o revés e o recomeço, e também a substituição cruel e inevitável (?) do velho pelo novo, outro tema colocado em pauta pelo roteiro, mais uma incumbência de Chaplin. No fundo, Calvero também precisa retomar seu amor próprio, e a convivência com Thereza é decisiva nesse processo, de que somos testemunhas por pouco mais de duas horas.

Apesar de ser o antepenúltimo filme do cineasta, Luzes da ribalta está cheio de autorreferências que deixam a sensação de que se trata do seu trabalho derradeiro. A começar pelo ano em que a história se passa: 1914, ano em que dirigiu o seu primeiro filme, um entre vários curtas que se sucederiam pelas décadas seguintes. Esse também foi o ano de eclosão da Primeira Guerra Mundial, apontada por alguns historiadores como o verdadeiro marco inicial do século XX, até então surgido apenas nos calendários, já que os costumes e ideologias do século anterior ainda se mostravam muito arraigados nas sociedades europeias. Em alguns detalhes, essa questão é incorporada à narrativa, mostrando o ensaio de mudanças importantes na posição social da mulher, por exemplo, embora muitos avanços ainda estivessem por acontecer, inclusive à época de filmagem do próprio longa. Ainda sobra espaço para ninguém menos que Buster Keaton, outro mestre do humor físico e do Cinema mudo que contracena aqui pela primeira e única vez com Chaplin e afasta de vez qualquer possibilidade de comentário sobre uma rivalidade entre os dois. É mais um presente dele para nós - e que não nos ouça o Matthew (Michael Pitt) de Os sonhadores (The dreamers, 2003), que insistia em preferir Keaton.

Essa coletânea de momentos singelos e emocionantes faz deste um filme para ser constantemente lembrado e revisitado, não importando a idade ou o estado mental do espectador. Os temas explorados por Chaplin não perderam sua universalidade nem sua atualidade, e também funcionam como a transposição para a tela dos dramas pessoais do diretor, que sofreu com o abandono de seu pai, a loucura da mãe e anos de miséria. Toda essa penosa matéria-prima se convergiu para filmes de rara beleza, oásis de sensibilidade e carinho em tempos de humor tão cínico e autoindulgente. O percurso nobre de Calvero, marcado por vários sacrifícios, é a prova de que a generosidade sabe a sua hora e o seu lugar, e o amor pode se traduzir na distância, em deixar respirar se isso valer o aprendizado ao outro, exatamente como ele faz com Thereza. A parceria entre eles se revela brilhante de perto ou de longe, como grandes amigos que não perdem o carinho recíproco no tempo em que se encontram separados. É o relacionamento que fica entre eles, já que Calvero recusa a proposta de casamento dela, preferindo o amor que os gregos chamam fileo. E o que dizer do ato final, de uma poesia indescritível? Somente com os olhos postos diante da cena podemos compreender a sua preciosidade. Nada mais resta a dizer.

10/10

terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

Pele de asno, um deleite para olhos ávidos de beleza

Os musicais delirantes eram a especialidade de Jacques Demy, realizador nascido em Pontchâteau e falecido em Paris para quem as canções forneciam possibilidades de construção de universos mágicos habitados por personagens capazes de despertar fascínio. Em seus filmes, há um notável flerte com cenários e premissas tidas normalmente como cafonas - quando ele não abraça de vez o conceito -, mas que seduzem ao primeiro olhar. Acima de tudo, são filmes sobre o amor e sua propriedade inebriante, que invade o coração e parece conceder legalidade às atitudes mais inesperadas e a cantorias irresistíveis. Todos esses comentários servem muito bem a Pele de asno (Peau d'âne, 1970), que Demy também escreveu a partir do conto de Charles Perrault, cuja grande contribuição como autor foi refinar literariamente o subgênero "conto de fadas", o que lhe rendeu o título de Pai da Literatura Infantil. 

Como é habitual em histórias do gênero, a premissa se expõe e se esgota em poucos momentos, o que rende um filme enxuto, que condensa emoções em poucos metros quadrados, por assim dizer. Jamais nomeados, os personagens são habitantes de um reino fantástico, onde a felicidade estava garantida até o dia em que a rainha (Catherine Deneuve) adoece e, pouco tempo depois, morre. Porém, ela ainda consegue fazer o rei (Jean Marais) prometer que só vai se casar novamente se encontrar uma mulher que a supere em beleza, o que ele concorda em fazer depois de uma certa insistência dela. Mas quem poderia ser mais bela do que uma rainha interpretada por Catherine Deneuve? O próprio Demy tinha consciência da dificuldade em achar uma mulher mais bela, e escalou a mesma Catherine Deneuve para dar vida à princesa, a única que poderia satisfazer a condição imposta pela rainha para o casamento.

É a partir da decisão do rei em casar com a própria filha que começam os delírios de Pele de asno. Resistente à ideia, a jovem quer dizer não ao pai, mas uma atitude dessas era lida à época como uma afronta. Então, entra em cena a fada madrinha (Delphine Seyrig, de Ano passado em Marienbad [L'année dernière à Marienbad, 1961]), que dá algumas sugestões para fazer a princesa ganhar tempo. A jovem começa a impor condições para se casar, que se traduzem em vestidos com detalhes raros, muito difíceis de serem confeccionados. Ela pede um vestido brilhante como o luar, outro ofuscante como a luz do sol e vai se surpreendendo a cada vez que o rei consegue atender os pedidos. Sua única solução passa a ser a fuga, e ela desaparece do castelo, indo se refugiar na floresta, para onde vai coberta com a pele do asno cujas fezes eram moedas e de ouro e que foi morto para satisfazer a uma das exigências da princesa. Em outras versões do conto, os ouros saíam das lágrimas do animal. Uma vez longe de seu futuro reino, começa a viver como uma plebeia, e sua beleza se esconde sob a tal pele.


Mas a história mostra que a verdadeira beleza não se pode esconder por muito tempo e, um belo dia, um príncipe (Jacques Perrin) a vê pela fresta do casebre em que ela está morando, e se encanta instantaneamente com o que seus olhos mostram. O flagrante é dado quando a princesa está usando um dos seus vestidos, já que estava sozinha e poderia aproveitá-los. O que se poderia esperar daí em diante? Naturalmente, ele se torna irremediavelmente apaixonado, como bem cabe a um conto de fadas. No que tange ao enredo, Pele de asno, portanto, não traz nada de realmente surpreendente em seu desenvolvimento. Mas o que pode conquistar o espectador não é a trama em si, mas os elementos conjugados que respondem pelo seu encanto. Demy demonstra uma capacidade incrível de envolver com sua atmosfera sempre onírica e estonteante, sintetizada na figura belíssima de Deneuve, que selava aqui sua terceira parceria com o cineasta, que havia gerado os igualmente maravilhosos Os guarda-chuvas do amor (Les parapluies de l'amour, 1964) e Duas garotas românticas (Les demoiselles de Rochefort, 1967).

Para além de todo o talento de Demy impresso sobre a narrativa, há um clara intertextualidade com outros contos de fadas, especialmente o de Cinderela. Se neste o coração do príncipe seria da jovem cujos pés se encaixassem no sapato que estava com ele, em Pele de asno, somente a garota que tivesse o dedo no tamanho exato do anel deixado com o príncipe seria a sua eleita - e candidatas sem a menor chance não faltaram. É o típico enredo cheio de nós, que vão sendo desfeitos aos poucos e vão pavimentando o caminho da felicidade para um casal que é pura virtude. Tal modelo até pode ser acusado de anacronismo, mas ainda encontra eco em nossos dias e segue como base para muitos folhetins televisivos. E o público a que se destina a fantasia de Demy não necessariamente se restringe a mocinhas suspirantes, mas a qualquer entusiasta de uma história bem contada e atravessada pela magia da imagem, a grande peculiaridade com que se faz Cinema, afinal. 

8/10

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

De volta para o futuro, uma delícia de viagem nostálgica

Marty McFly (Michael J. Fox) é apenas mais um entre tantos outros garotos da sua idade, com desejo de aventura, ansiedade pela descoberta e uma namorada que é a grande paixão da sua vida. Nada em seu cotidiano poderia ser mais comum, a não ser por um detalhe especial que revoluciona toda a sua rotina: a possibilidade de viajar no tempo e conhecer de perto o passado de seus pais, que tantas vezes ouviu ser contado pelos próprios. Baseado nessa premissa que soa sempre instigante, Robert Zemeckis entregou ao público De volta para o futuro (Back to the future, 1985), o primeiro exemplar de uma trilogia pautada pelas conexões entre o ontem e o hoje temperada com um ritmo frenético e um enorme coração.  Nos áureos tempos globais, o filme era figurinha carimbada na programação, e hoje desfruta de um merecido status de cult, justificado pela soma de vários elementos em dosagens bem pensadas. 

De início, já se nota como o tempo é um ingrediente fundamental da história: em uma espécie de laboratório improvisado, vários relógios funcionam com horários e para finalidades diferentes, enquanto os créditos de abertura vão surgindo. Dali a pouco, McFly aparece e constata um pequeno acidente em uma das experiências, que comunica de imediato ao Dr. Emmett Brown (Christopher Lloyd), sujeito de visual excêntrico que é um mentor para o rapaz. Ele está trabalhando em um empreendimento que é o sonho de boa parte da humanidade, e cuja concretização se relaciona com a velocidade do som. A viagem no tempo é feita em um carro, com o auxílio de um combustível não muito fácil de ser obtido, o que o obriga Emmett a negociar com terroristas e a contrair uma dívida perigosa. É justamente durante a perseguição dos terroristas a ele que McFly entra no carro, acelera e retrocede alguns anos. Ele mal pode acreditar, mas está na sua própria cidade à época da juventude dos seus pais, que ainda nem se conheciam.

O nó da narrativa se estabelece quando ninguém menos que sua mãe se apaixona por ele, depois que ele se intromete no lugar errado e na hora errada. Ele sempre ouviu que seus pais se apaixonaram depois que o pai dela o atropelou acidentalmente, e McFly desfaz esse início da história de amor dos dois ao ser ele o acidentado. A paixão de Lorraine (Lea Thompson) é à primeira vista, e coloca o garoto em uma situação complicada e divertida para quem vê. Agora, tudo o que ele precisa fazer é uni-la novamente a George (Crispin Glover) e, assim, garantir que ele e seus irmãos vão nascer no futuro - ou seria no presente? Enquanto McFly vai tentando salvar sua pele, o espectador vai sendo apresentado aos costumes e pensamentos da década de 50, e nota que Lorraine e George não eram bem o que diziam ser para os filhos. Os tempos eram outros, mas ela já se mostrava bem avançadinha para a época, surpreendendo o filho com uma postura libertária, quando o comum eram mulheres castas e extremamente submissas ao pai ou ao marido.


Nesse sentido, o roteiro escrito por Zemeckis em parceria com Bob Gale - também responsável pelos demais filmes da trilogia - capricha no cinismo mesclado a uma certa inocência, que ainda se mostra distante dos tempos politicamente corretos que surgiram como um dos efeitos colaterais dos anos 2000. Esqueça as mocinhas românticas e os bons rapazes, cheios de virtudes e idealizações. O que McFly encontra é uma juventude muito semelhante à de seu tempo, boa dose de rebeldia e inconsequência, a não ser por George, que se encaixa no perfil típico no nerd que mal tem coragem de se aproximar da garota por quem está interessado. Daí a necessidade da intervenção de seu filho, que deixa Lorraine cada vez mais encantada em vez de atrai-la para George. Ao mesmo tempo, ele encontra o Emmett do passado e o convence a ajudá-lo a voltar aos anos 80, e o plano deles é refazer a viagem no carro usando um raio como combustível. Ainda sobre o roteiro, a ideia partiu de Gale, que se perguntou se ficaria amigo do pai se o tivesse conhecido na época do colégio, uma curiosidade que se desdobrou em uma adorável aventura.

Para além de uma trama bem escrita, De volta para o futuro encontrou em Michael J. Fox o rosto ideal para interpretar McFly. O ator baixinho e super carismático serviu muito bem ao papel de adolescente comum, sem qualquer pinta de galã, ao menos em um primeiro momento. É praticamente impossível não torcer para que ele consiga recolocar tudo em suas posições certas e sobreviver no final, tamanha a empatia que o personagem desperta. E pensar que o filme quase não saiu do papel e muito menos teria o seu nome no elenco, tudo porque vários estúdios disseram "não" para o roteiro. A situação só mudou depois do sucesso de bilheteria de Tudo por uma esmeralda (Romancing the stone, 1984), filmado por Zemeckis apenas um ano antes (nada como a promessa de um bom faturamente para mudar a opinião dos grandes estúdios) e à desistência inicial de Eric Stoltz em viver o personagem, o qual foi parar nas mãos de J. Fox, que deu un jeito de conciliar as gravações da série Family ties com as filmagens do longa. Hoje em dia, os fãs e os novos espectadores agradecem.

A dobradinha de McFly e Emmett é outra qualidade do filme, que administra muito bem seus clichês e faz valer cada minuto. Embora tenham bem pouco em comum, os dois se entendem perfeitamente, sobretudo porque o jovem embarca em todas as ideias mirabolantes do cientista, como um bom discípulo que faz reverência ao mestre. O mérito, sem dúvida, também é de Lloyd, que fez desse o seu papel mais emblemático, pelo qual segue lembrado após algumas décadas e simboliza a ciência em seu componente mais artesanal, por assim dizer. Como não acreditar em uma amizade como a deles, tão divertida e que soa sempre sincera? Um detalhe curioso sobre o veículo que serviu à viagem no tempo é que, no projeto original, seria uma geladeira, e não o lendário DeLorean. A ideia acabou descartada porque os produtores temeram que as crianças pudessem tentar escalar o eletrodoméstico em casa ou entrassem nele com a mesma intenção de Emmett. E, cá entre nós, a mudança tornou a viagem muito mais charmosa e coroou um filme que traz um delicioso gosto de nostalgia até mesmo em quem não o teve como parte da sua infância e adolescência. 

9/10

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

O lobo de Wall Street, uma ópera do desbunde

Estripulia é o que não falta em O lobo de Wall Street (The wolf of Wall Street, 2013), alegórico retorno de Martin Scorsese ao cinema de arroubos violentos depois de um breve intervalo dado com A invenção de Hugo Cabret (Hugo, 2011). Realizador veterano e um dos inventores da chamada Nova Hollywood, no limiar entre as décadas de 60 e 70, ele demonstra um fôlego invejável para conduzir três horas de uma intensa ópera do desbunde, capiteneada por um Leonardo DiCaprio no auge da boa forma como intérprete. É ele que dá vida a Jordan Belfort, e seu codinome lupino se mostra bastante apropriado à medida que vamos acompanhando o desenvolvimento de sua trajetória de ares meteóricos, em vários sentidos – exceto o literal, vale dizer. 

Em uma época de ostentação financeira, Jordan tinha como objetivo acumular e torrar fortunas quase à mesma velocidade, o que o torna quase um primo distante do personagem-título de O grande Gatsby (The great Gatsby, 2013). Com apenas 24 anos, já contava com alguns milhões na conta bancária, mas estava bem longe de ser o bilhardário que sonhava em se tornar. Foi quando tomou conhecimento de um programa sugestivamente chamado “Mestres do Universo”, título dado aos que alcançavam a meta estipulada: arrecadar 250 mil dólares em dois anos. Com audácia desproporcional ao seu 1,60m de altura, segundo o próprio, ele rapidamente bateu a meta, enquanto ia sendo apresentado àquele mundo de excessos e loucuras que é Wall Street. Como telespectadores, fazemos uma leve ideia do que seja o cotidiano daqueles corretores sempre envolvidos na compra e na venda de ações, mas o longa mostra que o buraco é bem mais embaixo.

Quem trata de fazer as honras da casa para Jordan é Mark Hanna (Matthew McConaughey, em uma espécie de participação afetiva), responsável pela primeiras de algumas cenas antológicas do filme. Sem a menor cerimônia, ele revela o código de conduta de um corretor que deseja sobreviver naquela selva insana, o que inclui um alto consumo de drogas e uma rotina de masturbação quase diária. A essa altura, os tímpanos do público já deverão estar minimamente acostumados aos sons dos gritos dos corretores e aos vários palavrões que eles soltam pelos mais variados motivos, desde o convencimento de mais um investidor à constatação do encerramento de mais um expediente. De saída, Jordan demonstra um misto de surpresa e encanto discreto enquanto Mark desfia seu manual de péssimas maneiras, porém, basta pouco tempo para que ele deixe de lado qualquer resquício de pudor e adote cada medida.

Essa mesma divisa se tornou o rendimento mensal de Jordan apenas dois anos depois, quando ele já tinha a Stratton Oakmont, sua própria corretora, na qual reuniu obstinados como ele, mas sem metade do seu poder de persuasão. Nada que um bom treinamento não resolvesse e pudesse demonstrar que ele não estava para brincadeira. Até um braço direito surge para ajudá-lo a impulsionar ainda mais os seus negócios: o impagável Donnie Azoff (Jonah Hill), que responde por boa parte dos momentos hilários de O lobo de Wall Street, quase sempre provenientes de algum tipo de excesso ou tirada de humor negro. Juntos, eles formam uma dupla implacável para quem o céu é o limite – os trocadilhos apresentados nessa crítica são totalmente propositais, pois se encaixam muito bem nos personagens. Donnie foi capaz de largar o emprego depois de ouvir sobre o faturamento anual de Jordan e também não demorou a acumular seu tesouro.


A um possível questionamento sobre a legitimidade de toda aquela fortuna, Jordan tinha uma resposta sarcástica na ponta da língua. Dizia saber gastar muito melhor o dinheiro que seus clientes acreditavam estar multiplicando, segundo uma lógica até bastante simples: no papel, eles estavam cada vez mais ricos e iam sendo convidados a comprar cada vez mais ações, mas a grana de verdade sempre acabava no bolsos dos corretores. Jordan nada mais é do que o representante-mor dessa alcateia, e sua jornada megalômana é apresentada por meio de sua direção cheia de vigor, que remete a alguns de seus clássicos, como Taxi driver (idem, 1976) e Touro indomável (Raging bull, 1980). Parte da força desses filmes obrigatórios também vinha das atuações gigantes de Robert De Niro, seu parceiro de outrora. Do início dos anos 2000 para cá, DiCaprio assumiu esse posto com cada vez mais competência, e Jordan é o atestado de seu franco amadurecimento, que lhe valeu sua quarta indicação ao Oscar, o que é pouco diante de tantos bons papéis vividos até aqui.

Em cena, podemos testemunhar sua ótima parceria com Hill, completamente à vontade em um papel cômico, a sua especialidade, mas com diferenciais em relação a trabalhos anteriores. Jordan e Donnie compram as insanidades um do outro sem pestanejar, quase sempre estão chapados e não conseguem imaginar um padrão de vida de menos de seis dígitos. Em determinado momento, um dos raros de sobriedade da dupla, Jordan se vê obrigado a beber apenas cerveja sem álcool, e Donnie simplesmente não consegue entender como é tomar vários copos dela e não se embriagar. O outro extremo é visto na sequência em que Jordan simplesmente perde o domínio sobre sua coordenação motora após uma alta dose de um medicamento proibido. Ele e Donnie tomam vários comprimidos da droga, que estava guardada há anos, e já não acreditam que ela vá fazer efeito. Quando, finalmente, seus organismos reagem à substância, temos um novo show de atuação dos parceiros e mais uma fonte de gargalhadas genuínas.

A montagem elétrica e vertiginosa de O lobo de Wall Street, que jamais permite que a narrativa caia no marasmo apesar de tanto tempo de projeção, é assinada por Thelma Schoonmaker, fiel colaboradora de Scorsese. Por seis vezes, seu trabalho foi reconhecido com indicações ao Oscar, das quais três se traduziram em vitórias, e todas elas em filmes do diretor. Cena após cena, vemos o protagonista viver mil peripécias, e seu caráter absolutamente amoral não impede que, ao menos simpatizemos com sua figura, mesmo porque o carisma de Jordan se sobrepõe às suas canalhices a maior parte do tempo. Talvez aí more o grande perigo do roteiro, a cargo de Terrence Winter: há uma condescendência exagerada com o “Lobo”, essencialmente um homem de moral deformada e métodos escusos. Por outro lado, tal escolha – voluntária ou não – soa até comum para os dias de hoje, em que o público se mostra muito mais inclinado a torcer pelos explicitamente vilões. Não é exatamente esse o caso de Jordan, mas é, no mínimo, curioso notar que os valores de uma grande maioria andam invertidos há algum tempo.

Por falar em modelos e ídolos, o verdadeiro Jordan confessa no livro em que o filme se baseia que os seus eram o Gordon Gekko (Michael Douglas) de Wall Street – Poder e cobiça (Wall Street, 1987) e o Edward Lewis (Richard Gere) de Uma linda mulher (Pretty woman, 1990), nos quais parece ter se inspirado para fomentar suas obsessões, respectivamente, o dinheiro e o sexo. São esses os motores de uma narrativa de extravagâncias e insurgências, que pode pegar o espectador mais conservador com seu deboche fenomenal. Várias vezes, O lobo de Wall Street beira o inacreditável e faz constatar que a vida pode ser muito mais criativa do que a arte, sobretudo se ela existem pessoas como Jordan Belfort, capazes de rasgar dinheiro, presentear a esposa com um imenso iate, navegar em mar encapelado sob o efeito de psicotrópicos e outras façanhas, todas devidamente registradas no melhor filme de Scorsese desde Gangues de Nova York (Gangs of New York, 2002).

9/10

domingo, 2 de fevereiro de 2014

BALANÇO MENSAL - JANEIRO

Hora de conferir os filmes que fizeram o meu mês de janeiro. Felizmente, já encontrei meu primeiro nota 10, e vários outros excelentes e dignos de serem comentados. Dessa vez, por questão de economia de tempo, me restrinjo a indicar apenas as notas de cada filme, além dos melhores em categorias que considero importantes. Seguem abaixo:

LONGAS:

1. O rei da comédia (1982) - 8.0
2. Fruitvale station - A última parada (2013) - 8.5
3. Minha mãe (2004) - 4.0
4. Cabaré Biblioteca Pascal (2010) - 5.0 

Cabaré Biblioteca Pascal (2010)

5. Estrada para Ythaca (2010) - 8.0
6. Antes que o mundo acabe (2009) - 7.5
7. Como não perder essa mulher (2013) - 7.0
8. Gran Torino (2008) - 8.0
9. A flor do meu segredo (1995) - 7.0 

A flor do meu segredo (1995)
10. Glória ao cineasta (2007) - 8.0
11. Instinto materno (2013) - 9.0
12. Trágica obsessão (1976) - 8.0
13. Bala na cabeça (1990) - 10.0
14. The spectacular now (2013) - 7.5
15. 2046 - Os segredos do amor (2004) - 8.5 

2046 - Os segredos do amor (2004)

16. Star wars episódio IV - Uma nova esperança (1977) - 9.0
17. eXistenZ (1999) - 6.0
18. O amor é mais frio que a morte (1969) - 7.5
19. Alice nas cidades (1974) - 8.0
20. Tudo por justiça (2013) - 8.0
21. Minha vida com Liberace (2013) - 6.0
22. Pai e filha (1949) - 9.0
23. Mãe e filho (1997) - 8.0

Mãe e filho (1997)

24. Trapaça (2013) - 5.5
25. O grande mestre (2013) - 6.0
26. Machete mata (2013) - 7.0
27. Bande à part (1964) - 6.5
28. Amores parisienses (1997) - 8.0 
29. Tempestade de gelo (1997) - 7.0
30. Questão de tempo (2013) - 9.0
31. De volta para o futuro (1985) - 9.0
32. Pele de asno (1970) - 8.0

Pele de asno (1970)

33. Sonhos de um sedutor (1972) - 8.0
34. Eternamente sua (2002) - 8.5
35. Oslo, 31 de agosto (2011) - 8.0
36. Clube de compras Dallas (2013) - 8.0
37. Queda livre (2013) - 7.5
38. O lobo de Wall Street (2013) - 9.0
39. 12 anos de escravidão (2013) - 8.0
40. Quando eu era vivo (2013) - 7.5
41. Um casal admirável (2002) - 7.0
42. Em fuga (2002) - 7.5
43. Acordo quebrado (2002) - 8.0

CURTAS:

Head over heels (2012) - 9.0
Festa Sauro-Rex (2012) - 8.0
Uma semana (1920) - 8.0

MELHOR FILME: Bala na cabeça
MELHOR DIRETOR: John Woo, por Bala na cabeça
MELHOR ATRIZ: Dominique Blanc, por Acordo quebrado 
MELHOR ATOR: Leonardo DiCaprio, por O lobo de Wall Street
MELHOR ATRIZ COADJUVANTE: Lupita Nyong'o, por 12 anos de escravidão
MELHOR ATOR COADJUVANTE: Jonah Hill, por O lobo de Wall Street
MELHOR ROTEIRO ORIGINAL: Richard Curtis, por Questão de tempo
MELHOR ROTEIRO ADAPTADO: Terrence Winter, por O lobo de Wall Street
MELHOR TRILHA SONORA: Romeo Díaz e James Wang, por Bala na cabeça
MELHOR FOTOGRAFIA: Wilson Chan, por Bala na cabeça
MELHOR CENA: A discussão de Jordan e Donnie sob o efeito de um medicamento em O lobo de Wall Street
MELHOR FINAL: Bala na cabeça
PIOR FILME: Minha mãe