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terça-feira, 21 de outubro de 2014

Vestida para matar e os signos recorrentes de um cineasta

A influência hitchcockiana é exalada por todos os poros de Vestida para matar (Dressed to kill, 1980), um hábito em se tratando de Brian De Palma. Realizador do longa-metragem, ele soube prestar tributo ao Mestre do Suspense sem jamais incorrer na mera imitação, assumindo para si a matriz como fonte de inspiração para, daí em diante, alçar voos próprios. A trama em si é básica, e interessa menos que o jogo de som e imagem promovido pelo realizador, que cultiva um olhar voyeurista em muitas de suas obras. Aqui, o centro da narrativa começa em Robert Elliott (Michael Caine), terapeuta que exerce a profissão no centro de Manhattan e atende casos das mais variadas naturezas. Sua rotina ganha ares macabros quando descobre que uma de suas pacientes, que havia atendido naquele mesmo dia, foi assassinada com uma navalha roubada de seu próprio consultório.

Decidido a investigar o autor do crime, Robert mergulha em uma espiral de surpresas e reviravoltas, elevando a temperatura de uma trama em que a câmera passeia pelos ambientes como observadora contumaz, atenta a milímetros e fagulhas, convidando o espectador a fazer o mesmo. De Palma nos permite ser testemunhas do assassinato da paciente, mas não oferece closes frontais do assassino. Tudo que sabemos a seu respeito é que, apesar de se vestir com roupas femininas, trata-se de um homem que deseja fazer uma cirurgia de mudança de sexo, e Robert tem algo que ver com ele, mas entrar em detalhes a esse respeito seria entregar de bandeja um dos aspectos mais eletrizantes do roteiro, cuja redação é do próprio diretor. Mas o que se pode dizer é que, cada vez mais, a história apresenta contornos de um sonho mau, do qual despertar parece impossível.

A bem da verdade, o que se nota em Vestida para matar é a habilidade que De Palma tem para lançar mão de truques, os quais vão tornando esse percurso macabro sempre mais e mais envolvente, sobretudo para os amantes do gênero que predomina aqui. A falta de plena certeza sobre o que está acontecendo diante dos nossos olhos, bem como o que nossos ouvidos estão captando – o realizador daria ênfase maior ao sentido da audição em seu filme seguinte, Um tiro na noite (Blow out, 1981) – potencializa essa atmosfera de sobressalto. Por vezes, tudo pode soar até mesmo um tanto vagabundo, como se a condução do enredo estivesse nas mãos de um picareta, mas essa sensação é evidência de que estamos diante do Cinema bem próximo de sua forma mais pura: o visual e o auditivo predominando sobre os demais sentidos. Não será de todo estranho, portanto, um comentário do tipo “não acontece nada na história”. Enquanto pensar assim, o espectador perderá de vista o espetáculo montado pelo diretor.


Em meio à investigação de Robert para chegar a um inimigo que está mais próximo do que ele mesmo imagina, surge Liz Blake (Nancy Allen), prostituta que se envolve no caso e também coloca a vida em risco. Com sua beleza áurea, proporcionada em boa parte pelos cachos louros, ela é uma potente lufada de desejo para a narrativa, que acena para tal detalhe desde o seu início, uma espécie de prólogo (ou seria um delírio, como parece ser depois que acompanhamos o que vem a seguir?) sensual em que uma mulher é atacada enquanto toma banho. Talvez seja o sequência de citação mais escancarada a Hitchcock, que remete quase imediatamente à cena dos esfaqueamento no chuveiro de Psicose (Psycho, 1960). Aliás, é como se ela notasse a presença da câmera que, então, não seria uma observadora tão indiscreta assim, mas alguém que tem um pacto com quem observa, configurando uma relação de morde e assopra que, em última instância é revela a dualidade imanente do ser humano, que pode demonstrar rejeição ao que chama de olhar invasor, mas que, no fundo, gosta de ser contemplado.

Apesar de transcorrer em Manhattan, Vestida para matar não apresenta locações óbvias, como o Central Park e a Quinta Avenida. Pelo contrário. De Palma confina Robert, Liz e os demais personagens a espaços fechados e, por vezes, claustrofóbicos, como o elevador em que ocorre o assassinato da paciente do terapeuta, mulher traída pelo próprio desejo. Tudo contribui para um eficiente jogo chiaroscuro, uma herança renascentista que não perde a atualidade e é outro indicador da natureza dual que habita cada ser humano. O auge das reviravoltas da trama é a revelação da identidade do assassino, estarrecedora sobretudo para quem não tinha a menor suspeita sobre o personagem. É na fusão entre erotismo e suspense que Vestida para matar se revela como um dos melhores trabalhos de De Palma, que reinou ao longo da década de 80 com produções que aliam o domínio da câmera espiã com o pulsar agudo das notas do piano, vedetes do gênero em que se consagrou. Muito do que se nota aqui são signos que se mostrariam recorrentes em seu Cinema, e ajudaram a pavimentar sua estrada de realizador inventivo que recria o olhar sobre o suspense pela via da homenagem.

8/10

sábado, 18 de outubro de 2014

O futuro imperfeito de O doador de memórias

O texto a seguir é uma colaboração de Iago do Valle, crítico e amigo pessoal que voltou à ativa depois de um longo período sem resenhas. Essa é a primeira de outras possíveis parcerias entre nós.

Baseado na série de livros futurista de sucesso em vendas nos anos 90, O Quarteto Doador, de Lois Lowry, consiste em quatro livros com protagonistas diferentes, do qual apenas O Doador (The Giver,1993) fora publicado no Brasil, e em razão do lançamento do filme recentemente foi republicado com o título O Doador de Memórias. Dirigido por Philip Noyce, de Salt (idem, 2010), o filme retrata uma pequena comunidade que vive em um mundo onde consideram o ideal de paz, um mundo onde fora tirada das pessoas suas memórias, emoções e sentimentos, como o amor, tristeza, raiva ou ódio.  

Não há mentiras, nem doenças, nem guerras, tudo com o objetivo de gerar uma neutralidade forçada entre todos, e para isso até as cores lhes foram tiradas. Dentro dessa sociedade, uma pessoa é escolhida a dedo entre várias para exercer determinados cargos, o cargo principal e dito mais nobre é o de Recebedor de Memórias, receber e ser encarregado de armazenar memórias do mundo como era antes a fim de poupar os demais habitantes do sofrimento e de tudo que o lembrasse, assim com o objetivo de continuar a guiá-los com sabedoria em seus ideais. De tempos em tempos esta tarefa muda de mãos e o escolhido pela líder da comunidade Chief Elder (Meryl Streep) é o jovem Jonas (Brenton Thwaites), que irá passar por um duro treinamento para provar que é digno da grande responsabilidade junto ao Doador (Jeff Bridges).

Bem, é fato que hoje existem inúmeros filmes com temática futurista semelhante, este ano mesmo tivemos Divergente (Divergent, 2014), que se assemelha em certos pontos com este, principalmente na forma em que as pessoas são escolhidas para suas tarefas e em ambos a um mocinho contra o sistema e uma vilã que dita o certo pelo errado, mas o que se destaca em O Doador de Memórias são suas discussões filosóficas e reflexivas sobre o mundo atual, a humanização e a que ponto se pode chegar para se criar um mundo idealizado como o "certo".  Logo no começo a uma narração em 'off' do personagem Jonas explicando o por que de viverem em uma sociedade isolada do resto do mundo: guerra! E o motivo de não enxergarem as cores e não possuírem sentimentos, isso, culpa de uma substancia inibidora obrigatoriamente injetável todos os dias.

O desenrolar da história toma um peso maior quando os grandes entram em cena, Jeff Brigges e Meryl Streep, ele um recluso solitário do velho mundo e ela uma líder tirana que julga as suas ações pelo bem da comunidade e desdenha o mundo como era.  Nos momentos em que vai recebendo as memórias, de alguma forma inexplicável, pelas mãos do Doador, Jonas explora e sente sensações totalmente novas para ele, seus sentimentos são aflorados e sua noção sobre o mundo perfeito em que vive começa a mudar drasticamente quando percebe que de fato havia beleza e bondade no nosso mundo, e que isso fora tirado deles a força. Jonas acaba por se tornar um rebelde em segredo e a cada sessão com o Doador descobre mais sobre o mundo como era, até que certo dia acidentalmente recebe uma memória que, para ele era algo totalmente desconhecido, uma memória de morte e assassinato, algo que se mostrou totalmente doloroso, confundindo sua mente de que talvez estivessem fazendo o certo em inibir as emoções e bloquear as memórias das pessoas. Mas tudo muda quando descobre, já com a mente aberta e livre da droga inibidora, as atrocidades que eram cometidas em virtude de manter a comunidade equilibrada, como por exemplo, quando alguém fazia algo errado, não era preso, era mandado para uma Cerimonia de Despedida, uma execução, algo totalmente aceito pela sociedade como normal já que desconheciam a morte de tal forma, assim como o controle de natalidade, também, por meio de execução. É a partir deste momento que o personagem Jonas se vê obrigado a livrar a sociedade daquela ilusão.


O filme não possui grandes destaques técnicos nem grandes cenas de ação, mas ha beleza na direção de arte e fotografia, a passagem do preto e branco no começo do filme para as cores de forma lenta e harmoniosa é, de fato, muito bonito, assim como a construção da cidade em edificações quase todas iguais, mas de resto é de uma direção simples, mas segura. Há uma bonita banda sonora ressoante em momentos chave para despertar a emoção no espectador, mostrando flashbacks de bonitas memórias do nosso mundo, especialmente no final do filme, gerando um clímax do tipo ''emocionante para te fazer chorar'', quando ao final, tudo fica bem. Mas mesmo assim ficamos com a sensação de que faltou algo a mais, para um filme com tal proposta, faltou mais aprofundamento, acabou por se tornar muito superficial. Outro ponto negativo foi o desperdício de Meryl Streep, sempre excelente, que mesmo aparecendo pouco, aqui é dona dos melhores diálogos junto com Jeff Brigdes , ao final do filme, onde discutem perante uma cerimônia de despedida de uma personagem (execução), sobre a liberdade e o amor. Ha também a presença de Katie Holmes, como a mãe de Jonas, tão apagada que poderia ser qualquer outra atriz, assim como Alexander Skarsgård na mesma situação, e Taylor Swift, que forma arco romântico com o protagonista. O jovem ator Brenton Thwaites se mostrou muito bem demonstrando forte envolvimento com o personagem.

Por fim, O Doador de Memórias tem seus problemas, ele levanta interessantíssimas discussões filosóficas e de idealismos, mas acaba por não se aprofundar em tais, focando mais na trajetória apressada e no romance de Jonas pelo desmascaramento desta falsa utopia. Mesmo assim é um filme que desperta emoção, apelativa alguns dirão, mas duvido que qualquer um após assistir esse filme não se pegue pensando em como seria um mundo assim, qual seria o preço da paz, e qual o valor de uma memória e principalmente o de uma vida.

‘’ – Nós poderíamos escolher melhor! ‘’
O Doador

.’’- As pessoas são fracas, as pessoas são egoístas. Quando as pessoas são livres para escolher, elas fazem as escolhas erradas, todas às vezes!’’
Chief Elder

terça-feira, 14 de outubro de 2014

O ciúme e a eterna lida com as incongruências a dois

A infelicidade dos amantes, constante de Philippe Garrel, é reafirmada em O ciúme (La jalousie, 2013), em que condensa ao longo de pouco mais de uma hora a discussão que permeia sua filmografia, inaugurada nos idos dos anos 60. O realizador não demonstra ter estado preocupado em ser original, mas em repisar um terreno velho conhecido seu através da história de Louis (Louis Garrel, seu filho e ator fetiche), um ator teatral que deixa a esposa logo no começo da narrativa. A partir de então, divide com a ex-mulher os cuidados com a filha (Olga Milshtein), criança de notável inteligência e que, por isso mesmo, parece compreender bem que os pais ficam melhores separados. Como também é habitual nos enredos de Garrel pai, o protagonista não passa muito tempo sozinho, tendo outro alguém para aconchegar em seus braços. 

O novo relacionamento se estabelece com Claudia (Anna Mouglalis), por quem deixou a esposa, já que ela tinha decidido aceitar o apartamento que seu amante lhe oferecera. Por esses breves detalhes, fica evidente que o sentimento do título permeia as ações de todos os personagens, e evoca outros títulos dirigidos por Garrel pai ao longo de uma carreira tão longeva. O “monstro de olhos verdes” de que falava Shakespeare é um fantasma intermitente, pairando sobre a fotografia destituída de uma paleta colorida e assinada por Willy Kurant, com quem o cineasta volta a trabalhar depois de Um verão escaldante (Um été brûlant, 2011). Assim, quase como um personagem corporificado, ele responde por vários dos rompantes que acometem Louis e suas mulheres. “Estamos todos singrando em mar encapelado quando se trata de amor”, parece dizer o roteiro escrito a oito mãos.


O fator da curta duração, combinado a um dos planos de abertura, faz de O ciúme um retrato íntimo das dores amorosas. A tal sequência é um olhar pelo buraco da fechadura, e os olhos que espiam são de Charlotte, a menina colocada no centro das tensões pater x mater, por assim dizer. É o testemunho ocular de que algo degringolou, de que as peças não mais se encaixam: Louis discute com a então esposa e não faz mais sentido uma vida em comum. Tal contexto, explorado tantas vezes por todas as sete artes, ainda fornece matéria-prima para refletir sobre as incongruências da vida a dois, e Garrel pai demonstra falar sobre elas como quem percorreu um longo caminho de vivências, o que não significa ter todas as respostas prontas. Muito pelo contrário. O convite do diretor, figura carimbada no Festival de Veneza, de onde já saiu com o Leão de Prata e o Prêmio do Júri, é para colocar a mão na massa e flagrar o processo, não o/um produto acabado e bem resolvido. A bem da verdade, seu cinema é o de quem tenta exorcizar fantasmas.

Em sua busca por respostas – ou, ao menos, sugestões e conselhos -, os protagonistas de Garrel pai recorrem aos anciãos, e não é diferente com Louis. Em diálogo com um interlocutor bem mais velho, ouve frases desconfortáveis, como a que expressa o lamento por ter sido ajudado por outras pessoas nas duas vezes em que esteve muito perto de morrer. A vida é dura, sentencia o cineasta, cuja obra encontra parentesco nas produções de Valerio Zurlini, e a ambos cabem a antonomásia de Poeta do Tédio e da Melancolia. Acompanhamos homens e mulheres de raros sorrisos, de olhar meditativo e poucas ações, de insegurança e exasperação. A certa altura, Claudia revela o quanto está sufocada no pequeno apartamento em que vive com Louis, dando-lhe um ultimato. Mantendo sua postura estoica, o ator devolve a bola à mulher e a indaga sobre o que ela quer que ele faça, não obtendo uma resposta exata. É justamente da inexatidão que sobrevivem os filmes de Philippe Garrel.

8/10

quinta-feira, 9 de outubro de 2014

Discussões sobre o juízo particular de cada coisa ou Polícia, adjetivo

Nestes últimos anos, o cinema romeno vem desfrutando de um prestígio notável, assinalado pela chegada de, pelo menos, um filme por ano ao circuito comercial. A “onda” de interesse pela cinematografia daquele país começou em 2007, com o lançamento de A leste de Bucareste (A fost sau n-a fost?, 2006), prosseguiu em 2008, com a exibição de 4 meses, 3 semanas e 2 dias (4 luni, 3 saptamani si 2 zile, 2007) e de Como eu festejei o fim do mundo (Cum mi-am petrecut sfarsitul lumii, 2006), chegou a 2009, com Casamento silencioso (Nunta muta, 2009) e, até o momento, conclui-se com Polícia, adjetivo (Politist, adjectiv, 2009). 

Possivelmente, essa safra de filmes romenos ainda oferecerá outros exemplares, mas esses são os que tiveram uma chance nas salas de exibição, por enquanto. Especificamente, essa crítica é sobre Polícia, adjetivo, a mais recente produção de Corneliu Porumboiu, que também é o diretor de A leste de Bucareste. Em seu filme mais recente, o propósito claro da trama é desvendar qual seja a grande função de um homem da lei, que é encarnado pelo competente Dragos Bucur, cujo personagem atende pelo nome de Cristi. Como policial que é, ele tem de lidar cotidianamente com casos que desafiam a noção de justiça, e que o levam a ponderar qual a verdadeira fronteira entre um ato criminoso e um simples desvio de menor relevância.

No começo do filme, o espectador é apresentado à rotina pacata de Cristi, que vive uma vida sem grandes emoções, apenas saindo de casa para trabalhar e voltando do trabalho para casa. Seu dia sem grandes emoções, diferentemente do que um espectador mais imediatista pode supor, não vai sofrer nenhuma grande reviravolta. Fica logo patente aos olhos de quem assiste ao filme que Porumboiu abdica de qualquer traço de ação para a sua abordagem de um tema que exige concentração do público. O protagonista terá apenas uma função na qual se ocupar, que lhe é designada por seu superior: ele deve ficar à espreita de um jovem que é suspeito de traficar haxixe para seus amigos de escola. Uma vez tendo recebido essa missão, Cristi terá de ser somente olhos e ouvidos para o rapaz. Não demora para que ele descubra que o garoto, na verdade, é apenas usuário da droga, o que o leva a acreditar que não haja necessidade de denunciá-lo. Em sua concepção, ser usuário não é algo grave, e ele acredita que, com a entrada da Romênia na União Europeia, as leis do país serão modificadas, para estar em consonância com a dos outros países-membros. Com isso, não quer fazer o que seu trabalho preconiza, que é prender o rapaz. É essa a grande discussão do filme, e que vai permear, de uma maneira ou de outra, todas as sequências que serão apresentadas dali em diante. 

A câmera de Porumboiu, com seus longos planos estáticos, é um grande exercício de contemplação proposto ao espectador, que, aqui, tem a sua condição de quem apenas assiste potencializada ao máximo. O filme também é bastante econômico no que concerne aos diálogos, a começar pelo seu protagonista, que poucas vezes abre a boca para exteriorizar suas opiniões e valores às outras pessoas. Por isso, o filme não deixa de ser também uma obra intimista, que não está preocupada em transmitir ao público uma verdade absoluta sobre determinado assunto. O roteiro de Polícia, adjetivo é simples e eficiente em sua abordagem algo despojada do tema. Acima de tudo, é um filme sobre o juízo de valor particular das pessoas sobre as palavras, que expressam conceitos e veiculam perspectivas. 


A grande sacada do diretor é levar para a tela de cinema uma discussão que qualquer um de nós pode se permitir fazer, e que permeou a obra de outros diretores : as palavras verdadeiramente correspondem às coisas? Será que tudo o que dizemos é a verbalização real do que pensamos e sentimos? Mais do que isso, o longa trata da possibilidade de uma mesma palavra significar uma coisa para uma pessoa, e ter um significado diferente para outra, o que comprova as incongruências que permeiam as relações humanas desde há muito, quiçá desde que o homem começou a fazer uso da palavra. Porumboiu segue um caminho distinto de outros realizadores, que se baseiam mormente na palavra, e trilha um caminho de observância. Somos guiados na narrativa pelo olhar de Cristi, que, certas vezes, mostra-se entediado com a vigilância que precisa exercer sobre o jovem de quem a Polícia suspeita, bem como sobre aqueles que rodeiam o rapaz. Essa escolha do diretor exige que o espectador se concentre o tempo todo naquilo que os olhos do protagonista filtram, um aspecto que aproxima o filme de um contemporâneo brasileiro, o belo Viajo porque preciso, volto porque te amo, com a diferença de que o personagem principal do filme de Marcelo Gomes e Karim Ainoüz fala sem parar, como forma de expurgar a solidão em que se encontra. 

Polícia, adjetivo, é um filme de questionamentos, em que a questão moral é trabalhada com minúcia, o que inclui uma consulta ao dicionário para verificar qual é o seu significado. Quando demonstra ao seu superior que não vai levar o caso do rapaz à frente, pelo fato de não achar necessário punir um usuário, Cristi aciona instâncias de reflexão sobre o papel de um policial, e instaura uma procura pelo que realmente uma palavra como "moral" ou "policial" quer dizer. A conjugação desses fatores serviu de motivação para que o filme fosse premiado em Cannes, onde recebeu o prêmio do júri dentro da mostra Un certain regard (Um certo olhar), que privilegia longas-metragens de ficção que tenham uma visão contributiva sobre um determinado assunto, e que comumente são de fora do território francês. 

O título do filme pode causar estranhamento em quem o descobre na prateleira de uma locadora ou entres os filmes disponíveis para download de um site qualquer, pois dá a uma palavra tradicionalmente classificada como substantivo a classificação de adjetivo. Conforme as gramáticas normativas apregoam, o adjetivo serve para modificar um substantivo, vindo, normalmente, posposto a ele. Aqui, o diretor romeno parece levar essa definição para um outro ângulo, mostrando que uma mesma palavra pode ser classificada de maneiras diferentes, a depender do contexto em que estiver inserida. Além disso, o filme não tem uma trama policialesca prototípica, em que tiros e perseguições contribuem para o desenvolvimento de uma ação desenfreada. Pelo contrário. Quase nada acontece durante toda a projeção. Por isso é importante assistir ao filme sem a pressa de que ele termine, pois o mais importante em Polícia, adjetivo não é a conclusão de uma teoria, apenas a abertura de uma discussão que pode ser aprofundada em diversas medidas.

De forma resumida, o filme é um tratado simples e conciso sobre os dilemas morais e éticos de um "homem da lei" diante das circunstâncias de seu próprio trabalho, e as ressonâncias que a sua atitude (ou a falta dela) podem gerar naquele que é o alvo de sua investigação. A narrativa do filme se encaminha para um final inconcluso, e deixa no ar todas as questões que levanta. Essencialmente um painel de contemplação, o filme funciona como alavanca para o debate de um assunto que sobrevive de nossas memórias para além de seus 115 minutos de durão. E a encenação límpida dos conflitos internos de uma pessoa comum responde pelo tônus dramático do longa : são o trunfo mais inquietante que Porumboiu poderia apresentar.

8.5/10

Texto originalmente publicado no blog O Clube do Slugue

domingo, 5 de outubro de 2014

Terror com pitadas de sarcasmo em Um lobisomem americano em Londres

Ao som de Blue moon, entoada por Bob Vinton, surgem os créditos de abertura de Um lobisomem americano em Londres (An American werewolf in London, 1981), e a mesma canção sonoriza o encerramento da história, dessa vez, na voz da banda The Marcels. Durante toda a narrativa, outras músicas contendo "moon" (lua) na letra vão sendo executadas, e ajudam na composição de um clima soturno e, ao mesmo tempo, sarcástico do filme escrito e dirigido por John Landis. É uma trilha sonora quase personagem, por assim dizer. A trama orbita ao redor de dois amigos que viajam a passeio para Londres. David (David Naughton) e Jack (Griffin Dune) chegam ao interior da cidade depois de pegar carona com um senhor que transportava cabras, e só querem um pouco de novidade e diversão. 

Entretanto, uma aura macabra recobre aquele local de pouquíssimos habitantes, todos desconfiados daquelas presenças estrangeiras e cheios de meias palavras. Quando entram numa taverna à procura de uma refeição, a postura claramente arredia desses moradores denuncia que algo de muito estranho acontece por ali, mas os amigos não fazem muito caso do fato, tamanha a empolgação de turistas que levam consigo. Mas a semente do sobressalto já foi plantada, e a sensação de que o perigo ronda os dois cresce depois que eles saem da taverna e começam a caminhar sob a luz de um luar sinistro por um descampado deserto. Nesse cenário, o primeiro clímax de Um lobisomem americano em Londres vem à tona, e lançam o filme definitivamente na esfera do horror, mas Landis nunca perde de vista um certo bom humor na condução da história, o que a mantém como um diferencial entre tantos filmes sobre a clássica lenda do homem que se transforma em lobo em noites de lua cheia.

Por sua estrutura e conteúdo, pode-se afirmar tranquilamente que se trata de um longa que não se leva a sério. Ao mesmo tempo, a narrativa oferece um estudo sobre a metamorfose de um homem absolutamente comum e sua dificuldade com o deslocamento resultante dessa condição distinta. É uma feliz conjugação de terror físico e psicológico, comédia ocasional e drama, cada um na sua medida e contribuindo para a totalidade da história. Em determinada passagem, é o primeiro que predomina e lhe confere um teor nevrálgico para, a seguir, prevalecer o segundo e alguns sorrisos serem esboçados ou efetivamente abertos, enquanto o terceiro responde pela franca agonia de um homem prisioneiro de sua própria natureza. A tal metamorfose é um trunfo dos efeitos visuais, exibindo riqueza de detalhes e surpreendendo pela qualidade, sobretudo quando se pensa que o filme foi rodado há mais de trinta anos, e houve tanta revolução na tecnologia desde então. Aliás, a maquiagem primorosa de Rick Baker fez dele o primeiro vencedor nessa categoria do Oscar, adicionada, em grande parte, pelo sucesso desse aspecto no filme.


A escolha de Naughton e Dune para os papéis dos turistas partiu de Landis, que vetou a presença de Dan Aykroyd e John Belushi, escolhidos da Universal. Vendo os dois perfeitamente entrosados em cena e sabendo ou não da decisão inicial do estúdio, é fácil constatar que Landis tinha razão. Naughton foi selecionado depois que o diretor o viu em um comercial de TV, enquanto a presença de Dunne no elenco foi questionada pelo sindicato de atores da Inglaterra, já que havia muitos atores residentes no país disponíveis para o personagem. O pé firme de Landis nessa e em outras questões deixou o filme com sua cara, mostrando que realmente é possível imprimir a marca autoral e a personalidade do diretor, um alento quando se pensa que na seara hollywoodiana, muitas vezes, são os produtores que ditam as regras. Até mesmo as filmagens aconteceram na ordem em que as cenas aparecem, uma demonstração do método de Landis, que trabalhou no roteiro do longa enquanto rodava Os guerreiros pilantras (Kelly's heroes, 1970), pouco mais de uma década antes.

O charme de Um lobisomem americano em Londres também está em sua pinta de filme B, um dos indicadores de seu pertencimento aos anos 80, que entraram para a História como exagerados e extravagantes. As aparições grotescas de Jack, cada vez mais decrépito, indicam essa verve um tanto quanto ordinária do filme, que pode ser apreciado tão somente como um terror divertido ou lido em mais camadas, sendo legítimas ambas as concepções. A graça de uma obra de arte, seja de que natureza for, é dar-se ao desfrute ou à repulsão conforme o receptor, que entra em contato com ela e, numa espécie de transação, apreende-lhe possíveis significados. Essa característica está assegurada aqui, fazendo da produção uma das mais interessantes para um público ávido de identidade própria em um universo cada vez mais isomorfista. A bem da verdade, Landis fez misérias com um orçamento de "apenas" 10 milhões de dólares e deixou à disposição da plateia, entre outras leituras, um tratado sobre feras e feridas internas.

8.5/10

sexta-feira, 3 de outubro de 2014

Magia ao luar ou as manias irresistíveis de um cronista existencial

Em uma das entrevistas que já concedeu à imprensa, Woody Allen afirmou que, no início das filmagens de um novo longa-metragem, acredita que aquele será o seu melhor, mas nunca chega a ficar satisfeito depois que conclui mais um trabalho e, assim, continua tentando, filme após filme. Um passeio, ainda que breve, por sua extensa filmografia permite notar o quanto o realizador é um perfeccionista de marca maior, daqueles que não consegue enxergar as várias qualidades do que faz. Entregando um filme por ano desde 1982, ele já provou várias vezes do que é capaz, e pode se dar ao luxo de oferecer produções despretensiosas, nas quais apenas reitera sua visão de mundo e permite a intérpretes de variados calibres fazer as vezes de seu alter ego. Em Magia ao luar (Magic in the moonlight, 2014), o cargo é ocupado por Colin Firth, belamente encaixado na persona ácida de Stanley, mágico que entende tudo de truques e cuja especialidade é desmascarar videntes charlatões. 

O filme abre com seu atual espetáculo, encenado em Berlim, no qual se disfarça de chinês e atende pelo codinome de Wei Ling Soo. Irreconhecível com a pesada maquiagem, ele surpreende a plateia fazendo um elefante desaparecer enquanto destila sua elegância e placidez durante toda a apresentação. No camarim, é convidado por Howard, amigo de longa data, a puxar o tapete de uma jovem que diz ter visões e conquistou a total confiança de uma família de ricaços, inclusive Brice (Hamish Linklater, neto de um famoso romancista escocês), de quem já tem o coração nas mãos. Incrédulo quanto à menor possibilidade de existência de um mundo espiritual, Stanley aceita o desafio de expor os truques por trás das supostas manifestações sensitivas de Sofia, e assim o público é transportado para o sul da França, país ao qual Allen retorna apenas três anos depois do estrondoso sucesso de Meia-noite em Paris (Midnight in Paris, 2011).

Ali, frente a frente, os dois começam um jogo de gato e rato que tantas vezes já foi visto no Cinema, porém a graça de uma história não é sobre o que ela trata, mas como ela trata. Nesse sentido, Magia ao luar é um delicioso oásis de boas tiradas, muitas das quais são provocações a uma crença no invisível, bem como na possibilidade de conexão com ele. A despeito de quaisquer dissonâncias do pensamento que guia a mente de Allen, ouvir essas tiradas dos lábios de Stanley, sem a menor cerimônia, pode arrancar alguns sorrisos. Nesse que já é seu 44º filme, o diretor quer apenas brincar com um punhado de autorreferências e sentenciar novamente o quanto as pessoas necessitam de válvulas de escape para seguir vivendo, uma das tônicas de sua obra. De uma forma ou de outra, a magia atravessa toda sua produção, mas é a primeira vez que ela é explicitada no título, felizmente traduzido ao pé da letra no Brasil.


Por várias vezes, o discurso de Stanley e o posicionamento dos personagens, entre eles a ingênua Grace (Jackie Weaver, uma atriz camaleônica) remete a longas anteriores do cineasta, como Sonhos eróticos de uma noite de verão (A midsummer night’s sex comedy, 1982) e Você vai conhecer o homem dos seus sonhos (You will meet a tall dark stranger, 2010), ambos diálogos com a obra shakesperiana que estão entre os mais subestimados de sua carreira. Estão todos embebidos em uma nuvem embriagante de ilusões, e mesmo o protagonista chega a caminhar um certo tempo por ela, mostrando que nenhum de nós passa incólume dos momentos de miopia sentimental. Para Allen, o amor é uma lente divergente da realidade, mas sua afeição à corrente filosófica existencialista o leva a assumi-lo como uma espécie de tábua de salvação, à qual se agarrar soa quase como uma questão de sensatez.

A tal médium, cujo dom é sempre colocado em dúvida por Stanley, coube a Emma Stone, de currículo pontuado por comédias e papéis adolescentes. Sua dicção com a língua constantemente entre dentes irrita – é algo que parece ter sido pensado apenas para esse papel -, mas Allen é do tipo que consegue pôr qualquer ator nos eixos – quem já viu Igual a tudo na vida (Anything else, 2003) há de convir que ele fez milagre com Jason Biggs, e ainda diz que não costuma exigir muito de seus elencos. Com seu jeito espontâneo, ela é uma armadilha e tanto para o faro apurado de Stanley, que se considera sempre um passo à frente da humanidade por acreditar que só existe aquilo que pode ser visto. Nesse sentido, há nele ecos do Boris Yelnikoff (Larry David) de Tudo pode dar certo (Weathever works, 2009), cuja arrogância respingava em quem quer que fosse seu interlocutor. Em dado momento, o mágico questiona se seria o único ser humano lúcido da face da Terra.

Magia ao Luar é o tipo de filme que os menos entusiasmados pelo diretor devem rotulá-lo como “um Allen menor”, o que não chega a ter um fundo de verdade, mas a esse clichê cabe somar outro muito mais verdadeiro, o de que um Allen menos inspirado ainda é melhor do que a maioria das comédias que toma de assalto o circuito comercial entra semana, sai semana. De certa forma, a relação do novaiorquino com a magia parece ser a de morde e assopra: ao mesmo tempo em que se mostra fascinado por ela e discorre sobre esse fascínio com um espectador conquistado, tem seus instantes de suspensão da crença e se mostra ofensivo com a mais ínfima possibilidade de ser iludido. No que diz respeito à questão, talvez sejamos todos um pouco Stanley, um pouco Allen.

8/10