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domingo, 1 de outubro de 2017

BALANÇO MENSAL - SETEMBRO

Como acontece desde março de 2012, vi pelo menos um filme por dia ao longo do mês de setembro, com exceção de um único dia, no qual ocupei meu tempo como guia turístico informal pela minha cidade. Então, a leva de títulos é volumosa, conforme se verá logo abaixo. Em termos de notas, nenhum conseguiu mais do que 8, um dado preocupante, diga-se de passagem. O questionamento - que já está se tornando velho - sobre os filmes não serem tão bons ou eu ter me tornado mais exigente com o tempo persiste. Mas exagero um pouco ao falar em preocupação e citar notas. Afinal, cinema nunca rimou com matemática, e esses numeraizinhos de 0 a 10 que acompanham meus filmes são apenas uma leve tentativa de traduzir os sentimentos que eles despertaram, bem como a falta deles. 

O cinema francês prevaleceu no pódio de setembro, com exemplares de sua força além das palavras. Em comum as medalhas de ouro e de bronze também tem o fato de serem assinadas por mulheres, um detalhe significativo em um universo ainda regido pelo sexo masculino. É com prazer que afirmo que elas não estão aqui preenchendo cotas, mas como resultado de inúmeros méritos, alguns dos quais procuro apontar nos parágrafos relativos a cada obra. Segue mais um balanço mensal para os meus cinco leitores!

MEDALHA DE OURO

Coração e alma (Katell Quillévéré, 2016)



A vida continua. Nem sempre do jeito que desejamos. Assim como nem sempre permanecem conosco quem gostaríamos de ter pela vida inteira. A realizadora ilustra essas certezas em um drama de tintas fortes, mas nunca pesa a mão e oferece algumas centelhas de esperança em sequências pontuais dentro de uma narrativa sobre um garoto que sofre morte cerebral após um grave acidente e uma mulher que aguarda sua vez para um transplante de coração. Quillévéré divide o foco entre esses dois protagonistas: um está deixando a vida, outra está lutando para continuar tendo a sua. E que cenas emocionantes essas condições em que eles estão proporcionam. Passado e presente também se alternam, contribuindo para entender um pouco sobre quem é o rapaz, precocemente incapacitado, num caso incomum de filho indo embora antes dos pais. Quanto à mulher, também conhecemos um pouco de sua bagagem de vida, que inclui alegrias e arrependimentos. A vida é assim, afinal. 

MEDALHA DE PRATA

Contratiempo (Oriol Paulo, 2016)



É sempre bom quando exemplares de gêneros tipicamente associados à seara hollywoodiana aparecem vindo de outras terras. Isso lembra a algumas pessoas que existem outras nacionalidades possíveis para os filmes. Contratiempo abraça a cartilha do suspense e capricha nas reviravoltas, brincando com a percepção da verdade e do fingimento o tempo todo. Típico caso em que os detalhes fornecem pistas valiosas para o entendimento global da trama, o longa desafia os espectadores com faro detetivesco aguçado. Mesmo os mais espertinhos podem experimentar a sensação de puxada de tapete, sobretudo nos minutos finais - óbvio que não vou dar qualquer informação a respeito desse momento da história.  O pouco que dá para dizer é que um casal de amantes vê sua situação se tornar cada vez mais complicada depois de um acidente, e nada é exatamente o que parece. Vale pena ficar de olho em Paulo, que acumula as funções de diretor e roteirista acertando em cheio nas duas.

MEDALHA DE BRONZE

Polissia (Maiwënn, 2011)



Quase tudo incomoda em Polissia. As situações apresentadas estão inscritas no cotidiano, mas nem por isso podem ser encaradas sob a ótica da normalidade. São histórias de estupro e abuso infantil, a maioria deles cometidos por parentes próximos das crianças ou por outro adultos que conseguem uma relação de confiança com elas, como um professor de natação. Além desses dramas diários, os policiais e assistentes sociais enfrentam suas próprias dificuldades pessoais, e a câmera de Maiwënn acompanha tudo com a atenção de um observador curioso. Ela também interpreta uma fotógrafa que acompanha a equipe e divide opiniões com seus cliques insistentes, e muitos são realmente fora de hora. O detalhe interessante do título é que polícia foi grafado propositalmente fora do padrão, tanto no original como em português, evocando as crianças - grandes beneficiadas pelo trabalho desses profissionais -, que ainda não assimilaram as regras de escrita de sua língua. Uma sacada simples, genial e resumitiva do propósito do filme.


INÉDITOS

299. Vida (Daniel Espinosa, 2017) -> 7.5
300. Coração e alma (Katell Quillévéré, 2016) -> 8.0
301. Contratiempo (Oriol Paulo, 2016) -> 8.0
302. A mulher sem cabeça (Lucrecia Martel, 2008) -> 4.0
303. Clamor do sexo (Elia Kazan, 1961) -> 8.0
304. Polissia (Maiwënn, 2011) -> 8.0



305. Sieranevada (Cristi Puiu, 2016) -> 6.0
306. Atômica (David Leitch, 2017) -> 8.0
307. Como nossos pais (Laís Bodansky, 2017) -> 6.0
308. As duas faces de janeiro (Hossein Amini, 2014) -> 7.0
309. Entrando numa fria maior ainda com a família (Paul Weitz, 2010) -> 5.0
310. Uma aventura na África (John Huston, 1951) -> 7.0
311. Ao cair da noite (Trey Edward Shults, 2017) -> 8.0



312. As crônicas de Nárnia - A viagem do Peregrino da Alvorada (Michael Apted, 2010) -> 6.5
313. Cyrus (Jay e Mark Duplass, 2010) -> 6.0
314. Os meninos que enganavam nazistas (Christian Duguay, 2017) -> 8.0
315. E la nave va (Federico Fellini, 1983) -> 7.5
316. Sem direito a resgate (Daniel Schechter, 2013) -> 6.0
317. O lar das crianças peculiares (Tim Burton, 2016) -> 5.0
318. Na praia à noite sozinha (Hong Sang-soo, 2016) -> 8.0




319. Agonia e glória (Samuel Fuller, 1980) -> 7.0
320. Mulher Maravilha (Patty Jenkins, 2017) -> 7.0
321. Quando os jovens se tornam adultos (Barry Levinson, 1982) -> 7.0
322. Omar (Hany Abu-Assad, 2013) -> 8.0
323. O poderoso chefinho (Tom McGrath, 2017) -> 5.5
324. De canção em canção (Terrence Malick, 2017) -> 5.0



325. Animal político (Tião, 2016) -> 4.0
326. Brazil - O filme (Terry Gilliam, 1985) > 7.5
327. Nashville (Robert Altman, 1975) -> 7.0
328. Guerra (Tobias Lindholm, 2015) -> 8.0
329. Sweet sixteen (Ken Loach, 2002) -> 7.5

REVISTOS

O abismo prateado (Karim Ainöuz, 2011) -> 8.0
2001 - Uma odisseia no espaço (Stanley Kubrick, 1968) -> 9.0
Tiros na Broadway (Woody Allen, 1994) -> 9.0
O garoto da bicicleta (Jean-Pierre e Luc Dardenne, 2011) -> 9.5
Soul kitchen (Fatih Akin, 2009) -> 8.0

MELHOR FILME: Coração e alma
PIOR FILME: A mulher sem cabeça/Animal político
MELHOR ATRIZ: Ana Wagener, por Contratiempo
MELHOR ATOR: Viggo Mortensen, por As duas faces de janeiro
MELHOR ATRIZ COADJUVANTE: Karin Viard, por Polissia
MELHOR ATOR COADJUVANTE: James McAvoy, por Atômica
MELHOR DIRETOR: Oriol Paulo, por Contratiempo
MELHOR ROTEIRO ORIGINAL: Oriol Paulo, por Contratiempo
MELHOR ROTEIRO ADAPTADO: Katell Quillévéré e Gilles Taurand, por Coração e alma
MELHOR FOTOGRAFIA: Tom Harari, por Coração e alma
MELHOR TRILHA SONORA: Stephen Warbeck, por Polissia
MELHOR CENA: O desabafo de de Nadine em Polissia
MELHOR FINAL: Contratiempo

quarta-feira, 27 de setembro de 2017

QUINTETO DE OURO - INGMAR BERGMAN

Em julho deste ano, completamos uma década sem Ingmar Bergman. Como passou rápido... Se, por um lado, porém, lamentamos que ele tenha partido desse mundo, por outro celebramos o fato de que sua obra resiste ao tempo, convidando a primeiras, segundas e terceiras visitas periódicas, com maior ou menor grau de aproveitamento a depender da inclinação da alma. Sim, a alma é um elemento basilar na filmografia desse sueco nascido em Uppsala, que dedicou boa parte de seus 88 anos a "capturar" uma parte intangível de todos nós, e que ele acreditava ser vermelha, levando essa ideia em toda sua explicitude para um de seus longas, entre os mais celebrados de sua carreira.

Como nas demais edições do Quinteto de Ouro, a ideia aqui não é oferecer uma biografia pessoal ou artística de um diretor homenageado. Livros e sites já existem aos montes para cumprir essa função. A proposta é destacar, num mar (in)finito de possibilidades o que mais me atrai em um tema relacionado ao universo cinematográfico. No caso de Bergman, quais são os cinco títulos que me atraem em um filmografia composta por nada menos que 64 títulos, entre produções para cinema e televisão, longas e curtas. Ainda não vi muitos deles - foram 30 longas e 1 curta até agora -, mas me considero com base quantitativa e qualitativa o suficiente para apontar (em ordem cronológica) o que há de melhor do realizador preferido de Woody Allen, e um dos meus preferidos também.

1. Morangos silvestres (Smultronstället, 1957)


Um dos ícones máximos de sua carreira juntamente com O sétimo selo (Det Sjunde Inseglet, 1957), que ele teve a capacidade de rodar no mesmo ano, essa ode à memória não poderia deixar de ganhar uma vaga no meu quinteto. É com muito carinho e quase nenhuma indulgência que Bergman, então à beira dos 40 anos, filmou o percurso de um médico veterano (Victor Sjöström, ator e diretor bissexto) até uma universidade onde será homenageado pelas décadas de profissão. Os tais morangos do título são uma entre tantas lembranças afetivas, tristes ou raivosas que povoam sua cabeça, e vão sendo acionadas neste que também é um belíssimo exemplar de filme de estrada. Há quem diga que a experiência causa sono: de fato, tudo caminha lentamente aqui, incluindo o carro com o qual Isak viaja. Mas aonde vamos com tanta pressa? Sentar e contemplar uma vida compartilhada, com a qual pode surgir mais ou menos identificação, é uma espécie de terapia muito válida e, com o tempo, que me parece cada vez mais necessária, já que o tempo ensina (ou obriga) a fazer revisões periódicas na caminhada. 

2. Persona (idem, 1966)


Não há como não se maravilhar com as interpretações de Andersson e Ullmann em seus respectivos papéis. Ambas propiciam um embate inesquecível em cada cena, mexendo com os nervos e as emoções de um público que assiste atordoado a alguns devaneios, confissões e a uma apropriação intensa de personalidade. Persona requer as nossas inferências, exige um espectador sem qualquer passividade para completar as muitas lacunas que a narrativa oferece e ler a trama à sua maneira. Esse é um traço típico do cinema bergmaniano, mas, aqui, aparece elevado a um nível de radicalismo que o torna mais aparentado de outras obras perturbadoras de sua carreira, como o aterrador A hora do lobo (Vargtimmen, 1968), rodado apenas dois anos depois. O realizador sueco se aproveitou e realçou a semelhança física entre as atrizes, duas de suas musas maiores, e o ápice dessa similitude entre elas é o plano que traz os seus rostos praticamente fundidos, confundindo-nos. Os rostos que contêm as máscaras. Os rostos que são as máscaras. Caem as máscaras. Rasga-se o véu. Tudo é um claro enigma. Viver mata. [crítica completa]

3. Cenas de um casamento (Scener ur ett Äktenskap, 1973)


Entre as várias qualidades que podem ser apontadas no filme, uma das principais é, seguramente, o texto muito bem escrito , cuja autoria coube ao próprio diretor. As palavras quase sempre exalam sinceridade e, quando não o fazem, um gesto ou um olhar dão conta de exprimir aquilo que realmente se passa com o casal. Não há reducionismos aqui: tanto um quanto o outro se mostra em vários lados, corroborando a ideia de que a fragmentação é parte integrante da composição de cada indivíduo. Avesso a qualquer formatação e opinião pré-concebida, Bergman examina Johan e Marianne e deixa que o público escolha de que lado prefere ficar, se é que se pode falar em lados quando se trata de um relacionamento a dois. De qualquer modo, mesmo que a decisão do espectador seja a de torcer por um deles, é bem provável que suas impressões mudem a todo tempo, à medida que o filme transcorre e mais e mais aspectos da natureza dos personagens vão vindo à tona. E, de nada adiantaria um texto tão transparente se o diretor não contasse com os desempenhos assombrosos de Ullmann e Josephson. Velhos conhecidos de Bergman, eles são escolhas acertadíssimas, demonstrando mais uma vez o quanto são intérpretes talentosos. [crítica completa]

4. Sonata de outono (Höstsonaten, 1978)


Uma das especialidades do cinema bergmaniano é justamente as interdições derivadas da dificuldade de comunicação. Ao longo de sua filmografia, o realizador sueco apresentou variações dentro desse tema, focalizando amantes, maridos, esposas, e irmãos, além de se propor a analisar as dessintonias entre os homens e Deus. São elementos que fizeram parte de sua vida pessoal e serviram de base para obras profundas, muitas delas capazes de operar transformações internas em seu público ou, no mínimo, de causar o desconforto de um nó na garganta. Acontece exatamente assim com Eva e Charlotte. O que a filha deseja, na verdade, é reavaliar todos os anos em que se sentiu abandonada e rejeitada pela mãe através de um confronto direto. Porque chega um tempo em que não é mais possível manter tantos sentimentos represados: é preciso liberá-los de alguma maneira, e cada um deve encontrar a sua. [crítica completa]

5. Saraband (idem, 2003)


Muitos anos transcorreram desde que Marianne (Liv Ullmann) e Johan (Erland Josephson) se viram pela última vez. O tempo é implacável: não espera por nada nem por ninguém. Por outro lado, é curioso o fato de que, muitas vezes, constatamos que longo período de distância de alguém parece se reduzir a uma escala ínfima quando se reencontra essa pessoa. Essa impressão, de certa forma, sobrevém a Marianne quando ela volta a fazer contato com Johan, exatos trinta anos após um dia que talvez tivesse sido uma despedida. E assim temos a introdução de Saraband (idem, 2003), que carrega consigo a “responsabilidade” de ser o último filme de Ingmar Bergman. Depois de uma carreira que cobriu um arco temporal de décadas, ele entregou mais um exemplar filmico de sua capacidade impressionante de escavar sentimentos de seus personagens como quem fustiga um rochedo e vê brotar dali uma nascente.  [crítica completa]

sexta-feira, 1 de setembro de 2017

BALANÇO MENSAL - AGOSTO

Diferentemente dos últimos 3 anos, agosto não teve nenhuma viagem que interrompesse meu fluxo de sessões de filmes, por isso o número de títulos é superior ao de balanços anteriores do mesmo mês. Entre os diretores que trouxeram filmes inéditos para o meu currículo de 2017, que já passa de 300 longas, estiveram Jacques Demy em sua última experiência com o preto e branco, Akira Kurosawa em produção um tanto prolixa, Edgar Wright e Christopher Nolan com seus trabalhos mais recentes vistos no cinema, bem como Sofia Coppola na mesma circunstância. Também abri espaço para Ettore Scola, velho conhecido que não dava as caras há tempos. E dois queridinhos meus, que podem ser conferidos logo abaixo, fizeram tão bonito que ganharam vaga no disputado pódio. Vamos ver todo mundo que passou pelos meus olhos em agosto?

PÓDIO

MEDALHA DE OURO

O outro lado da esperança (Aki Kaurismäki, 2017)


A cada filme, Aki Kaurismäki reafirma sua vocação humanista, retratando histórias de indivíduos comuns precisando sobreviver em um mundo tantas vezes hostil, mas onde ainda se encontram centelhas de gentileza e solidariedade pontilhadas por aí. Parte de mais uma trilogia iniciada com O porto (Le Havre, 2011), O outro lado da esperança (Toivon tuolla puolen, 2017) também é um olhar do finlandês para a urgente questão imigratória, que tanto convulsiona a Europa e levanta a poeira da xenofobia e do racismo, só para ficar em duas reações adversas entre os nativos do continente. E, novamente, ele focaliza as exceções ao que parece a regra não somente lá, mas em outras partes. Não sem um toque de nonsense, é bom que se diga, e aí está umas das delícias do modus operandi kaurismäkiano. [crítica completa]

MEDALHA DE PRATA

Esse obscuro objeto do desejo (Luis Buñuel, 1977)


O detalhe mais inusitado desse que é o derradeiro longa-metragem assinado por Buñuel é a alternância de atriz no papel de Conchita, o tal objeto de desejo negativamente adjetivado do título. Carole Bouquet e Ángela Molina vão e vem a cada duas ou três cenas como se fossem a mesma atriz o tempo todo, e o possível estranhamento do recurso logo cede lugar ao envolvimento com uma trama que vai sendo traçada com paciência, no esquema de flashback. Aos poucos, vamos dando cada vez mais razão ao protagonista narrador de Fernando Rey, que joga um balde de água numa mulher antes de embarcar em um trem, e pouco depois o público fica sabendo que era a tal Conchita. Depois de seus títulos mais emblemáticos, críticas mordazes à burguesia, ele encerrou a carreira mostrando mais um lado dessa classe, mas focalizando um misto de sentimentos e deixando dúvidas sobre o julgamento mais razoável para os personagens, ambos capazes de atitudes questionáveis, uma grande sacada do roteiro de Jean-Claude Carrière.

MEDALHA DE BRONZE

O que traz boas novas (Philippe Falardeau, 2011)


O subgênero filme escolar ganha novos exemplares de tempos em tempos, nem sempre de qualidade. Felizmente, o caso desse canadense que concorreu ao Oscar de melhor filme estrangeiro, entregue naquele ano para A separação (Jodaeiye Nader az Simin, 2011) - uma vitória merecida, diga-se de passagem, é positivo. O senhor Lazhar do título original é um imigrante argelino passado à condição de refugiado que assume uma turma de ensino fundamental em um colégio com alunos sobretudo de classe média. Sua chegada acontece logo depois de uma atitude extrema da professora anterior, que repercute dramaticamente entre as crianças, inicialmente resistentes aos exercícios difíceis do novo mestre. Onde estariam as tais boas novas do título nacional? A princípio, elas vêm do sobrenome do professor, que ele explica em sua primeira aula, mas aos poucos o coração dos meninos vai se abrindo para ele, sem aquele apelo indutor do choro em que Hollywood tanto gosta de se basear. 

INÉDITOS

LONGAS

259. Quiz show - A verdade dos bastidores (Robert Redford, 1994) -> 8.0
260. Nossa vida não cabe num Opala (Reinaldo Pinheiro, 2008) -> 5.0
261. Nosso fiel traidor (Susanna White, 2016) -> 7.0
262. A baía dos anjos (Jacques Demy, 1963) -> 8.0
263. Oh, boy (Jan Ole Gerster, 2012) -> 6.5
264. As crônicas de Nárnia - Príncipe Caspian (Andrew Adamson, 2008) -> 7.0


265. Bem-vindo ao Norte (Luca Miniero, 2012) -> 6.5
266. Esse obscuro objeto do desejo (Luis Buñuel, 1977) -> 8.5
267. Entrando numa fria maior ainda (Jay Roach, 2004) -> 6.0
268. Kagemusha - A sombra do samurai (Akira Kurosawa, 1980) -> 7.5
269. Terra estranha (Kim Farrant, 2015) -> 6.0
270. Ausência (Chico Teixeira, 2014) -> 7.0
271. Grave (Julia Ducornau, 2016) -> 7.0


272. Leviatã (Andrey Zvyagintsev, 2014) -> 7.5
273. O segurança fora de controle (Jody Hill, 2009 -> 4.0
274. Em ritmo de fuga (Edgar Wright, 2017) -> 8.0
275. Dunkirk (Christopher Nolan, 2017) -> 6.0
276. O outro lado da esperança (Aki Kaurismäki, 2017) -> 9.0
277. Uma aventura na Martinica (Howard Hawks, 1944) -> 7.0
278. Olmo e a gaivota (Petra Costa e Lea Glob, 2014) -> 7.5
279. Voltando a viver (Denzel Washington, 2002) -> 7.0


280. Violeta foi para o céu (Andrés Wood, 2011) -> 8.0
281. Caçador de morte (Walter Hill, 1978) -> 7.0
282. Pets - A vida secreta dos bichos (Yarrow Cheney e Chris Renaud, 2016) -> 6.0
284. O filme da minha vida (Selton Mello, 2017) -> 6.0
285. Colossal (Nacho Vigalondo, 2016) -> 5.0
286. Rififi (Jules Dassin, 1955) -> 7.5
287. O estranho que nós amamos (Sofia Coppola, 2017) -> 7.0


288. O último pôr do sol (Robert Aldrich, 1961) -> 8.0
289. O baile dos bombeiros (Miloš Forman, 1967) -> 7.0
290. Feios, sujos e malvados (Ettore Scola, 1975) -> 8.0
291. O bar (Álex da la Iglesia, 2017) -> 7.5
292. A comunidade (Thomas Vinterberg, 2016) -> 7.0
293. A perseguição (Joe Carnahan, 2011) -> 7.5


294. Perigo por encomenda (David Koepp, 2012) -> 6.0
295. Anna Karenina (Joe Wright, 2012) -> 6.0
296. Jogos patrióticos (Philip Noyce, 1992) -> 5.0
297. O que traz boas novas (Philippe Falardeau, 2011) -> 8.0
298. Planeta proibido (Fred M. Wilcox, 1956) -> 7.0

CURTA

World of tomorrow (Don Hertzfeldt, 2015) -> 8.0

REVISTOS

Zodíaco (David Fincher, 2007) -> 8.0
Canções de amor (Christophe Honoré, 2007) -> 7.0
Veludo azul (David Lynch, 1986) -> 9.0
De volta para o futuro 3 (Robert Zemeckis, 1990) -> 8.0
Ensaio sobre a cegueira (Fernando Meirelles, 2008) -> 8.0

MELHOR FILME: O outro lado da esperança
PIOR FILME: O segurança fora de controle
MELHOR DIRETOR: Aki Kaurismäki, por O outro lado da esperança
MELHOR ATRIZ: Trine Dyrholm, por A comunidade
MELHOR ATOR: John Turturro, por Quiz show - A verdade dos bastidores
MELHOR ATRIZ COADJUVANTE: Viola Davis, por Voltando a viver
MELHOR ATOR COADJUVANTE: Denzel Washington, por Voltando a viver
MELHOR ROTEIRO ORIGINAL: Aki Kaurismäki, por O outro lado da esperança
MELHOR ROTEIRO ADAPTADO: Dalton Trumbo, por O último pôr do sol
MELHOR TRILHA SONORA: Aki Kaurismäki, por O outro lado da esperança
MELHOR FOTOGRAFIA: Timo Salminen, por O outro lado da esperança
MELHOR CENA: O jantar japonês de O outro lado da esperança
MELHOR FINAL: Esse obscuro objeto do desejo

sábado, 26 de agosto de 2017

O outro lado da esperança e o humanismo sutilmente inscrito

A cada filme, Aki Kaurismäki reafirma sua vocação humanista, retratando histórias de indivíduos comuns precisando sobreviver em um mundo tantas vezes hostil, mas onde ainda se encontram centelhas de gentileza e solidariedade pontilhadas por aí. Parte de mais uma trilogia iniciada com O porto (Le Havre, 2011), O outro lado da esperança (Toivon tuolla puolen, 2017) também é um olhar do finlandês para a urgente questão imigratória, que tanto convulsiona a Europa e levanta a poeira da xenofobia e do racismo, só para ficar em duas reações adversas entre os nativos do continente. E, novamente, ele focaliza as exceções ao que parece a regra não somente lá, mas em outras partes. Não sem um toque de nonsense, é bom que se diga, e aí está umas das delícias do modus operandi kaurismäkiano. 

Inicialmente desencontrados, Wikhström (Sakari Kuosmanen) e Khaled (Sherwan Haji) entram em cena sob essa ótica inusitada que o realizador gosta de cultivar. O primeiro está deixando a esposa sem qualquer fala, apenas lhe entregando o velho símbolo da união de ambos: uma aliança, que ele joga sobre a mesa e ela sequer tenta segurar. Não se sabe ao certo o que causou a decisão, mas ela parece, àquela altura, irreversível. O segundo aparece enegrecido após a emersão de uma montanha de carvão mineral, e só mais adiante a razão para ele ter estado ali é contada: ele é um imigrante sírio em busca de asilo político que foi parar na Finlândia depois que não conseguiu sair de um navio que rumava àquele país. A essa altura, O outro lado da esperança é um díptico sobre dois homens em processo de reconstrução, e as marcas que consagraram Kaurismäki e lhe tornam um cineasta inconfundível aos primeiros minutos desfilam pela tela. 

Além do já citado elemento nonsense, seus atores parecem não se esforçar muito para interpretar, digamos assim. O roteiro emulsiona possíveis gorduras sentimentais vai direto ao ponto, mas engana-se quem pensa que o resultado é a frieza. A estratégia remete a um de seus mentores, um certo Robert Bresson, de longas como O batedor de carteiras (Pickpocket, 1959) e A grande testemunha (Au hasard Balthazar, 1966), mas as semelhanças com a obra do francês não vão muito além de tal detalhe. Kaurismäki se filia bem mais a Yasujiro Ozu, e o próprio diretor já declarou que pretende fazer vários filmes ainda para então se conformar que nunca vai chegar aos pés do realizador japonês, cuja filmografia pode ser "acusada" de monotemática sob um olhar meramente sinóptico. Porém, como vários outros medalhões da realização cinematográfica, Ozu conseguia pintar com novas tonalidades seu tema preferido: a filha que adia sua partida de casa para se devotar ao pai que não se viraria muito bem com sua ausência. É a mesma acusação que se faz contra Woody Allen e seus recortes sobre neuróticos sem rumo. 


Dito isso, é de uma modéstia exagerada o finlandês afirmar que não é tão bom quanto Ozu: cada qual com seu estilo e temática, eles presenteiam seu público com um humanismo sempre bem-vindo. O outro lado da esperança é um filme de seu tempo, ao mesmo tempo em que reforça valores atemporais aliado a um conjunto cênico minimalista e às comentadas interpretações comedidas. Ao escolher abordar os fluxos migratórios, ele não só coloca o dedo numa ferida aberta (por força de expressão, uma vez que é descabido falar em ferida tanto literal quanto figuradamente), como também lembra que é na ajuda mútua que o mundo gira melhor, sem perder de vista o senso de humor. Para ilustrá-lo, dois exemplos: o desastrado cruzamento das trajetórias de Wikhström e Khaled, que começa com uns sopapos um no outro para, na cena seguinte, o dono do restaurante acolher o sírio com um prato de comida; e o jantar japonês (alguém pensou em Ozu?) improvisado de última hora para receber clientes daquela nação, com todos os empregados vestidos a caráter. Situações que geram um sorriso discreto, assim como Wes Anderson costuma fazer em suas comédias.

Kaurismäki foi premiado com o Urso de Prata de direção no Festival de Berlim, no qual competiu com nomes como Agnieska Holland, Sebastián Lelio e Calin Peter Netzer. Por incrível que pareça, nenhum filme seu tinha sido selecionado para o Festival até então, e nada mais justo do que um reconhecimento desses para seu trabalho, merecido mesmo, não um daqueles casos de premiação tardia pelo conjunto da obra. Ele é uma voz dissonante entre seus conterrâneos, que estigmatizam os estrangeiros e, por vezes, chegam à agressão física, e notícias de 2016 apontam o surgimento de patrulhas anti-imigrantes, formadas por civis que argumentam que os refugiados elevam os índices de criminalidade. Autorreferidos como Soldados de Odin, entidade mitológica associada à guerra, eles também existem nas vizinhas Suécia, Dinamarca e Noruega. A princípio, o cineasta faria uma trilogia sobre cidades portuárias, mas mudou de ideia e agora está tratando de refugiados, uma decisão perfeitamente sintonizada com a exigência de um tempo em que mesmo fatos e atitudes óbvias precisam ser defendidos.

9/10

sábado, 19 de agosto de 2017

QUINTETO DE OURO - FILMES DE ESTRADA

Referidos mais comumente pela nomenclatura inglesa - road movies - os filmes que colocam seus personagens para rodar por aí constituem um subgênero prolífico, que contém várias pérolas a serem conferidas ou rememoradas. Particularmente, é um dos que eu mais gosto, e já era hora de prestar minha singela homenagem a ele com uma edição do Quinteto de Ouro. A seleção de apenas cinco títulos, como de hábito, é trabalhosa, porque me obriga a deixar de fora alguns queridinhos por pura falta de espaço, mas sigo fiel à proposta de me esforçar num recorte, mesmo que ele possa ser representativo apenas da época em que foi feito. E será interessante, daqui a algum tempo, revisitá-lo e constatar o que mudou ou o que segue firme e forte no meu coração. 

O critério para organizá-los na lista, dessa vez, não foi cronológico. Para variar um pouco, decidi recorrer à ordem alfabética, tão prática e objetiva quanto a cronologia e, por isso mesmo, um pouco menos torturante - o paradoxo das listas é esse: uma deliciosa agonia. Cada diretor aparece com somente um filme, compondo um panorama rico de indicações e lembretes que, certamente, suscitarão debates - "esse entrou e aquele não?", dirão alguns. Mas aí também está a graça de fazer listas: compartilhar com os amigos e conhecidos e discutir os vários pontos de vista e gostos. Agora é hora de cair na estrada com ótimas companhias!

1. A estrada da vida (Federico Fellini, 1954)


Desencanto e ternura desfilam pela tela em igual proporção nos 104 minutos dessa viagem felliniana pelos caminhos tortuosos em que se mete Gelsomina (Giulietta Masina). A protagonista baixinha e de olhos altamente expressivos deixa seu cotidiano de pobreza com a mãe para uma suposta melhora de vida com Zampanò (Anthony Quinn), mas as dificuldades permanecem. E o relacionamento entre eles não é dos melhores, ocasionando momentos oscilantes entre expectativa e ilusão. O mundo parece não ter boas surpresas para Gelsomina, mas existe um brilho no fundo de seu olhar que insiste em se manter aceso - o mesmo brilho que veríamos poucos anos depois na personagem título de Noites de Cabíria (Le notti di Cabiria, 1957), vivida pela mesma Masina. Esposa de Fellini até a morte do cineasta, era uma gigante em cena, a despeito da estatura física desfavorável à primeira vista. Três paixões fellinianas estão reunidas aqui: ela, a estrada e o circo, este último um palco e tanto para suas alusões ao sonho e à esperança.

2. História real (David Lynch, 1999)


O filme mais comportado de Lynch é também o seu mais emocionante. Quem conhece um pouco de sua filmografia sabe que ele capaz de abraçar a estranheza em maior ou menor grau - A estrada perdida (Lost highway, 1997) e Cidade dos sonhos (Mulholland Drive, 2001). Mas aqui ele deixa a sutileza reinar e nos leva junto com Alvin (Richard Farnsworth), que usa um velho cortador de grama como meio de transporte para visitar o irmão que não vê há anos e mora longe demais. À medida que vai trilhando seu caminho, Alvin vai se deparando com variados tipos, alguns com verdadeira vocação para o abandono e sedentos de afeto em seus corações. Exatamente como a jovem grávida que ele encontra logo no começo de sua odisseia particular, a quem dá conselhos sábios, assim que descobre sua situação complicada. Como um bom exemplar do subgênero que é, reforça a certeza de que o percurso é tão importante quanto a chegada ao destino, reservada para os minutos finais, em uma das cenas mais acolhedoras de toda a narrativa. Triste é saber que apenas um ano depois do longa, Farnsworth deixou este mundo.

3. Nebraska (Alexander Payne, 2013)



Terceiro filme consecutivo a abraçar a temática, Nebraska mostra seu valor logo em seus primeiros minutos. A questão familiar também rege a narrativa, centrada em pai e filho que viajam os 1300 km que separam sua casa do estado que intitula o filme para receber um suposto prêmio de uma editora. O genitor é vivido por Bruce Dern, prêmio de interpretação masculina em Cannes: arrancou elogios da plateia, que se emocionou com seu desempenho minimalista de um homem marcado pelo tempo e pelo vício, mas que conserva um humor sagaz sob a aparência de idoso desamparado. Seu sarcasmo vem à tona nos diálogos com Will, travados nos bares aos quais ele não resiste não entrar. E não se pode deixar de mencionar June Squibb (indicada ao Oscar de melhor atriz coadjuvante) a matriarca que também acaba se juntando nessa longa viagem. Sem quaisquer papas na língua diante dos demais componentes da família, que todos visitam no caminho para o prêmio falacioso, assim como os vizinhos locais, ela destila seu senso de humor pesado contando várias verdades que Will não imaginava existirem. 

4. No decurso do tempo (Wim Wenders, 1976)


No Quinteto de Ouro sobre a década de 70, ele estava presente, assim como no artigo dos 15 subestimados e se encaixou muito bem em mais uma categoria, por isso volta a aparecer.  Já deu para ver o quanto amo o filme, e repito aqui o texto escrito para o Quinteto. As viagens dos protagonistas pelas estradas também traz à tona a questão da incomunicabilidade que tanto aflige os seres humanos, da qual os personagens não escapam. Os pequenos ruídos de comunicação entre ambos responde pela oscilação na sua proximidade, assim como acontece com amigos cuja relação sofre ranhuras, ainda que imperceptíveis a olho nu, a cada vez que uma dissonância importante se concretiza. Nesse sentido, a abrangência de No decurso do tempo é enorme, por nos deixar entrever na lenta caminhada de Bruno e Robert algumas das nossas idiossincrasias mais veladas, ainda que, mesmo no filme, elas não apareçam escancaradamente. Wenders aposta nos silêncios e nos olhares que comunicam em parte e sublinham a angústia da procura por um interlocutor. A amizade entre Bruno e Robert é como um pálio de luz que se abre sobre eles e está circunscrita a um arco de tempo específico. Enquanto o tempo não finda, eles conhecem um pouco sobre o outro e um pouco sobre si mesmos. 

5. Pequena Miss Sunshine (Jonathan Dayton e Valerie Falls, 2006)


Uma família com várias disfunções entre seus membros cai na estrada e propicia uma crítica bem-humorada e consistente ao nefasto hábito estadunidense de tachar alguns de perdedores, longe de qualquer perspectiva refratária. A estreia de Jonathan Dayton e Valerie Faris atrás das câmeras, digna de alvíssaras, é um achado em termos de personagens, tão verossímeis em suas fragilidades. Quem nunca se viu inclinado a torcer por um candidato com poucas chances de vitória talvez não compreenda o fascínio exercido por Pequena Miss Sunshine, mas cada instante seu transpira encanto genuíno. Da pequena Olive ao atormentado Frank, passando pelo tresloucado Edwin, os habitantes da narrativa são mais do que meros tipos desenhados às pressas. Cativam pelo que têm de mais parecidos com cada um de nós, para o bem e para o mal, sem demonstrar qualquer esforço para serem adoráveis. Pontuado por cenas inesquecíveis, os diretores indicam o quanto um olhar afetuoso pode ser a melhor alternativa diante da indizível tristeza quando os sonhos se frustram e é preciso certo tempo antes de se encarar o recomeço. Entre risos e lágrimas, invoca nossa humanidade, por vezes, combalida. (Texto originalmente publicado no Cineplayers)

terça-feira, 1 de agosto de 2017

BALANÇO MENSAL - JULHO

Está chegando mais uma leva de longas-metragens vistos e revistos ao longo de mais um mês do ano. O balanço de agosto reúne vários títulos, todos provenientes dos Estados Unidos, e a medalha de ouro foi entregue a um novo James Gray, que me arrancou um 9, nota que anda tão rara quanto o 10. Sigo à procura de um filme merecedor dessa avaliação máxima - desde setembro de 2016, com Aquarius, não tem acontecido. Notas à parte, os leitores vão encontrar muita coisa boa distribuída nas próximas linhas. Prevalecem os dramas, como de hábito, mas houve espaço para uma comédia bem gostosa no pódio, tendo Warren Beatty, uma figura que vem se tornando frequente nas minhas escolhas deste ano, como ator principal. Fechando o trio de melhores, um certo carpinteiro alçando um automóvel de motor fatal à condição de protagonista. E lá vêm eles!


MEDALHA DE OURO

Z - A cidade perdida (James Gray, 2016)




Este que vos escreve sentiu receio quando soube da premissa do sexto filme de James Gray: um homem obstinado por encontrar uma civilização perdida se embrenha na Amazônia por causa dessa procura. Resumidamente, é sobre esse pilar que se apoia Z - A cidade perdida (The lost city of Z, 2016), exibido no Festival de Berlim. Por que o receio? Não é exatamente a temática que se espera de um diretor de seu calibre, mais afeito a retratos urbanos pintados com certo intimismo, especialmente sua obra-prima, Amantes (Two lovers, 2008). O filme em análise está mais para um Werner Herzog, realizador de Aguirre, a cólera dos deuses (Der Zorn Gottes, 1972) e Fitzcarraldo (idem, 1972), cujos enredos se desdobram em aventuras megalomaníacas. Os pés atrás, contudo, ficaram no passado logo nos primeiros minutos de sessão de mais um Gray, que demonstra manter um elo coesivo com sua obra pregressa, e são detalhes aqui e e ali a sedimentar essa observação. [crítica completa]


MEDALHA DE PRATA

O céu pode esperar (Warren Beatty e Buck Henry, 1978)



Não é das comédias que mais me arrancou risos, mas me despertou um carinho tão grande pelos personagens principais que logo foi me conquistando. Com Warren Beatty na direção, no roteiro e no papel de protagonista, o longa setentista parte de um argumento insólito: um jogador de futebol americano é levado ao céu prematuramente e, quando se confirma seu direito de passar mais uns anos na Terra, seu corpo já foi cremado. Resta então encarnar em outro corpo, e o escolhido é um milionário ganancioso que já estava para ser liquidado em um plano maligno de sua esposa, mancomunada com o suposto braço direito dele. Movido por um senso de justiça, o atleta procura fazer o bem sob a carcaça do tal milionário, ao mesmo tempo em que se empenha para atuar no Super Bowl, no qual jogaria se não tivesse quase morrido antes. Estão garantidos momentos de humor genuíno, como as tentativas frustradas de assassinato da dupla de trambiqueiros e a surpresa geral diante da ideia de um homem que nada tinha a ver com esporte querer competir em pé de igualdade com os demais integrantes do time. E o que dizer da química absurda de Beatty e Julie Christie, também parceiros na vida real? 


MEDALHA DE BRONZE

Christine - O carro assassino (John Carpenter, 1983)



Dizer que o motor de Christine é envenenado está longe de ser mera força de expressão. Quem cruza o caminho dessa máquina pode experimentar seus últimos instantes de vida, e a quem ousar duvidar, o castigo vem em um motor de muitos cavalos. O ocupante do terceiro lugar do pódio de agosto é outro exemplar de premissa inusitada que funciona em várias frentes, sobretudo no roteiro e na trilha sonora, bem casada com as sequências em que o eletrizante e o assustador se conjugam. Carpenter manja do riscado e, como carpinteiro - tradução de seu sobrenome, afinal -, faz de sua arte um veículo (opa, escapuliu um trocadilho!) para emoções vivazes. Aliás, Christine é um carro bem sentimental, e é justamente por conta de seus sentimentos (especialmente o ciúme) que ele arranca com tudo para cima de quem desafiá-los. Ainda sobre a trilha, ela é um misto de horror e ironia bem pensados por uma mente criativa. 

INÉDITOS



224. A senhora da van (Nicholas Hytner, 2015) -> 6.0
225. De menor (Caru Alves de Souza, 2013) -> 6.5
226. A lei da noite (Ben Affleck, 2016) -> 6.5
227. Christine - O carro assassino (John Carpenter, 1983) -> 8.0
228. Da colina Kokuriko (Goro Miyzaki, 2011) -> 7.5
229. Entrando numa fria (Jay Roach, 2000) -> 6.0



230. Okja (Joon Bong-hoo, 2016) -> 7.5
231. As crônicas de Nárnia - O leão, a feiticeira e o guarda-roupa (Andrew Adamson, 2005) -> 8.0
232. Traffic (Steven Soderbergh, 2000) -> 5.0
233. Z - A cidade perdida (James Gray, 2016) -> 9.0
234. Saneamento básico, o filme (Jorge Furtado, 2007) -> 8.0
235. Maria Antonieta (Sofia Coppola, 2006) -> 8.0
236. Procura-se um amigo para o fim do mundo (Lorene Scarfaria, 2012) -> 4.0



237. Eleição (Alexander Payne, 1999) -> 7.0
238. Quando meus pais não estão em casa (Anthony Chen, 2013) -> 7.5
239. Missão impossível - Nação secreta (Christopher McQuarrie, 2015) -> 8.0
240. Negócio das Arábias (Tom Tykwer, 2016) -> 6.0 
241. São Bernardo (Leon Hirszman, 1971) -> 8.0
242. História de melancolia e tristeza (Seijun Suzuki, 1977) -> 8.0
243. Crônica de uma fuga (Israel Adrián Caetano, 2006) -> 7.0



244. Sangue do meu sangue (Marco Bellocchio, 2015) -> 7.5
245. Sangue pela glória (Ben Younger, 2016) -> 6.0
246. Mate-me por favor (Anita Rocha da Silveira, 2015) -> 5.0
247. Herói por acidente (Stephen Frears, 1992) -> 5.0
248. Fim dos tempos (M. Night Shyamalan, 2008) -> 1.0
249. Um condenado à morte escapou (Robert Bresson, 1956) -> 7.0
250. Cliente morto não paga (Carl Reiner, 1982) -> 7.0



251. O céu pode esperar (Warren Beatty e Buck Henry, 1978) -> 7.0
252. Gattaca - A experiência genética (Andrew Niccol, 1997) -> 7.0
253. Manila nas garras de neon (Lino Brocka, 1975) -> 8.0
254. O portal do paraíso (Michael Cimino, 1980) -> 8.0
255. Família do bagulho (Rawson Marshall Thurber, 2013) -> 6.5
256. Veloce com il vento (Matteo Rovere, 2016) -> 7.0
257. Uma segunda chance (Mike Nichols, 1991) -> 7.0
258. Agente 117 - Uma aventura no Cairo (Michel Hazanavicius, 2006) -> 6.0

REVISTOS

Abraços partidos (Pedro Almodóvar, 2009) -> 8.5
Agora ou nunca (Mike Leigh, 2002) -> 8.0
De volta para o futuro 2 (Robert Zemeckis, 1989) -> 10.0
Desejo e perigo (Ang Lee, 2007) -> 8.0
Wall - E (Andrew Stanton, 2008) -> 8.0


MELHOR FILME: Z - A cidade perdida
PIOR FILME: Fim dos tempos
MELHOR DIRETOR: James Gray, por Z - A cidade perdida
MELHOR ATRIZ: Isabelle Huppert, por O portal do paraíso 
MELHOR ATOR: Charlie Hunnan, por Z - A cidade perdida / Warren Beatty, por O céu pode esperar
MELHOR ATRIZ COADJUVANTE: Tilda Swinton, por Okja / Camila Pitanga, por Saneamento básico, o filme
MELHOR ATOR COADJUVANTE: Robert Pattinson, por Z - A cidade perdida
MELHOR ROTEIRO ORIGINAL: Jorge Furtado, por Saneamento básico, o filme
MELHOR ROTEIRO ADAPTADO: James Gray, por Z - A cidade perdida
MELHOR TRILHA SONORA: John Carpenter, por Christine - O carro assassino
MELHOR FOTOGRAFIA: Darius Khondji, por Z - A cidade perdida
MELHOR CENA: A viagem de pai e filho em Z - A cidade perdida
MELHOR FINAL: Z - A cidade perdida