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segunda-feira, 28 de outubro de 2013

Ed Wood e o carinho de um diretor pela bizarrice

Edward Davis Wood Jr. viveu entre os anos de 1924 e 1978. Durante boa parte do seu tempo de vida, dedicou-se a dirigir espetáculos teatrais e, posteriormente, filmes. Seu talento às avessas lhe fez ganhar o título depreciativo de "o pior cineasta do mundo", do qual parecia não se dar conta, já que seguia no ofício que lhe dava tanta satisfação. Até que 16 anos, depois, Tim Burton, outro diretor, levou suas histórias às telas, dando seu nome ao filme. Ed Wood (idem, 1994) é o retrato extremamente afetuoso desse que, para uns, era um tremendo incompetente e, para outros, um gênio incompreendido. Interpretado por um Johnny Depp muito anterior a um certo Jack Sparrow, ele causa empatia quase súbita na plateia pelo que traz de sonhador em sua personalidade. Em sua breve passagem pelo teatro, Ed acumulou fracassos, o que não o tornou abatido, mas despertou seu desejo de arriscar no Cinema. 

Para tal empreendimento, não tinha quase nada a seu favor: os críticos de jornal alardeavam sua falta de capacidade e o público mínimo que se dispunha a assistir aos espetáculos sob a sua direção deixava o teatro insatisfeito. Ainda assim, lançou mão de toda a sua simpatia e entusiasmo para bater na porta dos estúdios da época e oferecer seu trabalho como diretor, roteirista e produtor. Tanto bateu, que furou, ou melhor, abriu uma porta e, tendo um orçamento modesto nas mãos, mesmo para os padrões daquele tempo, começou um percurso de ares quixotescos pela sétima arte. Tratou logo de ir atrás de Bela Lugosi (Martin Landau, magistral), um astro de décadas anteriores que vinha conhecendo o declínio e o semiostracismo. Com uma lábia invejável, convenceu o ator a integrar o elenco de seu primeiro projeto, depois de tê-lo encontrado saindo de uma funerária. Inicialmente cético, Lugosi se deixou conquistar pelos elogios inflamados de Wood, e emprestou seu brilho então levemente ofuscado para dar início à carreira atrás das câmeras daquele que viria a se transformar em um bom amigo.

Aos poucos, outras figuras curiosas vão ganhando espaço na tela, e Ed Wood se mostra como uma declaração de amor aos que dão o seu sangue pelo Cinema e, mesmo sem desfrutar do prestígio da crítica e do público, seguem adiante em seu ofício. As pedradas que recebia não faziam Wood desistir: pelo contrário, ele tinha convicção de ser talentoso e não entendia como alguém poderia não gostar de seus filmes, sempre de gosto duvidoso. Entre suas obras mais famosas, estão Glen ou Glenda? (Glen or Glenda?, 1953), um drama sobre um detetive que investiga o suicídio de um travesti, que tem Lugosi na pele de um cientista, e Plano 9 do espaço sideral (Plan 9 from outer space, 1959), uma ficção científica na qual o nono projeto de uma raça alienígena consiste em ressuscitar os mortos - nesse, Lugosi interpreta um vampiro. De tão ruins, esses e outros filmes se tornaram clássicos cults e hoje são perseguidos pelos interessados em um cinema underground, das sessões clandestinas e sem qualquer compromisso com fórmulas hollywoodianas. 


Na voz, no corpo e nos gestos de Depp, o realizador é mais do que um tipo risível: em sua conduta aparvalhada, gera comoção e torcida. Mesmo que sua falta de talento seja notável, parece impossível não desejar que ele alcance o sucesso e melhore a qualidade do seu trabalho, ainda que a história real nos mostre que isso acabou não ocorrendo. A cinebiografia foi a segunda colaboração entre Depp e Burton, que havia começado quatro anos antes com o emocionante Edward Mãos de Tesoura (Edward Scissorhands, 1990), e um projeto mais pessoal do diretor, fascinado por personagens excêntricos e que achou na realidade a matéria-prima ideal para mais uma de suas produções. E, se hoje Depp vive um momento delicado de sua carreira, com escolhas equivocadas e atuações no piloto automático, neste filme, ele oferece um belo desempenho e contribui decisivamente para humanizar a figura de Wood, antes de tudo, um sonhador. Um detalhe curioso é que a inspiração para Burton nomear o protagonista sem mãos normais de seu filme anterior também veio de Wood.

Em vários aspectos, o longa-metragem alude ao biografado, mantendo um ar de produção modesta e se valendo inclusive de uma fotografia em preto e branco, incumbência de Stefan Czapsky, que cumpre a função primária deste recurso técnico: o de tornar cada minuto de história antológico. A trilha sonora também está em ótimas mãos - ninguém menos que Howard Shore, cujo currículo vasto como compositor e maestro fala por si só. No quesito orçamento, porém, Burton dispôs de uma quantia muito mais alta que o somatório dos orçamentos de todos os filmes de Wood juntos, certamente por conta da necessidade de recriar uma toda uma época na qual os acontecimentos se deram originalmente e não para investir em efeitos visuais mirabolantes. Ed Wood também conta com um elenco de coadjuvantes afiados, entre os quais se destacam Sarah Jessica Parker, anos antes de ganhar seu papel em Sex and the city, e Bill Murray, propositalmente afetadíssimo como um dos parceiros profissionais de Wood. O diretor, aliás, tinha o hábito bizarro de se vestir com as roupas da namorada, um segredo que, depois de vir à tona, foi parar em Glen ou Glenda?.

Nesse cruzamento entre esquisitice e gosto duvidoso, Ed Wood tinha tudo para ganhar o público por sua abordagem carinhosa, o toque de Midas de Burton para tornar o filme praticamente irresistível. Entretanto, fracassou grandemente nas bilheterias, com uma arrecadação de 6 milhões de dólares, um terço da quantia despendida para sua filmagem. Quem caiu de amores pela história foi a crítica, junto à qual o filme conta com 92% de aprovação. Hoje, trata-se de um longa-metragem a ser redescoberto e apreciado, bem como uma prova de que o Cinema não tem que se resumir aventuras, balas traçantes, diálogos sarcáticos e piadas escatológicas. Ed Wood vale cada minuto diante da tela e faz da ausência de talento de seu retratado a base para uma narrativa inspirada, que abrange inclusive seus créditos iniciais apresentados em discos voadores, alusivos a Plano 9 do espaço sideral, o fiasco-mor do cineasta. E a linda amizade entre Wood e Lugosi, captada pelo roteiro de Rudolph Gray e Scott Alexander, foi outra grande deixa para Burton realizar o filme, pois, segundo ele, a relação dos dois o fazia lembrar de sua relação com Vincent Price, outro saudoso veterano do terror. Sem dúvida, este foi um dos maiores acertos de sua carreira, ultimamente tão irregular.

9/10

sábado, 26 de outubro de 2013

Eu e você, o isolamento juvenil revisitado

Saudado como o retorno de Bernardo Bertolucci à direção após um hiato de nove anos, Eu e você (Io e te, 2012) se firma, antes de mais nada, com um novo olhar do cineasta sobre a juventude. Ambientada na Itália contemporânea, a narrativa flerta com o minimalismo e está centrada em Lorenzo (Jacopo Olmo Antinori), um adolescente introspectivo, com seus 15, 16 anos, que experimenta a inquietude sentimental e a profusão hormonal típicas dessa faixa etária. Quando surge uma viagem para uma estação de esqui promovida pela escola, o garoto enxerga a oportunidade para continuar em casa e reúne mantimentos para ficar no porão do prédio em que mora no período em que deveria estar longe. Sua personalidade arredia o faz evitar aglomerações de pessoas, e a solidão de alguns dias lhe serve de alívio. 

Entretanto, a tranquilidade é logo interrompida pela chegada de Olivia (Tea Falco), a meia-irmã que enfrenta problemas com o abuso de drogas e pede para ficar ali com ele. Caso Lorenzo não aceite dividir o espaço com ela, será delatado para seus pais e o seu plano de isolamento voluntário fracassará. Diante da chantagem, ele cede e deixa a garota lhe fazer companhia, mas a sua permanência ali também é um problema. Progressivamente transtornada pela abstinência, ela sacode o porão com suas crises e expõe também a fragilidade interior de Lorenzo, inábil para lidar com uma série de problemas. É assim que Bertolucci vai fazendo de Eu e você um interessante estudo das angústias juvenis dos anos 2000. À diferença dos jovens ambíguos de Os sonhadores (The dreamers, 2003), sua obra-prima, Lorenzo e Olivia parecem não ter pelo que lutar, a não ser pelo próprio conforto.

Nesse estudo, o realizador demonstra um misto de sabedoria senil com frescor jovem. A consequência é um filme que não parece assinado por alguém de mais de 70 anos, como é o seu caso, mas por um garoto que está vivendo a mesma fase de seus protagonistas. Esse detalhe só vem demonstrar o quanto ele não perdeu o domínio sobre sua temática favorita, abordada com irregularidade ao longo de sua carreira - para além do seu êxito maior em Os sonhadores, Bertolucci foi feliz também em O conformista (Il conformista, 1970), outro retrato das transformações internas e externas de um jovem atravessado por mil alternativas. Entretanto, Eu e você soa como um projeto mais modesto, cujas ressonâncias reflexivas apontam para uma juventudade desencantada, que perdeu a fé no mundo e não sabe verbalizar com clareza os conflitos que se agrupam em seus pensamentos. Mesmo porque, dar nomes a sentimentos e caracterizá-los é uma tarefa hercúlea.


A tarefa de encarnar esses jovens inquietos foi entregue nas mãos de atores estreantes, o que confere graciosa naturalidade às suas interpretações. E, pela falta de experiência, tanto Antinori quanto Falco apresentam hesitações e uma certa apatia que funcionam a maior parte do tempo para seus personagens. Mesmo porque, os adolescentes da vida real também sofrem dessa falta de traquejo. Bertolucci também volta a tratar da questão do incesto, subscrita ao relacionamento entre os meio-irmãos e que oferece seus vislumbres no ciúme de Lorenzo quando aparece o pretendente mais velho de Olivia, bem como no tratamento que dispensa à mãe nas poucas cenas em que ela aparece. Todavia, como é tudo apenas sugerido, a leitura permanece uma responsabilidade do espectador, que pode ou não concordar que o assunto esteja imbricado na trama.

Em seu conjunto, Eu e você é um filme menor de Bertolucci, o que está longe de significar um demérito, mas uma espécie de aviso para que se entre em contato com a história de modo mais cauteloso, sem tantas expectativas. A força da história está na imagem e no som, não em seus diálogos simples e de profundidade psicológica relativa. A trilha sonora é formada por canções badaladas da contemporaneidade e sublinham os matizes sentimentais de Lorenzo e Olivia, tão perdidos no emaranhado de escolhas quanto seus antepassados de eventos célebres como o Festival de Woodstock, o Maio de 68 ou a Primavera de Praga. Nesse sentido, o diálogo do filme se estabelece não apenas com os longas anteriores do parmesão, que aqui adapta o romance Niccolò Ammaniti, mas com uma vasta galeria de títulos cujo ângulo de visão está inteiramente dedicado ao clamor jovem.

7/10

quinta-feira, 24 de outubro de 2013

50 diretores essenciais (parte 4)

O especial sobre os realizadores que, no meu olhar, são fundamentais a qualquer cinéfilo ou entusiasta do Cinema, chega à sua penúltima parte. A essa altura, os poucos critérios que vêm norteando as minhas escolhas já foram explicitados. Reitero apenas que não há qualquer ordem ou hierarquia entre os nomes listados, exceto pelo primeiro lugar, ocupado pelo meu diretor preferido de fato. É bom lembrar também que a proposta dessa lista é não somente mencionar realizadores de apreço autenticado junto a público e crítica, mas chamar a atenção para alguns menos badalados cujas obras estão por descobrir para a maioria. Os 30 nomes anteriores podem ser conferidos nos links abaixo. Logo em seguida, os nomes desta quarta parte.


31. Lars von Trier (1956 - )


Poucos diretores em atividade provocam tanta controvérsia quanto este dinamarquês, contra quem a principal a acusação que pesa é a de misoginia, exercitada em vários dos exemplares de sua filmografia. Polêmicas à parte, a obra de von Trier vale a visita pelas qualidades que apresenta, a começar pela sua direção firme, decidida quanto ao ponto a que deseja chegar. São filmes que mergulham no oceano profundo da angústia humana, do extremo desconforto com a nossa condição de transeuntes do mundo.. Em seus dois últimos trabalhos, a abordagem desses tópicos se aliou a um refinamento visual notável, traduzida por planos belíssimos.  A grande derrapada aconteceu em sua incursão na comédia, terreno onde ainda pisa com insegurança.

PRINCIPAIS FILMES: Dançando no escuro (2000), Dogville (2003), Manderlay (2005), Melancolia (2009). 

32. Christophe Honoré (1970 - )


Os encontros e desencontros do coração são o foco de Honoré. As pulsões erótico-sentimentais dos seus protagonistas são musicadas por canções ao mesmo tempo romanceadas e honestas sobre o amor. Há quem o aponte como um dos tributários da Nouvelle Vague, uma observação que tem seu fundamento, já que seus filmes demonstram uma busca por espaços arejados onde jovens apaixonados se acham e se perdem. Louis Garrel é seu ator-assinatura, que se encaixa perfeitamente nos tipos blasé e ora sofre, ora faz sofrer por amor em tramas simples e de identificação fácil.

PRINCIPAIS FILMES: Em Paris (2006), Canções de amor (2007), A bela Junie (2008). 

33. Ethan Coen (1957 - ) e Joel Coen (1954 - )


A vida não tem o menor sentido. Diante dessa afirmação, os acontecimentos mais inesperados surgem com a maior naturalidade, afetando o cotidiano de personagens ordinários em sua (a)normalidade, a depender do ponto de vista. Pelo menos, é o que se vê nos filmes dos Coen. A dupla nascida no Minnesota consegue, na maioria das vezes, equilibrar projetos muito pessoais, como a semiautobiografia não assumida Um homem sério, com a releitura de um clássico, como fizeram com Bravura indômita. E a assinatura inconfundível desses irmãos é representada pela ciranda de erros de suas tramas que, quando não são banhadas com um adorável humor negro, invocam um lado sombrio e temerário do homem comum.

PRINCIPAIS FILMES: Gosto de sangue (1986), O grande Lebowski (1998), O homem que não estava lá (2001), Onde os fracos não têm vez (2007), Queime depois de ler (2008), Bravura indômita (2010).

34. Billy Wilder  (1906 - 2002)


Ainda hoje, Wilder segue como um maravilhoso exemplo de realizador que conseguia passear com elegância e competência por gêneros diversos, deixando inúmeras provas de versatilidade em sua filmografia apetitosa. Ele deixa saudades por ter brindado o espectador com histórias bem amarradas que exploram ambientes, situações e aspectos diversos da natureza humana, sabendo a dose exata de riso, lágrimas e emoções. Se o trabalho de um diretor é entregar ao menos um grande e inesquecível filme, o polonês radicado nos Estados Unidos foi muito além e deixou como legado muitas obras memoráveis, estreladas pela fina estirpe de intérpretes disponíveis à sua época.

PRINCIPAIS FILMES: Crepúsculo dos deuses (1950), Sabrina (1954), Quanto mais quente melhor (1959), Se meu apartamento falasse (1960).

35. Steven Spielberg (1946 - )


Cinema é, antes de tudo, entretenimento. A possibilidade de essa arte servir como plataforma para a reflexão não nasceu junto com ela, e Spielberg elegeu como norte de seus trabalhos a propriedade ou função original que essa arte tem. Dito isso, não há qualquer demérito intrínseco em sua filmografia extensa e pródiga em oferecer exemplares de aventura, suspense, drama e ficção científica, cujos fracassos são casos isolados. Para além dessa qualidade, sua obra é a porta de acesso para muitos cinéfilos em potencial sentirem explodir uma paixão latente pela arte, e não faltam casos de pessoas que devem sua cinefilia ao contato com Spielberg ainda na infância. Por essas e outras, ele merece lugar nessa lista.

PRINCIPAIS FILMES: E.T. - O extraterrestre (1982), Jurassic park - Parque dos dinossauros (1993), Prenda-me se for capaz (2002), O terminal (2004), Munique (2005).

36. Philippe Garrel (1948 - )


Em atividade há mais de quarenta anos, Garrel pai segue restrito a círculos muito específicos de cinéfilos, o que se configura como um tremenda injustiça. Ele é o poeta do tédio e da imprecisão, dos desarranjos sentimentais que impelem os indivíduos à busca pelo idílio rompido, um processo que sempre se dá a duras penas. Tal qual Honoré, elege Louis Garrel - seu filho na vida real - como protagonista habitual e tem predileção pelos tons de cinza, filmando quase sempre em preto e branco e dando a seus longas-metragens uma aura de clássicos instantâneos. Veneza já constatou seu talento, e lhe concede espaço em sua seleção oficial quase invariavelmente, além de prêmios como o Leão de Prata pela direção de Amantes constantes.

PRINCIPAIS FILMES: O nascimento do amor (1991), O vento da noite (1999), Amantes constantes (2004), A fronteira da alvorada (2008), Um verão escaldante (2011).

37. Akira Kurosawa (1910 - 1998)


Apontado por muitos como o mais ocidental dos cineastas japoneses, Kurosawa ultrapassou esses determinismos geográficos com filmes que dialogam com a alma pelo que trazem de universal. Guerreiros incansáveis deparam com ameaças potentes em suas batalhas, suplantam o medo e partem em direção ao novo e desconhecido nas histórias que trazem seu nome nos créditos de direção. E não se pode esquecer ainda sua habilidade para cuidar dos aspectos técnicos, como a edição de som caprichada de épicos como Os sete samurais, ou os planos estonteantes de Rashomon. Também não lhe faltava sensibilidade para enredos intimistas, como exemplifica o terno Viver.

PRINCIPAIS FILMES: Rashomon (1950), Viver (1952), Os sete samurais (1955), Trono manchado de sangue (1957).

38. Terrence Malick (1943 - )



Recluso até dizer chega, esse é diretor é para todos e para poucos ao mesmo tempo. Dedicado à exploração dos vácuos que assolam as relações humanas e da nossa pequenez diante da imensidão do universo, Malick entrega filmes que despertam sentimentos extremos, como o amor e o desprezo. Suas idiossincrasias compreendem filmar quase na surdina e recrutar atores que, não necessariamente, têm seus respectivos personagens mantidos na versão final dos filmes, além das ausências sistemáticas em premiações, que só fazem reforçar uma certa aura mística ao seu redor. Há poucos anos, a Academia praticou justiça ao indicar seu monumental A árvore da vida na categoria principal, além de reconhecer seu trabalho com uma nomeação para melhor diretor. 

PRINCIPAIS FILMES: Cinzas do paraíso (1978), Além da linha vermelha (1998), A árvore da vida (2011), Amor pleno (2012).

39. Abbas Kiarostami (1940 - )


Longos diálogos travados nos interiores de carros são a especialidade deste iraniano, que também gosta de investigar as incongruências dos relacionamentos, sejam amorosos, sejam de amizade. Kiarostami não exibe a pretensão das análises fechadas: antes, prefere descortinar um lugar escondido de sua terra natal e dali extrai o que há de mais comum a qualquer pessoa. Mais recentemente, expandiu também literalmente as fronteiras de seu cinema e rodou duas gemas consecutivas, passeando pela Itália e pelo Japão, demonstrando ser herdeiro de grandes realizadores que também tinham como leme essas questões inquietantes e, por tantas vezes, assombrosas. Sem falar na sua acuidade para brincar o discurso metalinguístico, no melhor estilo "confundindo para explicar e explicando para confundir".

PRINCIPAIS FILMES: Através das oliveiras (1994), Gosto de cereja (1997), Cópia fiel (2010), Um alguém apaixonado (2012).

40. Ingmar Bergman (1918 - 2007)


"O cineasta da alma". Quem pode tirar esse título de Ingmar Bergman? Resumitivo e, ao mesmo tempo, de uma amplitude abissal, ele joga luz sobre um homem que fez de seus vários demônios internos a base para filmes que visitam os desertos sentimentais, os pensamentos embaralhados, a confusão identitária, o descompasso entre vontade, verdade e realidade e tantos outros temas que rondam a quaisquer mortais. Um filme é sempre menor do que a vida de uma pessoa, mas Bergman chegou muito perto de encampá-la com suas escavações em forma de filme. Há sempre mais a se dizer e a se descobrir em sua obra, que fala e incomoda por si só.

PRINCIPAIS FILMES: Juventude (1951), Sorrisos de uma noite de amor (1955), O sétimo selo (1957), Morangos silvestres (1957), A fonte da donzela (1959), Persona (1966), A hora do lobo (1968), A paixão de Anna (1969), Gritos e sussurros (1972), Cenas de um casamento (1973), Sonata de outono (1978).

quarta-feira, 23 de outubro de 2013

Aposta máxima, uma desagradável coleção de equívocos

É, no mínimo, curioso notar que alguns atores que começam a trilhar um caminho de bons trabalhos consecutivos, de repente, flertem com o retrocesso e figuram em produções de gosto e qualidade duvidosa. Um exemplo recente de escolha equivocada foi dado por Ben Affleck, que aceitou o convite para integrar o elenco de Aposta máxima (Runner, runner, 2013) depois dos êxitos como ator e diretor em Atração perigosa (The town, 2010) e Argo (idem, 2012), que lhe rendeu a estatueta de filme e direção no Oscar. Para entender o quanto ele falhou na escolha, basta colocar os olhos por alguns minutos no filme, cuja trama é situada no universo das apostas via internet, e perceber a colcha de retalhos que tem como diretor Brad Furman (O poder e a lei). Seu personagem é Ivan Block, dono de um grande site de apostas que lhe rende montanhas de dinheiro, a ponto de ele nem ter mais com o que gastar.

Acontece que seu site causa um prejuízo financeiro e acadêmico a Richie Furst (Justin Timberlake), um universitário que se vale da malícia para lidar com jogos de azar e recebe um ultimato de seu reitor: se não puder arcar com as despesas do curso, perderá sua vaga na faculdade. Disposto a recuperar o que perdeu, ele cria uma situação que o coloca frente a frente com Ivan, a quem trata de igual para igual. Em pouco tempo, o dono do site identifica um grande potencial no rapaz e lhe assedia com uma proposta verdadeiramente tentadora, que inclui ressarci-lo do dinheiro perdido e colocá-lo na posição de seu braço direito em uma rotina de cálculos com valores de cinco dígitos ou mais e negociatas com as figuras mais insuspeitas. O jovem enxerga muitas vantagens na oferta e a aceita em pouco tempo.

É então que Aposta máxima começa a mostrar seus vários problemas, que começam pelo roteiro mal escrito, cheio de ironias e alusões bobocas, e passam pelas interpretações de todo elenco, incrivelmente sintonizados na canastrice. Começando por Affleck, cujo ofício de ator é sempre alvo de críticas, cada um parece se esforçar para entregar desempenhos constrangedores, agravados pelo fato de terem personagens rasos nas mãos. Infelizmente, há que se admitir que, neste filme, ele dê razão aos seus detratores e aos que não chegam a simpatizar com ele. São várias tiradas péssimas, com um vocabulário de mau gosto e uma expressividade quase nula. Anunciado como o vilão da história, ele raramente convence no posto. Timberlake é outro que já trazia ao menos um bom papel em sua filmografia – ele esteve muito bem em A rede social (The social network, 2010), e também constrange como Richie. Na vida real, já tem mais de 30 anos e também não é fácil engoli-lo como um estudante dos primeiros anos de faculdade.


Completando a trinca de maus desempenhos, Gemma Arteton encarna Rebecca, a típica mulher fatal, de bela estampa, mas que não tem nada mais a oferecer além disso. Fútil até dizer chega, ela não consegue inspirar uma fagulha de conflito ou tensão, que o roteiro de Brian Koppelman e David Lieven chegam a ensaiar. De início, ela é a amante fixa de Ivan e cuida para que ele não seja abordado por qualquer um. Mais adiante, começa o seu previsível envolvimento com Richie e o desconforto se instaura entre os três. Desse modo, Aposta máxima vai se revelando como uma enorme perda de tempo e dinheiro, tanto do espectador que decidir assistir ao filme no cinema, quanto dos investidores que colocaram milhões nessa aposta furada – o trocadilho me parece inevitável. Sem falar que o texto subestima o público na metade do tempo. Na outra metade, se perde em diálogos confusos e exageradamente expositivos.

Um detalhe que chama a atenção para os bastidores de Aposta máxima é a presença de ninguém menos que Leonardo DiCaprio entre os produtores. Fica a pergunta no ar: o que teria levado mais esse ator de talento comprovado nos últimos anos a se envolver em um projeto tão falho como diversão, entretenimento e crítica a um sistema? Certamente, ele também saiu no prejuízo e o filme deixa a lição para ser mais criterioso no momento da escolha entre as várias opções que a indústria hollywoodiana oferece. Para desabonar de vez o longa-metragem, ainda há uma reviravolta das mais picaretas entre Ivan, Richie e Rebecca e o policial corrupto interpretado por Anthony Mackie (Sem dor, sem ganho), que transita por várias esferas do poder graças à política da boa vizinhança. Todo esse desastre dura apenas 91 minutos, mas o final de um filme ruim sempre parece muito distante, como é o caso desta bomba, um passo em falso a ser esquecido por todos os seus nomes envolvidos.

4/10

terça-feira, 22 de outubro de 2013

Contos da noite e o poder criativo do Cinema

O traço minimalista é um dos elementos que mais deve chamar a atenção do espectador de Contos da noite (Les contes de la nuit, 2011), animação encantadora assinada por Michel Ocelot. Sua primeira imagem é a fachada de um cinema antigo, dentro do qual estão os protagonistas, um termo não muito adequado para classificá-los, já que eles estão sempre mudando de identidade. Ali, um senhor e dois jovens imaginam diversas histórias às quais eles mesmos dão vida, recorrendo a lendas e mitos de partes diferentes do mundo. Basta uma leve adaptação aqui e ali para seis contos que prendem a atenção justamente pela simplicidade com que são contadas. E todas são amarradas por um elemento em comum, que soa como um ingrediente fundamental para narrativas memoráveis: a coragem de um homem cuja conduta proativa detona uma ação que impulsiona o seu andamento.  

Para além desse elo, todas são apresentadas com um visual muito interessante, por assim dizer. Ocelot se decidiu por traçar apenas as silhuetas dos personagens e, com isso, destacar os cenários, sempre multicoloridos e, portanto, de encher os olhos. Da imaginação e do conhecimento dos três simpáticos amigos, surgem tramas ambientadas em reinos dourados, florestas tropicais, savanas e outros recantos em que a natureza e a arquitetura se revezam para garantir um deslumbrante espetáculo. A estrutura de Contos da Noite é tão simples quanto seu visual: em apenas 84 minutos, o roteiro escrito pelo próprio Ocelot se alterna entre as pesquisas do senhor e dos jovens e a encenação das histórias que eles encontram. Nesse sentido, não há nada de extraordinário na animação, mas esse é justamente o seu charme: sua simplicidade convicta.


Essa é a primeira experiência do realizador com o 3D, mas ele se utiliza da mesma fórmula de seus trabalhos anteriores, que é justamente essa costura de diferentes narrativas provenientes de um grupo de personagens imaginativos. Para quem não conhece nada sobre seu currículo pregresso, ele também dirigiu Kirikou e a feiticeira (Kirikou et la sorcière, 1998) e As aventuras de Azur e Asmar (Azur et Asmar, 2006). São poucas obras até aqui, mas ele vem se afirmando como um remanescente da animação tradicional, a exemplo de Hayao Miyazaki, por mais que tenha feito uma concessão à tecnologia mais recente no filme em análise. Contos da noite se mostra, sobretudo, como um elogio genuíno ao poder criador do Cinema. Não há muitos detalhes sobre os amigos que conduzem e encenam as histórias, mas fica nítido que ambos são cinéfilos incorrigíveis que amam não somente estar diante da tela, mas ser parte da ação e do ambiente.

É justamente por conta desse aspecto que o filme tem longo alcance, ainda que a observação faça pensar que se trate de uma produção específica para cinéfilos. Mesmo porque, o Cinema tem a capacidade de dialogar com várias plateias, sem qualquer restrição de idade, tempo ou lugar. As histórias encenadas pelos amigos também evidenciam um princípio básico para a fruição de qualquer arte: a suspensão da descrença, que traz consigo a completa imersão no enredo testemunhado, a ponto de surgir uma identificação tal entre público e personagem que, a certa altura, nós somos os personagens. A fronteira entre realidade e ficção, que já é tênue por si só, é completamente rompida nesse processo de aproximação e, por fim, de fusão. Nisso reside boa parte da beleza da Arte, uma necessidade que precisa ser extravasada por qualquer pessoa, desde o mais simplório representante das camadas populares, de idas raras a uma sala de cinema ou leituras de romances até o mais intelectual e erudito, com todas as implicações políticas e ideológicas que esses termos e caracterizações suscitam.

9/10

sexta-feira, 18 de outubro de 2013

Mistério e sordidez espalhados em Os suspeitos

Para quem assistiu a Incêndios (Incendies, 2010), um dos cinco indicados ao Oscar de melhor filme estrangeiros de 2011, a expectativa em torno de Os suspeitos (Prisoners, 2013) pode ser um pouco maior. Afinal, o diretor de ambas as produções é o mesmo: Denis Villeneuve. O canadense é um dos exemplos mais recentes de cineasta que atraiu a atenção de Hollywood e foi convidado a trabalhar nessa grande indústria, dando continuidade ao que já se tornou uma tradição. Com a expectativa, vinha o temor: conseguiria ele se manter fiel à assinatura de seus longas até aqui? Felizmente, a resposta à essa dúvida é positiva. 

O suspense gira em torno do sequestro de duas meninas, cada uma delas filha de um casal amigo do outro. Keller Dover (Hugh Jackman, de Os miseráveis [Les misérables, 2012]) e Franklin Birch (Terrence Howard) estão reunidos mais uma vez, acompanhados de suas respectivas esposas, na casa do segundo e, com eles, as duas garotas. Quando elas se afastam por um breve período de tempo para brincar juntas, acabam desaparecendo, e não há o mínimo vestígio que sirva de pista para descobrir seu paradeiro, a não ser um trailer perto do qual as duas estavam, um detalhe importante de que o irmão mais velho de uma delas se recorda lá pelas tantas. Com isso, entra em cena o detetive Loki (Jake Gylenhaal, de Marcados para Morrer), encarregado de elucidar o caso, que não tem sequer um motivo aparente.

As investigações de Loki conduzem ao problemático jovem Alex Jones (Paul Dano), que demonstra incapacidade de responder por si mesmo e está sempre acompanhado da tia Holly (Melissa Leo, de O vencedor [The fighter, 2010]) para auxiliá-lo. Desde o início, Keller tem certeza plena de que o rapaz é o responsável pelo sumiço das meninas e insiste para que o detetive o mantenha preso, mas não evidências que possam justificar o ato, e Alex é solto no dia seguinte à sua detenção. O fato revolta Keller, que passa a agir em paralelo a Loki e coloca em prática o seu próprio conceito de justiça, deixando o jovem sob seu domínio. A partir daí, o filme levanta uma questão que soa como a sua principal: qual o limite aceitável ao qual um indivíduo pode ir para recuperar algo que perdeu?


Nesse sentido, o personagem de Jackman ganha riqueza de composição por escapar ao maniqueísmo que tipifica Hollywood, sendo capaz de atos e palavras dignas de um “vilão”, sempre em nome do desejo de reencontrar a sua filha e a de Franklin. Trata-se de um homem de moral ambivalente mas, antes de tudo, de um pai desesperado, que vai perdendo a capacidade de enxergar as consequências do que faz. Não faltam momentos tensos nas cenas em que ele está a sós com Alex, impingindo-lhe uma série de castigos físicos, e tem a conivência de Franklin. Este, por sua vez, também adota uma postura ambígua: depois de se impressionar com a fúria do amigo, deixa de ajudá-lo, mas também não o impede de seguir adiante com a tortura.

Suas respectivas esposas, coadjuvantes defendidas por Maria Bello e Viola Davis, seguem rumos distintos: enquanto a primeira se mantém passiva e desconhece todos os passos do marido, a segunda pondera sobre a atitude de Keller e pede que Franklin deixe Keller fazer o que bem entende. No fundo, ele está fazendo o que ela tem vontade de fazer, mas a coragem lhe falta. E, enquanto ele vai buscando fazer justiça com suas próprias mãos, Loki procura seguir o caminho da lei e checar as pistas que o sequestro vai mostrando. A certa altura, Holly se mostra como peça importante nessa busca. Interpretada por uma sempre irreconhecível Melissa Leo, a tia de Alex revela a Keller segredos de seu passado e explica o motivo pelo qual acolheu o jovem. E uma possível primeira impressão positiva sobre ela não se sustenta com a virada do roteiro escrito pelo estreante Aaron Guzikowski, que estava na Black List 2009, a relação de melhores textos ainda não filmados.

Os suspeitos é daqueles filmes aos quais é melhor assistir sabendo o mínimo possível sobre sua trama, pois há uma série de surpresas – ou não, a depender da sagacidade do espectador – para serem descobertas. Em uma breve comparação com Incêndios, a obra perde em impacto e tem a longa duração um pouco menos justificada. Ainda assim, não faltam méritos ao elenco e ao diretor. Jackman e Gylenhaal monopolizam as atenções a maior parte do tempo com seu duelo de ideologias e atitudes, e demonstram outra vez que, para além da estampa de galãs, atuam com garra e talento. O australiano, aliás, tem a chance de um raro papel dramático fora da série de filmes de Wolverine, e faz jus à sua escalação. Há que se destacar também o ótimo trabalho de Roger Deakins na fotografia. Habitual colaborador dos irmãos Coen, ele tinge de cinza cada sequência e contribui para mergulhar o público em uma narrativa nebulosa em que a sordidez tem espaço garantido.

8/10

quinta-feira, 17 de outubro de 2013

50 diretores essenciais (parte 3)

Mais uma leva de dez realizadores cujas filmografias valem a conferida estão disponíveis na terceira parte da lista de que considero essenciais. Embora cada um deles possa ser singularizado por suas características e idiossincrasias, também é interessante observar pontos de aproximação entre seus trabalhos. Esses diálogos, citações e homenagens tornam a aventura de conhecer diretores e seus filmes ainda mais instigante, e enriquecem o olhar cinéfilo, sempre ávido de experiências marcantes. Portanto, vamos aos ocupantes das posições 21 a 30 dessa lista dividida em cinco partes. Vale ressaltar que, exceto pelo primeiro lugar, todos os diretores estão listados em ordem aleatória e a intensidade da minha preferência pessoal por eles também varia. As outras partes estão disponíveis aqui mesmo no blog.


21. Jean-Luc Godard (1930 - )


Pensar em provocação é pensar em Godard. Esse franco-suíço octagenário se tornou sinônimo de experiências heterodoxas, de ruptura do cânone cinematográfico e de experiências sensoriais sobrepostas. A parceria com a então esposa Anna Karina na década de 60, sem dúvida, sua fase áurea, rendeu obras curiosas e questionadoras, aliada à beleza de sua pele alva e seus olhos penetrantes. Nos últimos anos, continua demonstrando inquietude em seu discurso sobre a falência do socialismo e as interdições (senti)mentais não solucionadas pela linguagem.

PRINCIPAIS FILMES: Uma mulher é uma mulher (1961), O desprezo (1963), O demônio das onze horas (1965), Alphaville (1965), Nossa música (2004), Film socialisme (2010).

22. Fatih Akin (1973 - )


O forte dos filmes dirigidos por esse alemão de raízes turcas são os roteiros, também de sua autoria, e as trilhas sonoras, intensas e hipnóticas. Amarradinhas, suas histórias passeiam pela temática da imigração europeia e trazem personagens que despertam fácil identificação por seus atos e sentimentos. O talento de Akin também está em correlacionar de modo orgânico um cinema mais alternativo e intimista com uma proposta mais comercial. Em outras palavras, sua curta filmografia já comprova sua capacidade de ir do drama pungente à comédia rasgada sem perder a sua assinatura.

PRINCIPAIS FILMES: Contra a parede (2003), Do outro lado (2007), Soul kitchen (2010).

23. Paul Thomas Anderson (1970 - )


O discurso grandiloquente e a universalidade dos conflitos psicológicos: esses dois aspectos são facilmente encontrados na produção de Thomas Anderson, que começou a carreira de diretor dando mostras de sua filiação a Robert Altman ao investir em tramas com vários personagens de caminhos entrecruzados. Com o tempo, foi enxugando a quantidade de atores e focalizando narrativas protagonizadas por homens de personalidade marcante e relação tempestuosa com o mundo e os demais indivíduos ao seu redor. Dirigiu apenas três filmes em dez anos, mas prometeu recentemente não ficar outra vez tanto tempo em jejum. Nós agradecemos e esperamos que ele consiga cumprir a sua palavra.

PRINCIPAIS FILMES: Boogie nights - Prazer sem limites (1997), Magnólia (1999), Embriagado de amor (2002), O mestre (2012).

24. Quentin Tarantino (1963 - )


Não faltam entusiastas e admiradores para esse misturador de referências pop e diálogos intermináveis revezados por ação sanguinolenta e/ou explosiva. Assim como existem os seus detratores, que chegam a acusá-lo de farsa. O fato é que, de uma lista de diretores importantes, Tarantino não pode ficar de fora. Seus filmes emulam os anos de exposição a títulos obscuros do tempo em que ele trabalhava como atendente de locadora e enriquecia seu currículo de cinéfilo onívoro. O resultado são tramas que dialogam com os longas de samurai, os faroestes e os filmes B das sessões empesteadas e mantêm seu traço inconfundível.

PRINCIPAIS FILMES: Pulp fiction (1994), Kill Bill - Volume 1 (2003), Kill Bill - Volume 2 (2004), Bastardos inglórios (2009), Django livre (2012).

25. Hayao Miyazaki (1941 - )


Há poucas semanas, esse Midas da animação tradicional anunciou que pretende se aposentar. Se realmente colocar sua decisão em prática, uma legião de cinéfilos ficará órfã de um dos diretores mais encantadores que existe. Sua habilidade e sensibilidade para criar mundos povoados por seres fantásticos e crianças absolutamente normais e verossímeis se traduz em títulos preciosos que afagam o peito e estimulam a imaginação. Não é preciso ter menos de 10 anos para se comover com os filmes de Miyazaki e mergulhar de cabeça nas suas histórias e aceitar esse convite é certeza de não se arrepender.

PRINCIPAIS FILMES: Meu amigo Totoro (1988), A viagem de Chihiro (2001), O castelo animado (2004), Ponyo - Uma amizade que veio do mar (2008).

26. Stanley Kubrick (1928-1999)


Para muitos especialistas e espectadores, Kubrick está para o Cinema assim como Einstein está para a Física. Exagerado ou não, o paralelo tem algum fundo de verdade quando se entra em contato com sua obra, fruto de um perfeccionismo obsessivo (seria isso um pleonasmo?) que se estendia para os enquadramentos, a fotografia, o roteiro e a direção de atores. Pessoalmente, não cultivo um entusiasmo pelo cineasta nem sou fã de todos os filmes que fiz, mas o incluí na lista por considerá-lo de grande importância para a sétima arte e ainda ter alguns filmes seus a assistir e rever. Quem sabe esse entusiasmo não venha a nascer?

PRINCIPAIS FILMES: Glória feita de sangue (1957), Dr. Fantástico (1964), Laranja mecânica (1971), O iluminado (1980).

27. Aki Kaurismäki (1957 - )


O estranhamento pode surgir ao se ver um filme desse escandinavo pela primeira vez. Sua forma altamente peculiar de dirigir os atores, propositalmente travados, e sua composição cênica minimalista e cromaticamente berrante inquietam os olhos. Por esses e outros detalhes, Aki Kaurismäki vale a conferida, mesmo que seja para se descobrir que ele não é dos melhores. É pena que suas obras alcancem um público reduzido, seja pelo fato de a maioria não encontrar espaço no circuito comercial brasileiro, seja porque boa parte da crítica não chama a atenção para ele. Portanto, segue como um cineasta a ser descoberto e apreciado por muitos.

PRINCIPAIS FILMES: A garota da fábrica de caixas de fósforos (1990), O homem sem passado (2002), Luzes na escuridão (2006), O porto (2011).

28. Eric Rohmer (1920 - 2010)


O Cinema é a arte do olhar. Entretanto, Rohmer se utilizava dele para imprimir um selo autoral de muitos e muitos diálogos e pouquíssima ação, redimensionando o conceito de contemplação que está embutido no aforismo sobre o Cinema. Para alguns, trata-se de um diretor enfadonho, que não tem história para contar. Para outros, entre os quais me incluo e me sinto muito bem, é um cronista fascinante das incongruências sentimentais de que todos nós sofremos, em maior ou menos grau. Ele exige olhos atentos não porque uma piscadela pode fazer perder um efeito especial ou um truque de fotografia, mas porque muitas palavras podem escapar enquanto se pisca.

PRINCIPAIS FILMES: A colecionadora (1967), Minha noite com ela (1969), A mulher do aviador (1980), Noites de lua cheia (1984), Conto de inverno (1992), Conto de verão (1996).

29. Wong Kar-Wai (1958 - )


Kar-Wai é o cineasta do instante congelado. Os átimos se dilatam em seus filmes, e a experiência do amor é tudo que importa no fim das contas. Tingidos por vermelhos encarnados, azuis tristes e uma série de outros tons que compõem uma paleta embasbacante, os personagens de suas histórias frequentam os mesmos lugares e caminham entre a nostalgia de um passado idílico, um presente de oscilações do coração e um futuro tão incerto e desconhecido como o de qualquer pessoa. Mesmo em sua única experiência hollywoodiana até agora, ele não abriu mão desses valores e se manteve pródigo em sequências de marcar o espectador.

PRINCIPAIS FILMES: Amores expressos (1994), Felizes juntos (1997), Amor à flor da pele (2000), Um beijo roubado (2007).

30. Sergio Leone (1929-1989)


Em quem mais pensar quando se fala de western spaghetti? Leone é o cara que vem logo à cabeça ao se comentar sobre bons filmes desse subgênero que (ainda) não está entre os meus favoritos, mas que começou a me interessar depois que comecei a acompanhar seus trabalhos versados nessa sua especialidade. Planos bem cuidados, trilhas inesquecíveis e personagens altamente carismáticos, para além de suas morais particulares são apenas alguns dos itens a se considerar para a elaboração de um discurso em sua defesa. Mas quem disse que ele precisa? Seus belos filmes falam por si só.

PRINCIPAIS FILMES: Por uns dólares a mais (1965), Três homens em conflito (1966), Era uma vez no Oeste (1968).

terça-feira, 15 de outubro de 2013

Gravidade, pura tensão no espaço sideral

A doutora Ryan Stone (Sandra Bullock) se encontra em sua primeira missão espacial. Médica experiente em solo terráqueo, ela experimenta passar dias além da estratosfera junto com Matt Kowalski, astronauta igualmente gabaritado cujo senso de humor insistente denota intimidade com aquele ambiente onde o som não se propaga. Os dois estão ali para fazer reparos no telescópio Hubble, mas o silêncio sideral não rima com tranquilidade, e uma chuva de destroços está para alcançá-los, o que os lança em uma espiral de tensão crescente. Essa é a premissa de Gravidade (Gravity, 2013), nova investida de Alfonso Cuarón no terreno da ficção científica. Ele também é o nome por trás de Filhos da Esperança (Children of Men, 2006), injustamente menosprezado em seu lançamento e que hoje segue como um pequeno tesouro a ser (re)descoberto. 

Seu retorno ao gênero, contudo, é ainda melhor que a primeira empreitada. Tal afirmação se mostra verdadeira logo no plano de abertura, que rouba o fôlego do espectador ao arremessá-lo para muito além dos confins da Terra. Nosso planeta é visto em contraste com o breu da imensidão do universo, que transforma tudo em poeira cósmica, inclusive os humanos. Ryan e Matt são agulhas no palheiro que, a partir de determinado momento, apenas lutam para garantir um pouso seguro de volta. É quando a tensão invade a narrativa minimalista e os instantes de alívio cômico, produto das tiradas de Matt e que já eram rarefeitos, desaparecem de vez. Nesse sentido, Gravidade passeia por três gêneros ao longo de sua duração: é casado com a ficção científica, mas corteja o drama e flerta com o suspense. Essa alternância se faz sutilmente e tem efeitos positivos sobre a estrutura do longa, que conta apenas com Clooney e Bullock em cena. Além deles, somente uma voz de comando que alerta sobre o fragmentos de um satélite recém-destruído vindo na direção dos astronautas.

No que tange ao seu aspecto de ficção científica, Gravidade é um espetáculo ímpar. Efeitos visuais de ponta redobram a angústia de Ryan, à deriva no espaço com os problemas que se somam depois do incidente com os destroços. Por conseguinte, a plateia é desafiada a permanecer em mero estado de contemplação e com ritmo cardíaco inalterado. A sucessão de entraves e desventuras exigem pensamento rápido da personagem, que luta contra o tempo para não perder todo seu oxigênio e precisa se agarrar à primeira estação espacial que encontrar pelo caminho ermo. Em determinado momento, ela gira descontroladamente, ainda em uma posição de dependência de Ryan, e seu temor pode acabar sendo o temor do público. Não faltam a essas sequências demonstrações da perícia técnica de Cuarón - sem desmerecer os vários nomes envolvidos no projeto, ele é o grande nome por trás da história. Também autor do roteiro, escrito em parceria com seu filho, Jonás, ele aposta em pouquíssimos elementos cênicos e atinge um elevado patamar de tensão com essa proposta.


Sobre ser também um drama e um suspense, o filme dá inúmeras provas desse olhar e levanta questões simples e atemporais como o valor da vida e os limites a que uma pessoa pode ser exposta sem desistir da luta. Estamos diante de um enredo que polariza entretenimento e reflexão de forma exemplar, sem que a sua porção mais acessível represente qualquer demérito. O Cinema é totalmente válido como experiência para todos os sentidos, não somente a visão e a audição, e Gravidade permite essa possibilidade altamente desejável. O mérito também está com seus intérpretes, em fina sintonia dramática. Clooney exercita seu carisma nato injetando uma tranquilidade desconcertante a Matt, além de trazer alguns sorrisos de canto de boca ao fazer seus tais comentários irônicos. Por sua vez, Bullock está no papel de sua vida, superior ao de Um Sonho Possível (The Blind Side, 2009), seu único Oscar de atriz até aqui. Não faltam cenas em que ela brilha solitária, desafiando as circunstâncias adversas e carregando consigo alguns dos belos simbolismos do filme. Sem falar em sua notável forma física, vista lá pelas tantas quando sua personagem se desfaz temporariamente da roupa de astronauta.

Gravidade fez surgir comparações com 2001: Uma Odisseia no Espaço (2001: a Space Odyssey, 1968), que não deixam de fazer sentido. Como Kubrick, Cuarón exibe um perfeccionismo traduzido na atenção aos detalhes e na fidelidade à ciência, por mais que a ala xiita dos entusiastas do falecido realizador veja essas aproximações como heresia ou sacrilégio. Ainda pensando comparativamente, se o clássico tem ares de tese de doutorado sobre a história da civilização e seus rumos, o neoclássico - permitam-me ser profético - é eficiente em produzir catarse e sobrecarregar as glândulas suprarrenais (nossas produtoras de adrenalina) como poucos de seu naipe. Entretanto, ambos os filmes têm o seu espaço e o seu valor, e não cabe o raciocínio tacanho de elogiar um em detrimento do outro, apenas salientar seus pontos de contato e de dispersão. Mesmo porque, 2001 tem lugar cativo entre a maioria esmagadora dos cinéfilos há tempos. E, sem dúvida e sem medo do exagero, este trabalho de esteta assinado por Cuarón faz por onde garantir o seu lugar no panteão das grandes obras cinematográficas.

9/10

sexta-feira, 11 de outubro de 2013

Nebraska e os dilemas familiares vistos na estrada

Road movies familiares, em boa parte dos casos, revelam-se experiências adoráveis e enriquecedoras, seja pela oportunidade de olhar outro grupo de pessoas unidas por laços de sangue e constatar que alguns problemas se repetem, seja para encontrar dissonâncias entre a família que se vê na tela e a família que se tem em casa e harmonizar as que são positivas. Nebraska (idem, 2013), novo filme de Alexander Payne, é mais uma dessas belas oportunidades que o Cinema acaba de oferecer. O diretor, celebrado por títulos como As confissões de Schimidt (About Schimidt, 2002) e Sideways - Entre umas e outras (Sideways, 2004), aborda o que tem se mostrado sua temática favorita pela terceira vez consecutiva - nessa sequência, ainda se encontra Os descendentes (The descendants, 2011). 

Dessa vez, a história já começa em plena estrada, quando Woody Grant (Bruce Dern) caminha com dificuldade em direção ao estado que nomeia o filme, distante mais de 1300 km de onde ele habita. Rapidamente, ele é abordado por um policial que constata seu estado mental débil e contata um de seus filhos, o pacato David (Will Forte), que vai ao seu encontro e o conduz de volta para casa. Uma vez de volta ao lar, a razão daquela "escapada" se clarifica: Woody recebeu uma mala direta que lhe faz ganhador de uma quantia de 1 milhão de dólares. Entretanto, há duas condições básicas: só ganha o dinheiro quem for sorteado e escolher algumas das publicações da editora que enviou a correspondência. Ambos os detalhes são ignorados por Woody, que enfiou na cabeça que está milionário e tem de ir buscar seu prêmio.

Então, David toma a decisão de levar seu pai de carro até o local do prêmio, a despeito de saber que se trata de um dos golpes de marketing mais largamente empregados do mundo e depois de ter percebido que era inútil convencê-lo dessa verdade. A longa viagem acaba sendo uma ocasião para os dois conviverem um pouco mais, e ocorre uma nítida inversão de papéis entre eles. Devido à saúde um tanto comprometida pelos vários anos de alcoolismo, Woody demora a processar os fatos e pessoas ao seu redor, o que o torna dependente de uma postura paternal de David, sempre muito paciente e discreto em suas emoções, salvo por alguns rompantes durante algumas das conversas com o genitor. Os dois caem na estrada sobre os protestos de Kate (June Squibb), a matriarca, que diz não aguentar mais a teimosia do marido e acredita que David enlouqueceu junto com ele por ter embarcado em sua cisma.

Seja como for, o pretexto foi aproveitado e, uma vez inseridos nesse percurso, os dois vivem uma série de situações que se equilibram na linha tênue entre o sorriso e a comoção, entre a gargalhada e o grito preso na garganta, extremos típicos de momentos em que a descarga emocional e o filtro afetivos são acessados e despertados. Payne investe em uma abordagem leve a maior parte do tempo, o que está longe de rimar com superficial ou simplória. A trajetória dessa família, esplendidamente fotografada por Phedon Papamichael em P&B, é altamente passível de identificação, e não faltam carinho no olhar do diretor para seus personagens, verossímeis por seus traços positivos e negativos. O ateniense, a propósito, vem se tornando colaborador fiel do diretor.


Em sua exibição no Festival de Cannes, de onde Dern saiu com o prêmio de melhor ator, Nebraska arrancou elogios da plateia, que se emocionou com seu desempenho minimalista de um homem marcado pelo tempo e pelo vício, mas que conserva um humor sagaz sob a aparência de idoso desamparado. Seu sarcasmo vem à tona nos diálogos com Will, travados nos bares aos quais ele não resiste não entrar. Neles, também surge um pouco do longo passado que carrega nas costas e a sua postura passiva diante da vida. Questionado por Will sobre como ele soube que Kate era a mulher certa, ele diz não ter a menor ideia, e acrescenta que se casou com ela porque foi ela quem quis, mas que não teria tido muito escolha, pois, tendo se casado com outra mulher, viveria debaixo de reclamações da mesma forma. Esses toques amargos fazem Nebraska oscilar entre a comédia e o drama sutil, colocando-o em um patamar superior aos trabalhos pregressos de Payne.

Mas, se muito tem sido comentado sobre a grande atuação de Dern, há que se apontar também para a maravilhosa Kate Squibb, que se transforma em uma ladra de cenas na pele de Kate. Sem quaisquer papas na língua, ela acaba se juntando a Woody e David na viagem, assim como Ross (Bob Odenkirk), o outro filho do casal. E, diante dos demais componentes da família, que todos visitam no caminho para o prêmio falacioso, assim como os vizinhos locais, ela destila seu senso de humor pesado contando várias verdades que Will não imaginava existirem. Seu rosto pouco famoso leva a pensar que se trate de uma estreante tardia, mas seu currículo desmente essa ideia - ela já soma quase quarenta trabalhos como atriz e merece tantos elogios quanto Dern por tudo que faz em cena. Ainda sobra espaço para Rance Howard, quase um sósia de Eric Rohmer, que conquista interpretando o irmão de Woody. O que fica dessa jornada é a certeza de que os laços familiares são indispensáveis: é a eles que sempre voltamos no fim das contas. E Nebraska, desde já, é um candidato a permanecer lembrado por muitos anos.

9/10

segunda-feira, 7 de outubro de 2013

50 diretores essenciais (parte 2)

Dando continuidade à lista de 50 realizadores que todo cinéfilo deve conhecer, listo mais 10 nomes de grande relevância. Nem que seja para discordar de seu talento ou criatividade, vale a pena assistir a alguns dos filmes de cada um deles e, assim, entrar em contato com diferentes olhares e recortes do real. Sua opinião na caixa de comentários é muito bem-vinda. Sem mais rodeios, vamos aos eleitos dessa segunda parte. A primeira parte da lista está disponível aqui  

11. François Truffaut (1932-1984)


Não foi por acaso que Truffaut recebeu a alcunha de "cineasta do amor". A maior parte de seus filmes está impregnada do sentimento, retratando indivíduos mergulhados nas confusões e delícias de amar, lidando com dúvidas e cisões. Um dos nomes mais importantes da Nouvelle Vague, não se contentou apenas em redigir críticas para os filmes que via e abraçou o posto de realizador com traquejo notável. Sua obra de estreia no celuloide, Os incompreendidos, é praticamente uma unanimidade entre os amantes do Cinema, e o primeiro exemplar de uma pentalogia estrelada por Antoine Doinel (Jean-Pierre Léaud), seu alter ego declarado. Até para Quentin Tarantino, ele acabou servindo de inspiração.

PRINCIPAIS FILMES: Os incompreendidos (1959), Antoine e Colette (1962), Fahrenheit 451 (1966), Beijos proibidos (1968), A noiva estava de preto (1968), A noite americana (1973).

12. Federico Fellini (1920-1993)


Representante mais lembrado da época áurea do cinema italiano, o saudoso Fellini assinou obras que ora flertavam, ora se embrenhavam de vez no realismo fantástico. Não lhe faltava criatividade para seus enredos e seus roteiros e, mesmo em sua fase menos propícia à invenção, ele encontrou elementos que pudessem render uma das mais importantes produções fílmicas calcada na metalinguagem. Seu cinema, porém, não é somente um espaço de sonho: também há crítica social em seus longas, sobretudo à Igreja Católica, embora ele também a tivesse elogiado. O tédio da burguesia romana também está presente em Fellini, e sua parceria com Marcello Mastroianni é das mais profícuas da Sétima Arte.

PRINCIPAIS FILMES: A doce vida (1960), 8 1/2 (1963), Amarcord (1973), Ensaio de orquestra (1978).

13. Theo Angelopoulos (1935-2012)


Mesmo entre os cinéfilos mais ardorosos, este é um diretor a ser descoberto. Pouco visto e comentado, Angelopoulos faleceu deixando filmes emocionantes e tinha como especialidade planos-sequência grandiosos, difíceis de realizar, mas que ele parecia dominar muito bem. A prolixidade era outra de suas características, resultado em muitas obras que ultrapassam facilmente as duas horas de duração, o que não significa filmes cansativos ou redundantes. Até chegar a diretor, entretanto, passou por várias áreas, da faculdade de Direito em Atenas, não concluída, passando pela crítica cinematográfica, o grego se encontrou atrás das câmeras e legou uma obra que merece ser visitada.

PRINCIPAIS FILMES: A viagem dos comediantes (1975), Paisagem na neblina (1988), O passo suspenso da cegonha (1991), A eternidade e um dia (1998).

14. François Ozon (1967- )


Em termos de frequência de trabalho, François Ozon já foi chamado de Woody Allen francês. Afinal, desde que estreou na direção, ele não passou mais que dois anos sem rodar um filme, e vem construindo uma carreira de muitos mais acertos que enganos. Seu grande interesse é pelos signos e premissas esgarçadas do Cinema, os quais aborda e reanalisa a seu modo, demonstrando identidade e originalidade. Ozon já passou pelo melodrama, pelo musical, pelo suspense e pelo thriller com desenvoltura, ainda que uma boa parte da crítica e do público não se entregue totalmente às suas propostas.

PRINCIPAIS FILMES: 8 mulheres (2002), Swimming pool - À beira da piscina (2003), Amor em cinco tempos (2004), O tempo que resta (2005), O refúgio (2009), Potiche - Esposa troféu (2010), Dentro da casa (2012).

15. Martin Scorsese (1942 - )


A selva urbana emerge como o grande tema da filmografia de Scorsese, que traz consigo uma legião de fãs e entusiastas, que parece crescer a cada dia. Seus protagonistas, normalmente, são homens em rota de colisão consigo mesmos e com o mundo ao redor, que matam um leão por dia e se entregam ao desafio como única maneira de se sentirem vivos. Seu parceiro mais recorrente é Robert De Niro, com quem já rodou filmes emblemáticos e memoráveis, embora já faça um bom tempo que os dois não se encontram. O Oscar lhe foi concedido tardiamente, depois de várias indicações ao longo dos anos. Mais recentemente, deixou de lado a violência e entregou uma doce homenagem ao Cinema, dando uma bela prova de versatilidade e que combina mais com seu visual de vovô simpático.

PRINCIPAIS FILMES: Caminhos perigosos (1973), Taxi driver (1976), Touro indomável (1980), Depois de horas (1985), O aviador (2004), Os infiltrados (2006), A invenção de Hugo Cabret (2011).

16. Darren Aronofsky (1969 - )


Humanos devotados à busca pela perfeição ou por um sonho distante: eis o foco de Aronofsky, um cineasta visto como promissor em sua estreia e que vem atendendo às expectativas ao longo dos anos. Em seus filmes, os protagonistas vão se tornando escravos dos próprios desejos, aprisionando-se em um ciclo de repetições nocivas que os conduzem a poços profundos. Como permanecer indiferente à jornada decadente dos viciados de Réquiem para um sonho ou à psicose crescente da bailarina de Cisne negro? Por meio de um filme seu, Mickey Rourke voltou à tona e entregou uma das melhores atuações masculinas do final da primeira década dos anos 2000.

PRINCIPAIS FILMES: Réquiem para um sonho (2000), O lutador (2009), Cisne negro (2010).

17. Alfred Hitchcock (1899-1980)


Como fazer uma lista de diretores essenciais e deixar Hitchcock de fora? Sinônimo de suspense (e também de sarcasmo), esse inglês sabia muito bem aonde chegar com seus filmes, e amava trabalhar com uma margem de risco, que determinava suas escolhas estéticas e narrativas. No alvorecer da década de 60, ousou ao matar a protagonista de um de seus filmes mais famosos antes da metade da história, na cena que o mundo inteiro conhece e que serve de ilustração do medo. E, mesmo em meio a tramas misteriosas, não deixava de lado o tom jocoso, além de gostar de brincar de esconde-esconde aparecendo furtivamente em vários de seus filmes. Entretanto, é reducionista pensar nele apenas como um ás do gênero: Hitchcock também tinha sensibilidade para dirigir romances.

PRINCIPAIS FILMES: A dama oculta (1938), A sombra de uma dúvida (1943), Interlúdio (1946), Festim diabólico (1938), Janela indiscreta (1954), Um corpo que cai (1958), Psicose (1960).

18. Jim Jarmusch (1953 - )


Talvez a melhor coisa de Ohio seja um de seus ex-habitantes, ali nascido: Jim Jarmusch. Especializado em sujeitos que não se encaixam no status quo e crítico bem-humorado do chamado American way of life, ele não abre mão de histórias simples e carregadas de incidentes da ordem do cotidiano, extraindo graça e poesia da banalidade. Ainda hoje, segue como um dos nomes mais importantes do cinema indie, totalmente despreocupado em alcançar um grande público e fiel à sua gramática pessoal de direção. Amante do preto e branco, chegou a visitar o faroeste e o tingiu de um existencialismo todo peculiar.

PRINCIPAIS FILMES: Estranhos no paraíso (1984), Down by law (1986), Trem mistério (1989), Dead man (1995), Sobre café e cigarros (2003), Flores partidas (2005).

19. David Cronenberg (1943 - )


E lá se vão 70 anos desde que Cronenberg veio ao mundo para inscrever seu nome entre os grandes realizadores, não apenas de seu tempo, mas de vários tempos cinematográficos. Sua dedicação é por tramas que, frequentemente, são atravessadas pelo tétrico e fazem surgir o lado nefasto dos indivíduos, mesmo que, para isso, ele tenha de acionar o surrealismo. Via de regra, esse canadense consegue despertar a inquietude e a estranheza da plateia filmando pesadelos de olhos abertos e buscas inglórias pela satisfação de um desejo incontido, que conduz à autodestruição. É capaz de escolhas surpreendentes, como Robert Pattinson para seu protagonista.

PRINCIPAIS FILMES: Mistérios e paixões (1991), Crash - Estranhos prazeres (1996), Marcas da violência (2005), Senhores do crime (2007), Um método perigoso (2011).

20. Robert Altman (1925-2006)


Pensar em filmes-coral é pensar em Robert Altman. Habilidoso na condução de narrativas em uma penca de personagens desfila pela tela, ele sempre encontrava um meio de achincalhar com hábitos e situações prosaicas, bem como tocar em pontos sensíveis da cultura estadunidense sem perder de vista a dimensão estética. Nas histórias que seus filmes contam, fica claro que a posição de protagonista é muito relativa, já que uma mesma pessoa pode ser a principal e a coadjuvante ao mesmo tempo, a depender da relação que estabelece com outras. Sem preferência explícita por ator algum, recrutou intérpretes das mais varias estirpes para fazer parte de sua vasta galeria e deixa saudade por conta de seu estilo único que jamais entregará outra vez uma obra inédita. No máximo, podemos contar que Paul Thomas Anderson, seu discípulo maior, faça alusões a ele de tempos em tempos.

PRINCIPAIS FILMES: O jogador (1992), Short cuts - Cenas da vida (1993), Prêt-à-porter (1994), Assassinato em Gosford Park (2001), A última noite (2006).

quinta-feira, 3 de outubro de 2013

BALANÇO MENSAL - SETEMBRO

Mais um mês se passou, mas um balanço chegou. Em setembro, vi um pouco menos de filmes que em agosto, meu melhor mês cinematográfico de 2013 até agora. Felizmente, foram poucas as notas baixas, e mais um 10 surgiu quase no finzinho. A palavra, maravilha dirigida por Carl Theodor Dryer, fez por merecer a maior nota de setembro, com sua trama sobre a milenar alternância humana entre fé e dúvida. Logo atrás, com um belo 9, vem Nebraska, mais um road movie de Alexander Payne, que acerta ainda mais do que em seu trabalho anterior.

Entre os piores, ficaram o brasileiro Cafuné, de Bruno Viana, que flerta de modo desagradável com a chanchada e apresenta um resultado artesanal demais, por assim dizer. Assim como ele, o mexicano Heli, que recebeu o prêmio de melhor direção no último Festival de Cannes, sucumbe a uma pretensão sociológica que dilui boa parte do seu impacto. 

A seguir, os 32 filmes do mês com breves comentários e os melhores nas categorias principais - as que julgo importantes, pelo menos:

LONGAS:

1. Rubber (2010) - Exclamação elevada ao cubo. Nota: 8.0

2. O despertar de uma paixão (2006) - Belíssimo folhetim melodramático - seria isso um pleonasmo? - com pitadas políticas situado na umidade da China interiorana e executado em planos estonteantes e atuações afiadas. Pena ter ganhado um título nacional tão reducionista. Nota: 8.0

Festim diabólico (1948)
3. Festim diabólico (1948) - Suspense e cinismo bem dosados até um final um tanto desestimulante, mas que não tira uma centelha sequer do brilho desta obra sobre o prazer de assassinar. A ambiguidade também marca presença nessa festa. Nota: 8.0 

4. Cafuné (2005) - A famigerada tensão entre morro e asfalto em pinceladas quase caricaturais. O começo e o fim abruptos são entremeados por cenas banais e atores um tanto chanchadescos, no sentido pejorativo do termo. Nota: 5.0

5. Rush - No limite da emoção (2013) - Uma longa e acirrada disputa pelas estradas sinuosas da vida entre adversários que se conheciam muito bem, apesar da distância. Novamente com Morgan no roteiro, Howard entrega mais um belo filme em que não sucumbe à tentação da dicotomia estrita. Nota: 8.0

6. Barbara (2012) - Petzold trabalha no limite da sobriedade, trazendo uma protagonista de emoções discretas e diligência ameaçada por afetos inesperados. Nota: 7.0

7. Palermo shooting (2008) - Wenders revisita a metafísica oferecendo mais da sua monotonia hipnótica. Nota: 8.0

8. Minha mãe é uma peça - O filme (2013) - Mãe é tudo igual, só muda o endereço. Mãe, só tem uma. Mãe é mãe! Nota: 7.0
Oblivion (2013)

9. Oblivion (2013) - O roteiro confuso é a grande pedra de tropeço desta ficção morna e genérica, que desperdiça orçamento e o tempo do espectador em sequências explosivas. Nota: 5.0

10. Elysium (2013) - Pipocão de alta qualidade, bem servido de elenco, roteiro e montagem. Mais uma vez, Blomkamp enxerga um futuro desolador e injeta doses de crítica social em meio à ação bem orquestrada. Nota: 8.0

11. Possuídos (2006) - Altamente perturbador e literalmente incendiário, desafia a sanidade de seu público em passagens tensas, longas e arduamente interpretadas. Nota: 8.5

12. Noite de estreia (1977) - Os fantasmas de uma atriz envoltos em uma atmosfera sufocante, resultando em um filme de digestão lenta. Rowlands está indescritível. Nota: 7.5

13. Noites de lua cheia (1984) - Os velhos acasos e indecisões do coração visitados com o traço inconfundível de Rohmer. Seu rigor formal, outra vez, mostra-se adorável. Nota: 8.0

14. A conquista da honra (2006) - A guerra transforma os homens em baús de memórias doloridas. E há quem insista em transformar essa realidade atroz em espetáculo midiático. Boa reflexão sobre cicatrizes da vida, apesar dos excessos narrativos. Nota: 6.5

15. O selvagem da motocicleta (1983) - Um protagonista com a corda no pescoço e um punhado de situações desinteressantes. Sobressaem-se a fotografia em preto e branco e a curiosidade em ver Dillon, Rourke e Cage tão jovens e tão bons. Nota: 6.0
Eu te amo, cara (2009)

16. Eu te amo, cara (2009) - É como diz o slogan: "Você é o homem o bastante para dizer isso?". Adorável comédia sobre o quanto a amizade vale a pena sem qualquer reserva. Nota: 7.5

17. Dois irmãos (2010) - De novo, Burman bate na trave ao abordar os ônus e bônus das relações familiares, oferecendo uma ou outra cena digna de nota. Os protagonistas, no entanto, estão formidáveis do início ao fim. Nota: 6.5

18. Os amantes do círculo polar (1998) - Medem abre uma fenda no tempo e espia os descaminhos de dois apaixonados errantes cujos perfis não cativam. Poderia ser bem mais do que é. Nota: 6.0

19. Amor bandido (2012) - As pontas da história são bem alinhavadas e, mesmo que o esquema geral seja um tanto previsível, o elenco demonstra capacidade para envolver. Mais uma prova de que McConaughey faz um bom trabalho com um papel digno nas mãos. Nota: 8.0

20. Dose dupla (2013) - Tiros, trapaças, uma explosão aqui, outra acolá, nada de papas na língua e dois atores em ponto de bala: o passatempo está garantido. Nota: 7.0

21. Ed Wood (1994) - O carinho pelos tipos excêntricos que desfilam na tela, a começar pelo próprio Wood, é o toque de Midas dessa história praticamente irretocável.

22. God bless America (2011) - Implode a correção política e atira para todos os lados, literalmente. O caminho escolhido para achincalhar os "valores" estadunidenses é tão deletério quanto esses próprios "valores", mas o que se sobressai é o humor negro. Nota: 8.0

23. Heli (2013) - A insistente ambição sociológica do diretor conduz o filme à vala comum de produções que entregam um recorte do real pontuado por silêncios que mascaram uma incapacidade de dizer. Nota: 5.0

24. The kings of summer (2013) - Porque, diante de uma grande e forte amizade, certas picuinhas ficam pequenas demais... Nota: 7.0
Cartas de Iwo Jima (2006)

25. Cartas de Iwo Jima (2006) - Tautológica, a expressão "tragédia bélica dolorida" sintetiza bem o espírito deste filme. Antes de tudo, há homens com páginas de história pré-escritas que se lançam no abismo escuro do combate. Nota: 8.0

26. Sindicato de ladrões (1954) - Excelente direção de atores e roteiro esmerado: duas das principais qualidades de um filme que não ficou datado e diz muito sobre o quanto, cedo ou tarde, as consequências batem à porta. Nota: 8.0

27. Trono manchado de sangue (1957) - Ilustra com propriedade o ditado segundo o qual "quanto maior a altura, maior o tombo". Toshirô Mifune faz misérias como o obstinado Washizu. Nota: 8.0

28. Bastardos (2013) - Um quebra-cabeça a ser montado com paciência e alguma dose de contemplação. Rigorosamente encenado, reúne e dosa bem drama e suspense.

29. Nebraska (2013) - Percorre um terreno agridoce e comovente de histórias e momentos comuns a qualquer pessoa. Um autêntico road movie em P&B que traz Squibb como uma ladra de cenas impagável. Nota: 9.0
A palavra (1955)

30. A palavra (1955) - Em tempos tão apóstatas, céticos, agnósticos e ateus, há que se lembrar a necessidade da fé, por meio da qual uma palavra traz à tona o que não existe. Conhecer a Deus, afinal, é um ato de fé. Nota: 10.0

31. Quando a noite cai em Bucareste ou metabolismo (2013) - Lentíssimo, para ser digerido com toda a calma do mundo. Reafirma o interesse de Porumboiu pelo mundo que criamos com a palavra.

32. Um estranho no lago (2013) - Caminha para um desfecho de ares hitchcockianos. Até lá, investe no confinamento da paisagem-título alternando crueza, solidão e apego. Nota: 8.0

33. Frankenweenie (2012) - Burton em boa forma cruzando referências e atentando para o carinho com os animais, todos adoravelmente esquisitos, como de hábito em seu mundo cinematográfico. Nota: 7.0

CURTAS:

Vessel (2012) - Um pingo de tensão espargido em alguns minutos de uma trama rasteira que nem prega sustos (a rima infeliz é proposital). Nota: 4.0

Motorville (2013) - Simpática inventividade e indireta para bons entendedores. Nota: 8.0

Recife frio (2009) - Temática e formato inusitados para a construção de um enredo de contornos plausíveis e o reconhecível traço autoral de um realizador atento aos matizes sociais de seu lugar.

MELHOR FILME: A palavra
PIOR FILME: Cafuné
MELHOR DIRETOR: Carl Theodor Dryer, por A palavra
MELHOR ATRIZ: Gena Rowlands, por Noite de estreia
MELHOR ATOR: Bruce Dern, por Nebraska
MELHOR ATRIZ COADJUVANTE: June Squibb, por Nebraska
MELHOR ATOR COADJUVANTE: Martin Landau, por Ed Wood
MELHOR ROTEIRO ORIGINAL: Rudolph Grey e Scott Alexander, por Ed Wood
MELHO ROTEIRO ADAPTADO: Kaj Munk e Carl Theodor Dryer, por A palavra
MELHOR TRILHA SONORA: Stuart Staples, por Bastardos
MELHOR FOTOGRAFIA: Claire Mathon, por Um estranho no lago
MELHOR DIREÇÃO DE ARTE: Nancy Anna Brown, Ross Dempster, Don Macaulay e Hania Robledo, por Elysium
MELHOR CENA: O crime no lago de Um estranho no lago
MELHOR FINAL: Nebraska