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sexta-feira, 15 de maio de 2015

Recomeçando a duras penas em Dois dias, uma noite

Coloque-se na situação de Sandra (Marion Cotillard): seu chefe a informou de que há uma condição importante para que ela mantenha seu emprego na fábrica, que é convencer seus colegas a desistir de um bônus prometido por ele a todos. Agora, imagine-se na pele desses colegas, confrontados com o pedido dessa mulher para abrir mão de uma soma que vem ao encontro de boa parte de suas necessidades financeiras. É nesse impasse que Jean-Pierre e Luc Dardenne colocam o espectador de Dois dias, uma noite (Deux jours, une nuit, 2014), mais um sopro de vitalidade na filmografia dos irmãos belgas. O roteiro, também a cargo da dupla, questiona o individualismo reinante nos dias atuais e o contrasta com as fagulhas de solidariedade que se acendem no caminho da protagonista, ilustrando a característica mescla entre dureza e ternura dos diretores. 

O título se refere ao tempo que Sandra tem para visitar cada um dos funcionários que votou pelo bônus e convencê-los a mudar de ideia a esse respeito. Inicialmente relutante, por ainda sentir alguns efeitos de um quadro depressivo do qual vinha se tratando até pouco antes do episódio, ela retira forças de onde acreditava não ter e conta com o auxílio do esposo Manu (Fabrizio Rongione, habitué da dupla que só perde em frequência de colaborações para Jérémie Renier), que também segura as pontas no cuidado com os filhos do casal. Está posta a estrutura minimalista do filme que, por vezes, soa repetitiva, mas pela própria natureza da tarefa. A cada vez que chega à casa de um colega, expõe a mesma questão e se expressa de modo parecido. Ela conseguiu, com o apoio de uma amiga, a permissão do chefe para refazer a votação e garantir sua vaga caso a maioria desista do tal bônus.

As opiniões e reações dos colegas se dividem entre compreensivas e arredias. Aqueles que negam voltar atrás em sua decisão pela bonificação têm justificativas na ponta da língua para tal e elas soam sempre legítimas. Ao mesmo tempo, parte o coração ver Sandra tão vulnerável, tão dependente de um ato de bondade alheia, apegando-se ao seu emprego, sabidamente, um signo importante da dignidade alheia na sociedade do trabalho. Em muitas línguas, aliás, os falantes indicam a sua profissão usando o verbo ser, como é o caso do português e do inglês, gerando frases do tipo “Eu sou arquiteto”, ao passo que no italiano, por exemplo, a mesma ideia é transmitida pelo verbo fazer, o que sugere que uma profissão é feita e pode ser algo temporário. Nas línguas em que se usa o verbo ser, é como parte da natureza de uma pessoa fosse sua profissão. Nesse sentido, Dois Dias, Uma Noite também se abre a mais possibilidades de refletir sobre o nosso mundo, repensando até mesmo nossas escolhas vocabulares, não obstante nossas limitações linguísticas.


Avessos ao sentimentalismo barato, os Dardenne preferem conduzir a trama com certa dose de assepsia, mas não o bastante para torná-la gélida, embora possa haver detratores que enxerguem frieza em suas obras. Aqui, não é diferente, e os realizadores ainda são muito felizes em sua primeira parceria com Cotillard, atriz extraordinária que capta belamente os matizes dramáticos de sua personagem, entregando o que pode ser considerada, sem medo de exagero, uma de suas melhores performances desde a visceral transformação física e psicológica para encarnar o papel-título de Piaf – Um hino ao amor (La môme, 2007). A maior armadilha de Sandra era cair na vitimização, mas Cotillard é tarimbada o suficiente para escapar dela, e diz muito mais com os olhos do que com a boca, já que sua agonia por aquela peregrinação de porta em porta é represada e, por isso, acaba mais visível através de suas íris azuis. Nem mesmo a Academia poderia resistir a ela, e lhe tascou uma indicação ao Oscar de melhor atriz, a segunda em um intervalo de 8 anos.

Os Dardenne também não costumam pontuar as trajetórias de seus personagens com trilhas sonoras, e essa escolha pelo silêncio quase ininterrupto ao fundo das ações, costumeiramente, ajuda a produzir o efeito lacerativo de suas obras. O mesmo pode ser verificado em Dois dias, uma noite: há uma rara passagem musicada em que se vê uma expressão de alegria em Sandra, depois de mais uma visita a um colega. O detalhe irônico da cena é que a canção tem uma letra bastante pesada e pessimista, levando Manu a fazer menção de trocar a estação do rádio, mas Sandra diz que ouvir aquilo não lhe fará mal. E, mais uma vez, está tudo em seus olhos, que, a propósito, estão entre os mais expressivos do Cinema, fato atestável em outros trabalhos da atriz, como a Ewa Cybulski de Era uma vez em Nova York (The immigrant, 2013), só para citar um entre tantos exemplos acumulados ao longo dos últimos anos. A essa altura, a plateia já deverá estar ciente de que isso não é Hollywood, e os que estão familiarizados com os diretores podem esperar um epílogo refratário às ideias mais óbvias de triunfo pessoal e felicidade.

8.5

sábado, 2 de maio de 2015

BALANÇO MENSAL - ABRIL

O quarto mês do ano já se foi, e com ele veio mais uma enxurrada de filmes, rotina maravilhosa para qualquer cinéfilo que se preze que eu, felizmente, tenho conseguido manter. Foi um mês de poucos realizadores inéditos acrescentados ao currículo, e de algumas manobras forçadas pela dificuldade em encontrar filmes inicialmente planejados. Sou do tipo que lista ao que vai assistir na semana mas, nem sempre, as circunstâncias me permitem seguir à risca essas listas, o que não chega a ser um problema: as listas são apenas uma tentativa de não me perder em um mar de possibilidades fílmicas. 

Entre os diretores que desfilaram com mais uma obra de sua carreira ao longo do meu abril cinematográfico, estiveram Richard Linklater, que iniciou muito bem os trabalhos em mais uma parceria com Jack Black, e Naomi Kawase, merecedora de um terceiro lugar no pódio do mês logo em meu primeiro filme visto dela. Também compareceram ao passeio contado nesse balanço os ilustres Ken Loach, Jim Jarmusch, David Cronenberg e Manoel de Oliveira. Como tem sido desde janeiro, começamos o balanço com pequenos textos para os três melhores, seguidos pela relação completa dos filmes vistos e dos melhores em algumas categorias. Aqui vão eles:

MEDALHA DE OURO

O rolo compressor e o violinista (Andrei Tarkovsky, 1961)


adorável amizade entre um operador de um rolo compressor e um garoto violinista, indicados explicitamente no título, compõem os singelos 43 minutos deste média-metragem que foi o trabalho de conclusão de curso de Tarkovsky. É sempre interessante visitar a primeira obra de um cineasta depois de já ter tido contato com trabalhos posteriores, já que isso normalmente permite localizar suas obsessões em estado embrionário. De fato, é o que acontece aqui: interessado em flagrar o correr do tempo em sua absoluta discrição, ele mostra o nascedouro de uma afeição gratuita e sincera, impedida de avançar por circunstâncias óbvias. É tudo muito simples, mas nada superficial ou ordinário. Para quem já havia visto obras mais herméticas do russo, esta é uma carinhosa surpresa.

MEDALHA DE PRATA 

Essa pequena é uma parada (Peter Bogdanovitch, 1972)


Eis aqui um dos filmes que mais me fez rir na vida. Aquele riso descontrolado, em forma de ataque mesmo. A dupla interpretada por Ryan O'Neal (charmosamente desastrado ou desastradamente charmoso, como queiram) e Barbra Streissand (uma belezinha nariguda) se mete em várias confusões, no melhor estilo "chamada da Sessão da tarde", em uma narrativa em que o menos importante é o enredo.  Bogdanovitch mira suas lentes em duas tramas que correm paralelamente, e nunca se sabe ao certo o  conteúdo de uma misteriosa mala estampada que passa de mão em mão. Enquanto isso, os protagonistas vivem um romance atarantado, dando um banho de graça em centenas de comédias românticas produzidas a rodo por Hollywood. Achado imperdível para os fãs de bom Cinema e do riso frouxo.

O segredo das águas (Naomi Kawase, 2014)


O que acontece quando se juntam os modi operandi praticados por Terrence Malick e Apichatpong Weerasethakul? O resultado é O segredo das águas, exercício minimalista de fusão entre os meandros da natureza e os enlevos e dissabores sentimentais que um ser humano pode experimentar. Porque viver sobre a face da Terra é estar o tempo todo suscetível a todo tipo de sensação, pulsando com diferentes graus de intensidade a depender da mente. O (re)conhecido subgênero do "rito de passagem" é revisitado por meio de sons e da presença abundante do líquido da vida na história de dois adolescentes aprendendo o que é perda, bem como possíveis manifestações do desejo. Kawase é uma diretora especial, e bastou ver apenas um filme dela para chegar a essa conclusão.

INÉDITOS

LONGAS:

1. Bernie - Quase um anjo (Richard Linklater, 2011) -> 8.0
2. Antes do inverno (Philippe Claudel, 2013) -> 6.0
3. Pecados ardentes (David Mackenzie, 2003) -> 5.0
4. Branco sai, preto fica (Adirley Queirós, 2014) -> 6.0
5. Vício inerente (Paul Thomas Anderson, 2014) -> 6.0
6. O sucesso a qualquer preço (James Foley, 1992) -> 7.5
7. O duplo (Richard Ayoade, 2014) -> 8.0


8. O segredo das águas (Naomi Kawase, 2014) -> 8.5
9. Estrada para perdição (Sam Mendes, 2002) -> 8.0
10. Chappie (Neill Bloomkamp, 2014) -> 4.0
11. Jimmy's hall (Ken Loach, 2014) -> 7.5
12. Vizinhos (Nicholas Stoller, 2014) -> 6.0
13. Permanent vacation (Jim Jarmusch, 1980) -> 7.0
14. Gêmeos - Mórbida semelhança (David Cronenberg, 1988) -> 7.5
15. Boa sorte (Carolina Jabor, 2014) -> 6.0
16. O ano mais violento (J. C. Chandor, 2014) -> 8.0


17. Cinquenta tons de cinza (Sam Taylor-Johnson, 2014) -> 2.0
18. Casa grande (Fellipe Barbosa, 2014) -> 8.5
19. Um amor quase perfeito (Ferzan Özpetek, 2001) -> 7.0
20. Sempre bela (Manoel de Oliveira, 2006) -> 8.0
21. Trens estreitamente vigiados (Jirí Menzel, 1966) -> 8.0
22. Essa pequena é uma parada (Peter Bogdanovitch, 1972) -> 8.5
23. Alguém tem que ceder (Nancy Meyers, 2003) -> 7.5
24. A vida de um tatuado (Seijun Suzuki, 1965) -> 8.0
25. Showgirls (Paul Verhoeven, 1995) -> 7.0
26. Noites brancas (Luchino Visconti, 1957) -> 8.0


27. Contratei um assassino profissional (Aki Kaurismäki, 1990) -> 8.0
28. Reino animal (David Michôd, 2010) -> 8.0
29. Laura (Otto Preminger, 1944) -> 8.0
30. Adeus à linguagem (Jean-Luc Godard, 2014) -> 6.0
31. Busca implacável 2 (Olivier Megaton, 2012) -> 7.0
32. Quero matar meu chefe (Seth Gordon, 2011) -> 5.5
33. Olhos de serpente (Brian De Palma, 1998) -> 8.0
34. I'm still here (Casey Affleck, 2010) -> 6.0
35. Chamas da vingança (Tony Scott, 2004) -> 7.0

MÉDIA:

O rolo compressor e o violinista (Andrei Tarkovsky, 1961) 

CURTA:

Indícios dois (Dannon Lacerda, 2012) -> 4.0

REVISTOS:

Adaptação (Spike Jonze, 2002) -> 9.0
Noivo neurótico, noiva nervosa (Woody Allen, 1977) -> 9.5

MELHOR FILME: O rolo compressor e o violinista
PIOR FILME: Cinquenta tons de cinza
MELHOR DIRETOR: Peter Bogdanovitch, por Essa pequena é uma parada
MELHOR ATRIZ: Jessica Chastain, por O ano mais violento
MELHOR ATOR: Jeremy Irons, por Gêmeos - Mórbida semelhança
MELHOR ATRIZ COADJUVANTE: Suzana Pires, por Casa grande
MELHOR ATOR CODJUVANTE: Guy Pearce, por Reino animal
MELHOR ROTEIRO ORIGINAL: Peter Bogdanovich, Buck Henry, David Newman e Robert Benton, por Essa pequena é uma parada
MELHOR ROTEIRO ADAPTADO: Luchino Visconti, por Noites brancas
MELHOR FOTOGRAFIA: Bradford Young, por O ano mais violento
MELHOR TRILHA SONORA: Artie Butler, por Essa pequena é uma parada
MELHOR CENA: A corrida louca de Judy e Howard em Essa pequena é uma parada
MELHOR FINAL: O segredo das águas