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quarta-feira, 25 de junho de 2014

Conta comigo e as amizades que nunca esquecemos

“Nunca tive amigos como aqueles que tive aos 12 anos. Jesus, mas quem tivera?!”

Dita por Gordie Lachance (Will Wheaton), a frase acima, tão singela e marcante, encerra Conta comigo (Stand by me, 1986) e resume a essência de um filme que faz muito por merecer um lugar especial no coração cinéfilo ou simplesmente daqueles que têm amigos - todas as pessoas que existem, provavelmente. Algumas amizades podem não ser para a vida toda - pelo menos, não presencialmente -, mas o sentimento fica, e relembrar momentos passados junto com grandes companheiros produz um bem danado à alma. Por meio de uma narrativa em flashback, somos transportados pelo discurso do Gordie adulto ao início de sua adolescência, que passou, em boa parte, com Chris (River Phoenix), Teddy (Corey Feldman) e Vern (Jerry O'Connell), garotos como tantos outros, com seus 12 anos, hormônios em início de ebulição e uma boa dose de intrepidez. São os personagens centrais de uma obra que toma por base um conto de Stephen King, que tem na amizade uma de suas especialidades e recorrências temáticas.  

Nos primeiros minutos das lembranças de Gordie, o quarteto se reúne em uma casa na árvore onde jogam com forte espírito competitivo, mas a partida se interrompe quando Vern diz que há um cadáver próximo à linha de trem que cruza a cidadezinha situada no estado do Oregon. Excitados com a ideia de ver de perto um corpo morto, eles decidem embarcar em uma aventura às escondidas até o local, tornando-se andarilhos por um dia quase inteiro e madrugada adentro. Está posto o mote central de uma história que se vale de um punhado de elementos corriqueiros para exaltar os laços da amizade, que superam quaisquer referências geográficas ou culturais. Conta comigo é o tipo de filme que, mesmo visto sem som ou legenda, é compreensível, justamente por conta dessa temática universal. Somos testemunhas do carinho incondicional que os garotos têm um pelo outro, demonstrado em olhares de apoio e gestos bruscos de defesa, quando é o caso. Para Gordie, aquelas amizades têm um peso ainda maior depois da perda repentina do irmão mais velho, um referencial e tanto e uma rápida participação de John Cusack.

Uma vez empenhados em ir até o cadáver, Gordie, Chris e companhia ora se divertem, ora sentem medo, ora encaram obstáculos humanos e naturais e, de alguma maneira, crescem com eles. É bem verdade que se trata de um crescimento de alguns anos condensado em poucas horas, mas nada que não aconteça por meios saudáveis. Afinal, que grande mal poderia haver em correr o máximo possível para escapar de um trem em movimento prestes a passar sobre os trilhos de uma ponte ou atravessar um mangue e ter de se livrar rapidamente de sanguessugas? Essas e outras passagens garantem o teor aventureiro do longa de Rob Reiner, que gosta de pensar as relações humanas sob um prisma acessível e capaz de gerar identificação quase instantânea na plateia. Também é dele um dos mais honestos retratos do nascimento do amor com uma roupagem popular, o divertido Harry & Sally - Feitos um para o outro (When Harry met Sally, 1989), rodado apenas três anos depois.


O elenco de protagonistas juvenis seguiu caminhos diferentes em suas carreiras. O mais triste é saber que Phoenix não foi muito longe, e sua morte precoce deixa a nítida sensação de que ele ainda conseguiria outros excelentes papéis e poderia crescer diante dos nossos olhos como um exemplo de ator de tarimba. Seu Chris é o mais carinhoso e gentil dos amigos, ainda que prefira insistir em uma aparência de durão, um mecanismo de autofesa utilizado sobretudo quando precisa enfrentar o bando de arruaceiros liderado por Ace (Kiefer Sutherland). Incrível como o talento do rapaz era inversamente proporcional à sua idade. O'Connel, então gordinho, é outro que se esbalda com seu personagem, alternando covardia e coragem suicida para satisfazer a curiosidade mórbida que motivou o passeio. Atualmente um ator bissexto de comédias, segue tendo Vern como seu melhor papel. Feldman, por sua vez, somou outros trabalhos dignos de sessões à tarde ao currículo, enquanto Wheaton esteve em pouco mais de meia dúzia de filmes, quase todos sem menor expressão. 

A verdade é que, independente dos rumos posteriores de seu elenco, Conta comigo é uma ilustração caprichada do quanto é importante ter com quem contar, exatamente o que os títulos original e nacional indicam. Poucas frases podem ter um efeito tão tranquilizador e emocionante quanto essa, ainda mais quando dita por alguém que já se tornou querido. Caminhar sozinho é sempre mais difícil. A seu favor, a história também traz o fato de que nenhum dos meninos é unidimensional. Em seus olhares e falas, está sintetizada boa parte de uma fase da vida em que tudo é imenso, para o bem e para o mal. Gordie, Chris, Teddy e Vern se amam, embora nem sempre saibam dizer isso. Quem faz a leitura é o espectador, que vê melhor por estar de fora, mas que reconhece o sentimento porque também tem os seus amigos do coração. Nas horas em que tudo o que importa é um abraço apertado, calam-se os lábios e flui a linguagem universal do carinho. Amigos, como viver sem vocês?

9/10

quinta-feira, 19 de junho de 2014

Contrastes humanos, o desejo de aproximação entre arte e realidade

Em apenas 90 minutos, Contrastes humanos (Sullivan's travels, 1941) dá o seu recado: mais vale arrancar um sorriso sincero da plateia do que fazê-la verter um rio de lágrimas. É como pensa John Lloyd Sullivan (Joel McCrea), diretor de Cinema que resolver filmar E aí, meu irmão, cadê você?, em que se propõe a debater questões de ordem social. Ao surgir com a ideia, ele é rapidamente censurado por seus produtores, que não conseguem imaginá-lo a frente de um projeto dessa natureza, argumentando que ele nunca soube o que é ser pobre. Sem uma vivência na escassez, torna-se impossível para John inserir veracidade ao filme, afirmam aqueles homens sempre dispostos a seguir apostando no que já deu certo outras vezes. Qualquer semelhança com os produtores de hoje não será mero acaso.  

Inconformado com a objeção que sofre, John toma a decisão de se aproximar dos mais necessitados a fim de sentir na pele como é lidar com essa insuficiência de recursos financeiros e, assim, tornar seu novo filme o mais convincente possível. De início, ele investe em uma composição estereotipada de desvalido, sobretudo no que se refere à indumentária. Seu fiel mordomo é outro que não leva fé em sua ideia, alegando o mesmo que os produtores a seu respeito. Apesar de todas as palavras de desencorajamento, John segue firme e vai adiante, contando com uma supervisão de sua equipe à sua revelia. Quando, finalmente, consegue se desvencilhar de todo aquele aparato disponível em caso de desistência, pode começar a viver uma realidade oposta à sua, e conhece uma linda garota (Veronica Lake) que está em busca de uma chance como atriz de Cinema.

O primeiro encontro de ambos é uma das primeiras amostras dos diálogos deliciosos assinados por Preston Sturges, também responsável pela direção de Contrastes humanos, um exemplo de título nacional tão bom ou mais eficiente que o original. É exatamente o que John vivencia: as diferenças entre a sua vida e as daqueles que deseja transformar em objeto de filmagem. À medida que aproxima John e a garota, Sturges vai ziguezagueando os lugares comuns para iluminar a humanidade dos dois, fazendo-os muito mais que o homem rico e a jovem sonhadora sem os pés no chão. Eis um dos grandes méritos dessa produção que, incrivelmente, foi esnobada pela Academia, não recebendo uma indicação sequer no ano seguinte à sua realização. Talvez porque os olhos de todos àquela época estivessem voltados para um monumento intitulado Cidadão Kane (Citizen Kane, 1941), estreia de um certo Orson Welles como diretor e ator. Estatuetas à parte, o longa de Sturges é uma valioso exercício sociometalinguístico, por assim dizer.


A propósito do cineasta, alguns detalhes sobre sua carreira revelam sua importância para a Sétima Arte, a começar pelo fato de ele ter sido o primeiro a acumular as funções de diretor e roteirista em um filme, e desempenhou ambas com enorme competência. Ele também foi responsável por injetar frescor às comédias screwball, um subgênero caracterizado por apresentar situações surreais combinadas a trapalhadas e ação rápida, cujo exemplar mais famigerado é Aconteceu naquela noite (It happened one night, 1934), de outro ás na direção: Frank Capra. O que Sturges fez foi garantir excelentes diálogos para essas produções, e muitos deles seguem atuais ainda hoje, revelando que nem só de humor ingênuo se fazia a Hollywood clássica. No caso de Contrastes humanos, o detalhe mais importante talvez seja a autocrítica que o filme tem a oferecer conforme vai questionando os grandes magnatas que insistem em dar apenas entretenimento descartável ao público de cinema.

Em alguma medida, a experiência de conviver com a garota e outras pessoas nem um pouco abastadas é transformadora para John, mas nada na linha de dramalhão piegas - o que deve explicar a ausência de indicações ao Oscar. A narrativa mantém um ritmo leve, provando que conjugar diversão e reflexão é sempre possível, basta haver interesse dos envolvidos. Fica difícil não se apaixonar pelos personagens de Contrastes humanos porque eles são palpáveis, talhados com o esmero de um artista que faz jus ao título. Enquanto vai conhecendo o outro lado da moeda, John vai descobrindo e consolidando sua verdadeira vocação: a de um diretor que leva alegria ao público, uma constatação do próprio Sturges de que a arte do riso pode e deve ser considerada tão nobre quanto a do choro. A essa altura, a história já deu conta de emocionar e mostrar que a arte sempre buscou imitar a vida e, nesse exercício de mímesis, obras de grande valor já foram legadas aos homens. 

9/10

sexta-feira, 13 de junho de 2014

Laranja mecânica, um libelo para a demasiada violência


Poucos filmes recebem tão bem a alcunha de clássicos como Laranja mecânica (A clockwork orange, 1971). Sempre lembrado em listas de melhores de todos os tempos, o filme de Stanley Kubrick apresenta indiscutíveis qualidades, seja do ponto de vista técnico, seja do artístico, que também asseguram sua atemporalidade. No foco da narrativa, está Alex (Malcom McDowell, eternizado pelo papel), um jovem que se utiliza da força bruta da violência em detrimento do diálogo para aterrorizar as pessoas na cidade em que vive. O cenário é futurista e cataclismático, evidenciando uma concepção de porvir que se tinha há exatos 40 anos, tempo de vida do filme até aqui. Acompanhado de sua tertúlia, Alex espanca, agride, intimida, esbofeteia, vocifera, coage. Não há limites para aqueles rapazes que perderam há muito o senso de humanidade, aos quais não resta nem mesmo um laivo de protocooperação. Metonimicamente, Kubrick apresenta ao público uma população em estado de decadência e degradação moral, cujas práticas negativas chegam a exalar um odor fétido. 


Trilhando esse caminho de semeadura do desespero e do medo, os amigos vão muito longe, até que o governo decide colocar em prática um experimento de lavagem cerebral que pode ser a solução ideal para o fim da violência desmedida. Então, submetem Alex a esse processo, e o resultado é um rapaz passivo a toda forma de provocação que se faz a ele, o que é interpretado como um êxito do processo de “conversão”. Calcado nessa premissa, Kubrick entregou um dos filmes mais memoráveis da história do cinema, que faz jus a elogios e lisonjas, por seu poder de fogo de condução à reflexão. A história de Alex é suficientemente intensa para despertar ponderações a respeito da natureza humana e de sua condição de violência latente. Convenções sociais podem até adormecer certos instintos animalescos, mas não sublimá-los de todo. O que o método utilizado com o protagonista faz é anular mecanicamente um componente que já está impresso na estrutura genética do homem desde tempos imemoriais, e que, em primeira instância, é sua garantia de sobrevivência. Freud, o papa da psicanálise, afirmou que uma das grandes pulsões humanas é a violência, tanto quanto o sexo. Destas duas derivam as ações que praticamos, que nos moldam e que determinam nossas redes relacionais. 

O sexo também aparece em Laranja mecânica, especificamente em uma sequência na qual Alex, ainda sob efeito de sua verve cruel, estupra uma mulher em sua própria casa, na presença de seu marido, a quem espanca com a ajuda de seus amigos. A cena é embalada por música erudita, construindo um paradoxo entre maldade e elevação do espírito e caracterizando um dos insights de vigorosa ambivalência proporcionados pelo diretor. O longa causa desconforto por sua crueza, por não se fiar em um discurso edulcorado e por levar à visão aterradora da podridão humana. Guardadas as devidas proporções, há pontos de aproximação entre esse filme e O cheiro do ralo (idem, 2006), por sua capacidade de extrair dos porões dos pensamentos humanos o que há de vileza e degradação. E esse quê de falta de caráter não é uma exclusividade de Alex, mas daqueles que o submetem à tal lavagem cerebral. 

Depois de se tornar uma espécie de cordeirinho, o rapaz fica vulnerável a qualquer ato de violência que seja cometido contra ele, sendo incapaz de reagir. Indo ao outro extremo, ele passa a ser alvo da fúria de quem um dia esteve sob sua ameaça. Vale ressaltar aqui o desempenho abissal de McDowell, um ator de aparições profusas no cinema, embora com brilho ínfimo se comparado à década na qual se insere esse filme aqui. O próprio Kubrick declarou que jamais teria dirigido o filme se não tivesse a presença do ator no elenco, o que ajuda a atestar sua relevância para a história. Laranja mecânica é uma adaptação do livro homônimo de Anthony Burgess, que traz marcas autorais importantes e reforça a tese de que, violentos por natureza, os homens necessitam de esteios que balizem suas ações. Entretanto, esse cerceamento ao comportamento violento não deve ser feito por meios artificiais e igualmente agressivos. A tese (palavra que vem do grego e significa “produto colocado”) de que violência gera violência está colocada mais uma vez. O discurso impávido de Burgess, de que Kubrick se apropriou para construir a versão fílmica do livro, reafirma sua validade, e permite ao espectador tirar suas próprias conclusões. 


Voltando à trilha sonora, ela é uma responsabilidade de Wendy Carlos, colaborador do cineasta em outro filme icônico de sua carreira: O iluminado (Shining, 1980). Além desse, ele é responsável por títulos como um documentário chamado Squish story (1986) e Tempestade de gelo (The ice storm, 1997), sendo este último um filme de Ang Lee que ficou conhecido pela narrativa impactante, sem meios-termos. Carlos também trabalha como compositor, um expediente que ele exerce muito mais raramente, entretanto. No filme analisado, a composição musical é de suma importância, pois dimensiona o espectador para uma ambientação de desvario e desolação que a conjuntura futurista proposta por Kubrick a partir do romance homônimo exige.

Outro aspecto interessante do filme é o fato de o futuro não ser jamais determinado em termos de data. Sabe-se apenas que se trata de um época vindoura, que pode ser de 20, 20 ou 100 anos à frente. E esse futuro é decadente, como aquele que se insinua em Filhos da esperança (Children of men, 2006), que Alfonso Cuarón viria a imaginar exatos 35 anos depois, e que também é uma visão desalentadora de um possível destino da humanidade. O cenário da trama de Laranja mecânica é conhecido – a Inglaterra do futuro – mas ele pode ser estendido para qualquer outra região do mundo, já que o esquadrinhamento da câmera não se reduz aos espaços tipicamente ingleses, numa espécie de tomada da parte pelo todo, como uma sinédoque. O idioma usado pelos personagens também é um caso à parte. Trata-se de uma fusão de línguas diversas realmente existentes (russo, inglês, cockney) denominada Nadsat. É por meio desse idioma artificial que Alex e sua gangue se comunicam, e o grupo é intitulado por eles “druguis”, do russo Друг (amigo). Ele também é narrador do filme, especialmente antes de passar pela lavagem cerebral. Essa fusão de língua faz lembrar o idioma híbrido usado pelos personagens de Código 46 (Code 46), de Michael Winterbottom, ambientado em um futuro também impreciso, no qual os níveis de globalização são tão acentuados que se fala uma mistura de inglês com espanhol e uma pitada de francês.

Kubrick levou a cabo o projeto do filme com um orçamento relativamente modesto, mesmo para os padrões da época em que foi concebido. Foram apenas , milhões de dólares para um filme de 138 minutos com efeitos especiais e uma narrativa complexa, com movimento intrincados e pérolas de reflexão. O filme atinge em cheio o público, que pode amá-lo ou odiá-lo, a depender da perspectiva sob a qual o enxergar. De fato, as atitudes de Alex, muitas vezes, despertam asco, e é possível que o espectador também se defronte com uma torcida interna pela destruição do protagonista, uma prova cabal de que a violência não está apenas no outro, mas em cada um de nós, mais ou menos dosada. Entretanto, o subtexto de Laranja mecânica permite uma leitura inferencial de um libelo para a demasiada violência, para utilizar a linguagem jurídica em que o termo acima citado é sinônimo de acusação. Até que ponto o ser humano pode ir sem freios aos seus instintos? Outros filmes recentes voltaram a trazer à tona essa discussão, como os oscarizados Onde os fracos não têm vez (No country for old men, 2007) e Sangue negro (There will be blood, 2007), concidentemente contemporâneos. O debate proposto pelo filme está longe de ser fechado, e é um típico caso de discussão à qual não se pode passar incólume.

9/10

O serviço de entregas da Kiki e o momento de crescer e mudar

Em várias culturas - talvez todas - existem rituais de passagem que marcam o fim da infância e o começo da adolescência, que traz consigo as primeiras responsabilidades que vão acompanhar o indivíduo pelo resto da vida. No caso das bruxas, a chegada dos 13 anos significa deixar a casa dos pais e viver sozinho em um lugar diferente, longe de todos os confortos a que se estava habituado até então. É o que vemos em O serviço de entregas da Kiki (Majo no takkyûbin, 1989), maravilhosa animação com o selo Hayao Miyazaki de qualidade, cuja protagonista é o retrato da fofura. Acompanhada de seu gato preto Jiji, ela arruma seus pertences e se despede da família para buscar uma cidade onde possa se instalar, e logo encontra uma pacata região litorânea onde ela ficará sendo a única bruxa. Depois de um pouso meio desastrado com sua vassoura, ela vai conhecendo o modo de vida dos habitantes locais e se encanta pelo que observa.


Mais adiante, consegue abrigo na casa da dona de uma padaria, que tinha um quarto disponível para ela dividir com Jiji, cujos comentários sensatos vêm a calhar nos momentos de indecisão da garota. Uma vez morando de favor ali, ela precisa encarar sua nova realidade: crescer não é fácil, requer atenção e cuidado. O olhar sobre o mundo e as pessoas vai se modificando. O sentimento pelo sexo oposto não é mais de aversão, mas de um interesse que parece inexplicável, daí o medo da aproximação com Tombo, garoto com aparência nerd, o que se confirma por sua enorme paixão por aviões - uma constante em Miyazaki. Se crescer e mudar é inevitável, resta aprender a lidar com essas consequências. Para o olhar ocidental, a maturidade é cobrada cedo demais de Kiki, mas vale lembrar que a exigência de uma postura adulta acontece em outras culturas do lado oposto ao nosso do globo. Veja-se o caso dos indianos, que tendem a se casar antes mesmo dos 15 anos. 

De qualquer maneira, sua independência progressiva contrasta com a permanência de Tombo e seus amigos em casa. As únicas preocupações desses humanos normais são estudar e tirar boas notas, e suas diversões se assemelham às de quaisquer outros garotos e garotas de sua idade em qualquer outra parte do mundo. Ao se dar conta disso, Kiki parece sentir também uma ponta de inveja da tranquilidade que paira sobre eles, já que ela precisa se arranjar e não pode ficar inteiramente à mercê da bondade da mulher que lhe deu um teto. Surge então uma ideia simples e eficiente: oferecer um serviço de entregas expressas para os habitantes de Koriko, a cidade portuária em que se alojou. Não demora para que apareçam os primeiros clientes, entusiasmados com a possibilidade de ter suas encomendas levadas por uma simpática menina montada em uma vassoura e acompanhada de seu gato. Os felinos, aliás, também são figuras comuns nas histórias assinadas por Miyazaki - quem já viu Meu amigo Totoro (Tonari no Totoro, 1988) deve se lembrar com carinho do adorável Gato Ônibus.


Com todos esses elementos reunidos, O serviço de entregas da Kiki é um registro extremamente fofo das dores e alegrias de viver quando se tem menos de duas dezenas de anos, que vem sob a forma de lembrete para quem já cruzou essa fronteira há mais ou menos tempo. O cuidado de Miyazaki na construção da imagem, bem como a captura de instantes prosaicos que não encontram espaço na esmagadora maioria das animações de outros estúdios, conferem uma qualidade ímpar à sua obra, dotada de uma franca unidade que torna possível começar a visitar sua filmografia por qualquer um dos seus títulos. Todos são viagens maravilhosas a um mundo que não está acessível por outra via que não a da arte, pródiga em recriar a realidade ao bel-prazer ou ao ângulo de visão de seu autor, e inundar retinas ansiosas por composições imagéticas multicoloridas e carregadas de significado. Essa não é apenas uma história sobre deixar de ser criança. É também sobre a descoberta do mundo e suas incoerências, que gritam ou calam a depender do momento, do lugar e da pessoa.

O longa foi a primeira parceria entre o estúdio Ghibli e Disney, que cuidou da dublagem em inglês em 1997 e lançou o filme em solo estadunidense no ano seguinte. Entre outros elementos já apontados, O serviço de entregas da Kiki também acena para a importância de cada um descobrir o que sabe fazer de melhor, e para o quanto pode ser paralisante cultivar incertezas (enquanto se pensa, quase não se vive). Kiki e Tombo têm suas diferenças, mas há muitos pontos que os unem, como a vontade de pertencer a um grupo e a procura por algum tipo de diversão. Do outro lado da tela, o público de diferentes faixar etárias pode se identificar com esses personagens, mesmo que seja apenas através de seu lado juvenil que nunca morreu, está apenas adormecido e acessível por meio de um pouco de estímulo. Em apenas 103 minutos, Miyazaki ainda encontra tempo de discorrer brevemente sobre o estado de bloqueio criativo, o que reforça o olhar de que há sempre traços autobiográficos em seus belíssimos traços. É quando Kiki percebe que seus poderes não estão funcionando e precisa encontrar o caminho de volta para eles. O ato final, encerrado por uma linda canção, fecha com chave de ouro uma narrativa em que, talvez, a maior protagonista seja a fofura.

9/10

segunda-feira, 9 de junho de 2014

A espera focalizada em O deserto dos tártaros

Mergulhar nas profundezas dos sentimentos dos homens era uma notória habilidade de Valerio Zurlini. A cada vez que escavava o que ia no coração de seus protagonistas, encontrava uma dor que não poderia ser totalmente compartilhada, talvez apenas ouvida. Não foi à toa que lhe sobreveio a alcunha de Poeta da Melancolia. Em filmes como Verão violento (Estate violenta, 1959), A moça com a valise (La ragazza con la valigia, 1961) e A primeira noite de tranquilidade (La prima notte di quiete, 1972), o realizador explorou as interdições de sujeitos à procura de realização e em eterna incompletude, oferecendo um panorama da amarga condição humana. Esses seres errantes, porém, são tratados com muito carinho nessas narrativas, o que também significa um vislumbre de esperança, um átimo de iluminação que surge com alternativa a certa altura, ainda que esses personagens não cheguem a alcançá-la. 

Em O deserto dos tártaros (Il deserto dei tartari, 1976), não é diferente. Adaptação do romance homônimo de Dino Buzzati, publicado pela primeira vez em 1940 e uma das obras mais apreciadas da literatura italiana, o longa-metragem trata sobre a espera antes de mais nada. Espera que pode consumir anos da vida de quem se submete a ela, que encobre e deturpa a visão como uma nuvem espessa. As vítimas, por assim dizer, dessa situação perturbadora, são os componentes de uma tropa do Exército que vão para o deserto, onde devem ficar a postos para fazer frente aos tártaros do título, inimigos de quem se ouve falar coisas terríveis, o que os torna lendas do combate. Porém, à medida que o tempo avança, toda a preparação em que esses homens se envolvem se mostra cada vez mais vã. Seriam mesmo os tártaros reais? Quando poderiam atacar? Por via das dúvidas, eles permanecem em posição de ataque, desfrutando de pouquíssimos momentos de tranquilidade ou descontração.

O símbolo máximo dessa espera é o tenente Drogo (Jacques Perrin), que se despede da mãe saudosa por antecipação logo no começo da história, partindo para a fortaleza sem qualquer perspectiva de retorno. Uma vez instalado no interior daquelas muralhas, ele percebe o quanto a vida passa devagar ali, enquanto, na verdade, voa quando se pensa no mundo além daqueles limites. Aos poucos, ele trava amizade com seus companheiros de luta, bem como com seus superiores, e o elenco exclusivamente masculino vai sendo apresentado na tela: Filimore (Vittorio Gassman), Tronk (Francisco Rabal), Nathanson (Fernando Rey), Hortiz (Max Von Sydow), o médico Rovin (Jean-Louis Trintignant) e o general (Philippe Noiret), cada qual com seu histórico de lutas e perdas. O olhar de Drogo vai sendo transformado dia após dia e, se ao chegar ali ele desejava ficar o menos tempo possível, acaba redefinindo seu horizonte de expectativa e quer estar na linha de frente quando os inimigos chegarem.

O que há de mais desconcertante em O deserto dos tártaros é justamente essa espera. Os dias passam e não há nada de novo no front. Vez por outra, algum dos soldados diz ter visto o que parece a aproximação dos oponentes, mas esses lampejos nunca chegam a se confirmar. A passagem do tempo, aliás, é bem discreta. Quando menos se espera, começam a surgir as rugas de preocupação, as testas franzidas, os olhos fundos e os primeiros fios de cabelos brancos, denotando que uma boa parte da vida de Drogo e seus companheiros se perdeu ali, e não haverá reparação para esses longos instantes que poderiam ter sido vividos em mil outros lugares, em mil outras atividades. Zurlini expõe essa verdade de modo suave, investigando os aspectos psicológicos de um conflito. Não há espaço para embates físicos ou explosões, e a única bala disparada fere de morte os interiores de suas testemunhas, tanto ou mais do que o seu alvo. Ali repousam as esperanças e os anseios, um dia tão vivazes e hoje relegados a um lugar remoto da mente.


Foi o último filme do cineasta bolonhês, que nunca conheceu o prestígio em vida e escolheu remar contra o apelo comercial do cinema de seu país, bem como do mundo. Suas obras hoje seguem como tesouros a serem desencavados pela maioria dos espectadores, inclusive cinéfilos de vasta bagagem que privilegiem o contato com produções que não fogem ao enfrentamento dos nossos fantasmas e demandas mais perturbadores. O deserto dos tártaros também é um filme sobre quimeras, não somente aquelas que estão em relação de sinonímia com sonhos, mas também aquelas que aludem à acepção original de monstros, ilustrada pelas representações híbridas de cabeça e corpo de leão e mais duas, uma de cabra e outra de serpente ou suas variações ao longo da História. São pensamentos que nunca adormecem, sensações que não se dissipam e incidem sobre o coração como ondas que vão e vêm. 

É difícil destacar somente um nome do elenco, embora Perrin tome conta da tela em mais essa brilhante colaboração com o realizador após A moça com a valise e Dois destinos (Cronaca familiare, 1962). Nos seus olhos castanho-claros, toda uma vida se resume, expressando a melancolia em que Zurlini se especializou ao longo da carreira com habilidade, se é que esse adjetivo é o mais cabível em contexto desses. Com a chegada de seu Drago à fortificação, parece haver uma iminente quebra da monotonia reinante no local, mas sua tenacidade não resiste o suficiente para isso e ele se torna mais um à espera. Por vezes, tem diálogos cortantes com Hortiz, de quem ouve sua história de vida contada de maneira resignada, revelando mais um fantástico desempenho de Von Sydow, que também já havia testemunhado o desconcerto do mundo através de Ingmar Bergman em O sétimo selo (Det Sjunde inseglet, 1957) e trouxe essa experiência para O deserto dos tártaros. Ao apagar dessas luzes dessa despedida de Zurlini, segue o questionamento: quantos de nós também não passamos a vida à espera?

8.5/10

quarta-feira, 4 de junho de 2014

TOP 10 - Metalinguagem no Cinema

Em uma definição simples e rasteira, metalinguagem é a linguagem falando de si própria. O exemplo mais nítido de discurso metalinguístico é o dicionário, que utiliza palavras para explicar outras palavras. A arte, de uma maneira geral, vale-se da metalinguagem, costurando-a em histórias que revelam desde a angústia de um escritor em bloqueio criativo até o árduo processo de adaptação de uma obra para outro suporte, com sua linguagem específica, passando pelos comentários irônicos de quem entende muito bem do riscado. O Cinema, como arte que é, não poderia deixar de incorporar as delícias e os dilemas da metalinguagem em seu escopo, trazendo muitos exemplares de "filme dentro do filme".

Nesse artigo especial do blog, destaco 10 títulos cinematográficos que figuram entre os meus preferidos acerca do tema, com a ressalva de que não ofereço nem de longe uma lista exaustiva. Muito pelo contrário: cada filme pode abrir portas e janelas para vários outros, sem falar que eu mesmo ainda não consegui assistir a todos os filmes ditos metalinguísticos que me interessam. Portanto, será inevitável cometer injustiças - na medida do possível, elas não decorrem de esquecimentos, mas da decisão drástica de deixar alguns nomes de fora unicamente por preferi-los alguns décimos a menos, digamos assim. Em última instância, toda lista comporta erros e acertos, e lamentar sobre os primeiros impede a fruição dos segundos.

Também é interessante notar que alguns realizadores se lançaram sobre a metalinguagem, um manancial eterno de enredos. Acredito que, na ausência do que falar, o artista pode falar justamente sobre a ausência do que falar. Um dos claros exemplos da aplicabilidade dessa máxima é Federico Fellini, que fez do seu deserto criativo a matéria-prima de 8 1/2, reconhecidamente um clássico de sua carreira e um dos exemplares mais icônicos do tema, incluído nessa pequena lista. Um diretor que tem na metalinguagem o seu norte é Woody Allen, especialista em tipos neuróticos, muitos deles escritores, dramaturgos ou roteiristas, que tem dois de seus filmes representados aqui - não poderia fazer por menos com meu cineasta preferido. Como de hábito, ordenei os filmes cronologicamente, e não por preferência. A seguir, meus eleitos, acompanhados de breves comentários em que procuro justificar suas escolhas:

1. O desprezo (Le mépris, 1963), de Jean-Luc Godard


Quem conseguiria desprezar Brigitte Bardot no auge de seu charme e beleza? Michel Piccoli conseguiu. Pelo menos, quando os dois foram, respectivamente, Camille e Paul Javal no belíssimo ensaio de Godard sobre o descompasso entre amor e ambição, para citar apenas uma das facetas desse filme-lenda. Disposto a tudo para adaptar Odisseia para o Cinema, o roteirista Paul vai deixando cada vez mais de lado a companheira, passando a ter olhos somente para ninguém menos que Fritz Lang, diretor responsável por assinar a produção. O cenário é Roma, Cidade Eterna cuja famosa antonomásia contrasta de modo drástico com o amor evanescente do casal, mostrado em todo o seu fulgor nos primeiros minutos da narrativa, quando Camille pergunta se Paul ama cada parte de seu corpo. Se o amor é mesmo um jogo, difere de todos os outros por não possibilitar a vitória a nenhum dos jogadores.

2.  8 1/2 (1963), de Federico Fellini


Em seu período de deserto criativo, Fellini conseguiu produzir aquela que talvez seja sua obra mais celebrada. Para isso, elegeu seu parceiro Marcello Mastroianni, que encarna espetacularmente Guido Anselmi, seu alter ego: diretor bloqueado em sua capacidade de inventar histórias, ele se refugia em uma estância à procura de ideias. Ali, acaba mergulhando em um universo em que sonho e realidade não mais se distinguem, o que reflete um aproveitamento do Cinema como suporte para os mais acachapantes devaneios, tendo a viagem como um fim em si mesma. Uma lista de filmes metalinguísticos se torna bastante respeitável se tem 8 1/2 entre seus eleitos, e a minha se pretende como tal. Para além de ansiar por respeito, a inclusão do filme aqui é motivada por uma real paixão por sua narrativa de estranho magnetismo, que adere à memória e convida a revisitas periódicas.

3. O estado das coisas (Der Stand der Dinge, 1982), de Wim Wenders


É recorrente o diagnóstico de que o Cinema está agonizante. Em tempos de profusão de refilmagens e sequências caça-níqueis fabricadas por Hollywood, esse quadro parece bem real, mas sempre existe uma saída para a tragédia. No alvorecer da década de 80, Wenders já enxergava um percurso dessa arte rumo à falência, e não se contentou em apenas observar: erigiu um monumento caótico aos que vivem na corda bamba por viver de fazer filmes, como o protagonista Friedrich (Patrick Bauchau), que tem as filmagens de seu novo longa interrompidas quando precisa ir atrás do produtor, que desapareceu com os negativos do que já tinha sido rodado sem deixar a menor pista. Em paralelo à busca, os membros da equipe sentem a espera na pele e curtem o torpor, lidando com um reduzido horizonte de expectativas que acena para o que pode ser um final desagradável, para dizer o mínimo. De quebra, ainda surge ninguém menos do que Samuel Fuller, outro que se preocupava à época com a possível morte do Cinema. Em síntese, O estado das coisas é um épico da sobrevivência.

4. A rosa púrpura do Cairo (The purple rose of Cairo, 1985), de Woody Allen


De tempos em tempos, Woody Allen é perguntado sobre seu filme preferido entre os que dirigiu. As respostas tendem a variar - nem sempre ele realmente disse algo a respeito -, mas, em uma das ocasiões na qual teve de responder à pergunta, citou A rosa púrpura do Cairo. Olhar para essa adorável fábula sobre o fascínio que o Cinema exerce sobre a vida de um espectador comum é o suficiente para compreender a possibilidade de ela figurar como o filme preferido de alguém. Aqui, Mia Farrow (em uma de suas muitas parcerias com o diretor e então marido) vive Cecilia, dona de casa exausta dos maus tratos do marido (Danny Aiello) que se refugia no único cinema de sua cidade assistindo a várias sessões do filme que dá nome ao filme, até que o ator principal (Jeff Daniels), cansado da mesmice das cenas, sai da tela e os dois iniciam um romance. Amparados pela fotografia de Gordon Willis, os personagens são a quintessência da magia da Sétima Arte, capaz de oferecer calor aos corações desalentados.

5. Tiros na Broadway (1994), de Woody Allen


A iluminação pode vir de onde menos se espera. É o que nos dá a entender o roteiro de Tiros na Broadawy, coleção de acertos allenianos que ilustram o franco talento do realizador para engendrar tramas cuja tônica é a metalinguagem. Na pele de David Shayne, John Cusack se mostrou uma de suas melhores escolhas para a função de seu alter ego, aqui um dramaturgo incapaz de alcançar o público de teatro em decorrência do hermetismo de seu texto. Ao se comprometer em escrever um papel para a namorada do mafioso que financiará sua próxima peça, ele vende sua alma e começa a receber conselhos da figura mais improvável da galeria de ricos personagens esculpidos por Allen, tornando o filme um olhar espirituoso sobre o papel do artista no mundo, uma constante na obra do diretor sempre insatisfeito com os filmes que dirige. Dianne Wiest é um espetáculo à parte como Helen Sinclair, cujo bordão "Don't speak" ("Não fale!") a cada vez que David tenta se declarar está entre os mais antológicos do Cinema. Pena que, desde então, o diretor e uma de suas musas não têm mais se encontrado.

6. Os sonhadores (The dreamers, 2003), de Bernardo Bertolucci


Até que chegue a última cena de Os sonhadores, musicada por Je ne regrette rien, de Edith Piaf, o diretor Bernardo Bertolucci espalha referências a vários filmes clássicos e cultuados através dos jogos de Theo (Louis Garrel) e Isabelle (Eva Green), gêmeos fraternos, com Matthew (Michael Pitt), estudante que chega à Paris em ebulição do maio de 68. Os jovens protestavam contra o fechamento da Cinemateca Francesa, reduto dos amantes da Nouvelle Vague e outros movimentos que ganhavam força na mesma década, inscrita na História como uma das mais intensas do século XX. Depois que formam um trio extremamente coeso, eles reproduzem cenas memoráveis do Cinema e se mantêm apoiados em ambiguidades, uma delas anunciada pelo título da obra. Afinal que tipo de sonhadores eles são: aqueles que não se abatem diante dos reveses e seguem esperançosos ou aqueles que se apartam do mundo real e permanecem em sua bolha imaginativa?

7. Cópia fiel (Copie conforme, 2010), de Abbas Kiarostami


Um passeio de uma tarde pela Toscana. Resumido a essa frase nominal, o trabalho de Kiarostami sobre a recorrência do plágio no universo artístico soa apenas idílico, e encobre muitas de suas camadas de representação. Juliette Binoche, cuja personagem nunca é nomeada, e William Shimell, na pele do escrito James Miller, discutem sobre seu novo livro, em que ele valida a cópia, sustentando principalmente que ela lança luz sobre a obra original. Entretanto, os diálogos que ambos travam perpassam muitas outras questões envolvendo o jogo cênico da vida, embaralhando perspectivas e deixando uma dúvida deliciosa no ar: são dois velhos amantes que se reencontraram e fingiam não se conhecer ou dois estranhos que, em poucas horas, passaram a agir como parceiros de longa data? Iluminados por uma fotografia que aproveita o máximo dos espaços abertos, eles semeiam essas e outras incertezas, a depender do espectador, e sintetizam com categoria o quanto fazemos das nossas relações um baile de máscaras.

8. O dia em que ele chegar (Book chon bang hyang, 2011), de Hong Sang-soo


Embebidos na metalinguagem, os protagonistas desse hábil realizador sul-coreano interagem consigo mesmo e com interlocutores externos na tentativa de traduzir suas interdições. Sang-soo costuma alternar o sexo desses protagonistas, e aqui elege o homem para a função: Sang-Joon (Jun-Sang Yu) é professor do Departamento de Cinema de uma universidade e já dirigiu alguns filmes, mas anda empacado em seu ofício. Enquanto espera pelo irmão, um crítico de Cinema, ao sul da cidade em que vive, encontra, reencontra e se desencontra de pessoas que fizeram e fazem parte de sua história de vida, em um ciclo de repetições e reescrituras cuidadosamente arquitetado pela porção roteirista de Sang-soo, que, por causa do eixo temático de sua filmografia e do comportamento verborrágico de seus personagens é comparado a Woody Allen e Eric Rohmer. A filiação a dois nomes de peso é legitimada em seus fotogramas, mas ele alça seus próprios voos e salienta que, na condição de humanos, somos um livro cheio de páginas em branco a serem preenchidas pelas experiências.

9. Holy motors (idem, 2012), de Leos Carax


Um dos exercícios mais radicais de construção e desconstrução, de abadono e retomada do cinema recente foi entregue pelo inquieto Carax, que deu fim a um jejum de 13 anos sem dirigir longas-metragens para apresentar o que ele chamou de um filme, "no fundo, muito simples". Após colocar os olhos sobre o arsenal pesado de imagens plurissignificativas que ele reuniu em pouco menos de 120 minutos, a certeza que fica é a de que o cineasta usou da mais fina ironia para "definir", seu trabalho, que se define justamente pela indefinição. Tendo Denis Lavant como a metamorfose ambulante, Holy motors discute a pasteurização do cinema moderno, denuncia a plateia apática, analisa a angústia do conflito identitário e realiza através do Sr. Oscar o sonho de ser muitos outros em um único dia. Não há convicções duradouras aqui. A cada novo ato, o que fica é a "beleza do gesto".

10. Tabu (idem, 2012), de Miguel Gomes


Nem só de grandes navegações entendem os nossos colonizadores. Em se tratando de oferecer um olhar especular sobre o Cinema, Portugal também se mostra altamente capaz, e o grande nome responsável por assegurar essa afirmação é Miguel Gomes. Provindo de um outro exercício metalinguístico e de fusão entre real e fictício, ele amarra três atos em Tabu, mostrando o quanto essa arte e a própria vida podem ter fronteiras difusas. Os nomes de seus protagonistas são, em última instância, um ápice irônico que funciona como o toque de Midas de uma narrativa de roupagem simples, mas base rica: Aurora e Ventura. E tal constatação (ou a sua negação veemente) só se torna possível ao se colocar os olhos sobre o filme, revestido de um preto e branco que garante o aspecto legendário de cada fotograma de uma história que envolve os sentimento mais básico que pode habitar o coração humano: o amor. Amor pela vida, amor pelo outro, amor pelo Cinema.

domingo, 1 de junho de 2014

BALANÇO MENSAL - MAIO

Até agora, maio foi o mês de 2014 com mais quantidade de filmes ruins ou péssimos, um sinal de que não fui tão feliz nas escolhas. Realizadores de obras que admiro foram se mostraram capazes de "cometer" filmes para serem totalmente esquecidos, como foi Thomas Vinterberg e seu deplorável Dogma do amor. Um pouco menos traumática foi minha primeira visita à filmografia de Sam Peckimpah, justamente em um dos seus trabalhos mais famosos: Meu ódio será sua herança. Fica a torcida para que ele tenha obras muito melhores a oferecer. Por outro lado, tive o prazer de tascar minha quinta nota 10 do ano, a qual foi endereçada ao indiano 3 idiotas, maravilhoso retrato de amizade incondicional, uma de minhas temáticas preferidas.

Segue abaixo a relação completa dos filmes vistos em maio acompanhados de suas respectivas notas e os melhores em categorias que julgo importantes:

LONGAS:

1. O gigante egoísta (2013) - 7.0
2. Tabu (1999) - 6.0
3. Os olhos sem rosto (1960) - 8.0
4. Amor, sublime amor (1960) - 5.0
5. Praia do Futuro (2013) - 7.5
6. O anjo exterminador (1962) - 8.0

O anjo exterminador (1961)
7. Ontem, hoje e amanhã (1963) - 5.0
8. Deus e o diabo na Terra do Sol (1964) - 6.0
9. O gângster (2007) - 6.5
10. Um brinde à amizade (2013) - 7.0
11. Bunny Lake desapareceu (1965) - 8.5
12. Tóquio violenta (1966) - 8.5

Tóquio violenta (1966)
13. No calor da noite (1967) - 8.0
14. Star wars episódio II - O ataque dos clones (2002) - 8.0
15. O amigo da minha amiga (1987) - 8.5
16. O homem duplicado (2013) - 6.0
17. Godzilla (2014) - 6.0
18. 3 idiotas (2009) - 10.0
19. Bullitt (1968) - 8.0
20. Meu ódio será sua herança (1969) - 5.0

Meu ódio será sua herança (1969)
21. A filha de ninguém (2013) - 8.0
22. Jogos, trapaças e dois canos fumegantes (1998) - 5.0
23. Invictus (2009) - 7.0
24. Dogma do amor (2003) - 1.0
25. Investigação sobre um cidadão acima de qualquer suspeita (1970) - 9.0
26. Corrida contra o destino (1971) - 8.5
27. Prometheus (2013) - 7.0
28. Amargo pesadelo (1972) - 8.0
29. Golpe de mestre (1973) - 8.0
30. Uma viagem extraordinária (2013) - 7.5

CURTAS:
The cat concerto (1947) - 8.0
A Pantera pinta o sete (1964) - 7.0
Sonho do Red (1984) - 6.0

MELHOR FILME: 3 idiotas
PIOR FILME: Dogma do amor
MELHOR DIRETOR : Elio Petri, por Investigação sobre um cidadão acima de qualquer suspeita
MELHOR ATRIZ: Carol Linley, por Bunny Lake desapareceu
MELHOR ATOR: Gian Maria Volonté, por Investigação sobre um cidadão acima de qualquer suspeita
MELHOR ATRIZ COADJUVANTE: Alida Valli, por Os olhos sem rosto
MELHOR ATOR COADJUVANTE: Rod Steiger, por No calor da noite
MELHOR ROTEIRO ORIGINAL: Rajkumar Hirani e Abhijit Joshi, por 3 idiotas
MELHOR ROTEIRO ADAPTADO: Stirling Silliphant, por No calor da noite
MELHOR FOTOGRAFIA: Shigeyoshi Mine, por Tóquio violenta
MELHOR MONTAGEM: Rajkumar Hirani, por 3 idiotas
MELHOR TRILHA SONORA: Corrida contra o destino
MELHOR CENA: Fahran e Rancho tentando fazer Raju despertar no hospital em 3 idiotas
MELHOR FINAL: Investigação sobre um cidadão acima de qualquer suspeita