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segunda-feira, 30 de maio de 2016

QUINTETO DE OURO - DÉCADA DE 70

Ah, os loucos anos 70... Não vivi essa época, mas através do cinema já pude passear bastante por cidades, pessoas, hábitos e canções que assinalaram essa década, e está aí um dos grandes privilégios que essa arte centenária reserva aos seus espectadores. Nesta quarta edição do Quinteto de Ouro, em que tento reunir apenas 5 prediletos sob algum tema. As três primeiras edições versaram sobre diretores, mas a ideia é diversificar sempre e, dessa vez, selecionei 5 títulos que pertencem à década supracitada. 

Já havia escrito sobre quase todos os filmes escolhidos aqui, com exceção do quarto. Decidi então, pinçar trechos das minhas críticas originais sobre eles, ainda válidas, e redigir um parágrafo inédito apenas para esse quarto.

Adotei um único critério de seleção: não valia repetir diretores, a fim de compor um painel um pouco mais amplo. Além disso, um outro filme está fora da lista simplesmente para evitar a repetição: Taxi driver. Como já o tinha incluído no quinteto de Martin Scorsese, considerei melhor deixá-lo apenas naquela lista. Ah, e Woody Allen não teve espaço porque, logo logo, ele vai ganhar uma lista só dele (não poderia ser diferente com meu diretor preferido...). 

Fica, assim, essa menção honrosa a ele, e seguem abaixo os eleitos de mais um Quinteto de Ouro, dispostos em ordem cronológica crescente.

1. Zabriskie Point (Michelangelo Antonioni, 1970)


É bem verdade que Zabriskie Point não é considerado um dos melhores filmes de Antonioni, uma tremenda injustiça quando se coloca os olhos sobre ele e se depreende sua profundidade e sua grandeza. O título, aliás, faz referência a uma localidade situada no oeste estadunidense e conhecida como Vale da Morte, um nome indigestamente sugestivo para se correlacionar com jovens, cuja vida, geralmente, pulsa intensa e que não têm a menor pretensão de morrer. No que tange à trilha sonora, o longa também exala força: canções de bandas como Pink Floyd – então com apenas 5 anos de existência -, The Youngbloods e The Kaleidoscope embalam a jornada pungente desses dois jovens desorientados. E, se em Blow up – Depois daquele beijo, a explosão era interior e silenciosa, aqui ela é totalmente audível, ainda que não passe de uma projeção de Daria (Daria Halprin), cujo desconcerto entre as próprias convicções e as de seu antigo chefe atinge um ponto de saturação. 

2. O discreto charme da burguesia (Luis Buñuel, 1972)


A verdade é que O discreto charme da burguesia funciona como um engenho jogo de construção e quebra de expectativas, com rupturas de interação que podem surpreender e, por vezes, enervar o espectador. Qualquer semelhança com uma breve descrição de uma obra de arte não será mero acaso. O filme tem o poder de inquietar e causar todo tipo de reação, algo que é inerente à verdadeira composição artística. Buñuel brinca de embaralhar a narrativa o tempo todo, colocando seus adoráveis burgueses com um típico ar blasé em situações absurdas, para, na cena seguinte, mostrar um deles despertando assustado de um sonho ruim. Essas cenas nos levam a questionar até onde as situações foram verdadeiras e o que pode ter sido fruto dos delírios imaginativos de Florence, Alice, Rafael e companhia, numa intrigante subversão da cronologia engendrada pelo realizador. Forma-se, então, um ciclo: quando se começa a comprar um jantar como verdadeiro e bem-sucedido, logo um imprevisto assola a reunião e impede que os convivas se refestelem como o planejado. Então, entramos em uma espiral de eterno recomeço que sacode a tela o tempo todo.

3. Cenas de um casamento (Ingmar Bergman, 1973)


Entre as várias qualidades que podem ser apontadas no filme, uma das principais é, seguramente, o texto muito bem escrito , cuja autoria coube ao próprio diretor. As palavras quase sempre exalam sinceridade e, quando não o fazem, um gesto ou um olhar dão conta de exprimir aquilo que realmente se passa com o casal. Não há reducionismos aqui: tanto um quanto o outro se mostra em vários lados, corroborando a ideia de que a fragmentação é parte integrante da composição de cada indivíduo. Avesso a qualquer formatação e opinião pré-concebida, Bergman examina Johan e Marianne e deixa que o público escolha de que lado prefere ficar, se é que se pode falar em lados quando se trata de um relacionamento a dois. De qualquer modo, mesmo que a decisão do espectador seja a de torcer por um deles, é bem provável que suas impressões mudem a todo tempo, à medida que o filme transcorre e mais e mais aspectos da natureza dos personagens vão vindo à tona. E, de nada adiantaria um texto tão transparente se o diretor não contasse com os desempenhos assombrosos de Ullmann e Josephson. Velhos conhecidos de Bergman, eles são escolhas acertadíssimas, demonstrando mais uma vez o quanto são intérpretes talentosos.

4. Uma mulher sob influência (John Cassavetes, 1974)


Centrado no drama de Mabel (Gena Rowlands) e suas ondulações psicológicas, o longa-metragem assinado por Cassavetes pai escava as paredes do desconforto e oferece um tour de force memorável de sua atriz fetiche e esposa. Numa lista de grandes interpretações, esta certamente é digna de espaço. São mais de duas horas de uma mulher tentando se encaixar nas convenções impostas pelo meio social, e que lhe são extremamente penosas e estranhas, daí a implosão que se converte em atos de lógica questionável. A angústia impregna seu olhar e reverbera nas suas entranhas, e o marido Nick (Peter Falk, outro gigante em cena) não dá conta de conviver diariamente com um turbilhão emocional desses. E a vida está cheia de pessoas assim: uns caem, levantam e seguem em frente; outros, vivem um dia após o outro sob um esforço descomunal e precisam mais de alguém ao redor.

5. No decurso do tempo (Wim Wenders, 1976)


As viagens dos protagonistas pelas estradas também traz à tona a questão da incomunicabilidade que tanto aflige os seres humanos, da qual os personagens não escapam. Os pequenos ruídos de comunicação entre ambos responde pela oscilação na sua proximidade, assim como acontece com amigos cuja relação sofre ranhuras, ainda que imperceptíveis a olho nu, a cada vez que uma dissonância importante se concretiza. Nesse sentido, a abrangência de No decurso do tempo é enorme, por nos deixar entrever na lenta caminhada de Bruno e Robert algumas das nossas idiossincrasias mais veladas, ainda que, mesmo no filme, elas não apareçam escancaradamente. Wenders aposta nos silêncios e nos olhares que comunicam em parte e sublinham a angústia da procura por um interlocutor. A amizade entre Bruno e Robert é como um pálio de luz que se abre sobre eles e está circunscrita a um arco de tempo específico. Enquanto o tempo não finda, eles conhecem um pouco sobre o outro e um pouco sobre si mesmos. 

domingo, 1 de maio de 2016

BALANÇO MENSAL - ABRIL

Olha mais um balanço mensal aí, gente! Em abril finalmente veio minha primeira nota 10 do ano. Um pouco hesitante, mas depois concedida com justiça. O contemplado, obviamente, ficou com a medalha de ouro no pódio do mês, conferível logo abaixo. Na sequência, todos os títulos que desfilaram ao longo do mês, acompanhados dos diretores e das respectivas notas. Lá vamos nós...

PÓDIO

MEDALHA DE OURO


Truman (Cesc Gay, 2015)



Crítica completa aqui

MEDALHA DE PRATA


A juventude (Paolo Sorrentino, 2015)



Crítica completa aqui

MEDALHA DE BRONZE




O intruso (Claire Denis, 2004)


Muitas perguntas, poucas respostas: sobre esse binômio inquietante Denis constrói seu cinema. São longos planos contemplativos - muitos deles musicados - que acompanham um idoso necessitado de um transplante e em busca de um reencontro com o único filho. Esse breve argumento é a ponta de um iceberg que avança por pouco mais de duas horas deixa no espectador a sensação de que ele é o intruso da história, que vislumbra momentos e tenta entender os códigos com que a realizadora busca estabelecer algum tipo de comunicação. Mas Denis não é nada boba: em vez de entregar qualquer informação de bandeja, prefere levar a plateia a deambular com seu protagonista, e exercer a observação paciente e perscrutadora.

INÉDITOS


116. Tirem o sorriso do rosto (Daniel Patrick Carbone, 2013) -> 7.5

117. O invasor (Beto Brant, 2001) -> 6.0
118. O intruso (Claire Denis, 2004) -> 9.0
119. Um gosto de mel (Tony Richardson, 1961) -> 7.5
120. Conflito mortal (Wong Kar-wai, 1988) -> 7.5
121. A carreira de Suzanne (Eric Rohmer, 1963) -> 8.0
122. 007 contra a chantagem atômica (Guy Hamilton, 1965) -> 7.0
123. Missão madrinha de casamento (Paul Feig, 2011) -> 7.0




124. Os homens que não amavam as mulheres (Niels Arden Oplev, 2009) -> 7.0

125. Os boas-vidas (Federico Fellini, 1953) -> 8.0
126. O quimono escarlate (Samuel Fuller, 1959) -> 7.0
127. Riff-raff (Ken Loach, 1991) -> 6.0
128. Rua Cloverfield, 10 (Dan Trachtenberg, 2016) -> 6.0
129. Linha de ação (Allen Hughes, 2013) -> 6.0
130. A juventude (Paolo Sorrentino, 2015) -> 9.0
131. Cavalo de guerra (Steven Spielberg, 2011) -> 7.5
134. Paris vive à noite (Martin Ritt, 1961) -> 7.0



135. Noites brancas no píer (Paul Vecchiali, 2015) -> 8.0
136. Apocalypse now (Francis Ford Coppola, 1979) -> 8.0
137. Black Dynamite (Scott Sanders, 2009) -> 8.0
138. Ave, César! (Ethan e Joel Coen, 2015) -> 6.0
139. Gilbert Grape - Aprendiz de sonhador (Lasse Hallström, 1993) -> 7.5
140. Micróbio e Gasolina (Michel Gondry, 2015) -> 7.0
141. O medo do goleiro diante do pênalti (Wim Wenders, 1972) -> 7.0
142. O medo do medo (Rainer Werner Fassbinder, 1975) -> 8.0
143. Educação (Lone Scherfig, 2009) -> 7.0



144. Truman (Cesc Gay, 2015) -> 10.0
145. Com 007 só se vive duas vezes (Lewis Gilbert, 1967) -> 7.0
146. Prazeres desconhecidos (Jia Zhang-ke, 2002) -> 7.5
147. O rio das almas perdidas (Otto Preminger, 1954) -> 8.5
148. Antes só do que mal casado (Bobby e Peter Farrelly, 2007) -> 5.0
149. Os rapazes da banda (William Friedkin, 1970) -> 8.0
150. Dois amigos (Louis Garrel, 2015) -> 6.0
151. Forrest Gump - O contador de histórias (Robert Zemeckis, 1994) -> 8.0
152. Bem-vindo aos 40 (Judd Apatow, 2012) -> 7.0
153. Two nights stand (Max Nichols, 2014) -> 6.0

REVISTOS

Jogo de cena (Eduardo Coutinho, 2007) -> 10.0
Pulp fiction (Quentin Tarantino, 1994) -> 10.0
Senhores do crime (David Cronenberg, 2007) -> 8.5
A era do rádio (Woody Allen, 1987) -> 8.5
O desprezo (Jean-Luc Godard, 1963) -> 10.0

MELHOR FILME: Truman
PIOR FILME: Antes só do que mal casado
MELHOR DIRETOR: Claire Denis, por O intruso
MELHOR ATRIZ: Margit Carstensen, por O medo do medo
MELHOR ATRIZ COADJUVANTE: Marilyn Monroe, por O rio das almas perdidas
MELHOR ATOR: Ricardo Darín, por Truman
MELHOR ATOR COADJUVANTE: Javier Cámara, por Truman
MELHOR ROTEIRO ORIGINAL: Cesc Gay e Tomás Aragay, por Truman
MELHOR ROTEIRO ADAPTADO: Mart Crowley, por Os rapazes da banda
MELHOR TRILHA SONORA: David Lang, por A juventude
MELHOR FOTOGRAFIA: Luca Bigazzi, por A juventude
MELHOR CENA: As verdades de Brenda em A juventude
MELHOR FINAL: A juventude