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segunda-feira, 6 de julho de 2015

Divertida mente, uma viagem emocional e emocionante

Emoção é o que não falta a Divertida mente (Inside out, 2015), mais uma investida da Pixar que merece todas as atenções e créditos. Sem a menor contra-indicação, o enredo da vez congrega cinco sentimentos humanos básicos e lhes dá cor, voz, forma e atitude para ilustrar a confusão que se instaura na cabeça de Riley, uma garota de 11 anos que, subitamente, é avisada pelos pais de que eles terão de se mudar para São Francisco. Assim, Alegria, Tristeza, Raiva, Medo e Repulsa entram em polvorosa, cada qual ditando a tônica emocional de Riley a seu tempo. É muita novidade chegando de uma vez só para alguém que ainda está se despedindo da infância, afinal. 

As escolhas das caracterizações de cada sentimento não parecem aleatórias e aludem facilmente ao que cada um representa, com exceção da Tristeza, que carrega consigo o azul, cor que mais especificamente os falantes de inglês associam a tal sentimento. Eles chegaram a nomear um estilo musical lamentoso de blues. No caso do português, o azul transmite a ideia diametralmente oposta, além de ser ligado a um estado pacífico. As demais emoções apresentam tons que se mostram icônicos para além da cultura estadunidense: a Raiva é de um vermelho vivo que se encaixa na expressão vermelho de raiva, a Repulsa é verde como a representação dos maus cheiros em desenhos animados, o Medo é lilás, uma cor fria que pode remeter ao extremo desconforto. A Alegria, por sua vez, é a única que tem várias cores, e não poderia haver representação melhor para um sentimento que é sempre o lado positivo de tudo.

Entretanto, esses são os detalhes mais óbvios da arquitetura dramática cuidadosamente pensada em Divertida mente, cujo título nacional carrega um trocadilho um tanto reducionista, já que, lá pelas tantas, Riley perde justamente a capacidade de achar qualquer coisa divertida. O roteiro assinado por Peter Docter e Michael Arndt semeia reflexões ao longo de pouco mais de uma hora e meia, oferecendo um painel de várias memórias de Riley, reunindo momentos de sua vida de bebê, a cumplicidade e o carinho com os pais e os amigos. Todos esses episódios geraram sentimentos predominantes, e eles vão para a memória de longo prazo dentro de globos que têm a cor do sentimento mais forte em cada um. São esses e outros pequenos e grandes achados que tornam o filme um dos mais lapidares do universo da Pixar, que vem se especializando em voos cada vez mais altos e em textos e temas que não se restringem às crianças.


O diálogo com a Psicanálise também é notável, mas o longa não se mostra como uma tese ou um estudo mais profundo sobre o campo das emoções, o que implicaria em dois aspectos incômodos e desnecessários: a pretensão e o didatismo. Há certas passagens um pouco mais esclarecedoras no texto, sobretudo nas falas da Alegria, mas só o bastante para não perder de vista que se trata de uma produção concebida inicial e preferencialmente para a audiência infantil. É curioso reparar as saídas encontradas pelo roteiro para dar conta de expressar visualmente elementos tão intangíveis como os sentimentos, e há uma sequência especialmente feliz nesse tocante: a travessia da sala da abstração. A essa altura, a Alegria e a Tristeza estão tentando retornar à sala de comando e já conheceram Bing Bong, amigo imaginário de Riley esquecido após a primeira infância. Incapaz de ler e interpretar a palavra PERIGO, o simpático personagem convence as outras a passar por ali.

Uma vez dentro da tal sala, os três experimentam uma série de transformações que os vão deixando cada vez mais abstratos e, exatamente por isso, mais difíceis de identificar e expressar em palavras. De personagens tridimensionais, eles passam a figuras achatadas e, posteriormente, viram apenas riscos coloridos. Traduzida para o universo real, a cena pode ser perfeitamente lida como uma alusão aos dias que todos nós temos em que os sentimentos se embaralham e fica praticamente impossível se referir a eles com palavras - que também são uma forma de codificação, vale lembrar. É ou não é uma sacada genial e inventiva? Portanto, os grandes protagonistas de Divertida mente são os sentimentos, e Riley acaba como uma espécie de suporte para que eles mostrem suas facetas e ganhem o espectador. Até mesmo a Tristeza é cheia de carisma, com sua aparência nerd e o jeito prestes a desabar em cada cena.

A cabeça dos pais também chega a ser visitada na cena em que eles indagam Riley sobre o primeiro dia na nova escola. A mãe, exercendo seu papel de modo típico, demonstra interesse por essa etapa importante na vida de menina, enquanto o pai cultiva um olhar perdido e despreocupado. Após um discreto sinal da esposa, ele é despertado de uma espécie de transe, e suas respectivas salas de comando tentam estabelecer algum tipo de comunicação não-verbal. É quando emerge a clássica demarcação de diferença entre homens e mulheres: estas, mais atentas aos detalhes e mais emotivas, aqueles, mais práticos e de poucas palavras. Não deixa de ser uma perspectiva um tanto estereotipada em certa instância, mas ainda assim é representativa de muitos casais, que se queixam justamente dessas visões de mundo destoantes no relacionamento. 

Divertida mente é, no fim das contas, uma viagem emocional e emocionante. Esse jogo de palavras bastante simples é também eficaz para se referir ao longa dirigido pela dupla Peter Docter (que usa seu apelido Pete nos créditos) e Ronaldo Del Carmen. O primeiro é responsável pelo delicioso Up - Altas aventuras (Up, 2009), e quem já conferiu e gostou desse vai saber muito bem que é um item e tanto no currículo. Docter sabe dosar aventura e ternura, palavras cuja rima nem sempre é aproveitada em termos de narrativa. Mais uma vez, o estúdio pisa em um terreno universal, e oferece a deixa para uma conclusão interessante, a ser comprovada mediante observação do cotidiano: o quinteto de sentimentos presente numa criança evolui para outros mais complexos, formando uma rede que, em grande parte, traduz o que é ser humano.

quinta-feira, 2 de julho de 2015

BALANÇO MENSAL - JUNHO

E lá vamos nós a mais um balanço mensal! Enquanto não consigo abastecer o blog com novas críticas, resultado de um misto de tempo escasso com certa exaustão mental, ao menos compartilho com meus seis leitores o que tenho visto ao longo de mais um mês. Junho foi super especial porque trouxe consigo duas notas 10, em um ano que tem sido parco na cotação máxima. Os responsáveis pelos filmes que valeram tal nota foram Sidney Lumet, Peter Docter e Ronaldo Del Carmen. Completando o pódio da vez, surge Blake Edwards, em uma comédia bem melhor que a anterior sua que tinha visto.

Mas eles estiveram acompanhados por outros nomes de peso, alguns dos quais eu já não convidava a fazer parte do meu percurso cinéfilo há vários meses ou até anos. Os nomes que merecem destaque dessa vez são Howard HawksMiloš Forman, Rainer Werner Fassbinder, Alfred Hitchcock e Takashi Miike. Nem todos me trouxeram novos exemplares mravilhosos de suas filmografias, mas são dignos de atenção por algum elemento interessante em suas propostas conferidas dessa vez. Seguem os integrantes do meu junho diante da tela:

MEDALHA DE OURO



Divertida mente (Peter Docter e Ronaldo Del Carmen, 2015)

Faço questão de escrever uma crítica completa para o filme, que pretendo publicar em breve (assim que estiver pronta...). 

Atualização: a crítica foi escrita e está disponível logo acima dessa postagem ou nesse link.

MEDALHA DE PRATA



Rede de intrigas (Sidney Lumet, 1976)


Os bastidores televisivos em toda a sua sordidez são a tônica do melhor trabalho de Sidney Lumet (e olha que estamos falando de um diretor com numerosos acertos ao longo da carreira). Atirando no que viu e acertando o que não viu, o apresentador de um telejornal anuncia seu suicídio ao vivo depois de ter sabido de sua demissão e eleva a audiência do programa a níveis apetitosos para os executivos, que não hesitam em alçá-lo à condição de arauto da desesperança e da indignação. A narrativa é verborrágica e não faltam monólogos e diálogos de arrepiar, e um exemplo de cada é o discurso do ex-demitido sobre a podridão da TV e a constatação de um outro personagem sobre a deterioração moral de uma das diretoras do jornalístico. Uma obra-prima memorável, senhores.

MEDALHA DE BRONZE


Um convidado bem trapalhão (Blake Edwards, 1968)

Despreze o título nacional (ou divirta-se também com ele) e embarque na proposta tresloucada dessa comédia de costumes em que, a cada vez que o bizarro ganha mais espaço, mais hilária fica. Especialista em construir tipos, Peter Sellers é o tal convidado que nomeia o filme em português, um ator indiano que sempre mete os pés pelas mãos e gera situações que vão do desconforto ao caos generalizado. Com a ação transcorrendo quase inteiramente na festa para a qual ele não havia sido convidado - surge apenas um prólogo que contextualiza o jeito de ser atrapalhado dele -, Edwards deita e rola mostrando o quanto a sociedade pode ser ridícula. Até um elefante pintado com mensagens de teor questionável dá as caras lá pelas tantas!

INÉDITOS

LONGAS:


1. Nada é para sempre (Robert, Redford, 1992) ->7.0
2. Antes de partir (Rob Reiner, 2007) -> 6.0
3. Gloria (Sebastian Lelio, 2013) -> 8.5
4. Rota de fuga (Mikael Håfström, 2013) -> 7.0
5. Brincando de seduzir (Ted Demme, 1996) -> 6.0 
6. Tomorrowland: Um lugar onde nada é impossível (Brad Bird, 2015) -> 6.5
7. O livro de Eli (Albert e Allen Hughes, 2010) -> 7.5


8. A condessa de Hong Kong (Charles Chaplin, 1967) -> 8.0 
9. Ponte aérea (Julia Rezende, 2015) -> 8.0
10. O grande ano (David Frankel, 2011) -> 4.0
11. O teste decisivo (Takashi Miike, 1999) -> 7.0
12. Permanência (Leonardo Ciasca, 2014) -> 7.5
13. Mamãe é de morte (John Waters, 1994) -> 7.0
  14. Por falar de amor (Fred Schepsi, 2013) -> 7.0
15. Cássia Eller (Paulo Henrique Fontenelle, 2014) -> 7.5


16. Marnie - Confissões de uma ladra (Alfred Hitchcock, 1964) -> 7.0
17. A ilha dos milharais (George Ovashvili, 2014) -> 8.5
18. Quando estou com Marnie (Hiromasa Yonebayashi, 2014) -> 8.0 
19. Performance (Donald Cammell e Nicolas Roeg, 1970) -> 6.0
20. Love (William Eubank, 2011) 6.0
21. As lágrimas amargas de Petra von Kant (Rainer Werner Fassbinder, 1972) -> 8.0
22. O golpista do ano (Glenn Ficarra e John Requa, 2009) -> 7.0 
23. O homem que amava as mulheres (François Truffaut, 1977) -> 6.0
24. De cabeça erguida (Emmanuelle Bercot, 2015) -> 8.0
25. O prisioneiro do rock (Richard Thorpe, 1957) -> 7.0


26. Os idiotas (Lars Von Trier, 1998) -> 6.0
27. Cala a boca, Philip! (Alex Ross Perry, 2014) ->6.0
28. As três faces de Eva (Nunnally Johnson, 1957) -> 8.0
29. Amor para sempre (Roger Michell, 2004) -> 7.0
30. Enquanto somos jovens (Noah Baumbach, 2014) -> 7.0
31. A delicadeza do amor (David e Stéphane Foenkinos, 2011) -> 8.0
32. Os homens preferem as louras (Howard Hawks, 1953) -> 8.5
33. Enigma de uma vida (Frank Perry, 1968) -> 7.5
34. Jogo de amor em Las Vegas (Tom Vaughn, 2008) -> 6.0


35. Rede de intrigas (Sidney Lumet, 1976) -> 10.0
36. Os amores de uma loura (Miloš Forman, 1965) -> 8.0
37. Broken (Rufus Norris, 2012) -> 7.0
38. Cake - Uma razão para viver (Daniel Barnz, 2014) -> 7.5
39. Um convidado bem trapalhão (Blake Edwards, 1968) -> 9.0
40. Os suspeitos (Bryan Singer, 1995) -> 7.0
41. Divertida mente (Peter Docter e Ronaldo Del Carmen, 2015) -> 10.0


CURTAS:

Um pequeno grande erro (Angus MacLane, 2011) -> 7.5
Lava (James Ford Murphy, 2014) -> 7.5

REVISTOS


Embriagado de amor (Paul Thomas Anderson, 2002) -> 8.5
Um misterioso assassinato em Manhattan (Woody Allen, 1993) -> 10.0

MELHOR FILME: Divertida mente
PIOR FILME: O grande ano
MELHOR DIRETOR: Sidney Lumet, por Rede de intrigas
MELHOR ATRIZ: Paulina Garcia, por Gloria
MELHOR ATOR: Peter Sellers, por Um convidado bem trapalhão
MELHOR ATRIZ COADJUVANTE: Faye Dunaway, por Rede de intrigas
MELHOR ATOR COADJUVANTE: Catherine Deneuve, por De cabeça erguida
MELHOR ROTEIRO ORIGINAL: Rede de intrigas
MELHOR ROTEIRO ADAPTADO: A delicadeza do amor
MELHOR FOTOGRAFIA: Divertida mente
MELHOR TRILHA SONORA: Divertida mente
MELHOR CENA: O diálogo da reta final de Rede de intrigas
MELHOR FINAL: Divertida mente