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sexta-feira, 31 de maio de 2013

Depois de maio, um belo retrato de uma juventude instável


As reações inflamadas que tornaram o mês de maio de 1968 emblemático já passaram. Entretanto, ainda existe uma juventude inquieta, sobre a qual paira uma vontade de gritar aos quatro ventos os seus reais anseios, mesmo que, para isso, seja necessário transgredir tudo o que conhecem como tradição. Em algum lugar não muito distante de Paris, esse grito de liberdade ainda ecoa e impele moças e rapazes de pouco menos de 20 anos a proferir seus discursos contrários a toda uma ordem estabelecida há décadas. Esses são o cenário e o momento em que transcorre Depois de maio (Après mai, 2012), dirigido por Olivier Assayas e exibido na mostra competitiva do 65º Festival de Cannes.

De forma explícita, o realizador parisiense volta a se debruçar sobre a temática da juventude em busca de seu lugar no mundo, que havia comentado no belíssimo Água fria (L’eau froide, 1994). Até mesmo nos nomes dos protagonistas, ele deixa notório esse diálogo, uma vez que os repete aqui. Gilles (Clément Métayer) e Christine (Lola Créton), a princípio, não têm muito contato um com o outro, embora compartilhem as mesmas aspirações, sobretudo no tocante ao engajamento político. É justamente esse aspecto que os tornará cada vez mais próximos, até que iniciem um relacionamento amoroso. Até esse momento chegar, entretanto, Gilles está apaixonado por uma outra garota, com a qual sonha dividir a vida, em um sentimento de eternidade comum na sua faixa etária. Mas ela vai se distanciando progressivamente, até que parte, incerta quanto ao amor que sente por ele.

Assim, entre reuniões para discutir os eventos que vão ocorrendo na política da nação e invasões à escola para pichar muros na calada da noite, Gilles e Christine descobrem o amor um pelo outro. E Assayas vai mostrando o seu olhar carinhoso para uma geração que carregou consigo a honra e o fardo de tentar mudar o mundo, rompendo barreiras que, até então, outros não tinham criticado com tamanha veemência. Não deixa de ser uma viagem de retorno do cineasta à sua própria adolescência, já que ele tinha seus 13 anos à época em que as barricadas e demais reações explosivas ao Sistema ocorriam. Porém, seu percurso que mescla História e ficção está longe de colocar os jovens daquele tempo em um relicário. Depois de maio está longe de ser um filme romântico: antes, levanta questionamentos e mostra mais de um lado, permitindo ao espectador analisar o que vai acontecendo na tela evitando ao máximo uma postura tendenciosa.



Não faltam dilemas para Gilles e Christine. Como os personagens principais de Água fria, eles precisam exercitar sua capacidade de decisão e, aos poucos, vão se dando conta de que podem escolher atitudes, mas não podem se decidir quanto as consequências. Exatamente por isso, aproximam-se de tantos outros jovens retratados com igual brilhantismo por outros diretores tarimbados, como o François (Louis Garrel) e a Lilie (Clotilde Hesme) de Amantes constantes (Les amants réguliers, 2005) e o Mark (Mark Frechette) e a Daria (Daria Halprin) de Zabriskie point (idem, 1970). De Michelangelo Antonioni e Philippe Garrel, passando pelo Bernardo Bertolucci de Os sonhadores (The dreamers, 2003), não faltam realizadores que se utilizaram das encruzilhadas juvenis como matéria-prima para obras de qualidade inenarrável. Por suas qualidades artísticas e técnicas, Depois de maio vem se somar a toda essa produção pregressa, bebendo de uma fonte transbordante que, em última instância, é um nicho perene para o meio cinematográfico, sendo raros os exemplos em que, ao mirar sobre o assunto, cineastas foram infelizes em sua condução.

Outra virtude louvável que o filme apresenta é a paixão que lhe está subscrita. Não faltam passagens em que Assayas flagra a intensidade com que esse sentimento se manifesta entre os jovens, para os quais o tempo vai passando e transformando suas convicções que, a princípio, mostravam-se tão inabaláveis. Gilles, Christine e todos os demais jovens que orbitam ao seu redor experimentam uma das máximas que as gerações mais velhas adoram repetir, a de que, cedo ou tarde, a ânsia de mudar o mundo se dissipa. Talvez o próprio diretor tenha sentido o mesmo em sua pele, e transformou novamente essa constatação em Cinema, ainda que conserve em sua direção e em seu roteiro o ímpeto de ser e fazer, outra notória característica juvenil. O que resta, então, é a consciência de se estar diante de um longa que observa ideologias e engajamento perdendo o sentido. Enquanto se dilui a revolução, jovens sonhadores e amantes inconstantes se perdem (ou se encontram) no emaranhado de escolhas.

quarta-feira, 29 de maio de 2013

O abismo prateado: sobre desespero e abandono


Karim Aïnouz tem uma predileção declarada por sujeitos deslocados. A cada novo filme, o realizador cearense volta a enfocar um personagem cujo grau de incômodo com sua própria condição é tamanho que o obriga ao movimento constante. Tem sido assim em O céu de Suely (idem, 2006), no qual uma garota pobre se sente melhor na estrada do que em um ponto geográfico fixo, e em Viajo porque preciso, volto porque te amo (idem, 2009), cujo protagonista, de rosto jamais revelado, se perde e se encontra Brasil adentro e estrada afora. São pessoas para quem o chegar e o partir dizem e importam muito mais do que o permanecer e, com isso, andam pelo mundo atentos a cores, sons, texturas, sabores e aromas, num exercício intenso dos cinco sentidos. Em comum, também trazem consigo as rachaduras de um coração ferido em seu ardor amoroso.

Em O abismo prateado (idem, 2011), verificam-se os mesmos índices, que já podem ser apontados como tipificadores da filmografia de Aïnouz, novamente trabalhados com economia narrativa exemplar e longos instantes de contemplação. Violeta (Alessandra Negrini) experimentou a felicidade – ao menos em seu conceito – em seu casamento com Djalma (Otto Jr.), amando-o e desejando-o como uma mulher que valoriza o homem que está por perto. Entretanto, ele já não está mais na mesma sintonia que ela, mas não tem coragem de expor face a face essa nova sensação. Fica nítido que algo está fora do seu lugar nas primeiras cenas do longa, que trazem o ato sexual dos personagens, ao qual Violeta se entrega com muito mais volúpia e intensidade do que ele, em um prazer quase solitário. Depois, iniciam seus afazeres diários: ele toma seu banho e ela o beija através do vidro, em uma sequência que evoca a Irreversível (Irreversible, 2002), e, em seguida, aguarda-o para o café da manhã, que ele já não compartilha com ela.

Apenas algumas horas depois, Violeta começa a entender o que seus olhos não viam nem seus ouvidos ouviam: seu marido deixou de amá-la e decidiu ir embora antes que eles façam um ao outro infeliz, segundo o próprio. O meio pelo qual Djalma escolhe comunicar sua decisão é um dos piores possíveis: uma mensagem de voz deixada no celular da esposa. Exposta a essa terrível verdade, a protagonista, aos poucos, imerge em um abismo sentimental em que não faltam lágrimas, justificando o título do filme. Então uma dentista atenciosa e talentosa, ela se torna incapaz de se concentrar no trabalho, perdendo o chão e a vivacidade em seu olhar. Tudo o que lhe resta, naquele momento, é a constatação do abandono, que a faz experimentar diferentes fases de reação, da usual negação à conduta resignada, passando pela tristeza profunda.



O drama de Violeta é, ao mesmo tempo, íntimo e universal. Em sua busca pela superação de uma dor tão abstrata, ela caminha sem rumo, entra em um táxi, volta para casa e sai novamente. O importante é não deixar de se movimentar, talvez porque, enquanto se move, ela pensa mais no movimento em si do que no fator que o desencadeou. Toda a ação transcorre em um único dia, e esse recorte temporal, naturalmente, permite vislumbrar apenas parte da vida dessa mulher combalida. Aïnouz é um cineasta de omissões, que deixa a cargo do espectador uma série de inferências, entre elas, identificar o que levou Djalma a mudar radicalmente seus sentimentos pela esposa. O personagem aparece somente no início do filme, e permanece como um grande mistério a ser desvendado até o fim dos enxutos 83 minutos de narrativa. Aquele homem é um estranho para o público, e também se torna um estranho para Violeta.

Parte da inspiração para O abismo prateado vem da canção Olhos nos olhos, de Chico Buarque, da qual seria homônimo. Porém, vendo que se afastava da letra da música, Aïnouz decidiu rebatizar seu filme, o que, de certa maneira, contribuiu para que ele ganhasse um pouco mais de identidade própria. Assim, é um engano pensar que o filme possa vir a ser uma versão audiovisual da composição musical, cujos versos mais famosos declaram a tentativa sôfrega de uma mulher abandonada de parecer recuperada aos olhos do ex-amante: Quando você me quiser rever / Já vai me encontrar refeita, pode crer / Olhos nos olhos, / Quero ver o que você faz / Ao sentir que sem você eu passo bem demais. Não há problema algum no fato de o longa não seguir à risca sua principal matriz. Nas mãos de um diretor talentoso como Aïnouz, a história tem força o bastante para caminhar sozinha e se valer apenas de alguns trechos.

Há que se lamentar o incrível atraso com o que a produção foi lançada nos cinemas brasileiros. Pronto desde 2011, o filme encontrou imensas dificuldades no circuito comercial, sempre tão intumescido de arrasa-quarteirões, e iniciou sua carreira no 64º Festival de Cannes, incluído na Quinzena dos Realizadores, que funciona como uma vitrine para novos cineastas, o que seria o caso de Aïnouz em solo francês. No mesmo ano, Trabalhar cansa (idem, 2011) também foi selecionado para o festival, sendo incluído na mostra paralela Um Certo Olhar e dividindo com esse singelo drama a função de representar o Brasil em plena Croisette. A cena mais emblemática da busca interior de Violeta é a que mostra sua dança em uma boate. Iluminada pelas luzes estroboscópicas do lugar, ela vive sua catarse, expurgando a tristeza e buscando um renovo, que dali para frente, torna sua condição menos penosa. O abismo prateado merece ser saudado como uma bela meditação sobre o quanto o amor pode estabilizar e orientar quem o sente, bem como sua ausência produz o efeito contrário.

quinta-feira, 16 de maio de 2013

Alguns caminhos do Cinema em A visitante francesa


Milimetricamente pensada, a narrativa de A visitante francesa (Da-reun na-ra-e-suh, 2012) é um convite irresistível para entusiastas da metalinguagem. Cada detalhe conta na história de uma estudante de Cinema que está passando alguns dias em um balneário entranhado na costa sul-coreana e decide inventar três roteiros diferentes a partir de uma mesma personagem. Anne (Isabelle Huppert) é a tal protagonista desses enredos e, em cada caso, assume traços de personalidade e ocupações distintos, os quais servem a intenções e desdobramentos levemente destoantes entre si. Ao apresentar essa premissa para seu espectador, o cineasta Hong Sang-soo explicita a estrutura básica de seu longa: o tédio da jovem roteirista é o prefácio de uma trama que se desdobra em três atos cuja conexão se dá pela presença dos mesmos personagens que giram em torno da protagonista exercendo funções e ocupando posições diferentes em cada um.

Então, conhecemos a primeira leitura da história, em que Anne é uma cineasta que se hospeda em uma singela pousada por alguns dias com o intuito de espairecer. Apesar de suas vestes despojadas, é uma mulher que transparece umas certas sofisticação e impavidez no modo como transita entre os moradores do local. Na segunda variação do roteiro, a mesma Anne é uma mulher casada vivendo um caso extraconjugal que espera pelo amante no tal balneário e rapidamente se aflige com a sua demora em chegar ali. A terceira e última história traz uma Anne tentando se refazer depois que o marido a trocou por uma sul-coreana mais nova. As constantes desses atos são rapidamente percebidas: Anne não sabe a língua materna de seus interlocutores e se comunica com eles em inglês, o que gera limitação nos diálogos que ela trava com um salva-vidas, o dono da pousada, sua esposa e uma funcionária do local.

O tempo inteiro, portanto, os personagens falam uma língua que não é sua, e tentam expressar emoções que, no fundo, sempre caem melhor em seus idiomas nativos – um xingamento ou uma declaração de amor na sua própria língua sempre será mais convincente e catártica do que em uma língua estrangeira. Decorre desse uso uma série de pequenos incidentes comunicativos ora cômicos, ora aflitivos, normalmente causados por desconhecimento de uma ou outra palavra em inglês, sobretudo pelo salva-vidas. Quando, na primeira história, ele mostra a Anne a canção que escreveu em sua homenagem, por exemplo, sua dificuldade com a língua inglesa fica patente, já que ele não consegue ir além de alguns versos e não encontra rimas para todos eles. O resultado é uma letra improvisada e tímida que poderia ter feito por qualquer criança recém-alfabetizada: o conteúdo é razoável, mas cheio de sentimento sincero.



Por causa da construção meticulosa de suas tramas, Sang-soo é apontado pela crítica como praticante de um Cinema tributário de Eric Rohmer. Basta conhecer um pouco da filmografia do saudoso realizador francês, morto em 2010, para enxergar pertinência nesse cotejo. De fato, o sul-coreano mostra um forte apego a produções minimalistas que se atêm a repetições e coincidências prosaicas e verossímeis, encaixando reflexões sobre a dificuldade masculina na expressão de suas emoções. É o que acontece em Hahaha (idem, 2010), seu filme anterior lançado no Brasil com um longo atraso, e neste A visitante francesa. Ainda que Huppert possa ser encarada como a protagonista do longa, suas personagens, no fundo, deixam entrever homens um tanto desastrado no terreno do amor, e o salva-vidas é o exemplo magno dessa característica em cada uma das histórias. Vários são os exemplares rohmerianos que trazem personagens masculinos enredados em nós sentimentais, como o Jean-Louis (Jean-Louis Trintignant) de Minha noite com ela (Ma nuit chez Maud, 1969) e o Jêrome (Jean-Claude Brialy) de O joelho de Claire (Le genou de Claire, 1970), duas pérolas de sua extensa e deliciosa obra.

O modus operandi utilizado por Sang-soo também se revela atraente no que tange aos aspectos técnicos. Em várias sequências, sua câmera apresenta espaços abertos e vislumbra Anne a uma certa distância para, segundos depois, focalizá-la com precisão e deixar transparecer os seus anseios. O expediente também é utilizado nas três histórias, assim como a repetição de alguns objetos cênicos que apenas trocam de posição a cada roteiro pensado pela jovem do preâmbulo. Um desses objetos é um guarda-chuva, que exerce funções diferentes nas histórias e sempre é gentilmente oferecido a Anne pela funcionária do balneário. Com isso, torna-se uma brincadeira divertida pescar os rearranjos promovidos pela jovem, uma espécie de alter ego do cineasta, bem como o uso que ela faz do bom e velho Deus ex machina em cada situação. Mais do que um diretor, Sang-soo é um talentoso geômetra da condição humana, confundindo e explicando cena após cena e reafirmando a validade do seu Cinema como porta de entrada para um mundo de reflexões metalinguísticas em caminhos e descaminhos.

terça-feira, 14 de maio de 2013

Em um mundo melhor, uma reflexão sobre ética e justiça


A temática sobre a qual versa Em um mundo melhor (Hævnen, 2010) é das mais urgentes para os dias atuais: o conceito, por vezes flutuante, de justiça e, por conseguinte, do que pode vir a ser considerado como ética. Narrada comedidamente, a trama do filme de Susanne Bier está centrada inicialmente em Christian (William Jøhnk Nielsen), um garoto recém-chegado à adolescência que está lidando com a morte da mãe em decorrência de um câncer. Resta a ele somente o pai. Nos poucos momentos que passa com o filho, Claus (Ulrich Thomsen) é bastante amoroso e dedicado, mas não consegue (e, no fundo, nem poderia), preencher a lacuna deixada pela ausência da esposa, o que o leva a enfrentar o ressentimento de Christian, que chega a acusá-lo de ter desistido de lutar pela vida da mãe.

Em paralelo, é apresentada a figura de Elias (Markus Rygaard), um menino cujo porte quase raquítico faz dele uma vítima constante de zombaria entre os alunos mais velhos do colégio em que estuda. Ele é filho de Anton (Mikael Persbrandt), um médico que passa a maior parte do tempo colocando em prática seus conhecimentos com vidas acostumadas a uma realidade miserável. Diante dos ataques desses garotos, ele não consegue adotar uma postura de enfrentamento e, invariavelmente, sofre agressões verbais e físicas. Inicialmente separadas, as histórias de Christian e Elias se encontram quando o primeiro vai para o colégio do segundo e não se conforma com a injustiça praticada diante dos seus olhos. Ainda que seja somente um pouco mais forte que Elias, Christian intervém no escárnio sofrido por ele e o defende com bravura, fazendo questão de mostrar que está ali para impedir que os abusos continuem. Aos poucos, nasce uma sincera amizade entre os garotos, que encontram, na companhia um do outro, algum tipo de conforto e atenção.

À medida que vão se conhecendo melhor, Christian e Elias conhecem as famílias um do outro e demonstrando o quanto cada um se assemelha ao seu genitor, embora haja diferenças fundamentais no modo como eles encaram alguns fatos da vida. Anton é um homem pacífico, que sempre buscou mostrar ao filho o quanto é importante optar pela brandura em situações de conflito. Entretanto, não é essa a alternativa que o garoto considera válida, e sua crença em uma outra atitude é revelada num episódio em que o pai sofre um ataque de um mecânico por conta de um conserto de seu carro. Mesmo diante de um tapa na cara, a postura de Anton é a de não revidar, sob pena de dar início a uma espiral de violência. O modo com o qual ele reage à situação causa revolta em Christian, que começa a pensar em uma represália para aquele sujeito. A partir daí, Em um mundo melhor deixa sobressair a discussão apontada inicialmente como seu mote, e demonstra sua capacidade despertar reflexões sobre o que é justo em uma situação de clara injustiça. Anton deveria ter retribuído a agressão do mecânico, segundo o raciocínio de Christian. Isso sim seria dar ao homem o que ele merecia. O adolescente pensa o mesmo a respeito dos detratores de seu novo amigo, e também deseja dar o troco para os deboches que Elias vem sofrendo.



Os rumos da trama daí para frente acabam se revelando preocupantes e servem para ilustrar nitidamente o quanto o mundo adulto é cheio de complexidades que, aos olhos dos adolescentes, podem ser resolvidas de forma direta, sem meios termos. Do inconformismo de Christian, nasce um ímpeto violento que desencadeia ações prejudiciais a quem está ao seu redor, e ele mesmo acaba experimentando as consequências penosas de suas medidas drásticas. Bier, portanto, faz de Em um mundo melhor um filme oportuno e com muito a dizer e questionar sobre os valores que são incutidos nas mentes juvenis, sobretudo indiretamente. Anton é um homem cujo discurso encontra respaldo em suas atitudes, mas isso não se mostra o suficiente para convencer o filho, acostumado a uma lógica de combater um incêndio com produtos inflamáveis. Elias, por sua vez, é enredado por essa linha de pensamento e se torna, a um só tempo, testemunha e coautor de graves delitos.

Sem fechar, necessariamente, a discussão em uma resposta, a cineasta prefere se manter como observadora atenta de causas e efeitos nos cotidianos tumultuados de seus jovens protagonistas. Cabe ao espectador avaliar as resoluções de cada personagem com base em seus critérios particulares, bem como dos que todos devemos compartilhar. A pergunta que reverbera ao longo da história talvez seja: até que ponto é possível exercitar a bondade sem ser tomado pelo desejo de revidar o mal? As respostas podem variar em tempos como os nossos, tão corrompidos por uma ética podre, em que a boa índole, por tantas vezes, soa deslocada. Para alguns, é mais que o bastante ser gentil com quem oferece gentileza: ir além disso significa ser idiota. Com seu olhar generoso, porém, Em um mundo melhor aponta sutilmente outro caminho, melhor, mais nobre, o qual vale a pena ser percorrido.

AVALIAÇÃO: ****

quinta-feira, 2 de maio de 2013

Balanço Mensal - ABRIL

Com o fim de mais um mês, chega o momento de fazer uma retrospectiva de todos os filmes vistos  no período acompanhados de suas respectivas notas. Abril se mostrou um mês com ótimas escolhas no geral, sobretudo nas idas ao Cinema. A visitante francesa, de Hang Song-Soo, e O abismo prateado, de Karim Aïnouz, foram dois dos melhores filmes do mês, ambos vistos na tela grande. O outro melhor filme acabou sendo visto em DVD: O medo devora a alma, meu primeiro Rainer Werner Fassbinder. Portanto, comecei a visitar a filmografia do realizador alemão morto precocemente com o pé direito. E que venham outros bons filmes seus.
 
Por outro lado, houve alguns desapontamentos, e o maior deles foi com O vento nos levará, de Abbas Kiarostami. Com esse terceiro exemplar de seu Cinema passado em sua terra natal, pude me dar conta de que até gosto de seus filmes ambientados no Irã, mas ele ficou mais interessante quando rompeu fronteiras e rodou Cópia fiel e Um alguém apaixonado. Outro que tinha uma premissa empolgante e acabou enfadando foi Budapeste, estreia de Walter Carvalho na direção de longas ficcionais. A adaptação do romance homônimo de Chico Buarque soou como um desagradável exercício de pedantismo.
 
À parte esses extremos positivos e negativos, os demais filmes foram apenas bons ou muito bons, dentro de um horizonte de expectativas quase totalmente contemplado. Foi o caso de Três homens em conflito, último tomo da Trilogia dos Dólares de Sergio Leone, e A teia de chocolate, de Claude Chabrol, com uma Isabelle Huppert atuando numa espécie de zona de conforto.
 
Abaixo, é possível conferir a lista completa dos filmes que vi, suas notas e um brevíssimo comentários que, de certa forma, as justificam. Logo em seguida, os melhores do mês nas categorias que julgo mais importantes e, portanto, dignas de destaque.
 
LONGAS:

1. Mama (2013), de Andy Muschietti - 6.0
 
Os bons sustos fazem jus a gênero e compensam os furos básicos do roteiro. De quebra, prova a versatilidade de Jessica Chainstain, quase irreconhecível como a garota descolada cuja visão se transforma.

2. As estranhas coisas de Paris (1956) - 5.0
 
Frívolo como a típica aristocracia, desanda por investir em uma abordagem rocambolesca dos conflitos. A sátira, por sua vez, é tão discreta que perde seu efeito. 

3. Desde que Otar partiu (2003) - 8.0 

Desde que Otar partiu (2003)
 
 
Uma narrativa guiada pela delicadeza que investiga as derivações de uma mentira e descortina uma Europa longe de qualquer edulcoração. Apostando no minimalismo em suas interpretações, o trio ganha a empatia e a compreensão do público.
 
4. Vejo você no próximo verão (2010) - 7.0
 
É sobre gente comum e seus problemas de relacionamento, sem firulas nem floreios e tendo como norte a introspecção quebrada por raros e fundamentais instantes catárticos.
 
5. O céu de Suely (2006) - 8.5
Quando partir importa mais do que chegar.
 
6. Swimming pool - À beira da piscina (2003) - 7.5
 
De uma premissa simples, Ozon extrai desdobramentos que prendem a atenção, mesmo que aposte em uma reviravolta banal demais. Sagnier, por sua vez, é a encarnação da luz solar com sua desinibida Julie.

7. A visitante francesa (2012) - 9.0

Com sua geometria analítica, Sang-soo depura a lógica que parece subjazer às relações humanas, brincando de traçar linhas descontínuas e, ao mesmo tempo, contíguas, sobre a deriva dos sentimentos.

8. O retorno (2003) - 8.0  
O retorno (2003)

Sob um filtro plúmbeo, aspereza e silêncios se alternam em uma narrativa lacunar, sempre aberta a inferências. Uma louvável estreia de um realizador em franco diálogo com Tarkovsky e um elenco em portentosas interpretações.

 

9. Trinta anos esta noite (1963) - 8.0

O caminhar solitário por entre as gentes.

10. O vento nos levará (1999) - 5.5

Abraça o hermetismo e se revela um círculo vicioso de comunicações truncadas, um tema habitual na filmografia do realizador. Não fossem alguns pequenos momentos, seria uma obra demasiado genérica.

11. Budapeste (2009) - 4.0

A composição imagética esmerada se sobressai à trama: gélida, distante e tediosa. Não basta uma bela forma se o conteúdo recebe um tratamento inócuo.

12. Três homens em conflito (1966) - 7.0

A pontaria afiada do Pistoleiro Sem Nome continua rendendo bons tiros nesta nova aventura em que esperteza nunca é demais. Um bom desfecho para uma trilogia capaz de conquistar mesmo quem não morre de amores pelo western spaghetti.

13. Thelma & Louise (1991) - 6.0 
Thelma & Louise (1991)

Cada vez mais loucas, Thelma e Louise dirigem estrada afora sem medo de assumirem riscos. Nessa jornada insana, o brilho é todo de Sarandon e Davis, no auge da boa forma e exalando química em cena. Pena que o roteiro, por vezes, não colabore.

14. Kika (1993) - 6.5

Tem momentos hilários, como a armação do roubo, mas se estende na duração e perde o fôlego por volta dos vinte minutos finais. Almodóvar tem melhores.

15. O sacrifício (1986) - 8.0

Diante da iminência do fim, como reagir? Em quê acreditar? Em seu derradeiro longa, Tarkovsky produziu um ensaio desnorteante sobre o crepúsculo da vida.

16. 3 homens e uma noite fria (2008) - 7.0

Amigos para o riso, amigos para o choro.

17. O medo devora a alma (1974) - 9.0

Fassbinder lança um olhar afetivo sobre duas pessoas habituadas à margem e envolve com uma trama simples que, infelizmente, ainda traz muita atemporalidade. O título carrega consigo uma verdade bela e dolorida.

18. Regras da vida (1999) - 8.0

Viver traz sempre grandes lições, e cada uma delas é melhor aprendida quando se tem as próprias experiências, assim como demonstra este belo exemplar de Cinema dramático.

19. A teia de chocolate (2000) - 6.5 
A teia de chocolate (2000)

Um suspense frustrante que tem pouco a dizer e se desenvolve de forma atabalhoada nos minutos finais. Até mesmo Huppert está apenas correta.

20. Maldito coração (2004) - 5.0

O coração é traiçoeiro acima de todas as coisas. Em português, tiraram a melhor coisa do filme: a tradução do título original. Restou uma trama que parece ter sido escrita unicamente para chocar com cenas e atos bizarros.

21. Mister Lonely (2007) - 8.0

Em meio a passagens hilárias (as freiras em queda livre são um achado), relembra que todos são únicos e que a solidão é parte da condição humana. O prólogo e a cena dos ovos são memoráveis nesse sentido.

22. Kansas city (1996) - 6.0

Um Altman à beira da apatia com dois ou três momentos genuinamente irônicos. Sua habitual polifonia se mostra aqui mais dispersa que o esperado.

23. Vocês ainda não viram nada! (2012) - 8.5 
Vocês ainda não viram nada! (2012)


As estripulias de um diretor inquieto e provocativo, que enxerga a vida como uma eterna encenação.

24. Querida, vou comprar cigarros e já volto (2011) - 8.0

Na oferta de retorno ao passado que o protagonista aceita, surge o seu confronto com a própria mediocridade. Cohn e Duprat chamam a atenção com sua mistura de humor amargo e crítica ao nosso tempo.

25. O enigma de outro mundo (1982) - 8.0

A atmosfera de paranoia e sobressalto funciona plenamente, assim como a escolha de Carpenter por um registro que exala certo amadorismo. Suspense de primeira linha

26. A viagem dos comediantes (1975) - 7.0

Um tour de force pelo lado pouco analisado da história de um país cuja cultura antiquíssima pauta ainda hoje o pensamento ocidental. No longo percurso, belas canções e algumas cenas comoventes e revoltantes.

27. A outra Terra (2011) - 8.0

Culpa e remorso correndo em paralelo com uma trama de realismo fantástico que levanta uma instigante questão: como seria lidar com um outro eu? A fotografia azulada injeta beleza ao singelo drama.

28. O abismo prateado (2011) - 9.0

O (des)amor (des)orienta, (des)estabiliza, (des)espera.

CURTAS:

Arena (2009) - 6.0

A conclusão fica por conta do espectador, que testemunha o recorte de um mundo regido pela lei do mais forte desenvolvido de modo cambaleante.

Dimanche (2011) - 8.0

O traço de cores frias dá o tom de uma pequena história sobre a dificuldade das crianças em entender certos rituais dos adultos. Simpático e bem desenvolvido.

MELHOR FILME: O abismo prateado
PIOR FILME: Budapeste
MELHOR DIRETOR: Hong Sang-Soo, por A visitante francesa
MELHOR ATRIZ: Alessandra Negrini, por O abismo prateado
MELHOR ATOR: Erland Josephson, por O sacrifício
MELHOR ATRIZ COADJUVANTE: Samantha Morton, por Mister Lonely
MELHOR ATOR COADJUVANTE: João Miguel, por O céu de Suely
MELHOR ROTEIRO ORIGINAL: Harmony Korine e Avi Korine, por Mister Lonely
MELHOR ROTEIRO ADAPTADO: Beatriz Bracher, por O abismo prateado
MELHOR FOTOGRAFIA: O sacrifício
MELHOR TRILHA SONORA: Jason Spaceman, por Mister Lonely
MELHOR MONTAGEM: A visitante francesa
MELHOR CENA: A dança de Violeta na boate em O abismo prateado
MELHOR FINAL: O sacrifício

MENÇÃO HONROSA: A visitante francesa
MENÇÃO DESONROSA: Maldito coração