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sábado, 28 de setembro de 2013

Hair e os delírios musicados de uma geração

Musicais podem ser muito charmosos quando se investe em uma trama consistente nas quais as canções não são meros adornos. Demonstrando consciência dessa premissa, Milos Forman concebeu Hair (idem, 1979), a versão cinematográfica da peça teatral homônima que se tornou o hino de toda uma geração de alternativos. O longa-metragem se baseia no espírito libertário trazido pela década de 70 e, de certa forma, antecipa os excessos que viriam a se tornar imediatamente associáveis à década posterior com um senso de humor aguçadíssimo. Tudo tem início a partir do momento em que Claude (John Savage), um jovem de Oklahoma, é recrutado para fazer parte da tropa de soldados estadunidenses da Guerra do Vietnã. Logo que chega a Nova York, é recebido por um grupo de hippies cheios de conceitos avessos ao status quo, e eles tentam demonstrar para o rapaz o quanto a sociedade convencional está cheia de problemas. Esse encontro é a deixa para a primeira de muitas canções nada politicamente corretas que pontuam a narrativa, com leves pitadas de reflexão e crítica social. 

Sem dúvida, muito da força de Hair vem de sua trilha sonora brilhante e envolvente, mas o filme não sobreviveria se essa fosse a sua única qualidade. O elenco também tem méritos, e se mostra afiadíssimo nas cenas e nos diálogos mais saidinhos, por assim dizer. Sem falar nas coreografias muito bem orquestradas e executadas, que transformam o contato com o filme em algo equivalente a uma ida a qualquer evento dançante. A mais icônica das canções talvez seja a que faz menção à Era de Aquário, um conceito propalado pelos hippies para se referir a um novo tempo, pontuado pela fraternidade e pelo prazer particular acima de tudo, que ganhou adeptos com alta velocidade. É difícil não se contagiar pela performance dos personagens ao cantá-la e dançá-la, sendo franca demonstração do campo magnético atrativo emanado por Hair. Essa tribo de “bichos-grilos” é liderada por Berger (Treat Williams), que acaba seduzindo Claude a se juntar a eles e a promover deliciosas arruaças cidade afora.

Cumpre destacar que a peça da Broadway serviu de inspiração, mas não de base, para o filme de Forman. Há uma série de apropriações particulares do diretor aqui, desde as canções entoadas até a maneira com que alguns personagens são retratados, passando pela ordem de execução das músicas. Portanto, é uma versão livre e divertida do musical, cuja atemporalidade é atestada pela possibilidade de identificação que o filme pode despertar. Hair não se importa em ser desbocado, e faz frente a certo conservadorismo vigente em seu tempo, o que se trata, a princípio, de uma constatação, não de uma crítica ou um elogio. Por meio de seus números musicais algo ousados, o filme cospe na cara de uma sociedade cínica e pseudopuritana, arrancando gargalhadas pelo inusitado de suas situações. Uma das mais curiosas delas é, sem dúvida, a que mostra o processo de alistamente de Claude e outros jovens no Exército. Durante os procedimentos padrão, surge mais uma canção, que coloca em xeque a sexualidade de boa parte dos militares presentes na cena. Não se pode negar que é uma sequência dotada de um alto grau de senso de humor que, aliás, é uma das cenas-síntese da verve sarcástica que domina o filme.


A escolha de Forman para a direção também se revelou acertada. Ainda no começo da década de 70, o estúdio pensou em George Lucas para assumir o cargo, mas ele já se ocupara com as filmagens de Loucuras de verão (American Graffiti, 1973) e Hair acabou sendo rodado somente seis anos depois. Quando se confere de perto o trabalho do cineasta tcheco, entende-se que ele o desenvolveu muito bem, colocando sua câmera como observadora de um cenários de múltiplas transformações e exibindo um certo carinho no trato com seus protagonistas, verdadeiros paladinos da contracultura. A essa altura, ele já tinha imigrado para o solo estadunidense, onde já tinha assinado e ainda assinaria obras de grande relevância para o cinema tal como esta, entre as quais se podem citar Um estranho no ninho (One flew over the cuckoo's nest, 1975) e O povo contra Larry Flynt (The people vs. Larry Flynt, 1996). Forman também a evita a caricatura e apresenta as contradições de uma juventude que, antes de qualquer coisa, mostrava-se à procura de um lugar no mundo e de uma ideologia à qual se filiar. Tal qual a geração que lhe é precursora, o que faz de Hair uma espécie de primo de segundo grau de longas como Os sonhadores (The dreamers, 2003) e uma sutil inspiração para Aconteceu em Woodstock (Taking Woodstock, 2009).

Em meio à ode dionisíaca proporcionada por Hair, existe espaço para a descoberta do amor e do desejo, que se reflete no interesse crescente de Claude por Sheila (Beverly D’Angelo), que, mesmo parecendo corresponder aos seus sentimentos, hesita em explicitá-los e o leva a um quase inocente jogo de gato e rato. São temas universais que ganham uma roupagem muito bem-humorada, e que, com leveza, seduzem o público atento às histórias bem contadas com um ritmo contagiante, com o perdão do trocadilho. A fotografia, por outro lado, é menos deslumbrante que a da maioria dos musicais, o que não significa afirmar que é descuidada. Para uma trama que visita o ambiente de preparação para a guerra, a escolha por cliques menos alegóricos é sensata e eficiente, e faz o público prestar atenção nos outros elementos comentados aqui. Aliás, a peleja dos novos amigos de Claude é para impedir que ele faça parte do balé cruento que uma guerra como a que os ianques estavam travando contra os vietcongues representava. E, quando Berger consegue se infiltrar no QG dos soldados e resgatar Claude dessa iminência, o filme se aproxima de seu desfecho e inscreve seu nome na galeria de musicais divertidos, reflexivos e relevantes, exibindo os delírios musicados de uma geração.

8/10

terça-feira, 24 de setembro de 2013

50 diretores essenciais (Parte 1)

Elaborar listas é uma tentação constante à qual bons cinéfilos resistem pouquíssimas vezes. Comigo, não é diferente, e aqui começa uma tentativa de eleger os mais indispensáveis entre os realizadores do Cinema. A tarefa é hercúlea e, ao mesmo tempo, muito prazerosa, pela oportunidade que oferece de passear por filmografias ecléticas, recorrências atraentes e tópicos de reflexão diversos, sem esquecer o componente de entretenimento e passatempo abarcado por essa arte tão jovial, apesar de centenária.

O único critério norteador para a montagem dessa lista de diretores foi eu ter visto, pelo menos, dois filmes de cada um. Assim, é possível estabelecer alguma comparação entre os exemplares de seu currículo, de modo a localizar (ou não) elos coesivos entre eles e ter um mínimo de segurança para recomendá-los. No mais, valem cineastas de todos os países, épocas, estilos, interesses, ambições e olhares, falecidos ou ainda em atividade, veteranos ou de carreira ainda curta. 

Outro detalhe importante a ser esclarecido é que a lista, composta por cinquenta nomes e dividida em cinco partes, publicadas semanalmente, não está organizada em ordem de preferência. Exceto pelo primeiro lugar, indiscutivelmente, meu diretor preferido, todos os demais integrantes dessa seleção extremamente subjetiva - como quaisquer seleções - estão distribuídos em posições aleatórias, embora haja preferências mais intensas entre os escolhidos. Juntamente com cada diretor, são sugeridos alguns filmes que considero os melhores ou mais importantes de sua carreira.

Começa hoje, portanto, mais uma empolgante viagem pelo Cinema por meio dos que, atrás das câmeras, são nossos olhos. Comentem à vontade!

1. Woody Allen (1935 - )


Discorrer sobre Cinema sem pensar no meu realizador predileto é simplesmente impossível. Pensador inquieto da insatisfação humana com o arranjo das coisas, sobretudo no campo sentimental, Allen segue com fôlego para um filme por ano desde 1982, e é quase uma unanimidade entre os cinéfilos. Seus detratores nunca me convenceram de seus defeitos - e olha que não sou fã cego nem míope - e, para além das obras mais incensadas, na ponta da língua de quem o admira minimamente, esse novaiorquino que cultiva um alter ego aparvalhado e misantropo tem exemplares pouco visitados em sua filmografia. Autor de frases de efeito espirituosas e roteirista de mão cheia, Woody Allen é sempre digno de atenção, mesmo quando parece fora de forma.

PRINCIPAIS FILMES: Noivo neurótico, noiva nervosa (1977), Manhattan (1979), A rosa púrpura do Cairo (1985), Crimes e pecados (1989), Um misterioso assassinato em Manhattan (1993), Todos dizem eu te amo (1996), Dirigindo no escuro (2002), Ponto final (2005), O sonho de Cassandra (2007), Vicky Cristina Barcelona (2008), Meia-noite em Paris (2011).

2. Gus Van Sant (1952 - )


Examinador recorrente da juventude sem rumo, Van Sant direciona sua câmera para os sentimentos mais íntimos e universais que atravessam essa fase de consolidação do caráter e dos desejos, ora flertando com uma gramática mais alternativa, ora encampando-a efetivamente. Seus filmes incluem tempos mortos (por vezes, mornos), que exigem uma certa disposição contemplativa, por mais contraditória que pareça a constatação. No geral, sua filmografia traz muito mais acertos e somente alguns escorregões, que não chegam a ser depoentes contrários de seu talento - afinal, todos têm seus momentos menos inspirados.

PRINCIPAIS FILMES: Drugstore cowboy (1989), Elefante (2003), Paranoid Park (2007), Inquietos (2011).

3. Pedro Almodóvar (1949 - )


"Exagero" poderia, perfeitamente, ser incluído aos sobrenomes desse espanhol provocador, que não se furta de ser folhetinesco e demonstra interesse constante em cenários espalhafatosos e atuações propositadamente histriônicas. Não por caso, "almodovariano" se consagrou como adjetivo pelo uso e hoje é quase impossível pensar em enredos tragicômicos assinalados por alguma bizarrice sem se reportar à sua assinatura inconfundível. Entre as atrizes com quem mais aprecia trabalhar, estão Carmen Maura, Marisa Paredes, Cecilia Roth e a exótica Rossy de Palma. Nos últimos anos, sua estética alcançou um grau de refinamento louvável, mas ele jamais abandonou de todo suas obsessões e, em seu filme mais recente,  Os amantes passageiros, escancarou de volta as portas de seu debute altamente passional e desbocado.

PRINCIPAIS FILMES: Mulheres à beira de um ataque de nervos (1988), Ata-me! (1990), Tudo sobre minha mãe (1999), Fale com ela (2002), Má educação (2004), Volver (2006).

4. Michelangelo Antonioni (1912 - 2007)


Poucos realizadores, talvez nenhum, podem ser apontados como exímios perscrutadores do silêncio como o era Michelangelo Antonioni. De sua observação paciente das palavras não ditas e mal compreendidas que resultam no abismo verbal entre os homens, nasceu a Trilogia da Incomunicabilidade, monumento aos conflitos gestados na alma e nunca plenamente resolvidos. Para a crítica, que caiu de amores por ele depois da exibição de A aventura no Festival de Cannes, justamente o primeiro tomo da Trilogia, era um cineasta a ser acompanhado. Entretanto, o prestígio alcançado com sua obra-prima triuna entrou em declínio assim que ele começou a filmar em língua inglesa. Daí para a frente, entregou filmes subestimados, que hoje valem a pena ser (re) visitados e apreciados em suas nuances psicológicas.

PRINCIPAIS FILMES: A aventura (1960), A noite (1961), O eclipse (1962), O deserto vermelho (1964), Zabriskie Point (1970), Profissão: repórter (1975).

5. Wim Wenders (1945 - )


"O mais estadunidense dos cineastas alemães". Já virou máxima dizer isso a respeito de Wenders e, se a frase não é de todo equivocada, pode ser um tanto empobrecedora e sugerir aos não-iniciados em sua obra que se trata de um realizador que constrói seus filmes a partir de um decalque dos ícones da terra do Tio Sam. Majoritariamente, Wenders se detém na análise de indivíduo deslocados de um lar para chamar de seu, ao menos no sentido convencional do termo, que preferem cair na estrada para minimizar essa angústia de pertencer a todos os lugares e, ao mesmo tempo, a lugar, nenhum. Listas de grandes filmes de todos os tempos sempre têm espaço para uma ou duas produções suas, o que o torna um dos nomes obrigatórios para os que se dizem cinéfilos ou admiradores do Cinema. Talvez, até para os simpatizantes.

PRINCIPAIS FILMES: No decurso do tempo (1976), O estado das coisas (1982), Paris, Texas (1984), Asas do desejo (1987), O céu de Lisboa (1994), Palermo shooting (2008).

6. Wes Anderson (1969 - )


As relações familiares são a tônica dos filmes de Wes Anderson, sempre vistas sob um ângulo original que não exclui o componente de afetividade. Os sujeitos provenientes de sua imaginação criativa despertam identificação com suas esquisitices e humores excêntricos, constituindo a prova de que é possível encarar uma temática corriqueira sob um prisma inusitado. Como boa parte dos grandes realizadores, ele escolheu um tópico preferido e sobre ele vem dirigindo filmes em que reafirma um estilo todo pessoal.

PRINCIPAIS FILMES: Três é demais (1998), Os excêntricos Tenembaums (2001), Viagem a Darjeeling (2007), Moonrise kingdom (2012).

7. David Lynch (1946 - )


Para ele, a vida não tem qualquer sentido. Baseado nessa convicção, Lynch entrega ao público filmes de forte apelo onírico, envoltos em atmosferas em que confundir e explicar andam lado a lado. Com uma estética toda sua, ele mergulha fundo em mistérios da alma e do coração, e não se importa em deixar perguntas sem resposta ou, no mínimo, não oferece uma resposta única para cada pergunta que levanta. E, quando quer, segue por trilhos mais comuns e demonstra o quanto sabe injetar doçura em suas histórias, o que só demonstra o quanto pode ser versátil.

PRINCIPAIS FILMES: O homem elefante (1980), Veludo azul (1986), A estrada perdida (1997), História real (1999), Cidade dos sonhos (2001).

8. Michael Haneke (1942 - )


A soma de seus trabalhos lhe conferiu uma aura de detrator da espécie humana, de cineasta sádico para quem só existe maldade no homem. Entretanto, o rótulo é reducionista demais para se referir a Haneke, que se debruça sobre a violência para tentar dar conta dos impulsos mais primitivos que todos procuramos dominar pelo bem da convivência em sociedade. Seus personagens enfrentam situações que os colocam em confronto direto com esses impulsos e nós, como espectadores, somos desafiados a permanecer impassíveis, por exemplo, diante de jogos macabros a que uma  família é exposta sem qualquer razão aparente. Quem procura por cinema instigante deve conhecer a obra desse austríaco que divide opiniões. Um dos únicos diretores a ter dois filmes premiados com a Palma de Ouro em Cannes.

PRINCIPAIS FILMES: Violência gratuita (1997), A professora de piano (2001), Caché (2005), A fita branca (2009), Amor (2012).

9. Charles Chaplin (1889 - 1977)


Chaplin é um diretor como já não se faz mais. A ternura e a sátira política andavam lado a lado em seu cinema, sempre capaz de arrancar boas gargalhadas e, no instante seguinte, deixar os olhos marejados, ou vice-versa. Querido e defendido entre cinéfilos de idades e preferências diversas, ele pode facilmente ser apontado como uma unanimidade entre os apreciadores da sétima arte. A persona que criou foi eternizada e, ainda hoje, é bastante imitada, bem como algumas sequências de seus filmes, em especial, a dança dos pãezinhos de Em busca do ouro. Talvez seja impossível não se deixar levar pelo carisma desse artista tão talentoso em várias frentes.

PRINCIPAIS FILMES: Em busca do ouro (1925), O circo (1928), Luzes da cidade (1931), Tempos modernos (1936), O grande ditador (1941).

10. Tim Burton (1958 - )


Outro especialista em mundos estranhos, esse californiano cinquentenário é lembrado também por sua parceria muito bem-sucedida com Johnny Depp - um dos atores preferidos deste que vos escreve -, que já conta com sete exemplares e só tende a crescer. De sua imaginação sombria, nascem tipos inconfundíveis e inesquecíveis, que habitam o inconsciente cinéfilo com muita facilidade. Seja com atores de carne e osso, seja em animação, Burton consegue emocionar, assustar e surpreender (quase sempre para o bem) com tramas em que o insólito tem lugar de honra.

PRINCIPAIS FILMES: Edward Mãos de Tesoura (1990), Ed Wood (1994), A lenda do cavaleiro sem cabeça (1999), Peixe grande (2003), Sweeney Todd - O barbeiro demoníaco da rua Fleet (2007).

sexta-feira, 20 de setembro de 2013

A mulher do aviador e a profusão de diálogos deliciosos

Espectadores iniciados em Eric Rohmer têm plena consciência do que esperar dos filmes assinados pelo realizador, falecido em 2010 após uma carreira profícua. A estrutura de suas histórias é sempre bastante simples e, acima de tudo, funciona como suporte para intermináveis discussões de ordem subjetiva sobre os ciclos e acasos da vida, bem como sobre os caminhos - por vezes intrincados - pelos quais passam os sentimentos humanos, sobretudo o amor. O realizador fazia parte do time de autores que buscava sutis variações para o mesmo tema, sendo o mais marginal de todos os integrantes da Nouvelle Vague, sopro de renovação da cinematografia francesa que se estendeu para outras nações e reverbera ainda hoje na obra de cineastas como Christophe Honoré. Significa, portanto, que assistir a um filme de Rohmer é localizar ecos de filmes anteriores e ensejos de filmes seguintes, e que cada trabalho seu é uma súmula notória de toda uma obra devotada a temas de alcance universal e, portanto, de altíssimo potencial especular. Assim acontece com A mulher do aviador (La femme de l'aviateur, 1980), em que a sombra da desconfiança motiva discussões sobre a durabilidade do amor. 

François (Philippe Marlaud) trabalha nos Correios durante a noite e namora Anne (Marie Rivière), que, por acaso, dorme à noite. Conciliar os horários desencontrados é a maior dificuldade enfrentada pelo casal, que já se mostra em certa dessintonia na primeira sequência em que aparece junto. Anne parece entediada, recebendo François em seu apartamento com certo desdém - pode ser apenas cansaço, como ela mesma alega, mas há uma nuvem de insatisfação pairando sobre seu olhar. Essa recepção nada calorosa acende a chama da dúvida em François, que, antes de chegar ali, viu um homem desconhecido saindo do local. A junção dos dois fatores leva o jovem a uma procura discreta por pistas que comprovem sua tese de que Anne está apaixonada por esse tal homem. Entre longas esperas e perseguições pacientes, ele conhece uma garota de 15 anos, Lucie (Anne-Laure Meury), com quem passa a contar para descobrir todos os passos da namorada.

Desse encontro casual, ocorrido em um charmoso parque, nasce uma singela amizade que é o pretexto da vez para Rohmer colocar em discussão os tópicos mencionados. Mesmo tão jovem, Lucie demonstra grande sabedoria no campo das relações amorosas, especialmente a teoria. A princípio, François disfarça que esteja seguindo alguém, mas a perspicácia de Lucie o vence e ele revela porque se sentou bem ao seu lado e fingiu estar ali por outro motivo. Então, os dois começam a conversar longamente sobre o peso da insegurança nos relacionamentos e ela acaba imbuída de um espírito investigativo, dando sugestões pertinentes para que ele se livre da incerteza que tanto o atormenta. Por sua vez, Anne é mostrada em atividades triviais, como um café com um amiga e algumas horas de ócio em seu apartamento. O mais interessantes dessa díade rohmeriana é que acabamos cúmplices de François mesmo que, no fundo, sua namorada não dê razões concretas para alimentar qualquer desconfiança. Seu roteiro bem amarrado faz pensar que há sempre algo maior por acontecer, numa espécie de suspense cotidiano.


A mulher do aviador é o título inaugural de uma das séries de filmes dirigidos por Rohmer. Este aqui encabeça as Comédias e Provérbios, em que se vale de epígrafes instigantemente simples para lançar olhares atentos para as contradições e incongruências humanas. O longa foi realizado com baixo orçamento, o que era uma constante na sua carreira - poucas vezes havia sido diferente, como quando ele filmou A marquesa D'O (La marquise von O, 1975), um de seus trabalhos precedentes. É notável o quanto, no cotejo entre os dois filmes, o diretor está muito mais à vontade conduzindo uma história cuidadosamente pensada sem a preocupação em atrair lucro financeiro a uma grande distribuidora. Sem medo de parecer exagerado, é possível afirmar que Rohmer é um dos mais autorais entre os cineastas autorais, daqueles que parecem conceber filmes muito mais para si mesmos do que para um público - pequeno que seja - e, ainda assim, consegue estabelecer diálogo com essa audiência que se abre para o contato com sua obra tão singular e, ao mesmo tempo, tão comum a quaisquer pessoas.

Após muitas conversas travadas com Lucie, François chega a alguma conclusão plausível para seu imbróglio sentimental, mas se fechar sobre uma resposta nunca foi o ponto forte do Cinema rohmeriano. É clara a sua preferência por desnudar os personagens através da palavra e, nesse sentido, a adolescente de porte tão resoluto começa a apresentar as suas fragilidades lá pelas tantas, evidenciando que nenhum de nós é detentor de todo o conhecimento e que todos guardamos conosco algum calcanhar de Aquiles. Por que com Lucie haveria de ser diferente? E, se a palavra ocupa lugar de honra em Rohmer, a ação é bem menos do que uma coadjuvante. Daí a razão de muitos explicitarem seu tédio ao assistir a um de seus filmes, e A mulher do aviador não foge a essa regra. Obviamente, é legítimo não morrer de amores pelo seu fazer cinematográfico, mas se dar a chance de apreciar, ao menos em parte suas produções, não há de ser nenhuma tortura. Em seu conjunto, este é mais um exemplo do quanto o ciúme enviesa o olhar e do quanto o coração, em seu desespero, conduz atitudes pouco lúcidas. Melhor seria não pensar em nada, como sugere o título alternativo dessa obra em que há uma profusão de diálogos deliciosos.

9/10

quinta-feira, 19 de setembro de 2013

O amor à velocidade em Rush - No limite da emoção

Os amantes da Fórmula 1 e da alta velocidade em geral encontram em Rush - No limite da emoção (Rush, 2013) um prato cheio para degustar. Transpirando intensidade por todos os seus poros, o filme de Ron Howard mira suas lentes nos anos de rivalidade entre os pilotos James Hunt (Chris Hemsworth) e Niki Lauda (Daniel Brühl), cujos caminhos se cruzaram no alvorecer da década de 70. O filme já se inicia no final da temporada de 1976, auge da disputa entre os pilotos, que rumavam para um "tudo ou nada". Porém, antes de chegar ao resultado daquela competição final, teremos um longo flashback que mostra os eventos que conduziram àquele momento. Ambos iniciaram suas carreiras no esporte à mesma época, e partilhavam de algumas características fundamentais, a começar pela obstinação com a vitória, que não os deixava medir esforços em busca de alcançá-la.  

O primeiro contato entre eles não foi dos mais amistosos, o que acendeu a faísca de uma rixa que se estendeu pelo resto de suas carreiras e teve a mídia e o público por testemunhas atentas e curiosas. Durante uma competição, os carros de James e Niki colidiram na pista, e Niki agiu cautelosamente para evitar um acidente mais grave e de consequências mais desastrosas. Sua atitude acabou proporcionando a primeira grande vitória de James, que se exibiu para os presentes convicto de sua competência. Daí para a frente, Niki foi tomado por um forte desejo de ir à forra, e esse revanchismo foi se mostrando como a tônica do seu relacionamento com James, e vice-versa.

Os encontros entre eles, nas pistas ou nos bastidores, eram sempre duelos inflamados, em que o esforço de cada um era comprovar sua supremacia. Felizmente, porém, o roteiro escrito por Peter Morgan, colaborando novamente com Howard, não apela à dicotomia estrita entre os personagens - saídos da vida real - o que significa alternar a torcida por eles o tempo todo. Tanto James quanto Niki apresentam condutas proativas no afã de garantir sua posição, e ambos são carregados de humanidade, colecionando erros e acertos em nome da paixão que movimentava suas vidas. Rush - No limite da emoção aposta em um esquema similar ao adotado pelo mesmo Howard em seu Frost/Nixon (idem, 2008), que trazia em paralelo e, posteriormente, em simultaneidade, as trajetórias de um jornalista e de um presidente. Ali, não faltavam embates verbais, em que a palavra poderia se vestir de lança e fazer seu emissor prevalecer.


No caso dos pilotos protagonistas do filme em questão, as grandes batalhas se davam sobre o asfalto, dentro de máquinas possantes e envenenadas, por meio das quais, segundo o próprio Hunt afirma a certa altura da história, eles ficavam em proximidade com a morte. Ele também acreditava que era essa a razão do fascínio que os praticantes desse esporte exerciam sobre a ala feminina, tornando muito mais fácil uma conquista ou uma relação meramente casual. Nesse aspecto, a propósito, há uma diferença nítida entre ele e Niki: o primeiro é muito mais extrovertido e galanteador, o que o mantém cercado de admiradores e interessadas; o segundo prefere seguir uma rotina rígida com vistas a se manter sempre em forma para as corridas, e não tem a beleza quase apolínea de seu rival, tendo bem menos companhias ao redor e lutando com mais dificuldade para se afirmar no cenário esportivo. Ciente dessas diferenças, James não hesita em jogá-las na cara de Niki, que não se deixa abater por um complexo de inferioridade. Antes, vale-se de suas qualidades intelectuais, menos usadas por James, para fechar um bom contrato com a Ferrrari sob a forma de barganha com empresários poderosos.

À medida que a narrativa transcorre, torna-se claro que um dependia do outro para seguir em frente nas pistas. A rixa que nasceu do primeiro encontro dos dois se manteve ao longo de anos, e servia de combustível para novas competições. Tanto um quanto o outro assumia vários riscos, mas Niki sempre adotou uma postura cautelosa, não se permitindo cegar pela vontade de superar o adversário. Foi por isso que ele se esforçou para conseguir o cancelamento de uma corrida no circuito de Nürburgring, na Alemanha. A forte chuva no dia da disputa tornava a pista, normalmente perigosa, ainda mais ameaçadora, mas a popularidade de James, em oposição ao jeito de poucos amigos de Niki, fez a maioria dos pilotos votarem por ir em frente e participar da prova. Diante da insistência em manter a competição, Niki também decidiu correr, e o resultado foi um trágico acidente que o tirou das pistas à revelia, deixando o caminho livre para James somar vários pontos em campeonatos seguintes - àquela altura, Niki seguia com folga na liderança.

O bom roteiro do longa, contudo, não seria o bastante se Howard não tivesse confiado os personagens a ótimos atores. Hemsworth e Brühl estão em franca simbiose dramática, fazendo o público vibrar com a rivalidade entre os pilotos e dando o melhor de si em desempenho vigorosos. Mais conhecido por ter interpretado o papel-título de Thor (idem, 2012), Hemsworth consegue revelar ser mais do que uma bela estampa, dosando cinismo e cafajestagem na pele de James, para quem o prazer vinha muito antes do compromisso. Bastava-lhe um título mundial para mostrar ao mundo que ele era um vencedor. Por sua vez, Brühl se vale de sua aparência um tanto intimidadora, reforçada pela maquiagem pesada – tarefa dividida entre 24 profissionais (!), e rouba várias cenas com o carisma às avessas de Niki. Do seu currículo pregresso, o trabalho mais famoso é Adeus, Lênin! (Goodbye, Lenin, 2003), pelo qual é lembrado até hoje. Mesmo sem conviver diretamente, James e Niki se conheciam muito bem, como os próprios declaram um ao outro em um encontro anos após o fatídico episódio na Alemanha. Nessa sequência, o subtítulo em português – apesar de cafona – é plenamente justificável e sintetiza a caminhada sinuosa de dois homens apaixonados pelo risco, entre os quais, por maior que fossem as diferenças, havia admiração e respeito.

8/10

sexta-feira, 13 de setembro de 2013

Bling ring: a gangue de Hollywood, um olhar sobre a frivolidade

Incensada pelo público e pela crítica ao dirigir Encontros e desencontros (Lost in translation, 2003), Sofia Coppola vem demonstrando, a cada filme, o seu interesse perene na análise de indivíduos assinalados pelo vazio, pelo tédio e pela falta de sentido para viver. Essa constatação emerge de todos os seus trabalhos, com maior ou menor intensidade, e é verificável na simples leitura de suas respectivas sinopses. Com Bling ring: a gangue de Hollywood (Bling ring, 2013), a cineasta segue fiel a essa premissa, com o detalhe de que, dessa vez, investe muito mais no luxo e na extravagância para contar sua história. Partindo de um artigo escrito por Nancy Jo Sales, intitulado The suspects wore Louboutins (Os suspeitos usavam Louboutins), somando às suas próprias experiências pessoais, Coppola flagra um grupo de jovens de classe média alta cujo fascínio pelas celebridades os conduz a invadir suas casas e cometer pequenos furtos.  

Nicki (Emma Watson), Rebecca (Katie Chang), Sam (Taissa Farmiga, irmã de Vera Farmiga) e Chloe (Claire Julien) estudam no mesmo colégio e são especialistas na conjugação do verbo "comprar". Suas combinações de roupas e acessórios nunca sã aleatórias e até mesmo seus andares são friamente calculados de modo a compor um estilo impecável e de causar inveja aos pobres mortais. As quatro acreditam ter nascido para gastar e canalizam todas as suas energias para essa finalidade. É com elas que Marc (Israel Broussard), recém-chegado à escola, acaba se identificando, e de quem se torna amigo em pouco tempo, além de cúmplice paras tais invasões. A certa altura, eles passam a ser chamados de Bling Ring, conforme sua fama negativa começa a crescer. Antes disso, porém, o quinteto começa seus passeios pelas mansões alheias timidamente. Uma rápida busca na internet lhes permite encontrar endereços cobiçados com uma facilidade incrível, e lá vão eles fazer visitas surpresa aos donos das casas em sua ausência.

Uma vez dentro das mansões, os jovens se entregam ao prazer do consumismo, perdendo a cabeça por joias, bolsas, casacos, sapatos e tudo o mais que representa status visual. Nicki e companhia aprenderam que nada vale mais do que a aparência, e seus professores foram seus ídolos igualmente vazios e, sobretudo, a mídia, sempre bombardeando essa cultura de celebridades como se fosse a única maneira de ser feliz. Entretanto, os protagonistas não são vitimizados em seu anseio por pertencer àquele universo paralelo e surreal. Todos são responsáveis por suas atitudes inconsequentes, em maior ou menor grau, e vão acumulando dívidas astronômicas em suas contas pessoais, por assim dizer. Como filha do grande Francis Ford Coppola, Sofia tem plena consciência do mundo que está explorando aqui mais uma vez. Desde criança, ela foi se habituando a frequentar grandes reuniões e a saracotear pela casa em meio a convidados ilustres, recebidos com pompa e circunstância. A fama praticamente caiu em seu colo, e ela tem se valido desse conjunto de vivências para arquitetar seu universo fílmico.


O detalhe que singulariza Bling ring: a gangue de Hollywood perante os longas anteriores de Coppola filha talvez seja sua grande palatabilidade. Fica a nítida sensação de que o roteiro, também de sua autoria, caminha no fio da navalha entre a crítica discreta àquele ambiente frívolo em que os protagonistas estão imersos - que inclui idas a boates e dezenas de fotos para serem imediatamente publicadas na rede social de Mark Zuckeberg - e um certo carinho por ele. A título de comparação, o posicionamento da diretora é um tanto similar ao de pensadores iluministas que levantavam questionamentos ao Antigo Regime sendo eles mesmos pertencentes à nobreza privilegiada - Montesquieu serve de exemplo ilustrativo para o caso. Entretanto, se se trata de um demérito ou de uma virtude da obra, cabe muito mais ao espectador decidir. E essa ambiguidade fica ainda mais notável quando se pensa que, para promover o filme mundo afora, elenco e diretora tenham se submetido a uma rotina de flashes e tapetes vermelhos, bem como de assédios de fãs, justamente o aspecto criticado no filme. Vale lembrar aqui o Johnny Marco (Stephen Dorff) de Um lugar qualquer (Somewhere, 2010), cujo quotidiano era exatamente assim.

Se a crítica não soa tão veemente, porém, a diretora não abre mão de ser espirituosa, fazendo certa chacota com algumas "personalidades da mídia" e atrizes de ocasião - é a deixa para as aparições-relâmpago de Paris Hilton, símbolo máximo desse glamour oco, e Lindsay Lohan, atual ícone de garota-problema (e que foi alvo da verdadeira Bling Ring). Essas e outras situações abordadas no filme causam risos e, para alguns, pode ter efeito especular, gerando certo incômodo pela verdade desagradável que é lançada nos personagens. Também sobra espaço para cutucar a proliferação dos livros de autoajuda, que elevam seus leitores ao patamar de deuses autossuficientes que galgam qualquer degrau com uma boa dose de confissão positiva. Esse questionamento muito pertinente se derrama sobre a figura da mãe de duas das garotas, e é quase inevitável não ser tomado por um espírito zombeteiro diante das pretensiosas e ridículas "lições de vida" que ela tenta transmitir às filhas, completamente absorvidas pelo mantra "ter, ter, ter". Em seu conjunto, o filme pode não alcançar o status ocupado por Encontros e desencontros até hoje, mas vale ser conferido por se revelar um novo exercício de estilo - com ou sem trocadilho - concebido por Coppola filha.

Profissão: repórter e o mundo como fonte de desconforto

A sensação de desconforto com o mundo e a própria existência é matéria-prima recorrente na obra de Michelangelo Antonioni, verificável em todos os seus grandes filmes – ou, pelo menos, na grande maioria deles. Autor da angustiante Trilogia da Incomunicabilidade, ele insiste em olhar para indivíduos mergulhados no tédio. Os filmes que a compõem, rodados sob um desolador filtro em preto e branco, são o auge dessa observação incômoda. E, de algum modo, ele continuou perseguindo essa temática em seus filmes subsequentes, propondo um epílogo para a Trilogia, partindo para a Inglaterra logo em seguida – onde filmou o subestimado Blow up – Depois daquele beijo (Blow up, 1966) – e, então chegou aos EUA. Ali concebeu o igualmente desprezado Zabriskie Point (idem, 1970), insistindo na abordagem dos seus conceitos caros. Até que chegou à metade daquela década e filmou Profissão: repórter (The passenger, 1975), escalando o já famoso e querido Jack Nicholson para protagonista. 

O ator dá vida a David Locke, um repórter cansado de ser quem é, cuja chance de mudar radicalmente surge de improviso. Em viagem pela África para capturar imagens e fazer entrevistas que serão usadas em um documentário, ele chega ao apogeu do seu desconforto existencial. Há um passado sob seus ombros, do qual bem pouco é apresentado ao espectador. Todavia, sua expressão de enfado é o suficiente para levar a crer que a vida não lhe anda sorrindo há tempos. Ao visitar o quarto de David Robertson (Chuck Mulvehill), um recém-conhecido que se hospedou com ele em uma pensão modestíssima, é o primeiro a constatar sua morte. Valendo-se do fato de ter o mesmo prenome que o falecido, decide-se por assumir a sua identidade e proceder à medida que confirmem o que, dali para a frente, passa a ser considerado um fato. Aos poucos, porém, o jornalista vai descobrir que há uma série de ônus derivados de sua atitude.

David Robertson estava envolvido com uma luta política para a qual assumiu a posição de negociante de armamentos, levando-o a manter contato com os líderes de uma guerra civil. Para não ter sua farsa descoberta, ele precisa agir da forma mais convincente possível, até para si mesmo, o que o leva a experimentar a máxima de que uma mentira, para ser sustentada, depende de várias outras mentiras sobrepostas à primeira, sob pena de vir à tona a verdade que se deseja encoberta, com a qual não se deseja mais contato. O resultado é que ele passa a carregar um novo fardo: mudar de identidade não é acabar com os problemas. Em meio a esse novo cenário, surge também uma garota (Maria Schneider), que lhe serve como uma bela válvula de escape para o seu cotidiano quase descolorido. Nada de romance arrebatador, como o dos personagens principais de Zabriskie Point, apenas o compartilhamento de alguns instantes e uma profunda empatia proveniente do fato de ambos serem entediados e desconfortáveis.


Pela primeira vez, Antonioni elegeu um intérprete mais conhecido para um filme seu. Nicholson já trazia em seu currículo bons trabalhos com diretores de diferentes calibres. Com Mike Nichols, filmou Ânsia de amar (Carnal knowledge, 1971), Chinatown (idem, 1974), com Roman Polanski e, no mesmo ano, rodou Um estranho no ninho (One flew over the Cuckoo's nest, 1975), em que deu vida a um de seus personagens mais celebrados. Sua interpretação de David Locke/Robertson não está atrás dos grandes desempenhos nesses longas anteriores. Em olhares distantes e sorrisos enigmáticos, ele exprime o quanto o viver é poesia tediosa, mantendo com sua jovem amante diálogos que causam comoção pelo que trazem verossimilhança. A certa altura, os dois chegam à conclusão de que não existe via de escape para a miséria da condição humana, ao menos eles não chegam a conhecê-la. Ela, por sua vez, fora vista anteriormente em Último tango em Paris (Last tango in Paris, 1972), atuando sob a direção de Bernardo Bertolucci.

Essencialmente um drama, Profissão: repórter também tem ares de thriller político, ao colocar brevemente em discussão a guerrilha política na qual o verdadeiro Robertson estava envolvido e trazer depoimentos sobre a situação do continente africano àquela época. Entretanto, a inabilidade para lidar com as questões da vida e o ensimesmamento – o ato de um indivíduo voltar-se para dentro de si mesmo – são o foco de Antonioni, falecido em 2007, com apenas algumas horas de diferença para Ingmar Bergman, diretor cuja obra traz notáveis semelhanças com a sua. Ainda assim, o realizador sueco afirmou, certa vez, que Antonioni foi capaz de produzir somente duas obras-primas, e depois sua carreira degringolou. É uma curiosidade lamentável, já que ambos se mostraram profícuos examinadores dos silêncios eloquentes da alma e buscaram traduzir em imagens esse profundo mal-estar (a maior parte do tempo) que é estar vivo. Como em O deserto vermelho (Il deserto rosso, 1964) e o já citado por duas vezes Zabriskie Point, este aqui nos leva ao deserto, mostrando que, dentre tão poucas características comuns a todos os homens, emerge, principalmente, a de que estamos todos solitários, por mais numerosa que seja a multidão.

domingo, 8 de setembro de 2013

Possibilidades e incertezas na aridez em Estranhos no paraíso

Estranhos no paraíso (Stranger than paradise, 1984) é apenas o segundo trabalho de Jim Jarmusch na direção. Lá se vão quase trinta anos desde o lançamento do filme, e ele já apresentou vários outros exemplares de sua maneira muito peculiar – sem eufemismo – de observar as pessoas e o mundo à sua volta. Entretanto, nesse segundo trabalho suas marcas ainda se apresentam em estado seminal, configurando o que mais tarde viria a ser entendido e conhecido como o seu modus operandi, por assim dizer. Antes de mais nada, ele prefere investir na ausência de cores para se concentrar em sua paródia sensacional ao manjado American way of life. Para isso, criou três atos protagonizados por personagens cujas condutas bizarras vão demarcar suas atitudes, bem como a falta delas. Cada um desses atos recebeu um nome, que condiz com o trecho da história que apresenta. E são eles que apontam para as escolhas de um diretor que toca em certas feridas quando menos se espera e do modo que menos se pressupunha.  

Em linhas gerais, eis a sinopse do filme: Béla (John Lurie), um húngaro que vive em Nova York e se recusa a ser chamado pelo próprio nome, recebe a visita de sua prima Eva (Eszter Balint), a qual vai passar alguns dias na sua casa e com quem ele não se dá muito bem depois da receptividade inicial. Posteriormente, eles vão visitar tia Lotte (Cecillia Stark), e Eva se cansa de morar com o primo, ficando na casa da tia em Cleveland. Enfim, Béla, chamado Willie, e seu amigo Eddie (Richard Edson) voltam a Cleveland para buscar Eva, e o trio empreende uma viagem à ensolarada Flórida. Cada um dos trechos comentados está inserido em um dos atos do filme, e responde pelo seu brilhantismo. Acima de tudo, Jarmusch faz um estudo do tédio, sentimento do qual parece não haver escapatória, e dialoga diretamente com um longa que lhe é contemporâneo, o portentoso O estado das coisas (Der Stand der Dinge, 1982). Ambos se comunicam por causa da inclinação para retratar personagens e situações estagnadas, e as consequência nem sempre (des)agradáveis da falta ou da ilusão de movimento. Entretanto, a abordagem de Jarmusch é muito mais minimalista que a de Wenders, que ainda pincela metalinguagem em seu trabalho.

Não tardou para que, depois de Estranhos no paraíso, o cineasta fosse apontado como um dos grandes expoentes do cinema indie (abreviação no diminutivo para independente, vale dizer) estadunidense. A etiqueta lhe cai bem e, paradoxalmente – é uma etiqueta, afinal – confere grande liberdade ao seu trabalho, sempre muito criativo. Antes desse, ele havia dirigido o semidesconhecido Permanent vacation (idem, 1980). No caso do filme em análise, fica claro o seu talento para enxergar tipos curiosos na selva urbana e lançar sobre eles um olhar perscrutador e cativante. Estranhos no paraíso é daqueles filmes que extraem poesia das situações mais ordinárias, seja causando comoção, seja despertando incômodo no sentimento de inércia. Os três personagens principais alcançam o espectador à medida que vão se tornando conhecidos, sem que, contudo, sejam completamente desnudados. Há sempre algo a descobrir a respeito de Willie, Eva e Eddie, e esse é um dos sustentáculos do interesse pelo filme, um termo que chega a soar curioso diante de uma história permeada pelo tédio. No fundo, Jarmusch pode ser incluído naquele grupo de diretores que elegeu seu(s) tema(s) favorito(s) e está sempre em busca de novas leituras para ele(s), sem esgotá-las a cada novo enredo.


O sentimento aterrador da modernidade que assola os personagens é o grande catalisador de seus deslocamentos, que reafirmam o tempo todo a condição de andejos em que eles se encontram. É como se, através do nomadismo, eles tivessem a chance de romper com a monotonia. Entretanto, o que realmente os faz menos entediados são as viagens em si, e não as chegadas ou as partidas. Uma vez instalados em determinado lugar, eles vão sendo corroídos novamente pela tal monotonia, e precisam sair de cena para caminhar rumo a outros recantos. É assim que todos eles migram pelo menos uma vez, e vão descobrindo que o ar de novidade só existe quando se está na estrada, perfeitamente metaforizável como a vida e seus inúmeros caminhos. E Jarmusch aponta suas lentes para incomunicabilidade, possivelmente o mal do século em que vivemos. Esse mal é perceptível nos diálogos esparsos e banais de Willie, Eva e Eddie, que, por vezes, teorizam sobre as vicissitudes da vida ou sobre eventos corriqueiros como uma aposta em cavalos.

Os planos-sequência de Estranhos no paraíso são um espetáculo à parte. Cada cena compreende um plano, e, toda vez que é preciso mudar de cena, também se muda de plano, com um ligeiro corte negro entre cada uma. Esse recurso confere a mescla paradoxal (novamente o termo) de estaticidade e movimento ao filme, e simboliza longos intervalos entre os pensamentos de alguém que está imerso na contemplação. Eis uma prova de que Jarmusch, logo em sua primeira produção, triunfa tanto dramatica quando tecnicamente. E, como foi dito anteriormente, há indícios de temas que ele abraçaria novamente em seus filmes seguintes, como Sobre café e cigarros (Coffee and cigarettes, 2003) e Flores partidas (Broken flowers, 2005). O tempo só fez bem ao diretor, que refina sua estética particular e sua relação de inquietude paciente com o cinema como poucos de sua geração. Por mais que a ação seja quase nula em seu primeiro filme, ele nunca se torna sonolento ou desinteressante. Muito pelo contrário: sua atratividade está em sua lentidão, uma característica que, quando bem usada, rende lindas pérolas, como é o caso desse aqui. O realizador nascido em Ohio nos apresenta a conjugação genuína entre poesia e minimalismo, e pontua suas observações algo melancólicas sobre a vida e as pessoas – seu grande foco de atenção – com a extravagância e a verossimilhança de um examinador arguto.

9/10

segunda-feira, 2 de setembro de 2013

BALANÇO MENSAL - AGOSTO

O oitavo mês do ano foi o mais profícuo em termos de Cinema para mim. Não só de 2013, mas de todos os anos da minha vida cinéfila. Em 31 dias, consegui assistir a 38 filmes, o que, para muitos, pode ser pouco. Felizmente, o saldo é positivo outra vez, e os exemplares ruins dessa arte constituem desagradáveis exceções.

Os melhores do mês vieram de continentes diferentes e de diretores com graus de experiência também distintos. Profissão: repórter, do saudoso Michelangelo Antonioni, arrebatou com seu estudo sobre o desconforto com a condição humana e um Jack Nicholson na década em que viveu seu auge interpretativo. Desde a primeira cena, a história fisga e produz reflexões de ordem moral e sentimental, culminando em um desfecho aterrador por sua verossimilhança. Dividindo as atenções na categoria máxima, ficou Qual é o nome do bebê?, pérola de humor francês dirigida pela dupla Alexandre de la Palletière e Matthieu Delaporte, com diálogos cortantes e uma enorme capacidade de despertar identificação. Foi difícil escolher apenas um deles, pois, cada qual a seu modo, me conquistou.

No outro extremo, também houve empate. Tanto Depois de Lúcia, do chileno Michel Franco, quanto O sabor da melancia, do chinês Tsai Ming-Liang, revelaram-se desastres de péssimo gosto. O primeiro, por oferecer uma protagonista completamente apoplética, incapaz de reagir minimamente aos mais terríveis vilipêndios praticados por seus colegas de escola. Talvez seja o filme que mais rachou opiniões este ano, e acabei ficando do lado que o repele. O segundo, por sua vez, é capaz de dar vergonha alheia, com seus cenários cafonas, poucos e débeis diálogos e algumas sequências musicais deploráveis.

A seguir, os 38 títulos que compuseram o meu agosto no Cinema:

LONGAS:

1. Alta fidelidade (2000) - Mais um filme a tratar o fracasso no amor como uma recorrência. Destila piadas pontuais e entope o espectador de referências ao universo da música, além de levar o protagonista a rir constantemente de si mesmo. Nota: 7.0

2. Anjos caídos (1995) - Sua intempestividade responde diretamente pela oscilação entre embarcar na história e, no minuto seguinte, enxergar-se fora dela. Bela fotografia, trilha que marca, porém um tanto distante. Nota: 6.0  
Anjos caídos (1995)

3. Apenas uma noite (2010) - O que leva alguém a trair? A ocasião faz o adúltero? Lentamente, essa e outras perguntas vão surgindo e, não necessariamente, são respondidas. Ou, talvez, não verbalmente. Os olhos respondem. Nota: 8.0

4. Uma história de amor e fúria (2013) - Uma prova da competência brasileira em um terreno pouco explorado. A premissa simples se desenvolve a contento e não chega a subestimar seu público. Nota: 7.0

5. Nunca aos domingos (1960) - Dassin cria situações e diálogos inspiradíssimos para abordar os vários pontos de vista sobre a vida, utilizando-se de figuras totalmente antagônicas. De brinde, traz a Grécia como cenário. Nota: 9.0

6. Garotos incríveis (2000) - Um enredo desperdiçado em momentos sem graça e personagens nada cativantes. Os dilemas de um escritor nunca tinham sido tão maçantes. Nota: 4.0

7. Ano passado em Marienbad (1961) - Memória que engana, memória que recria, memória que sublima, memória que perece, memória que alucina, memória que atormenta. Nota: 8.5 
Depois de Lúcia (2012)

8. Depois de Lúcia (2012) - Há um excesso de sadismo e passividade que incomodam na abordagem de Franco, levando a trama para longe do realismo, o que parecia ser o alvo do diretor. Fica, na verdade, um exemplo a não ser seguido em termos de Cinema. Nota: 3.0

9. Corações livres (2002) - Indecisão, carência, mentiras, lamento: os sentimentos típicos de um polígono amoroso estão presentes. O que fazer com essa tal liberdade? Nota: 7.0

10. Um dia muito especial (1977) - A proximidade inesperada entre duas pessoas comuns e suas chagas particulares. Delicadeza e ternura em olhares, gestos e diálogos, como Scola já havia mostrado que sabia fazer. Nota: 8.0

11. Queimando ao vento (2004) - O horror de uma existência vazia que leva ao apego a um amor truncado, incapaz de oferecer acalento pleno. Uma ideia razoavelmente interessante que se dispersa. Nota: 5.5

12. Amor pleno (2012) - Às eternas lacunas. Nota: 9.0

13. Se meu apartamento falasse (1960) - Delicioso como poucas comédias, faz valer cada minuto, oferecendo não somente lascas de humor, mas paixão genuína, doces ironias e análise comportamental. A cena final é o morango que enfeita o alto de um lindo bolo. Nota: 8.5
Meu irmão é filho único (2007)

14. Meu irmão é filho único (2007) - O roteiro tem seus altos e baixos, mas histórias sobre fraternidade sempre valem a pena. Ora amigos, ora oponentes, irmãos chegam e ficam para a vida toda. Nota: 7.0

15. Para sempre Lilya (2002) - Impregnado de tristeza, faz concluir que este mundo, definitivamente, não é um bom lugar para viver. Nota: 7.0

16. Suspiria (1977) - Horror genuíno, propiciado pelo roteiro cuidadosamente escrito que gera situações de apreensão e sobressalto. A direção de arte é embasbacante. Nota: 8.5

17. Vocês, os vivos (2007) - Um filme difícil de comentar. Realista demais? Sem história? Tedioso? Um pouco de tudo isso mas, ainda assim, um ótimo filme coalhado de cenas aleatórias sobre viver e sobreviver. Nota; 8.0

18. Caminhos perigosos (1973) - Conforme atesta Scorsese, não existe perdão na selva urbana: toda atitude gera sua consequência e escapar é mais difícil do que parece. Os elementos basilares do seu cinema já se mostravam aqui. Nota: 7.5

19. O sabor da melancia (2005) - Números musicais de gosto altamente duvidoso, chinesas em gritinhos histéricos, diálogos mecânicos e um final de dar vergonha alheia. Dá pra ser bom assim? Nota: 3.0

20. Amores brutos (2000) - Intenso e brutal, como o adjetivo do título em português antecipa. Os descaminhos de uns desolados e suas tragédias pessoais vistos sem verniz. Nota: 8.0
Profissão: repórter (1975)

21. Profissão: repórter (1975) -  Segundo Antonioni, o viver é poesia tediosa. Há tanta feiúra neste mundo que fechar os olhos - e nunca mais abri-los de novo - parece uma boa escolha. Nota: 9.0

22. Dead man (1995) - Subverte o cânone westerniano com doses cavalares de existencialismo e contemplação. O que poderia parecer improvável rende mais uma pérola na insólita galeria jarmuschiana Nota: 8.0

23. Qual é o nome do bebê? (2012) - Verborragia francesa acutíssima. Somos todos canalhas, malandros, carentes, sarcásticos, histéricos, autoindulgentes e mais uma penca de adjetivos. E, ao ver nossos defeitos nos outros, rimos de identificação e agonia. Nota: 9.0

24. A bruma assassina (1980) - Enxutos oitenta e três minutos de uma atmosfera sufocante e um mistério que se desvela aos poucos. Carpenter reafirma o terror psicológico como a sua especialidade. Nota: 8.0

25. Era uma vez no Oeste (1968) - A lei do mais forte em pleno exercício. Tudo gira em torno de sobreviver pelo maior tempo possível em um cenário arredio, em que uma bala vale muito mais do que mil palavras. Nota: 8.0

26. A festa da menina morta (2008) - A preferência por um universo degradado, habitado por personagens entregues a uma fé cega, resulta em sequências que parecem existir simplesmente para causar desconforto e estranheza e bloqueia uma análise sobre os sacrifícios tolos. Nota: 5.0

27. La nostra vita (2010) - A luta nossa de cada dia, que não pode parar jamais. Em meio a tanta correria, o que importa de verdade são os laços familiares e as amizades sinceras e duradouras. Lindo demais. Nota: 8.0
Era uma vez na Anatólia (2011)

28. Era uma vez na Anatólia (2011) - Exige a observação paciente e a atenção acurada para um enredo que permanece aberto a inferências. A incomunicabilidade e o desconforto com as divergências também surgem nesse lento percurso magistralmente fotografado. Nota: 8.0

29. Quando estou amando (2006)Flerta adoravelmente com a cafonice e mostra o quanto são atemporais as querelas do coração. Nota: 7.0

30. Quando me apaixono (2007) - Os personagens são simpáticos e as intenções são boas, mas o resultado fica abaixo do esperado. Ainda assim, é interessante ver Hunt acumulando funções e mostrando boa química com seus pares românticos revezados. Nota: 6.0

31. O clube dos cinco (1985) - Enxergar além das aparências talvez seja uma das nossas maiores dificuldades. Sendo assim, é melhor dar uma chance e não se prender a juízos de valor baseados nas superfícies. Lindas amizades e romances podem começar assim. Nota: 7.0

32. Viridiana (1961) - Buñuel destila toda a sua iconoclastia e expõe a miséria humana que a religião, por si só, não resolve. Nota: 8.0

33. Chinatown (1974) - "Esqueça, Jake. É Chinatown" ou como duas simples frases podem resumir tão bem um mundo cheio de sujeira e deturpação. Nota: 8.0

34. Sem dor, sem ganho (2013) - A realidade oferece matérias-primas mirabolantes! Descontadas as piadas imbecis com o que não se deveria brincar, não faltam senso de humor e sátira a Michael Bay, em ótima forma na direção (com trocadilho), assim como o trio de protagonistas patetas. Nota: 7.0
Um homem misterioso (2010)

35. Um homem misterioso (2010) - Quase um faroeste moderno, em que é preciso mandar bala constantemente para sobreviver. A ambientação da história em uma cidade italiana reforça essa tese e Clooney aposta em uma atuação robusta que funciona. Nota: 7.5

36. Cloud 9 (2008) - Quase um faroeste moderno, em que é preciso mandar bala constantemente para sobreviver. A ambientação da história em uma cidade italiana reforça essa tese e Clooney aposta em uma atuação robusta que funciona. Nota: 8.0

37. Trabalhar cansa (2011) - Imbuídos de um humor discretíssimo, Rojas e Dutra fazem terror psicológico com a classe média, inserido o mistério no ordinário. O clima de sobressalto, intercalado com passagens triviais, resulta em provocadora alquimia. Nota: 8.5

38. Um doce olhar (2010) - Um apanhado de tempos mortos sobre uma inocência silenciosa com algumas passagens marcantes. A fixidez da câmera é uma escolha infeliz e preguiçosa. Nota: 6.0

CURTAS:

Ela e o seu gato (1999) - Eu tenho a você e você tem a mim. Nota: 8.0

This way up (2008) - Uma esperta comédia de erros toda trabalhada no humor negro e na sutileza das mensagens subliminares. Nota: 7.0

A vereadora antropófaga (2009) - Carmen Machi é um Ary Toledo de saias. Nota: 4.0

Adam and dog (2011) - O homem e o cachorro: uma amizade tão antiga quanto linda e emocionante. Nota: 8.0

MELHORES FILMES: Profissão: repórter e Qual é o nome do bebê?
PIORES FILMES: Depois de Lúcia e O sabor da melancia
MELHOR DIRETOR: Michelangelo Antonioni, por Profissão: repórter
MELHOR ATRIZ: Claudia Cardinale, por Era uma vez no Oeste
MELHOR ATOR: Jack Nicholson, por Profissão: repórter
MELHOR ATRIZ COADJUVANTE: Faye Dunaway, por Chinatown
MELHOR ATOR COADJUVANTE: Tony Shaloub, por Sem dor, sem ganho
MELHOR ROTEIRO ORIGINAL: Mark Peploe, Peter Wollen e Michelangelo Antonioni, por Profissão: repórter
MELHOR ROTEIRO ADAPTADO: Matthieu Delaporte, por Qual é o nome do bebê?
MELHOR TRILHA SONORA: Ennio Morricone, por Era uma vez no Oeste
MELHOR DIREÇÃO DE ARTE: Suspiria
MELHOR FOTOGRAFIA: Luciano Tovoli, por Profissão: repórter
MELHOR CENA: A descoberta de Suzy em Suspiria
MELHOR FINAL: La nostra vita