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domingo, 30 de junho de 2013

Faroeste caboclo, um belo diálogo entre música e Cinema

A extensa música composta por Renato Russo serviu de matriz para Faroeste caboclo (idem, 2012), estreia do brasiliense René Sampaio na direção de longas-metragens. Os versos que contam a história de João de Santo Cristo e sua saga de perdas e danos se tornaram icônicos para toda uma geração e sempre tiveram potencial cinematográfico. Na verdade, demorou até que um realizador levasse o material às telas e, felizmente, o projeto saiu do papel. Interpretando o protagonista a maior parte do tempo, está Fabrício Boliveira, que acumula alguns trabalhos na televisão e apresenta um biótipo muito adequado a João, cuja infância miserável é vista nos primeiros minutos do filme, uma espécie de prólogo das muitas desventuras que se acumulariam ao longo de sua vida. 

Desde o começo, ele é mostrado como um sujeito destemido e que se sente injustiçado pela vida, como se nunca tivesse recebido dela o que realmente merecia. Já adulto, ele não tem mais pai nem mãe e nada a perder. Entra e sai da cadeia com a mesma facilidade: os anos que passa encarcerado só servem de nutrientes ao seu descontentamento com sua sorte e de combustível para que ele tinja seu destino com cores nebulosas. Ele procura guarida em Pablo (César Troncoso), um parente distante e afortunado graças aos investimentos no tráfico de drogas que se torna seu padrinho. Se antes João apenas flertava com a criminalidade, a partir de então ele a abraça de vez e acredita que está começando a ganhar o que lhe parece de direito. O problema é que sua atividade mexe com gente perigosa que domina o mercado local de narcóticos – a trama se passa na Brasília dos anos 80.

Em uma de suas corridas da Polícia, ele acaba entrando no apartamento de Maria Lúcia (Ísis Valverde), típica garota de classe média que concorda em não denunciá-lo ao ter a certeza de que sua presença ali não traz ameaça. Nasce ali uma estranha afeição que, com novos encontros furtivos, acaba se transformando em amizade e, logo em seguida, amor. A despeito das diferenças de classes sociais e, por conseguinte, de perspectivas, conhecimentos e valores, João e Maria Lúcia formam um casal. O fato mexe profundamente com os brios de Jeremias (Felipe Abib), o arquirrival do protagonista que surge na música. Entre eles, surge uma espiral de orgulho e vingança que dão a tônica do filme, respondendo por sequências de ação bem arquitetadas que demonstram o vigor da direção de Sampaio, de cujo currículo pregresso constam produções televisivas.


Há que se destacar a boa química entre Boliveira e Valverde. O romance inter-racial vivido por seus personagens tem força e desperta torcida, um mérito dos intérpretes, que não transpõem vícios e especificidades da atuação em televisão para o meio cinematográfico. Ele transparece ódio e inconformismo, sendo um homem de poucos amigos e muitos gestos violentos. Ela é uma patricinha cujos olhos se voltam para uma outra ideia de amor e tem suas nuances e conflitos, que a atriz capta bem, afastando os estereótipos. Foram escolhas acertadas do diretor, afinal. Por sua vez, o semidesconhecido Abib é outro a demonstrar talento como um antagonista com o qual é possível simpatizar e que age movido simplesmente por orgulho próprio abalado. Até João aparecer, ele tinha Maria Lúcia por perto como bem entendia e seu ódio pelo namoro dos dois só faz crescer.

Com efeito, houve por parte da crítica e do público a percepção de que Faroeste caboclo dialoga com a gramática consagrada do gênero cinematográfico que está em seu título, sobretudo a variante consolidada por Sergio Leone. Não é sem razão que se observa tal similitude, visto que muitos planos engendrados por Sampaio evocam obras como Três homens em conflito (Il buono, il brutto, il cattivo, 1966), tomo final da trilogia estrelada por Clint Eastwood, sempre encarnando o Pistoleiro sem Nome. Como o protagonista dos três filmes, João é um homem dotado de habilidade para se safar das mais diversas situações, e nunca se dispõe a levar desaforo para casa. Se o Pistoleiro tinha o gatilho mais rápido do Velho Oeste, ele tem a velocidade de um corço para atingir grandes distâncias e escorregar das mãos de seus inimigos – Jeremias é apenas um deles, o manda-chuva de uma Polícia de fachada que reage contra João simplesmente para não perder seu quinhão proveniente da conivência com o tráfico.

Sampaio também estabelece diálogo com a produção tarantinesca, apostando em conversas atravessadas pelo coloquialismo e pelos toques de humor negro. Não faltam referências depreciativas à etnia de João, ditas com a maior naturalidade por Jeremias e sua corja, e vale lembrar que os tempos em que os personagens viviam são muito anteriores aos da correção política que tomou de assalto as relações humanas de uns anos para cá, o que inclui o Cinema. Portanto, é digna de nota a liberdade que o cineasta se permite para contar sua história, apropriando-se da música sem, necessariamente, transformar todos os seus versos em filme. Faroeste caboclo é um recorte da trajetória de reveses de João de Santo Cristo, não uma reprodução audiovisual integral da canção homônima, o que se revela mais um acerto, já que o filme ganha em ritmo e em interesse. Para entusiastas da música, que a têm como parte da trilha sonora de suas vidas, o longa pode funcionar ainda mais. No caso dos demais espectadores, fica uma história bem dirigida, empolgante e corajosa em sua execução final. O título, pensado com suas palavras de modo indivisível, faz todo o sentido nos minutos finais, que não perdem em tensão mesmo para aqueles que já conheciam o desfecho que estava por vir.

segunda-feira, 17 de junho de 2013

Antes da meia-noite: o terceiro ato de um casal memorável

Jesse (Ethan Hawke) e Celine (Julie Delpy) estão de volta após mais nove anos distantes do olhar do público. O casal que se conheceu em Antes do amanhecer (Before sunrise, 1995) e se reencontrou em Antes do pôr do sol (Before sunset, 2004) chega ao seu terceiro ato em Antes da meia-noite (Before midnight, 2013) para recomeçar seu palavrório de reverberações filosóficas, poéticas e cotidianas que tanto encantou os admiradores dos outros dois tomos dessa que se tornou uma trilogia. Diálogo é o que não falta nos 108 minutos de filme, que acompanha o resultado da última cena mostrada no capítulo anterior. Agora, os dois são pais de gêmeas e estão passando alguns dias na Grécia, em mais um cenário paradisíaco, uma outra especialidade notória da série – já estivemos com o casal em Viena e em Paris.

À diferença de Antes do pôr do sol, nesse terceiro momento das vidas dos personagens, não há um reencontro que os faça enxergar como estão agora. Pelo menos, não literalmente. As longas conversas entre Jesse e Celine, dessa vez, servem para mostrar o quanto eles construíram juntos não apenas nos nove anos em que permanecem ao lado um do outro, mas também no período em que estiveram separados e ansiavam pelo dia em que se reveriam. Eles se reencontram consigo mesmos e um com o outro pela palavra em mais uma longa caminhada por terrenos acidentados e ensolarados, mas, até que cheguem a esse momento, travam diálogos com outros interlocutores, algo inédito quando pensamos nos outros filmes. O primeiro deles, aliás, é entre Jesse e Henry (chamado Hank), seu filho recém-chegado à adolescência. O menino é a síntese de sua geração: poucas palavras, atenção voltada para várias frentes ao mesmo tempo. Contrapõe-se ao pai, que se esforça para obter uma interação mais prolongada com ele por meio do diálogo, como um entrevistador que procura arrancar do entrevistado mais do que respostas monossilábicas. Desde já, espectadores habituados a cortes rápidos e ação prevalente vão percebendo que essa é uma história para quem não tem pressa.

Logo em seguida, Jesse e Celine conversam sobre uma gama de assuntos no carro, tendo as gêmeas adormecidas no banco de atrás e sendo vistos de frente o tempo todo, num dos vários planos de alto rigor formal engendrados pelo diretor Richard Linklater. Atualmente um cinquentenário, o que pressupõe um certo acúmulo de experiências, ele também assina o roteiro, novamente tendo a colaboração de Hawke e Delpy na função – o mesmo acontecera em Antes do pôr do sol. É incrível a naturalidade com que o casal passeia por diferentes tópicos enquanto ele cuida do volante e ela permanece como carona, em uma sequência que remete não apenas a Cópia fiel (Copie conforme, 2010), mas a vários outros filmes de Abbas Kiarostami, que, normalmente, inclui cenas de conversas passadas em carros. Vale lembrar que o filme citado do realizador iraniano foi apontado como tributário dos primeiros capítulos da trilogia de Linklater justamente pelos planos e diálogos intermináveis, em um exemplo saudável e delicioso de intertextualidade cinematográfica. Por falar em citações de outros filmes, em Antes da meia-noite, Jesse chega a comentar com Celine sobre um longa no qual um casal discutia sua relação, sem chegar a lembrar seu nome. Cinéfilos atentos e/ou com certa bagagem filmográfica podem pensar quase imediatamente em Viagem à Itália (Viaggio in Italia, 1954), produção de Roberto Rossellini facilmente apontável como a matriz dos quatro filmes.


Outros exemplares de franca verborragia poderiam ser mencionados para uma correlação com Antes da meia-noite, o que faria deste texto uma lista infinda - e, consequentemente, tediosa – de citações. Para além de longas afins, entretanto, um outro aspecto flagrante deste terceiro capítulo é a ação do tempo sobre a união do casal. Afinal, já são dezoito anos desde o primeiro encontro e todo esse período acarreta seus ônus e bônus. Quando, enfim, reinam sozinhos na tela, Jesse e Celine testificam essa verdade expondo as pequenas rachaduras da vida que mantêm em comum, transpirando sinceridade em cada palavra e gesto e, muitas vezes, fazendo-nos esquecer que se trata de pura encenação, de puro Cinema. Portanto, é a primeira vez em que surge espaço maior para ir além dos floreios e constatar que a convivência com um parceiro é uma eterna negociação, sob pena de confissões ressentidas emergirem no calor do momento, sem muito esforço. A bem da verdade, Jesse e Celine sempre foram um casal muito verossímil. Contudo, a sensação é de que eles nunca estiveram tão realistas como agora ou de que, talvez, o texto que proferem nunca tenha estado tão abrangente. É incrível notar como, mormente através da palavra, eles transitam do riso ao choro, da ironia à aspereza, do carinho ao desabafo.

É a primeira vez, também, em que os vemos em contato com outros casais. Eles interagem com Anna (Ariane Labed) e Achilleas (Yiannis Papadopoulos), namorados há pouco, e com Ariadni (Athina Rachel Tsangari) e Stefanos (Panos Koronis), que estão juntos faz um certo tempo, ao redor de uma mesa na qual não existe qualquer tabu. Ali, também estão Patrick (Walter Lassally) e Natalia (Xenia Kalogeropoulou), viúvos de seus respectivos parceiros que oferecem suas ponderações aos demais, todos mais jovens e, a princípio, ainda com muita estrada pela frente. Cada fala exposta é passível de análise e revela as inquietações mais antigas de ambos os sexos, sem perder de vista o humor. A troca de figurinhas entre os personagens é um dos vários achados de Antes da meia-noite, que mantém o clima de papo descontraído e o olhar afetuoso sobre aqueles homens e mulheres que, em meio às suas singularidades, também se mostram universais e produzem instantes (consecutivos ou não, a depender do espectador), de pura catarse verbal.

Lá pelos últimos 30 minutos de filme, não há espaço para ninguém mais em cena a não ser o casal. É quando suas discussões crescem ainda mais e enxergamos mais nitidamente as neuroses de Celine e as tentativas de pacificação de Jesse. Confinados em um aconchegante quarto de hotel, eles transformam o que seria uma noite idílica entre quatro paredes no terceiro tempo de uma conversa que teve início no carro e prosseguiu em uma caminhada ao ar livre. Linklater oferece pouquíssimos e discretos cortes durante mais uma saraivada de palavras e deixando Delpy e Hawke totalmente à vontade para interpretar a gangorra sentimental de seus personagens com ecos teatrais – no sentido do espaço físico restritivo. Tudo que já tinha sido mostrado até ali, começando pelo primeiro filme, coopera decisivamente para que entendamos a paixão um pelo outro em que eles estão mergulhados, mesmo quando rasgam o verbo doloridamente. Entre idas e vindas do quarto, Celine promove a desconstrução e a reconstrução daquele relacionamento e, ao chegar ao ato final, já de volta ao ar livre e, dessa vez, à luz do luar, um simples jogo de personagens dos personagens se desdobra em um final que poderia não ter chegado. Ainda estaríamos lá, embevecidos, diante de Jesse e Celine.

terça-feira, 11 de junho de 2013

A singeleza atemporal de A felicidade não se compra


Um dos filmes mais lembrados em épocas natalinas,A felicidade não se compra (It’s a wonderful life, 1946) segue resistindo ao tempo e mostrando que a singeleza ainda é uma característica muito bem-vinda às histórias contadas pelo Cinema. Sob a batuta de Frank Capra, o público é apresentado ao simpático George Bailey (James Stewart), um homem pacato a quem nunca encheu os olhos a carreira de banqueiro escolhida pelo seu pai. A vida em torno de numerários é reducionista demais para o seu gosto, e ele prefere pensar em outras opções. Entretanto, o primeiro ato do filme já mostra o protagonista em uma situação extrema. Por sua falta de coragem e iniciativa de assumir para si uma vida que realmente desejasse e não fosse apenas a projeção dos outros sobre ele, George chega ao desespero de tentar o suicídio.

Surge então, o elemento fantástico da narrativa, que fará parte dela até os minutos finais: um anjo é enviado do céu à Terra com a importante missão de impedir George de cometer sua loucura. Durante algum tempo, a criatura celestial poderá apresentar a ele a importância de estar vivo e fazê-lo perceber o quanto ele já foi de grande utilidade para as pessoas ao seu redor. Em outras palavras, o encontro com o anjo, que já vinha observando sua vida há tempos do céu, é a chance que George tem de ressignificar sua trajetória e entender que ainda há tempo de mudar e atender aos seus desejos e planos. A tentativa de suicídio, porém, não é apenas fruto da insatisfação com os rumos de sua vida, mas também da falta de dinheiro para saldar uma alta dívida. Também para isso, o anjo vem até bem perto dele, assumindo outra forma e mostrando que ainda existe um outro caminho.

O grande mérito de A felicidade não se compra é justamente a ternura com que abraça os seus personagens. O roteiro, escrito a seis mãos, oferece um olhar carinhoso sobre a vida e exalta o otimismo acima de tudo, legitimando-o como ferramenta preciosa e útil em situações para as quais parece não haver mais escapatória. George, em sua simplicidade complexa, é um indivíduo que teve sua vida forjada segundo as expectativas da família e dos amigos. Com isso, tornou-se refém da “síndrome de querer agradar”, vivendo muito mais para ser e fazer o que supõem que os outros desejariam da sua parte do que para ser e fazer o que ele mesmo desejaria. E, se os seus olhos não enxergam além dos problemas, o tal anjo é o sopro de positividade que o auxiliará a expandir sua visão e notar, entre outras coisas, que revés algum é justificativa para desistir de viver.



Trata-se, portanto, de uma mensagem bastante simples, mas que ainda encontra eco em nossos dias. Passados mais de sessenta anos desde que o filme foi lançado, ainda há pessoas que se veem frustradas com o que se transformaram suas vidas, incapazes de notar o quanto são importantes e significam para quem está à sua volta. Sem falar naqueles que ainda não perceberam o propósito de sua existência e caminham a esmo, por mais que consigam dar conta de alguns projetos e realizar alguns planos. São indivíduos que não entendem a distinção entre ser realizado e cumprir o propósito para o qual se foi criado. Portanto, A felicidade não se compra é um filme que, para além de sua aura sentimental, produz reflexões profundas sobre o quanto a vida é importante demais para deixar de ser vivida em sua plenitude. Há quem acuse a história de ser manipuladora e – quanta ironia – piegas, como se um discurso audiovisual em apologia à bondade e ao viver sabiamente não tivesse grande validade.

Discordâncias à parte, Capra fez escola através de seu filme e, de certa forma, mostrou-se um dos pioneiros de um filão profícuo: os longas-metragens natalinos estrelados por homens em revisão de caminhada. Haveria uma série de exemplares a mencionar nessa esteira, na qual cabem até filmes brasileiros, como Feliz Natal (idem, 2008), e tantos outros que encontram espaço cativo na programação televisiva especial de fim de ano. Todavia, A felicidade não se compra segue como o mais icônico da seara, iluminando corações com seu facho de luz benévola. Sem dúvidas, a excelente atuação de James Stewart também contribui para amplificar o carisma da história. Um dos melhores de sua geração, o ator humaniza ao máximo seu George e desperta identificação por meio de sua inabilidade para lidar sozinho com os próprios problemas. Consequentemente, torna-se fácil torcer para que tudo se encaixe em sua vida, como se a dificuldade do personagem também fosse a nossa. E, nos seus últimos instantes, a história se reafirma como um elogio à misericórdia e, nos mais sensíveis, pode produzir algumas lágrimas de comoção.

segunda-feira, 10 de junho de 2013

BALANÇO MENSAL - MAIO

Apesar de certo atraso, chegou a dia de tornar público mais um balanço mensal. Todos os filmes vistos por mim em maio, acompanhados de suas respectivas novas e breves comentários, estão listados abaixo, formando um painel que abrange diretores, nacionalidades e décadas variadas, numa tentativa de cobrir o maior número possível de lacunas.
 
Os melhores filmes do apareceram bem no início e bem no finalzinho do mês. Depois de um tempo de jejum, aconteceu o terceiro dez de 2013, e o responsável pela nota máxima foi Mutum, exemplar de rara sensibilidade dirigido por Sandra Kogut baseado na obra de Guimarães Rosa. O nó na garganta nos últimos minutos do singelo filme é quase inevitável. Outro grande filme do mês, também brasileiro, foi Noite vazia, magistral exemplar da filmografia de Walter Hugo Khouri que dialoga diretamente com a Trilogia da Incomunicabilidade de Michelangelo Antonioni. Durante pouco menos de uma hora meia, o realizador espia o imenso desconforto de quatro pessoas em busca de preencher suas lacunas interiores. Fechando a trinca de melhores de maio, A mulher do aviador reafirma Eric Rohmer como um dos meus cineastas franceses prediletos. Seu forte, os diálogos deliciosos, marcam presença na história de um jovem que segue os passos de um homem que parece estar envolvido com a garota que lhe interessa.
 
Entre os piores filmes vistos, está Os dias do eclipse, minha primeira frustração com Aleksandr Sokurov. Em mais de duas horas enfadonhas, o longa não diz a que veio e seu fim chega como alívio a tanto marasmo. Romance e cigarros foi o segundo filme verdadeiramente ruim de maio. O musical de John Turturro simplesmente não funciona e apenas Kate Winslet invade a tela com aparições sexies corroboradas por seus cabelos tingidos de vermelho. Outro longa de baixa qualidade foi Um dia, cuja montagem é seu principal defeito e que, apesar de uma grande premissa, é mal desenvolvido e reduzido a uma sequência de episódios sem graça.
 
A seguir, a relação completa dos filmes de maio:

LONGAS:
 
1. 2 dias em Nova York (2012) - O humor verborrágico e com algumas referências funciona muito bem e, a exemplo de seu filme anterior, Delpy volta a investir nos pequenos desastres causados pela barreira linguística. Nota: 8.0
 
2. O poderoso chefão (1972) - Um monumento cinematográfico: grandioso, notável, belas atuações e cenas intensas. No entanto, incomodam os longos diálogos expositivos, a falta de emoção e o sotaque arrastado de Brando. Nota: 7.5
 
3. Corações loucos (1974) - Apenas deixar fluir o desejo e viver no improviso. A anarquia nunca foi levada tão ao pé da letra. Nota: 8.0  
Corações loucos (1974)
 
 
4. Paprika (2006) - Uma alegoria enigmática plena de possibilidades e arapucas que seduz e intriga com seu caleidoscópio. Grande acerto da animação japonesa. Nota: 8.5

5. Noite vazia (1964) - Traduz, em planos íntimos e silêncios, a angústia dos sem-lugar. Nota: 9.0

6. Cores (2012) - "Uma geração sem respostas, com seus vinte e poucos anos e "nenhum problema resolvido / sequer colocado". Nota: 6.5

7. Somos tão jovens (2013) - Um recorte bem encenado dos primeiros erros e acertos de uma figura emblemática e com os mesmos dilemas de qualquer um. O trabalho de Mendonça com a voz é o mais interessante em toda a sua composição dramática. Nota: 7.0

8. O homem que ri (2012) - Exagera no tom folhetinesco desde os primeiros minutos, e a consequência é um filme que não se comunica plenamente com o espectador. A última cena, que poderia ser o auge de uma catarse, sequer chega a comover. Nota: 6.0

9. Amor profundo (2011) - Um clássico filme de amantes com imagens esplendorosas, uma Rachel Weisz arrebatadora que demonstra o quanto a paixão pode desnortear quem a vive, e frases duras sobre o amor ("Amar é limpar a bunda de alguém, é trocar os lençóis sujos de xixi"). Nota: 7.5

Amor profundo (2011)
10. Psicopata americano (2000) - Sob a mais fina estampa, um tenebroso instinto pode estar oculto e emergir com toda a força, sem qualquer freio moral que o aplaque. Bale em início de carreira mostrando vigor e competência em um papel asqueroso. Nota: 7.0

11. A banda (2007) - De uma singeleza adorável, incentiva o carinho e o respeito entre os diferentes na aparência e nos hábitos, mas muito semelhantes na essência e iguais na condição de seres humanos. Nota: 8.0

12. Se beber, não case! - Parte II (2011) - Arranca boas risadas com sua miscelânea de situações inacreditáveis e detalhes loucos. O macaco fumante e Mike Tyson cantor são apenas duas amostras do roteiro inventivo que joga a correção política para escanteio nessa continuação válida. Nota: 7.0

13. Depois de maio (2012) - Ideologias e engajamento perdendo o sentido. Enquanto se dilui a revolução, jovens sonhadores e amantes inconstantes se perdem no emaranhado de escolhas. Nota: 9.0

14. Butch Cassidy (1969) - A vida é cheia de nocautes e, mesmo procurando nos proteger, golpes certeiros podem surpreender e nos fazer beijar a lona. É o que nos mostra essa história emocionante e intensa sobre persistir e buscar o que se deseja com o máximo afinco. Nota: 7.0

15. Menina de ouro (2004) - A vida é cheia de nocautes e, mesmo procurando nos proteger, golpes certeiros podem surpreender e nos fazer beijar a lona. É o que nos mostra essa história emocionante e intensa sobre persistir e buscar o que se deseja com o máximo afinco. Nota: 8.0  
Menina de ouro (2004)

16. Projeto X - Uma festa fora de controle (2012) - Um bando de jovens dementes interpretando a si mesmos e resumindo os interesses babacas de uma geração em mil bizarrices. Está mais para vídeo caseiro de péssimo gosto que para Cinema. Nota: 4.0

17. Os infratores (2012) - Competente produção sobre um mundo cheio de negociatas e ímpetos violentos que segura bem o espectador. Pearce está odiável e Chastain se reveza com Wasikowska na doce tarefa de injetar beleza feminina à história. Nota: 7.0

18. Cantando na chuva (1952) - Simplesmente delicioso em todos os aspectos, renova a certeza de que o Cinema também é pura magia com suas cantorias bem orquestradas. Preciosidade dos áureos tempos dos musicais. Nota: 9.5

19. Interlúdio (1946) - Um suspense eficaz - nenhuma novidade em se tratando de Hitchcock - e cheio de belas imagens de um Rio que já se foi. É praticamente irresistível não se tornar cúmplice dos planos do casal e passar boa parte da sessão apreensivo. Nota: 8.5

20. O céu de Lisboa (1994) - Espia o início da perda de fronteiras em solo europeu baseado nos sons que caracterizam uma cidade. Além disso, é mais uma bela amostra do quanto Wenders é experimentado na construção de tramas em que o Cinema reina absoluto. Nota: 8.0

21. Faroeste caboclo (2013) -  Sampaio alude a Leone em uma bem construída saga particular marcada por reveses, como tantas outras que povoam o árido sertão nordestino. Em explosões violentas, o elenco principal diz a que veio e o maior porém são as sequências com pegada de videoclipe. Nota: 7.0

22. Sombras (1959) - A tensão étnica e social demora a se instaurar e logo se esvai, tornando a narrativa dispersa e aborrecida. Tivesse mantido o foco em sua premissa, Cassavetes poderia ter alcançado melhor resultado. Nota: 6.0 
Sombras (1959)

23. Fome de viver (1983) - Intrepidez e sangue marcam a estreia de Tony Scott na direção, além do visual arrojado. Deneuve está hipnótica na pele de uma colecionadora de amantes e cultivadora de ilusões. Nota: 7.5

24. A datilógrafa (2012) - Já vimos algo similar antes, mas... o que importa? Dois ou três momentos previsíveis não tiram o charme desta simpática e adorável comédia, feita sob medida para os adeptos do amor em um viés mais classicista. Nota: 8.0

25. Terapia de risco (2013) - As reviravoltas bem articuladas trazem à tona o lado sórdido da indústria farmacêutica, surpreendendo conforme o nível de malícia do espectador. Um Soderbergh mais maduro e outra vez competente. Nota: 8.0

26. Rocky horror picture show (1975) - Totalmente insano e, por esse motivo, de apreciação restrita. Alguns números musicais são contagiantes e divertem, valendo a sessão e mantendo certo interesse pelo pretexto disfarçado de enredo. Nota: 7.0

27. A escolha de Sofia (1982) - Muitas escolhas, uma única mulher. Encarnada à perfeição por Streep, a polonesa Sofia é o retrato de qualquer ser humano: tem que se decidir o tempo todo e nem sempre toma a atitude certa. Belo e comovente. Nota: 8.0

28. A noiva estava de preto (1968) - A vingança personificada em olhos impassíveis e em um belo suspense amplificado pela trilha de Bernard Herrmann. Por uma via incomum em seus filmes, Truffaut novamente faz girar a roda da paixão. Nota: 7.0

29. Romance e cigarros (2005) - Apesar do elenco ótimo, não decola, basicamente por causa do seu senso de humor excêntrico e pouco convincente. Por outro lado, Winslet nunca tinha estado tão ruiva e sexy. Nota: 5.0

30. Mutum (2007) - Uma lufada de sensibilidade poética que afaga o peito, devasta o olhar e impregna a mente. Nota: 10.0
Mutum (2007)

31. Moscou (2008) - Para Coutinho, o processo importa mais que o produto, assim como, para Machadão, importa mais a viagem que a chegada. O único porém são algumas perdas de rumo no caminho proposto pelo cineasta. Nota: 7.5

32. A prova (2005) - Entre teoremas e divagações, quer confundir para, em seguida, explicar com uma passagem excessivamente didática. Ainda assim, tem força e peso e seus protagonistas, boa química. Nota: 7.0

33. A tentação (2011) - Abre um debate oportuno sobre fé em dias tão céticos, mas recai nos estereótipos mais deletérios que o tópico reserva. Em termos de Cinema, o suspense funciona e o elenco defende seus papéis com certa diligência, embora Hunnam esteja um tanto canastrão. Nota: 6.5

34. Cabaret (1972) - Números musicais primorosos, roteiro afiado, sutilezas, nuances, contradições e uma Liza Minelli em ponto de bala tornam o filme uma experiência altamente compensadora. Nota: 8.5

CURTAS:

A morning stroll (2011) - A proposta é um tanto confusa, mas o olhar para alguns sintomas do nosso tempo e, talvez do nosso futuro, tornam a animação válida. Nota: 6.0

There's only one sun (2007) - Kar-Wai e a paixão pelo diáfano. Nota: 8.5

Eletrodoméstica (2005) - Seminal para 'O som ao redor', acaba funcionando muito mais como exercício voyeurístico do que como reflexão socioeconômica, terreno sobre o qual Mendonça preferiu pisar com mais desenvoltura em seu primeiro longa. Nota: 7.0

MELHOR FILME: Mutum
PIOR FILME: Projeto X - Uma festa fora de controle
MELHOR DIRETOR: Clint Eastwood, por Menina de ouro
MELHOR ATRIZ: Liza Minelli, por Cabaret
MELHOR ATOR: Christian Bale, por Psicopata americano
MELHOR ATRIZ COADJUVANTE: Kate Winslet, por Romance e cigarros
MELHOR ATOR COADJUVANTE: Morgan Freeman, por Menina de ouro
MELHOR ROTEIRO ORIGINAL: Eran Kolirin, por A banda
MELHOR ROTEIRO ADAPTADO: Ana Luiza Martins Costa e Sandra Kogut, por Mutum
MELHOR FOTOGRAFIA: Florian Hoffmeister, por Amor profundo
MELHOR TRILHA SONORA: Jürgen Knieper e Madredeus, por O céu de Lisboa
MELHOR CENA: O plano de abertura de Amor profundo
MELHOR FINAL: Cabaret
MENÇÃO HONROSA: Cantando na chuva
MENÇÃO DESONROSA: Os dias do eclipse