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sexta-feira, 22 de julho de 2016

QUINTETO DE OURO - MERYL STREEP

Tragam uma Meryl Streep para esse Oscar! Qualquer espectador de cinema que se preze - veja bem, não precisa ser cinéfilo - já esbarrou em algum filme com ela. A homenageada desse mês tem é bagagem nas costas, e às vezes parece encarnar uma personagem com o pé nas costas; não no sentido de interpretá-la relaxadamente, mas no de ter uma facilidade incrível de ser outra e outras. Sinônimo de qualidade de atuação, ela não deixa a desejar mesmo em filmes meia boca, já soma 19 indicações ao prêmio da Academia, das quais saiu como vencedora apenas 3 vezes, e nem foram por seus melhores trabalhos. Como de hábito, minha seleção vem em ordem cronológica, nada de ordem de preferência. 

Aliás, nenhum deles está entre meus eleitos para formar o quinteto de ouro de Meryl Streep. E vencer premiações de associações ou festivais é com ela mesma: a mulher já levou Bafta, Globo de Ouro, Emmy, Cannes, Berlim, San Sebastián... Pode não ser uma unanimidade, mas já provou inúmeras vezes que entende do riscado. Nascida Mary Louise há 67 anos, ela já entrou para o panteão de grandes atrizes há tempos, e não há mais porque sair de lá. Simplesmente Meryl.

1. As pontes de Madison (1995)


Geralmente loura, Meryl "se escondeu" sob fios pretos para viver Francesca, italiana radicada no interior estadunidense que vê sua aparente estabilidade sentimental mostrar a verdadeira cara quando da visita de um fotógrafo grisalho em busca de cliques para uma nova reportagem. O cenário bucólico, por si só, inspira paixão, mas, à medida que os encontros se tornam mais frequentes e as conversas, mais longas, Francesca vai mostrando sua vulnerabilidade e sua candura, as quais tenta conter com uma postura defensiva pouco eficaz. No fundo, ela só quer amar, e isso não é só "coisa de mulher", afinal. É uma mulher vista em seu passado, com cada atitude e pensamento registrado em um diário íntimo: ali está sua alma.

2. As horas (2002)


"Mrs. Dalloway disse que ela mesma compraria as flores." A frase que abre o romance de Virginia Woolf reverbera no cotidiano de Clarissa Vaughan. Ela vive a história narrada no livro que está lendo, e o único dia seu flagrado pela narrativa é uma montanha-russa de sentimentos e encontros que despertam reflexões. Se a Clarissa original era uma socialite da Inglaterra dos anos 20, a contemporânea é dona de casa, mas ambas estão envolvidas com os preparativos para uma festa, mero pano de fundo para que emerjam seus demônios interiores. O percurso existencial é penoso e mostra lados que ela se esforça em deixar cobertos, e um diálogo com o velho amigo à beira da morte é o rasgo final do véu de que se vale pelo bem da boa convivência em sociedade.

3. Adaptação (2002)


Peça fundamental em uma trama intrincada que brinca com a metalinguagem cinematográfica e literária, Susan Orlean transita por Adaptação como uma caçadora. Ela escreveu O ladrão de orquídeas, texto que Charlie Kaufman (Nicolas Cage, alter ego do verdadeiro, mas até que ponto?) tem grande dificuldade em verter para a linguagem fílmica. Perguntada sobre com quem gostaria de jantar e ter uma conversa, responde Jesus. É a personagem feminina mais forte do enredo pensado pelo Kaufman exógeno à narrativa e filmado com esmero por Spike Jonze. Meryl ficou muito interessada no papel e não fez por menos com ele nas mãos: é uma das mulheres mais descoladas de sua carreira, com sopros cômicos legítimos em meio à selva dramática na qual se embrenha.

4. O diabo veste Prada (2006)


Quem é capaz de aguentar uma chefe como Miranda Priestly? Seus cabelos brancos platinados à moda vilã da Disney, combinados com o tom de voz impostado, o figurino impecável e o olhar desintegrador a elevam não apenas à condição de diva inatingível, mas também de geradora de memes. Não há como negar que é um dos papéis mais populares de Meryl, uma comprovação de que nem só de filmes mais "artísticos" (um questionamento a esse termo levaria a outro artigo só para isso) se faz sua carreira. Da próxima vez que você quiser reclamar de seu regime de trabalho, por mais legítima que seja sua queixa, coloque-se um pouco no lugar de Andrea Sachs (Anne Hathaway), vulgo Emily: seu dia provavelmente vai ficar um pouco melhor. Mas não se engane: por mais brega que soe, as Mirandas também amam; por trás dos colares, bolsas de grife e saltos matadores, pulsa um coração.

5. Dúvida (2009)


Mais uma prova da especialidade dessa mulher na incorporação de sotaques: dessa vez, ela se apropriou do falar do Bronx, um dos condados do estado de Nova York. A Irmã Aloysius é inimiga figadal de qualquer colega que se desvie minimamente de seu sacerdócio, e basta uma leve suspeita para que ela trave uma cruzada contra o Padre Flynn (o saudoso Philip Seymour Hoffman), a quem acredita ter visto em ato libidinoso com um garoto. Se a base moral para sua campanha esmagadora é válida, o abandono do princípio da incerteza a torna uma locomotiva sem freio, e os diálogos arrepiantes entre ela e Flynn mostram a potência de um texto bem escrito, em que a visceralidade e o realismo comparecem com peso equiparado. 

domingo, 3 de julho de 2016

BALANÇO MENSAL - JUNHO

Vou direto ao ponto dessa vez: como já faço esse balanço de filmes há mais de 2 anos, os leitores já conhecem a estrutura que adoto. Então, seguem abaixo os 41 filmes que compuseram minha dieta cinematográfica de junho. Até a próxima edição!

MEDALHA DE OURO

Cabra marcado para morrer (Eduardo Coutinho, 1984)



Em uma das vezes nas quais foi entrevistado, Coutinho afirmou que não acreditava no cinema como instrumento de transformação política - talvez fosse pretensão demais para um filme. Melhor seria potencializar a reflexão através de muitas perguntas, nem todas respondidas, nem todas com respostas únicas, nem todas completamente respondidas. Não é de se estranhar, portanto, os questionamentos reverberando a todo volume na cabeça do espectador de Cabra marcado para morrer. Exemplar na aproximação com seu objeto de análise - os efeitos do regime ditatorial brasileiro sobre a vida de gente comum e trabalhadora -, e impregnado de uma metalinguagem angustiante, o longa cobre um arco de tempo real de quase duas décadas. E o senso de liberdade que aquele povo humilde carregava no peito sobrevive há gerações.

MEDALHA DE PRATA

O esporte favorito dos homens (Howard Hawks, 1964)




Deliciosamente espirituoso, o roteiro do longa de Hawks aborda a secular premissa de homem e mulher em batalha que, lá no fundo, estão caindo de amores um pelo outro. Ao escalar Rock Hudson e Paula Prentiss na defesa dos respectivos papéis, ele acertou em cheio, sobretudo por conta de Hudson, que pôde reforçar o quanto se prestava a encarnar personagens dramáticos (como nos melodramas de Douglas Sirk) como os engraçados (vide as três ocasiões em que contracenou com Doris Day). Mesmo incorporando alguns clichês ao longo da narrativa, O esporte favorito dos homens não deixa a peteca cair e reserva muitas estripulias que lhe garantem o selo de comédia genuína. O tal esporte do título, aliás, é a pescaria, pelo qual o personagem de Hudson não tem a menor afeição, mesmo sendo considerado uma referência para quem deseja fisgar um grande peixe.

MEDALHA DE BRONZE

O valor de um homem (Stéphane Brizé, 2015)



Já vem sendo dito há algum tempo (e parece que muita gente não está dando ouvidos) que estamos dando mais valor às coisas do que às pessoas. Stéphane Brizé deve se sentir incomodado com essa miopia coletiva, e essa suposição explica em boa parte a existência de O valor de um homem. Em sua terceira parceria consecutiva com Vincent Lindon (premiado em Cannes pelo trabalho), ele reflete não apenas sobre tal confusão em seu sentido mais amplo, mas também afunila o olhar para as relações entre patrão e empregado, cujos limites de sensatez e humanidade, por vezes, se mostram difusos demais. As questões se levantam: vale a pena defender um emprego com unhas e dentes apesar da intransigência das ordens superiores? As pessoas não devem ser consideradas por sua trajetória e não apenas por um passo em falso? O sopro de lucidez está reservado para o epílogo, profundo em sua simplicidade.

INÉDITOS

LONGAS


194. Trocando as bolas (John Landis, 1983) -> 7.0

195. A toda prova (Steven Soderbergh, 2011) -> 6.0
196. Ataque ao prédio (Joe Cornish, 2011) -> 7.0
197. A concepção (José Eduardo Belmonte, 2005) -> 5.0
198. Mais forte que bombas (Joachim Trier, 2015) -> 7.0
199. O valor de um homem (Stéphane Brizé, 2015) -> 8.0
200. Carrossel da esperança (Jacques Tati, 1949) -> 8.0
201. Cabra marcado para morrer (Eduardo Coutinho, 1985) -> 9.0
202. Zootopia (Byron Howard, Rich Moore e Jared Bush, 2015) -> 8.0



203. Monstros (Gareth Edwards, 2010) -> 6.0
204. 007 - Os diamantes são eternos (Guy Hamilton, 1971) -> 7.0
205. Rastros de justiça (Oliver Hirschbiegel, 2009) -> 4.0
206. Carol (Todd Haynes, 2015) -> 7.5
207. Castelo no céu (Hayao Miyazaki, 1986) -> 8.0
208. Carícias de luxo (Delbert Mann, 1962) -> 6.0
209. Camelos também choram (Byambasurem Davaa e Luigi Falorni, 2003) -> 8.5




210. Get a job (Dylan Kidd, 2015) -> 5.0
211. Certo agora, errado antes (Hong Sang-Soo, 2015) -> 8.0
212. Ondas do destino (Lars Von Trier, 1996) -> 8.0
213. O fugitivo (Andrew Davis, 1993) -> 7.5
214. Decisão de risco (Gavin Hood, 2015) -> 8.0
215. Dois é bom, três é demais (Anthony e Joe Russo, 2006) -> 6.0
216. A tênue linha da morte (Errol Morris, 1988) -> 7.0



217. Viúvas sempre às quintas (Marcelo Piñeyro, 2010) -> 5.0
218. O esporte favorito dos homens (Howard Hawks, 1964) -> 8.0
219. A história da eternidade (Camilo Cavalcante, 2014) -> 7.5
220. A espera (Piero Messina, 2015) -> 6.5
221. Dodeskaden - O caminho da vida (Akira Kurosawa, 1970) -> 5.0
222. Três enterros (Tommy Lee Jones, 2005) -> 8.0



223. Fique comigo (Samuel Benchetrit, 2015) -> 8.0
224. Com 007 viva e deixe morrer (Guy Hamilton, 1973) -> 6.0
225. Abaixo o amor (Peyton Reed, 2003) - > 7.5
226. As vinhas da ira (John Ford, 1940) -> 8.0
227. Um homem um tanto gentil (Hans Peter Moland, 2010) -> 7.5

CURTAS

Game over (PES, 2006) -> 7.0
The present (Jacob Frey, 2015) -> 8.5
Laranjas (Kristian Pithie, 2004) -> 6.0

REVISTOS

Pequena Miss Sunshine (Jonathan Dayton e Valerie Falls, 2006) -> 10.0
Dirigindo no escuro (Woody Allen, 2002) -> 8.0
A aventura (Michelangelo Antonioni, 1960) -> 10.0
Sobre meninos e lobos (Clint Eastwood, 2003) -> 8.5

MELHOR FILME: Cabra marcado para morrer
PIOR FILME: Rastros de justiça
MELHOR DIRETOR: Howard Hawks, por O esporte favorito dos homens
MELHOR ATRIZ: Cate Blanchett, por Carol e Emily Watson, por Ondas do destino
MELHOR ATOR: Vincent Lindon, por O valor de um homem e Ewan McGregor por Abaixo o amor
MELHOR ATRIZ COADJUVANTE: Sarah Paulson, por Abaixo o amor
MELHOR ATOR COADJUVANTE: Barry Pepper, por Três enterros
MELHOR ROTEIRO ORIGINAL: Byambasuren Davaa, Batbayar Davgadorj, Luigi Falorni, por Camelos também choram
MELHOR ROTEIRO ADAPTADO: John Fenton Murray e Steve McNeil, por O esporte favorito dos homens
MELHOR FOTOGRAFIA: Carter Burwell, por Carol
MELHOR TRILHA SONORA: Edward Lachman, por Carol
MELHOR CENA: A música para a mãe camelo deixar de rejeitar o filhote em Camelos também choram
MELHOR FINAL: Cabra marcado para morrer