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terça-feira, 29 de abril de 2014

O nevoeiro, uma discussão para além do suspense e da ficção científica

Em sua superfície, O nevoeiro (The mist, 2007) funde suspense e ficção científica, envolvendo seus personagens numa atmosfera literal de medo e ameaça. Desde os primeiros minutos, o mistério se instaura e produz a inquietude de uma visão bloqueada, como alguém que não consegue mais enxergar um palmo à frente do nariz. Uma forte e anômala tempestade precede o fenômeno atmosférico que dá título à história e, após ela, outros acontecimentos estranhos começam a invadir o cotidiano dos moradores de uma pequena cidade. Entre eles, David Drayton (Thomas Jane), desenhista de cartazes de filmes que tem seu trabalho prejudicado pela tormenta e vive uma demanda judicial com o vizinho da direita, a quem é obrigado a se dirigir para cobrar o seguro pela destruição de sua casa de barcos. Ao perceberem que estão em situações de estrago similares, eles acabam movidos por um espírito solidário e dão início a uma trégua implícita. 

Com o espalhar da névoa espessa sobre a cidade, os habitantes que estavam fazendo compras no supermercado principal se veem obrigados a permanecer ali, sobretudo depois que um homem entra desesperado no estabelecimento e anuncia que existe algo naquele nevoeiro, desconhecido e terrível na mesma proporção. Daí por diante, a narrativa começa a mostrar que vai além de uma mescla de gêneros cinematográficos, trazendo à tona discussões de ordem moral, religiosa e até filosófica. A produção tem seu roteiro e sua direção assinados por Frank Darabont, que adaptou uma obra de Stephen King pela terceira vez - ele já havia filmado Um sonho de liberdade (The Shawshank redemption, 1994) e À espera de um milagre (The green mile, 1999). Novamente, ele mostra enorme competência ao se apropriar de um texto do autor celebrado como um dos grandes contadores de histórias aterrorizantes, confirmando-se como o melhor adaptador de seus enredos soturnos.

Uma vez confinados no supermercado, David, seu filho e vários outros habitantes são confrontados em seus temores, que ora paralisam, ora desesperam, ora enlouquecem. Muito mais do que um conto de terror, O nevoeiro é uma proposta de análise sobre como situações-limite podem revelar o melhor e o pior dos homens, e a diversidade de reações nada mais é do que o reflexo nítido da complexidade da nossa natureza. Diante do mistério que o tal fenômeno atmosférico traz consigo, surgem explicações que incorrem nas mais variadas instâncias, como a da Sra. Comody (Marcia Gay Harden), uma fanática religiosa convicta de que os desdobramentos sobrenaturais que todos presenciam são resultado da ira de Deus. Para embasar sua crença, menciona passagens bíblicas, mas se equivoca por se manter presa à ideia de que Deus ainda exige sacrifício de alguma espécie para não lançar maldições sobre as pessoas, uma perspectiva sob a qual muitos homens e mulheres O enxergam ainda hoje e que divulgam nas várias mídias.


O papel é defendido com muita vitalidade por Harden, e o posto de grande vilã acaba sobre a Sra. Comody, através da qual o roteiro critica a postura de fundamentalistas religiosos que insistem nesse Deus carrasco e extremamente punitivo, esquecendo que Sua justiça e Sua misericórdia caminham lado a lado, sem que um atributo anule o outro. Tais conclusões podem ser encontradas a partir de uma leitura atenta do texto bíblico, não são meras opiniões surgidas deste ou daquele. Obviamente, é necessário ter fé para crer e assumir essas verdades, mas esse aspecto já levaria a questão para um outro rumo, que não cabe discutir nesta crítica. O fato é que Harden rouba todas as cenas em que aparece, levando personagens e espectadores a avaliarem sua conduta como repulsiva. Não obstante seu enviesamento, ela consegue arrebanhar seguidores conforme alguns acontecimentos vão amedrontando ainda mais os remanescentes dos ataques de seres descomunais e furiosos. Mas qual seria a explicação para o surgimento daquelas criaturas, afinal?

A resposta demora a chegar, o que leva às conjecturas da Sra. Comody e de outros personagens que seguem linhas de raciocínio distintas. É o caso de Brent (Andre Braugher), vizinho de David, que adota uma postura de extremo ceticismo diante dos testemunhos de seus companheiros de confinamento e insiste em deixar o local para descobrir o que pode estar acontecendo fora dali. Quando o primeiro fenômeno estranho ocorre e vitima Norm (Chris Owen, o garoto nerd de O céu de outubro [October sky, 1999]), atendente do estabelecimento, ele reage incrédulo e pensa que tudo não passa de uma armação de David, com quem volta a discutir. A bem da verdade, o acidente com o jovem é produto da teimosia de outros dois homens, que duvidam da audição de David e entregam Norm ao perigo. Depois de constatarem que David tinham a razão, só lhes restam a vergonha e a lamentação. A propósito de David, vale comentar o bom trabalho de Jane, no que parece o melhor desempenho de sua carreira, formada em grande parte de tropeços, sendo O justiceiro (The punisher, 2004) o mais apontado pela crítica. Aqui, ele vive um herói crível e vulnerável em constante luta contra o próprio medo.

Darabont teve autonomia para fazer algumas alterações no texto de King. No original, havia um ensaio de romance explícito entre David e Amanda (Laurie Holden), mas o realizador limou esse traço de obviedade da história, preferindo concentrar-se nos esforços dos personagens para lidar com as agruras impostas pelas entidades mutantes (?) que, cedo ou tarde, os atingem no supermercado. A sensação constante de insegurança exige medidas urgentes, e esse enfrentamento causa atitudes que, em condições cotidianas, muito provavelmente, não se concretizariam. Em certas passagens, o filme lembra Ensaio sobre a cegueira (Blindness, 2008), também baseado em um livro, por sua característica de expor indivíduos a um desconhecido que incide sobre as estruturas de sua humanidade. Para claustrofóbicos, O nevoeiro pode ser ainda mais aterrorizante, já que se passa a maior parte do tempo no espaço mínimo do supermercado. O restante da plateia também pode viver instantes de pavor, o que põe o filme entre os melhores dos últimos anos nos gêneros que abraça.

9/10

domingo, 27 de abril de 2014

Lidando com o peso das consequências em O pagamento final

Carlito Brigante (Al Pacino) está de volta às ruas. Após a intervenção de seu advogado e amigo de longa data, David Kleinfeld (Sean Penn, irreconhecível), ele pode virar uma das páginas de sua história e dar início ao plano de se mudar para as Bahamas e abrir uma empresa de locação de veículos. Ao menos, essas eram suas expectativas, mas deixar uma vida de crimes para trás vai se revelando uma tarefa cada vez mais difícil, quiçá irrealizável, para o protagonista de O pagamento final (Carlito’s way, 1993), como a primeira cena, na verdade, a derradeira, atesta. Então, um longo e elucidativo flashback situa o espectador quanto aos fatos que levaram o personagem àquele clímax, começando pelo julgamento que culminou com sua absolvição, a despeito da resistência do juiz em lhe conceder a liberdade. 

O que fica muito claro ao longo da narrativa do filme de Brian De Palma é que os efeitos de ser criminoso são sentidos a longo prazo, até mesmo depois que o indivíduo decide mudar de vida. É como se Carlito tivesse saído do crime, mas o crime não saiu dele. A todo momento, surgem contextos em que ele acaba voltando a fazer uso da violência ou de algum tipo de conduta ilícita para salvar a própria pele, e o roteiro de David Koepp baseado em romances de Edwin Torres é abundante em sequências explosivas e capazes de deixar a plateia com a respiração presa. Não faltam balas, facadas, perseguições e golpes desferidos de surpresa, o que torna O pagamento final uma intensa espiral de reviravoltas muito bem orquestradas, tendo Pacino como líder inquestionável. Ainda em ótima forma, ele retoma a parceria com De Palma dez anos depois de Scarface (idem, 1983).

Resultado de uma arquitetura dramática sofisticada, seu personagem é cheio de facetas, que se mostram a cada nova conjuntura em que ele se inscreve e dificultam bastante classificá-lo em herói ou bandido. Essas definições que se situam em extremos opostos eclipsariam momentos em que Carlito é um pouco de ambas ou tende mais a uma do que a outra, e interlocutores diferentes provam de atitudes e características diferentes dele. Como uma raposa velha, ele fareja o perigo a quilômetros de distância e sabe se prevenir antes que uma surpresa desagradável ou perigosa o atinja. Por outro lado, seus acessos de ternura estão reservados para alguém muito especial: Gail (Penelope Ann Miller), a quem deixou à sua espera quando foi parar atrás das grades e com quem tenta recomeçar esse romance interrompido. Nela, está uma forte motivação para que ele não tenha recaídas, mas Carlito sempre diz ter uma última vez, um último ato por vir.


Verdade seja dita, o maior responsável por levá-lo a cenas dantescas é David, cada vez mais encalacrado em suas negociatas escusas com seus clientes. Em nome da amizade e movido por um sentimento de dívida em relação a ele, Carlito aceita fazer parte de um plano mirabolante que vai pôr fim a dois inimigos de David e, mais adiante, esse ato insano sacode as bases de um relacionamento duradouro e ainda interfere na reaproximação entre ele e Gail. O advogado corrupto é uma interpretação feroz de Penn, que também ostenta um visual repelente, com uma calvície forjada e óculos de aros grossos que dão a falsa impressão de um homem moralmente ilibado. No fim das contas, com um amigo como ele por perto, Carlito não precisa de inimigos. Mas há outras figuras desprezíveis que dão as caras ao longo da narrativa, como Benny Blanco (John Leguizamo), que passa de admirador inconveniente que frequenta a casa noturna administrada por Carlito a seu maior algoz em decorrência de um orgulho (besta) ferido.

Diante de uma direção tão segura e coesa como a que De Palma apresenta, é curioso quando se descobre que ele não era o nome originalmente pensado para a função. Antes, John Mackenzie e Abel Ferrara chegaram a ser cogitados e, por mais que se possa crer no grande talento desses realizadores, O pagamento final acabou em excelentes mãos, e não seria exagero pensar que, com Um tiro na noite (Blow out, 1981) e Dublê de corpo (Body double, 1984), forma uma trinca de ases na filmografia construída por De Palma até aqui. Entretanto, se nesses filmes anteriores ele ainda exercitava um forte tom hitchcockiano, aqui ele caminha para outras direções e exibe uma capacidade de imprimir seu estilo de modo mais efetivo, ainda que permaneça um diálogo latente com seu mestre. Isso fica nítido quando se entende que Carlito, a maior parte do tempo, é o homem errado no lugar errado, embora no caso da colaboração com David seja ele mesmo que se coloca em uma situação que não lhe cabia, e Hitchcock era um especialista em filmar enredos dessa natureza.

De Palma também retoma aqui sua parceria com Stephen H. Burum, responsável pela fotografia faiscante dos ambientes, sobretudo a casa noturna, onde Carlito vivencia momentos de pura tensão compartilhada com o espectador. As variações de tons cálidos propiciadas por suas lentes excitam as retinas de um público que, a partir de certa altura, pode se ver na condição de cúmplice de Carlito, tamanho o carisma que o personagem consegue despertar. É como se o tivéssemos absolvido no início da história, quando ele foi liberado da prisão, e seus atos pudessem ser justificáveis, ao menos sob algum ponto de vista. Entretanto, os critérios definidores de certo e errado, por mais voláteis que tenham se tornado ao longo dos anos, não impedem que ele sofra as consequências de escolhas mal feitas, e o roteiro não abre mão de trazê-las a Carlito. Por volta da meia hora final, ele é perseguido em uma estação de trem, e a sequência mais eletrizante do filme acontece nas escadas rolantes do lugar, entre tiros e corridas desesperadas. Mesmo um gato de sete vidas como Carlito pode esgotar suas possibilidades em algum momento.

9/10

quinta-feira, 17 de abril de 2014

A imigrante, uma tragédia de substrato otimista

Os céus plúmbeos de Nova York dão o tom de A imigrante (The immigrant, 2013), mais um trabalho lapidar assinado por James Gray. Realizador de pérolas incrustadas em gêneros esgarçados como Os donos da noite (We own the night, 2007) e Amantes (Two lovers, 2008), ele volta a filmar em sua cidade natal e recruta, pela quarta vez, Joaquin Phoenix para o elenco. Dessa vez, porém, o protagonismo não cabe a ele, mas sim a Marion Cotillard. É dela a primeira cena do filme, na qual conhecemos sua personagem, Ewa Cybulski. Nascida na Polônia, ela vai para os Estados Unidos na companhia da irmã, que fica retida no posto de imigração devido à suspeita de tuberculose, apesar de suas tentativas de disfarçá-la. Não tarda para que Ewa descubra que a terra das oportunidades que estava em seu horizonte de expectativas é uma utopia. 

Suas dificuldades são atenuadas graças ao auxílio de Bruno (Phoenix), que já está no país há alguns anos e consegue se deslocar por espaços sociais distintos com traquejo e desenvolve um súbito afeto por ela assim que a vê em apuros. Entretanto, o que essa figura carismática tem a oferecer está muito longe dos planos e intenções de Ewa, que se vê transformada em atração de um cabaré, ainda que destoe completamente daquele cenário lúgubre. Seus esforços passam a ser em direção a uma estabilidade financeira e ao resgate da irmã, que ficou sob tratamento médico. Ao mesmo tempo, seu relacionamento com Bruno vai evoluindo e, para completar o que se insinua e, a posteriori, se confirma como um triângulo amoroso, entra em cena Orlando (Jeremy Renner).

O mágico de porte elegante não fica atrás de Bruno no quesito carisma, mas tem outros meios de cativar o coração de Ewa, surpreendendo-a com pequenas gentilezas. A imigrante se revela, portanto, como um filme tradicional sobre a cisão de uma protagonista entre dois caminhos. Nesse sentido, vale destacar que Gray não está preocupado em inventar a roda. O diretor investe em um terreno conhecido, a exemplo de suas obras precedentes, mas, o que poderia soar como uma insistência em permanecer numa zona de conforto se mostra como uma reafirmação de seu domínio sobre a técnica da filmagem e na condução de um roteiro pródigo em reflexões morais. Estamos diante de um cineasta à moda antiga, que dialoga com a tragédia em seu componente adjetivo, usado para se referir a enredos de clímax triste.


Em sua passagem pela 66ª edição do Festival de Cannes, o longa teve uma recepção morna e injusta. A verdade é que, desde a sua estreia, Gray divide opiniões na Croisette, apesar de ser habitué da mostra francesa: A imigrante é o quinto filme de sua carreira e o quarto a ter recebido indicação à Palma de Ouro. Para alguns, trata-se de um farsante, enquanto outros abraçam o seu estilo operístico de filmagem e escrita, rendendo-lhe comentários elogiosos. Esta segunda ala, que inclui tanto críticos quanto espectadores, parece a mais sensata, por assim dizer. Afinal de contas, não faltam virtudes em seu modus operandi e este quinto filme vem para confirmar essa tese nem tão facilmente refutável. O curioso é que, sobretudo entre os portugueses, o longa foi visto como o seu pior. Aliás, na Terrinha, ele foi batizado no feminino, um raro caso em que os gajos foram mais felizes na tradução, já que o filme é muito mais de Cotillard do que de Phoenix.

Por falar em Cotillard, há que se reconhecer o seu empenho na construção de Ewa, que inclui vários diálogos em polonês legítimo, que a atriz teve de aprender para conferir ainda mais veracidade à imigrante. Segundo a própria, esse foi o seu grande desafio, já que a língua - de grande incidência consonantal - exige uma impostação de voz distinta do inglês e do seu francês materno. Quanto à sua escalação, Gray afirmou que ela não se deveu a nenhum trabalho anterior seu, mas a seu rosto que o fazia lembrar Renée Falconetti em A paixão de Joana d'Arc (La passion de Jeanne d'Arc, 1928). Um elogio e tanto, é verdade, mas fica difícil aceitar que ele não a tenha visto em interpretações formidáveis como as de Piaf - Um hino ao amor (La môme, 2007), pelo qual foi oscarizada, e Ferrugem e osso (Rust and bones, 2012). Talvez, a essa altura, o cineasta já tenha corrigido sua falha. 

Por sua vez, Phoenix acrescenta outra grande desempenho à sua carreira, e elogiá-lo é chover no molhado. Em cada gesto, olhar e entonação, ele ratifica a moral ambígua de seu Bruno, capaz de atos de grande altruísmo e, na cena seguinte, de uma conduta deliberadamente egoísta. Imprensado entre ambos, está Renner, que mostra talento no pouco tempo em que aparece em cena, fazendo-se lembrar como o vértice mais suscetível do triângulo e respondendo pelo apogeu dramático da narrativa. A imigrante, em seu conjunto, é um filme sobre esperança, amor e perdão, atos e sentimentos universais e desejáveis, trazidos à tona em um discurso apologético e esplendidamente fotografado. Não se equipara à obra-prima que é Amantes, mas estabelece um elo coesivo com sua filmografia até aqui.

8/10

quarta-feira, 16 de abril de 2014

Uma vida exposta ao horror em O pianista

Baseado nas doloridas memórias de Wladyslaw Szpilman, O pianista (The pianist, 2002) é uma experiência que confronta a disposição do espectador em testemunhas e suportar injustiças, desumanidade e uma série de conceitos que evocam o que pode haver de mais atroz no mundo. O personagem cuja profissão intitula o filme é interpretado por Adrien Brody - vencedor do Oscar de melhor ator pelo papel -, que confere uma verdade quase palpável ao homem que perdeu seu chão e quase teve a dignidade roubada no ápice da Segunda Guerra Mundial. Judeu e polonês, ele tinha uma vida tranquila, exercendo seu ofício com dedicação e entusiasmo, até que os nazistas, cujo poder se alastrava cada vez mais e estava sintetizado na figura tétrica de Adolf Hitler, chegou ao seu país. 

A partir de então, tudo se transformou para pior, gerando um pesadelo interminável que as lentes de Roman Polanski, responsável pela direção do filme, espiam bem de perto. A solução mais plausível para escapar de um governo antissemita, que sequer permitia a circulação de judeus sobre as calçadas dos bairros, era deixar o país. Mas Wladyslaw não queria considerar essa hipótese, deixando a família aflita com sua resistência em partir, a qual ele justificava afirmando que, quando fosse a sua hora, ele morreria onde quer que estivesse. Esse estilo resignado de encarar a vida talvez explique, mais à frente, a sua grande capacidade em resistir aos horrores que vivencia, o que inclui perder o direito de exercer sua amada profissão e se distanciar cada vez mais da família, além de períodos de fome. A certa altura, a única refeição disponível é um caramelo, vendido a um alto preço, que ele divide com os pais e os irmãos.

Em meio a tanta desolação, O pianista se destaca de outros dramas por não investir em uma tristeza forçada. A direção de Polanski é comedida, e ficar comovido é apenas uma questão de manter os olhos atentos à tela. Não há nem diálogos constrangedores, nem uma trilha sonora insistente para arrancar lágrimas. O simples desenrolar dos fatos é o suficiente para angustiar o espectador, e há uma longa sequência em que ambos os aspectos são deixados de lado em prol da experiência silenciosa de tentativa de sobrevivência do protagonista. É uma escolha acerta do roteiro, vale dizer. Afinal, tiraram todo o som da sua vida, e não lhe resta nada além de recolher as migalhas que encontra pelo caminho. O silêncio só é quebrado por eventuais bombardeios, disparos e gritos cruéis de soldados à caça de pessoas que, aos olhos do nazismo, não se encaixam no conceito de uma raça pura, quimera hitleriana derrubada nas Olimpíadas de Munique com a vitória emblemática do corredor Jesse Owens.


Agraciado com a Palma de Ouro em Cannes, o longa também é um reencontro de Polanski com o seu próprio passado em forma de celuloide. Isso porque seus pais, a exemplo do que houve aos pais de Szpilman, foram aprisionados em campos de concentração, e sua mãe foi morta em Auschwitz. Muito provavelmente, filmar essa história foi como tocar em uma ferida ainda aberta, cuja cicatrização talvez nunca se complete. E, para além de rever e repensar o sofrimento de milhares de seres humanos rechaçados, O pianista é uma forma de mostrar às gerações mais novas um dos episódios de horror inscritos na História, cujo rumo é, em boa parte, definido pelas atitudes dos homens que a vivem. Sob nenhum ponto de vista seria possível legitimar o genocídio causado pelo nazismo, e a história de Szpilman aponta para essa impossibilidade o tempo todo. A cada nova cena de degradação experimentada pelos personagens, cresce a revolta em saber que Hitler e sua corja tiveram tanto tempo de consumar seu ódio infundado.

Muito da força de O pianista, sem dúvida, vem da interpretação assombrosa de Brody. Ele emagreceu 14 quilos para dar vida ao músico e expressa em seu olhar uma vida devassada e esvaziada de sentido, e sua expressão corporal denota um físico cansado e dilacerado, numa composição que encontra uma certa correspondência no trabalho de Joaquin Phoenix em O mestre (The master, 2012), sendo as motivações de cada personagem ligeiramente distintas. Entretanto, o filme não se restringe ao medo e ao desespero: houve uma chance de recomeço para Szpilman, justamente de onde menos se poderia esperar, o que infla O pianista de um otimismo alentador. É interessante perceber que, como ele, nós, o público, ficamos inicialmente desconfiados daquela ajuda, como se não fosse certo acreditar nela. Com isso, o roteiro nos mostra que generalizações são perigosas, já que nos fazem perder de vista as exceções a uma regra nefasta. O pianista chega muito perto das profundezas de um abismo terrível, do qual só a gentileza de uma mão estendida poderia resgatar. Depois de longos planos silenciosos, Polanski faz sentir o peso de cada nota. 

9/10

sábado, 12 de abril de 2014

A promessa e os traços marcantes de um fazer cinematográfico

A proposta de cinema dos irmãos Jean-Pierre e Luc Dardenne fica muito evidente logo em seu primeiro filme, A promessa (La promesse, 1996). Hoje em dia, a dupla de cineastas belgas é queridinha do Festival de Cannes, e seu passaporte para figurar entre os mais badalados da tradicional mostra francesa, decerto, foi carimbado nessa estreia. O longa foi exibido por lá dentro da Quinzena dos Realizadores, que apresenta diretores geralmente em seu primeiro trabalho e que, futuramente, podem vir a conquistar um espaço todo seu no meio cinematográfico. Como de hábito na primeira obra de um autor, são evocados muitos aspectos e questões de sua própria biografia, sobretudo o olhar sobre a classe operária, apresentado através do protagonista Igor (Jérémie Renier), um garoto de 15 anos que mora com o pai, Roger (Olivier Gourmet). 

Alternando sua rotina entre o aprendizado em uma oficina mecânica e o auxílio nos negócios do pai com imigrantes ilegais, ele experimenta as agruras de um mundo árido, destituído de cores que lhe possam conferir alguma leveza. O roteiro, também de autoria dos diretores, não deixa claras algumas informações, como o tempo que passou desde que a mãe de Igor morreu. O que se percebe é uma dificuldade de Roger em lidar com a adolescência do filho: em algumas situações, ele trata o garoto de igual para igual, e o resultado é que Igor tem uma maturidade inesperada para sua faixa etária, a qual, por sua vez, conjuga-se com o ambiente algo hostil em que ele se encontra inserido. Logo na sequência de abertura do filme, torna-se patente o caráter desviado de Igor: ao atender uma senhora cujo carro tinha um problema no motor, é rápido em seus movimentos, resolve o problema e ainda consegue roubar sua carteira, agindo cinicamente.

Esses e outros detalhes foram se revelando, ao longo dos anos, traços do fazer cinematográfico dos Dardenne. Com uma filmografia de apenas seis exemplares, os irmãos já demonstraram que seu interesse é investigar o lado menos glamouroso e iluminado da Europa, com seus problemas de ordem econômica e étnica, aqui sintetizados nos negócios escusos de Roger, que exige altas quantias de seus clientes africanos para forjar seus documentos e os põe a seu serviço em trabalhos braçais em sua companhia de construção. Entre esses trabalhadores, encontra-se Amidou (Rasmane Ouedrago), que chega à França acompanhado da esposa e do filho com a perspectiva de uma vida mais decente. As circunstâncias, porém, não lhe favorecem e, depois de cair de um andaime em serviço, Amidou acaba morrendo, não sem antes fazer Igor - o único que testemunha sua morte - prometer que vai cuidar de Assita e Tiga.


O garoto não revela ao pai a promessa, e sua escolha em ajudar a mulher e o filho de Amidou em segredo respinga em seu relacionamento com Roger, que começa a degringolar. Habituado à trapaça, ele mente ao pai e consegue dinheiro para Assita, mas logo é desmascarado e acende a fúria do genitor, que o proíbe de qualquer gesto favorável a ela e à criança. Cada vez mais inconciliáveis, as diferenças vão afastando pai e filho, e trazendo à tona outra questão fundamental no cinema dos Dardenne, corroborada por seus filmes seguintes: a ternura que se subscreve a uma secura externa. Igor se afeiçoou a Assita e a Tiga, e carrega um certo remorso pela morte de Amidou, por mais que Roger tenha lhe assegurado que não foi culpa dele. Aliás, a reação extremamente fria do comerciante à constatação da tragédia choca tanto o espectador quanto Igor, dando início às suas ações paralelas às do pai, bem como de suas recomendações. Com isso, os Dardenne oferecem uma fagulha de otimismo onde, a princípio, só haveria desgraça e maldade. 

Os diretores também costumam abrir mão de trilha sonora, e A promessa traz apenas uma sequência musicada, um raro momento de carinho entre Igor e Roger, que cantam animadamente no karaokê de um bar. Antes e depois desse momento, é como se não houvesse alívio ao alcance dos personagens, e tudo se resumisse a uma peleja constante pela sobrevivência, que esmaga o espaço dos sentimentos e cria uma carapaça protetora até certo ponto. Em seu trabalho seguinte, Rosetta (idem, 1999), eles ratificam esses princípios, além de começar a demonstrar uma alternância no sexo de seus protagonistas, sempre vivenciando cotidianos desérticos. A promessa também é a primeira parceria dos irmãos com Renier e Gourmet, hoje seus atores-assinatura. Os dois encontram o perfeito equilíbrio entre amor de pai e filho e a dificuldade em manifestá-lo a maior parte do tempo, evidenciando a complexidade do sentir e do falar, seja com palavras, seja com atitudes. O binônio Cinema-verdade é sempre um absurdo em sua pretensão, mas os Dardenne conseguem chegar muito perto dessa proposta a cada filme. O marco inaugural da dupla é uma demonstração de humanidade em meio à aparente secura. 

8/10

domingo, 6 de abril de 2014

De volta para o futuro 3, a despedida de parceiros inesquecíveis

Cheiro de nostalgia no ar... As aventuras de Marty McFly (Michael J. Fox) e Emmett Brown (Christopher Lloyd) oferecem ao público que não as acompanhou à época de seu lançamento uma empolgação difícil de conter, e chegar à sua última parte traz uma saudade antecipada, que se confirma depois que a última cena termina de ser exibida. De volta para o futuro 3 (Back to the future part III) é o desfecho de uma premissa genialmente desenvolvida, e o foco, dessa vez, recai sobre o cientista, como o final do filme anterior deixava indicado. Ao visitar a versão de 1955 de Emmett em busca de ajuda, Marty se apavora ao encontrar uma lápide com o nome do amigo, cuja causa mortis é uma briga tipicamente westerniana: um assassinato decorrente da perda em um duelo com um rival mal-encarado. O ano do falecimento é 1885, em que Emmett foi parar depois do acidente com o DeLorean no segundo filme. É então que eles precisam usar novamente o veículo e retroceder até o século XIX, tirando o inventor da máquina do tempo dessa enrascada. 

Em uma rápida comparação com seus antecessores, De volta para o futuro 3 perde alguns pontos, mas não deixa de apresentar suas qualidades próprias e reforçar algumas que são características da trilogia. Entre elas, o companheirismo irrepreensível de Marty e Emmett, capazes de se meter em grandes encrencas para, pouco depois, sacar soluções espertas da manga. No caso específico desse terceiro filme, o que é mais notável é a homenagem ao gênero faroeste realizada através do roteiro de Bob Gale. Da ambientação da história, passando pelos figurinos interioranos dos EUA - com os quais Marty não se dá muito bem - até os diálogos curtos e grossos proferidos pelos sujeitos nada amistosos que habitam a pequena cidade, há muitas remissões à cartilha clássica que nomes como Sergio Leone ajudaram a consagrar no transcorrer dos anos. Em meio a essas referências, não se perde de vista o humor, que surge do comportamento atrapalhado da dupla, longe de um perfil heroico tradicional.

O aspecto verdadeiramente incômodo dessa etapa da história é a sensação de que faltaram mais boas ideias a serem trabalhadas. Ainda pensando em termos comparativos, os filmes anteriores tinham vários acontecimentos sobrepostos, e uma simples piscada poderia representar a perda de detalhes importantes. De volta para o futuro 3 é, por assim dizer, minimalista, delimitando o seu nó narrativo em poucos minutos e desenvolvendo-se inteiramente ao redor de sua resolução, e as tentativas para tal se estendem por duas horas. Mas, até nesse ponto, o filme se assemelha a um faroeste, em que se costumam ver enredos áridos sendo trabalhados ao longo de muitos minutos, e os duelos regados a muitas balas dão o tom da experiência fílmica. Ao mesmo tempo que é um defeito da obra, afirma-se como uma de suas peculiaridades, a depender do prisma sob a qual ela é observada. Vale dizer que Marty e Emmett se saem muito bem como caubóis de ocasião, e a valentia do segundo, despertada quando o chamam de covarde, é bem útil para livrá-los de algumas situações.


De todas as homenagens e citações ao gênero cinematográfico mais representativo dos EUA, porém, a mais escancarada surge quando Marty se apresenta como Clint Eastwood, ninguém menos que o protagonista da Trilogia dos Dólares. O rapaz usa o pseudônimo quando é perguntado por Seamus (o próprio J. Fox) e Maggie (Lea Thompson), ninguém menos que seus trisavós, sobre sua identidade, e não quer causar mais confusão àquela altura por ser reconhecido como descendente daquela família. Foi uma boa sacada de Gale essa. Ele ainda brinca com o fato de que Eastwood ainda não era um nome icônico em 1885, um dos anos porque a história passa, além de um dos índices de unidade da trilogia. Entrar em detalhes sobre outros desdobramentos da trama é cortar o barato de seus futuros espectadores. Por outro lado, quem já conferiu os filmes pode se relembrar de outros momentos inspirados e cultivar a sua saudade por saber que Emmett e Marty não voltam mais. Os amigos e suas histórias ficam na memória, onde podem ser acessados sempre que der vontade.

De volta para o futuro 3 foi rodado simultaneamente com a segunda parte, lançamento de ambos ocorreu com um intervalo de apenas 6 meses, o que serva para comprovar o sucesso da série, que tem como um de seus produtores ninguém menos que Steven Spielberg, vale lembrar. Outra figura carismática presente nos filmes é o cãozinho Copérnico, que leva Marty ao túmulo de Emmett no início desta terceira parte e dá início a uma nova aventura. Um detalhe curioso a respeito do personagem é que, na verdade, era um homem fantasiado de cachorro! A "interpretação" foi tão convincente que mal se pode reparar isso. Apenas as cenas filmadas mais de perto é que contam com o animal verdadeiro. Entre as várias outras curiosidades sobre os filmes, há uma que envolve o nome de Emmett: ao ser lido invertidamente, seu som é muito próximo ao de "time", palavra em inglês para "tempo", elemento mais importante de toda a saga. Com certeza, não foi uma escolha aleatória do roteiro, cuja estrutura bem arquitetada falta a muitas produções dos últimos anos. Em sua sequência final, montanha-russa de emoções, Marty e Emmett demonstram o quanto sempre estiveram unidos, e o cientista deixa uma mensagem estimulante ao jovem amigo e sua namorada: O futuro ainda está por ser escrito, e cabe a cada um torná-lo o melhor possível. E dois parceiros inesquecíveis se vão...

8/10

quarta-feira, 2 de abril de 2014

12 anos, 12 filmes

Não sei dizer ao certo como e porque me tornei cinéfilo, mas consigo estipular quando. A paixão nasceu com toda a força e intensidade em 2002, quando eu ainda saía da pré-adolescência e fui percebendo que filmes podem ser grandes companheiros, além de janelas fascinantes para outros mundos, tempos e pessoas. É inevitável recorrer a alguns clichês para definir meu sentimento pelo Cinema, mas o bom Cinema também é feito de alguns bons clichês, então, não me envergonho deles. Ao longo desses 12 anos de vida cinéfila, completados em abril, minhas preferências foram se transformando, fui descobrindo novos atores, diretores, roteiristas, fotógrafos, compositores e tantos outros profissionais envolvidos nessa arte centenária, tão jovem se comparada às suas irmãs.

Um detalhe não mudou em todo esse tempo: continuo apaixonado por Cinema, com a diferença de que só faço ficar mais e mais apaixonado. De 2009 para cá, surgiu o desejo de escrever críticas para os filmes que amo, uma forma de complementar a experiência de assistir a eles e dividir minhas impressões com leitores e espectadores em potencial ou não desses filmes. Hoje, somo um total de 500 textos em que expresso o meu olhar - sempre subjetivo, obviamente - sobre os mais variados títulos, e nem sempre são os meus preferidos, embora eu continue priorizando escrever sobre filmes que considero maravilhosos, minha proposta inicial. 

Daí surgiu a ideia de reunir em um artigo 12 filmes marcantes desses últimos (ou primeiros) 12 anos de cinefilia. Precisei estabelecer alguns critérios, e o principal deles foi selecionar apenas filmes rodados a partir de 2002, peneira que deixou de fora vários xodós. O segundo recorte em que pensei foi eleger filmes que, não necessariamente, são os meus preferidos desse período, mas os que me parecem mais representativos, o que me levou ao terceiro critério: oferecer, ao mesmo tempo, um panorama da produção cinematográfica desse tempo e um painel de indicações a quem possa ter deixado passar algum (ns) deles. Os filmes estão listados em ordem cronológica, acompanhados de uma minirresenha justificadora de sua presença na seleção. No caso de filmes do mesmo ano, prevaleceu a ordem alfabética entre eles. Aproveito para dedicar os textos a todos os amigos que fiz ao longo dessa caminhada cinematográfica (permitam-me fazer um trocadilho), e espero pelas suas avaliações e comentários. É certo que cometi injustiças, mas fiquei satisfeito com o resultado, até bem mais do que esperava no início do "projeto". Vamos aos filmes:


Eternamente sua (Sud sanaeha, 2002), de Apichatpong Weerasethakul

Um jovem casal se embrenha numa floresta para uma tarde a sós. O contato direto com a natureza quase forja um mimetismo entre eles e o ambiente, mas há uma terceira pessoa que, a certa altura, interrompe aquela sincronia semisilenciosa, até então vozeada apenas pelos silvos dos ventos de monções, fenômeno atmosférico tipicamente asiático. É sobre esse prisma que se constrói o cinema do realizador tailandês de nome impronunciável. O homem no espaço que ainda não modificou, de volta a um estado de pureza selvagem, quimera da filosofia de Rousseau, não é exclusividade de Eternamente sua. De uma forma ou de outra, os personagens de seus filmes buscam algum tipo de plenitude em meio a folhagens, riachos e na interação com o fantástico tratado como banal por suas lentes. Os espectadores interessados por uma narrativa que deixa intuir mais do que nomeia são seus grandes beneficiários.


Saraband (idem, 2003), de Ingmar Bergman

Os amantes de longa data Johan (Erland Josephson) e Marianne (Liv Ullmann) se reencontram depois de 30 anos. As páginas escritas pelos dois enquanto estavam separados se misturam e compõem um rico painel de reminiscências generosamente compartilhadas com o público. Estamos diante do último filme do cineasta que orientava sua arte no sentido das escavações da alma, uma preferência sempre perturbadora, em maior ou menor grau. Ele não admitia, mas era uma continuação de Cenas de um casamento, mais uma catarse verbal entre duas pessoas que se conhecem no íntimo dos defeitos e qualidades, lidando com a dificuldade em dizer. Cabem ainda acertos de conta doloridos entre pai e filho, filha e pai, avô e neta, traduzido em diálogos arrepiantes que aderem a memória por uma duração considerável, ecoando internamente e repercutindo entre nossas reflexões.


Sobre café e cigarros (Coffee and cigarettes, 2003), de Jim Jarmusch

Sabe aquelas pessoas para quem tudo é motivo para tomar um cafezinho? Ou aquelas que, de tão viciadas, acendem um cigarro a todo momento? São elas as protagonistas desse ensaio em preto e branco sobre a trivialidade. Uma coletânea formada por 11 curtas-metragens em que gente absolutamente comum - ou não, já que a maioria são atores "interpretando" (com ou sem aspas?) a si mesmos - em diálogos coloquiais e corriqueiros, num exercício de estilo tipicamente jarmuschiano. É uma delícia acompanhar a geleia geral formada por nomes como Iggy Pop, Bill Murray, Cate Blanchett, Alfred Molina, entre outros - até Roberto Benigni está bem aceitável -, que discutem sobre questões como Paris nos anos 20, o uso de nicotina como inseticida, as invenções de Nikola Tesla e por aí vai.


Brilho eterno de uma mente sem lembranças (Eternal sunshine of the spotless mind, 2004), de Michel Gondry

O tratado mais inventivo sobre as relações amorosas no Cinema tem um título extenso. Centrado nas figuras bipolares de Joel (Jim Carey) e Clementine (Kate Winslet), o roteiro de Charlie Kaufman discursa sobre as armadilhas de amar e recorre aos (des)caminhos da memória para tentar dar conta desse projeto. Não faltam momentos de fusão entre real e imaginário, e as sequências desse segundo tipo convidam o público à suspensão da descrença, conceito que Gondry costuma seguir à risca em seus trabalhos, além dos saltos temporais e dos recortes entre as cenas, uma herança clara de seu passado ocmo diretor de videoclipes. De lambuja, ele ainda reafirma a velha máxima conforme a qual "De perto, ninguém é normal", seja pelos tons extravagantes dos cabelos de Clementine, seja pelas experiências únicas trazidas pelas muitas lembranças que Joel deseja apagar, ideia que abandona pouco tempo depois.


Closer - Perto demais (Closer, 2004), de Mike Nichols

Sonorizados pela balada de The blower's daughter, no timbre agudo de Damien Rice, os protagonistas dessa crônica antirromântica se deslocam entre si, perdendo-se e (re)encontrando-se quase a cada novo plano. Poucos filmes foram tão longe na exposição da agonia de querer quanto este, adaptado da peça escrita por Patrick Marber, também autor do roteiro. Talvez por isso, uma grande parcela dos espectadores se sentiu incomodada e rechaçou o filme, enquanto outros se entregaram plenamente à sua proposta - como foi o meu caso. De uma forma ou de outra, todos provaram que é impossível ficar indiferente à teia que entrelaça Anna (Julia Roberts), Dan (Jude Law), Alice (Natalie Portman) e Larry (Clive Owen), até hoje os melhores desempenhos de seus respectivos intérpretes.


A leste de Bucareste (A fost sau n-a fost?, 2006), de Corneliu Porumboiu

Foi ou não foi? A pergunta objetiva forma o título original do debate político engendrado por Corneliu Porumboiu, expoente do cinema romeno contemporâneo que alterna momentos de humor discretíssimo e arguto com um calor humano que falta a muitos filmes. Tudo gira em torno de uma pequena cidade cuja localização é dada pelo nome brasileiro da obra. Para alguns, ela teria feito parte da manifestação que culminou com a derrocada do ditador Nicolae Ceausescu, em fins da década de 80. O auge da narrativa, exígua em personagens e ações, é a transmissão do programa de TV em que os três indivíduos apresentados pelo roteiro do próprio realizador argumentam contra ou a favor da tese de que, mesmo pequena, houve participação da cidade na revolução democrática. O tom jocoso é propiciado pelas ligações de alguns telespectadores, especialmente um, que insiste em colocar em xeque as afirmações de um dos debatedores.


Medos privados em lugares públicos (Coeurs, 2006), de Alain Resnais

O tempo parecia não passar nunca para Alain Resnais. Falecido aos 91 anos, seu fôlego não correspondia ao esperado para sua idade: era um garoto travesso, e suas travessuras vinham em forma de filmes. Ao se apropriar da peça teatral cujo título foi traduzido para batizar o filme em solo brasileiro, ele se debruçou sobre os temas de sempre em sua carreira, além de colocar em discussão a artificialidade das relações humanas do início do século XXI.Como aliadas dessa proposta, estão as cores berrantes dos cenários e figurinos conjugadas a uma névoa mais ou menos espessa, a depender da sequência, o que reveste o longa de uma aura divagante. Não temos plena certeza de estar no passado ou no presente dos homens e mulheres perdidos à procura do amor, e a insegurança persiste mesmo depois do último fotograma, compondo o que se pode chamar de genuína obra em aberto, devidamente premiada com o Leão de Prata de direção no Festival de Veneza.


35 doses de rum (35 rhums, 2008), de Claire Denis

Filmes com a assinatura de Claire Denis costumam exigir um tempo de decantação maior de seu público, em função de sua escolha por trabalhar com um espectro cognitivo mais esgarçado. Entretanto, o grau de acessibilidade em sua obra é variável em termos relativos e absolutos, e 35 doses de rum é um dos seus exemplares menos herméticos. Narrado quase totalmente de modo linear, acompanha o cotidiano de um viúvo (Alex Descas, seu ator fetiche) que mora com a filha em um complexo habitacional e vê seu relacionamento com ela sofrer mudanças com a entrada de um rapaz em cena. Apesar de conciso, o roteiro escapa de qualquer afobação e economiza nos diálogos, o que resulta em uma história arejada, que deixa seus personagens respirar. O ensaio de reviravolta se faz presente, mas Denis, subversora de esquemas cinematográficos, trilha outros caminhos.


Meia-noite em Paris (Midnight in Paris, 2011), de Woody Allen

É curioso recordar como, em 2011, de repente, todo mundo virou fã de Woody Allen. O surgimento dessa legião se deveu, basicamente, a Meia-noite em Paris, mais uma prova cabal de que o novaiorquino consegue fazer sempre o mesmo filme e discorrer sobre os mesmos temas sem cair na redundância. Em seus trabalhos mais recentes, ele tem preferido "apenas" escrever e dirigir, o que significa entregar o papel de misantropo neurótico, seu alter ego, a um ator que possa desempenhá-lo com louvor. Owen Wilson foi o escolhido da vez, e arquitetou com perícia seu Gil Pender, roteirista que sofre de saudades de tempos que ele sequer viveu. Seu desejo de pertencer a outras épocas é saciado, ainda que temporariamente, depois que ele é "sequestrado" pelos passageiros de um carro antigo. Entrevistado sobre o filme, Allen disse ter pensado primeiro no título, e não fazia a mínima ideia do que poderia acontecer à meia-noite em Paris.


Shame (idem, 2011), de Steve McQueen

O vazio das relações contemporâneas está em foco neste segundo longa-metragem de McQueen, homônimo do famoso ator da Hollywood clássica. Toda a angústia de não se sentir preenchido é sintetizada em Brandon (Michael Fassbender), um executivo de bela estampa que não sabe se conectar com ninguém pela via do sentimento. Decorre dessa inabilidade uma entrega irrestrita ao impulso do prazer sexual, consumado com os parceiros que surgirem no seu caminho. No olhar desalentado de Brandon, captamos a ausência na presença, o clamor silencioso de um indivíduo que é tipo de toda uma sociedade doente de afeto e, sobretudo, amor. Tudo isso se vincula a uma proposta maior do cineasta, que é a de investigar os flagelos do corpo, que podem resultar de uma alma enferma. Para além das noções de otimismo e pessimismo, ele deixa a porta entreaberta e confia ao espectador o direito de inferir sobre o destino de Brandon.


O mestre (The master, 2012), de Paul Thomas Anderson

Mais conhecido pelas suas iniciais PTA, o realizador californiano deixou público e crítica à sua espera por um quinquênio depois do neoépico Sangue negro (There will be blood, 2007). A espera foi recompensada por um exemplar mais bem acabado de sua filmografia, que alardearam como sendo uma investigação sobre o nascimento da cientologia, religião abraçada por nomes como Tom Cruise. Porém, é um equívoco pensar na obra sob essa perspectiva reducionista. Monstruosos em cena, Joaquin Phoenix e Philip Seymour Hoffman são, respectivamente, tipo e antítipo da sofreguidão. Enquanto o primeiro a extravasa, o segundo a represa e oo faz principalmente através da esposa (Amy Adams), a verdadeira mentora do projeto religioso de alto poder persuasivo de que ele se torna estandarte. Abrindo mão de qualquer esquema didático, PTA imprime a O mestre um vaivém como o das marés, presentes no espetacular plano de abertura e recorrentes até o fim.


Antes da meia-noite (Before midnight, 2013), de Richard Linklater

Uma trilogia involuntária, por assim dizer, contada em tempo real. Essa se revelou a proposta de Linklater, que nos fez acompanhar a trajetória de Jesse e Celine por 18 anos. De viajantes de trem que se conheceram fortuitamente a caminho da Áustria, eles passaram a românticos interrompidos que se reveem na França, e chegam à Grécia, com sua paisagem milenar, onde conversam longamente sobre o que fizeram da vida juntos. Sim, é uma discussão de relacionamento que se estende por quase duas horas, formando um típico exemplo de transcorrer do tempo psicológico. A finitude de certos sentimentos, bem como dos seres humanos, é abarcada nesses diálogos e, pela primeira vez, o casal se encontra com outros interlocutores, representantes de outros degraus na escada do amor. É impressionante a naturalidade e a verossimilhança de cada palavra, nossa ferramenta predileta para tentar (de)codificar a realidade que se nos apresenta. 

terça-feira, 1 de abril de 2014

BALANÇO MENSAL - MARÇO

Um novo mês se inicia, outro fica no passado. Como já se tornou um hábito, apresento o meu balanço de filmes, acompanhados de suas respectivas notas e seguidos pelos que considerei melhores em algumas categorias:

LONGAS:

INÉDITOS

1. Minha terra, África (2009) - 7.0
2. Import export (2007) - 7.0
3. Alta sociedade (1956) - 7.0
4. As amizades particulares (1964) - 8.0
5. M.A.S.H. (1970) - 6.5
6. Cão vermelho (2011) - 7.5

Cão vermelho (2011)
7. Short term 12 (2013) - 8.5
8. Noites de circo (1953) - 8.0
9. Vovô sem vergonha (2013) - 5.5
10. Faça a coisa certa (1989) - 8.5
11. Ninfomaníaca - Volume 2 (2013) - 6.0
12. 300: a ascensão de um império (2013) - 1.5
13. Close-up (1990) - 8.5

Close-up (1990)
14. Only yesterday (1991) - 10.0
15. Chaplin (1992) - 7.0
16. Alma corsária (1993) - 6.0
17. As aventuras de Peabody e Sherman (2013) - 8.0
18. Refém da paixão (2013) - 7.0
19. Se beber, não case! Parte III (2013) - 3.0
20. Star wars episódio VI - O retorno de jedi (1983) - 7.5

Star wars episódio VI - O retorno de jedi (1983)

21. 71 fragmentos de uma cronologia do acaso (1994) - 4.0
22. De volta para o futuro 3 (1990) - 8.0
23. Os 12 macacos (1995) - 7.0
24. Marte ataca! (1996) - 7.5
25. O estrangeiro louco (1997) - 6.0
26. Vergonha (1968) - 8.0
27. Até o fim (2013) - 7.5
28. Ação entre amigos (1998) - 7.0
29. O céu de outubro (1999) - 8.0

REVISTOS
Holy motors (2012) - 10.0
As canções (2011) - 8.0
O escorpião de jade (2001) - 8.0

CURTAS:
Tentativa de abertura (1988) - 6.0
Coisas de pássaros (2000) - 6.0
Lights out (2014) - 3.0
Aningaaq (2013) - 7.0

MELHOR FILME: Only yesterday
PIOR FILME: 300: a ascensão de um império
MELHOR DIRETOR: Spike Lee, por Faça a coisa certa
MELHOR ATRIZ: Liv Ullmann, por Vergonha
MELHOR ATOR: Robert Redford, por Até o fim
MELHOR ATOR COADJUVANTE: John Turturro, por Faça a coisa certa
MELHOR ROTEIRO ORIGINAL: Abbas Kiarostami, por Close-up
MELHOR ROTEIRO ADAPTADO: David Webb Peoples e Janet Peoples, por Os 12 macacos
MELHOR TRILHA SONORA: Alan Silvestri, por De volta para o futuro 3
MELHOR FOTOGRAFIA: Dean Cundey, por De volta para o futuro 3
MELHOR CENA: O trem em alta velocidade em De volta para o futuro 3
MELHOR FINAL: Only yesterday