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sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

Desvios de rumo e rotas de colisão analisados em Brothers


As distribuidoras no Brasil insistem em impor uma distância incômoda entre nós e a Dinamarca, país fértil na produção de filmes. Como se já não bastasse a distância geográfica. Os exemplares admiráveis da terra de Lars Von Trier são rarefeitos por aqui, e há sempre que se atentar para os seus lançamentos. Até porque eles costumeiramente são discretos e a permanência dos filmes em cartaz é de pouquíssimas semanas. Sendo assim, vale chamar a atenção para Brothers (Brødre, 2004), dirigido por Susanne Bier. Ela, que já foi uma das integrantes do movimento Dogma 95, injeta força e vivacidade nas veias cinéfilas através da história de dois irmãos cujo relacionamento é uma montanha-russa de amizade, colisão e perdão. Michael (Ulrich Thomsen) e Jannik (Nikolaj Lie Kaas) compartilham os laços sanguíneos mas suas diferenças de pensamento e personalidade são acentuadas. A princípio, funcionam como arquétipos muito bem delimitados do mais velho responsável e do mais novo problemático, mas esse leve clichê logo logo se mostra a favor da narrativa.

No começo da história, Jannik está saindo da prisão depois de cumprir pena por roubo. Quem vai buscá-lo na cadeia é Michael, o único que ainda demonstra algum crédito na possibilidade de endireitamento das veredas do irmão. Nessa primeira cena dos personagens juntos, percebe-se o carinho que deles queridos um para o outro. Ali também ficam definidas as dissonâncias básicas entre os irmãos: Michael é metódico e centrado, ao passo que Jannik ostenta um comportamento explosivo, de pavio curtíssimo. O mais velho quer convencer o caçula a pedir perdão à mulher de sua vítima, mas ele resiste e se sente ofendido com a sugestão. Prefere colocar uma pedra em cima do incidente e partir do zero para a sua vida de retorno ao convívio social. Até então, o relacionamento entre Michael e Jannik vai bem, apesar das pequenas rusgas que eventualmente assaltam os dois. Tudo muda realmente de rumo quando Michael, que é soldado do Exército, precisa ir para o Afeganistão combater na guerra. Com isso, deixa a mulher Sarah (Connie Nielsen, linda) e as duas filhas sozinhas. Não se sabe quando ele volta, mas há a certeza (ou seria a esperança?) de que ele volte.

A situação começa a se complicar quando Michael é dado como morto por conta de um terrível acidente. A notícia faz toda a família cair em desgraça e expõe todos à fragilidade, especialmente Sarah e as filhas. E faz também que Jannik se aproxime da cunhada, a quem deseja ajudar e consolar diante de uma perda tão devastadora. Como se fosse inevitável, ambos vão se afeiçoando cada vez mais um ao outro, deixando-se conhecer e perdendo algumas impressões errôneas sobre o outro pelo caminho. Dali a pouco, estarão praticamente em estado de paixão. Enquanto isso, a ausência de notícias de Michael reforça a teoria de que ele tenha morrido, por mais que o seu corpo não chegue a ser encontrado. A convivência com Sarah, por sua vez, dá a oportunidade a Jannik para exercitar o seu juízo, e abre as portas do seu coração para além das noites de libação que tanto lhe aprazem. Bier faz desse contato próximo algo bastante crível, ziguezagueando a maior parte do tempo diante do enfrentamento dos clichês, que poderiam corromper o seu trabalho, investe na emoção e não no emocionalismo. Por vezes, Brothers pode chegar a arrancar lágrimas, e se isso chega a acontecer, não é por causa de qualquer tipo de manipulação dramática.



A narrativa do filme se bifurca a partir do momento em que Michael embarca para o Afeganistão. De um lado, sua rotina extenuante de missões em meio a cenários caóticos e violentíssimos. Do outro, o cotidiano de classe média de Sarah, as filhas e Jannik. Logo, o espectador descobre que dar Michael como morto não passou de um engano, e então se vê que ele se tornou prisioneiro de rebeldes afegãos, passando por uma espécie de calvário. Ali, ele faz amizade com um homem na mesma situação que a sua, e anseia pela liberdade que lhe permitirá voltar para casa, sem imaginar o envolvimento progressivo entre seu irmão e sua esposa. E Bier oferece um insight de poderosa reflexão sobre os possíveis efeitos bélicos: nos dias em que vivencia seu cativeiro, Michael se aproxima de um soldado para depois ser obrigado a agir contra ele, em uma situação-limite na qual sua própria vida se encontra sob alto risco. A atitude tomada por ele é um soco na boca do estômago da plateia, e causa aos nervos uma sensação de extremo incômodo, embora a edição não apele para a crueza nas sequências.

O apogeu dos conflitos nervosos de Brothers acontece quando Michael retorna para casa, cheio de chagas interiores, e adota um comportamento agressivo e assustador, revelando seu estado de horror diante do que viveu antes de chegar até ali. E, se até então o público cria estar diante de uma abordagem maniqueísta, essa convicção cai por terra diante da inversão de papéis e perspectivas de Michael e Jannik. De improviso, o espectador que era a favor de um e contra o outro pode mudar de ideia, o que é uma comprovação de que uma mesma pessoa pode ter facetas agradáveis e desagradáveis ao mesmo tempo ou em tempos consecutivos. E, nesse jogo quase dialético entre irmãos, quem ganha é o público, que entra em contato com uma obra de profundas reverberações dramáticas, dirigida vigorosamente por uma mulher talentosa e intensa. Pouco tempo depois, Hollywood viu a riqueza da trama e a importou sob o nome de Entre irmãos (Brothers, 2009), para abastecer a um público estadunidense avesso a legendas. Brothers, por sua vez, foi muito bem acolhido em Sundance, de onde saiu com o prêmio do público, que, entre outras coisas, deve ter ficado pasmo diante da condução brilhante do enredo e do final de puro desalento, apartado da cartilha dramática dos lugares comuns e de incrível potência reflexiva.

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