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quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Retratos de um universo peculiar em Boogie nights – Prazer sem limites


Estimado e reconhecido como um dos melhores filmes das últimas décadas, Boogie nights – Prazer sem limites (Boogie nights, 1997) é o segundo filme de Paul Thomas Anderson, o primeiro a fazer barulho entre o público e a crítica. Antes dele, o diretor tinha no currículo apenas Jogada de risco (Hard eight, 1996), que permanece semidesconhecido para a maior parte dos espectadores. Não é de se admirar que o trabalho a ser comentado aqui tenha chamado a atenção e despertado o interesse à época de seu lançamento. A trama acompanha a ascensão e a queda de Eddie Adams (um jovem Mark Wahlberg), que inclui sua transformação em Dirk Diggler. De quebra, apresenta um profundo mergulho na indústria pornográfica estadunidense, percorrendo ambientes carregados, desnudando personagens complexos e oferecendo imagens que se fixam na memória com notável facilidade. Paralelamente ao apogeu e à derrocada do protagonista, o cineasta lança luz sobre a era de ouro do cinema pornô e a sua decadência, ocasionada pela explosão do mercado de vídeo.

Para começar sua história, Anderson constrói um plano-sequência deslumbrante que leva a plateia para dentro daquele universo peculiar, com suas regras, seus componentes e seu código de conduta. O filme começa um tanto de improviso e, quando nos damos conta, já estamos totalmente dentro da história, irremediavelmente envolvidos com seus personagens. Eddie é descoberto pelo olhar clínico de Jack Horner (Burt Reynolds, espetacular), um cineasta da ramo que considera seu trabalho como uma forma legítima de arte, e não se deixa levar pela gratuidade nas cenas que dirige. É ele quem diz ao rapaz, então com 17 anos, que tem certeza de que há um grande talento sob a sua calça jeans apertada. Desde então, começa a curiosidade do público com relação ao comentário de Jack, fato que é mantido longamente em segredo. Logo, o jovem será seduzido pela proposta de integrar o elenco do próximo filme do diretor, e será lançado à estratosfera do cinema pornô, graças ao detalhe generoso de sua anatomia. O tal detalhe é inclusive a motivação do slogan do filme, que sugere: Todo mundo tem alguma coisa especial.

Anderson acerta em cheio ao fazer de Boogie nights – Prazer sem limites o seu primeiro filme-painel, estilo que ele herdou, por assim dizer, do grande Robert Altman, um especialista no subgênero. Afora a história de Dirk, o público acompanha as dificuldades enfrentadas por Jack para se manter firme em seu ofício, bem como conhece melhor Amber (Julianne Moore), a sua esposa e também atriz de seus filmes, que ensina algumas das manhas a Dirk, quando ele ainda está em seu período iniciático. E também surgem outros personagens emblemáticos, como Brandy (Heather Graham) e seus patins inseparáveis (mesmo, pois ela não os tira nem mesmo para fazer sexo), o menosprezado Bill (William H. Macy), cuja mulher o trai escancaradamente, rendendo cenas com um misto de desconforto e comicidade, e o ambíguo Scotty (Philip Seymour Hoffman), um dos componentes do séquito de fãs e entusiastas que Dirk passa a carregar atrás de si. É bom que se diga que esses personagens, bem como os demais que vão aparecendo na tela, fogem de esquematismos e previsibilidades que poderiam empobrecer as possibilidades dramáticas de seus intérpretes. Cada um deles traz a sua dose de complexidade e, como bem delimita o roteiro, tem a sua função dentro da história, não sendo mero tipo para preencher uma vasta galeria que precisa de exemplares para ser completada. E, possivelmente, o espectador vai se pegar em uma espécie de relação de empatia com um ou mais deles.



Outro grande acerto de Anderson é não edulcorar o cenário que apresenta, nem de seguir o caminho contrário, que seria a detratação. Durante todo o filme, a sensação que se tem é a de se estar olhando através do buraco de uma fechadura todos os desdobramentos da decisão de Eddie de se tornar Dirk, e de todas pessoas que orbitam ao seu redor. Não chega a ser inadequado chamar o personagem de protagonista, mas a história contada é maior que a sua própria história. Em determinada altura, ele se dá conta disso, entendendo que, a despeito de todo sucesso que possa fazer e de todo carisma que possa esbanjar, ele é uma peça de um engenhoso quebra-cabeça cuja estrutura começa a apresentar sinais de desgaste. Enquanto é novidade, Dirk chama atenção e enlouquece o público, mas as novidades perdem o ar de novas em pouco tempo, o que transporta o rapaz para um submundo pesado, permeado por drogas alucinógenas que, por sua vez, conduzi-lo-ão à criminalidade propriamente dita. Tudo isso nos é mostrado em ordem cronológica. Quando o filme começa, estamos no ano de 1977, e o passar do tempo se encarrega de mostrar os rumos que a carreira de Dirk foi tomando, tanto quanto a sua reação diante da perda de espaço, que é a pior possível.

A Academia foi retraída ao conceder indicações ao Oscar para o longa, a começar pelo fato de lhe negar a chance de concorrer na categoria de melhor filme. Foram apenas 3 possibilidades oferecidas a ele, entre elas a de melhor ator coadjuvante para Reynolds, que acabou perdendo para Robin Williams, que concorria por Gênio indomável (Good Will hunting, 1997), uma vitória sempre passível de discussão. Na categoria de roteiro original, cuja autoria é do próprio Anderson, Boogie nights – Prazer sem limites acabou perdendo para o mesmo filme, o que se configura como mais uma das várias injustiças acumuladas pelo Oscar ao longo dos anos. Felizmente, o mesmo Reynolds já tinha saído vitorioso anteriormente no Globo de Ouro, que, especificamente nesse caso, poderia ter feito jus à sua fama de prévia do Oscar. Premiações à parte, o filme triunfa em várias frentes, comprovando o talento dos nomes envolvidos, a começar pelo virtuoso Anderson, que tinha apenas 27 anos quando o entregou, o que atesta que a juventude e a engenhosidade podem caminhar lado a lado. Nos anos seguintes, ele não se preocuparia em lançar filmes com curto espaço de tempo entre si. Em 10 anos, acrescentou apenas três exemplares à sua filmografia, entre os quais se encontra o não menos brilhante Magnólia (Magnolia, 1999).

Para alguns críticos, o filme funciona inclusive como documento histórico, pontuando mudanças e passagens importantes de duas décadas cujo charme perdura até aos dias atuais. Por meio do percurso acidentado do rapaz que se torna homem diante das câmeras, conhecemos o componente de caótico que aqueles anos apresentaram, bem como ficamos encantados, chocados e estremecidos pelas condutas e personalidades de pessoas que, se não existiram de verdade, ao menos foram pensadas com um pé muito rente à realidade. Ao longo de mais de duas horas de projeção, que jamais chegam sequer a parecer excessivas, Anderson documenta toda uma geração, com seus matizes e desvios, sempre humanizada. Não se pode deixar de mencionar o desempenho ímpar de Julianne Moore, uma atriz sem precedentes na história do cinema, cujo gabarito é tanto que nunca oferece um trabalho menos que magnífico. Aqui, ela se despoja de filtros e vernizes para dar vida a uma mulher imersa no cotidiano da pornografia, e que é uma espécie de grande mãe para os frequentadores de sua casa e amigos de seu marido. Uma vez em cena, Moore rouba para si toda a atenção, e figura como um dos grandes êxitos na escalação de elenco do filme. Perto do final de Boogie nights – Prazer sem limites, já seremos parte daquela história, talvez de modo irreversível. É o talento inenarrável de todos falando mais alto.

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