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domingo, 26 de fevereiro de 2012

A colecionadora e sua inebriante teia dialogal


Se existe um diretor que prima pela palavra acima de tudo, ele é Eric Rohmer. Não há como não destacar a força dos diálogos em seus filmes, e A colecionadora (La collectionneuse, 1967), não foge à regra. Os personagens falam, falam e falam, tanto uns com os outros quanto consigo mesmos, e produzem pérolas de reflexão ou de ironia pensadas pela mente prodigiosa de um dos diretores mais importantes da cinematografia francesa, cujo prestígio nos dias atuais é inversamente proporcional ao seu talento. No caso desse filme, entretanto, os diálogos não foram pensados apenas por Rohmer, mas por quase todo o elenco. O diretor, na verdade, encarregou-se do roteiro em si, e as falas couberam basicamente a Patrick Bauchau, a Haydée Politoff e a Daniel Pommereulle, o trio principal da história.

Como de hábito, existe apenas um tênue fio narrativo que se dilata sutilmente e que acaba servindo de pretexto para uma instigante sucessão de sacadas sobre assuntos diversos originária das entrelinhas do pensamento. Tudo começa com Adrien (Bauchau). Ele está de férias e parte para uma pequena cidade à beira do Mediterrâneo. Ali, pretende exercer o ócio enquanto puder, sem se interessar verdadeiramente por nenhuma atividade que o tire dessa sua decisão. A casa onde fica hospedado pertence ao seu amigo Daniel (Pommereulle), o qual lhe avisa de que chegará uma amiga sua por ali, a misteriosa Haydée (Politoff). A princípio, isso é um certo incômodo para Adrien, já que ele havia pensado naquele lugar como o seu oásis particular. Além disso, a jovem chega até ali trazendo consigo a fama de ter muitos namorados, o que lhe custa a fama de colecionadora, que ela insistirá em negar sempre que a alcunha lhe for imposta. O protagonista fica menos incomodado quando percebe que ela fica na sua e ele pode ficar na dele, mas essa indiferença acordada tem um prazo de validade muito curto.

Assim como ele, Daniel não demonstra certo interesse inicial por Haydée, mas as coisas começam a ganhar uma nova configuração assim que Adrien passa a ver a jovem com outros olhos. Então, tudo ganha a conotação de um triângulo amoroso, mas Rohmer não está exatamente preocupado com isso. O que move o diretor é discutir sobre as armadilhas da vontade que rondam os personagens, e apresentar a consciência volúvel de Adrien e Haydée ao longo dos pouco mais de 80 minutos de filme. Em meio a uma sucessão de diálogos e monólogos, ele transforma A colecionadora em um atraente jogo de morde e assopra. Mais do que saber se os dois ficarão juntos ou se Daniel será um empecilho nesse possível relacionamento, interessa observar como cada um deles lida com seu próprio desejo e seus sentimentos difíceis de controlar. Por vezes, o filme apresenta um certo teor de cinismo, ao refletir sobre as relações amorosas de modo a não localizar nenhum dos personagens em compartimentos estanques. Todos podem trocar de posições, de perspectivas e de atitudes a qualquer momento, e essa gangorra moral garante um andamento muito interessante para a narrativa.



Para quem está habituado a explosões e perseguições implacáveis, o cinema de Rohmer pode ser um poderoso sonífero. Até o fim de sua carreira, ele produziu obras à moda antiga, de grande rigor técnico, sem muita inventividade narrativa e diálogos a perder de vista. Mas é fundamental destacar que ele não se perde em palavrório vazio. Muito pelo contrário, a avalanche de palavras funciona como frestas que nos permitem espionar o que ronda os pensamentos desse trio oscilante. Para Adrien, Daniel e Haydée, cada dia é um dia, e só é possível responder pelo hoje, e muito mal, algumas vezes. O filme pertence a uma das várias séries propostas pelo diretor, a de Contos Morais, sendo o quarto tomo dessa lista, à qual se somam títulos como Minha noite com ela (Ma nuit chez Maud, 1969). Basicamente, esses filmes apresentam jovens comuns em situações corriqueiras que, sob as lentes rohmerianas, transformam-se em extraordinárias pelo eficiente filtro afetivo colocado por ele. É possível se identificar com a impulsividade dos (poucos) atos do trio ou com os seus vários momentos de prostração, reflexos de um constante impasse entre vontade e realidade.

Em outras palavras, A colecionadora é mais uma exegese do cotidiano feita pelo cineasta, que não tem medo de incorporar o banal ao seu olhar e não está preocupado em defender ou acusar seus personagens, apenas em observá-los. Se há julgamentos, ele ficam mais por conta do público, que submete cada um deles às suas próprias crenças e princípios para decidir individualmente o que pensam a seu respeito. Rohmer é daqueles que sempre faz o mesmo filme, mas a cada vez com um novo ângulo de observação, o que faz que cada um possa parecer diferente. E essa insistência no misto de repetição com sutis diferenças assemelha-o a um pintor que, diante de uma tela em branco, exercita sua criatividade para o multicolorido e produz imagens do ordinário embasado em uma rica paleta de cores, que renova o olhar sobre temas de todos os dias, sem que seja tão importante saber aonde se chegará, mas que desdobramentos o percurso em si apresenta.

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