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sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

Erros de refração sobre a vida em A última noite de Boris Grushenko


Então à beira dos 40 anos, Woody Allen concebeu A última noite de Boris Grushenko (Love and death, 1975), uma farsa bem montada sobre os seus dois temas preferidos. Para isso, recrutou mais uma vez a si mesmo como protagonista, e apresentou ao público um recorte da história russa na figura de um homem que entra de gaiato na guerra para acabar ganhando a fama de covarde. Durante enxutos 85 minutos, veremos Boris questionar a existência de Deus, apresentar a sua excêntrica família e o quanto ele se sente descolado dentro daquele clã, entre outras considerações com um ar de estapafúrdio que atravessam a narrativa. Allen investe no recurso da narração em off para pontuar algumas reflexões muito bem-humoradas acerca de questões que perturbam e afligem a raça humana, quiçá, desde que o mundo é mundo.

O filme veio depois de algumas investidas do diretor na comédia física, entre as quais se encontra Bananas (idem, 1971). O que existe de ponto de contato entre ambos é o comentário político: se em Bananas ele se valeu de tiradas e situações pitorescas para ridicularizar os governos da América Central, em A última noite de Boris Grushenko ele atira a sua metralhadora giratória para o cenário da Rússia de fins do século XIX, ambientando uma história de inquirição e inquietação permanentes. Allen tematiza sobre os absurdos da vida com seu notório esmero dialogal, e estampa muitas das agonias universais com graça e leveza na medida certa. Pode-se dizer que, depois de alguns acertos menos empolgantes, este seja o primeiro grande filme do realizador. As arestas que os anteriores deixaram são podadas aqui, resultando em uma obra de mais qualidade, o que viria a se tornar rotineiro em sua obra e, certamente, possibilitou o surgimento do ótimo clichê de que “um Allen menos inspirado ainda é melhor que a maioria”.

Para tratar dos assuntos que constam do título original, ele nos conta a história de Boris, que nunca se conformou com as respostas prontas que recebeu da família sobre o universo. Nota-se que ele é a encarnação do típico sujeito deslocado, que não encontra a guarida de que necessita no seio familiar. Entre outras coisas, ele não se reconhece nem nos pais, nem nos irmãos. Eis uma das recorrências da obra do diretor, que ama investir nesses tipos que parecem fadados à incongruência com a coletividade. O ser misantropo que tem sempre críticas ferozes sobre as ações habituais provenientes da vida em estado gregário. Através das dúvidas de Boris, Allen fala de morte. E fala de amor ao narrar a paixão do personagem por Sonja (Diane Keaton) sua prima, que jamais é correspondida, mas é o que resta para ela depois de um casamento falido e uma coleção de amantes. São deles os melhores diálogos de todo o filme, grandes deboches do diretor diante das paixonites e da crença do homem na figura de Deus. Naturalmente, todos são passíveis de discordâncias, mesmo porque o próprio Boris não se mostra totalmente seguro das observações que faz. Ele é como alguém que duvida, mas tem medo de se entregar por completo à negação da imagem divina, como Ingmar Bergman, que, mesmo incerto quanto à existência de Deus, jamais abdicava totalmente da crença nEle.



A estrutura do filme é um tanto episódica, e aponta para os descaminhos que a vida prepara para Boris, desde quando ele se encontra com a morte (caracterizada de branco) e tem um sonho insano com caixões e garçons bailando, que lhe traz a conclusão de que ele jamais poderia ser uma pessoa normal. De fato, devem existir pouquíssimas pessoas que se dão ao trabalho de discutir o aspecto metafísico ou a base epistemológica do amor, como ele faz com Sonja, em uma cena capaz de arrancar gargalhadas genuínas. No fundo, a trama abre espaço para falar de traumas e do amor como fonte de sofrimento e frustração a maior parte do tempo. Em uma outra sequência, Sonja explica, com a propriedade de quem já teve inúmeros amantes, que amar é sinônimo de sofrer, mas que a falta de amor também traz sofrimento. Trocando em miúdos: ou se sofre por amor ou pela falta dele. Se não é possível estar de acordo com todas as constatações ou ilações feitas pelos personagens, ao menos elas são capazes de produzir algum pensamento reflexivo.

E aí reside uma das grandes qualidades da obra alleniana, que contribui decisivamente para a sua atemporalidade: sob um véu de pseudodespretensão, estão presentes noções importantes e relevantes sobre a vida de uma forma geral. É possível afirmar, sem medo de se estar sendo exagerado, que o diretor foi um dos que mais contribui para que a comédia, gênero tantas vezes subestimado, fosse elevada a patamares mais altos, e não mais vista apenas como uma fonte perene de risadas. Allen se vale da comédia como uma arma poderosa, que toca em feridas e destrói o inimigo sutilmente, sem que ele se dê conta imediatamente. E, além de tudo, ele prova que sabe rir de si mesmo, tirando proveito de suas limitações para se dar bem com as mulheres e vencer embates por meio da palavra, sem precisar disparar um tiro sequer em seu oponente, como se verifica em um duelo hilário para o qual ele é convocado pelo amante oficial de uma linda condessa. O resultado final desse embate possivelmente só poderia ter sido imaginado pelo cineasta.

A última noite de Boris Grushenko é o segundo dos sete filmes em que Allen e Keaton trabalharam juntos. Atualmente uma atriz de filmes quase sempre medianos, é impressionante como ela rendia em seus trabalhos com o diretor. Ele sabia escrever e entregar as personagens certas para ela, e não é diferente aqui. Além do mais, a atriz atuou em seus filmes no auge de sua jovialidade e beleza, tornando ainda mais crível e compreensível o encantamento de Boris por Sonja. É uma pena que sua carreira tenha declinado tanto com o passar dos anos. Um reencontro com o diretor lhe faria muito bem. E, no final das contas, essa comédia tipicamente alleniana é um sopro de frescor e reflexão em meio a assuntos espinhosos e a prova de que com domínio do ritmo e da palavra, pequenas pérolas podem surgir. Ano após ano, Woody Allen vem comprovando essa tese. Aqui, em forma de paródia da morte.

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