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domingo, 19 de fevereiro de 2012

O artista, uma ode inefável à arte dos sonhos


Quando o cinema se volta sobre si mesmo, frequentemente surgem de obras de valor inestimável. O artista (The artist, 2011) é um exemplo perfeito de confirmação dessa tese. Acertado no emprego da metalinguagem, o filme de Michel Hazanavicius é um brinde entusiasmado a uma era áurea da sétima arte, um resgate muito benvindo de uma tradição que ficou circunscrita a décadas passadas. Tudo gira em torno de George Valentin (Jean Dujardin), um ator renomado que experimenta o doce sabor da fama e do prestígio a cada novo filme em que sua bela estampa está presente, bem com o cujo cartaz ostenta o seu nome. Sua rotina de fotos e filmagens lhe é extremamente agradável, e ele representa o arquétipo do ator de cinema mudo, tanto física quanto comportamentalmente. O cenário da trama é a Hollywood de 1927, ano no qual o som já estava começando a chegar aos filmes. Naquele mesmo ano, Fritz Lang dirigiu uma de suas obras mais famosas e monumentais, Metrópolis (Metropolis, 1927), uma ópera futurista do caos citadino e um nobre exemplar de filme mudo.

O problema é que George não suporta sequer se imaginar atuando em um filme sonoro. Quando o som surge para ele, o cenário é de pesadelo. A cena em que ele ouve tudo com um som mais potente, menos sua própria voz, já é antológica. Mas, no fundo, a chegada do som ao cinema era apenas uma questão de tempo. Afinal, desde o surgimento dessa arte, buscava-se a união entre som e imagem, o que, por cerca de 30 anos, parecia inalcançável. Perto do final da década de 20, a tecnologia deu uma mãozinha, especialmente por causa da Warner Brothers, que introduziu o sistema de som Vitaphone, que consistia a gravação de um som sobre um disco. Essas inovações não chegam a ser explicitadas em O artista, mas elas estão no subtexto do longa para mostrar o avanço do tempo para o cinema, cuja inclusão do som causou tanta resistência ao protagonista. Segundo ele, o som não combina com o cinema e destrói boa parte da imaginação do espectador, como se tudo já viesse previamente mastigado. O argumento tem uma certa coerência, mas não convence os poderosos produtores, que, em sua sanha pelo alargamento de divisas, incorporam rapidamente a nova tecnologia aos novos filmes, fato que torna George um herói da resistência muda.

Paralelamente, uma graciosa jovem galga os primeiros degraus rumo ao estrelato, que começa depois que ela cruza o seu caminho com o do ator. Depois de uma foto acidental ao lado dele, essa jovem verá as portas da fama se abrirem para ela, uma a uma, começando por uma aparição discretíssima nos créditos de seu primeiro filme, até chegar ao topo dos cartazes de divulgação. E assim nasce Peppy Miller (Bérenice Bejo), uma estrela cativante que ganha o público que adere ao cinema sonoro. Hazanavicius, portanto, investiu em uma espécie de gangorra da fama. Enquanto George decai lentamente por não conseguir se adaptar aos novos tempo, Peppy chega à estratosfera hollywoodiana, num claro processo de substituição do velho pelo novo, que ela chega a mencionar em uma das várias entrevistas que concede à imprensa, pela qual passa a ser constantemente assediada. A conjuntura representa um fato que acomete a indústria cinematográfica há tempos, sempre com efeitos perniciosos: o tempo passa, a tecnologia avança, e o tradicional vai perdendo cada vez mais espaço em prol da inovação, que nem sempre significa evolução. O artista também traz consigo o mérito de reavivar essa antiga discussão, e levar a pensar se vale a pena apostar todas as fichas no apuro técnico e deixar de lado o componente mais artesanal do cinema.



Hazanavicius filma tudo com paixão, e contagia o espectador fazendo um filme à moda antiga e dirigindo atores magistralmente. A dobradinha entre Dujardin e Bejo é estupenda, e rende momentos ora hilários, ora ternos em todo a narrativa. O realizador emula toda a estética e estrutura básica do cinema mudo, e demonstra notável capacidade de encantamento de seu público. Seus longas anteriores não tiveram muita repercussão, e foram apenas dois, ambos também protagonizados por Dujardin, que encarnou o atrapalhado Agente 117, uma versão europeia e às avessas de 007. O ator, por sua vez, conjuga uma beleza desconcertante com um talento inacreditável, fazendo de seu George um ator querido e, posteriormente, um cabeça-dura de marca maior. Sua dificuldade em aderir ao som nos filmes é seu passaporte para a ruína, contra a qual ele luta com unhas e dentes, chegando até a se arriscar na direção de um filme (mudo, é claro), que naufraga nas bilheterias e mina de vez a sua reputação. Logo, a sua posição se inverte com a de Peppy, e seus caminhos eventualmente se cruzam, sem, necessariamente, que isso abra espaço para um romance entre um dois, um índice de obviedade descartado pelo diretor. E Bejo também não fica atrás nos quesitos encanto e talento. Que seu lindo rosto ainda estampe muitos cartazes daqui para a frente.

Cannes foi o ponto de partida para a carreira de O artista. O respeitado festival exibiu sensatez ao premiar Dujardin como melhor ator, e as láureas prosseguiram nas passagens do filme por outros festivais. Não à toa, ele chegou ao Oscar com grande força, sendo a chance de a Academia fazer da edição 2012 uma edição justa e memorável. Toda sorte de prêmios é meritória para o filme, que consagra seu diretor e seus intérpretes, e exibe força para habitar longamente o imaginário cinéfilo. Sem o perigo de se estar exagerando , o filme poder ser comparado a uma gema de valor inestimável, que concorre em pé de igualdade com safiras, esmeraldas, jades, topázios e quaisquer outras pedras preciosas. Um outro detalhe que chama a atenção no longa é a presença do cãozinho de estimação de George, um ator canino e tanto. Impossível resistir ao animal em qualquer uma das cenas que aparece... Ele deita e rola, literalmente, diante das câmeras, e responde por mais uma das lufadas de emoção e delicadeza do filme, que fala bastante através de pequenas metáforas e deixa sua mensagem de forma afável. Hazanavicius produziu, antes de mais nada, um formidável manifesto a favor da arte genuína e um libelo apaixonado à descartabilidade nefanda que ronda ao bastidores do fazer cinematográfico. Correr para assistir a O artista é a ter a certeza absoluta de chegar ao fim da sessão com um sorriso radiante no rosto, algo a que a simples leitura de uma crítica leva apenas a crer em parte.

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