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segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

Paris, Texas e os corações em trânsito

Uma paisagem desértica é descortinada em sua amplitude, revelando um vazio angustiante. Com raras exceções, não há qualquer ser vivo que possa sobreviver nas condições adversas que o lugar impõe. Mas um homem está ali. Com o olhar perdido, vagotônico, ele caminha e corre pela aridez. Esse é o plano de abertura de Paris, Texas (idem, 1984), um dos mais celebrados e mitificados, por assim, dizer, filmes de Wim Wenders. Transpirando emoção, a narrativa proposta pelo cineasta é uma caminhada por terrenos desnivelados, pedregosos, que exumam sentimentos soterrados, com os quais se tem que voltar a lidar após a passagem de alguns anos. Aquele homem desorientado que aparece em meio ao deserto é Travis (Harry Dean Stanton), cuja memória desapareceu e o fez perambular sem rumo. Ele acaba sendo encontrado por Walt (Dean Stockwell), o irmão que saíra à sua procura e o reconduz para casa, apesar da grande dificuldade que se lhe apresenta em fazê-lo.

No início, Travis não diz qualquer palavra, o que leva Walt a sucessivas tentativas de incitá-lo a se comunicar verbalmente, às quais resiste. Pouco se sabe sobre o personagem naquele momento, mas a sua condição de andejo e desviado já são o bastante para permitir brotar um afeto discreto por ele. Walt foi muito longe para reencontrá-lo e, a fim de que retornem para casa, o ideal é tomarem um avião, mas Travis não suporta a ideia de voar e obriga os dois a viajarem de carro. O retorno, portanto, torna-se muito mais demorado, e dá tempo mais do que suficiente para que os irmãos possam conversar e se entenderem um pouco melhor, já que, a partir de determinado momento, Travis finalmente volta a falar e comenta parcamente sobre seus desejos naquele momento. Com o avançar da trama, entendemos que ele foi abandonado pela esposa, a quem ainda ama, e tem um filho pequeno, o qual lhe foi deixado. Depois que chega à sua casa, Walt se esforça para reinseri-lo no convívio familiar, um processo que requer tempo e paciência.

O pequeno Hunter (Hunter Carson) parece ter se acostumado à ausência de seu verdadeiro pai, e se sente amparado por Walt, a que não vê como um tio, mas, exatamente como seu genitor. Foi a alternativa que Walt encontrou para suprir a lacuna deixada pela partida do irmão, cujo retorno, ainda que não deflagre uma crise familiar, requer um rearranjo das harmonias da casa. E a maior dor no enfrentamento desse processo está em Travis, que se vê novamente diante de lembranças à medida que sua memória vai voltando. Lidar com o trauma de um abandono é um penoso trabalho, para o qual ele tem pouca habilidade. Felizmente, tem a Walt para auxiliá-lo incondicionalmente, demonstrando o quanto as relações familiares são fundamentais para qualquer indivíduo. Nesse sentido, Paris, Texas é de uma delicadeza encantadora, já que reforça o conceito de humanidade e trata seus personagens com muito carinho, sem reduzi-los a vítimas ou a vilões, mas a pessoas com falhas e virtudes em busca do acerto consigo mesmos e com os outros ao seu redor.


O roteiro do longa é fruto da escrita de Sam Shepard, tarimbado ator que soube imprimir ternura ao seu texto, inicialmente uma peça teatral. Quem o adaptou foi L. M. Kit Carson, fazendo do enredo um emocionante olhar sobre a família, o homem e suas vicissitudes. Um detalhe curioso é que o menino que interpreta Hunter é seu filho na vida real. Nas suas cenas com Stanton, percebe-se o quanto eles ganharam um entrosamento que garantiu naturalidade nesses momentos entre pai e filho, cujos laços de sangue são maiores do que qualquer aviso prévio sobre esse parentesco. Travis se aproxima de Hunter sutilmente, procurando reaver o tempo que desperdiçou longe do garoto. Uma das passagens mais significativas dessa busca é a sequência em que ele vai buscar o filho no colégio e o observa de longe. Hunter sai e caminha pela calçada, enquanto Travis o acompanha do outro lado da rua. Eventualmente, eles trocam olhares e sorriem com reciprocidade, fazendo daquele momento prosaico uma simples amostra de um afeto renascente. Paris, Texas é feito de sutilezas: os arroubos dos personagens são interiores, e se traduzem em pequenas atitudes que se revelam tentativas de mudança de rumo, como se estivéssemos diante de corações em trânsito pela vida.

O título do filme é uma interessante referência geográfica descoberta por Walt quando ainda está voltando para casa com Travis. Este conta ao irmão que existe uma localidade no Texas que se chama Paris, e lhe mostra a foto de um terreno que ele comprou nesse tal lugar. Seu desejo de outrora era viver ali com a esposa, até que ela o deixou e desapareceu pelo mundo. O inconformismo com a atitude dela o impulsiona a sair para procurá-la, e ele ganha a companhia de Hunter em um périplo estrada afora, que reafirma a vocação de Paris, Texas para road movie, um subgênero pródigo em exemplares de beleza ímpar. A viagem de busca, antes de tudo, consolida a reaproximação entre pai e filho, e dá forças ao primeiro para concluir sua empresa. De tanto procurar, lá pelas tantas, eles acabam por reencontrá-la. A situação, porém, não é das mais favoráveis, e requer uma abordagem comedida de Travis, cujo resultado é uma longa cena em uma cabine cuja função original é deixar seus frequentadores excitados. Ali, Travis e Jane (Natassja Kinski) têm uma longa conversa, uma catarse verbal, em que as chagas sentimentais são expostas e um novo começo é tentado. Nada fácil, como bem cabe à vida. O resultado final desse balanço, longe de trazer alento, é a confirmação de um vácuo, o mesmo que pode experimentar o espectador no ato derradeiro dessa história, que remete ao deserto dos minutos iniciais.

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