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quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

Guerreiro, uma história de combate, força e carinho

À primeira vista, Guerreiro (Warrior, 2011) é mais um filme banal sobre superação de limites, tese que um de seus cartazes parece corroborar. Sua sinopse também é indutiva nesse sentido: dois irmãos afastados há anos se reencontram cheios de antigas feridas, tendo o MMA como esporte em comum, e precisam se enfrentar em um octógono. Entretanto, produção dirigida por Gavin O’Connor vai além dessa superfície comum e oferece um olhar afetuoso e dolorido para as jornadas de homens em busca de reconciliação consigo mesmos e com os demais ao seu redor, sem incorrer em didatismos ou sentimentalismos baratos. Inicialmente, temos Tommy Riordan (Tom Hardy), um ex-fuzileiro naval que demonstrou incrível bravura em um episódio dramático envolvendo um de seus companheiros em combate anos antes. O tempo passou e ele se tornou um sujeito casmurro, de cenho sempre franzido e pouca abertura para conversa. Seus esforços se concentram na direção da luta, na qual ele exibe notável destreza.

Em paralelo, conhecemos a rotina de Brendan (Joel Edgerton), que ganha a vida como professor de física no Ensino Médio e, nas horas vagas, extravasa sua energia acumulada nos ringues, contrariando a esposa. A luta também lhe é uma fonte de renda extra, e ele se dispõe a pagar o preço de apanhar feio, e revidar o tempo todo, para garantir um dinheiro a mais para a família, que vem enfrentando problemas em suas finanças. Entre eles, está Paddy (Nick Nolte), o velho pai desses homens de pensamento atormentado, que contribui para a formação de suas chagas psicológicas ao longo de anos. Ele é procurado por Tommy, que busca nele um treinador eficiente para competir em uma disputa cujo prêmio é uma alta quantia em dinheiro, e pode solucionar muitos dos seus problemas. A reaproximação entre pai e filho é extremamente desastrada e conflituosa, e os atos mais simples de Paddy servem de motivação para que Tommy lhe despeje na cara palavras ásperas, que ele guardava consigo há tempos.

Aos poucos, Guerreiro vai convergindo as trajetórias desse trio, completando esse processo quando Brendan também decide participar da competição e salvar a sua família de ser despejada, mesmo sob o protesto veemente da esposa, que já havia sofrido o bastante com suas lutas recentes. Ele lhe havia prometido deixar os ringues, mas a oferta financeira é tentadora a ponto de fazê-lo voltar atrás em sua palavra. Quer provar a ela e a si mesmo que pode alcançar a vitória e se sentir menos vulnerável. Então, busca o auxílio de um velho amigo dono de uma academia, que diz, com toda a sinceridade, ser muito difícil contribuir para sua preparação. Com a insistência de Brendan, ele acaba se convencendo e estende sua mão para o amigo. Dali a pouco tempo, Brendan, Tommy e Paddy estarão de novo frente a frente, lidando com antigas mágoas que vêm à tona a cada novo diálogo cortante e pleno de sentimento. Esse é um detalhe importante do filme: as conversas entre os personagens soam orgânicas, e revelam os homens sob a carapaça de lutadores.


Sem dúvida, as interpretações do trio central são outro grande trunfo de Guerreiro, sobretudo a de Nolte, um veterano de aparições cada vez mais raras no Cinema, que destrói com o olhar e a entonação de voz cena após cena. O personagem foi escrito especialmente para ele, fato que desagradou os produtores na época, mas O’Connor se manteve firme em sua decisão de tê-lo no elenco. Nos gestos tristemente aparvalhados de Paddy, residem a culpa e uma consequente necessidade de redenção, expressa no seu empenho em se manter longe do álcool há quase mil dias. O que se sabe de sua conduta no passado é expresso principalmente por Tommy e Brendan, ambos sem a menor disposição em perdoá-lo. É somente nisso que os irmãos concordam, cada um a seu tempo em encontros arrepiantes com o pai. Essa ausência de misericórdia também se revela no trato entre Tommy e Brendan, o mais velho. Tommy o acusa de abandono e negligência nos momentos em que mais precisava dele, e considera o presente tarde demais para qualquer tentativa de recomeço ou continuidade do que se interrompeu bruscamente.

As lutas de MMA, em Guerreiro, não são mero pano de fundo. Elas contribuem decisivamente para a narrativa, pois representam o contexto em que os irmãos podem liberar seus impulsos mais ferozes, numa espécie de catarse esportiva. A cada novo combate que vivenciam, cresce o desejo de irem mais longe, nem que seja para convencerem a si mesmos de que não precisam um do outro. São lutadores com coragem e motivação sobejantes, que levam praticamente ao pé da letra a máxima de que a vida é um campo de provas. Por outro lado, os irmãos se esquecem de que o carinho e o apoio familiar são essenciais ou, ao menos, esforçam-se para isso. O modo como O’Connor conduz a narrativa deixa margem para essas observações, e nos faz enxergar homens de grande caráter cujo lado sentimental se encontra combalido, carente de reavivamento. Antes de mais nada, Guerreiro é um conto moral sobre como, em certas pessoas, as perdas e as ausências produzem uma espessa couraça protetora, que soterra a sensibilidade para manifestações de afeto, mas não é capaz de eliminar a necessidade de recebê-las. O ato final, ao som de About today, está longe de ser uma opção redentora para a história desses homens, mas aponta para uma fagulha de esperança para reacender a luz dos amores filial e fraterno.

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