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quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

Argo e a inspiração na realidade para uma trama de alta tensão

Terceira incursão de Ben Affleck na direção, Argo (idem, 2012) se mostra como o auge de seu talento nesse posto. Em um crescente que se iniciou com Medo da verdade (Gone baby gone, 2007) e prosseguiu com Atração perigosa (The town, 2010), o californiano reafirma a sua competência e revisita um episódio quase desconhecido da história dos EUA para contar uma história de contornos tensos e eletrizantes. Antes que a narrativa propriamente dita do longa se inicie, uma breve contextualização dá conta de situar o espectador no ambiente caótico que está para ser retratado. Com uma narração em off, escolha de Affleck para não deixar o público perdido, conhecemos e entendemos alguns fatos que desencadearam um incidente diplomático entre o Irã e os Estados Unidos. Em um Irã transbordando de revolta pelo fato de os EUA terem concedido asilo político do antigo xá do país, que governava o povo à base de opressão, a represália se direciona aos funcionários da embaixada iraniana. Manifestantes enfurecidos invadem o prédio do órgão em questão e instauram o desespero. Em meio a essa revolta, seis funcionários conseguem escapar e encontram guarida na casa do embaixador canadense.

A partir daí, Argo começa a caminhar para a revelação de uma faceta insólita, por assim dizer. Quando se veem diante da necessidade de buscar uma forma segura de trazer os funcionários de volta para os Estados Unidos, nenhuma ideia parece boa o suficiente, depois de uma série de tentativas discutidas pelos membros da CIA. Entretanto, o especialista em exfiltrações Tony Mendez (Affleck) surge com um plano que, se não é o melhor possível, ao menos talvez seja o menos absurdo. Ele se vale do sucesso dos filmes de ficção científica da época – o filme se passa em 1979 – para apresentar sua ideia de como retirar os funcionários do Irã: passarem-se por profissionais de Cinema em busca de locações para Argo, um filme megalomaníaco que teria parte de sua ação situada no país. Visto como ousado, o plano acaba sendo aceito pelos demais e começa o processo de sua colocação em prática. Tudo precisa ser milimetricamente pensado a fim de soar convincente, e Mendez demonstra toda a sua segurança, forjada após anos de êxitos em sua função.

É interessante observar que a premissa de Argo vem de fatos, dado o surrealismo dos acontecimentos. Com o filme, Affleck faz ver que a realidade também oferece boas histórias e exibe uma notável maturidade na condução do enredo, dispensando firulas visuais e narrativas que poderiam soar como simples adereços para uma trama inconsistente. Não é o caso aqui: sobriedade é o que não lhe falta, e ele agradou bastante a Academia, como as várias indicações ao Oscar do filme podem comprovar. Dos três longas que dirigiu até hoje, certamente Argo é o mais oscarizável, mas não é esse detalhe que assegura a sua qualidade. Além da mencionada contenção, existe um bom elenco de coadjuvantes bem à vontade em seus papéis, vividos por John Goodman e Alan Arkin. Suas aparições em cena rendem momentos bem-humorados e lúcidos, colocando-os entre os personagens mais adoráveis da história. Não lhes faltam boas tiradas e trocadilhos algo indecorosos, um deles traduzido como “Vá se ferrargo”, claramente inspirado no título do filme fictício, que jamais chegou a sair do papel.


A produção também triunfa naquilo que muitos poderiam apontar como ressalva negativa: o desempenho de Affleck como ator. Habitualmente considerado deletério nessa função, ele se sai muito bem na pele de um agente que sabe dosar sangue frio, perícia e flexibilidade para concluir sua missão. A canastrice de que lhe acusam passa longe aqui, e faz soar as críticas muito intensas à sua performance como meras picuinhas de quem as concebe. Pode-se dizer, inclusive, que Argo consolide uma retomada de comunhão entre Affleck e a crítica, cujos primeiros passos se ensaiavam na sua estreia como realizador. Anos atrás, até houve um flerte entre ambos, quando Affleck venceu o Oscar de melhor roteiro original junto com Matt Damon – seu amigo até hoje – por Gênio indomável (Good will hunting, 1997). De lá para cá, suas carreiras rumaram para caminhos diferentes, e Damon somou mais êxitos que o então parceiro de escrita. Felizmente, Argo mostra que Affleck está muito longe de ser ruim naquilo que faz e deve ter feito muitos críticos engolirem suas palavras de vitupério contra ele.

Com relação à palavra que dá título ao longa, cabe um esclarecimento quanto ao seu significado, que também pode ser descoberto através do filme. Sua origem remonta à mitologia grega. Trata-se do nome do navio que Jasão e seus companheiros, chamados argonautas, tomam para buscar o velo de ouro. A escolha do nome não é casual, já que os falsos produtores vendem o filme dentro do filme como uma história de ares mitológicos. Convencer o governo iraniano a respeito, contudo, é uma tarefa hercúlea – já que se está falando em mitologia grega – o que responde pelos vários instantes de tensão que passam a pontuar Argo mais ou menos após a sua primeira hora. Affleck soube instaurar uma atmosfera de receio nos personagens que pode contagiar o público, ávido por ver o êxito do plano de retirada dos funcionários do Irã a salvo. O ápice dessa tensão se dá no aeroporto em que todos estão para pegar o voo de volta para casa, e os policiais colocam em prática seus últimos procedimentos de rotina antes da partida. Até o último minuto, é quase impossível ter certeza de que tudo vai ou não dar certo, e, a essa altura, também já fomos apresentados ao drama pessoal de Mendez, que enfrenta a distância do filho, de cuja mãe se separou, e a vitória diária por estar longe do álcool, uma trama que corre em paralelo e não chega a se desenvolver tanto. O resultado final de Argo, porém, pende muito mais para o acerto, evidenciando outra vez um realizador de competência crescente.

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