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terça-feira, 8 de janeiro de 2013

O prolongamento dos instantes em Antes do amanhecer

Antes do amanhecer (Before sunrise, 1995) é um daqueles retratos sobre o amor na juventude que adere facilmente à memória cinéfila por vários motivos. Talvez o principal deles seja o alto grau de verossimilhança da história, que tem como personagens principais Jesse (Ethan Hawke) e Celine (Julie Delpy), um rapaz e uma moça como tantos outros e, ao mesmo tempo, cheios de singularidades. Os dois se conhecem em uma ocasião prosaica e fortuita: uma viagem de trem pela Europa. Ele se encanta, ela vai correspondendo aos poucos ao sentimento. Os dois sequer estavam indo para o mesmo destino, mas ele insiste em passar uma noite com ela, convencendo-a com o argumento de que, dali a alguns anos, ela possa se arrepender por não se ter dado a chance de conhecê-lo melhor e estar presa a um casamento sem emoção. Então, ambos interrompem suas respectivas viagens e transcorrem as horas seguintes na companhia um do outro.

Essa premissa modesta é a deixa para que o diretor, Richard Linklater, presenteie seus espectadores com alguns dos diálogos mais sinceros e apaixonantes da seara dos filmes românticos. As palavras proferidas por Jesse e Celine exalam verdade e contêm um forte poder de identificação. Antes do amanhecer é, acima de tudo, o flagrante de uma paixão inesperada, do calor de um sentimento que nasce quando não se está à procura dele, como quem esbarra involuntariamente em um objeto que se encontrava fora do seu campo de visão. Ademais, Linklater trata seus personagens com todo o carinho, o que está longe de significar condenscedência com seus defeitos. E é nesse realismo sentimental que o filme ganha pontos, já que não se transforma em um conto excessivamente açucarado sobre as peripécias do coração, como tantos que existem por aí. O cineasta conseguiu dosar veracidade e emoção, demonstrando que é possível ser direto sem perder a ternura.

Desde o início, o casal em potencial tem plena consciência de que se trata de um encontro com prazo de validade, que não lhes permitirá muitos avanços ou promessas de um futuro em comum. Assim como se conheceram de improviso, também terão de se despedir repentinamente nas primas horas da manhã seguinte. Enquanto ela não chega, eles vivem os instantes e experimentam o quanto podem ser facas de dois gumes. Afinal, a depender da sensação que se esteja vivendo, horas podem parecer anos ou segundos. A impressão de Jesse e Celine é a segunda, já que há sempre muito o que dizer um ao outro e, no afã de se conhecerem o máximo possível, há muitas perguntas e pequenas e grandes revelações a serem feitas. Eles têm sobretudo a palavra, e fazem uso dela para acessar os recônditos mais discretos um do outro. Trata-se de uma tarefa dificílima: verbalizar sentimentos traz sempre uma cota de insuficiência. Por outro lado, ela pode ser aplacada com gestos, olhares, toques ou mesmo um simples sorriso lateral, que invade o outro e satisfaz a necessidade de correspondência. Quem não quer reciprocidade?


Os cenários de Antes do amanhecer são um atrativo à parte. Desde a primeira cena, em que Celine olha a paisagem da janela, as imagens enchem os olhos e contribuem decisivamente para adensar a atmosfera de romance que envolve os protagonistas. Eles caminham por ruas cheias de casais apaixonados, luzes coloridas e uma noite estrelada que convida a amar, enquanto eles mesmos ensaiam seu enlace a cada passo. As horas que dividem são passadas em Viena, um detalhe curioso que demonstra o quanto Linklater fugiu da obviedade ao escolher o local de boa parte da trama. Mesmo tendo à disposição cidades como Paris e Veneza, de propalada vocação romântica, ele preferiu aquela que talvez seja a capital musical da Europa. Ali, cercados de timbres das mais variadas naturezas, eles se esforçam para não emitir palavras de longo alcance temporal, uma tentação a que são expostos pelo encantamento que compartilham pela companhia um do outro. Entretanto, o coração pulsa e impele a dizer.

A história de Jesse e Celine conquista pela simplicidade. Não há nada de mirabolante em passear pela cidade e conversar por algumas horas. No entanto, muitas verdades duradouras são conhecidas nesses momentos aparentemente banais. O quase romance entre eles é a nítida representação do desejo de se congelar um instante, de postergar a hora da despedida ao máximo por se estar ao lado de quem se quer muito bem. Quanto mais se desfruta da presença do outro, mais ela é desejada. E, mesmo que tenham apenas até o amanhecer para estarem lado a lado, eles alcançam um grau de intimidade que muitos velhos conhecidos não têm. É a comprovação de que o tempo é uma grandeza flexível: você pode conhecer alguém hoje e, em poucos meses, os dois são amigos íntimos ou amantes profundamente ligados. O contrário também é possível e sucede a muitos. Os trunfos de Antes do amanhecer são a palavra e o sentimento, por vezes complementares, por vezes excludentes. E, quando o instante se vai, resta a memória, única forma de apreendê-lo e eternizá-lo.

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