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terça-feira, 20 de março de 2012

Drive, o poder do silêncio aliado ao impacto imagético


Em sua edição de 2011, o Festival de Cannes demonstrou novamente a sua capacidade de fazer justiça, premiando filmes que realmente são dignos da serem laureados. Na categoria de melhor direção, o contemplado foi Drive (idem, 2011), sétimo trabalho de Nicolas Winding Refn, que, até então, permanecia desconhecido para a maior parte do público, o que faz do filme em questão uma estreia sua para as grandes plateias. Examinando de perto a obra, fica fácil entender o quão merecido é o prêmio que foi concedido ao realizador, um artesão da imagem e do silêncio que observa com acuidade a rotina de um protagonista cuja nomenclatura se confunde com sua ocupação principal. Interpretado por um Ryan Gosling inspiradíssimo, com gestos e expressões contidas e eficazes, esse homem alterna sua vida entre o trabalho como dublê de filmes de ação, a atuação como mecânico de automóveis e como motorista particular que dá cobertura a bandidos em momentos de fuga mediante um acordo pré-estabelecido. Uma das primeiras cenas do filme, relativamente longa, apresenta essa que é a sua principal função. Ele é paciente e diligente em sua espera pela concretização do crime de seus clientes, e depois parte com eles em uma corrida alucinada a bordo de sua máquina possante.

Essa primeira sequência dá conta de explicitar aquele que será o espírito de todo o filme: uma espécie de meditação contemporânea sobre a violência e os laços afetivos que são capazes de produzir o degelo no coração do mais aparentemente insensível dos homens. O tal motorista do título é a encarnação moderna do samurai desalentado, por assim dizer, empunhando armas menos glamourosas que uma bela espada afiada. Em suas mãos, um martelo pode ganhar uma utilidade nefasta, e simbolizar a sua sede intensa de vingança. Estamos diante de um guerreiro silencioso, cujas ações e olhares dizem muito mais que os diálogos escassos que ele trava com dois ou três interlocutores alternadamente. É difícil perscrutar o que vai em seu coração, mas alguns de seus gestos dão pistar para se concluir algo a esse respeito, especialmente quando surge em sua vida a figura de Irene (Carey Mulligan, fantástica), uma jovem mãe que mora no apartamento contíguo ao seu. Aquela linda mulher cria o filho sozinha desde que o marido foi preso e, quando ele sai da cadeia, tudo que parecia estar caminhando para uma configuração parcimoniosa sai completamente do prumo.

Esse dessarranjo é ocasionado pela oferta que o marido de Irene recebe, e na qual o protagonista se dispõe a ajudá-lo. Dessa decisão, decorre uma reação em cadeia que envolve gente muito perigosa que faz parte da máfia, colocando em cena o perigoso e beligerante Bernie (Albert Brooks) e seu comparsa Nino (Ron Pearlman). A teia criminosa que os interliga parece irreversível e, nesse enovelamento crescente, a tensão também se eleva a níveis atordoantes. Wefn não abre mão de utilizar altas doses de violência, sem se preocupar em rezar consoante a cartilha da correção política. Muitas vezes, expõe uma violência estilizada, amplificada por seus planos-sequência criativos e eficientes, e fazendo do personagem-título um homem capaz de atos de generosidade, mas também de fúria incontida, principalmente quando começa sua saga de acertos de contas, decorrente do plano desastrado que coloca em prática na tentativa de ajudar o marido de Irene. É ali que se percebe o quanto toda uma ciranda de desdobramentos está totalmente fora do controle do motorista, ainda que ele busque tomar as rédeas da situação desastrosa em que tudo se encontra. Mesmo que, para isso, precise recorrer a estratagemas nada ortodoxos, que envolvem, entre outras coisas, o tal martelo usado em lugar de uma espada ou de um revólver, em uma sequência que faz lembrar o não menos violento Old boy (idem, 2003), com cuja premissa e estética Drive demonstra dialogar em determinados momentos.



Um dos grandes acertos do filme do cineasta dinamarquês é sua eficiência em apresentar violência e sentimento como bifurcações de uma mesma estrada, cujas escolhas são feitas o tempo todo, e muitas delas podem ser irreversíveis, como prova o filme. Gosling oferece, na pele do personagem, uma composição minimalista, centrada em movimentos calculados até o limite da verossimilhança, conseguindo despertar algum tipo de identificação com a trajetória errática do motorista. Com esse trabalho, ele prova novamente o quanto é bom ator, e o quanto é digno de figurar em qualquer lista dos melhores de sua geração, especialmente pelos seus papéis mais recentes, em filmes como Namorados para sempre (Blue valentine, 2010) e Amor a toda prova (Crazy, stupid love, 2011). Exibindo versatilidade a cada novo personagem, esse canadense balzaquiano merece e deve ser reconhecido e celebrado. Mulligan, sua companheira de cena, não faz por menos. Ainda que tenha poucos momentos no filme, cada aparição de sua personagem é uma constatação do brilho e da força da intérprete, que também vem acumulando êxitos em sua filmografia de pouco mais de dez títulos. Basta olhar para Irene para sermos envolvidos e comovidos por ela, assim como o protagonista o é. Entre eles, estabelece-se um relacionamento de silêncios e olhares, que chega a remeter, por vezes, ao amor quase espiritual dos personagens principais de Amor à flor da pele (In the mood of love, 2000): sempre sentido, mas nunca verdadeiramente concretizado.

Drive também apresenta um flerte com a gramática tarantinesca, principalmente aquela evidenciada em À prova de morte (Death proof, 2007) – mas somente a visual, nesse caso, e ponto - com sua pujança visual aliada a diálogos bem pensados, com uma ou outra pitada de humor negro, que quebram, em parte a carapaça que reveste seus personagens, em sua quase totalidade masculinos. Refn comprova o quanto é estiloso e o quanto a concepção imagética bem engendrada pode favorecer a narrativa, não sendo um elemento meramente acessório, como certos efeitos visuais encobridores de conteúdo que se verificam por aí com frequência cada vez mais decepcionante. Em sua jornada de eremita em meio à multidão, o motorista também evoca um outro situado na filmografia de Scorsese, o Travis de Taxi driver (idem, 1976), guardadas as devidas proporções, entretanto. Nesse sentido, Drive demonstra sua filiação a toda uma tradição anterior, resultado em um olhar de Refn para o passado, como quem valoriza e presta tributo a boa parte daquilo que foi concebido antes dele e, de certa forma, nutriu a sua infância de celuloide. Por outro lado, o filme exibe identidade própria, sabendo fazer valer sua proposta sem soar um mero dacalque de obrar pregressas. O filme nos coloca no banco do carona do motorista e nos leva para uma viagem impactante, cujos rumos, por vezes aterradores, sintetizam um colapso civilizatório e moral que vem atravessando os anos, sem qualquer medo de pisar fundo no acelerador.

Também cabe comentar o desempenho irrepreensível dos coadjuvantes vividos por Pearlman e Brooks, que foram capazes de depurar muito bem as nuances de seus personagens e beirar a perfeição. Há tempos longe de um grande papel, Brooks tem a chance de demonstrar seu grande talento na pele de um homem intratável cujos deuses atendem pelo nome de dinheiro e arma de fogo. Pearlman, por sua vez, exibe total capacidade de ir além do personagem-título de Hellboy (idem, 2004), e dá vida a um mafioso que caminha na linha tênue entre o emproamento e a franca covardia, tendo um desfecho quase catártico em seu percurso. Como curiosidade, está o fato de que essa é a primeira vez que Refn não filma seu próprio roteiro, dirigindo a adaptação de um livro escrito por James Sallis e roteirizado por Hossein Amini, possuidor de uma precisão cirúrgica, por assim dizer. Juntos, os nomes envolvidos nessa jornada de imagens e longos interregnos silenciosos nos conduzem a uma estrada altamente sinuosa, exibindo uma mescla de força, ternura, compaixão e algumas ilusões de movimento.

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