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quinta-feira, 8 de março de 2012

As pontes de Madison e a comoção em forma de amor


A julgar pela sua aparência, é surpreendente que Clint Eastwood sejadotado de tamanha sensibilidade. Por isso, é uma adorável descoberta ver o seu nome creditado na direção de As pontes de Madison (The bridges of Madisoncounty, 1995). O veterano ator e cineasta denota uma sisudez que faz que oassociemos comumente a retratos violentos da selva urbana, ou de homens emestado de conflito bélico consigo mesmos e com os outros. No entanto, o filmeem análise aqui trafega pela estrada curvilínea dos sentimentos ao narrar ahistória de um amor circunscrito a quatro dias de contato físico e inscrito portoda a vida na memória dos amantes. Francesca Johnson (Meryl Streep) e RobertKincaid (Eastwood) se conheceram em uma ocasião fortuita e praticamentefulminante. Ele era um fotógrafo da famosa revista National Geographic em umareportagem sobre as pontes que dão título ao filme. Ela, uma dona de casa muitopacata e temporariamente sozinha por causa de uma viagem do marido e dos filhos para um exposição de animais de fazenda.

Toda a história envolvendo os dois é apresentada em forma de flashback, exumada pelas leituras das cartas e do diário de Francesca feitas pelos seus filhos quando adultos e depois de sua morte. A princípio, eles sentem que o desejo da mãe de ser cremada e ter suas cinzas jogadas de uma ponte é exótico demais para ser atendido mas, ao se aprofundarem nas reminiscências que ela deixou por escrito, vão mergulhando na dimensão da compreensão dosfatores e circunstâncias que a levaram a tomar aquela decisão. Assim como eles,o público também vai entendendo melhor a razão daquele desejo, e se tornando,pouco a pouco, cúmplice de Francesca. Tudo é contado em ordem cronológica, oque deixa bem simples acompanhar os desdobramentos do enlace amoroso entre osprotagonistas. Fica nítido que eles se envolveram sem premeditação, e que tudocomeçou quando Robert passou com sua caminhonete pela estrada de frente para aqual se encontrava a casa de Francesca. Ao pedir uma simples informação paraela, a aura de encantamento mútuo circunda o ambiente. Dali em diante, eles viverão os quatro dias mais memoráveis de suas vidas.

Eastwood aposta em uma condução cheia de sentimento, mas nunca desliza para o terreno da pieguice, construindo uma história honesta, com enredo simples e uma ênfase muito benvinda nas interpretações. Tanto ele quanto Streep alegram e comovem ocoração cinéfilo com desempenhos fantásticos, fazendo de seus personagens pessoas totalmente verossímeis e queprocuram ser sempre honestas consigo mesmas. Inicialmente, é uma forte amizadeque incide sobre os dois, mas a evolução desse sentimento para uma paixão éveloz e avassaladora. Eles simplesmente são tomados por ela, sem que possam fazer muito a respeito. E, vez por outra, a narrativa volta ao presente para mostrar as reações dos filhos de Francesca às memórias desse sentimento. Quanto mais eles conhecem esse episódio que jamais supunham ter acontecido, mais eles conhecem da própria mãe, que, até onde se pode depreender, era um tanto enigmática aos olhos de ambos. O filho resiste bravamente à aceitação desse romance, ao passo que a filha vai exercitando a sua compreensão a cada nova descoberta daqueles dias.



O roteiro do filme, assim como sua estrutura narrativa, é simples, eserve, antes de mais nada, como suporte para um texto sincero e comovente epara nortear a platéia nas entrelinhas daquele idílio com prazo de validade.Chega a ser impressionante a capacidade que o filme tem de nos transportar paraaquela atmosfera de amor e desejo que ronda Francesca e Robert, somada à angústiada indecisão que toma conta dela, especialmente. A personagem, uma bela cidadãitaliana, é a mais cindida com a possibilidade de aventura proporcionada porRobert, um cidadão cuja pátria é o mundo. Ela hesita entre um e outro passoadiante, e ele a incita, mas sem exercitar qualquer traço de canastrice. Como nãose trata de atitudes planejadas, cada fala e ação dos dois tem um certo ar deimproviso e de pouca ponderação, já que tudo é incerto nesse relacionamento eos quatro dias passam rápido demais. Os mais sensíveis ao amor podem seflagrar, pelo menos, lacrimejando diante da tela com essa história tãocativante, assim como acaba acontecendo com a filha de Francesca.

Aliás, tanto ela quanto ele passam a reavaliar seus próprios casamentos, como quem ainda tem a chance dereverter ou inverter aquilo que não vem mais funcionando. Ler a história atéentão oculta da mãe lhes serve como grande aprendizado e, para além de qualquerjulgamento sobre a conduta moral, perdura a constatação de que uma linda históriade amor foi vivida no interregno entre a suspensão e o retorno a uma vida ordinária(no sentido primeiro da palavra, que é o de qualidade do que está na ordem,comum). Cada vez menos, eles têm coragem de atirar pedras em Francesca, que nemestá mais viva para se defender. E se, para uma parcela do público, ela agiumal, resta a certeza de que há perdão para os erros e de que todos estamos sujeitosa erros e que as paixões deste mundo podem ser capazes de cegar o entendimentoe levar a retrações ou arrependimentos, pouco ou bem depois de ter aberto asportas de uma insensatez incontida

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