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quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

Álbum de família, a polifonia típica entre iguais

Álbum de família (August: Osage county, 2013) faz parte do que se convencionou chamar filme de atores. A bem da verdade, é um rótulo e, como tal, carrega suas limitações intrínsecas, e também não deixa de ser um certo tipo de redundância, já que os atores são um pressuposto básico de um filme. Entretanto, quando se fala em filme de atores, o que se tem em mente é uma produção cuja ênfase está nas interpretações de seu elenco e cujo roteiro é, antes de mais nada, um veículo para que os atores escalados possam dar seus shows na tela. Os demais aspectos, por sua vez, não são igualmente bem cuidados, e acompanhar a história passa a valer quase exclusivamente pelos intérpretes. No caso específico de Álbum de Família, há que se dedicar atenção especial a dois nomes do elenco: Meryl Streep e Julia Roberts. Pela primeira vez reunidas em cena, as atrizes são, de longe, o melhor trunfo do diretor John Wells, que estreia no Cinema depois de uma carreira como produtor executivo de séries de sucesso na televisão, como West Wing.  

As atrizes encarnam, respectivamente, Violet e Barbara, mãe e filha afastada há muitos anos uma da outra, o que resulta em constantes embates e trocas de acusações quando se reencontram. Confinadas novamente sob o mesmo teto, elas vão deixando aflorar os ressentimentos acumulados e lançam palavras cortantes uma à outra, tendo como testemunhas os demais membros da família, que assistem desconcertados a tantos duelos verbais consecutivos. Todos estão novamente juntos por conta do desaparecimento do patriarca Beverly (Sam Shepard, em rápida participação), que aconteceu sem motivação aparente. Uma vez tendo o clã novamente ao alcance da sua voz, Violet não é capaz de poupar ninguém e destila toda a sua amargura, potencializada pelo estado de saúde debilitado – ela enfrenta um câncer de boca, um detalhe funcional do roteiro de Tracy Letts, adaptado de peça teatral também de sua autoria. Além de Barbara, estão presentes ali suas outras duas filhas, dois genros, a irmã, o cunhado e a neta, e não faltam situações do tipo barril-de-pólvora-prestes-a-explodir ao longo dos 121 minutos de narrativa.

Para além dos vários pontos a ponderar que essa família tem internamente, todos ainda têm que lidar com um fato externo que desgasta ainda mais o relacionamento familiar: o calor intenso da região onde se encontram e, vez por outra, surge como reclamação dos personagens. Esse calor, aliás, chega a ser um personagem invisível da trama, contribuindo para aquecer e inflamar ainda mais as discussões entre os parentes. Muitas vezes, elas se superpõem, formando uma desagradável polifonia que se assemelha a um aparelho de rádio fora à procura de sintonia em alguma estação. Nada muito diferente de uma família da vida real, com suas constantes lavagens de roupa suja que, em certos casos, têm início sem qualquer aviso prévio. Um detalhe interessante foi a data escolhida pela distribuidora para o lançamento do filme no Brasil: apenas três dias após a comemoração do Natal, uma ocasião em que, tradicionalmente, as desavenças familiares são deixadas de lado – ou, pelo menos, há um esforço maior para esquecê-las ou abrandá-las. É, no mínimo, curioso assistir a esse festival de conflitos pouco tempo após uma ceia farta entre os consaguíneos.


Apoiados nessa verborragia intermitente, os atores contam muito mais uns com os outros do que com a direção para oferecer bons desempenhos. A falta de traquejo de Wells para a função acarreta problemas em várias sequências de Álbum de família, como a que ilustra um dos pôsteres do filme e mostra Barbara partindo para o confronto físico com Violet. Congelada no cartaz, ela parece melhor do que é na verdade, e a deficiência em sua condução se deve à inabilidade de Wells em administrar vários atores em cena ao mesmo tempo. Todo o elenco, à exceção de Shepard, está reunido naquele momento, e o que deveria ser inteiramente centralizado nas interpretações de Streep e Roberts vira uma passagem confusa filmada de modo quase amador, como alguém que não capta a tempo um daqueles barracos memoráveis em família e, anos mais tarde, será acusado de não ter sido um bom cinegrafista quando a parentela se reencontrar para relembrar a ocasião originalmente fatídica que terá se transformado em um episódio risível.

Com os holofotes voltados para Streep e Roberts quase o tempo inteiro, sobra pouco espaço para os demais atores, que acabam subaproveitados. É o caso especialmente de Ewan McGregor, que, na pele de Bill, que está prestes a se tornar no papel ex-marido de Barbara depois de trocá-la por uma estudante mais jovem, só consegue mostrar algum serviço em uma (para variar) cena de bate-boca, na qual a troca de acusações evidencia a falência daquele casamento, adiada em favor da única filha do casal, uma típica rebelde adolescente encarnada por Abigail Breslin, linda em versão ruiva. A garota, aliás, flerta com Steve (Dermot Mulroney, usualmente canastrão), namorado da tia Karen (Juliette Lewis, restrita a um tipo), num clássico exercício de chamada de atenção que exemplifica as obviedades da sua faixa etária. No mais, Álbum de família apresenta um andamento condizente com o de uma novela problemática, trazendo clichês mal utilizados em seus desdobramentos, entre eles a descoberta de que dois primos, na verdade, são meio-irmãos. Quantas vezes já não vimos uma revelação do tipo? De motivação para se assistir ao filme, permanece a oportunidade de testemunhar duas atrizes afiadíssimas em cena, que precisam se encontrar mais vezes, pelas mãos de cineastas mais competentes e com experiência acumulada na função.

7/10

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