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terça-feira, 14 de janeiro de 2014

As peripécias de dois adoráveis trapaceiros em Lua de papel

O surgimento da narrativa quase se confunde com o nascimento de um protagonista heroico, com virtudes que transbordam e o colocam perto de um ideal de perfeição, seja no âmbito psicológico, seja no âmbito físico. Dessa perspectiva, um sem-número de de tramas e enredos ganharam forma e, ainda hoje, servem de modelo nas mais variadas manifestações da arte. Entretanto, há outras possibilidades a considerar, e foi o que fez Peter Bogdanovitch ao conceber Lua de papel (Paper moon, 1973) e colocar como personagens principais dois trambiqueiros de marca maior. Bem longe do tal padrão virtuoso - que tem a sua legitimidade, é bom que se diga - Moses Pray (Ryan O'Neal) e Addie Loggins (Tatum O'Neal) são anti-heróis que aplicam seus golpes para sobreviver pela estrada afora.  

Os dois se encontram e se estranham quando ele precisa levá-la ao encontro de sua tia que mora em um estado muito distante. Com apenas nove anos, a garota se tornou órfã e a única pessoa com quem pode contar para cruzar vários quilômetros é Moses, a quem insiste em chamar de pai unicamente porque ele teve alguns encontros com sua falecida mãe. De fato, existe uma enorme semelhança física entre eles, o que pode fazer o espectador pender para o lado de Addie, dona de uma certeza assustadora e capaz de construir teias de ironia muito avançadas para a sua pouca idade. Irritado com aquela criança tão esperta, Moses vai levá-la a contragosto, mas uma sutil afeição vai surgindo entre eles durante o longo percurso. 

A caminho da nova casa da menina, ele a faz parar algumas vezes na porta de casas e vai cobrar por exemplares da Bíblia que, supostamente, algum falecido da casa teria comprado. A situação é sempre a mesma: ao perguntar a quem atende a porta sobre um tal cliente, finge surpresa quando ouve sobre a sua morte e faz menção de ir embora, não sem antes mencionar que havia uma encomenda no nome daquela pessoa. O plano se revela infalível, uma vez que ninguém tem coragem de se recusar a fica com a Bíblia e Moses garante uma boa quantia em dinheiro, ao menos de acordo com os padrões financeiros da época, irrisórios em nossos dias. Matreira, Addie logo saca o truque do seu tutor provisório e intervém em uma das cenas interpretando sua filha. De início, Moses adota uma postura temerária diante dessa atitude, mas logo percebe que tem ao seu lado uma parceira muito eficiente.


Some-se a isso o detalhe de que ele está devendo uma quantia em dinheiro a ela. Portanto, sua disposição em ajudá-lo a faturar um pouco mais vem de um interesse em recuperar o que é seu. Daí para a frente, a dupla faz das suas e, esbanjando carisma, consegue facilmente a adesão do público, que pode se pegar torcendo para que as falcatruas deem certo. O mérito, sem dúvida, vem sobretudo desses atores tão afinados e capazes de atos e palavras impensáveis para os tempos de forte correção política (leia-se, hipocrisia) em que vivemos atualmente. Afinal, que filme recente colocaria uma garota de apenas 9 anos fumando cigarros sem o menor pudor? Por mais que eles fossem, na verdade, feitos com folhas de alface... Tatum, aliás, é filha de Ryan na vida real, e ganhou um Oscar de melhor atriz coadjuvante por sua Addie, uma vitória em uma categoria curiosa, já que a personagem tem o mesmo peso de Moses no filme.

Ryan, por sua vez, já havia sido dirigido por Bogdanovitch no ano anterior, também fazendo comédia com Essa pequena é uma parada (What's up, Doc, 1972), em que se metia em confusões ao lado de Barbra Streissand. Infelizmente, pai e filha se encontram hoje afastados do Cinema, não vivendo mais o sucesso experimentado há décadas. Os últimos papéis dele foram de coadjuvantes em longas de menor expressão, e sua saúde não vem colaborando para o trabalho como ator. Restam, portanto, as lembranças dos ótimos personagens encarnados por ele, como o adorável trapaceiro Moses, que se encanta com a malandragem de Addie e, com ela, vai sobrevivendo de golpe em golpe e tornando o espectador um refém quase voluntário das peripécias que também envolvem uma aspirante a artista e um chefe do contrabando de bebidas. Lua de papel é daqueles filmes que cairiam bem em uma Sessão da tarde mais vigorosa, sem os títulos anêmicos que vem predominando nessa faixa de filmes da Rede Globo.

9/10

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