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terça-feira, 19 de novembro de 2013

A força de uma câmera trêmula comprovada em Capitão Phillips

A tensão serve de pedra angular para Capitão Phillips (Captain Phillips, 2013), mais um exercício vigoroso de estilo com a assinatura de Paul Greengrass. Com pouco mais de 10 minutos de trama, o filme mostra a que veio, colocando Tom Hanks na pele de Richard Phillips, um o capitão do título, em uma situação aterradora: comandando um imenso cargueiro repleto de mantimentos que devem chegar à costa norte do continente africano, ele precisa enfrentar a ameaça de piratas somalis que, dentro de duas barcarolas, investem contra o gigantesco flutuante. O espectador já pode começar a se remexer na poltrona a essa altura: primeiro, torcendo para que os tais piratas não sejam bem-sucedidos na tentativa de invasão ao navio; depois, desejando que Phillips e seus homens consigam expulsá-los dali e concluir a viagem sem mais sobressaltos. 

Acontece que, se não houver um imbróglio verdadeiramente difícil de ser resolvido, não há desenvolvimento de narrativa, e o enfrentamento entre aqueles experientes homens do mar e os neófitos dispostos a tudo para romper com o ciclo de miséria em que vivem se mostra a tônica de todo o filme. Greengrass não concede frestas de alívio ao público, deixando a tensão tomar conta da tela e revestindo o filme de uma atmosfera verdadeiramente angustiante, que é amplificada pela câmera na mão o tempo todo, com todos os tremores que essa escolha traz. À semelhança de quem está em alto-mar dentro de uma embarcação, Capitão Phillips pode se revelar um filme entontecedor, que percorre espaços abertos e fechados com a perícia de um cineasta afeito ao realismo em cada sequência. Desde a ida do capitão para mais uma longa viagem de trabalho até a sua chegada ao local, passando pelo planejamento dos piratas que vão ao ataque, o filme é quase uma defesa do Cinema-verdade, por assim dizer.

Uma vez dentro do navio, a gangue mostra pouca disposição para negociar valores, não se contentando com os 30 mil dólares que Phillips diz haver no cofre. Para ganhar tempo, ele fez boa parte dos seus homens se esconderem em locais de difícil acesso, enquanto procura o diálogo valendo-se do próprio discurso de seus oponentes. Nesse sentido, Capitão Phillips também é um grande filme, alternando um texto bem escrito - incumbência de Billy Ray, em sua primeira colaboração com o diretor - e um punhado de momentos inquietos, derivados da caça ao tesouro empreendida pelos piratas e a luta permanente da tripulação para não entregar o ouro. E, antes que se possa pensar que se trate de um mero confronto entre mocinhos e bandidos, arquétipo semeado aos montes e colhidos anualmente nas vindimas hollywoodianas. Assim como Peter Morgan em Rush - No limite da emoção (Rush, 2013), Ray não resvala na dicotomia estrita em seus personagens e abre espaço para entender ambos os lados, que podem se revezar em apoio ou contrariedade nas mais de 2 horas de trama.


Mas a construção de lados que se interpenetram pelas nuances que apresentam não é o único aspecto positivo de Capitão Phillips. O drama, que flerta com o suspense diretamente, também é o retorno de Tom Hanks aos bons papéis. Fazia tempo que esse californiano devia um personagem de alto calibre, devido às escolhas questionáveis dos últimos anos. Exceto por algumas participações em títulos como Tão forte e tão perto (Extremely loud and incredibly close, 2011), ele andava quase recluso e atendeu ao chamado de Greengrass na hora certa. Hanks investe em uma atuação minimalista, fazendo esquecer que estamos diante de um ator que comumente vem antes da pessoa que está encarnando. Phillips é gente como a gente: sente medo, tenta negociar sem usar a força bruta, e sabe que transparecer o máximo de calma é uma das suas armas mais eficientes. Quando acaba confinado em um baleeiro, exíguo por natureza, luta contra a própria agonia pelo maior tempo possível, e resiste bem mais do que muita gente poderia resistir, como alguém que traz sobre uma carcaça de anos de jornadas pelos mares literal e metaforicamente revoltos.

O forte realismo das sequências é sublinhado quando se sabe que o filme tem por base um o livro escrito pelo verdadeiro Phillips, que não fez desse fatídico episódio a sua última ida ao mar. E, por mais que essa informação possa vir a ser conhecida previamente ao filme, ele não perde um décimo sequer da sua força e da sua carga de tensão, que faz ignorar até mesmo o fato de se estar em um fileira tão grudada à tela, como aconteceu a este que vos escreve. Todo o foco se concentra naquela ilustração perfeita da expressão "sinuca de bico", usada para descrever situações em que, a princípio, só há duas saídas e ambas trazem a reboque consequências péssimas. Greengrass também lança mão de um comentário político, questionando as possibilidades alternativas que os piratas teriam para não precisar invadir o navio, mesmo sentindo temor do que lhes espera na hipótese de serem capturados pelas autoridades. A visão do diretor a respeito do tópico é sintetizada em um dos primeiros diálogos entre Phillips e o primeiro chefe do bando, que replica ao capitão quando este lhe diz que há outros meios de ganhar a vida. "Talvez na América", sentencia o rapaz do olhar em que o receio e a obstinação se misturam e se confundem. 

9/10

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